5.7.16

EM TORNO DE LLANSOL: O QUE AÍ VEM…

O Espaço Llansol continua com a sua actividade em várias frentes – eventos públicos, edições, espólio –, e damos hoje conta dos próximos projectos, para 2016-2017, antes da pausa de Verão.

1. ENCONTROS
Para além das actividades regulares, mensais, da «Letra E», que continuarão, temos duas Jornadas em preparação:


2. DO ESPÓLIO:



3. EDIÇÕES:
Em Portugal:


- No estrangeiro:


22.5.16

«EM CONTRAPONTO»
Llansol e a música

A tarde de sábado da «Letra E» do Espaço Llansol desenrolou-se desta vez, não num «quarto musical e sem janelas» dando sobre o Cabo Espichel, como lemos em Causa Amante, mas numa ampla sala que se encheu de música nessa tarde, generosamente iluminada por grandes janelas – a do Salão Nobre do ISEG, em Lisboa.



A Teresa Projecto encarregou-se de toda a preparação desta sessão com características diferentes das habituais, especialmente pela participação, ao vivo, do Coro Feminino de Lisboa. 

Teresa Projecto

E fizemos como sempre um caderno cheio de textos inéditos de M. G. Llansol sobre a sua relação com a música e os músicos, onde se podem ler/ver fragmentos como os seguintes:









A introdução ao caderno, por João Barrento, sintetiza a ligação entre o texto de Llansol e a composição musical, e destaca alguns dos seus livros em que o tema é central:

Em contraponto?

       O título musical deste caderno diz muito sobre os modos de escrita e de composição dos livros, de toda a Obra, de Maria Gabriela Llansol. De facto, quer os registos polifónicos da sua linguagem, quer sobretudo a alternância melódica das vozes das figuras que a autora arranca a tempos e lugares diversos para as trazer à partitura do texto, são iminentemente musicais. Música e músicos – e são muitos os nomes que desde início pontuam as páginas dos seus livros, do Gregoriano a Satie ou Messiaen, passando por compositores tão importantes para o seu projecto de escrita como Purcell e sobretudo Bach –, a música e os músicos não se limitam aqui a ser uma «companhia» para a escrita: modulam e modelam o Texto, que responde de formas diversas consoante os sons que o envolvem na hora de nascer. E em ambos os planos, o da música e o do texto, Llansol descobre paisagens da mais pura liberdade: «o reino que nos coube não tem cadeias, só ritmos e melodias» (Um Falcão no Punho, 2ª ed., p. 80).
       Aquilo que nos é dado ler em muitos livros e também nos cadernos inéditos de Llansol evidencia claramente o lugar seminal da música nesta escrita e neste pensamento (a música de Mozart «colora o pensamento», e há «um tempo interior em que o pensamento 'faz música'»). Nos cadernos (que este caderno em parte reproduz) damos com frases lapidares como: «A música implantou-se em mim definitivamente...» (Setembro 1986); «Tenho uma grande sensibilidade à música, de tal modo que ela é o avesso do tecido mais precioso que possuo» (6 de Outubro 1986); ou, de forma ainda mais decisiva: «a música é o ovo de meus livros» (8 de Outubro 1988).
       E no entanto (tal como acontece na sua relação com o desenho), Llansol reitera por mais de uma vez a sua impreparação e incapacidade musicais, o seu fraco ouvido, a sua ignorância técnica – e isso leva-a a anotar com frequência nos cadernos a informação, técnica e biográfica, buscada e recolhida em livros e enciclopédias. Mas a música, sendo algo de exterior à escrita, não deixa por isso de ser uma espécie de movimento ondulatório essencial ao nascimento dos ritmos dessa mesma escrita (tal como o desenho é, confessadamente, prolongamento e complemento da caligrafia). O texto tem as suas músicas próprias, deixa ouvir vozes muito diversas, é, em última análise, uma partitura à espera de ser cantada.
       Há mesmo livros inteiros dominados pelo espírito e pela substância da música. O Jogo da Liberdade da Alma abre com a cena poderossíssima do «homem nu ao piano», e esta figura acabará por estruturar subterraneamente todo o livro. Neste mesmo livro torna-se a certa altura evidente a importância da polissemia da palavra «toque» – e neste caderno vamos encontrar uma página inédita em que a «escrevente» a si mesma se vê como «tocante», executante de uma música verbal que Llansol toca de forma muito particular e inconfundível (vd. texto de 22 de Setembro de 2001).
       Para além deste livro, haverá dois outros grandes «momentos musicais» na Obra de Maria Gabriela Llansol: Lisboaleipzig e Os Cantores de Leitura. O primeiro traz para o centro de uma narrativa em contraponto a figura de Johann Sebastian Bach, que, no contexto da polifonia de vozes que habitam a sua casa de Leipzig, dialoga com o pensamento (Baruch Spinoza) e com a poesia (Pessoa-Aossê), e consegue operar em ambos uma metamorfose significativa. No segundo alcança-se, com o coro de cantores da leitura que enche as muitas Casas do livro, uma quase música das esferas, naquele que é o mais etéreo livro de Llansol, e o seu canto do cisne. É aqui que a nostalgia da música se revela verdadeiramente como horizonte último da escrita de M. G. Llansol. Como ela própria confessa numa passagem deste caderno: «A música é mais secreta do que a linguagem, e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir.» (22 de Outubro 1999).


A sessão abriu com uma apresentação do tema da música na Obra da nossa autora por Cristiana Vasconcelos Rodrigues,  de que reproduzimos aqui alguns momentos essenciais:

Eu começaria por vos falar de uma tripla presença da música no texto llansoliano; ou melhor, consigo descrever três modos de estar da Música nesta escrita, sendo que cada um deles contamina, como é evidente, os outros, não sendo possível garantir entre eles uma fronteira estanque. E, embora vá falar de cada um deles em particular, remetendo para os livros de Llansol, vou querer, também, revisitar alguns fragmentos coligidos no Caderno de hoje, pois estes bastariam, por si só, para ilustrar esta tripla presença.
1) Vamos então começar por falar de um modo de estar da Música no texto llansoliano, que perpassa toda a escrita da autora e que nos ajuda, até certo ponto, a apurar o nosso modo de ver o seu texto. Falo do texto musical de Llansol, especificamente. Uma das aproximações mais recorrentes e desenvolvidas à escrita llansoliana tem sido a sua matriz formal, entre uma grafia (e ortografia) singular, com a mancha gráfica do texto, as suas suspensões, a sua forma compulsivamente fragmentária, o seu ritmo sincopado, a sua oscilação entre lugares, motivos, a recorrência obsessiva de palavras, a sonoridade de certas expressões, a construção das cenas por camadas, a não hierarquização do narrado, o privilegiar da parataxe, a polifonia da voz e o sujeito de enunciação múltiplo, enfim, um conjunto de traços formais que, não podendo de forma alguma ser ponderados isolada e independentemente da substância trabalhada no texto, levam-nos a falar de um processo de abstracção da língua que se aproxima da língua em construção que geralmente define a música. Não querendo, com isso, enveredar pela discussão interessante sobre se a música significa algo ou se se trata de um tecido sonoro sem qualquer sentido (discussão que é sempre profícua), podemos, contudo, servir-nos do seu código de notação e da sua potência sonora não-verbal para afirmarmos, do texto llansoliano, que tende para uma certa abstracção do próprio código e do discurso por ele articulado.
Não sendo esta abstracção um fim em si mesmo, ela é, no entanto, sentida, na evidência do texto e à superfície mais epidérmica de quem o lê. De facto, o texto llansoliano começa por nos retirar o chão debaixo dos pés, se considerarmos as competências de leitura que nos são dadas desde a primeira escolaridade. E a necessária reaprendizagem da leitura em que somos envolvidos prevê, também, a percepção de estarmos perante uma rasura formal e conceptual, onde as coisas ganham novo sentido, pelas palavras que as dizem e pela sua disposição num discurso singular. Também poderíamos apontar para a confrontação, creio que útil, de todos estes traços do discurso llansoliano com os traços da música erudita contemporânea, em alguns dos seus nomes — estou a lembrar-me de Luciano Berio, de György Ligeti, de György Kurtág, de John Cage, mas há muitos outros, e todos devem a Erik Satie alguns dos seus traços. Falo de Satie, porque é um dos compositores mencionados no espólio de Llansol, e cuja música, no que a singulariza, não está tão longe assim da sensibilidade do discurso llansoliano. Também a reverberação do sentido das palavras e a ‘sonoridade’ do texto, de que falei atrás pertencem ao texto musical de Llansol
[
2) Há uma segunda presença da música no texto llansoliano, que remete para a música como tema/assunto. Esta presença, também muito bem ilustrada pelos fragmentos do espólio presentes neste Caderno de hoje, diz respeito às considerações sobre a música e à recepção de alguns compositores no seu quotidiano e no seu labor da escrita, diz respeito também à relação difícil de Llansol com a matéria própria da língua musical, que ela não domina, e diz também respeito à sua própria maturação como ouvinte, fazendo encontrar por vezes o ouvir e o ler de forma muito pertinente.

Eu diria que esta presença da música no texto llansoliano não será a mais profícua de sentido, ou a que nos ajude a entender melhor a relação de Llansol com a Música, muito embora num dos seus livros, O Senhor de Herbais, se encontrem reflexões muito pertinentes e de grande sensibilidade à música, no contexto em que aí se pensa a “reprodução estética do mundo e suas tentações”, nas palavras do seu subtítulo. 
Mas seria injusto, no mínimo, não falar da presença da figura de Bach num dos livros que considero axiais na produção llansoliana, o projecto Lisboaleipzig, onde assistimos a um confronto de Razões – a razão barroca e crente de Bach e a razão moderna e descrente, desencantada, de Aossê, ou Pessoa – e depois também a confrontação do chamado “dom poético”, de que Bach e Aossê são os representantes maiores neste livro, com a “liberdade de consciência” de que Baruch Spinoza será o arauto. Mas há um momento interessante de confrontação estética no encontro de Bach com Aossê, sobre o qual não me vou demorar aqui, mas que constitui um momento de Lisboaleipzig (publicado em primeira edição em 1994) que ajuda a perceber também a recepção llansoliana da música de Bach, e o que esta representa (vd. Lisboaleipzig, vd. ed. em 1 vol., 2014, pp.117-182).  
[]
3) Chegamos à terceira presença da Música no texto de Llansol, que é, a meu ver, a mais interessante e inesgotável de todas, sendo que, em muitos dos seus fios, se liga estreitamente às considerações já feitas anteriormente sobre o texto musical de Maria Gabriela Llansol. Falo agora da música como o lugar de um desejo. A expressão é cifrada e não consegue abraçar completamente a complexidade da presença da Música enquanto figura e enquanto imagem no texto llansoliano, e levei algum tempo a chegar a ela, embora esta se aproxime, afinal, de uma frase que considero lapidar, que conhecia primeiramente de Amigo e Amiga, mas que vem dos cadernos e data de 1999, sendo também incluída num dos fragmentos incluídos no Caderno de hoje. O João Barrento, com toda a pertinência, também aponta para esta frase no final do seu texto introdutório, e não é por acaso. Começo por ler a tal frase de 1999: «A música é mais secreta do que a linguagem, e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir».
Esta terceira presença da Música em Llansol remete para vários planos que conhecemos da escrita llansoliana, mas hoje falo somente de dois que me são particularmente caros e me ajudam nesta apresentação: o primeiro remete para a ponderação da escrita sobre si mesma e sobre a sua habilidade, ou capacidade de metamorfose do real (em última análise, de metamorfose e superação da própria morte); o segundo remete para a recepção de Espinosa, filósofo por demais vital a uma compreensão aprofundada do texto de Llansol.
[]
Bastaria lermos o início de Os Cantores de Leitura, logo a Partícula 1 e seu duplo, para percebermos que a Música será uma presença que é da natureza do próprio escrever llansoliano, na justa medida em que este escrever dá testemunho do “cântico de leitura” intensiva de Espinosa. Processo sempre arriscado, que faz da música um instrumento de combate ao medo e ao perigo.  []




Seguiu-se a leitura de textos de Llansol por Maria Etelvina Santos, Helena Alves e João Barrento, intercalada pela audição de excertos musicais das peças referidas nos textos lidos.

Maria Etelvina Santos

Helena Alves


E a tarde foi declinando ao som das vozes do Coro Feminino de Lisboa, com as seguintes peças, de que deixamos aqui dois momentos (a desfocagem é efeito intencional!):



video



19.5.16

LLANSOL E ILDA DAVID' NA «FESTA NO CHIADO»

No âmbito da semana «Festa no Chiado» e do programa «5 Livros / 5 Autores», do Centro Nacional de Cultura, falou-se ontem, no Círculo Eça de Queiroz, do Livro de Horas V (O Azul Imperfeito), edição Assírio & Alvim, e do livro catálogo que reune trinta anos de desenho da pintora Ilda David', com o título Do Negro a Luz, uma edição Documenta/Fundação Carmona e Costa, da responsabilidade de Nuno Faria e Manuel Rosa.


Numa conversa moderada por Ana Marques Gastão, Maria Etelvina Santos e Ilda David' deram conta dos respectivos livros, destacando-se ao longo do diálogo configurações de práticas e de ideias que aproximam a escritora e a pintora, nomeadamente: 

Maria Etelvina Santos, Ana Marques Gastão e Ilda David'
no Círculo Eça de Queiroz

– uma ideia de Comunidade que faz convergir figuras, seres, objectos para um espaço sem tempo nem cronologia que o determine;
– neste contexto situou Maria Etelvina Santos uma figura como Aossê e os elementos «catalizadores» da sua metamorfose na casa dos Bach, que constitui o fio condutor essencial dos trinta anos de escrita em torno de F. Pessoa agora depositados neste quinto Livro de Horas;
– a ideia, comum a ambas as criadoras, de um trabalho que se desenvolve como um «Livro de Horas» contínuo, em que nas várias horas do dia a leitura (matéria-prima comum a ambas), o olhar sobre o mundo, a escrita, o desenho brotam de modo não pré-concebido, para depois se configurarem, numa total disponibilidade e imprevisibilidade, em obras sempre inacabadas;
– o paradigma «arqueológico» que serve às duas autoras, um processo de trabalho em camadas, que vive de ecos, ressonâncias, recuperação de matéria aparentemente perdida;
– finalmente, e tomando como pretexto o título do livro-catálogo de Ilda David', as três intervenientes falaram ainda, também com o público, da importância de um modo muito particular de entender a luz, presente também na sombra e no negro, e determinante, quer para a artista, quer para a escrevente «canibal de olhos», imagem que um dia serviu a Llansol para dar de forma intensa o seu modo próprio de se relacionar com o mundo.

15.5.16

PESSOA-LLANSOL NA FESTA DO CHIADO


No âmbito das iniciativas da semana das «Festas no Chiado», de 14 a 21 de Maio, o Livro de Horas V (O Azul Imperfeito - Pessoa em Llansol 1976-2007) estará no centro de uma conversa de Maria Etelvina Santos, responsável por este último Livro de Horas, com Ana Marques Gastão, escritora e membro da redacção da revista Colóquio-Letras.

Conversa a que se associa a pintora Ilda David', a pretexto da sua última exposição na Fundação Carmona e Costa e do livro que a documenta, Do Negro a Luz, e que acontecerá na próxima quarta-feira, dia 18 de Maio, pelas 18.30 horas, no Círculo Eça de Queiroz (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 4).

A iniciativa é organizada pelo Centro Nacional de Cultura, e a entrada é livre.


9.5.16

LLANSOL E A MÚSICA

A próxima sessão das actividades da «Letra E», em que trataremos das ligações de M. G. Llansol com a música, terá lugar na bela sala do Salão Nobre do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), situada no campus deste Instituto, junto da antiga Emissora Nacional (Rua do Quelhas, 6) e perto da Assembleia da República.

A sala do Salão Nobre do ISEG

O tema será apresentado por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, haverá leituras de textos inéditos de Llansol sobre a sua relação com a música e os (seus) músicos, ouviremos peças em gravação escolhidas por Teresa Projecto e teremos o prazer de ter connosco, no final, o Coro Feminino de Lisboa.
E como sempre haverá um caderno que documenta este tema na obra de M. G. Llansol, em particular nos inéditos do espólio.



25.4.16

«A MÚSICA QUE JÁ SEMEÁMOS HÁ-DE VIR…»

Em 4 de Maio se 1974, Maria Gabriela Llansol escrevia num dos cadernos, em Lovaina, e num registo que não era habitual nela, o seu alívio pelo «país que acabou» e o seu entusiasmo e a sua esperança pelo país que a libertou. Assim, no «Vilancete de 4 de Maio»:

Ó meu amigo, 
noite, vem,
a Lua tarda.
Por que ainda 

não há leões
no meio da Lua?


Ó meu amigo,
sereno país que vejo,
onde estão as sementes musicais 

que já semeámos?

A música que já semeámos 
há-de vir.
Uma terra que não pertence 

a ninguém
será o espaço
entre o berço e a sepultura.

[]

O que escrevo
cavalga sobre duas, todas
as línguas,
e corre
rodeado de lágrimas.
Está feliz
e contempla.
Nem pode dormir,
nem acordar.
Que alegria me atravessa, 

meus olhos são pedras lúcidas. 
Ó meu anel que serenamente
escreves
esta poesia sem poeta 

e meu corpo aparecido 
sem países!
O meu país está livre, 

o meu país acabou
e libertou-me.
[…]

Que esta serenidade nos conserve, 
seja para sempre
a energia, o movimento,
a lucidez, a eternidade

do dia de hoje.

(Fotografia de Maria Etelvina Santos)

Em Sintra, no lugar que foi o seu, lugar de pensamento e de escrita na máquina eléctrica «Dora», com quem por vezes não se entendia, estão hoje também o verde do «perfil da esperança» e o vermelho dos cravos de Abril. No dia 25 de Abril desse ano de 1974, ela nada escreveu. Como anota três dias depois, rememorou e encontrou-se verdadeiramente com o seu passado: «Passou-se o dia 25, em que nada escrevi […] Depois do dia 25 de Abril há como que um obstáculo removido a uma evocação. Não cesso de rememorar, chamo, alguém me chama. O que se chama? É um encontro da minha história pessoal com a história que sei.» (Uma Data em Cada Mão. Livro de Horas I).

24.4.16

LLANSOL - O LIVRO
no Dia Mundial do Livro



No sábado, Dia Mundial do Livro, o Espaço Llansol foi ao Museu Anjos Teixeira, em Sintra, para assinalar a data. Com a conferência de João Barrento de que o caderno que disponibilizamos abaixo (e que pode ser lido aqui ou descarregado) dá a versão completa, incluindo os fragmentos escolhidos de alguns dos muitos livros que entraram na sua vida para aí ficar. Todos anteriores ao Livro da sua vida, o Livro único de Maria Gabriela Llansol.





15.4.16

LLANSOL NO DIA MUNDIAL DO LIVRO

No próximo sábado 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, João Barrento falará no Museu Anjos Teixeira (Volta do Duche, em Sintra), às 16 horas, a propósito do tema, evocando alguns dos livros determinantes na sua vida e O Livro único e contínuo de Llansol como livro da sua vida. Um relato de vida e uma leitura da Obra de Llansol, acompanhados de projecções e pequenos filmes.



10.4.16

NA ESCOLA – COM PARASCEVE

Alguns professores, também alunos, leitores de M. G. Llansol, foram ontem à Escola do Convento do Desagravo – uma bela escola, magnificamente situada junto do Panteão Nacional, em Lisboa – para ouvir as reflexões de Paulo Sarmento, professor de Filosofia do Ensino Secundário e «llansoliano» de longa data, sobre a situação actual  do ensino, sobre as relações na escola, sobre o confronto permanente entre professores e alunos. Mas no centro da exposição de Paulo Sarmento, e na viva discussão que se seguiu, estava um livro de M. G. Llansol: Parasceve. Puzzles e ironias, uma obra em que acompanhamos o processo de formação e individuação de uma figura de mulher, e onde várias figurações da criança evidenciam possibilidades múltiplas de interacção e de acesso a realidades, posturas, afectos, que a Escola de hoje não conhece.


Fizemos para esta sessão, como habitualmente, um caderno que reproduz excertos de Parasceve, imagens escolhidas pelo dinamizador da sessão e quadros sinópticos que procuram cobrir todo o espectro dos discursos sobre a educação, colocando-os em confronto com frases, lampejos, vislumbres oferecidos por aquele livro de Llansol. A conversa foi ainda completada pela leitura de uma das três «fábulas« escritas por Paulo Sarmento para a ocasião e colocadas à disposição dos presentes: a «Fábula do lobo» (derivada de Parasceve), a «Fábula de Alice» (inspirada em Alice no País das Maravilhas) e a «Fábula do vento» (escrita a partir das três metamorfoses do Zaratustra, de Nietzsche).
Transcrevemos uma parte da introdução de Paulo Sarmento a esse caderno, que esclarece as motivações que o levaram a propor esta sessão da «Letra E» do Espaço Llansol.


Educador, eu próprio, na escola pública desde há duas décadas e tendo percorrido mais de vinte escolas em geografias e contextos sócio-económicos e culturais muito diversos, fui assistindo à instalação de um crescente mal-estar entre os protagonistas desta história, decorrente de uma incomunicação severa entre eles. Como fazia parte do enredo, não podia dar-me por satisfeito. E comecei a interrogar a minha prática pedagógica e toda a estrutura institucional que a sustentava, colocando hipóteses que para mim próprio eram incómodas. Questionava agora a obsessão pelo sucesso escolar, os pressupostos desse sucesso, a natureza desse sucesso, a pertinência desse sucesso, a legitimadade dos meios para o atingir; questionava se a obsessão com a disciplina dentro da sala de aula não escamoteava o verdadeiro problema, se não estava ela própria a barrar o acesso às soluções; questionava a avaliação nos termos em que é realizada e todas as injustiças que lhe estão associadas.
Fui expondo estas inquietações pelas escolas por que passava. […]
Mas o que sobretudo eu via nestas reacções era impotência e medo, muito medo. E uma inércia inamovível, fundada no hábito e em certezas de convicção. E, no discurso de repúdio, o medo da mudança levava o nome de realismo
Voltei-me então para a minha inércia e perguntei-me sem realismo nenhum: onde procurar o movimento que cause alegria naqueles que se me apresentam pela frente e, de passagem, que contribua para a minha alegria de educador? Era óbvio que, de cima, não havia nada a esperar: cada nova orientação ministerial revelava-se um remendo sobre remendos, confissão de ignorância da realidade e de incompetência. Nisso estávamos todos de acordo. Por sua vez, as ofertas coloridas Psicologia light, com a sua gíria irresistível, também não me convenciam minimamente; causavam-me até repugnância. Eram cabriolas, levadas a efeito dentro do círculo mais próximo da fogueira da tribo, análises superficialíssimas resultando em falsas soluções, muito longe do âmago do que terá de ser hoje educar. Só então cheguei à leitura dos que deveriam ter sido desde sempre as minhas referências: pedagogos como Freinet, João dos Santos, Agostinho da Silva, José Pacheco (da Escola da Ponte), Paulo Freire, entre outros. Neles encontrei a confirmação do que intuíra. […] Mas, como a inquietação me abrira a sensibilidade, em tudo encontrava sinais da passagem do verdadeiro alento da pedagogia: fosse em filmes, romances, ensaios, poesia; fosse em trabalhos de artistas como Oskar Hansen, Nicolás Paris, Pietro Proserpio ou Os espacialistas.… Com todos eles aprendia (e aprendo ainda) a deixar de «dar aulas», para passar a criar as condições para que os jovens criem o seu conhecimento, através da tentativa, da descoberta e da auto-organização. […]
A ideia deste encontro nasceu precisamente quando, estando eu a reler Parasceve de Maria Gabriela Llansol, verifiquei que o quarto capítulo do livro (e depois que todo o livro, em várias passagens) me dava a chave de acesso ao espaço comum entre o adulto e a criança ou jovem, o acesso à infância de ambos. Além do mais, a leitura da obra apresentava-se como excelente auxiliar na desconstrução de muitos termos presentes no discurso tradicional sobre a educação, termos que viciam o pensamento e bloqueiam a acção transformadora. Era necessário partilhá-lo com os meus pares. Talvez, desta vez, graças à linguagem fulgurante da autora, fosse mais bem-sucedido…