19.6.18

O TEMPO DE HERBAIS E OS LABIRINTOS DA ESCRITA
Apresentação do Livro de Horas VI

Foi no passado sábado, uma vez mais casa cheia, novas presenças, ambiente «leve e jubiloso», que no final da sessão, na animada conversa com o público, haveria de «abrir caminho a uma conjectura grave» (para evocar Llansol no começo de Parasceve), a da busca essencial da «verdade» deste Texto.
João Barrento e Maria Etelvina Santos conduziram a sessão, abordando as duas vertentes maiores deste novo Livro de Horas: as idiossincrasias e as oscilações próprias do «tempo de Herbais»(1980-1984) e os múltiplos rios de escrita que o atravessam e se projectam no futuro, até meados dos anos noventa.


João Barrento começou por situar a matéria deste novo livro de inéditos (que, com os cinco anteriores, perfaz já um total de 2.300 páginas editadas) nos últimos anos do exílio belga. O Livro de Horas VI é uma radiografia muito particular de um lugar e de uma época. Lugar e época concentracionários, mais do que os quinze anos anteriores do exílio. A questão essencial foi a de saber como podem um lugar e um tempo ser tão determinantes de uma obra e de uma escrita. Isto aconteceu em Herbais (e não tanto em Lovaina ou Jodoigne) porque aí o simples lugar geográfico se transforma em Lugar, locus/logos, lugar de sentido e de um discurso próprio, mais carregado de tensões. E o tempo, mais do que os trabalhos e os dias (que este livro também espelha), é um tempo do , de uma forma de estar-aí inquieta e activa, que gerou muita escrita, «tempo suspenso» também, na espera da publicação de vários livros e na expectativa de um regresso a Portugal. O tempo de Herbais presente neste Livro de Horas foi um tempo duplo, fotografia a negativo e positivo, num lugar com dupla face, visto ironica e nostalgicamente como Air baie (a baga do ar, algo de precário e isolado) e Hebraï (a terra prometida – que não correspondeu totalmente à promessa).


Maria Etelvina Santos abordou a segunda vertente significativa deste tempo e deste livro, a dos muitos livros e projectos de escrita que nele se concentram. Partiu da noção de «passagens-metamorfose», importante para perceber a génese dos textos de Llansol, suas figuras, desvios e transformações nos projectos de escrita, com a finalidade de dar a conhecer a estrutura deste Livro de Horas VI, e a opção de não incluir nele algumas páginas escritas em Herbais (O Livro de Horas V, ao reunir os trinta anos da matéria pessoana, já inclui cerca de 350 páginas escritas neste lugar da Bélgica). Estabeleceu-se a relação entre os Livros de Horas III e VI, e também a ligação entre as duas primeiras trilogias e os livros seguintes, uma vez que com a mudança de Jodoigne («a casa das beguinas») para Herbais, estava concluída a primeira trilogia e iniciada a segunda, que, a partir de Causa Amante (já com a presença de Luís M., Comuns ou Camões, no Cabo Espichel), vai definir o caminho para o «dom poético», a segunda fase da Obra de Llansol, de que Herbais, no seu grande isolamento e intensidade, foi o núcleo irradiante. Herbais, diz Llansol, será «o lugar de encontro de Infausta, de Aossê e de Bach», mas também de outras figuras que a partir daí terão lugar de destaque na Obra, como Joshua e Hölderlin, de que o Livro de Horas VI é revelador. Como a autora explica numa elucidativa página deste livro, a escrita de «Com João», primeiro título para Da Sebe ao Ser, iniciada em Herbais, vai dividir-se em dois livros: Contos do Mal Errante, escrito quase de forma torrencial durante todo o ano de 1982, sobrepõe-se ao projecto anterior, encerrando no seu âmago o desejo de resolver um tempo de exílio que, embora decisivo, chegava ao fim (esta escrita, tendo passado para o livro praticamente sem alterações, não foi incluída neste Livro de Horas VI); e Da Sebe ao Ser, cuja escrita definitiva se arrastará até aos primeiros meses de 1985, já em Portugal (escrita não incluída no Livro de Horas VI, por abranger cerca de cem páginas em muitas anotações dispersas, que farão parte de uma próxima segunda edição da obra). A partir de meados de 1984, quando já está decidido o regresso a Portugal, começam a aparecer regularmente as figuras de Uriel (da Costa), Hölderlin, Myriam, Joshua, Giordano Bruno, que se encaminham para o futuro livro Hölder, de Hölderlin. Daí que se tenha optado por prolongar as datas deste Livro de Horas até Julho de 1985, quando Llansol está já (transitoriamente) no Mucifal, para ser possível incluir os dois projectos em curso, que são núcleos coesos: «O Livro de Uriel» e «O Livro de Joshua-Hölder». A incluir toda a matéria escrita durante os anos de Herbais, o Livro de Horas VI seria um volume com cerca de 900 páginas. É de Colares, da casa de «Toki Alai», que partiremos para um futuro Livro de Horas.


Depois da projecção do video Herbais foi de Silêncio, que documenta o lugar e a casa da última fase na Bélgica (e que se pode ver aqui), o actor Diogo Dória fez uma luminosa leitura de algumas páginas que espelham a intensa vibração, as oscilações e tensões do tempo duplo, ou múltiplo, dos dias de Herbais.



Uma pergunta de Diogo Dória, depois da leitura e a partir de uma das passagens lidas, abriria um largo tempo de discussão e de interrogações: que espécie de «verdade» conduz esta escrita, nomeadamente na relação de autenticidade que estabelece com os seus leitores, por parte de uma «escrevente» que «gostaria de fazer parte do número germinal dos que não enganaram», na história da literatura universal. E desta questão nasceram outros fios de discussão, nomeadamente o das eventuais afinidades da escrita de Llansol com a de outros escritores, portugueses e estrangeiros (e surgiram nomes de romancistas inovadores do século XX, como Virginia Woolf, Musil ou Kafka; ou autores como Clarice Lispector e Maria Velho da Costa, poetas como Herberto Helder, pensadores como José Gil, músicos como Emanuel Nunes...): e ainda o dos factores que, nesta escrita, levam criadores de outras áreas – as artes plásticas, a música, a fotografia ou o cinema – a lê-la a partir da força da imagem nos seus textos, ou dos ritmos, cesuras e formas de composição particulares que os distinguem.

E à noite chegar-nos-ia ainda a surpresa da reflexão posterior de uma das amigas presentes, a professora de Filosofia Isabel Santiago, a propósito da questão nuclear de onde toda a discussão partiu, a da «verdade» de um texto como o de Maria Gabriela Llansol (que, em última análise, só pode estar nele próprio, na sua linguagem e no impulso que o move: partir de «um primeiro pensamento verdadeiro», como faz Spinoza na busca da sua verdade, para chegar a compreender a «coincidência» de cada ser consigo mesmo, na definição da própria Llansol). Escreveu a Isabel, entre muitas outras considerações, de Platão a Nietzsche, de Spinoza a Kant, e retomando alguns dos tópicos que foram sendo discutidos na conversa final:
«A questão do Diogo foi importante porque aclarou ainda mais a razão do pedido de ir de mãos dadas com Spinoza. Quando o Diogo relembra e defende, a partir do que leu, que Llansol é da verdade porque não quer enganar o leitor, lembra que ela não está a dizer essa verdade que é para todos correspondência entre o dito e o real.
[...]
Ainda somos herdeiros dos que tomam o conhecimento como forma de domínio do mundo, e não raros são os dias em que sabemos que entre ciência e poder as relações são as linhas de poder/potência e dos poderosos do mundo. São, por isso, os senhores do «território» os da ciência e os do poder. Num certo sentido, são os mesmos e perigosamente confundem-se.
[...]
Quando Llansol diz que não quer enganar, ela está a dizer que não quer esta verdade, mas vai mais fundo, como Nietzsche, ela não quer o homem teórico, que é sempre o homem do conhecimento e da moral... Ela não quer o conceito nem a definição, ela quer a imagem.
[...]
E isto eu só percebi hoje, no âmago da discussão: a importância da intuição para ela. A mesma que tem para Spinoza, que a considerou o conhecimento último e, por outro lado, o contributo decisivo que a diferença entre imaginação reprodutora e criadora em Kant tem para percebermos todo o mecanismo da génese transformativa das personagens/autores e outros seres na escrita e na Obra de Llansol.
[...]
Essas imagens errantes não nos devolvem o conhecimento do mundo, até porque não seguem a orientação dada pelo entendimento, mas a beleza do mundo. E a imagem da beleza pertence à arte. Eu não sei se Llansol é uma mulher da literatura, mas sei que ela é uma artista. Sem território: o texto oscila sem género nos géneros, mas ela é musical e plástica. O segredo está nessa permanência na instabilidade da imagem ou da sua entrega à imaginação criadora e para sempre esta recusa em estar no «território» [a zona dos poderes]. Ela não deve escrever apenas, parece-me. Ela constituiu, com o que escreveu e pensou, um imenso catálogo ou álbum das imagens do mundo que mais ninguém viu. E isso exige muito de nós, leitores, que temos de pedir as mãos uns aos outros para não soçobrarmos no pélago do seu texto, que está para além daquilo a que chamamos texto [o platónico «pélago da verdade», na intuição].
Foi isto que pensei durante o caminho e agora entrego ao caminho que se faz para dialogar com o João e os do Espaço, ou melhor, do lugar em que Llansol nos deixa ver ou intuir o que foi por poder ter sido: é um ver sem realidade, mas real, ou, como na conjugação verbal, um mais-do-que-real.
Isabel»

8.6.18

JUNHO NA «CASA DE JULHO E AGOSTO»

Vamos ter ainda em Junho duas sessões públicas no Espaço Llansol, antes das férias de Verão.
No sábado 16, às 17 horas, a apresentação do novo Livro de Horas («Herbais foi de Silêncio...») com inéditos de M. G. Llansol, que cobre os últimos cinco anos do exílio da Bélgica. Para além da apresentação do livro, mostraremos um video sobre o lugar e a casa de Herbais, e o actor Diogo Dória lerá excertos deste livro com momentos de grande intensidade e diversidade de escrita.
No sábado 30, também às 17 horas, a artista-poeta Marta Bernardes vem expressamente do Porto com a sua cadela Sol para uma leitura encenada a partir de dois pequenos textos em que o cão Jade de Llansol está no centro: Amar um Cão e o remake de Hélia Correia O Regresso de Jade. Esta sessão é para todas as idades! Também as crianças terão o seu lugar no espectáculo que ocupará o pátio da Casa de Julho e Agosto!


27.5.18

OS «FILHOS DO NADA» 
NA «COMUNIDADE SEM REGRA»

Quanto tempo
duram as obras? Até
Estarem prontas.
Pois enquanto exigirem esforço
Não caducam.
(Bertolt Brecht)


Tivemos ontem mais uma sessão da «Casa de Julho e Agosto», desta vez com a visita de um grande grupo do «Clube de Leitura de Autores Clássicos» da Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão. Mas muitos outros vieram, presenças a que já nos acostumámos na sala grande da casa.
De dois clássicos se tratou, clássicos do misticismo ibérico, islâmico e cristão, figuras importantes na Obra de Maria Gabriela Llansol: Ibn 'Arabi, de Murcia, e S. João da Cruz, de Fontiveros.


Falou-se da actualidade destes autores, num momento em que as questões da tolerância, dos conflitos, das guerras religiosas, de neofascismos e populismos voltaram a estar na ordem do dia. E de uma ideia llansoliana do humano, partilhada com as suas figuras maiores, orientada pelos pólos do fulgor ou da beleza (a jamal do misticismo sufi) e da justiça, de uma visão não hierarquizada do mundo.
Vimos como, em ambos os casos, a via da resistência (que em Llansol dá pelo nome de «Ilha de Ana de Peñalosa, a imagem com que se resiste») é a do esoterismo (místico), contra o exoterismo das religiões oficiais, com os seus rituais e encenações, que facilmente as transformam em instrumentos políticos. Llansol coloca esta questão em termos radicais, no ensaio sobre um outro místico ibérico, Ramón Lull, quando escreve: «há dois mundos – o Mundo e a Restante Vida. Irredutíveis entre si...» Neste universo alternativo da Restante Vida, que é o da «Comunidade sem regra», Llansol insere várias figuras clássicas de místicos (ibéricos, árabes, flamengos, alemães). Para ela, o místico (que, lembre-se, não é necessariamente aquele que se afasta do mundo para pairar em regiões etéreas, mas alguém dotado de uma espiritualidade sensível, muito próxima do corpo e da imanência das coisas) é aquele/aquela que «vem testemunhar sobre o único necessário – o terreno comum, primordial e verdadeiro, onde se poderiam encontrar todos os homens, para lá das escolhas religiosas particulares e do lugar que a cada homem coube nas respectivas sociedades.»
Não se trata de utopismo, mas de uma espécie de «visionarismo ingénuo» (no mais puro sentido deste termo), da expressão de uma vontade de pujança – não de poder! – sempre an-acrónica, porque a História e os poderes lhe não permitem actuar no seu tempo...

Falou-se ainda dos modos particulares como tudo isto se configura em Ibn 'Arabî – o árabe heterodoxo, representante maior da vertente sufi do Islão, a mais original, contemplativa e até hoje com um alto grau de heterodoxia – e João da Cruz – o cristão rebelde, fundador de uma ordem renovada, a dos Carmelitas Descalços –, daquilo que os aproxima e daquilo que os distingue. Em ambos, estamos num espaço do entresser, num universo intermediário onde o espiritual toma corpo e o corpo se torna espiritual. Em ambos, a escolha é a de uma via interior que não é a das respectivas ortodoxias, e que Llansol também parece ter escolhido quando, ao se exilar na Bélgica, rompe com uma religiosidade mais convencional que leva consigo, para se aproximar definitivamente de formas de espiritualidade que a levam, por exemplo, a usar a palavra -Eus para designar Deus, passando do plano da abstracção metafísica para o da experiência individual interior.


Falou-se também, indo ao encontro do Clube de Leitura dos Clássicos, das implicações políticas e sociais deste tipo de vivência religiosa, cristã ou muçulmana. E lembrou-se como a vivência religiosa, da mais ortodoxa à mais herética, foi desde sempre espelho de situações políticas e sociais, e mesmo de modelos económicos. E culminámos com o comentário de um texto programático da Obra de Llansol, o Prólogo d' O Livro das Comunidades, que esboça já um «perfil de esperança» para o «jardim devastado» do mundo, com a sua «teoria dos três Vazios», que podem corresponder às três noites daquele livro, à via de ascensão e iluminação dos dois místicos tratados e das figuras de Llansol em geral, pela senda da metamorfose e da «metanoite», em direcção à Luz, a luz dos espírios livres dos rebeldes desta Geografia, «uma claridade que já é madrugada», como lemos em Finita. É esta a via de que se falou no final, presente na «mística nupcial» de João da Cruz, nas visões de Hadewijch de Antuérpia, nos sermões de Eckhart ou nas Iluminações de Meca de Ibn 'Arabî.
Da viagem se falou ainda, o grande motivo destas figuras e também de Llansol – viagem mais imaginante em Ibn 'Arabî, mais alegórica em João da Cruz, em direcção a um horizonte que pode ser o da «desnudez do espírito» (na Subida ao Monte Carmelo) ou o do «astro do despojamento» nas Iluminações do mestre sufi.

E como sempre, lemos textos de Llansol (por Helena Alves) e das suas duas figuras de místicos (por Maria Etelvina Santos). E ouvimos gravações desses textos cantadas por Amina Alaouy (do Canto do Desejo Ardente, de Ibn 'Arabî) e por Amancio Prada (das Canciones del Alma de João da Cruz).

22.5.18

«CONVERSAÇÃO ESPIRITUAL»
Dois místicos ibéricos no mundo de Llansol

No próximo dia 26 de Maio, pelas 17 horas, receberemos no Espaço Llansol o «Clube de Leitura de Autores Clássicos» da Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão, com a sua activa bibliotecária, Graça Batista, para uma sessão sobre dois clássicos do misticismo ibérico: Ibn 'Arabî de Murcia e São João da Cruz, ambos com uma presença relevante na Obra de Maria Gabriela Llansol, logo a partir d' O Livro das Comunidades. A sessão, aberta como sempre a todos os interessados, pretende ir ao encontro do tema que ocupa aquele Clube de Leitura neste momento, o da «tolerância/intolerância religiosa» e dos «conflitos e vivências religiosas – cristãs e muçulmanas – e sua extensão literária, política e social».
Conversaremos sobre o tema, leremos textos de Llansol e dos dois místicos, ouviremos um deles (João da Cruz) cantado e poderemos ver em exposição muitos manuscritos, livros, desenhos do espólio de M. G. Llansol em torno destas duas figuras do misticismo ibérico.

17.5.18

LLANSOL NAS NUVENS

Em 1991, ao agradecer o Prémio da Crítica para Um Beijo Dado Mais Tarde, Maria Gabriela Llansol falou das nuvens, e do que em português significa estar nas nuvens («na nuvem primordial, quando o inomeável suspira por ser reconhecido pelo nomeado») e também cair das nuvens («mesmo no meio do texto. No real onde ele é mais nó. Mais denso»). 
Também nós, dez anos depois da sua partida, nos sentimos nas nuvens, caídos das nuvens, com o acolhimento, pode dizer-se universal, que o seu texto vai tendo. A poucas semanas da saída da primeira trilogia, «Geografia de Rebeldes», em edição americana da Deep Vellum (Dallas), chega o número de 8 de Maio dessa «nuvem primordial» da cultura literária, The Times Literary Supplement, com a crítica dessa edição, colocando Llansol entre «os mais fascinantes escritores portugueses do século XX» e referindo a sua primeira trilogia como «espantosa, de outro mundo e altamente original». Reproduzimos o início e o fim da crítica de Anne Dermott a esta edição.

16.5.18

UM FALCÃO NO PUNHO
CHEGA AO MÉXICO


A revista mexicana La Colmena, da Universidad Autónoma del Estado de México, publica no seu último número (o 96, de Outubro-Dezembrp 2017) um significativo fragmento da tradução castelhana de Um Falcão no Punho por Mario Grande e Mercedes Fernández-Cuesta. Trata-se da importante entrada do dia 3 de Junho de 1983, com considerações decisivas para a compreensão da sua escrita: «A escrita como busca de verdade», «Génese e significado das figuras», a figura do «ledor» e do «legente», o lugar de Ana de Peñalosa, «O devir como simultaneidade» ou «O texto, lugar que viaja».

«FULGOR»
LLANSOL NO CLAUSTRO DA CATEDRAL DE LUGO


Nieves Neira Roca, uma legente de Lugo, na Galiza, teve a ideia «fulgurante» de pôr um grupo de mulheres a fazer uma «leitura dançada» de textos de Llansol no claustro da catedral de Lugo. O evento teve lugar no passado dia 11, e com ele se pretendeu experimentar outros modos de ler. Nieves escreve, no texto que acompanha o convite para este ensaio de leitura:

Nieves lê, as pedras escutam...

«'Legentes' chamava Llansol aos leitores, para dar ênfase a essa actividade de criar o livro continuamente, actividade que é como um encontro amoroso, quando um ser e um texto se transformam mutuamente.
Como lemos? Lemos o livro inteiro? Possuímos a leitura como estamos acostumadas a possuir outras coisas? Ou deixamos que uma frase nos lance de novo na paisagem?
No claustro da catedral de Lugo, na sexta-feira 11 de Maio, às 18 horas, várias leitoras se reunirão para experimentar outros modos de ler. Para delinear a postura de um corpo sentado, um corpo em movimento que lê a um tempo o texto e o espaço. Para ilimitar o prazer do texto e, como quem cose, dar pontos na pedra com a linha que se solta da frase.
O texto de Llansol constrói-se com o que ela denomina de 'cenas fulgor', clareiras na escrita, luz que se abre no texto, subordinada apenas ao móbil de uma atmosfera... ou de um corpo que dança. Assim, as leitoras participantes lerão apenas em voz alta aquelas frases fulgurantes de cada livro escolhido desta autora, frases que despertem o afecto. E o espaço acolherá esse texto, como se fosse um livro que não se escreve.»

Ler a um tempo o texto e o espaço...

O projecto foi de Nieves Neira Roca, María Corral Fernández e Marta Castro, no âmbito de um curso sobre «Novas tendências na edição literária». E os fragmentos lidos serão editados brevemente, em tiragem limitada (acessível através do endereço amboaeditorial@gmail.com).


16.4.18

LLANSOL NA REVISTA DIAPHANES, DE BERLIM

O último número da revista multidisciplinar de Berlim, a Diaphanes, que se publica em inglês e alemão, inclui no seu último número uma apresentação da relação de Maria Gabriela Llansol e a sua escrita com o místico sufi Ibn' Arabî, que marca presença nas suas obras entre finais dos anos setenta e meados dos anos noventa, concretamnte em livros como Finita e Inquérito às Quatro Confidências.
Os textos de Llansol e a introdução de João Barrento podem ler-se nas páginas seguintes numa das duas línguas da revista.








12.4.18

PATRÍCIA E GABRIELA
A história continua...

Depois de ter estado connosco no Espaço Llansol no último sábado, a escritora Patrícia Portela faz o seu próprio balanço dessa conversa na sua página habitual do último JL, acabado de sair. Está tudo aí, Patrícia fala com Gabriela e dá conta de uma ligação, não perigosa, antes imprevista e duradoura. Assim: «gosto de te ler porque nunca se pode, nunca se deve, nunca se consegue ler-te até ao fim. Não tens caminho, só tens viagem. Tudo são passagens em ti, como os dias. Como as horas. Como o tempo. Como nós. afinal, não é?...»
Leia-se tudo aqui:
Obrigado, Patrícia!

8.4.18

«UM LIVRO ACONTECE-ME...»
PATRÍCIA PORTELA NO ESPAÇO LLANSOL

No ciclo «Llansol: A Luz de Ler» tivemos o privilégio de receber no sábado no Espaço Llansol a escritora Patrícia Portela – que a si mesma se vê, de preferência e à semelhança de Llansol, como «escrevente» (no tempo progressivo e activo do verbo e do gesto de escrever), alguém a quem os livros (que neste caso já são muitos) «acontecem» e vão «fermentando» até desabrocharem, mas sem nunca serem flores para a eternidade.
Patrícia Portela é uma criadora de múltiplas vocações – o desenho, a performance, a cenografia, o teatro, a escrita infantil e tantas outras, mais ou menos narrativas ou inclassificáveis. Vive em Antuérpia – o lugar das beguinas nómadas, Eleanora e Margarida, e da «casa do livro» que é a tipografia de Plantin-Moretus em Na Casa de Julho e Agosto –, mas tem vivido e trabalhado em permanente itinerância, os seus textos são também «lugares que viajam» e se movem entre géneros, formas, registos, num espaço de «liberdade livre», infixo e sem fim, como o dos livros de Llansol.
Das suas ligações a esses livros nos falou Patrícia Portela, desde o dia em que, com catorze anos, um tio-leitor e subvertor de cânones lhe pôs na mão um primeiro livro da nossa escrevente. A semente haveria de dar frutos, desviando-a de outras dependências mais acomodadas, num percurso artístico e de escrita em que a criação de mundos paralelos, a capacidade de «tornar a ausência presente», a construção de um «projecto do humano» próprio ou a transformação em escrita de uma «ordem figural do quotidiano» são desde há muito oferecidas por Patrícia Portela aos seus leitores e espectadores.
É o que acontece com o seu último livro, Dias Úteis, do qual nos leu o primeiro capítulo («Segunda-feira»), que funciona – com o «Prefácio fora de Jogo» e a «Didascália» que o antecedem – como um (muito llansoliano) conjunto de «instruções de leitura» para esta e toda a outra sua escrita, lembrando ao leitor que só vale a pena ler se for para «fazer a diferença», que as palavras são para trabalhar como coisa plástica, transversalmente aos sentidos estabelecidos, e que um livro é sempre uma construção desconcertante nascida de uma imaginação não fantasiosa, mas realmente imaginante e criadora – e que assim, diz também Llansol evocando um dos seus «mestres», Ibn 'Arabî, verdadeiramente «faz conhecer».
Como pendant à leitura de Patrícia Portela, ouvimos também algumas páginas de uma agenda de Maria Gabriela Llansol (de 1989) pelas quais se tornaram ainda mais evidentes alguns paralelos entre as duas autoras: a importância dos «livros dos dias» que ambas escrevem, dias que são «preciosos, não são para apagar-se»; os ritmos e os registos de escrita, com ou sem «verbetes filosóficos» inspiradores, e a sua capacidade de ampliar, fazer vibrar e dar a ver, para além da superfície, os pequenos ou grandes incidentes dos dias, para chegar a interpretações da vida e leituras do mundo e da condição humana com muitos pontos de contacto entre duas agentes da desestabilização do pensamento acomodado, de hábitos cristalizados, de «evidências» nada óbvias.
Deixamos aqui – com a sugestão de leitura paralela com os Dias Úteis, ou O Banquete, de Patrícia Portela (Editorial Caminho, 2017 e 2012) – as seis páginas da Agenda 25 de Maria Gabriela Llansol lidas nesta sessão de «A Luz de Ler»:

8.15 [oito e um quarto]: O Augusto levanta-se e eu angustio-me, porque a manhã ainda não abriu.
11 : Mantenho a chama, dando de comer aos animais.
12 : Se alguém ainda não me telefonou, penso na serenidade.
14 : A tarde eleva-se, eu olho o exterior que neste momento não faz parte de mim própria.
16 : Estive deitada. Trabalhei um pouco na casa, com uma rapidez que me confrange o estômago.
19 : Quem me acompanha, chega.
20 : A noite tem um dos seus maiores jardins aqui.
A minha afinidade com as agendas é grande. Esta é um belo livro dos dias. Os dias são preciosos, não são para apagar-se. Se cada dia fosse um livro, o dia deveria ter uma energia durável. Há dias reflecti sobre o tempo, com uma certa raridade de imagens.  O tempo é belo, estamos sempre envolvidos por ele, e um dos maiores dons que me foi dado é a participação mental na elasticidade física do tempo.
A unidade dos dias foi uma centelha. Jade chega e geme, porque as suas percepções rareiam. Sento-me a escrever com a sensação de não ter mudado de texto.
Há aqui uma sonoridade que não me surpreende.
Atravesso o pinhal com o Augusto para irmos à Senda. Os problemas económicos  inquietam-me destrutivamente.
Regozijo-me sempre quando a noite principia.
Marco esta hora.
Leio Eckhart quando quero estimular o meu próprio pensamento.
Adormeço, o que é raro de manhã, e sonho com a serpente ser.
Transmito o sonho ao Augusto, e alegramo-nos os dois. Passeio rápido através do pinhal, seguindo o Augusto. Anoto o sonho no meu caderno de apontamentos.
Alegro-me com a ideia de que possuo uma agenda, um lugar para guardar a energia dos dias e brincar a escrever no momento filosófico que atravesso. [...]
Horas de doença que se prolonga há uns três dias. Todos os actos que tenho de fazer se prolongam como se nunca mais acabassem.
O ponto fulcral não foi a doença súbita do Jade, doença de velhice que o desorientou, o separou dos quatro sentidos da casa.
Eu tive da L., das pessoas da casa, das conversações filosóficas, muitas provas de amizade, ou seja, de afecto, que é uma palavra que implica um elo. Sinto-me desmunida, levada pelas vagas da cosmogonia que, por vezes, são altas ondas chocantes (chocam-me a mim, não chocam, por exemplo, o A.).
LL optou pela vida e poupa as forças para o esforço enorme que agora lhe traz a vida quotidiana. Está a liquidar o passado, a sua carga é muito grande. No meio de todas estas referências nefastas, materiais, eu procuro discernir o espaço da visão. Aproxima-se uma ida à Bélgica.
Um escritor como eu não tem trabalho. Passa a vida a fiar os seus nadas; uma luz entrou por debaixo da porta e agora, crescendo, concentra toda a minha atenção. Tenho medo do crescimento da luz, que a luz cresça e me leve, e me faça mal. Bonjour – o cão consolador da ausência de Jade – desapareceu. Faço mal em acordar, os sentidos, as sensações adormecidas: todo o meu espaço se torna um plangente tempo de ausência. Começou na ausência de Jade – e cresceu_______ É um tempo bom de muito sofrimento.
A disciplina a que me submeto é extremamente repressiva. O meu companheiro caiu no silêncio, que marca o seu trabalho interior e exterior. Tenho sede de consolação______   e no entanto são-me dados abundantemente os bens da terra. [...]