25.2.18
LENDO A LUZ DO «CURSO DE SILÊNCIO»
Tivemos ontem a primeira sessão do ciclo «A Luz de Ler», que dedicámos ao livro Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, e também à memória de Teresa Belo, que há uma semana nos deixou. E dialogámos com o espectro amplo e diverso de amigos e leitores de Llansol que vieram à «Casa de Julho e Agosto» sobre os modos de ler este grande livro do luto, amplificando e tentando iluminar alguns dos seus «fragmentos sem elo lógico», ouvidos na voz de quem os escreveu.
Com algumas páginas manuscritas e um friso de fotografias do «Ambo» formado por Gabriela-Augusto (ou, figuralmente, Gabi-Nómada), fomos percorrendo os temas e motivos que os fragmentos ouvidos nos sugeriam. E passámos pelo trabalho de luto a contrapêlo que este livro oferece, pelas distinções, já freudianas, entre «luto e melancolia», e que aqui têm também o seu lugar; seguimos o caminho da luz a partir das trevas, que nos permitiu ir percebendo como aqui não há uma narrativa do luto, mas antes uma «tecelagem» de intensidades e silêncios alternantes, que leva à progressiva transmutação da dor e da perda no silêncio jubiloso da escrita, pela interrogação (do mistério da morte que não há) e da escuta do outro (desde o «Quero saber mais do lugar para onde irei» até ao derradeiro «Eu estou bem», sob o grande metrosideros do Jardim da Parada, em Campo de Ourique).
Os fragmentos lidos sugeriram-nos um percurso pelos modos da «legência» com o corpo, alertaram-nos para a função lutuosa-jubilosa dos objectos no momento em que ganham existência figural no texto, ou para os processos de «decepação da memória», que é uma forma de fazer «os despejos do presente», um processo de libertação que já conhecemos de outro livro, Parasceve. Puzzles e ironias, que explicitamente se continua em Amigo e Amiga.
A conversa final com alguns dos presentes permitiu-nos ainda chegar mais próximo do sentido último deste livro e dos modos possíveis de o ler, que a própria Maria Gabriela, no início do discurso de agradecimento do Grande Prémio de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído a Amigo e Amiga, resumia deste modo lapidar e surpreendente: «Este livro, Amigo e Amiga, exprime a escolha entre o abandono à dor destrutiva e a opção pela dor criativa. Abriu-me o caminho da música, e nele prossegui com Os Cantores de Leitura.»
Publicado às
16:35
21.2.18
UM NOVO CICLO:
«LLANSOL - A LUZ DE LER»
Para Llansol, ler era indissociável do acto de escrever (de «escreler»), criando-se desde logo um «elo de escrita e de leitura». Ler é «nunca chegar ao fim de um livro», mas podemos sempre tentar iluminá-lo percorrendo os seus meandros, decifrando os seus enigmas, acompanhando a surpresa das suas «cenas fulgor». As mais das vezes bastam alguns fragmentos, a parte lança de imediato luz sobre o todo, que é o livro, mas também o corpo e a energia libidinal que o escreveram, e que nele estão presentes em qualquer página.
É o que queremos fazer com o novo ciclo que inauguramos no próximo sábado, 24 de Fevereiro, às 16 horas, e em que, a partir de algumas páginas de um livro, procuraremos iluminá-lo por dentro, com a participação de quem vier. Assim chegaremos todos talvez um pouco mais perto do que há de mais revelador nesta escrita. Desta vez, com a ajuda da própria voz de Llansol, que ouviremos em gravações de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio d 2004, o grande livro do luto que, paradoxalmente ou não, é uma caminhada no sentido de uma luz cada vez mais clara, apaziguadora e jubilosa.
E assim o espaço da nova «Casa de Julho e Agosto» encontrará a sua vocação primeira, que é a de dar a ler – e ouvir – a escrita de Llansol e o seu mundo inconfundível.
Publicado às
12:42
18.2.18
«… NADA DISTO CABE NUMA SÓ PALAVRA…»
Teresa Belo na «Letra E» do Espaço Llansol, em Sintra
Sentimos já o peso da recordação daquela que ontem nos deixou, a Teresa Belo, grande amiga do Espaço Llansol e da escrita da Maria Gabriela.
«Somos hóspedes de um só dia», lemos em Salomão 5, 15, e O Ruy (Belo), que hoje e aqui iremos cruzando com Llansol para nos aproximarmos da Teresa, repete-o no título de um dos seus poemas: «Somos hóspedes e peregrinos sobre a Terra». Muitos são os momentos da sua poesia onde um sereno meditar o leva até ao limite do abismo do tempo, por vezes num diálogo com os que, afinal como ele próprio, partiram cedo de mais – e que agora se poderia repetir com a sua Teresa:
Que foi..., amiga? O que é feito de ti? Que se passa contigo?
[…] Acaso caberiam nestes dias
essas mágicas mãos feitas de estrelas?»
Onde, sem ser no Verão, sem ser em nós,
terá enfim ficado o teu sorriso?
Certamente numa qualquer «margem da alegria», diríamos. Agora que te despediste da «terra da alegria», onde estiveres, seja onde for, é o jardim de harmoniosos pensamentos. Foste para onde foste
Cansaste-te e foste-te embora
não passarão por ti mais primaveras
fosses para onde fosses foste decerto
para o país de onde afinal eras…
Sabes, Teresa, a nossa Gabriela, sempre tão presa ao júbilo e ao fulgor do mundo, sabia do lugar onde agora ambas vos cruzais. A morte, dizia ela, é apenas a parte escondida da vida. E quando chega, é, para os que ficam, o velho contratempo. Para quem parte, porém, como vós, representa apenas um outro estádio do tempo, um contra-tempo, que apaga o daqui.
E nós, que nada sabemos, ficamos a saber com a Gabriela que é um só o livro, o da vida e da morte. E suspeitamos vagamente de que na página final se pode esconder outro rosto redondo onde o Sol se inscreve______
Também o teu Ruy sabia que haverá um Sol aí, e que aqui ele não se apagou, e vive da tua memória:
Haverá sol aí? Eis-te sozinha
em ti. Perdeste quanto eras no lá fora
Nem sei como dizer-te como tudo continua…
_______
E «nada disto cabe numa só palavra…»
Publicado às
19:38
1.2.18
PIANO, PIANO…
LLANSOL EM ITÁLIA
A escrita de Llansol vai entrando pouco a pouco também em Itália. Depois do primeiro livro, O Jogo da Liberdade da Alma + O Espaço Edénico (de 2010), sairá em breve uma antologia de textos preparada por nós e prefaciada pelo conhecido poeta italiano Flavio Ermini.
Entretanto, Rosa Pierno, autora do blog «Trasversale» ( https://rosapierno.blogspot.it), publica nessa página um texto sobre aquele primeiro livro de Llansol em tradução italiana, de que damos conhecimento a seguir:
mercoledì 31 gennaio 2018
Maria
Gabriela Llansol “Il gioco della libertà dell’anima. Lo spazio edenico” Pagine
d’Arte, 2010
Maria Gabriela Llansol em 2006
Un corto circuito tra musica, lettura, sesso,
scrittura. A volte si accende la luce, che illumina un singolo soggetto sulla
scena: “- io - che osservo il possente e mobile uomo nudo della matematica musicale
di quelle equazioni e abissi”. Immanente e trascendente, messi a contatto in
modo sulfureo, emanano ossidi, odori, cose spurie, non collocabili in nessun
tipo di ordine. Oggetti inaccordabili, d’altra parte, quale tipo di armonia
potrebbero produrre? Eppure si scambiano caratteristiche, qualità, posizioni:
“la scrittura che la musica celebra non ha macchia di rumore”. Non una
metamorfosi, né operazione alchemica. Certamente collage, accostamenti
forzati che non perdono lo stridio, anche dopo pagine e pagine, trascinando con
irruenza la sintassi.
La scrittura di Maria Gabriela Llansol non si svolge
sul solo piano linguistico, anche se esso è messo fortemente in tensione,
risuonando in tutte le sue gamme più dissonanti, poiché la tensione nasce
primariamente nella realtà percepita, fra gli oggetti e gli elementi. Un sesso
diventa una tazza, non con un investimento simbolico, ma con una sostituzione
figurale, sinonimica o funzionale. Viene in mente che quello che si può fare
con un sesso lo si possa fare proprio perché somiglia a una tazza e viceversa.
Non una cosa che stia per l’altra rendendo tutto equivalente, ma un mondo
ridisegnato nelle sue funzioni, rifondato.
Tuttavia, non c’è nessuna comunicazione tra le arti.
Pur se la musica trapassa nel testo, esse comunque non possono condividere
alcunché, anzi la loro presunta comunicabilità “non sarebbe che una melanconica
constatazione della notte”. Nessuna oscurità, nessun enigma alligna nel testo
concretissimo. È appunto una constatazione. Allo stesso tempo, “il corpo è
materialmente frasi / che materiale e letterale non hanno differenze” e per
comprendere questo passaggio è necessario far saltare la logica, poiché basta
l’anima a rimettere in ordine le cose e senz’altro allora l’ordine sarà diverso
anche da se stesso.
In codesta maniera, “l’invisibile quando si fa
sensuale, apre al linguaggio sentieri che il racconto ha ostruito col coperchio
del pianoforte, i bassi muri del reale, le tenui pareti della vita”.
Comprendiamo, condotti come per mano dalla scrittrice portoghese, che la
realtà, come il piano astratto, non è più quello normalmente esperito. È
necessario un esercizio alla visione, una metodica trasposizione di piani, uno
scambio costante, un’osmosi iniziata e continuamente interrotta. Un metodo che
la scrittura mostra in maniera lampante. In questo modo “il testo apprende la
materialità dello spazio attraverso cui scorre”.
Anche le cose hanno gli occhi, hanno il nostro sguardo
come orizzonte. Lo sguardo è una modalità di accordo con le cose, ed è sempre
attraverso lo sguardo che le colline divengono un vassoio. Naturalmente, se le
colline sono vassoio, anche il testo è uguale al testo. Forse, la scrittura
diviene qualcosa di cui potersi appropriare, di fisico, dacché era mentale e
viceversa. “Un florilegio di attributi, direbbe Spinoza”, a cui ogni cosa può
attingere. Accade che qualcosa dematerializza la sostanza e materializza lo
spirito. È il testo che può ricostruire giorni perduti, “ossa disseccate”.
Resurrezione dei corpi è scrivere. Non che la scrittura attui il gioco delle
coincidenze, delle rimembranze, dell’inizio e della fine, ma sono lo scrivente
e il leggente a giocare “con la cosa del testo”. E, con il testo della
Llansol, noi lettori veniamo meravigliosamente giocati, o meglio rimessi in
gioco.
Publicado às
12:20
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