9.9.20

O Livro dos Sonhos

     OS SONHOS DE LLANSOL

Acaba de sair, e estará brevemente nas livrarias, o sétimo volume da série dos Livros de Horas, que reune um número considerável dos sonhos transcritos por Maria Gabriela Llansol nos seus cadernos de escrita. Este volume, como referimos na Introdução, estava «previsto desde que começámos a organizar o espólio e a fazer índices de toda a escrita de Llansol (entre eles um índice específico de todos os sonhos registados nos cadernos, agendas, dossiers dactiloscritos), concentra-se, com a diversidade que apesar de tudo o caracteriza, num único tipo de escrita, constitui um primeiro repositório da escrita assumidamente onírica da autora, um conjunto de 'inquéritos oníricos' permanentes, espelho de uma 'sismografia íntima... Este singular Livro de Horas reúne, de facto, um número significativo de sonhos que foram ganhando forma escrita desde 1969, na época em que Llansol faz análise em Lovaina, e até 2006».

 

Ao mesmo tempo, sobretudo nas décadas de oitenta e noventa, os sonhos são frequentemente acompanhados por «reflexões sobre o processo onírico e o lugar do sonho, em particular na sua relação com a escrita e o livro. Esses momentos de paragem pós- ou inter-onírica aparecem neste volume em destaque, inscritos em caixas de texto que vão alternando com o registo dos sonhos; e demos igualmente um lugar especial a uma outra forma de prolongamento ou projecção (visual) da fixação do sonho pela palavra, que em Llansol é um importante complemento desta: a dos muitos desenhos que pontuam os seus cadernos (e este livro), e que nos pareceram ser parte integrante de uma 'queda' sistemática nos universos oníricos, e sua oferta ao olhar... Logo na primeira página de um dos caderrnos de sonhos lemos: 'Quem quiser representar apenas por palavras o que existe efectua um trabalho incompleto».

 

                                              O «Caderno dos Sonhos» (2000/2001)

O Posfácio do escritor, antropólogo e psiquiatra António Vieira oferece-nos, por sua vez, um olhar complementar sobre a escrita onírica de Llansol, não tão distante assim de outros registos da autora, e concluir: «Nem sempre é nítida a linha de fronteira entre divagação e sonho. A 'fantasia ardente' da escritora, cedo reconhecida por uma professora sua, tem algo de matéria onírica; enquanto o sonho, já dado à literatura, irradia aspectos críticos, demasiado lúcidos. Por isso, às vezes, avançamos na leitura do que nos parece vida vígil e estamos já no sonho. Percebemos como a lava da escrita circula pelo interior desta terra, pelos meandros destes sonhos. Lúcida, sem auto-complacência, às vezes com ironia, a escritora enfrenta literariamente o seu mal-estar no mundo».

Gonçalo M. Tavares e Llansol

 LLANSOL: A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS

O escritor Gonçalo M. Tavares recorda no JL de hoje o que escreveu para a edição americana da primeira trilogia de M. G. Llansol, Geography of Rebels, saída em 2018:




19.8.20

Beguinas de Lugo

 «FULGOR»

Llansol e as «beguinas de Lugo»

Há mais de um ano, em Julho de 2019, recebíamos no pátio do Espaço Llansol um espectáculo memorável, a «leitura dançada» de fragmentos de Llansol por um grupo de doze mulheres vindas expressamente de Lugo, na Galiza, com um livrinho da Editora Ámboa intitulado Fulgor, que reune textos de Maria Gabriela Llansol.

Agora, um ano depois, a jornalista de Santiago de Compostela Raquel C. Perez volta a lembrar essa bela actuação num artigo que se pode ler aqui: https://pgl.gal/editora-amboa-mulheres-que-racham-a-fronteira-literaria-do-minho-dancando/

31.7.20

Pausa e regresso

COM O REGRESSO NO HORIZONTE...

A casa está expectante e ávida de vida, dentro e fora. Nós também, todos aqueles que nos últimos anos a animámos com a nossa presença, a nossa voz, o noso empenho.
O mês que aí vem é tradicionalmente de pausa. Mas regressaremos em Setembro para retomar e reinventar o percurso feito até aqui, no espírito do Texto que nos alimenta, e com a presença de todos os que até agora nos têm acompanhado pelos caminhos do universo Llansol – e como sempre abertos a todos os que a nós se queiram juntar. Porque a casa, como antevia já a Maria Gabriela em 1999, tem «um futuro que a arrasta», e andará sempre «à procura do futuro de uma nova imagem».

16.7.20

Llansol e Ilda David'

LLANSOL E ILDA DAVID' DE NOVO JUNTAS

No próximo sábado, dia 25, pelas 18 horas, abre na Quinta do Pisão (entre Cascais e Sintra, na estrada N9-1, perto do resort da Penha Longa – ver localização no seguinte link:
https://www.google.pt/maps/place/Quinta+do+Pis%C3%A3o/@38.758819,-9.4192314,15z/data=!4m5!3m4!1s0x0:0xd4f497418efc070d!8m2!3d38.758819!4d-9.419231)
uma exposição de Land Art em que estará presente, entre outros artistas, uma peça de Ilda David' inspirada uma vez mais numa passagem de Lisboaleipzig, para cuja segunda edição a artista já fez uma série de xilogravuras em 2014.
 
A peça traz o título «Almoço no campo» e é descrita assim na apresentação da exposição:
Ilda David', que é pintora, trabalhou a partir das suas memórias de infância para construir um cenário de um Almoço no Campo. Mas não apenas estas memórias: a partir de um trecho do livro de Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig, captou a descrição de um almoço imaginado por Aossê (Fernando Pessoa) para o qual se levaria um farnel, e haveria jogos e representações... Ilda David' transporta para um espaço de passagem na Quinta do Pisão a linguagem poética de Llansol através da apresentação de pinturas dispostas como duplos da própria paisagem

Na página de Llansol que descreve o almoço nas margens do rio Elster, em Leipzig, pode ler-se:
... Aossê conseguiu convencer J. S. Bach de que, por bondade e por amizade para com o poeta, aceita a sugestão do almoço num prado, à beira do Elster, que, numa das suas manhãs, / viu chegar três carros de bois, / carregados com uma família humana, barulhenta e perturbadora.
Depois reparou, quando se aproximaram perto da sua margem, que se tratava de Anna [Magdalena Bach] e da sua família – e as suas águas brilharam de contentamento. [...]
– Tudo é água — disse-lhe o Elster.
– Tudo é imagem – respondeu-lhe Aossê, e sentou-se com os pés na água, maravilhado por não haver maravilha alguma.

Talvez seja um pretexto para quebrarmos o confinamento e nos vermos em plena natureza!

8.6.20

Entrevistas

REGRESSO AOS ENCONTROS
COM «OUTRA FORMA DE CANTO»

Depois do longo interregno de três meses, o Espaço Llansol volta a abrir as suas portas – agora para o exterior, no belo pátio da Casa – para mais uma sessão pública. Desta vez apresentaremos um novo livro da nossa colecção «Rio da Escrita», que reune todas as entrevistas de Maria Gabriela Llansol e alguns textos de intervenção, entre 1962 e 2002. O livro será apresentado por João Barrento, e ouviremos uma das entrevistas nas vozes de Aldina Duarte e Maria Etelvina Santos. E teremos à disposição de quem vier uma grande Feira do Livro, llansoliano e não só, a preços muito reduzidos.
Llansol nunca foi muito uma autora de entrevistas – preferia ser entre-vista por quem com ela conversava, olhos nos olhos, ou lida, isto é, vista e descoberta por entre pensamentos, imagens, visões, paisagens que envolvem os intervenientes na conversa ou na leitura. E no entanto, este volume permite reconstituir uma imagem, não apenas nova e reveladora, mas para muitos leitores talvez surpreendente, de uma «escrevente» que se dá a ver no seu percurso pessoal, nas motivações da sua escrita, nos seus interesses mais íntimos. Por isso, como diz uma das suas entrevistadoras, «apetece voltar a lê-la depois de a conhecer ou ouvi-la falar».


24.5.20

Maria Velho da Costa

«DUAS MULHERES QUE A NOITE ASSOMBRAM»

Maria Velho da Costa deixou-nos ontem, no dia em que Eduardo Lourenço fez noventa e sete anos. São dois astros particularmente luminosos na galáxia da escrita portuguesa contemporânea. Maria Gabriela Llansol «encontrou-se», por mais de uma vez, com ambos, sem nunca propriamente lhes ter falado pessoalmente. Com Eduardo Lourenço houve troca de correspondência, com Maria Velho da costa apenas a possibilidade de um encontro que não parece ter acontecido, em 14 de Maio de 1993 (anotado na Agenda nº 32, p. 24).


Com Maria Velho da Costa, a relação in absentia, apenas através de livros ou referências mútuas, data já dos anos da Bélgica. Llansol anota, em cadernos de 1977:
«A Teresa [Joaquim] escreve e diz que a Maria Velho da Costa me considera, e à Agustina, as duas melhores escritoras portuguesas... [...] Vejo escrever-se antecipadamente o meu encontro com a Maria Velho da Costa. Somos dois femininos-criadores face a face» (22 de Julho de 1977).
E de novo, em 30 de Setembro desse ano: «Hoje, a Teresa falou-me de Maria Velho da Costa. É uma possível béguine, uma dessas mulheres que se apagam, ou...»
Llansol referirá ainda a autora de Casas Pardas e Myra nesse seu livro-balanço que é O Senhor de Herbais, ao comentar algumas ideias de poemas de Manuel Gusmão em Teatros do Tempo, em particular a íntima articulação entre estética e ética, ou «o som e o sentido» – tema e prática comum também a ambas as autoras. Depois, dar-se-á, da parte de Maria Velho da Costa, mais um passo em direcção a Llansol, com o encontro implícito entre dois cães, o Jade de Amar um Cão e o Rambo de Myra.
Mas será ainda Manuel Gusmão a juntar estas «duas mulheres que a noite assombram», que conheceu bem, ao aproximá-las na intervenção que fez nas nossas penúltimas Jornadas Llansolianas, em 2018. E partiu de um longo poema seu, que depois foi desdobrando num comentário que também as aproximava de uma terceira, a beguina Hadewijch, juntando-as nas margens de rios que atravessam obras das duas autoras, Contos do Mal Errante e Missa in Albis. Deixamos aqui, como homenagem a estas duas mulheres-de-escrita pela voz de Gusmão, o início do seu poema de 2018:

São duas mulheres
que a noite assombram.
Uma que foi para a Flandres e veio de lá;
onde escutou longamente a fonte que repetia as vozes do rio
que assedia Münster*. Essas vozes cintilavam
nessa fonte que se chamava Hadewijch
(o que daria três mulheres nesta história).

A outra, alguém que veio do Alentejo,
antes ou depois dess'outra
traduziu as vozes desse rio 
para as margens de um outro
que corre mais perto de si ou de nós.
E assim escreveu «À beira-Ebro,
ou no rio que assedia Münster»**. 

A que veio da Flandres escrevia
À vista de um pinheiro solitário
enquanto conversava com Prunus Triloba
sobre o modo como emendava as figuras
vindouras. 

A segunda irmã descreve uma araucária
com o virtuosismo que pode ter ido buscar
à Magnólia da Luiza***. Mas o esplendor da linguagem
guarda-o para quando fulgoriza
Elvira descascando uma cebola***.
[...]  
 ____________________________________________
* O rio Aa, presente, tal como Hadewijch, em Contos do Mal Errante
** Citação do final de Missa in Albis, de Maria Velho da Costa
*** «A magnólia» é um poema de Luiza Neto Jorge
**** Alusão a uma cena de Casas Pardas.

30.4.20

Escrito nas margens-30

ESCRITO NAS MARGENS [30]

29.4.20

ESCRITO NAS MARGENS [29]

28.4.20

ESCRITO NAS MARGENS [28]