14.10.19

«A COSTURA CULTURAL PORTUGUESA»
OU «O LITORAL DO MUNDO»


As XI Jornadas Llansolianas que neste fim-de-semana dedicámos à análise da «costura cultural portuguesa», deste «Litoral do mundo», tal como nos são dados a ver e a ler pelo crivo do olhar e pela mão de escrita de Maria Gabriela Llansol, trouxeram-nos fragmentos da narrativa de uma História (e das mais diversas estórias dentro dela) – história de um país, de uma cultura, de alguma da sua literatura – quase sempre lidas por Llansol «a contrapêlo». Ou também, como logo a abrir salientou António Guerreiro, em chave anti-épica e anti-heróica, em grandes visões alegóricas textualizadas, ou cosmogonias laicas, projecções desejantes e alternativas de outros mundos (em Llansol, os da «comunidade» e da «Restante Vida»). Neste território de uma História que sempre pretendeu «dar passos para a frente», a escrita de Maria Gabriela sobre ela prefere – e é esse o seu selo inconfundível – «dar passos para o lado». É o que acontece, entre outros, com o livro agora reeditado com inéditos, Da Sebe ao Ser, que constituiu uma referência central na intervenção de António Guerreiro sobre «Os potenciais da História».
 António Guerreiro
O espectro das intervenções cobriu depois o campo vasto desta matéria portuguesa na Obra de Llansol, com incursões pelos universos de figuras maiores dessa Obra, como D. Sebastião/Dom Arbusto (da qual se falou, apesar da ausência da nossa amiga Ilse Pollack, que por razões de força maior não pôde deslocar-se da Áustria até às margens de Tejo-rio); de Camões/Comuns/o Pobre, pela Profª Isabel de Lima e Almeida, que, com o seu profundo conhecimento do Camões histórico, seguiu atentamente as deambulações e metamorfoses de Luís M. e da sua Obra pelos livros de Llansol; ou de Pessoa-Aossê por Maria Etelvina Santos, que, no seu já longo périplo pelos trilhos de Aossê na escrita de M. G. Llansol, partiu da Gare do Oriente para explorar outros Orientes desse Oriente, não os caminhos pátrios da água, mas os do sonho criador que faz conhecer, os do dom poético como alquimia ou os de formas várias de paganismo, com um regresso (de ecos hölderlinianos) de deuses por vir, em Pessoa e Llansol, a partir da leitura paralela da nossa autora e do Pessoa da Mensagem e dos heterónimos (ou nem tanto!) António Mora, Bernardo Soares ou Alberto Caeiro.
 Isabel Almeida (com João Barrento)

 Maria Etelvina Santos (com Pedro Proença e J. Barrento)

Na mesma mesa, o artista-escritor e escritor-artista Pedro Proença (que expôs na sala dois desenhos de grande formato que, de forma explícita e com motivos subtilmente disseminados, desfiam mais uma narrativa sobre o tema destas Jornadas) ofereceu-nos um texto escrito numa voz con-sonante com a de Llansol, uma tecitura de imagens e motivos que evocavam «Paraísos resgatados», fábulas de corpos em relação sensualética de «amor ímpar», num gesto de leitura que é dádiva, entrega e eco irónico que faz soar, de perto e de longe, o que há de mais fundo no objecto de leitura – algo que só os grandes leitores, como Pedro Proença, sabem fazer.
 Pedro Proença

 Os desenhos de Pedro Proença

Depois entrámos, com as Profas. Paula Morão e Maria de Lourdes Soares (vinda do Rio de Janeiro), nas linhas cruzadas que ligaram Maria Gabriela Llansol a Vergílio Ferreira e a Jorge de Sena. No primeiro caso, por uma relação mais próxima, de criador com criador, entre escritores diferentes e afins, aproximando-se e divergindo em «encontros de confrontação» em que o espírito crítico e os afectos se confundiam. No caso de Sena, Maria de Lourdes Soares levou-nos por praças e jardins, autos-de-fé e terrenos de exílio, pelos cenários múltiplos em que Llansol põe em cena um Sena trans-figurado em Jorge Anés, o que lhe confere outra liberdade na relação com esse ícone maior do estrangeirado nunca reconciliado com este «reino da estupidez», permitindo-lhe outros voos para além da relação pessoal que neste caso nunca existiu.
 Maria de Lourdes Soares e Paula Morão (com Ma. Etelvina Santos)

E houve ainda lugar para a revelação de um núcleo desconhecido da escrita de Maria Gabriela Llansol, os seus primeiros contos, ainda inéditos (alguns deles agora disponíveis no caderno «O timbre da estrela» - Contos juvenis de Llansol), que João Barrento comentou sob o pano de fundo do Portugal salazarento dos anos quarenta e cinquenta, quando Llansol transforma já em escrita uma «vida contingente sem amplitude em que eu pudesse mover-me», com vista, já então, «a libertar na escrita seres perenes».
 João Barrento (com Ma. Etelvina Santos e António Guerreiro)

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  Os temas e as figuras das XI Jornadas Llansolianas

Da Sebe ao Ser, ou «O movimento do mar»

Os heróis apeados, e aparentemente pouco felizes, da História de Portugal
(Camões, Afonso de Albuquerque, Cabral, o Gama, D. Sebastião),
descobertos por Cristiana Vasconcelos Rodrigues no Jardim de
S. Pedro de Alcântara, em Lisboa, Outubro de 2019

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Como sempre, tivemos o comentário do livro das Jornadas anteriores – «Eu leio assim este Texto» - Escritores lêem Llansol –, numa original e atenta leitura de uma outra escritora, Paola d'Agostino (que recentemente traduziu para italiano a antologia de textos de Llansol All' ombra del chiaro di luna).
 
 
Paola d'Agostino (com Helena Vieira e J. Barrento)

E por fim, como também já vem acontecendo desde as nossas primeiras Jornadas em 2009, o momento final de leitura. Este ano com António Poppe, também poeta e artista, diseur singular que nos trouxe poemas de Camões e Pessoa ditos de cor (ou seja com a voz do coração), fragmentos de M. G. Llansol que espelham a sua visão deste país de portugal que escreve com minúscula «para não ter nunca de estar a braços com uma ideia preconcebida» dele; e por fim um dos contos juvenis: Rapariga Inquieta, a história da rapariga que «crescia naquele meio» (o do Portugal cinzento da «tristeza contentinha»), «mas sabia que não lhe pertencia».
 António Poppe diz Camões

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Estas XI Jornadas Llansolianas trouxeram ainda consigo, como sempre acontece, algumas novas publicações:
- Da Sebe ao Ser (Assírio & Alvim), há muito esgotado, e agora reeditado com um substancial anexo de inéditos relacionados com a escrita desse livro;
- «Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol (Mariposa Azual/Epaço Llansol), o livro que documenta as X Jornadas, de 2018;
- Os cadernos com inéditos que ilustram o tema destas Jornadas: O Litoral do Mundo: O «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol; e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de Maria Gabriela Llansol.

E o público acorreu, e a sala animou-se...

20.9.19

XI JORNADAS LLANSOLIANAS
«O LITORAL DO MUNDO»

Damos já a conhecer o programa das Décimas-primeiras Jornadas Llansolianas, que terão lugar em 12 e 13 de Outubro no Espaço Llansol. Este ano dedicamos as Jornadas à matéria portuguesa na Obra de Maria Gabriela Llansol, o que tanto pode significar a sua desconstrução de vários momentos e filões na História portuguesa (o «caminho da água» dos Descobrimentos, os mitos do Encoberto ou dos Lusíadas, os tempos de chumbo do salazarismo), como os caminhos singulares da revisão ou da leitura de algumas figuras dessa história, política, literária, cultural (Camões e D. Sebastião, Pessoa, Vergílio Ferreira ou Jorge de Sena). Estas Jornadas contam, como é habitual, com a participação de um núcleo significativo de «llansolianos/as» nacionais e estrangeiros, como se pode ver pelo programa que se segue.
E como também vem sendo habitual, teremos dois momentos de apresentação de livros novos: a nova edição de Da Sebe ao Ser, com inéditos (Assírio & Alvim) e o volume que documenta as Jornadas de 2018, dedicadas a leituras de Llansol por outros escritores («Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol, da Mariposa Azual/Espaço Llansol, o número 17 da colecção «Rio da Escrita»). E dois cadernos que ilustram a temática destas Jornadas: O Litoral do Mundo: o «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de M. G. Llansol.

15.9.19

O FULGOR, O SEGREDO, A MÚSICA


No regresso às actividdes do Espaço Llansol, no último sábado, reunimos na Casa de Julho e Agosto três olhares diversamente retrospectivos sobre a Obra e a figura de Maria Gabriela Llansol.
Com João Maria Mendes (e um pequeno video que montámos com fotografias do arquivo) regressámos a Lovaina e aos anos 60-70, a um ambiente cultural e a uma época decisivos para a grande viragem que se operou a partir daí na Obra da «Gabi-escritora», como ela é designada neste livro do compagnon de route dela e de Augusto Joaquim nas aventuras político-ideológicas, culturais e pedagógicas desses anos do exílio belga. Dessa viragem e da originalidade de toda uma Obra fala também a parte mais interpretativa do livro, fornecendo pontos de vista muito inovadores e produtivos para a leitura futura dos livros desta autora.
In illo tempore: Lovaina, anos 60-70

O segundo livro apresentado reune tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu sobre Llansol (em ensaios, crónicas, críticas, diários e correspondência – incluindo as cartas de Llansol) entre os anos de 1978 e 2006. Tratou-se, como foi destacado na sessão de sábado, de uma relação a vários títulos ímpar entre escritor e crítico, não apenas intelectual, mas ao longo dos anos claramente afectiva e empática – entre duas naturezas tão diferentes, mas que se encontravam no deslumbramento comum com as coisas do mundo, no júbilo de viver que, no fundo, guiou estas duas vidas de escrita. Os girassóis, flores preferidas do Eduardo, em cima da mesa falavam disso...

 Finalmente, Maria Etelvina Santos comentou o livro de João Barrento, que, também ele, condensa uma viagem de dez anos pelos meandros, não já apenas dos livros, mas de todo o imenso espólio de Llansol, com derivas para as mais diversas áreas deste território sem fim: ensaios de fundo sobre temas e figuras, incursões por zonas pouco conhecidas (os desenhos, a poesia, os cafés, as andanças por Colares e Sintra), cruzamentos im-prováveis e surpreendentes (com escritores, pensadores, cineastas, artistas...). Como diz a «Carta de abertura» da Maria Gabriela reproduzida à entrada de mais este volume de «escritos llansolianos», o encontro do leitor (legente?) com a autora (escrevente!) dá-se provavelmente porque ambos buscam, para lá da «impostura da língua», um qualquer «lugar primordial» deste universo único.


9.9.19

DA SEBE AO SER EM NOVA EDIÇÃO


Acaba de sair, em edição de Assírio & Alvim, a nova edição de Da Sebe ao Ser, há muito esgotado. Esta nova edição acrescenta à de 1988 um conjunto significativo de inéditos extraídos dos cadernos de Maria Gabriela Llansol, e provenientes da fase de escrita deste livro que veicula uma leitura escrita da história de Portugal e do seu fatídico «caminho da água».
Na próximas Jornadas Llansolianas, em Outubro, esta nova edição será apresentada e comentada por António Guerreiro.

2.9.19

TRÊS LIVROS, TRÊS OLHARES SOBRE LLANSOL

Retomamos as actividades do Espaço Llansol no sábado, 14 de Setembro, pelas 17 horas, com a apresentação simultânea de três novos livros, que representam três olhares sobre o universo Llansol, três leituras, diversas e igualmente estimulantes, de toda a sua Obra: de João Barrento (dez anos de escrita sobre Llansol), Eduardo Prado Coelho (toda a sua escrita sobre esta Obra, entre 1985 e 2007, correspondência com LLansol, excertos de diários) e João Maria Mendes (um livro de síntese que abre com a evocação da sua relação com «Gabi» e Augusto nos anos setenta, do exílio de Lovaina – que documentaremos num video –, e continua com uma interpretação global desta escrita).
Contamos, para as apresentações em diálogo, com a presença de João Maria Mendes, Maria Etelvina Santos e João Barrento.


Comparado com o meu anterior conjunto de «escritos llansolianos», publicado nesta colecção (Na Dobra do Mundo, 2008), este será porventura um livro mais vivo do que esse primeiro, e sobretudo mais revelador do amplo espectro de relações que se podem tecer a partir desta Obra – com temáticas tantas vezes inesperadas, com outros autores (poetas, ficcionistas, filósofos, místicos...), com domínios extraliterários (a música, as artes visuais, a iconografia, o cinema), com lugares e tempos de vida e de escrita (a Lisboa da adolescência e juventude, a Bélgica do exílio, os cafés, as deambulações por Colares e Sintra).
J. B.


Os textos de Eduardo Prado Coelho sobre Llansol, ou os simples registos fugazes sobre ela nos Diários, pequenas intuições na correspondência, lançam luz, luzes de vária natureza, sobre a pretensa «sombra» desses textos, por vezes com focos de uma grande intensidade. Por exemplo, quando comenta: «Há textos assim: dizem de um modo tão exacto e portentoso aquilo que nos parece evidente depois de os termos lido que sentimos por um instante que não deveríamos fazer mais nada senão o que eles dizem».
E conclui, noutro lugar: «Daí que, às portas do paraíso, Maria Gabriela Llansol diga a Vergílio Ferreira o que qualquer de nós poderá dizer ao leitor futuro de Llansol (e não se pode ler Maria Gabriela Llansol sem assumir a leitura como uma leitura sempre futura, uma leitura por vir): não há segredo, o único segredo é entrar».


 De que me ocupo neste escrito? Num primeiro momento revisito a genealogia da Obra da autora e descrevo-a como sensacionista/intuicionista, sempre confrontada com a memória e a cultura acumuladas na «Casa da Sabedoria». Num segundo momento recordo o que a levou a afastar-se da narratividade dependente da verosimilhança e a adoptar uma textualidade transgressiva... Um terceiro momento é uma reflexão sobre algumas ideias-fortes do glossário llansoliano... Num quarto momento defendo que a Obra llansoliana explora quatro registos de fantástico que herda de um maravilhoso verdadeiro neo-renascentista, e que são, nela, idiossincráticos geradores de texto. Finalmente, num quinto momento, aproximo a composição oficinal dos seus textos e o trabalho do sonho, tal como Freud o descreveu em a Interpretação dos Sonhos...
J. M. M.

4.8.19

[O VERÃO ENTRE PARÊNTESES – COM LEITURAS]

Está aí o Verão, o ritmo abranda, a apetência de leitura cresce. Também a Casa de Julho e Agosto entrará em tempo de penumbra, com suas memórias, suas plantas (que teremos de alimentar), com os seus muitos rios de escrita, visíveis e escondidos. Voltamos em Setembro, com novos recantos, novas perspectivas, corpo e alma lavados. Boas Férias, com Llansol e livros!



14.7.19

                  LER COMO QUEM DANÇA
                                    DANÇAR COMO QUEM LÊ

O grupo de doze mulheres vindas de Lugo/Galiza para nos comentar e mostrar a sua experiência de ler-dançar Llansol proporcionou-nos ontem uma tarde inesquecível. Numa primeira parte, Nieves Neira e o seu grupo falaram-nos deste projecto singular, mostraram um video que documenta a sua actuação nos claustros da catedral de Lugo em 2018, e apresentaram o livro Fulgor, onde reunem os fragmentos de Llansol que vamos ouvindo na leitura dançada que imaginaram.

O livrinho é uma preciosidade, e saiu numa editora (animada por duas das «beguinas de Lugo», María Grandío e Nieves Neira), com um nome – ÁMBOA – e uma história carregados de ecos, que podemos ler no marcador que acompanha o livro. E o azul forte que o atravessa é também o da gravura, em azul da Prússia, que acompanhou o lançamento do livro, uma obra de María Corral Fernández.

O desdobrável que distribuímos na sessão de ontem dá conta, nas palavras de Nieves Neira, que abrem o livrinho, deste modo singular de apropriação afectiva e artística das palavras de Maria Gabriela Llansol, num gesto de amor sive legens (que é o título, llansoliano, da introdução de Nieves Neira).

Depois, foi o belo espectáculo no pátio da Casa de Julho e Agosto, por entre objectos, panos, plantas deixados pela Maria Gabriela. Uma movimentação dinâmica que encheu o pátio de fragmentos, frases soltas, perguntas, repetições, de textos vindos dos mais diversos livros, que o corpo e a sensibilidade de cada uma das leitoras dançantes deles retirava. A sequência de fotos e a breve montagem em video dirão ainda melhor o que foi este belo momento, que encerrou as nossas actividades antes da pausa de Verão.
 
 

6.7.19

DANÇAR COM AS PALAVRAS DE LLANSOL

No próximo sábado, 13 de Julho, pelas 17 horas, recebemos um grupo muito especial de doze mulheres-beguinas vindas de Lugo, na Galiza. Dez delas apresentarão uma leitura dançada de textos de M. G. Llansol, no nosso pátio da Casa de Julho e Agosto, à semelhança do que já fizeram nos claustros da catedral da cidade galega.
Nieves Neira, jornalista e escritora de Lugo, principal animadora deste grupo de mulheres e grande legente de Llansol, teve esta original ideia, que apresenta assim no livro feito para esta ocasião (e que incluimos, completo, no desdobrável que distribuiremos):
 «Ler como dançamos? Da leitura conhecemos um corpo sentado, um corpo que se transformou com a aparição do alfabeto, que trabalhosamente inibiu outros sentidos em favor da visão. Anne Carson insinua em Eros-Poética do desejo que é da oposição entre um interior e um exterior, criada pela palavra escrita, que nasce Eros como obsessão na Grécia arcaica, e que a poética do desejo de que ainda hoje somos herdeiros se petrificou no espaço negativo da leitura, como também a ideia de que os livros diferem da vida. A Obra de Llansol convida-nos, no entanto, a reduzir e desfazer essas dicotomias [...]
Ler como dançamos: é o resultado desse jogo. A sua única regra foi a de deixar-se levar pelo afecto e pelo fulgor: ler em voz alta – do sussurro ao grito – só aquelas frases que despertassem esse afecto, que nos chamassem. E sublinhá-las sabendo que com esse gesto estávamos escolhendo os fragmentos que figurariam no livro que fizemos, aproximando assim com o lápis a mão que escreve da mão que lê, a mão que lê da mão que escreve...»
Esperamos por todos às cinco da tarde para um espectáculo certamente surpreendente. Antes teremos, na sala grande, a projecção de um video e conversa com as beguinas de Lugo sobre o livrinho que nasceu desta experiência, e estará disponível.

23.6.19

O FILME-EM-METAMORFOSE DE ONTEM

Tivemos ontem, com um público muito participativo e viva troca de ideias, uma tarde especial, com a projecção da versão actual do filme de Sílvia das Fadas Luz-Clarão-Fulgor, de que dá conta o texto lido pela cineasta (que aqui se reproduz, e que incluímos no folder feito para esta sessão). Com o som de dois projectores de 16 mm sempre em fundo, lembrando antigas salas de cinema, na luz das imagens em paralelo, a preto-e-branco e a cores, a sala cheia pôde seguir os caminhos da câmara da autora por recantos desconhecidos de um Alentejo profundamente transformado. Este primeiro núcleo de imagens recolhidas e montadas em diálogo irá ser continuado nos próximos meses, para dar origem a novas versões de um filme que se apresenta como obra não acabada.


Luz, Clarão, Fulgor
Augúrios Para Um Enquadramento Não Hierárquico e Venturoso 

Deparei com uma fotografia a preto e branco, impressa num jornal: as ruínas de uma comuna. Mostra uma árvore, o que resta de uma ruína, uma sombra projectada das suas paredes, até ao solo, um poço, um campo aberto e florido. Poderia passar despercebida, mas a inscrição da fotografia — «Comuna da Luz», bastou para acender uma centelha e revelar um rastilho que não resisti a seguir.
A «Comuna da Luz» foi fundada no Sul de Portugal entre 1917 e 1918 por um anarquista Tolstoiano chamado António Gonçalves Correia. No aparentemente sereno Vale de Santiago, em Odemira, Gonçalves Correia pôs em prática uma experiência utópica, por fim esmagada pela repressão policial que acusou estes companheiros de organizarem uma greve de trabalhadores rurais e de participarem na conspiração que levou à morte de Sidónio Pais. Gonçalves Correia fundou posteriormente uma segunda comuna, a «Comuna Clarão», em 1926 em Albarraque, Sintra. Também não foi duradoura, mas Gonçalves Correia persistiu em escrever panfletos e cartas para jornais anarquistas, ao mesmo tempo que se obstinava a comprar pássaros em feiras, apenas para os libertar das suas gaiolas. Este perigoso agitador comunista, de acordo com a polícia política, proclamou a revolução como sua namorada, e jurou não cortar as suas longas barbas até que o regime autoritário do Estado Novo fosse destituído. Morreu antes disso, mas o seu nome é ainda uma contra-senha nas terras do Baixo-Alentejo.

Apesar da escassez de documentos, o que me interessa nestas tentativas colectivas de viver diferentemente é a irrupção do utópico, com um excedente de sonhos indestrutíveis — uma condição a que chamo fulgor. Partindo dos vestígios destas duas comunas comecei a engendrar uma terceira comuna — «Fulgor» — nas ruínas da primeira.

O que é então o fulgor? Vem de um texto cuja fonte se encontra n' O Livro das Comunidades, uma obra escrita nas margens da literatura — em solitude, em fortitude, em cadernos, envelopes, guardanapos, e desenhos, fragmentos de fragmentos — por uma mulher singular para quem escrever era o duplo de viver: Maria Gabriela Llansol, a escrevente a quem volto continuamente porque o seu texto nunca deixou de me perturbar, oferecendo-me resistência e sustento. De acordo com Llansol, o fulgor é uma procura de luz, uma ruptura no tempo e historicidade que conjura a possibilidade de encontros inesperados a partir das margens. A luta quotidiana pelo fulgor é o resultado de uma batalha contínua: um esforço diário para atingir claridade, intensidade — desejo de uma cintilação possível e necessária. O fulgor, sendo um momento de revelação súbita, possibilita um entendimento mais profundo do tempo. Já não estamos no tempo e espaço da narrativa e da sucessão, mas num campo fulgurante onde Ana de Peñalosa, Hadewijch, a beguina errante, Thomas Müntzer decapitado ou Hölder (de Hölderlin), são removidos do firmamento da história para se tornarem parte de uma outra ordem de significado — transmutados em Figuras que, num encontro inesperado do diverso, formam uma comunidade de rebeldes. Através de uma técnica de fragmentação e de sobreimpressão, o fulgor introduz brechas que nos colocam na presença de encontros que ainda hão-de ter lugar, assim mudando a ordem das coisas. Deste modo, o combate entre príncipes e camponeses ainda fermenta e tudo continua em risco, seja em Frankenhausen ou no litoral do mundo (Llansol), em França ou no Egipto (Straub-Huillet), demasiado cedo ou demasiado tarde.
Palavras e imagens devêm intensidades vivas. O fulgor é móvel como o olhar ou o voo de uma bruxa, e como tal também eu me desloco através de diferentes escalas e temporalidades: da Comuna da Luz à Comuna Fulgor, de António Gonçalves Correia a Maria Gabriela Llansol, em direcção a uma comunidade de errantes-mutantes. «A energia cénica do fulgor tem uma qualidade muito espacial­­­­­­ ­____________________________ põe os seres em confronto no auge da sua beleza. Interior, exterior e estética.»[i]
A paisagem que resiste é para mim uma cena fulgor. Transporta em si o potencial de metamorfose e eu reconheço que a luta quotidiana pelo fulgor tem de ser uma luta inventiva, uma luta que, tal como Avery F. Gordon e Inês Schaber a colocam está «implicada no cultivo de formas de vida e de trabalho independentemente/autonomamente de, ou fora de, ou em oposição a, ou em alternativa a, ou nos mesmos moldes, mas não inteiramente dentro dos termos dominantes da ordem social.»[ii] É o reconhecimento desta consciência utópica, e desta insubordinação, que me faz desejar uma outra comunidade no agora, mesmo que esta só possa ser provisória, fugitiva, subterrânea, com raízes fundas mas móveis. E, mal comecei a ensaiar uma comuna provisória nas ruínas de uma comuna histórica, cedo me apercebi da necessidade de metamorfosear o ‘eu’ em ‘nós’, e de em comum mapearmos lutas contemporâneas e ancestrais pela terra e pelo bem colectivo na caleidoscópica espacialidade do Alentejo, região com nome de rio, para além de um rio.
Talvez não haja nada de mais exterior do que este território de desmesura e latifúndios, cuja distribuição de terras remonta aos tempos da Reconquista do país aos Muçulmanos da Península Ibérica. Os primeiros proprietários eram nobres, de ordens religiosas ou militares, e nessas terras as comunidades encontravam-se dispersas e despossuídas. Se pressentimos algum espectro a rondar este filme, e outros que por lá se fizeram, é provável que seja o da Reforma Agrária, semeada pela Revolução dos Cravos e pelo breve (quão breve?) período insurreccionário que se lhe seguiu. «A batalha vinha, estava vindo»[iii], pressagia o texto Llansoliano. Os patrões fugiram, e as pessoas, cansadas de décadas de opressão e de desigualdades sociais, ocuparam as grandes propriedades e distribuíram as terras por aqueles que, sem nunca as terem possuído, as sabiam trabalhar. As mulheres estiveram na frente das ocupações, «praticando a despossessão em colaboração»[iv]. O cinema também lá esteve, a lutar através de imagens desta região, em filmes militantes como A Lei da Terra, filme colectivo realizado pelo Grupo Zero, que acompanha a ocupação da terra, a auto-gestão dos camponeses e a criação de unidades de produção; ou Terra de pão, terra de luta, um filme de José Nascimento, que desconstrói o sistema opressivo dos latifúndios. Mais recentemente, Farpões Baldios, de Marta Mateus, testemunhando uma forma de vida, histórias contadas, histórias escutadas, matéria de transmissão e tenacidade. A Reforma Agrária foi uma promessa interrompida, traída, boicotada. No entanto, olhando para trás, não conseguimos deixar de pensar que as coisas poderiam ter tomado outro rumo. Altos desejos pairam ainda na paisagem, com resiliência inscritos
nas suas pedras
nas suas árvores
nas suas gentes
no vivo.

Principiámos a caminhar e a procurar augúrios no Verão passado, concentrando-nos em fragmentos de tempo: «a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem[v] Ali, com uma violência inarredável deparámos com: cercas e vedações, propriedade privada, extracções mineiras, arbustos de oliveiras e amendoeiras em fileiras a saturar o horizonte (cemitérios, aos meus olhos), trabalhadores migrantes e clandestinos, rios envenenados, a terra erodida. Ali também, uma luta afim por uma vida vivível está a ser travada: corpos no processo de resistirem e de se reinventarem a si mesmos, afirmando as margens, reactivando os vínculos à terra, tornando-se «indisponíveis para a servidão», opondo-se a projectos extractivistas, contruindo zonas autónomas, disseminando sementes autóctones e informação crítica, traduzindo poesia, praticando o dom da hospitalidade. Nós tecemos, seguimos e emaranhamo-nos num fio de engendrar mundos: «Observando geografias de acção directa, apoio mútuo, e políticas prefigurativas.»[vi] Nós estamos a preparar-nos.  «Queremos ver aquilo que fazemos à medida que o fazemos. Não é que questões de habilidade ou de ofícios tenham sido suspensas. Apenas foram socializadas, desindividualizadas, partilhadas» (clama Fred Moten). Coral, e em processo, criado e incriado, o filme é uma ferramenta para a convivialidade (Illich, Andersen), dobra-se e desdobra-se em espanto, guiado pelo fulgor, ou pela potência para florescer em enquadramentos não-hierárquicos.
Observando teimosamente as ruínas de uma comuna, procuramos  augúrios. Por exemplo: uma árvore e uma ruína. Um riacho. Uma serpente. Iremos ver.
Através de práticas quotidianas de recusa e reencantamento, em dissonância, perguntamos:
«Qual a relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?»[vii] Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade»[viii], o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda do cinema?
Que as imagens em bruto que se seguem possam ser «cartas vívidas e imperceptíveis».
Se ousarmos.
Sílvia das Fadas
Primavera de 2019

[i] Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2006), p. 198.
[ii] Avery F. Gordon and Ines Schaber, “The Workhouse.” Acessível em: http://www.averygordon.net/current-projects/the-workhouse/ [acesso em: 31 de Maio 2017]
[iii] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017), p. 48.
[iv] Fred Moten, “come on, get it!,” The New Inquire (2018) Acessível em: https://thenewinquiry.com/come_on_get_it/ [acesso em: 12 de Abril 2019]
[v] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017), p. 11.
[vi] Simon Springer, The Anarchist Roots of Geography: Toward Spatial Emancipation. (Minneapolis/London: University of Minnesota Press, 2016.), p. 94.
[vii] Fred Moten, Id., Ibid.
[viii] Stefano Harney and Fred Moten, The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study (New York: Minor Compositions, 2013), p. 42.


11.6.19

CAMINHOS DO FULGOR:
DE LLANSOL À «COMUNA DA LUZ»

No próximo dia 22 de Junho, pelas 16 horas, vamos mostrar um filme singular e conversar com a sua realizadora, Sílvia das Fadas, que já foi uma preciosa colaboradora do Espaço Llansol, e agora regressa para nos mostrar o seu filme Luz-Clarão-Fulgor (em formato de 16 mm, como todos os filmes da Sílvia), que assimila muito da escrita de Maria Gabriela Llansol sobre a ideia de comunidade, o fulgor, a deshierarquização e o Vivo.
 O filme recupera a história do anarquista português António Gonçalves Correia e das suas «comunas» – primeiro, a «Comuna da Luz», em Vale de Santiago/Odemira (1917-18), e depois a «Comuna Clarão», em Albarraque (1926) –, e insere essa história na longa luta de resistência contra os senhores da terra num Alentejo desde sempre marcado por profundas desigualdades.
A Sílvia resume assim a ideia do seu filme, de que nos falará mais pormenorizadamente no dia 22:
«Qual a relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?» Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade», o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda do cinema?