3.3.15

«O ETERNO RETORNO DO MÚTUO»

É dia de lembrar Maria Gabriela Llansol, que nos deixou faz hoje sete anos – com a sua memória e o seu texto sempre presente, «faixa de claridade que se estende para fora da casa». Um dia, a Maria Gabriela sonhou com a sua «cena primitiva», unindo o lugar e a hora do nascimento com a da morte, sempre possível, mas também sempre aberta ao «eterno retorno do mútuo». Assim:

22.2.15

«LETRA E»
LLANSOL: OS PRIMÓRDIOS DA ESCRITA


Tivémos ontem mais uma sessão da «Letra E», dando seguimento ao ciclo sobre «Lugares e tempos de Llansol». João Barrento expôs os resultados do seu levantamento da escrita juvenil de M. G. Llansol, e leram-se vários textos – poesia, conto, teatro, diário – que documentam o nascimento desse rio que não haveria mais de parar de correr, o de uma «pulsão de escrita» já bastante singular nesses primórdios. 
Desta vez surpreendemos os que vieram com a proposta de serem alguns deles a ler os textos escolhidos, proposta imediatamente bem acolhida. Como habitualmente, fizemos um «Caderno da Letra E» que reproduz muitos textos dos primeiros diários e também, num grande desdobrável que o acompanha, exemplos da poesia, da narrativa e do teatro da juvenilia de Llansol. 


 A abertura e o final desse caderno (partes da introdução mais longa de João Barrento), que a seguir se transcrevem, dão uma ideia do espectro temporal e escritural desta fase, que culminará com a publicação do primeiro livro, Os Pregos na Erva, e, poucos anos depois, com o início do exílio na Bélgica: 




                     «Uma nascente no meio de um rio»: os primórdios da escrita em Llansol
A época de que se ocupa este caderno é talvez a menos documentada no espólio de Maria Gabriela Llansol. Corresponde aos anos do Liceu, do curso de Direito e do período que se segue, até ao encontro com Augusto Joaquim e à ida para a Bélgica. São anos difíceis, como testemunham os (poucos) diários que ficaram, com datas entre 1949 e 1965, de onde transcrevemos os textos que se podem ler neste caderno. Apesar da obscuridade que os envolve, e da ausência de documentos, sobretudo fotográficos, trata-se de um período seminal para a escrita de Llansol em vários géneros – conto, diário, poesia, teatro –, dos quais os dois primeiros estariam destinados a ter continuidade, enquanto dos dois últimos não ficou escrita para além de algumas tentativas juvenis. Todos eles estão documentados neste caderno e no desdobrável que o acompanha.
 A esta época, mais precisamente à sua última fase («antes de conhecer o Augusto»), chama Llansol «a época sem segredo» (Caderno 1.23, p. 131, em 6 de Novembro de 1986). Provavelmente, como sugere uma página anterior do mesmo caderno, porque nos textos que nela se vão escrevendo há ainda uma busca do sentido das coisas e do mundo, por um espírito (e já um corpo) juvenil que nele vai tacteando caminhos, diferentemente das outras épocas de vida e escrita, em que o sentido (que «as mais das vezes é impostura da língua») se vai retirando e perdendo importância para dar lugar a uma busca deliberada de significações «mágicas» e mais evanescentes do real – «o fulgor que, por vezes, há nas coisas»… Mas não é esse ainda o selo destas primeiras produções, bastante marcadas por condicionalismos epocais, familiares e de classe, que só o exílio belga permitiria superar radicalmente.
            A «propensão para as letras» (cuja manutenção e «aumento dia a dia» são pedidos numa «Carta ao Senhor São José», com data de 1 de Março de 1943) manifesta-se muito cedo, contrariamente à Matemática e às Ciências, cujas notas nos primeiros anos do Liceu são as mais fracas. Com toda a sua carga de ingenuidade, e alguma «vontade de estilo» que marca as primeiras tentativas literárias de M. G. Llansol, já a partir dos onze anos (quando escreve o conto «Destinos ciganos», que mais tarde retomaria no livro Depois de Os Pregos na Erva com a indicação: «o meu primeiro texto»; também um outro texto desta fase, a peça radiofónica O Absurdo, será transformada em conto para Os Pregos na Erva), os escritos juvenis constituem um núcleo já significativo que, na década de cinquenta, culmina na estreia literária absoluta, num jornal de grande circulação como o Diário de Notícias, com o conto «Empregada».
 A primeira «obra» narrativa propriamente dita de Maria Gabriela Llansol é esse conto escrito aos 11 anos (de acordo com uma anotação, com tinta diferente, provavelmente do pai, na última folha), com um incipit, um arranque narrativo, inesperado e singular. A matéria do conto tem laivos camilianos e é uma vez mais reveladora de uma época e de uma sociedade que ostracizava e estigmatizava abertamente comunistas e ciganos. É isto que acontece nesta história, impregnada de um fatalismo que levará ao regresso tardio do menino roubado à casa do pai para, num gesto hediondo – e edipiano? –  matar aquele que lhe deu a vida.
Para além da decisão, por parte da escrevente de onze anos, de criar um «efeito de estranhamento» para a sua história (como irá fazer mais tarde com as personagens históricas que arranca aos seus contextos de origem para as transformar em figuras de uma grande alegoria da História e do Humano), e da confissão de que «detesta aquilo a que se chama banal», o  interessante aqui é mesmo esse começo inesperado e singular numa criança de onze anos, certamente acostumada a ler histórias convencionais (mas também, sabemo-lo, a ouvir ler Pessoa desde os seis anos): «Era uma vez, não, não é com ‘era uma vez’ que eu quero iniciar a minha história. Talvez porque ela não é de fadas, não obstante ter-se passado num país longínquo e desconhecido, talvez porque eu detesto aquilo a que chamam banal.» Uma voz parece dizer já aqui à menina que redige o seu primeiro texto: «não des-crevas, escreve», como lemos em Depois dos Pregos na Erva. [...]
 A forma do diário, já tão significativa nos primórdios da escrita de M. G. Llansol, acabará por se transformar no modo de escrita por excelência desta escrevente do acontecer e dos seus fulgors mais escondidos. Desde estes anos, o rio contínuo que são os diários manuscritos de onde tudo nasce, como hoje sabemos melhor, foi transformando corpo e mundo em escrita ao fio dos dias. A sua escrita não é, assim, propriamente «diarística» (se com isso tivermos em mente um género e suas formas), mas uma escrita diária em que «escrever é o duplo [i.e., o prolongamento] de viver». Esta indistinção de raiz entre escrita e escrita dos dias permite chegar a uma afirmação paradoxal: Llansol não é uma escritora de diários, e no entanto não fez outra coisa na sua vida senão escrever um diário. Esse diário começa, em 1949, como diário secreto, e continua-se hoje nos Livros de Horas. Diários que são o seu livro único, obra autobiográfica com total rejeição da autobiografia formal, escrita instável, híbrida e múltipla, numa série de diários sem eu escritos na primeira pessoa (por vezes com a indicação à margem: «passar à terceira pessoa»!), um livro sem princípio nem fim cujas figuras maiores são o tempo (os tempos) e os dias, os seus trabalhos e as suas iluminações.

18.2.15

LLANSOL: OS PRIMÓRDIOS DA ESCRITA
Sábado na «Letra E»


A próxima sessão da «Letra E» do Espaço Llansol dará a conhecer – pela palavra, pela imagem e por uma exposição documental – os primeiros exemplos de escrita de Maria Gabriela Llansol, na fase de adolescência e juventude. Esta época é a menos documentada no espólio não literário de Llansol (fotografias, objectos, correspondência), mas também aquela em que começa a brotar, como de «uma nascente no meio de um rio», a pulsão da escrita. 
Estamos nos anos do Liceu (Pedro Nunes, em Lisboa) e da Faculdade de Direito, e dos que se seguem, até ao encontro com Augusto Joaquim e à ida para a Bélgica. Anos densos de experiência e de tensões – familiares, sociais, religiosas –, como testemunham os diários de que dispomos, entre 1949 e 1965. A escrita, essa inicia (a partir dos onze anos, com o primeiro conto) o seu curso para nunca mais parar, e distribui-se por vários géneros – conto, diário, poesia, teatro –, dos quais os dois primeiros estariam destinados a ter continuidade, enquanto dos dois últimos não restam mais do algumas tentativas juvenis que daremos a conhecer, pela leitura que faremos (desta vez, esperamos, com a colaboração do público) e pelo caderno que, uma vez mais, editamos nesta ocasião, e que contém registos diarísticos e um desdobrável com exemplos de conto, poesia e teatro.


Para quem acompanhou a escrita de Llansol em livro, a partir de Os Pregos na Erva, esta sessão poderá ser altamente reveladora, pelo carácter seminal de muitos dos textos que nesta época foram escritos, e pelo desconhecimento total que até hoje envolve estas primeiras tentativas literárias.

A PRIMEIRA TRILOGIA SAI NO BRASIL

Pouco depois da edição castelhana, num volume, acabam de sair na Editora 7Letras, do Rio de Janeiro, os três volumes da primeira trilogia de M. G. Llansol, «Geografia de Rebeldes». Na mesma editora já saiu Um Beijo Dado Mais Tarde, e esperam-se novas edições.


Cada um dos volumes desta edição brasileira é apresentado, na badana, por um excerto dos posfácios das segundas edições portuguesas, textos solicitados ainda pela Maria Gabriela a cada um dos autores – Silvina Rodrigues Lopes, José Augusto Mourão e João Barrento.


AMAR UM CÃO EM ESPANHA

O tandem que dá pelo nome de Atalaire, Mario e Mercedes, dedicados leitores e tradutores de Llansol em Espanha, com vários títulos publicados e outros a caminho, acaba de verter para castelhano esse pequeno e precioso texto que é Amar Um Cão. Saiu em formato de plaquette, em edição bilingue, acompanhando o último número da revista La Galla Ciencia (que já publicou excertos de O Livro das Comunidades). A divulgação do acontecimento pela própria revista pode ler-se aqui: http://www.lagallaciencia.com/p/blog-page_29.html


25.1.15

«PENSAR É COM O CORPO...»
Clarice e Llansol na «Letra E»

Sobre Clarice Lispector escreveu um dia Llansol (que, ao que podemos depreender hoje pela sua biblioteca, só terá lido dois livros da escritora brasileira), que ela «é uma beguina – uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro; o que nos une é que ela surpreende-me, como eu hei-de surpreender... Somos um indício de que a impossibilidade de ser-se sempre igual existe» (Caderno 1.22, pp. 265-266, 17 de Setembro de 1986).


A tarde de ontem na «Letra E» correu no espírito de um encontro-desencontro, como se esperaria. As entrevistas das duas escritoras («escreventes»?) que vimos e ouvimos tanto as aproximam como as distinguem. A nossa convidada de ontem, Maria Carolina Fenati, falou, a partir da sua própria experiência de leitura, das duas autoras, traçando paisagens que passaram pela questão central da maior ou menor facilidade de «compreensão», pela necessidade da releitura dos textos de ambas («eu ganho na releitura», dizia Clarice na entrevista), tanto ao nível de todo um livro como, em Llansol, de um único parágrafo ou de uma página. Abordaram-se ainda as diferentes «viagens» que uma e outra propiciam ao leitor (mais interior em Clarice, mais voltada para o mundo em Llansol). Dos ritmos e dos modos de escrita se falou também, em particular da intensidade da escrita em ambas, e do que isso gera, no ritmo diário de escrita ou na composição dos textos. Num e noutro caso, sugeriu a Carolina, há uma «orquestração» muito particular de intensidades, que fragmenta necessariamente a realidade («A realidade, para ser profunda, tem que ser fragmentada. É impossível aguentar a intensidade continuamente...», diz Llansol na entrevista de 1997).

Clarice no espólio de Llansol, e na sua recepção em Portugal
Um tópico importante, que derivou da entrevista de Llansol e suscitou várias intervenções do público – muito participante ontem –  foi a da relação pensar-sentir (e ver, particularmente na autora portuguesa). O caminho de Clarice e Llansol (que esta contrapõe ao da «racionalização» de Vergílio Ferreira) é o da absorção de toda a experiência sensorial no pensamento, retirando-lhe a carga de abstracção e de pretensão de autonomia. Llansol diz (e Clarice também o sugere na sua entrevista); «Eu não faço separações. Para ser real e para dizer realmente como eu apreendo – apreendo estando lá. Eu acho que sinto, vejo, penso, tudo é simultâneo (...) Pensar é com o corpo...»

Maria Carolina Fenati e o público

22.1.15

ECOS DE LLANSOL 
NA ESCOLA SECUNDÁRIA DE SANTA MARIA

No passado dia 14 estivemos na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, e abrimos horizontes novos aos alunos do 10º e 11º anos, revelando-lhes o universo e os modos de escrita de M. G. Llansol. A ideia foi da professora de Literatura Portuguesa, Maria Fernanda Peixoto, e a conversa parece ter deixado algumas sementes, como se pode ver por esta pequena amostra das muitas opiniões dos alunos que a professora nos fez chegar (juntamente com as fotos)...


20.1.15

CLARICE LISPECTOR NA «LETRA E»

É já no próximo sábado que retomamos as actividades da «Letra E», com o «encontro improvável» entre Maria Gabriela Llansol e a escritora Clarice Lispector. Contamos com a participação da nossa colaboradora brasileira Maria Carolina Fenati, veremos uma entrevista filmada de Clarice e ouviremos outra de Maria Gabriela Llansol, dada à Antena 1 em 1997. E conversaremos depois com todos os que vierem.

12.1.15

LLANSOL VAI À ESCOLA

Na próxima quarta-feira, dia 14, a partir das 11h40, falaremos de Maria Gabriela Llansol, do seu percurso e da sua escrita, para alunos e professores da Escola Secundária de Santa Maria (na Portela de Sintra, Rua Pedro Cintra). No Auditório, e a convite da professora desta Escola, Maria Fernanda Peixoto, sócia do Espaço Llansol.


3.1.15

A «LETRA E» NO PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2015

A Letra E do Espaço Llansol vai reabrir em 24 de Janeiro, para mais uma série de quatro sessões neste primeiro trimestre do ano, dando continuidade a ciclos já iniciados: os «Encontros improváveis», desta vez com as possíveis ligações entre os universos e a escrita de Llansol e Clarice Lispector (com um olhar brasileiro a apresentar as duas escritoras, o da nossa colaboradora da primeira hora Maria Carolina Fenati); e os «Lugares e tempos de Llansol», com a fase de adolescência e juventude em Lisboa, que são já anos de muita escrita desconhecida que iremos divulgar. O destaque do trimestre, num terceiro momento deste ciclo, vai no entanto para uma matéria até agora em tratamento e organização no espólio, que entretanto estamos em condições de divulgar e que merecerá duas sessões em Março, particularmente interessantes para professores e pedagogos: trata-se de apresentar e comentar os modelos pedagógicos, as actividades diárias e as práticas comunitárias nas duas escolas que Llansol, Augusto Joaquim e alguns outros criaram na Bélgica, e que funcionaram entre 1969 e 1979: a Escola da Rua de Namur, em Lovaina, e a La Maison, em Louvain-la-Neuve, esta integrada na Cooperativa Ferme Jacob. Teremos a colaboração de um pedagogo belga, Pascal Paulus, há muitos anos activo em Portugal, e também, nomeadamente para os ateliers com crianças na segunda sessão, das colaboradoras do Espaço Llansol Albertina Pena (professora do 1º Ciclo) e Teresa Projecto (Mestre em Pintura), e do professor Paulo Sarmento. Para as sessões de Fevereiro e Março haverá um dos habituais Cadernos da Letra E sobre o tema.
Deixamos aqui o programa do trimestre, e voltaremos a lembrar cada uma das sessões (como habitualmente, aos sábados às 16 horas).