24.11.16

«CASAS DENTRO DE CASAS DENTRO DE CASAS…»
Nos 85 anos de Llansol

Maria Gabriela Llansol nasceu para a escrita faz hoje oitenta e cinco anos. As suas «casas de escrever» são, desde os primeiros escritos de infância e juventude, «casas dentro de casas dentro de casas», e afinal sempre a mesma casa arquetípica, arcano central desta Obra. 
De cidades interiores de onde se olha para o mundo para lhe ver o corpo e a alma se fez desde sempre essa escrita. E de certo modo se vai fazendo a nossa, num trabalho persistente de presença silenciosa, na transparência luminosa da sua Obra. Na casa de escrever de Maria Gabriela Llansol, casa sempre cheia de sinais e com múltiplas janelas sobre o universo, tudo gira em permanente vibração e devir. Aí, lemos num dos cadernos,«o balanço deste meu, vosso, mundo não tem fim: a necessidade de abrir-lhe as portas é real…».
Neste dia do seu nascimento, há oitenta e cinco anos, num bairro de Lisboa aonde sempre regressava, evocamos alguns fragmentos da sua escrita inédita sobre a casa, as muitas casas que se esfumam no tempo da memória mas permanecem nítidas no da escrita, lugares por excelência da estabilidade inquieta e do devir «audaciante» que a movia – e que é também o móbil que a nós nos faz continuar a olhar em frente.





10.11.16

AS OITAVAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
Spinoza revisitado


Os dois dias das Jornadas Llansolianas com Spinoza, visto através das lentes de fulgor e dos prismas de pensamento de Maria Gabriela Llansol e Spinoza, só poderiam ser intensos e diversos. A intensidade associou-se ao pensamento vivo que, vindo das duas margens do rio que ia correndo pela «Sala da Clarabóia» do Museu de Sintra, foi iluminando e desdobrando a quadrícula translúcida e porosa, aberta a muitas leituras, da Obra do filósofo, com a «mansidão dos seus raciocínios geométricos» a entrecruzar-se com o «luar libidinal» e a «lei do Vivo» que regem a partitura da escrita de Maria Gabriela Llansol.



O trânsito entre os dois lados do rio foi constante, como tinha de ser, Spinoza alimentando o texto de Llansol, este dando uma nova forma à estética escondida na sua Ética, amplificando os modos do seu entendimento, assimilando os seus ritmos secretos, transformando noções em imagens concretas.
O que levou a Sintra, para nestes dois dias darem testemunho, os que vinham da margem de Spinoza e da Filosofia – Diogo Pires Aurélio, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Carlos Couto Sequeira Costa, Bruno Béu – e os que viajam mais nas águas do texto de Llansol – Maria Etelvina Santos, Isabel Santiago,  Cristiana Vasconcelos Rodrigues ou João Barrento, mas também Pedro Proença e os seus desenhos,  António Guerreiro e o seu olhar crítico, o actor Luís Lucas e a sua voz, Daniel Ribeiro Duarte e o seu filme, os artistas do corpo do C.E.M.-Centro em Movimento?





O actor Luís Lucas lê Llansol sob o olhar atento de Spinoza

O que nos moveu a todos foi uma espécie de urgência – um impulso e uma necessidade – que Llansol já conhecia e que a todos animou, incluindo a pequena árvore à sombra da qual falámos, vimos e ouvimos, Prunus triloba spinoziana cruzada de plátano e metrosideros, e cujo tronco, como o de Jodoigne, no exílio da Bélgica, deve ter sentido de novo a mão e o halo de Spinoza, que «tem por hábito deixar-se ficar no tronco, e suscita à volta uma claridade sem limites».




A Maria Gabriela já nos havia aberto o caminho, deixando nele sinais que apenas tivemos de seguir para corresponder ao seu apelo:
Com Spinoza sucede uma coisa estranha: mal me aproximo dele, do seu texto, suas ideias, que se distinguem de palavras e imagens, são suficientes para que se defina claramente no meu campo de trabalho toda uma sequência descritiva… 
... era urgente que a nossa passagem por aquele lugar [] fizesse entrar animais, arbustos e galáxias
na espiral de acompanhamento dos homens ou,
mais simplesmente,
um homem, uma mulher, um cão, um rio. Prunus Triloba e toda uma paisagem de clareza súbita. Uma página entreabriu-se no livro, e vimos Spinoza a espreitar-nos com o seu novo olhar, um olhar à cão, e mal nos reconheceu dizer-nos, ele que, pouco depois, iria expirar repentinamente de angina de peito, «entrem, entrem, é urgente» […]:
companheiros filosóficos, amigos e inimigos da filosofia, haveis de inventar uma estética literária para a geometria, mundos e comunidades singulares…   

Tentámos todos inventar, reinventar, dar a ver e a ouvir, uma estética recoberta por uma ética (e vice-versa), reconstituir uma comunidade sempre singular, entreabrir páginas de livros, de cadernos manuscritos, folhas de escrita de onde foi saltando, sob múltiplas formas, «toda uma sequência descritiva» de um sistema-poema escrito a quatro mãos, reescrito a muitas, entre o polidor de lentes em busca da eternidade neste mundo e a escrevente da Sensualética antevista como «a grande descoberta do próximo milénio».




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(Veja aqui a exposição de Pedro Proença)

E entre as lupas que pontuavam uma das paredes da sala, os quarenta e oito desenhos de Pedro Proença que as olhavam da outra, e a escrita de Maria Gabriela Llansol patente, nos seus manuscritos, em algumas vitrines colocadas entre as duas, desenrolou-se certamente nestes dois dias (e provavelmente também nas noites em que não assistimos à festa) um jogo e um diálogo, uma dança de olhares e trocas que a batuta de Prunus-Triloba-Metrosideros ia conduzindo, à margem do discurso dos humanos, questionante, empenhado em chegar perto da «ideia adequada» deste encontro (o de Llansol com Spinoza, e o nosso com ambos), aberto às muitas vias de leitura que nele se descortinam. Com as suas palavras, os seus corpos, traços e imagens, que não podiam ser mais do que tacteantes, todos procuraram chegar perto da «ciência intuitiva» do «conhecimento jubiloso», entre o rigor da ideia, a vibração da beleza e a alegria que leva à paisagem onde se pode caminhar e existir sub specie aeternitatis

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Breves momentos da performance «O que pode um corpo?»,
pelo «Pátio–Ajuntamento Performativo», do C.E.M. - Centro em Movimento

Como queria Llansol, que o deixou dito «em escólio»:

Spinoza não era o sorumbático que se imagina.

Se abro a Reforma do Entendimento, ouço-o dizer
Distintamente: «Farão os números, meu amor

Sem quantidade, parte da qualidade? Que achas,
Meu sexo de ler? Se te oferecer duas

Rosas vermelhas, duas num único vermelho,             
Como reages? Que eu especulo continuadamente.
Mas quem, senão eu, dispõe matéria bem criada,
No riste do teu ventre?

Direi em escólio ___ há um aquém-afecto, a que
Chamo tristeza, há um além-afecto, que designarei
Por jubiloso conhecimento.


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Maria Etelvina Santos: Affectio - Hommage




(Fotos de: Teresa Huertas, João Barrento, Teresa Projecto, Maria Etelvina Santos, 
Albertina Pena, Helena Alves. Clique nas imagens para as aumentar!)

7.11.16

«O ESCRITÓRIO ESPECULATIVO»
ou «o imenso território do falcão»

Antes de darmos conta do que aconteceu nas nossas Oitavas Jornadas Llansolianas, que decorreram no passado fim de semana em Sintra, deixamos aqui o video que passou recentemente no programa da RTP2 «Literatura aqui…», em que Filipa Leal leu fragmentos de O Raio sobre o Lápis, sobre imagens captadas no Espaço Llansol. É um belo instantâneo do «escritório especulativo» de Maria Gabriela Llansol.


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(pode aumentar o video clicando no canto inferior direito!)

29.10.16

O LIVRO DO EXÍLIO

Está pronto, e será apresentado e posto à venda nas próximas Jornadas Llansolianas, nos dias 5 e 6 de Novembro, o novo livro da colecção «Rio da Escrita» (edição Mariposa Azual) que documenta as Jornadas do ano passado, sobre «Llansol: A Vocação do Exílio». Este volume inclui um extratexto de 48 páginas a cores com fotografias e textos que evocam todos os lugares que atravessam a vida e a escrita de Maria Gabriela Llansol.
Fica aqui uma primeira imagem da capa, e um excerto do texto de introcução ao volume.



Pórtico

Foi já a sétima vez que reunimos em Sintra algumas dezenas de estudiosos e leitores de Llansol para mais uma viagem com o seu texto, que desta vez nos permitiu deambular por um largo espectro de questões relacionadas com o tema da «Vocação do exílio» na existência, nos modos de escrita e na visão do mundo de uma autora como Maria Gabriela Llansol.
As intervenções e os debates, os filmes e as leituras permitiram perceber como a vocação do exílio em Llansol, para além de visceral, é dupla e paradoxal. Há na sua vida, que é a sua Obra, uma tendência natural para, em sentido real e metafórico, se exilar do mundo, do «gregário», do comum, e zarpar para as margens: «nós» – isto é, os de uma estirpe que é a sua e a das suas figuras – «herdámos as margens», lemos já em Causa Amante. Por outro lado, num dado momento do seu percurso acontece o chamamento do exílio concreto, que a levará a viver vinte anos numa Europa do Norte que, de outro modo, não teria conhecido – pelo menos como a conheceu depois da decisão do exílio semivoluntário, forçado pelas circunstâncias de uma guerra que faria nascer muita outra literatura «empenhada», com um empenho que não seria o seu, apesar de, nos dez anos de Lovaina, e mesmo depois, viver imersa num ambiente de contestação do Estado Novo e dessa Guerra Colonial. Mas o lugar de exílio de Llansol estava já assinalado antes, desde a adolescência: é o da Ilha – que tanto pode ser a do quarto onde lê e escreve como a de Robinson, por analogia (por exemplo em Lisboaleipzig, ou já nos diários de juventude), ou a «Ilha de Ana de Peñalosa», o «lugar onde se resiste», por afinidade figural, desde O Livro das Comunidades. []

19.10.16

MONSERRATE:
O JARDIM QUE O PENSAMENTO PERMITE


Foi hoje lançada a antologia de textos poéticos sobre o palácio e os jardins de Monserrate, na Serra de Sintra, uma edição da Sistema Solar/Documenta em colaboração com a Associação dos Amigos de Monserrate, com organização e prefácio do poeta José Manuel de Vasconcelos.
O título – O Jardim que o Pensamento Permite – deriva, como logo se percebe, de textos de Maria Gabriela Llansol, nomeadamente alguns fragmentos do espólio, da época de escrita de Causa Amante, que figuram no volume e de que aqui reproduzimos o primeiro.


No seu prefácio, José Manuel de Vasconcelos esclarece o lugar de Llansol nesta antologia, apesar de não haver nos seus cadernos e livros escrita especificamente centrada em Monserrate:
«… os textos de Maria Gabriela Llansol, pelas reflexões gerais e abstractas que contêm, servem, de certo modo, de átrio à secção contemporânea da antologia. A escrita da autora de Da Sebe ao Ser é, como sempre, o resultado de uma interpenetração de realidades emergentes do fluir vivencial, com um pensamento que as interroga, que não pára de as auscultar, recebendo-as numa fértil e interminável torrente de pulsar fenomenológico. Denotando o texto a abertura e a plasticidade do conceito de jardim, a sua feição mental, e o construtivismo da sua imagem, os poemas que se seguem aos fragmentos llansolianos ganham nitidez, por se inserirem numa linha expressiva que valoriza o subjectivo, o pensamento, a memória, a viagem mental, em detrimento do descritivo. […] Daí termos recorrido à expressão llansoliana para título da antologia, para acentuar justamente essa Monserrate mental…»

Os poetas representados são os seguintes:


12.10.16

VIII JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
O PROGRAMA

Temos finalmente completo o Programa das Jornadas Llansolianas deste ano, em que Spinoza será a figura de referência, como já anunciámos aqui.
Como sempre, o Encontro é aberto a todos os interessados, e terá lugar no fim-de-semana de 5 e 6 de Novembro, no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, a partir das 11 horas. Contamos com a participação de alguns conhecidos nomes de estudiosos de Spinoza em Portugal, bem como de um programa paralelo que, como habitualmente, nos trará aproximações a esta figura-chave do universo de Llansol a partir do cinema, do desenho e da performance.



Transcrevemos a seguir o programa, para mais fácil e imediata leitura:

Oitavas Jornadas Llansolianas de Sintra
LLANSOL E SPINOZA: 
«UMA ESTÉTICA LITERÁRIA PARA A GEOMETRIA»

Uma página entreabriu-se no livro,  e vimos Spinoza a espreitar-nos com o seu novo olhar, um olhar cão, e mal nos reconheceu dizer-nos, ele que, pouco depois, iria expirar repentinamente de angina de peito, «entrem, entrem, é urgente» […]  e no atropelo que se gerou ainda teve tempo para dizer que nos deixava companheiros filosóficos, amigos e inimigos da filosofia, haveis de inventar uma estética literária para a geometria, mundos e comunidades singulares... (M. G. Llansol, O Senhor de Herbais)


Sábado, 5 de Novembro
(Sala da Clarabóia)

MANHà
11h : Abertura

11h30
Painel 1 | Moderação:  Maria Etelvina Santos
– João Barrento (Espaço Llansol)
      «A lei ligeira e breve»
– Carlos M. Couto S. C./ Carlos Couto de Sequeira Costa 
       (Professor universitário e autor / Filosofia, Artes e Teoria Estética)
       Llansol e Spinoza? Le petit cahier bleu

Debate 
                             ALMOÇO

TARDE

15h00
Painel 2 | Moderação:  João Barrento
– Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Professora aposentada da Faculdade de Letras de Lisboa)
       Ler Espinosa em chave poética
– Diogo Pires Aurélio (Professor jubilado da Universidade Nova de Lisboa)
       A Ética segundo Llansol, ou «o espectáculo em cena, que o entendimento oferece à beleza»

Debate
                             Pausa para café

17h00
– Pedro Proença
    em diálogo com João Barrento e Maria Etelvina Santos a propósito da sua exposição de desenhos: 
    «Ética, cabeça de cavalo»
  
18h00                           
– Projecção do filme de Daniel Ribeiro Duarte
    Conversações com Bento (2011, 12’39’’)
    Feito na casa de Spinoza em Rijnsburg e em Sintra
    Conversa com o realizador
Domingo, 6 de Novembro
(Sala da Clarabóia)

MANHÃ

11h00
Painel 3  |  Moderação: Cristiana V. Rodrigues
– Isabel Santiago (Professora de Filosofia / Escola Secundária Emídio Navarro, Almada)
       Os das mãos dadas: «Spinoza e eu» 
– Bruno Béu (Investigador do Centro de Estudos Comparatistas, Universidade de Lisboa)
       «A provocação insólita deste sol»: Que há de necessário entre Llansol e Spinoza?

Debate
                               ALMOÇO

TARDE

15h00
Painel 4 | Moderação: Isabel Santiago
– Cristiana Vasconcelos Rodrigues (Universidade Aberta/Espaço Llansol)
       A leitura disposta de modo espinosiano
–    Maria Etelvina Santos (Espaço Llansol)
       Sob a luz do luar libidinal 

Debate

– Livros novos | Moderação: Helena Vieira
    1) M. G. Llansol, Um Beijo Dado Mais Tarde (2ª edição, Assírio & Alvim) 
    Apresentado por António Guerreiro
    2) Llansol: «A Vocação do Exílio» (Mariposa Azual)
    Comentado por João Barrento
Pausa para café                    

17h00
Leituras:  Spinoza em Llansol
pelo actor Luís Lucas

17h30
«O que pode um corpo?»
Performance pelo «Pátio-Ajuntamento Performativo» do C.E.M.–Centro em Movimento
(Direcção: Sophia Neuparth)


E teremos ainda em exposição manuscritos, dactiloscritos e livros ligados a Spinoza, do espólio de M. G. Llansol, e não faltarão na sala lupas – Spinoza foi polidor de lentes – que permitirão ler frases significativas, suas e de Llansol, dispersas pela sala e de outro modo ilegíveis. E como sempre, poderão adquirir-se, para além de todos os livros disponíveis de Llansol e sobre a sua Obra, alguns dos Cadernos das nossas sessões, com textos inéditos sobre os mais diversos temas, caderninhos de notas com motivos spinozianos, marcadores «Spinoza», lápis do Espaço Llansol, postais…




5.10.16

O LIVRO DA «RAPARIGA QUE TEMIA A IMPOSTURA DA LÍNGUA»...
… apresentado pela poeta que «vive por causa do amor»

Ontem foi dia de falar de Um Beijo Dado Mais Tarde, na nova edição da Assírio & Alvim. A poeta Marta Chaves falou-nos do livro, o actor Diogo Dória leu, no final, algumas passagens, e João Barrento abriu assim a tarde: 



E a Marta falou de Um Beijo dado Mais Tarde como quem o traz consigo há muito tempo, exactamente desde que ele apareceu, em 1991. Transcrevemos algumas das passagens do seu texto de apresentação:


                                                           FULGOR E MISTÉRIO
«Um eu é pouco para o que está em causa»

[…] Quando fui buscar o exemplar da reedição deste livro (a seguir referido como BDMT), propositadamente não o retirei do envelope que o continha. Passaram-se mais de três horas até que o abrisse. Quis prolongar esta cena, adiando por isso a visão do objecto. Abri o envelope e li o nome: Maria Gabriela Llansol. Pensei que o nome das pessoas, lido depois de já terem morrido, ganha uma dimensão particular de presença. Parece ele próprio uma oferenda. Assim me aconteceu com esta edição que hoje temos aqui, especialmente enriquecida com as fotografias de Duarte Belo. Na capa o verde, tal como o do vale, era verde. Fiquei feliz.

Não poderei falar deste livro enquanto unidade, não me é possível lê-lo isoladamente dos livros de Maria Gabriela Llansol que li antes e depois. Este livro absorve e é absorvido pelos outros. Se tentasse falar sobre ele per se, correria o risco de colocá-lo em lugares onde não pertence. Evitarei descer por esse escorrega perigoso. […]
Estou aqui para dar um testemunho. […]    
[] Desde o início destas minhas leituras, aceitei com uma familiaridade confortável o convívio que me ofereciam. Nos livros de Llansol ficamos no contacto com as cenas fulgor (expressão apaixonante e apaixonada criada por Llansol, que concentra uma morada de vibração e alegria, onde o real iluminado se manifesta), ficamos numa imersão que não carece de água e por isso não traz o risco de afogamento, mas antes de uma limpeza a seco, pureza, ascendência e transformação, sem que haja fim ou finalidade. Esta é a possibilidade: viver o vivo sem sentir aprisionamento nem medo. Trata-se pois de uma despossessão libertadora.
Na generosidade de Llansol não há extravagância, não há teatro, há rendição. Rendermo-nos é ligarmo-nos, e a sua obra oferece-nos a vivência de encontros únicos nos espaços e tempos que atravessam. Há o prazer da desordem vivido numa acepção de liberdade e libertação. É uma dádiva sentir-me amada por ler um livro, sobretudo quando me encontro num desassossego íntimo, como íntimo foi o meu modo de relacionar-me com ela através da sua escrita. O desassossego que conduzia Llansol às viagens, a mim conduz-me aos seus livros. 
Enquanto legente não procuro chegar a nenhum fim e nem a lança da sua morte na minha vida me deu esse sentido, pois que a cada leitura há uma renovação de votos, há um caminho que se abre para o meu ser e portanto esse acontecimento não abrandou o meu amor nem a sua existência em mim.
[]
Ao contrário do verso de Celan que Maurice Blanchot traduziu como le dernier à parler (o último a falar), Llansol, para mim foi a primeira a falar. Tinha dezassete anos quando comecei a lê-la e ter sido a primeira a falar não sucedeu exclusivamente em virtude da minha idade, mas sim pelo inesperado que a sua voz ofereceu ao meu mundo. Celan escrevia para permanecer humano, Llansol concebe um mundo humano que aqui viva (BDMT, p. 122).
Em Um Beijo Dado Mais Tarde, aprendi a ler tal como Témia, a rapariga que temia a impostura da língua. Quantas vezes como ela, sentimos uma nostalgia infinita? Quantos de nós adormecem a suplicar por lugares de aprendizagem? Aprender a ler é sair do negror, da cinza da melancolia (BDMT, p. 48) para o fulgor dos encontros e do encantamento. Com Llansol não há perda, há labor e transformação.
[…]
Que romance será este? É um romance que não o é, e que foi escrito para que o romance não morra, como referiu Llansol no seu discurso de agradecimento do Grande Prémio de Romance e Novela de 1990, atribuído a Um Beijo Dado Mais Tarde, pela Associação Portuguesa de Escritores.
Llansol escreve para que a língua não morra aniquilada pela sua própria impostura. A liberdade na escrita, torna apreensivos e inclusivamente afasta muitos leitores. A sua velocidade pessoal dispensa contornos e formatos. É surpreendente de facto, mas não implica uma lei e tão pouco pede ao leitor que aceite coisa alguma. Não há no seu texto algo de sobrenatural, há um modo de relacionar-se com a vida, que não sendo vulgar, não o torna menor. A falta de sentido atormenta-nos a todos, e é exactamente a essa falta ou ao sentido que nos é imposto pela língua, que Llansol oferece a sua indiferença activa.

Importou-lhe retirar da palavra o sentido de utilidade, essa função que a subjuga e não conduz necessariamente ao encontro entre os humanos. A palavra é tomada enquanto elemento que pode guiar-nos ao sonho sobre o princípio do princípio antes da contaminação que vem depois. A palavra que permite brincar ao pensamento enquanto somos vivos, sendo que conforme Maria Filomena Molder, pensar quer dizer precisamente caminhar em direcção a um que está à nossa espera. Entremos então na palavra como vale encantado, não entre duas montanhas, mas entre os humanos para que possa fazer de nós vivos no meio do vivo (Lisboaleipzig, p. 120).
[…]
A sua vivência é atravessada por um movimento de aproximação, há um intuito relacional que se configura nos encontros entre pessoas e objectos, pessoas e lugares, figuras e tempos. A escrita existe enquanto suporte de celebração não pelo modo como diz, mas por dizer. Não é a forma textual que interessa, mas sim o acto enquanto movimento. Como quem tem um falcão no punho e não consegue deter esse animal veloz, o mais rápido do seu reino. O que imprime na escrita de Llansol o seu carácter de alteridade é uma geografia rebelde que não se quer circunscrita a um campo de entendimento com razões ou fundamentos. O que importa não é que a palavra se ajuste ao corpo de pensamento que a lê, mas que justamente através dela, esse corpo se liberte e viva para além da linguagem, num fora-de-si. Esta postura implica capacidade rítmica e isto sugere-me que quem sente dificuldade em ler Maria Gabriela Llansol, talvez o sinta por não conseguir entrar no ritmo, o que redunda numa falta de compasso.
[…]
Llansol não encara a natureza nem os seres como algo que pode vir a dominar. Penso que prefere a presença das coisas para além de coisas que são, ser leal à natureza, à sua origem e possível mutação, numa relação de afinidade original, porque é perpassada pela sua própria vida, sem leis nem redis. O poder, na sua acepção mais estrita, afasta a vida possível, deixa restos, e são esses restos mal olhados, mal amados que interessam a Llansol. Nem sempre o poder e a língua são justos.
[…]
Ficamos a saber na primeira página de Um Beijo Dado Mais Tarde, que na casa (casa da Rua Domingos Sequeira), não se administrava bem a Justiça da língua. Pressentimos que a língua, mesmo quando não está oculta, pode não dizer, não falar.  Há algo de que se desconfia, um medo do engano, de ser trapaceada pela língua. Ainda assim, quem duvida decide sentar-se numa poltrona, a fazer companhia a toda esta luz ressentida. Estamos num lugar/cena algures entre o nascimento e a morte, entre a alegria sobre a terra e tristeza no paraíso. Quem nasce acolhe ou é acolhido? Há também quem morra enterrado por um simples olhar: um filho bastardo, por exemplo, como neste livro.
Em Um Beijo Dado Mais Tarde, Llansol diz-nos: Numa história, há (ou não há) um momento a que se chama sublime. Normalmente breve. Como penso que um leitor treinado já conhece todos os enredos, quase só esse momento interessa à escrita (BDMT, p. 62). Sublime é precisamente o nome que Llansol dá à escrita e é nesse exercício que está o que importa desvendar.
Havia um segredo, diz-nos o texto, mas diz-nos também que há coisas que se revelam silenciosamente e se adiantam a nós pelo facto de serem vistas por quem lhes tira o véu, por quem duvida se as coisas existem como prova de existência delas próprias ou se nós as vemos ou inventamos para que possamos existir. A disponibilidade e disposição para ver/ler, expande e leva o pensamento em caminho.
A casa que habita este livro é a casa da Rua Domingos Sequeira, em Lisboa. Casa da infância de Maria Gabriela Llansol. A propósito de outra casa, creio, Llansol escreveu em Um Falcão no Punho:  É a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém. Confesso que é das frases que mais me marcaram nas minhas leituras. Maria Etelvina Santos relembra-nos na introdução ao Livro de Horas V (O Azul Imperfeito), que Llansol nomeava as casas onde viveu como passagens-metamorfose. Esta expressão traduz a ligação e o reconhecimento entre paisagens e figuras, o inevitável resgate da origem na direcção do desconhecido. Aprendemos que importa que antepassados e objectos, respirem e sejam baptizados por um raio de sol que os ilumine e resgate do mau silêncio, do não-dito. Entregues à luz, encontrarão a serenidade. Assim se dá um beijo que preenche o vazio, um beijo que se dá mais tarde.
Quando nos dispomos, por obrigação ou vontade íntima, a visitar os lugares do nosso passado, quando olhamos para as heranças das vidas que nos antecederam e que de certo modo antecipam e ditam coisas em nós, quando a elas regressamos, tem de haver algo que ligue este caminho difícil entre três tempos, passado, presente e futuro, algo que reúna o que se herda e o que se escolhe guardar ou transformar. Em um Beijo Dado Mais Tarde, esse algo é alcançado através de um dom poético, quando ouvimos, por exemplo, Bach cantar uma música que faz de corredor no corredor. O sublime facilita assim um caminho para o real que se apresenta. Em Llansol há uma consciência aguda da fragmentação que atinge as nossas vidas, das feridas entre voo e queda, mas há também uma necessidade de congregar a nostalgia imensa e infinita que percorre a existência. É um desejo difícil de concretizar.
Fechar uma porta sabendo que não mais a poderemos abrir, pode ser uma sentença, um dito para sempre, se assim o quisermos entender. Equivale ao esvaziar o guarda-roupa de alguém que morreu. Fecharmos a porta da casa da nossa infância é também despedirmo-nos de uma parte que ficará ali, sem nós, num para sempre, e avançar com outra que nasce dessa morte.
Llansol teve uma vida própria, uma vida com uma maturidade que não desiste de olhar para o que já foi vivido, não como quem relê, mas sim como quem lê, como alguém que está disposto a conceber-se até à morte no sonho acordado dos afectos e que intensamente procura não adoecer com as feridas causadas pelo real.
A sua escrita é marcada por uma transparência invulgar, por mais que nela seja apontada uma densidade impenetrável que necessita ser desvelada, quando de facto para mim sugere um campo aberto. Sentir a vida, mais do que pensá-la, vivê-la e passar com ela e nela, não por ela. Vivê-la de modo cientemente humilde através de uma tomada de conhecimento afectivo. Não é uma escrita que fale do ser humano mas de ser-se humano. É difícil não nos perdermos de nós próprios. É fácil perdermo-nos dos outros. É difícil desembaraçarmo-nos de uma língua pesada e imposta, e Llansol desata os nós da língua para abrir a língua e não os nós.
Oferece-nos uma visão de um mundo que vai além da força ou fraqueza dos objectos e figuras amados. Parece-me que lhe interessa sobretudo a possibilidade de movimento que os habita e é nela que lhe interessa participar: no movimento quase musical que os investe ou que pode ritmicamente ser investido neles. No seu mundo, as imagens ganham existência através do corpo de emoção que produzem em quem vê ou lê e assim o que há de amor em cada parte do ar / é-(lhe) enviado com nome próprio (BDMT, p. 69).
Para Llansol, os bens sobre a terra são cinco: O conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver. Cinco bens entrelaçados, que se alimentam mutuamente, pois que o conhecimento traz abundância, a ponto de tornar generosos os homens (BDMT, p. 62), e porque para ela o humano define-se pelo face a face ao Amante, de que o corpo é a manifestação presente, e o texto a ausência que se manifesta (Lisboaleipzig, p. 130). 

(Fotografia de Inês Dias)