27.11.19

O LIVRO DA ESCOLA QUE NÃO ERA UMA ESCOLA

A nossa próxima sessão pública (a última deste ano) trará ao Espaço Llansol um livro há algum tempo esperado – aquele que documenta as ideias orientadoras, o trabalho peagógico e o dia-a-dia das Escolas fundadas por M. G. Llansol e Augusto Joaquim na Bélgica, nos anos setenta.
Para nos falar desses tempos e desse projecto singular teremos entre nós dois comentadores especiais que, de modos diversos, viveram de perto a experiência da Escola «La Maison»: o pedagogo belga Pascal Paulus, do Movimento da Escola Moderna, há muitos anos radicado em Portugal; e o Prof. João Maria Mendes, amigo da «Gabi» e do Augusto nesses anos de Lovaina.
O livro que apresentamos oferece uma muito reveladora documentação escrita, fotográfica e artística dp trabalho dos «contra-grupos» que deram corpo a essas escolas alternativas, no contexto particular de uma «comunidade do incomum», como lhes chama Albertina Pena na sua introdução ao livro.

24.11.19

MARIA GABRIELA LLANSOL
24 de Novembro 1931 - 3 de Março 2008

Assinalámos ontem os 88 anos do nascimento de Maria Gabriela Llansol, com uma sessão em que ouvimos a gravação da entrevista que deu em 1997 a Graça Vasconcelos, jornalista da Radiodifusão Portuguesa: um retrato de corpo (e espírito) inteiro que nos trouxe a presença viva da «escrevente», dando a ouvir as motivações mais fundas da sua escrita, a relação privilegiada com Vergílio Ferreira e todo um percurso de vida. E «um mais-saber subiu à voz» que ouvimos, entrecortada por interlúdios musicais escolhidos pela entrevistadora, em íntima relação com os temas tratados: José Mário Branco a abrir (bela e inexplicável coincidência!), Jacques Brel, Madredeus, Dulce Pontes, Fausto, Leo Ferré... Na sala da lareira, uma exposição fotográfica e documental dava conta desse percurso de vida e de momentos significativos da presença de Maria Gabriela Llansol no espaço literário, em encontros nacionais e internacionais.
O caderno que fizémos para a ocasião transcreve a entrevista, e ainda alguns apontamentos inéditos como o que se segue, que podemos ler como testemunho da força do novo neste texto inconfundível.
 Em 4 de Jan. '97, quinta
1. Os dias merecem apontamentos, vistos da minha perspectiva. Se a minha perspectiva for incomunicável – não terá leitor que a alcance, nem ela alcançará nenhum leitor. O novo é incomunicável?
2. O sinal de que assim não é______ é que ele perturba.
3. Sem querer, perturba. É a vontade intrínseca da poesia_____ 
(Agenda nº 36, p. 14) 
E das habituais leituras, feitas no final da sessão por Sara Ferrada e Alexandra Pinheiro (que estudam teatro com o actor Diogo Dória), retemos o momento final:  

Regresso a Herbais, às zonas falhadas da memória, e verifico que o que tem importância para ser contado é o menos importante. O muito grande e banal vê-se – e é visto por todos os olhos.
Decorrido o fluxo da noite – e já amanhece – sinto com a mão a madressilva que plantei junto ao muro exterior da casa, e que mil vezes há-de morrer sem que de facto morra, enquanto estas páginas forem vivas – e alcancem mais do que a minha precária vida. De amarelo fugaz, e cheiro intenso,
a madressilva, sempre que eu ia e regressava,
estava coberta de alegria.
Era a verdadeira e última consistência da velha parede. Poeira dissolvida que se reconstitui e regressa agora.
O meu corpo conflui de lugares longínquos. É de noite. A luz exterior da entrada, suspensa de uma viga, acabou de acender-se. O luar libidinal impele-me a entrar em casa e ir dormir com quem amo. A natureza não humana apaga-se atrás de mim.
(Caderno 1.51, p. 62, 4 de Junho de 1998, domingo). 


11.11.19

LLANSOL AUTORA DO MÊS NOS AÇORES

A Biblioteca Municipal de Velas, na Ilha de São Jorge, escolheu Maria Gabriela LLansol como autora do mês no seu ciclo «A casa da Leitura».  Agradecemos à Biblioteca, e só lamentamos não poder estar presentes!
Mais informação aqui: https://www.municipiosefreguesias.pt/noticia/57247/maria-gabriela-llansol-e-a-autora-do-mes-de-novembro-na-biblioteca-municipal

6.11.19

«... VIBRAR NA DIRECÇÃO DE UM MUNDO NOVO...»
Nos 88 anos de Llansol

No próximo dia 24 de Novembro Maria Gabriela Llansol faria 88 anos. Antecipando o dia do seu aniversário, faremos no sábado 23 de Novembro, às 17 horas, uma sessão especial acompanhados por Llansol, não só em espírito, mas em vibração sonora; ouviremos, a partir da cassette original, uma entrevista feita na rádio em 1997 (com a jornalista Graça Vasconcelos), em que é possível acompanhar a imagem humana, o percurso e as motivações da escrita de Llansol através da sua própria voz. Uma conversa altamente reveladora, entrecortada por canções portuguesas (José Mário Branco, Teresa Salgueiro/Madredeus, Dulce Pontes, Fausto) e francesas (Jacques Brel, Bernard Lavilliers, Leo Ferré), escolhidas pela entrevistadora para acompanhar e iluminar alguns dos temas da conversa.
E para completar este retrato vivo ouviremos ainda as actrizes Sara Ferrada e Alexandra Pinheiro (da ESAD das Caldas da Rainha) ler textos de Llansol, de carácter muito pessoal, quase íntimo, como convém mais a esta data. E haverá como sempre um caderno que reproduz a entrevista e algumas páginas de inéditos. Poderá ser uma tarde memorável.

23.10.19

«O COMEÇO DE UM LIVRO...» GANHA VOZ E IMAGEM

Tivémos ontem uma manhã muito especial no Espaço Llansol. Um grupo de trinta alunas/os da Escola Superior de Teatro e Cinema veio conhecer melhor Maria Gabriela Llansol e o seu mundo, com duas professoras dessa Escola: a actriz Maria Duarte (grande incentivadora do «Projecto Teatral») e a escritora Patrícia Portela, que já esteve connosco antes, ambas leitoras de longa data da Obra de Llansol.

O pretexto e a motivação maiores da visita foram os do trabalho dos estudantes neste semestre, em torno de um dos livros desta nossa autora – O Começo de um Livro É Precioso –, a partir do qual trabalharão questões de dramatização de textos não dramáticos, de dicção e imagem. Por isso se falou muito dos modos de trazer à voz e dar a ver o texto de Maria Gabriela Llansol. 

Projecto singular, como singular é o percurso e a Obra destas duas professoras-criadoras. Comentámos o livro, a sua construção particular (um texto ou «estância» para cada dia do ano), a natureza única da forma dos fragmentos (poemas?); falámos do lugar do corpo e das afecções (com frequente recurso a Spinoza), da importância e dos sentidos da «imagem nua» nestes textos, de figuras recorrentes que conferem um discreto fio narrativo ao livro, do que significam os começos (que servem sempre só para continuar por caminhos imprevisíveis) e dos fins (que não há, nesta escrita da metamorfose), enfim, percebemos melhor como cada frase é aqui «uma base de meditação», cada estância traz uma situação, um pensamento, uma cena fulgor novos, e todo o livro é uma espécie de breviário aberto, sem lições nem moralidade...

De um dos cadernos de escrita do livro, em 2003

 Anotação no Bloco de notas B06

... Tudo gira à volta de «O Começo de um livro é precioso» e dos
casos perdidos na leitura... (Caderno 1.65, 26 de Janeiro de 2003)

O interesse – e o espanto – dos estudantes era evidente, a casa e o espólio de Llansol foram claramenre uma revelação, prometendo novas visitas.

14.10.19

«A COSTURA CULTURAL PORTUGUESA»
OU «O LITORAL DO MUNDO»


As XI Jornadas Llansolianas que neste fim-de-semana dedicámos à análise da «costura cultural portuguesa», deste «Litoral do mundo», tal como nos são dados a ver e a ler pelo crivo do olhar e pela mão de escrita de Maria Gabriela Llansol, trouxeram-nos fragmentos da narrativa de uma História (e das mais diversas estórias dentro dela) – história de um país, de uma cultura, de alguma da sua literatura – quase sempre lidas por Llansol «a contrapêlo». Ou também, como logo a abrir salientou António Guerreiro, em chave anti-épica e anti-heróica, em grandes visões alegóricas textualizadas, ou cosmogonias laicas, projecções desejantes e alternativas de outros mundos (em Llansol, os da «comunidade» e da «Restante Vida»). Neste território de uma História que sempre pretendeu «dar passos para a frente», a escrita de Maria Gabriela sobre ela prefere – e é esse o seu selo inconfundível – «dar passos para o lado». É o que acontece, entre outros, com o livro agora reeditado com inéditos, Da Sebe ao Ser, que constituiu uma referência central na intervenção de António Guerreiro sobre «Os potenciais da História».
 António Guerreiro
O espectro das intervenções cobriu depois o campo vasto desta matéria portuguesa na Obra de Llansol, com incursões pelos universos de figuras maiores dessa Obra, como D. Sebastião/Dom Arbusto (da qual se falou, apesar da ausência da nossa amiga Ilse Pollack, que por razões de força maior não pôde deslocar-se da Áustria até às margens de Tejo-rio); de Camões/Comuns/o Pobre, pela Profª Isabel de Lima e Almeida, que, com o seu profundo conhecimento do Camões histórico, seguiu atentamente as deambulações e metamorfoses de Luís M. e da sua Obra pelos livros de Llansol; ou de Pessoa-Aossê por Maria Etelvina Santos, que, no seu já longo périplo pelos trilhos de Aossê na escrita de M. G. Llansol, partiu da Gare do Oriente para explorar outros Orientes desse Oriente, não os caminhos pátrios da água, mas os do sonho criador que faz conhecer, os do dom poético como alquimia ou os de formas várias de paganismo, com um regresso (de ecos hölderlinianos) de deuses por vir, em Pessoa e Llansol, a partir da leitura paralela da nossa autora e do Pessoa da Mensagem e dos heterónimos (ou nem tanto!) António Mora, Bernardo Soares ou Alberto Caeiro.
 Isabel Almeida (com João Barrento)

 Maria Etelvina Santos (com Pedro Proença e J. Barrento)

Na mesma mesa, o artista-escritor e escritor-artista Pedro Proença (que expôs na sala dois desenhos de grande formato que, de forma explícita e com motivos subtilmente disseminados, desfiam mais uma narrativa sobre o tema destas Jornadas) ofereceu-nos um texto escrito numa voz con-sonante com a de Llansol, uma tecitura de imagens e motivos que evocavam «Paraísos resgatados», fábulas de corpos em relação sensualética de «amor ímpar», num gesto de leitura que é dádiva, entrega e eco irónico que faz soar, de perto e de longe, o que há de mais fundo no objecto de leitura – algo que só os grandes leitores, como Pedro Proença, sabem fazer.
 Pedro Proença

 Os desenhos de Pedro Proença

Depois entrámos, com as Profas. Paula Morão e Maria de Lourdes Soares (vinda do Rio de Janeiro), nas linhas cruzadas que ligaram Maria Gabriela Llansol a Vergílio Ferreira e a Jorge de Sena. No primeiro caso, por uma relação mais próxima, de criador com criador, entre escritores diferentes e afins, aproximando-se e divergindo em «encontros de confrontação» em que o espírito crítico e os afectos se confundiam. No caso de Sena, Maria de Lourdes Soares levou-nos por praças e jardins, autos-de-fé e terrenos de exílio, pelos cenários múltiplos em que Llansol põe em cena um Sena trans-figurado em Jorge Anés, o que lhe confere outra liberdade na relação com esse ícone maior do estrangeirado nunca reconciliado com este «reino da estupidez», permitindo-lhe outros voos para além da relação pessoal que neste caso nunca existiu.
 Maria de Lourdes Soares e Paula Morão (com Ma. Etelvina Santos)

E houve ainda lugar para a revelação de um núcleo desconhecido da escrita de Maria Gabriela Llansol, os seus primeiros contos, ainda inéditos (alguns deles agora disponíveis no caderno «O timbre da estrela» - Contos juvenis de Llansol), que João Barrento comentou sob o pano de fundo do Portugal salazarento dos anos quarenta e cinquenta, quando Llansol transforma já em escrita uma «vida contingente sem amplitude em que eu pudesse mover-me», com vista, já então, «a libertar na escrita seres perenes».
 João Barrento (com Ma. Etelvina Santos e António Guerreiro)

*
***

  Os temas e as figuras das XI Jornadas Llansolianas

Da Sebe ao Ser, ou «O movimento do mar»

Os heróis apeados, e aparentemente pouco felizes, da História de Portugal
(Camões, Afonso de Albuquerque, Cabral, o Gama, D. Sebastião),
descobertos por Cristiana Vasconcelos Rodrigues no Jardim de
S. Pedro de Alcântara, em Lisboa, Outubro de 2019

*
***
Como sempre, tivemos o comentário do livro das Jornadas anteriores – «Eu leio assim este Texto» - Escritores lêem Llansol –, numa original e atenta leitura de uma outra escritora, Paola d'Agostino (que recentemente traduziu para italiano a antologia de textos de Llansol All' ombra del chiaro di luna).
 
 
Paola d'Agostino (com Helena Vieira e J. Barrento)

E por fim, como também já vem acontecendo desde as nossas primeiras Jornadas em 2009, o momento final de leitura. Este ano com António Poppe, também poeta e artista, diseur singular que nos trouxe poemas de Camões e Pessoa ditos de cor (ou seja com a voz do coração), fragmentos de M. G. Llansol que espelham a sua visão deste país de portugal que escreve com minúscula «para não ter nunca de estar a braços com uma ideia preconcebida» dele; e por fim um dos contos juvenis: Rapariga Inquieta, a história da rapariga que «crescia naquele meio» (o do Portugal cinzento da «tristeza contentinha»), «mas sabia que não lhe pertencia».
 António Poppe diz Camões

*
***


Estas XI Jornadas Llansolianas trouxeram ainda consigo, como sempre acontece, algumas novas publicações:
- Da Sebe ao Ser (Assírio & Alvim), há muito esgotado, e agora reeditado com um substancial anexo de inéditos relacionados com a escrita desse livro;
- «Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol (Mariposa Azual/Epaço Llansol), o livro que documenta as X Jornadas, de 2018;
- Os cadernos com inéditos que ilustram o tema destas Jornadas: O Litoral do Mundo: O «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol; e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de Maria Gabriela Llansol.

E o público acorreu, e a sala animou-se...

20.9.19

XI JORNADAS LLANSOLIANAS
«O LITORAL DO MUNDO»

Damos já a conhecer o programa das Décimas-primeiras Jornadas Llansolianas, que terão lugar em 12 e 13 de Outubro no Espaço Llansol. Este ano dedicamos as Jornadas à matéria portuguesa na Obra de Maria Gabriela Llansol, o que tanto pode significar a sua desconstrução de vários momentos e filões na História portuguesa (o «caminho da água» dos Descobrimentos, os mitos do Encoberto ou dos Lusíadas, os tempos de chumbo do salazarismo), como os caminhos singulares da revisão ou da leitura de algumas figuras dessa história, política, literária, cultural (Camões e D. Sebastião, Pessoa, Vergílio Ferreira ou Jorge de Sena). Estas Jornadas contam, como é habitual, com a participação de um núcleo significativo de «llansolianos/as» nacionais e estrangeiros, como se pode ver pelo programa que se segue.
E como também vem sendo habitual, teremos dois momentos de apresentação de livros novos: a nova edição de Da Sebe ao Ser, com inéditos (Assírio & Alvim) e o volume que documenta as Jornadas de 2018, dedicadas a leituras de Llansol por outros escritores («Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol, da Mariposa Azual/Espaço Llansol, o número 17 da colecção «Rio da Escrita»). E dois cadernos que ilustram a temática destas Jornadas: O Litoral do Mundo: o «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de M. G. Llansol.

15.9.19

O FULGOR, O SEGREDO, A MÚSICA


No regresso às actividdes do Espaço Llansol, no último sábado, reunimos na Casa de Julho e Agosto três olhares diversamente retrospectivos sobre a Obra e a figura de Maria Gabriela Llansol.
Com João Maria Mendes (e um pequeno video que montámos com fotografias do arquivo) regressámos a Lovaina e aos anos 60-70, a um ambiente cultural e a uma época decisivos para a grande viragem que se operou a partir daí na Obra da «Gabi-escritora», como ela é designada neste livro do compagnon de route dela e de Augusto Joaquim nas aventuras político-ideológicas, culturais e pedagógicas desses anos do exílio belga. Dessa viragem e da originalidade de toda uma Obra fala também a parte mais interpretativa do livro, fornecendo pontos de vista muito inovadores e produtivos para a leitura futura dos livros desta autora.
In illo tempore: Lovaina, anos 60-70

O segundo livro apresentado reune tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu sobre Llansol (em ensaios, crónicas, críticas, diários e correspondência – incluindo as cartas de Llansol) entre os anos de 1978 e 2006. Tratou-se, como foi destacado na sessão de sábado, de uma relação a vários títulos ímpar entre escritor e crítico, não apenas intelectual, mas ao longo dos anos claramente afectiva e empática – entre duas naturezas tão diferentes, mas que se encontravam no deslumbramento comum com as coisas do mundo, no júbilo de viver que, no fundo, guiou estas duas vidas de escrita. Os girassóis, flores preferidas do Eduardo, em cima da mesa falavam disso...

 Finalmente, Maria Etelvina Santos comentou o livro de João Barrento, que, também ele, condensa uma viagem de dez anos pelos meandros, não já apenas dos livros, mas de todo o imenso espólio de Llansol, com derivas para as mais diversas áreas deste território sem fim: ensaios de fundo sobre temas e figuras, incursões por zonas pouco conhecidas (os desenhos, a poesia, os cafés, as andanças por Colares e Sintra), cruzamentos im-prováveis e surpreendentes (com escritores, pensadores, cineastas, artistas...). Como diz a «Carta de abertura» da Maria Gabriela reproduzida à entrada de mais este volume de «escritos llansolianos», o encontro do leitor (legente?) com a autora (escrevente!) dá-se provavelmente porque ambos buscam, para lá da «impostura da língua», um qualquer «lugar primordial» deste universo único.


9.9.19

DA SEBE AO SER EM NOVA EDIÇÃO


Acaba de sair, em edição de Assírio & Alvim, a nova edição de Da Sebe ao Ser, há muito esgotado. Esta nova edição acrescenta à de 1988 um conjunto significativo de inéditos extraídos dos cadernos de Maria Gabriela Llansol, e provenientes da fase de escrita deste livro que veicula uma leitura escrita da história de Portugal e do seu fatídico «caminho da água».
Na próximas Jornadas Llansolianas, em Outubro, esta nova edição será apresentada e comentada por António Guerreiro.

2.9.19

TRÊS LIVROS, TRÊS OLHARES SOBRE LLANSOL

Retomamos as actividades do Espaço Llansol no sábado, 14 de Setembro, pelas 17 horas, com a apresentação simultânea de três novos livros, que representam três olhares sobre o universo Llansol, três leituras, diversas e igualmente estimulantes, de toda a sua Obra: de João Barrento (dez anos de escrita sobre Llansol), Eduardo Prado Coelho (toda a sua escrita sobre esta Obra, entre 1985 e 2007, correspondência com LLansol, excertos de diários) e João Maria Mendes (um livro de síntese que abre com a evocação da sua relação com «Gabi» e Augusto nos anos setenta, do exílio de Lovaina – que documentaremos num video –, e continua com uma interpretação global desta escrita).
Contamos, para as apresentações em diálogo, com a presença de João Maria Mendes, Maria Etelvina Santos e João Barrento.


Comparado com o meu anterior conjunto de «escritos llansolianos», publicado nesta colecção (Na Dobra do Mundo, 2008), este será porventura um livro mais vivo do que esse primeiro, e sobretudo mais revelador do amplo espectro de relações que se podem tecer a partir desta Obra – com temáticas tantas vezes inesperadas, com outros autores (poetas, ficcionistas, filósofos, místicos...), com domínios extraliterários (a música, as artes visuais, a iconografia, o cinema), com lugares e tempos de vida e de escrita (a Lisboa da adolescência e juventude, a Bélgica do exílio, os cafés, as deambulações por Colares e Sintra).
J. B.


Os textos de Eduardo Prado Coelho sobre Llansol, ou os simples registos fugazes sobre ela nos Diários, pequenas intuições na correspondência, lançam luz, luzes de vária natureza, sobre a pretensa «sombra» desses textos, por vezes com focos de uma grande intensidade. Por exemplo, quando comenta: «Há textos assim: dizem de um modo tão exacto e portentoso aquilo que nos parece evidente depois de os termos lido que sentimos por um instante que não deveríamos fazer mais nada senão o que eles dizem».
E conclui, noutro lugar: «Daí que, às portas do paraíso, Maria Gabriela Llansol diga a Vergílio Ferreira o que qualquer de nós poderá dizer ao leitor futuro de Llansol (e não se pode ler Maria Gabriela Llansol sem assumir a leitura como uma leitura sempre futura, uma leitura por vir): não há segredo, o único segredo é entrar».


 De que me ocupo neste escrito? Num primeiro momento revisito a genealogia da Obra da autora e descrevo-a como sensacionista/intuicionista, sempre confrontada com a memória e a cultura acumuladas na «Casa da Sabedoria». Num segundo momento recordo o que a levou a afastar-se da narratividade dependente da verosimilhança e a adoptar uma textualidade transgressiva... Um terceiro momento é uma reflexão sobre algumas ideias-fortes do glossário llansoliano... Num quarto momento defendo que a Obra llansoliana explora quatro registos de fantástico que herda de um maravilhoso verdadeiro neo-renascentista, e que são, nela, idiossincráticos geradores de texto. Finalmente, num quinto momento, aproximo a composição oficinal dos seus textos e o trabalho do sonho, tal como Freud o descreveu em a Interpretação dos Sonhos...
J. M. M.