Três mulheres do Espaço Llansol – Hélia Correia, Maria Etelvina Santos e Helena Vieira – leram um texto dos cadernos inéditos, que aqui reproduzimos parcialmente.
e a mulher que passa pelo verde]
É um daqueles dias em que receber companhia equivale a um certo desejo de conversar e de crescer. A tarde é verídica, vou a Sintra pôr uma carta enviada em correio azul, em passo de pensamento, que é muitas vezes o meu passo lento de passeio.
Na mesma direcção que eu, mas real, não mulher de pensamento, Yourcenar ou outra, uma mulher de tez clara caminha a meu lado – rústica, sólida, daqueles seres criados no campo com quem faço uma troca imediata. Diz-me:
- Como Sintra é bela, por ter às vezes também árvores!
Passávamos agora por Grande Maior, a minha árvore favorita, pela impressão que me traz a sua grandeza, na sua sombra de simplicidade.
[...]
Poderia ser uma árvore, uma ave que levanta voo coberta pelo seu peso,
e que cai de novo sobre a raiz,
transformando o voo cortado em seu verde?
Sombra verde, em tentativa rápida realizada. Apoio seguro. Tronco por onde eu passo levantando os olhos _______ e seguindo para a frente.
Poderia ser Yourcenar uma figura, tal como eu a concebo? Uma espécie de lugar de troca, como as árvores o são – uma espécie de realização duradoura, presa, e material do espírito? E no tom de olhar com que as concebo e as vejo?...
[...]
Nesta meditação, a olhar através das plantas verdes, ocorre-me que outro dia, pela Volta do Duche, seguia para a Vila Velha através de plátanos, castanheiros, e de uma árvore soberba – a que eu chamo Grande Maior. Quando passo por ela digo sempre (pura verdade!):
- Bom dia, Grande Maior!
Assim me apetecia saudar Marguerite Yourcenar, sabendo que Grande Maior, sobretudo no tronco, tem as suas limitações de transparência, de movimento e de diáfano.
Mas a tal mulher, que não era ela, pôs-se a meu lado enquanto eu seguia e, a níveis e a entoações diferentes, falou-me da mesma paixão – a sua passagem através do verde, que não era a minha. Mas falávamos com muita verdade mútua, e encantamento pela expressão dos verdes, nos animais, nos homens, nas plantas verdejantes e nas coisas.
Vejo-a imobilizar-se no écran do computador e quero saber o que é o fasto e o nefasto, e ouço a voz dos automóveis que me diz: «que só há caminho».
É a primeira vez que uma coisa assim inerte e útil me fala. Ou haverá imagens translúcidas de beleza no que eu julgava inerte?
Se assim for, dou o sentido por não sentido – como faço sempre. Tenho pouca ciência para aprofundar a eclosão da beleza.
[...]
(Do Caderno 1.48 do espólio, 1997)



