4.4.14

A «LETRA E» DE ABRIL A JUNHO

Deixamos aqui o programa da Letra E para os próximos três meses. Com temas novos - e talvez inesperados - como o dos Cafés de Llansol (nesse dia a Letra E será mesmo um café!), os almanaques e o tempo, e ainda uma figura próxima e distante como Virginia Woolf, comentada por duas conhecidas escritoras nossas, Ana Luísa Amaral e Hélia Correia.
Chamamos a atenção para a nova hora de começo das sessões – 16 horas! –, resultado de um breve inquérito feito junto de alguns frequentadores das Letra E. As opiniões divergiam, mas pensamos que com a nova hora encontraremos um meio termo que não interfere com as horas de almoço e jantar de sábado, e poderá convir a todos.

23.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

A sessão de ontem na «Letra E» estava originalmente prevista para ter lugar numa ruína – em Sintra, onde há muitas, espelho de um estado de coisas em desagregação, ou noutro lugar deste país em ruínas. Acabou afinal por se fazer no lugar habitual, porque o tempo atmosférico, tal como a atmosfera asfixiante da pseudocultura dominante e do pensar, continuam frios e sem chama. O espaço da «Letra E» transformou-se, por isso, numa espécie de gruta – ilha, na visão de Llansol –, um dos lugares, não apenas simbólicos, mas reais, disseminados por aí, onde alguns não desistem de pensar e resistir.

 Cad. 1.10, 208: «Dagaia, a Ilha de Ana de Peñ[alosa]»
O lugar da Terra onde se resiste, contra a falsificação pelos mitos...

Dos modos vários dessa resistência se falou ontem, traçando amplos arcos que não se limitaram ao texto de Llansol, mas procuraram ir a algumas raízes, remotas e mais próximas, do «mal-estar na civilização» que é a nossa. Sobre as nossas cabeças pairava ontem uma «floresta do texto», algumas dezenas de fitas de papel com frases na caligrafia original dos cadernos de Llansol (de que deixamos aqui uma amostra, e que o video que inserimos no final dá uma imagem mais viva). Penduradas do tecto, eram como morcegos que, de cabeça para baixo, activam o seu sonar para auscultar este mundo às avessas, investindo em voo picado contra ele.


Foi o que fizeram os dois intervenientes que convidámos – o escritor António Vieira e o crítico e ensaísta António Guerreiro –, ao dissecarem a situação actual, com olhares amplos que vinham inevitavelmente pousar nas linhas do grande universo de Llansol, tendo já dele partido pela leitura dos textos e fragmentos inéditos que reunimos em mais um «Caderno da Letra E» (de onde transcrevemos parte da introdução de João Barrento, que contextualiza o tema da sessão). Os que vieram puderam levar para casa este caderno, e também uma ou mais das fitas de papel com autógrafos de M. G. Llansol que pendiam do tecto.

 (Da Introdução de João Barrento ao Caderno da Letra E)

Tivemos connosco dois actores que abriram a sessão com a leitura de alguns textos de Llansol: António Fonseca (que recentemente chamou a atenção com os seus espectáculos em que dizia Os Lusíadas de cor) e Helena Ávila (acabada de chegar da Ilha do Pico, nos Açores). E a conversa alargou-se à sala, e a temas como o lugar dos editores hoje; os sentidos (ominosos  e também promissores) da «comunidade», em Llansol e outros, ao longo do século XX; as linhas de demarcação entre utopia e ucronia na «comédia humana» de Llansol e na sua leitura do mundo e da História; a sua inserção na constelação do «fim do humanismo» e a construção de um novo «projecto do humano», trans-humano e radicalmente novo; enfim, as formas de resistência «imanentes», no plano de uma escrita como a de Llansol, que só por si, na sintaxe, desestrutura o pensamento estabelecido, num registo «atonal» que inquieta e nos mantém despertos (como bem salientou a pianista brasileira Gilda Oswaldo Cruz, que ontem esteve mais uma vez entre nós).
Traçaram-se, assim, algumas cartas de rumos, e sentiram-se os ventos que sopram da «Ilha de Ana de Peñalosa», pela mão daquela que escrevia já, em Na Casa de Julho e Agosto (1984): «Eu sou a nota fora das sete da comunidade das beguinas...».

17.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

No próximo sábado, 22 de Março, às 17 horas, teremos mais uma sessão da «Letra E», desta vez com a voz mais «política» de Llansol. A partir de textos seus, escritos entre os anos oitenta do século passado e o início deste, traremos mais uma achega à discussão e indignação em curso sobre o estado deste país e do mundo. Com outras vozes, que disso falarão a partir desses textos – as do escritor António Vieira e do crítico e ensaísta António Guerreiro –e que lerão alguns deles – as do actor António Fonseca e da actriz Crista Alfaiate.

Como sempre, haverá um caderno de textos que procura transmitir as dimensões várias da revolta, da «Restante Vida contra o mundo», na Obra de M. G. Llansol, que desde cedo se decide por uma «ordem» que, paradoxalmente, ou não, é a de quem assume como sua condição «espalhar a justiça e a desordem», subvertendo os padrões instituídos do gregarismo capitalista-consumista e, nesse contexto, também da pseudo-cultura em que vivemos.
Quem vier poderá desta vez levar para casa um autógrafo de Llansol, frases manuscritas que são como setas disparadas contra o estado de a que chegou o país e o mundo.

16.3.14

LLANSOL NO BRASIL

1. A partilha do incomum


O texto de Maria Gabriela Llansol continua a fazer o seu caminho por terras brasileiras, também por lugares onde a sua presença até agora não era tão frequente.
É o caso da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.editora.ufsc.br), onde acaba de sair  um importante volume colectivo com ensaios e textos inéditos de M. G. Llansol, organizado por Maria Carolina Fenati, nossa colaboradora muito próxima e grande conhecedora da Obra e do espólio de Llansol. O livro intitula-se Partilha do Incomum. Leituras de Maria Gabriela Llansol, e tem contributos de quinze estudiosos e escritores portugueses e brasileiros, como se pode ver pelo índice abaixo (clique na imagem para aumentar).

Como escreve Carolina Fenati a abrir,   
Este livro – que reúne leituras do texto da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) e fragmentos inéditos de seu espólio – é um gesto de acolhimento da sua escrita no momento em que ela começa a ser editada no Brasil. A publicação de três diários – Um falcão no punho (1985), Finita (1986) e Inquérito às quatro confidências (1996) – amplia a possibilidade da partilha desses textos e seus fragmentos, que, vindos de Portugal já circulavam de mão em mão entre vários leitores, relançam-se agora no devir das suas leituras.  
(Entretanto, mais um livro – Um beijo dado mais tarde –  saiu em 2013 na Sete Letras, do Rio de Janeiro, e outros virão). 
No final da nota introdutória a organizadora  explicita o título do livro e esclarece a intenção de mais esta importante e diversificada publicação sobre o universo singular de Llansol:
Escrever com os textos de Maria Gabriela Llansol – partilhar o incomum que nos é oferecido – é dizer que os textos só permanecem na medida em que partem, só não desaparecem quando são transformados pela leitura que os contra-assina, que com eles escreve afirmando o seu excesso em relação a qualquer leitura. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, esses textos convidam a ler «até ao limite em que o entendimento é já a alegria do desentendimento» e exigem a seriedade e a paciência de uma reflexão que, reconhecendo o movimento que lhe escapa, abre linhas de fuga através das quais tudo pode sempre recomeçar. Cantar a leitura talvez seja desejar a conversa infinita, buscar o exercício da palavra como a relação mais íntima com o que é partilhável sem medida.



2. Algumas «trocas verdadeiras»

No site Ler Jorge de Sena, da responsabilidade da Profª Gilda Santos, conhecida seniana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode ler-se um informado artigo da Profª Maria de Lourdes Soares sobre a presença de Jorge de Sena, da sua obra e da sua transformação figural, na escrita de Maria Gabriela Llansol. Sena e Llansol já haviam sido objecto de um outro artigo no mesmo site, por Tatiana Pequeno (com o título «Llansenas»:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando.  O artigo pode ler-se aqui:

14.3.14

LLANSOL E A «SENSUALIDADE 
DO INVISÍVEL»

No próximo dia 19 de Março, entre as 16 e as 17.30h, a Profª Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Universidade Aberta e membro da direcção do Espaço Llansol), fará uma conferência na Universidade Católica de Lisboa (Edifício da Biblioteca João Paulo II) em que falará de «Maria G. Llansol: o texto como busca da 'sensualidade do invisível'».
Fica o convite a todos os leitores de Llansol e amigos do Espaço Llansol.

3.3.14

A PRESENÇA FRAGMENTADA 
DO GRANDE ESPAÇO AUSENTE...

É dia de lembrar Maria Gabriela Llansol. Com o seu texto e a luz que dele emana:


23.2.14

BLANCHOT - LLANSOL
Encontro improvável, ontem na Letra E

Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta.
Não absoluta, porque o absoluto é vão.
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)

Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.
(Maurice Blanchot, Faux pas, 1943)

De forma algo inesperada, dada a densidade da matéria, a Letra E encheu-se ontem de interessados em Blanchot e Llansol, com rostos novos e provenientes dos mais diversos lugares (Sintra, Lisboa, Braga, o Brasil e até a Bulgária!), para além de outros frequentadores, já conhecidos e mais habituais.
A ligação explícita de Llansol com Blanchot é esparsa, este autor, como não acontece com outros filósofos muito convocados para a Obra llansoliana, está pouco ou nada presente na sua biblioteca, e mais ainda nos cadernos de escrita, onde existe uma única menção: a intenção de adquirir L'amitié, registada em 18 de Janeiro de 2000 (Caderno 1.58, p. 67). Na biblioteca, apenas dois livros: Faux pas, comprado em Louvain-la-Neuve em 25 de Fevereiro de 1984, e com alguns sublinhados e marcas de leitura da introdução e de capítulos sobre Kierkegaard, Eckhart, Rilke, Proust; e ainda O Livro por Vir, num exemplar com dedicatória de «Regina» (Regina Louro, então jornalista do Expresso e tradutora do livro), em Abril de 1986.
E no entanto, o «Encontro improvável» e intenso de ontem, conduzido por Paulo Sarmento a partir do documentário de Hugo Santiago visionado antes, revelou imensas afinidades, e alguns desencontros, de pensamento, modos de escrever e viver, interesse comum por determinadas figuras e temáticas – a indeterminação ou a rejeição da «literatura» em favor da «escrita», o apagamento de fronteiras entre géneros, o estilhaçamento da ficção, a «exigência fragmentária», modos afins e diversos de viver a solidão, o silêncio, a morte, a anulação de tempos no espaço do instante que é o do texto no acto de se escrever e de ser lido; e finalmente, a construção de pontes e abismos entre os dois, quanto a uma ideia de «comunidade» de ausências presentes, a comunidade alimentada por um princípio de incompletude e a comunidade na diáspora...
Todos estes temas, presentes em mais um caderno que elaborámos para esta ocasião, com textos dos dois autores, foram ampla e vivamente discutidos no final, numa «conversa infinita» e naturalmente inconclusiva. Continua tudo em aberto para o regresso a este ou outros «Encontros improváveis», na Letra E ou noutros lugares.
Com uma certeza; que os intensos, como Blanchot e Llansol, continuam aí, para lá de si mesmos, sabendo, como sabiam, que não há morte, que a morte é apenas aquele «sentimento de leveza» sempre iminente que lemos em L'instant de ma mort, e que, como escreve M. G. Llansol num dos seus cadernos (o 1.18, p. 67), «o tempo e a morte são constantes, e é intenso o espaço que os circunda.»
Deixamos aqui, a montagem fragmentária de algumas páginas do nosso caderno, numa sequência que inclui no fim a leitura de excertos de La folie du jour, retirada do filme de Hugo Santiago.



E para quem não pôde vir mas gostaria de ver o documentário na íntegra, aqui fica o respectivo link: http://www.youtube.com/watch?v=F32bSMK1iNA

17.2.14

BLANCHOT E LLANSOL NA «LETRA E»

O próximo «Encontro improvável» na Letra E do Espaço Llansol é já no próximo sábado, dia 22 de Fevereiro, às 17 horas. Paulo Sarmento, escritor e professor de Filosofia, falará da «solidão essencial» destes dois escritores e de alguns tópicos que os ligam: a experiência interior e a impossibilidade da literatura, a indeterminação do «ficcional», a «exigência fragmentária», a morte, a escrita, a comunidade... 


Veremos o documentário de Hugo Santiago Maurice Blanchot, de 1998, e conversaremos sobre o filme e o que ouvimos. E, como já vem sendo hábito, teremos mais um «Caderno da Letra E» dedicado a este encontro, com textos em diálogo, extraídos dos livros de Blanchot e dos cadernos inéditos e também alguns livros de Llansol.
Fica aqui a página de abertura, que dá o «tom» de mais este caderno:
 

26.1.14

«OLHAR É DIFERENTE DE ANALISAR 
E COMPREENDER...»
Kiarostami-Llansol na «Letra E»


O filme, a um tempo apaziguante e inquietante, de Abbas Kiarostami (Five. Dedicated to Ozu), uma sequência de cinco longos planos, proporcionou ontem na «Letra E» momentos únicos de contemplação (e depois e conversa entre os presentes). O ponto de vista cinematográfico foi brevemente comentado por Daniel Ribeiro Duarte, que mostrou algumas linhas de afinidade entre o cinema de Yasujiro Ozu e este filme de Kiarostami – um «documentário» muito sui generis, com um claro substrato narrativo sem enredo nem diálogos nem personagens. Como em Llansol, com actantes humanos e não humanos que podemos ver como «figuras», contra o pano de fundo do enigma transparente do ser e do tempo que nos leva a perguntar, em cada uma das cinco cenas, o que é que acontece no que está a acontecer sob os nossos olhos – o que acontece, e não o porquê, nem sequer o como desse acontecer.
O caderno que os que vieram levaram consigo contém uma selecção de textos, na sua maior parte inéditos, de M. G. Llansol que evidenciam pontos de encontro e diálogo com este seu interlocutor «improvável», quer com o filme quer com os poemas de Abbas Kiarostami que seleccionámos para acompanhar o caderno de textos. Um encontro que passou pelos tópicos do olhar («o olho de olhar», e não apenas «o olho comum», diz Llansol), do tempo («o tempo suspenso na casa» – ou no mundo) e da noite («o maior objecto sensual que envolve todas as coisas», lemos num dos fragmentos).
Deixamos aqui a introdução a mais este caderno da Letra E, as páginas com os poemas de Kiarostami e o link para quem, não tendo ido a Sintra, queira ainda ver este invulgar filme sobre a impermanente permanência das coisas do Ser.

(Clique nas imagens para aumentar)



(Para aceder ao filme clique aqui: http://vimeo.com/70968833)

21.1.14

OLHAR O SER, ESCUTAR O TEMPO
Encontros improváveis na «Letra E»


Quem vier no próximo sábado (25 de Janeiro, às 17 horas) à «Letra E» do Espaço Llansol poderá entrar por algum tempo num oásis, em pleno deserto ruidoso do mundo quotidiano que nos envolve. Pede-se apenas que tragam duas coisas: primeiro, a capacidade de não esperar que muita coisa aconteça – mas haverá sempre alguma coisa a acontecer, a dar-se a ver, a cair literalmente sobre nós; depois, ser capaz de se despir de ideias (de ideias feitas, também pelo cinema que mais se vê) e de mergulhar num estado de nudez mental que alimenta a imaginação e a faculdade do olhar.



A festa do olhar, o tempo que se espraia nas imagens, os ritmos do mundo, o mistério da noite – é isso o que temos para oferecer, com o filme do iraniano Abbas Kiarostami Five. Dedicated to Ozu (um filme feito só de tempo e imagem, sem qualquer diálogo), e um dos nossos caderninhos com textos inéditos de M. G. Llansol que entram num inesperado diálogo com esse filme – que Llansol nunca viu. E ainda um desdobrável com vinte poemas minimais, imagistas, de Kiarostami. As ligações à tradição do despojamento e do silêncio no cinema e na poesia estarão presentes, quer através da relação explícita deste filme com o cineasta japonês Yasujiro Ozu (que Daniel Ribeiro Duarte comentará), quer pelos poemas, escritos na tradição do haiku (e também do imagismo americano), também eles revelando evidentes afinidades com este e outros filmes de Abbas Kiarostami. Um feliz «encontro inesperado do diverso».

Nota: A sessão sobre «Llansol e os rostos do tempo» (a pretexto da publicação do Almanaque Llansol de Ilse Pollack), que chegou a ser anunciada na Agenda Cultural de Sintra para este dia 25 de Janeiro, foi cancelada devido ao falecimento súbito do nosso amigo, sócio e coleccionador Alfredo Santos, que deveria estar presente nessa sessão com alguns almanaques das suas colecções.