7.4.24

ECOS VIVOS DO ARQUIVO - I

O QUE É UMA FIGURA?


Da sessão de sábado, dia 6, fica o essencial para a comprensão da ideia de fundo deste novo ciclo, e da noção original de «Figura» em Llansol, através da voz da própria autora.


I - O Ciclo e o Arquivo:


O que significa, neste caso muito particular, «Arquivo»?

Há uma ou duas indicações de Maria Gabriela Llansol nos seus cadernos, que tentámos seguir até hoje, e que lançam luz sobre os modos como tem funcionado este arquivo vivo:

«... procuro, às vezes perdida, encontrar os meus objectos fundadores... A vontade desejosa de arquivo e catalogação surge de novo – como se tudo isso fosse, e fizesse parte, de «o jardim que o pensamento permite...

Não são recordações – é o passado em movimento para o presente...»

E depois, regressando à ideia do arquivo como um «jardim que o pensamento permite» (que foi o de Herbais e é o do próprio texto como fonte de pensamento), ideia que nos tem guiado até hoje:

«A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder 'audaciar-se', exprimir-se em obra que fique em toda a parte_______»

Isto quer dizer que, quando trazemos à luz um «eco vivo» deste arquivo – a voz de Llansol gravada em CDs ou cassetes, os discos de grafonola que reflectem todo um ambiente social da burguesia nos anos 30/40 do século passado, ou todo o arquivo, para mostrar a interacção criativa entre todos os seus sectores (a ideia do «Atlas») –, quando assim procedemos estamos a falar deste «arquivo», não como materiais mortos extaticamente «expostos», mas como um laboratório de possibilidades em que cada peça (suporte de escrita, objecto, livro, móveis...) é uma mónada, e o conjunto uma constelação aberta e multifacetada. Temos, de facto, tratado e dado a ver este arquivo como uma totalidade múltipla que inclui, para além da escrita, a paisagem estilhaçada e una de objectos e lugares, pessoas e retratos, figuras e seres, leituras e ideias. Tem sido a nossa «febre de arquivo» (que lhe dá vida há uma dúzia de anos), algo que Jacques Derrida designou um dia como o contraponto do que também vê como «o mal de arquivo» (que tantas vezes o transforma num conjunto de objectos mortos).

 

 

II - A noção de «Figura»:

 

O primeiro desses «Ecos vivos do arquivo» é então algo que não podia ser mais vivo: a própria voz da escritora, comentando uma noção também ela viva, móvel e não estática, como é a de 'FIGURA'.

Estamos em 2005-2006, com o grupo a que chamámos GELL-Grupo de Estudos Llansolianos, e discutimos durante meses essa noção, tomando como referência uma figura animal, a do cão Jade, e não uma das muitas figuras históricas ou reais que percorrem a Obra, que também nos poderia servir, mas seria mais óbvia expectável (dessas nos ocupámos na grande exposição do CCB em 2011, «Europa em sobreimpressão»: vd. as faixas com essas figuras históricas, hoje patentes na sala de sessões do Espaço Llansol). 


Dessas discussões, que gravámos e depois fixámos em livro (O que é uma Figura?, Mariposa Azual, 2009 – um dos primeiros livros da nossa colecção «Rio da Escrita»), faço uma breve síntese para destacar o que essencialmente caracteriza a noção de figura (por contraste com a de personagem de ficção), que integra inesperadas aparições figurais que não são sequer da esfera do vivo humano, mas animal ou vegetal, ou simplesmente «coisas», objectos que ganham vida – e que têm alguma coisa para nos ensinar....

A partir do pequeno caderno elaborado para esta sessão, e do que ouvimos na voz da Maria Gabriela, podemos chegar a compreender melhor o que é afinal aqui uma «Figura».

Sabemos que os textos de Maria Gabriela Llansol são narrativas sem enredo e sem personagens, uma espécie de tecido de «cenas fulgor» em cujo centro se encontra esta noção de «Figura». A figura é sempre o nódulo-imagem no centro dessas cenas-fulgor: o cão Jade nascendo sobre um medronheiro, aprendendo nomes de plantas e a ler, mas também ensinando o que é um «ambo», um «ser sendo» com identidade própria; S. João da Cruz levitando para mostrar às crianças a leveza do seu pensamento; a «estátua de leitura» mostrando a Témia (e ao Carneiro inglês!) o que é «ler, lendo» (não simplesmente ler, e ponto final, mas ler activamente, e sem fim); o Homem negro da bigorna ou o Cão-lobo, guias e salvadores da mulher que busca a sua identidade...  (no final da sessão conhecemos e comentámos algumas delas, centrando-nos em particular no objecto-figura). 

 

Quanto à figura em geral:

— As figuras «vêm sem ser chamadas»: entram por um qualquer imperativo na casa (corpo-espírito) de quem escreve, são «hóspedes de rara presença». Escrevente, figuras e legente con-vivem nesta comunidade, vista como «um grande universo cosmogónico» (dela nascem sempre outros mundos).

— As figuras são actantes (diferentemente das personagens de romance, que são actores), imagens que vivem (imagens em devir, sem fim e sem morte), e não personagens imaginadas, estáticas, prolongamentos do plano social ou biográfico. As figuras nunca são o que foram (na História ou na vida), porque a sua vocação é a de serem transformadas em algo de diferente e mais humano.

— A figura não conhece limites, não é apenas humana, mas abarca todo o ser e também as coisas, que ganham vida e agem sobre quem as olha. São forças activas, energias em fulgor que sustentam o Texto: são os seus «nós construtivos». Não as há «secundárias», todas são «principais», porque têm um perfil único, móvel e híbrido, sem necessidade de identidade ou nome próprio (que perdem em favor de outros, vários, relacionados com o que fazem, não com o que são no plano biográfico: «o nome é nada»), que as fixaria numa «forma» (e elas não são apenas uma forma, são uma força, algo que age). A figura é sem nome, sem psicologia, sem Eu. E faz parte de um universo sem hierarquias. O seu modo de estar-aí (no Texto) é o uma afirmação pela (aparente) negação.

— A figura tem uma vocação «integrativa»: há uma «ordem figural», onde se inscrevem também o escrevente e o legente; figuras do espaço biográfico da Autora (A.J.=Nómada, etc.), do quotidiano, ou o próprio Texto e os seus títulos (no caso de um livro como O Senhor de Herbais)! Diluem-se assim noções convencionais como as de «autor» «narrador», «leitor», género («romance», «poesia»...).

— A figura situa-se sempre nas margens do institucional («nós herdámos as margens»).

— O objectivo último da invenção da Figura na Obra de Llansol é a (desejada e vista como possível) humanização do mundo. O horizonte último da noção alternativa e englobante de figura é: «Concebe um mundo humano que aqui viva...» – no Texto, e se possível na vida (é aí que vão dar os comentários finais das conversas gravadas): a ideia do mundo como um círculo com 'o humano' no centro, mas sem hierarquias).

— Em resumo, e recorrendo a uma definição de M. G. Llansol num dos encontros do Grupo de Estudos Llansolianos em Dezembro de 2004: Figura é «aquele/aquela/aquilo [e a presença do neutro/da coisa aqui é decisiva!] que é susceptível de ressuscitação ou metamorfose, e que incorpora um princípio de vida».

 

III - Gravações: Llansol sobre a Figura:

 

A audição foi feita por secções, comentadas brevemente. Pode ouvir-se a seguir um breve momento dos comentários de Llansol sobre a Figura. E transcrevem-se na totalidade os textos ouvidos, que figuravam numa folha de sala que acompanhava o caderno da sessão:





IV - Os objectos-figura escolhidos:

 

Para evidenciar melhor o amplo espectro da noção de figura, escolhi dez objectos-figura do espólio. Os objectos têm, naturalmente, o seu lugar no romance convencional, mas a sua função e a sua natureza aí são totalmente diferentes – são sedentários e dependentes, ou mero adorno, e não nómadas e autónomos (como o objecto-figura em Llansol).

Estas designações surgem num postal avulso do espólio que contém uma tipologia do objecto em Llansol. O mais significativo é o «objecto nómada» (também visto como «salvo das águas» – do tempo, da família, da herança...). O objecto nómada é certamente o mais importante no Texto (que é também móvel, «lugar que viaja»): é aquele objecto que muda constantemente de lugar, de luz e de significação, e que a certa altura vai parar ao Texto e nele se integra activamente. Como os que aqui temos, que um dia, olhados de forma diferente, se transformam em matéria figural de primeira ordem, são figuras decisivas para a construção do Texto (o exemplo maior será Um Beijo Dado Mais Tarde, o grande livro dos objectos, de onde provêm quase todos estes, e os textos que os acompanham e clarificam, e que foram lidos por alguns dos presentes na sessão).


Os objectos-figura, para o serem, têm de sair do espaço da autobiografia para entrarem naquele outro a que Llansol chama da «signografia» [do Há] – tornam-se sinais de uma outra existência, como qualquer das suas figuras humanas e históricas. As coisas, mudadas de lugar, «fazem sinal», apelam a novos sentidos. Por detrás desses objectos há toda uma história, tempos vários, sociais, familiares, pessoais, que se reconstituem e se superam pela escrita – e também, neste nosso novo Ciclo, no «Atlas» de uma memória de que são parte integrante e activa (veremos como na próxima sessão).


[J.B.]