29.5.23

A OFICINA DOS MURMÚRIOS

Leitura e criatividade | Arte e natureza

No próximo dia 7 de Junho, pelas 13h30, a artista, autora e arte-educadora Marina Palácio orienta no Espaço Llansol uma actividade com crianças do 1º ano da Escola Básica Rainha Santa Isabel (e outras que queiram vir), no âmbito das «Oficinas de Leitura e Criatividade - Educação pelo livro, arte e natureza», que criou e orienta desde 2009 por todo o país (em escolas, bibliotecas e instituições culturais), e também em alguns países europeus e africanos.


Desta vez, a «Oficina dos Murmúrios» centrar-se-á no livro de Maria Gabriela Llansol Amar um Cão (na versão «para os mais pequenos» feita pela escritora Hélia Correia, disponível nesse dia num dos nossos «Cadernos de Tejo-Rio»), convocando ainda outras leituras. Pretende-se levar as crianças (e adultos que assistam) a consciencializar o lugar do «Vivo», como Llansol o via, através da leitura, da escrita, do desenho, do diálogo – num exercício de «observação sensível e escuta poética» que Marina Palácio sintetiza nas seguintes questões: «E se começássemos a aproveitar as plantas não só pelo que produzem, como também por aquilo que nos podem ensinar? Serão as plantas, os animais e outras formas de vida os grandes poetas ao longo dos tempos?».

 GABI: A NARRADORA DE SONHOS REAIS...

Regressámos na nossa sessão de sábado aos primórdios da escrita de Maria Gabriela Llansol, comentando e lendo algumas surpreendentes narrativas da aluna do Liceu Pedro Nunes nos anos de 1945-46 (com 13-14 anos de idade), já então vista por alguns colegas como «a literata» da turma, e pela professora Maria Arminda Zaluar como alguém que, «assim, poderá ir até aos astros!».


João Barrento e Maria Brás Ferreira falam das redacções

A poeta Maria Brás Ferreira (autora dos livros Hidrogénio [2020] e Rasura [2021]) comentou algumas dessas redacções, reunidas no caderno feito para esta sessão («Do meu olhar escorre o sonho...» - As redacções da Gabi (1945-46), numa leitura inteligente e iluminante dos aspectos essenciais e mais originais dessa escrita juvenil e já premonitória. Sintetizou-a como sendo uma escrita já então feita como trabalho (e não mero entretenimento), como algo de móbil, um motor ou catalisador da energia da imaginação, e com a capacidade do dom, que proporciona uma leitura activa e devolve alguma coisa a quem lê.

E  conclui: «Todas estas histórias encerram o cunho inaugural da experiência estética. Inaugural, não por se tratar de redacções escolares escritas em idade precoce, mas precisamente por definirem, por extracção do real, o sempre começo, e o acontecimento sempre iniciático, com a solenidade que lhe está associada, do olhar. Trata-se da descoberta da experiência estética como aquela que transforma o limite em limiar, e a paisagem num plano fundo, esquivo. Das tentativas de o fixar [...] restará, inequivocamente resta, o descobrimento de mais uma falha e mais uma morada imaginária para o ser».



Também João Barrento destaca, na Introdução ao «Caderno de Tejo-Rio» com uma dúzia de redacções, momentos como: a surpresa dos «caminhos da imaginação e a riqueza de escrita...  numa escrevente daquela idade»; «a escolha de situações originais, revelando grande capacidade de observação e análise emocional das figuras, interesse social (sobretudo pelas classes mais desfavorecidas), uma tendência visionária que o futuro confirmará, e uma particular sensibilidade à beleza e aos fenómenos naturais». E ainda a diversidade dos tipos de narrativa, a que muitas vezes está subjacente uma «reflexão (quase) filosófica sobre as grandes questões do humano, e o registo fantástico ou parabólico. Muitas das histórias narradas são grandes alegorias da vida humana (...), transfigurando vivências banais em algo de mais elevado com sentido universal».

E ainda, assinalando as afinidades detectadas entre a escrita de Llansol e a poesia de Maria Brás Ferreira (com Spinoza e a «sobreimpressão» em fundo), compôs um «poema-sem-eu llansoliano» em que tudo é autobiográfico sem que o Eu fale de si (como já nas redacções da Gabi e na escrita posterior de Llansol), todo ele construído com linhas tiradas dos poemas dos livros da Maria Brás. Foi também a nossa forma de lhe agradecer a sua participação. Assim:

Vim porque o anonimato falou mais alto

para melhor montar os teatros de menina.

Prefiro os lugares recolhidos

onde se possa tão-só imaginar infinitamente

imagens trémulas, finas membranas de tédio-volúpia.

É isso o que é e o que somos:

nadar no ar, voar rente ao chão.

Devemos mirar-nos de dentro, para dentro,

para poder fixar

a grande evidência das coisas:

O corpo, que desconheço

(mas só o corpo importa);

a voz, o que mais recordo.

Olha para o mundo e diz-me

onde tudo começa.

As palavras dizem mais de mim

do que quero fazer parecer.

A voz extinguiu-se,

pois é o corpo que sempre prova

a bondade e a justiça.

E tudo importará:

por isso não morreremos nunca.

E experimentando e contornando o medo,

descobriremos o encanto da incerteza,

o desprendimento leal das formas amadas.

Que os anjos falem então por mim, de mim,

que falem de uma vez por todas

sem as amarras da língua [da impostura].

Os verbos que me impelem

são os silêncios, as paralisias

da grande História da Humanidade.

Para, em vez de ocupar o tempo,

perfilar a duração, [intuir o Há].

Para perceber como há noites

que são mais altas do que a noite.

 

 (J.B. – alias, M. B. F.)


17.5.23

 AS REDACÇÕES DA GABI


No próximo sábado 27 de Maio, pelas 17 horas, daremos a conhecer algumas das primeiras redacções escolares de Maria Gabriela Llansol. Com comentários da poeta Maria Brás Ferreira e de João Barrento, e leituras de algumas dessas redacções, poderemos constatar como as narrativas da «Gabi», aos 13-14 anos, dão já a ver os caminhos da imaginação, a riqueza de escrita e a escolha de caminhos singulares que a Obra da escrevente Llansol irá confirmar e reforçar mais tarde.

O caderno que imprimimos para esse dia, com uma dúzia de redacções, poderá ajudar a conhecer melhor os primórdios da escrita da nossa autora.

16.5.23

 LLANSOL ENTROU NA LITERATURA ESPANHOLA

Maria Gabriela (Llansol) e Hélia (Correia) são personagens inspiradoras da autora e da protagonista do romance Mondego, de Rebeca Hernández, escritora e professora da Universidade de Salamanca. A personagem central desta narrativa (publicada em 2022 por RIL Editores), Joana Ayres, está em Coimbra, onde se ocupa da história do rei D. Dinis e da Rainha Santa, e é acolhida na cidade do Mondego pelas duas escritoras portuguesas, em cuja casa vive. «Fala durante horas com Maria Gabriela e com Hélia sobre livros e poesia» e «define para si própria uma genealogia constituída por ambas». E exclama: «Tomai-me, irmãs. Sou vossa»! (p. 39).


Com Maria Gabriela, de quem «herdará os seus objectos e a sua história» (incluindo a estátua de S. Ana ensinando a ler a Myriam!), aprende que «a morte é uma flor», e «tem acesso a um território vedado, feito de bruma e de névoa» (p. 40).

O romance tem sido, ao que parece, um êxito editorial em Espanha!