30.8.23

DA TERRA AO TEXTO

Llansol no Festival dos Eidos / Galiza


No passado fim de semana Llansol viajou até às montanhas da Galiza conhecidas como «O Courel». Mais precisamente, até Parada do Courel, uma aldeia a 1.600 metros de altitude, onde se situa a Fundação Uxío Novoneyra, o grande poeta que aí nasceu (em 1930) e viveu a maior parte da sua vida. Nesse lugar fora do mundo e tão perto da Terra dividia o seu tempo entre o trabalho rural nos eidos (na língua galega, do latim aedes = casa: pequenas parcelas de terrenos cultivados, junto das aldeias e das casas, ou mesmo a própria casa rural), a observação e a vivência da impressionante natureza da montanha, a escrita de poesia e os desenhos ou poemas caligráficos que enchem hoje as paredes da casa que se transformou na sede da Fundação com o seu nome. Os Eidos é precisamente o título do livro de referência de Uxío Novoneyra. A sua poesia, os seus contos, a grande e muito reveladora entrevista que preenche todo um livro (Dos soños teimosos), suscitam constantemente inesperados paralelos com o universo, os interesses e o pensamento de Maria Gabriela Llansol.



Alguns livros de Uxío Novoneyra

Por isso ela foi convidada, através do Espaço Llansol, para estar presente no «Festival dos Eidos» (o sétimo) deste ano. A sugestão para este «encontro inesperado do diverso» veio da poeta e jornalista de Lugo Nieves Neira Roca, que já participou por mais de uma vez em actividades do Espaço Llansol, uma delas em Julho de 2019, quando apresentou, com um grupo de mulheres da Galiza (desde então por nós referidas como «Beguinas de Lugo»), um belo espectáculo de leitura dançada de textos de Maria Gabriela Llansol, a partir do livro que fizeram para essa ocasião, e que intitularam Fulgor (vd., neste blog, o post de 14 de Julho de 2019: http://espacollansol.blogspot.com/2019/07/ler-como-quem-danca-dancar-como-quem-le.html ). Desde essa altura estreitaram-se as relações entre o Espaço Llansol e a Galiza, os seus poetas e a sua cultura, graças ao entusiasmo de Nieves Neira.

Também agora, na atmosfera telúrica e intensa da «mais-paisagem» dos lugares do Courel, uma nova leitura dançada foi apresentada por cinco das «Beguinas» na clareira mágica do «Souto da Rubial» (que comparamos aos encontros estivais da «Clareira de Parasceve», na Serra de Sintra, com a Maria Gabriela), desta vez entrecruzando fragmentos de Uxío Novoneyra e Maria Gabriela Llansol, a partir do caderno feito para este Festival, com o título llansoliano Em torno da árvore estendia-se o jardim nascente... As imagens que deixamos no breve video que se segue permitirão visualizar e sentir melhor a magia do lugar e das palavras que nele ecoaram, em parte também inscritas em faixas de linho enroladas nos troncos dos castanheiros seculares.



Por seu lado, a pedido da organizadora do Festival, Branca Novoneyra, João Barrento fez, na mesma clareira dos castanheiros do «Souto», e na sequência da leitura dançada, uma intervenção em que cruzou temas e modos de olhar o mundo comuns a Llansol e Uxío, e também a poetas galegas como Chus [Maria de Jesus] Pato e Nieves Neira Roca. Transcreve-se a seguir o essencial do que foi dito por João Barrento.



A escritora portuguesa de que venho falar (e que não é já uma desconhecida nestas paragens) escreveu um dia, deixando claro o seu modo de estar no mundo: «Não darei um passo à margem do fulgor»! Fulgor, esse termo tão llansoliano, é precisamente o título do livro de fragmentos de obras de Maria Gabriela Llansol, organizado por Nieves Neira e María Corral Fernández, e que algumas mulheres aqui presentes leram dançando, num espectáculo inesquecível, no pátio do Espaço Llansol em Lisboa, em 2019.

É para a Nieves e suas companheiras, agora também para Branca Novoneyra, que vai a minha primeira palavra de agradecimento pelo convite para estar aqui. E depois, para todos os que vieram para esta «troca verdadeira», como gostava de dizer a Maria Gabriela. 

Eu venho de um lugar – esse Espaço com o nome de Llansol – que, apesar de estar no centro de uma grande cidade como Lisboa, no seu interior, no que contém, na sua finalidade e no seu espírito, é um espaço situado nas margens do mundo de hoje – como este, da Fundación Uxío Novoneyra onde me encontro, também ele um espaço vivo, de poesia e pensamento («Parada do Courel, um Finis Terrae, onde todo se detén e contén o alento», como lemos na Introdução a Os Eidos de Uxío). Um espaço do culto, não da personalidade, mas da possibilidade, do Aberto, de uma crença que, se existe, só pode ser, como diz Uxío, «unha fe pola sensación vivida». Maria Gabriela Llansol gostaria de estar aqui, nesta casa tão diferente e tão próxima daquela que nos deixou, com o desejo de que ela não fosse um museu estático, mas um lugar dinâmico, onde a escrita nos chama, o pensamento vibra e a leitura é uma forma amorosa de ampliar o texto (logo veremos esse lugar no video que trouxe, centrado nas casas e nos mundos que dentro delas se nos abrem, sempre em devir, sempre «tornando-se» outra coisa). A Nieves viu bem esse «jogo» amoroso com o texto, no Prólogo ao livro que organizou, e que intitulou «Amor sive legens», que quer dizer: a leitura viva, dançada, em voz alta, é um acto de amor. Imagino que Llansol, nesta casa onde estamos, «casa-texto», como a Nieves também a vê nesse prólogo, na «miña casa que ten moitas casas» (Uxío Novoneyra) talvez vos lesse esta passagem de um dos seus muitos cadernos de escrita:

A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo apenas uma casa real, seria estática – um museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder audaciar-se, exprimir-se em obra que fique em toda a parte. (Caerno 1.43, p. 84, 4-10-1995).

Na «casa de escrever» de Llansol, casa feita de muitas casas como a de Uxío, sempre cheia de sinais e com múltiplas janelas abertas sobre o universo, tudo gira em permanente vibração e devir. Escrever é escreviverescreler com as muitas figuras que antes dela escreveram e viveram e foram acolhidas na casa do Texto, e com os legentes que se alimentam da sua escrita e a prolongam, algo bem diferente do leitor passivo. Escrever é aí um acto de necessidade, uma pulsão, uma espécie de «segunda natureza».

Temos então dois lugares próximos na distância, lugares de pensamento vivo, onde não temos receio de correr todos os riscos já assumidos por uma Obra que escolheu situar-se nas margens, porque só aí pode ser autêntica: «Escrevo nas margens da língua, fora da literatura», diz Llansol.

Aqui, os paralelos levam-nos a uma outra poeta galega, Chus [María de Xesus] Pato: também nela encontramos, nas margens da língua, algo que está para lá da língua e que, como em Llansol, se chama «voz». Uma espécie de eco do inconsciente da escrita, que aparece assim comentado nas duas autoras. Em Llansol:

Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho... Se vim para acompanhar a voz, irei procurá-la em qualquer lugar que fale, / montanha, / campo raso [talvez un eido?], praça da cidade, / prega do céu (...) Entretanto, / um mais saber há-de subir à voz.

Também a poeta galega acredita que há uma voz que fala no poema mas está para lá dele («o que, não dito, é outra cousa que o dito»), uma voz própria, inconfundível, e de algum modo estrangeira, habitante das margens. Chus escreve: «Estranxeira na miña propia historia / na miña propia paisaxe / na miña propia lingua». Não basta, a Llansol, a Uxío, a Chus, a Nieves Neira, a escrita de superfície, o poema meramente exterior da convenção, o relato de factos biográficos. Todos estão à escuta de uma qualquer «voz» («Quem me chama?», é o lema de Llansol, não «Quem sou?») para ouvir os apelos do mundo e os transformar em escrita, em acontecimento do poema/do texto que se demarca da linguagem (comum) e do sentido das palavras (que, querendo tudo dizer, lhes fecha os horizontes).

Por isso Llansol escreve: «Não ligues demasiado ao sentido; a maior parte das vezes é impostura da língua». (Ou seja: há que buscar outras camadas mais fundas, nas «dobras» do real, tentar traduzir o movimento do mundo numa linguagem aberta, criadora);

E Chus Pato: «Unha voz interna, escoitamos esa voz particular; agardamos ordes, agardamos instrucións desa voz interior (...)

Agardamos ordes, é así como escribimos?»

E ainda:

«Irrompes desde o sentido // non o cubras, trénzao [entrança-o] / trenza o que nunca poderás dicir».

 

Por sua vez, Uxío Novoneyra fala do «infinito da língua», «un infinito do idioma propio (...), eso que va conxuntamente coa fala e permite dicir cousas que inda non foron formuladas.». É uma perfeita definição da língua nova de Llansol, uma língua que, na narrativa-fora-do-género, recorre ao fulgor da imagem nua, ao pensamento não abstracto, àquela «língua sem impostura» e sem modelos que torna a sua Obra tão original. 

A imagem nua e a língua pura de Llansol evocam também a Neve de Agosto da Nieves Neira. Este título, que vem do Oriente e chega a Octavio Paz (onde é «escritura del mar..., escritura del viento..., testamento de sol...»), pode também ser lido à luz de Maria Gabriela: para ela, que amava o mar, o vento e o sol, «a neve é, nestes dias, a verdadeira claridade da natureza» (Causa Amante), símbolo de pureza e de luz, de justeza e de integridade sem corrupção, que só pode vir de uma dupla fonte: o corpo e a escrita, o corpo que escreve. Também aqui e agora, no livro da Nieves e neste dia de Agosto, é daí que tudo vem ao nosso encontro. Estamos aqui para ver «onde nos leva a escrita» desses poetas – Llansol, Uxío, Nieves, Chus –, e se nós, com eles, poderemos chegar a ver a luz do júbilo, a abrir o corpo ao silêncio branco da página, à claridade da neve (e da névoa) de Agosto, nestes dois dias de comunidade de montanha.

Talvez se possa chegar aí, se soubermos simplesmente olhar («Olla as mans da luz abrindose na nebra», escreve a Nieves); ou então, com Uxío, descobrir a convivência do «baile en branco da páxina» expectante com a «palavra substantiva», esse «silêncio elocuente das poucas palabras» (as da sua poesia elegíaca do início, Os Eidos), ou com a palavra intensa, fulgurante que «convoca a presença», chama as coisas e, nomeando-as, as faz reviver.

 

Estamos no centro da Obra de Maria Gabriela Llansol, e é dela que agora irei dar-vos, em síntese, a minha leitura muito pessoal.

Essa Obra é um Livro único e contínuo que, nos últimos vinte anos, pelo menos, me levou realmente a mudar de vida. Um rio sem fim, porque Llansol, tendo publicado vinte e seis obras próprias (e muitas traduções de autores franceses, e outros), não «fez livros», limitou-se a escrever. No primeiro volume dos Diários póstumos (a série a que chamamos «Livros de Horas») lemos: «Desejo escrever, não fazer livros, o que é muito diferente daquilo que experimentava antes» [i.é, em Portugal, antes do exílio de vinte anos na Bélgica]; e «Todos estes textos integram o texto do meu livro, livro único, que aparece publicado em lugares, datas, textos ou volumes diferentes». E já antes, no diário Finita, lemos: «Eu não fui talhada para fazer livros, mas para dar a entender por escrito o que foi uma experiência...» – e «experiência» significa, na origem, travessia arriscada, entre «os perigos do poço e os prazeres do jogo» (diz Llansol em Amar um Cão). Estamos então perante um livro talvez desprovido de autor (e de autoridade), que não remete  para  alguém que o teria escrito, mas, como vimos, para uma «voz» que gera no leitor o fascínio de uma escrita do enigma – e é isto o que se sente quando se lê Llansol. 

O texto contínuo de Maria Gabriela mostra ainda (contra o que diz o filósofo Adorno, em Minima moralia) que pode «haver vida verdadeira no meio da falsa», e que, para além da sua inquestionável singularidade textual, o projecto do humano que o orienta seria susceptível de mudar o mundo, esse «jardim devastado» em que ela procura implantar o «perfil da esperança», até o tornar de novo reconhecível como um mundo mais humanizado (também este «projecto» tem paralelos com o do Uxío mais político, o de Do Courel a Compostela e de Dos soños teimosos).

Llansol sabe que «nada ainda modificou o mundo», mas também que há a possibilidade de «conceber um mundo humano que aqui viva, nestas paragens [neste mundo nosso, o de hoje!] onde não há raízes», nem memória. Ela e Uxío sabiam que vivemos nesse jardim devastado, mas onde sempre pode aflorar a esperança. Nem um nem outro abdicam do seu «projecto do humano». Uxío Novoneyra anda também, como Llansol, «à procura de um final feliz», de um qualquer «espaço edénico», mas sem Éden, porque ele pode existir aqui, «no meio da coisa», sobre esta Terra. Não é uma utopia, talvez apenas uma ucronia, o lugar de um tempo-outro, que para Llansol é o não-tempo de um eterno presente vivido. Uxío di-lo nestes termos:

«Sabemos que ti podes ser outra cousa / sabemos que o home pode ser outra cousa. Sabemos que hai mesmo unha posibilidade de ser outro e de sociedade outra. Sempre hai unha posibilidade non mentida, non é unha ilusión falsa, hai, existe, sabémolo e sábeno todos... e afirmao a teima dos soños e os ollos que erbellan... No Courel din erbellar, 'erbellábanlle os ollos', o brillo movido e múltiple. Unha imaxe mesma da Esperanza.

Hai un sublimarse, un excederse, un cume do humano».

E em Chus Pato a questão está também presente, quando a poeta diz que o que se busca não é apenas «unha experiencia de si» (biográfica), mas «unha nova experiencia política do sensíbel ou unha experiencia sensíbel do político».  Ambas, Llansol e Chus, sabem que, como escreve esta última, «o bosque medra sobre o entullo dunha cidade arrasada» e que «un corazón soña como as árbores soñan». Ambas sabem que «en tempos de fartura, os sistemas de dominio xa non se ocupan das poboacións», e que «o capital é analfabeto». E Llansol percebe isso já há mais de trinta anos, na Lisboa que encontra depois do regresso do exílio: «Na Lisboa que vim encontrar agora a crença é o progresso que, na realidade, é dinheiro a correr mais ligeiro..., é o nome do nada-de-prata que a Europa pluthocrata, telemathica e futurenta deu a alguns aqui». Mas há também o reverso: «Aqui poderá ser a terra do homem comum... Deve bastar que o homem se ocupe finalmente do homem».

            O que é mais importante compreender nesta Obra não será, assim, tanto o que nela há de mais óbvio e a levou a romper cânones e normas literários – isso não faz ninguém mudar de vida, quando muito de gosto. Ora, o que faz mudar de gosto e de vida é claramente de outra ordem, não estética, não ética, mas etistética. O lado estético, o da rotura com os paradigmas do realismo, da passagem da narratividade à «textualidade», da verosimilhança ao fulgor, do fluxo de uma história à intensidade da imagem e à autonomia relativa do fragmento, da expressão do Eu para o «poema sem-eu» que é o texto de Llansol, tudo isso me parece, afinal, apenas uma parte (a mais propriamente literária) deste projecto de escrita-vida. O que é mais importante, pelo menos tão importante, são os princípios de ordem ética e existencial que sustentam esta Obra, e que fundam também uma visão política do mundo. Em Llansol ela está presente desde a primeira trilogia, a «Geografia de Rebeldes» da História, a busca de uma «Restante vida» contra o mundo e os seus «príncipes», a crença numa «Casa do Ser» da comunidade – não sociedade! – dos «absolutamente sós»; e continua-se mais tarde no que ela refere como o seu «projecto do humano» – mesmo fora da perspectiva histórica, simplesmente na «ordem figural do quotidiano», no dia-a-dia do corpo de cada um. Tendo vivido e escrito essencialmente em tempos de espera, depois das grandes guerras e antes dos desastres de hoje, Llansol e Uxío foram ambos aquilo a que este chama «vigias de uma geração» – sem nunca petencerem a uma geração! Este é o modo próprio de ser um escritor (também) político sem cair no discurso ideológico explícito.

Já Chus Pato parece entrar nestes territórios por outras vias: afirmando, por exemplo, a necessidade de criar e cultivar uma língua contra o capital, que a reduz a coisa de consumo (também Llansol faz isso, mais discretamente). Ou quando diz, numa entrevista, que «a época do sublime acabou. Estamos no capitalismo tardio e a beleza tem de ir acompanhada de uma ética e uma proposta». É a proposta da escrita que não deseja apenas fazer uma revolução formal, mas também empenhar-se nesse «projecto do humano», uma escrita que, como Llansol nos disse pouco antes da morte, vive de «restos que se revoltam».

Também a poesia de Nieves Neira, de forma mais subtil, nos dá a entender que há nela um ideia condutora de fundo em que o corpo é o centro, uma nostalgia de algo de distante que é essencial, um substrato escondido – porque – lemos em Neve de Agosto – «a letra tem um dentro», porque «a profundidade está na pel» e «aquí a pel é distancia» –, uma voz-outra que faz dela também uma poesia de intervenção (na consciência de quem lê). Assim, por exemplo, neste poema em que dialoga com Uxío Novoneyra:

     Quen soña coa distancia?

     Quen non soña coa distancia?

     Pode morrer definitivamente a distancia?

     Cando afunde a illa morre a distancia?

     Afunde a illa na consciencia do conquistador?

Tudo isto tem a ver com formas de escrita que não se des-cuida de si, mas que também cuida de pensar caminhos possíveis para «este desconhecido que nos acompanha», que é o mundo para Llansol. Esta será a sua face mais ou menos abertamente política (um aspecto até agora muito esquecido nas análises da Obra desta escritora / escrevente).

O estímulo para continuar leva-nos então pelos caminhos de um Texto em que, contrariamente ao que por vezes se diz, não há transcendência, nem metafísica, nem metáforas, a que eu chamaria o caminho do ver. Percebendo o que é isso nesta Obra, seguindo por aí, não só eu vejo mais nitidamente o que o texto me dá a ver (só preciso de o ler como texto, na sua materialidade, sem entrar em efabulações imaginativas, sem transfigurar o valor facial que a palavra nele adquire), como, sobretudo, ele me vê de cada vez que o leio. E não há muitos textos que me vejam, que, depois de neles entrar, passem a viver comigo. Sem medo daquilo que, à primeira vista, pode deixar-nos perplexos, talvez assustados. O que acontece é que pecisamos de reaprender a ler (com) este Texto. Se não desistirmos, talvez cheguemos a mudar de vida e de pensamento. Talvez «cheguemos aonde não sabemos por caminhos que não sabemos», como escreve San Juan de la Cruz. E a ver o mundo com outros olhos.

Nada disto implica uma visão negativista do mundo. Pelo contrário, em Llansol, como ainda em Uxío Novoneyra, é a afirmação do lugar imprescindível do sonho (da «utopia concreta» do filósofo alemão Ernst Bloch) na vida e na escrita. Em Uxío, «o fenómeno dos soños teimosos», «esa teimosía dos soños do posible máximo». Em Llansol: «Se é o sonho que cria o homem, vou criar o sonho que me cria», porque «o sonho é um grande escritor».

Mas vejamos ainda, para terminar, que coisas, desejos, sonhos são esses que o texto propõe e o humano, tal como o conhecemos, dificilmente comporta. O Texto de Llansol sugere, desde os seus primórdios, alguns caminhos, que me limito a lembrar:

–- evoluir para «pobre» (segundo o princípio do despojamento e da des-possessão – mas não da proletarização: o pobre, aqui, não é o proletário);

–- superar a «impostura da língua» (com todas as implicações que isso tem: éticas, literárias, e também sociais);

–- olhar o mundo como coisa estética: sem cair no esteticismo estéril e preciosista, seguindo antes pela via da aisthesis(dos sentidos e do corpo), vendo o mundo como revelação permanente: de significados ocultos, de beleza, de fonte de possibilidades, de encontros produtivos... Porque, lemos em O Senhor de Herbais (2002), «o mundo é puramente estético. Mas raramente é santo»;

–- imaginar que se pode ir além do colectivismo estreito das lutas sociais, no sentido de uma comunidade ampla dos seres(dos «semelhantes na diferença»), de sentido realmente universal e livre (o oposto da «globalização hegemónica» do capital abstracto, em que estamos mergulhados);

– seguir o sonho de realizar um processo de individuação próprio, para lá da inevitável socialização uniformizadora de comportamentos, consciências e saberes;

– mas lembrando sempre que nós, humanos, não somos o centro de uma cadeia hierárquica, mas um elo na «grande cadeia do Ser». E que temos a enorme responsabilidade de assumir um contrato com o Vivo (ideia que lhe vem de Spinoza e deveria estar hoje reflectida nos protocolos sobre as políticas do ambiente, cada vez mais politicamente ineficazes e  acomodadas aos interesses dominantes). 

–- finalmente, numa época do virtual, o texto propõe a possibilidade de se seguir (igualmente) a via do carbono, da clorofila, da matéria do mundo no seu hiper-realismo fulgurante que muitos já não vêem, ou a que simplesmente não têm acesso. Numa agenda do ano 2000, em 14 de Março, Llansol anota: 

«... a minha escrita é matéria ligada à matéria, ou seja, apresentação ao cosmos, que tudo impregna – incluindo eu própria. 

É sobretudo uma força energética recebida da ‘natureza’ em sentido amplo».

 

Entendemos talvez agora melhor que o futuro que este Texto tão singular procura e oferece mais não é, provavelmente, do que aquilo que muitos de nós já desejamos hoje: qualquer coisa como uma nova infância do mundo. Uxío, também ele um «herdeiro das margens», sabia disso, sabia que esse lugar podia estar nos seus eidos, quando escreve: «Hein d'ir [...] / a un eido solo onde ninguén me vexa».

Aqui, no Courel, estamos próximos desse Lugar.

[As citações de Uxío Novoneyra, Chus Pato e Nieves Neira Roca provêm dos seguintes livros:

Uxío Novoneyra: Os Eidos. Libro del Courel (Madrid, Árdora Ediciones, 2010) e Dos soños teimosos (Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 2010)

Chus Pato, Um Fémur de Voz Corre a Galope. Antologia [bilingue] (Porto, Officium Lectionis, 2022)

Nieves Neira Roca, Neve de Agosto (Santiago de Compostela, Chan da Pólvora Editora, 2022)]


Na tarde de sábado João Barrento apresentou ainda, na antiga escolinha do lugar, com as suas carteiras originais, dois videos que permitiram aos muitos interessados que se deslocaram nesse fim-de-semana à aldeia de Parada do Courel conhecer melhor os lugares e as casas do percurso do exílio, real e interior, de Maria Gabriela Llansol (A Vocação do Exílio, proveniente das Jornadas Llansolianas de 2015), bem como todo o imenso espólio que nos deixou e as duas casas que o acolheram, a de Sintra e a de Campo de Ourique (o video com o título Um Lugar e um Legado). 


10.6.23

 A «OFICINA DOS MURMÚRIOS» NO ESPAÇO LLANSOL

Sobre esta actividade com crianças, orientada por Marina Palácio e que decorreu no Espaço Llansol na quarta-feira, 7 de Junho, pode ver-se o comentário da responsável, com data de ontem na nossa página do Facebook:

 https://www.facebook.com/EspacoLlansol




7.6.23

 LLANSOL NA CASA DA MÚSICA DE LEIPZIG

A nova «Gewandhaus» de Leipzig

No próximo dia 11 de Junho será executada na Gewandhaus de Leipzig (a célebre casa de música que vem já do século XVIII) a peça intitulada Lissabonleipzig (Notes added to a text), da jovem compositora portuguesa Mariana Vieira, no âmbito da «Festa Bach 2023» daquela cidade alemã. A jovem compositora nasceu em Sintra (1997) e estudou na Escola Superior de Música de Lisboa com João Madureira (também ele autor de peças a partir de textos de Llansol) e António Pinho Vargas, entre outros. Recebeu já em 2021 um prémio austríaco pela composição «The unexpected encounter with diversity», igualmente inspirada no livro de Llansol Lisboaleipzig. O encontro inesperado do diverso (uma co-produção com o Teatro do Bairro Alto).

29.5.23

A OFICINA DOS MURMÚRIOS

Leitura e criatividade | Arte e natureza

No próximo dia 7 de Junho, pelas 13h30, a artista, autora e arte-educadora Marina Palácio orienta no Espaço Llansol uma actividade com crianças do 1º ano da Escola Básica Rainha Santa Isabel (e outras que queiram vir), no âmbito das «Oficinas de Leitura e Criatividade - Educação pelo livro, arte e natureza», que criou e orienta desde 2009 por todo o país (em escolas, bibliotecas e instituições culturais), e também em alguns países europeus e africanos.


Desta vez, a «Oficina dos Murmúrios» centrar-se-á no livro de Maria Gabriela Llansol Amar um Cão (na versão «para os mais pequenos» feita pela escritora Hélia Correia, disponível nesse dia num dos nossos «Cadernos de Tejo-Rio»), convocando ainda outras leituras. Pretende-se levar as crianças (e adultos que assistam) a consciencializar o lugar do «Vivo», como Llansol o via, através da leitura, da escrita, do desenho, do diálogo – num exercício de «observação sensível e escuta poética» que Marina Palácio sintetiza nas seguintes questões: «E se começássemos a aproveitar as plantas não só pelo que produzem, como também por aquilo que nos podem ensinar? Serão as plantas, os animais e outras formas de vida os grandes poetas ao longo dos tempos?».

 GABI: A NARRADORA DE SONHOS REAIS...

Regressámos na nossa sessão de sábado aos primórdios da escrita de Maria Gabriela Llansol, comentando e lendo algumas surpreendentes narrativas da aluna do Liceu Pedro Nunes nos anos de 1945-46 (com 13-14 anos de idade), já então vista por alguns colegas como «a literata» da turma, e pela professora Maria Arminda Zaluar como alguém que, «assim, poderá ir até aos astros!».


João Barrento e Maria Brás Ferreira falam das redacções

A poeta Maria Brás Ferreira (autora dos livros Hidrogénio [2020] e Rasura [2021]) comentou algumas dessas redacções, reunidas no caderno feito para esta sessão («Do meu olhar escorre o sonho...» - As redacções da Gabi (1945-46), numa leitura inteligente e iluminante dos aspectos essenciais e mais originais dessa escrita juvenil e já premonitória. Sintetizou-a como sendo uma escrita já então feita como trabalho (e não mero entretenimento), como algo de móbil, um motor ou catalisador da energia da imaginação, e com a capacidade do dom, que proporciona uma leitura activa e devolve alguma coisa a quem lê.

E  conclui: «Todas estas histórias encerram o cunho inaugural da experiência estética. Inaugural, não por se tratar de redacções escolares escritas em idade precoce, mas precisamente por definirem, por extracção do real, o sempre começo, e o acontecimento sempre iniciático, com a solenidade que lhe está associada, do olhar. Trata-se da descoberta da experiência estética como aquela que transforma o limite em limiar, e a paisagem num plano fundo, esquivo. Das tentativas de o fixar [...] restará, inequivocamente resta, o descobrimento de mais uma falha e mais uma morada imaginária para o ser».



Também João Barrento destaca, na Introdução ao «Caderno de Tejo-Rio» com uma dúzia de redacções, momentos como: a surpresa dos «caminhos da imaginação e a riqueza de escrita...  numa escrevente daquela idade»; «a escolha de situações originais, revelando grande capacidade de observação e análise emocional das figuras, interesse social (sobretudo pelas classes mais desfavorecidas), uma tendência visionária que o futuro confirmará, e uma particular sensibilidade à beleza e aos fenómenos naturais». E ainda a diversidade dos tipos de narrativa, a que muitas vezes está subjacente uma «reflexão (quase) filosófica sobre as grandes questões do humano, e o registo fantástico ou parabólico. Muitas das histórias narradas são grandes alegorias da vida humana (...), transfigurando vivências banais em algo de mais elevado com sentido universal».

E ainda, assinalando as afinidades detectadas entre a escrita de Llansol e a poesia de Maria Brás Ferreira (com Spinoza e a «sobreimpressão» em fundo), compôs um «poema-sem-eu llansoliano» em que tudo é autobiográfico sem que o Eu fale de si (como já nas redacções da Gabi e na escrita posterior de Llansol), todo ele construído com linhas tiradas dos poemas dos livros da Maria Brás. Foi também a nossa forma de lhe agradecer a sua participação. Assim:

Vim porque o anonimato falou mais alto

para melhor montar os teatros de menina.

Prefiro os lugares recolhidos

onde se possa tão-só imaginar infinitamente

imagens trémulas, finas membranas de tédio-volúpia.

É isso o que é e o que somos:

nadar no ar, voar rente ao chão.

Devemos mirar-nos de dentro, para dentro,

para poder fixar

a grande evidência das coisas:

O corpo, que desconheço

(mas só o corpo importa);

a voz, o que mais recordo.

Olha para o mundo e diz-me

onde tudo começa.

As palavras dizem mais de mim

do que quero fazer parecer.

A voz extinguiu-se,

pois é o corpo que sempre prova

a bondade e a justiça.

E tudo importará:

por isso não morreremos nunca.

E experimentando e contornando o medo,

descobriremos o encanto da incerteza,

o desprendimento leal das formas amadas.

Que os anjos falem então por mim, de mim,

que falem de uma vez por todas

sem as amarras da língua [da impostura].

Os verbos que me impelem

são os silêncios, as paralisias

da grande História da Humanidade.

Para, em vez de ocupar o tempo,

perfilar a duração, [intuir o Há].

Para perceber como há noites

que são mais altas do que a noite.

 

 (J.B. – alias, M. B. F.)


17.5.23

 AS REDACÇÕES DA GABI


No próximo sábado 27 de Maio, pelas 17 horas, daremos a conhecer algumas das primeiras redacções escolares de Maria Gabriela Llansol. Com comentários da poeta Maria Brás Ferreira e de João Barrento, e leituras de algumas dessas redacções, poderemos constatar como as narrativas da «Gabi», aos 13-14 anos, dão já a ver os caminhos da imaginação, a riqueza de escrita e a escolha de caminhos singulares que a Obra da escrevente Llansol irá confirmar e reforçar mais tarde.

O caderno que imprimimos para esse dia, com uma dúzia de redacções, poderá ajudar a conhecer melhor os primórdios da escrita da nossa autora.

16.5.23

 LLANSOL ENTROU NA LITERATURA ESPANHOLA

Maria Gabriela (Llansol) e Hélia (Correia) são personagens inspiradoras da autora e da protagonista do romance Mondego, de Rebeca Hernández, escritora e professora da Universidade de Salamanca. A personagem central desta narrativa (publicada em 2022 por RIL Editores), Joana Ayres, está em Coimbra, onde se ocupa da história do rei D. Dinis e da Rainha Santa, e é acolhida na cidade do Mondego pelas duas escritoras portuguesas, em cuja casa vive. «Fala durante horas com Maria Gabriela e com Hélia sobre livros e poesia» e «define para si própria uma genealogia constituída por ambas». E exclama: «Tomai-me, irmãs. Sou vossa»! (p. 39).


Com Maria Gabriela, de quem «herdará os seus objectos e a sua história» (incluindo a estátua de S. Ana ensinando a ler a Myriam!), aprende que «a morte é uma flor», e «tem acesso a um território vedado, feito de bruma e de névoa» (p. 40).

O romance tem sido, ao que parece, um êxito editorial em Espanha!

24.4.23

ALMAS GÉMEAS?

Regina Guimarães e Maria Gabriela Llansol

A nossa intenção ao convidarmos essa artista multifacetada que é Regina Guimarães para estar connosco foi a de iluminar, para os que se interessam pelo trabalho singular destas duas almas gémeas habitantes das margens, uma relação que se iniciou nos anos noventa (com o espectáculo do grupo «Três Tristes Tigres» Ferida Consentida, construído com Ana Deus e Alexandre Soares a partir do livro de Llansol Um Beijo Dado Mais Tarde) e teve continuidade até hoje, e de que a Regina nos falou em pormenor. 

Na fase preparatória do espectáculo, em Junho de 1998, Regina Guimarães dava conta a Maria Gabriela Llansol do andamento dos trabalhos, e concluia em tom mais pessoal, mostrando uma clara sintonia com o universo da Gabriela, e revelando já marcas da sua própria poesia : 

«Quantos passos tenho contado em sonhos debaixo dos castanheiros, plátanos etc. que têm o nome do seu reino. Não sei se me deixe apanhar pelos ramos ou pela raiz ou apenas pela abstracta simetria/assimetria que insufla sentido no sonho e no despertar. Às vezes sinto-me tão descentrada em relação às palavras que até as oiço fustigar-me os ouvidos na sua fuga».

E ao mesmo tempo mostrava como, na concepção da Ferida Consentida, ia ao encontro dos modos de pensar a escrita que eram os da nossa autora:

«Estamos a trabalhar a questão da leitura, e até já há um bocadinho de música. Pensámos que, para além da sua voz (a voz de todas as suas vozes no milagre de a registarmos...), seria interessante fazer intervir a nível sonoro um grande número de leitores e afectos de leitura. É por aí que vamos (...) A ideia-chave é que o texto nos lê (nos agarra pela nuca, a nós, pobres tigres de papel».

Deste espectáculo ouvimos um dos momentos, de desconstrução do texto de Llansol, na voz cantada de Ana Deus, que nos deu uma ideia concreta do que a Regina escrevia em 1998, na carta a Llansol: trata-se de articular palavra e música, de sobrepor vozes, de pôr o texto a ler-nos. Na altura, e depois de ter visto o espectáculo em Lisboa e no Porto, a Maria Gabriela reconhece a pertinência da escolha daquele seu livro, em que rememora os tempos da infância, e o trabalho feito sobre ele pelo grupo do Porto, e descobre esses ecos e sonoridades muito particulares, como parece dizer esta carta de 1999:

«Vi por duas vezes Ferida Consentida, e toda a impressão visual da passagem da infância no vosso novo palco assim se renova e mantém presente. Eram vários os elementos que convergiam... criando harmonia e uma sonorodade envolvente e funda. Na nova recriação_____ estava certo. É assim: o tempo não tem limites..., permanece no futuro, se houver olhos abertos que o mantenham presente».


                                                Regina Guimarães, com João Barrento e Helena Vieira


Depois, foi a revelação progressiva, pela Regina, desta relação que data desses anos noventa, quando um dia vai à Editora Afrontamento e descobre aí os primeiros livros de Llansol. Ela própria começara muito cedo a escrever, neste caso poesia, fora das normas e entre os géneros (aspecto que comentou também na Obra de Llansol), com 17-18 anos (à imagem de um dos poetas franceses que ambas traduziriam: Rimbaud, o «rapaz raro», como lhe chamaria Maria Gabriela). Regina não deixará de escrever poesia até hoje, com dezenas de livros publicados (sem pretensões de grande visibilidade, mas todos com uma marca muito sua).

 

                 Exposição de materiais do espólio de Llansol que documentam a relação com Regina Guimarães

Vimos depois dois videos, mais tardios, mas sempre a partir de Obras de Llansol: o primeiro (Presente, 2003, mostrado no encontro que fizemos na Arrábida, ainda com Llansol), parte de O Senhor de Herbais e do «pandemónio das estéticas»; o segundo (Trabalho de Presença, 2022), retoma fragmentos do livro Os Cantores de Leitura, com o motivo da ruína no centro; e ambos com a música de Bach em fundo. Também eles, como a Ferida Consentida, mostram uma capacidade muito particular de ler o Texto de M. G. Llansol, e de ser lido por ele, para o transformar.

Destacámos, em conversa com Regina Guimarães, alguns tópicos que ajudaram a acompanhar a projecção dos dois videos, com evidentes paralelos com o universo llansoliano.

 

1. Presente:

- No pandemónio das estéticas (e suas tentações), a recusa do modelo (ainda) dominante do realismo, em favor de modos mais livres e imaginantes de olhar o mundo.

- Natureza (vegetal, animal, árvores, o falcão, os cães...), em paralelo com a criação artística; ou os caminhos da textura da floresta e os caminhos da floresta do Texto

- A afinidade entre Llansol e Regina Guimarães, fundada na sua escolha de estéticas alternativas, maravilhantes e trémulas, buscando a infância permanente da arte. Tudo iluminado, no fim, pela chama de uma vela, motivo desde muito cedo presente na Obra da nossa autora.

- E ainda (o que nos liga ao segundo video): o motivo, central em Llansol, da casa: espaço de criação, de vida, mesmo no que nele é aparentemente morto, os objectos. E de abertura ao mundo, através do motivo da janela. Ambos os motivos, casa e janela, continuarão a ser centrais no segundo video.

Link para este video: https://youtu.be/YvMAL5VocdU

 

2. Trabalho de Presença:

Aqui, a casa é um corpo vivo, e as janelas continuam a ser os seus olhos para o mundo, apesar do trabalho do tempo, que a transforma em ruína. Mas a ruína é a condição natural do vivo, o seu devir inevitável – e também fonte de formas de beleza antes imprevisíveis (o desenho de plantas e musgos nas paredes, a interligação entre o vegetal e o construído, os ninhos das andorinhas nos beirais...). O contraste com este devir natural do construído são os aglomerados populacionais, os bairros turísticos de um novo-riquismo de imitação, disneylands de hoje; e logo a seguir as simples e autênticas árvores em gravuras a preto-branco, deslizando ao som de Bach. São os contrastes criativos da Regina – e poderiam ser de Gabriela!

Sobre a ruína, imagem que alimenta este novo vídeo, foi ainda evocado um ensaio do filósofo Georg Simmel em que a ruína é vista como a expressão da nostalgia por uma forma-outra, que não a da perfeição da obra acabada. Aí, a obra humana como que se torna um produto da natureza. E a destruição só aparentemente é algo de negativo, pode ser trágica (?), mas não é triste – tem um fulgor próprio: o fulgor dos restos como presença! (uma vez mais, serve as duas autoras).

É o que parecem querer dizer, no final do video, as várias formas de arte que vemos, restos do passado mas não ruínas, quadros, esculturas e formas abrangentes, ramificadas, rizomáticas, absorvendo toda a superfície do quadro – como os musgos, os fungos, as trepadeiras nas paredes das ruínas...

Link para este video: https://youtu.be/npGPsHP9_Dg


E a sessão terminou com uma hommage a Regina Guimarães, através da sua poesia. Poesia iminentemente musical, que chama a música e com ela convive, como podemos ver/sentir nas leituras que a Regina faz, concretamente numa recente experiência, belíssima, com o músico Fred e as suas composições, de que ouvimos dois exemplos (na sequência da gravação, o quarto – Odd Ode – e o décimo – Fuligem). Modulações livres de palavras, formas e ideias, sem abdicar de um substrato humano sempre presente, ou seja, sem cair no mero formalismo. 

É todo um programa de não acomodação, uma «poética do devir», como já se disse da poesia da Regina,  que ouvimos nestas três linhas programáticas de um dos seus poemas (e uma vez mais podia ser Llansol):

«Falo sozinha

numa linguagem de jamais

e já não minha».


As leituras de Regina Guimarães com música de Fred («Mãos no Fogo») podem ser ouvidas no site A Cabine, aqui:

https://acabine.pt/2023/02/lancamentos-favoritos-de-janeiro-2023/

14.4.23

REGINA GUIMARÃES:

DIÁLOGOS COM LLANSOL

No sábado, dia 22 de Abril, pelas 16 horas, teremos no Espaço Llansol mais uma sessão pública, desta vez com a presença da artista e poeta do Porto Regina Guimarães, que nos falará das suas ligações a Maria Gabriela Llansol e ao seu universo desde os anos noventa.

Falaremos dos primeiros contactos e do espectáculo Ferida Consentida, concebido por Regina Guimarães para o grupo Três Tristes Tigres, a partir de Um Beijo Dado Mais Tarde. Veremos dois vídeos de Regina Guimarães, feitos a partir de livros como O Senhor de Herbais e Os Cantores de Leitura. E ouviremos alguns poemas na voz da autora, numa extraordinária gravação com música do compositor Fred («As Mãos no Fogo»).

12.4.23

 LLANSOL: A PULSÃO EPISTOLAR


Damos conta do que foi dito na apresentação do livro Todos os Dias uma Carta, que reune correspondência de Maria Gabriela Llansol entre 1967 e 2005 (apresentado ontem na Livraria Tigre de Papel, em Lisboa, por Helena Vieira e João Barrento, com leituras de algumas cartas por Fernando Ramalho. Uma dessas cartas, a Eduardo Lourenço, reproduz-se também aqui).

Este novo volume da colecção «Rio da Escrita» (o nº 24), que o Espaço Llansol vem editando com a Editora Mariposa Azual desde 2008, é um livro muito especial, a par de um outro, que reune as Entrevistas de M. G. Llansol. Não muitas, que a Autora nunca foi muito dada à feira das vaidades literárias, mas iluminantes, como esta selecção de cartas. Trata-se de livros que ajudam a compreender melhor todo um percurso de escrita, uma Obra e uma vida, também relações afectivas que esta autora singular sempre privilegiou. Também estas não muitas, e quase todas nos vão sendo reveladas pelas cartas que este novo livro contém.

Trata-se, naturalmente, de uma selecção. No espólio de M. G. Llansol encontramos muito mais correspondência, mas sobretudo de carácter familiar ou institucional. Bastante menos correspondência com figuras do mundo literário, português ou outro – o que se explica pelo isolamento, sem fechamento total, em que a autora viveu, no exílio e depois dele. Mas desde cedo que aparecem nomes importantes da literatura ou da crítica, a certa altura também da tradução de algumas obras para francês ou alemão. Acontece, no entanto, que metade da vida literária de Llansol é a dos vinte anos de exílio na Bélgica, com muito poucas ligações ao universo literário português. A primeira secção («O exílio: Tempo de espera») documenta bem as dificuldades de encontrar editor para os primeiros livros, os da primeira e segunda trilogias, todos escritos no exílio belga, entre os anos 70 e a primeira metade de 80. E à medida que avançamos na leitura começamos a perceber como estas cartas não são mera correspondência de circunstância, mas, como acontece também com os milhares de páginas dos diários de Llansol, um repositório de ideias, um espelho da pogressão de uma Obra, um registo diário de experiências que revelam muito dos interesses, das obsessões pessoais e das vicissitudes da vida literária desta autora que a si mesma se vê, de forma viva, como «um corp' a 'screver».

O título que encontrei (que a Maria Gabriela me ofereceu, como quase todos os desta colecção!) para esta selecção de cartas é o de um texto em que a autora imagina uma troca de cartas fictícias com a escritora belga Marguerite Yourcenar, «Todos os dias uma carta», que seria publicado na revista Vida Mundial em Dezembro de 1997 (e que a Introdução clarifica melhor).

Pareceu-nos que haveria interesse em destacar este lado ainda não conhecido de Llansol, a sua pulsão epistolar, «o discurso ritual da manhã» ou, como ela escreve numa das suas agendas, «o grande desejo de escrever cartas e guardar as cópias». De facto, ela guardou muitas cópias, manuscritas (nos cadernos) ou já saídas da máquina de escrever, e foi isso que facilitou a minha tarefa de organização deste livro. A atracção pela escrita epistolar – mais do que pela comunicação oral e rápida do telefonema, que se esfuma e não fica disponível para releitura – aparece por mais de uma vez expressa nestas cartas, que não são simples meio de informação, mas registos de pensamento, ensaios de escrita, testemunho de relações de afecto. Também, por vezes, escrita poética («A verdadeira carta é por natureza escrita poética» – Novalis, citado por Llansol num dos seus cadernos, sem 1992). A atracção pela carta é assim expressa também num desses muitos cadernos, de 1981:

Com uma carta é diferente [diferente de um telefonema], estende-se uma longa teia, se se quiser. E relê-se. E a cada releitura fica-se tão próximo, e encontra-se um novo sentido imaginário, possível. São asssim as cartas de C[hristine] [e, poderíamos dizer, as de Gabi para essa amiga da Bélgica, e outros!]. O ouvido, a vista, o olfacto, o tacto, o entendimento. Mas, o que é que capta a carta? Certamente as leituras sucessivas, as aproximações da necessidade de resposta que não surge no imediato, mas mais tarde...

A carta é, assim, também literatura disponível, um «fragmento de secreto que circula» de mim para outro e de mim para mim, como uma página de diário (é assim que elas devem ser lidas). A sequência das quatro partes em que o volume está organizado mostrará claramente como estas cartas não são mero resultado de condicionalismos exteriores de uma vida literária (edição, crítica, leitores, intervenção de artistas...), mas acima de tudo, e frequentemente, «escrita de si» (como da carta diz Foucault) que ilumina os meandros da Obra e das situações concretas em que ela nasce – sem cair no confessionalismo, ou no que Llansol designa de «a mediocridade da autobiografia». O que elas são, acima de tudo — e quem as for lendo apercebe-se facilmente disso — é, entre outros «guias» úteis, um breviário para a leitura de uma Obra, das margens envolventes e dos núcleos irradiantes de uma escrita que se foi fazendo ao longo de quarenta anos, na teia dos dias e «ao fio do corpo».

J. B.



Da carta a Eduardo Lourenço, de 23 de Dezembro de 1988:


Caro Amigo,

 

            junto lhe envio o meu texto da Sorbonne* (...). Faço-o com muita alegria, na lembrança do nosso encontro em Paris, e pela real amabilidade e apoio que, na altura, me manifestou.

            Conheci-o com muito prazer. Tinha a certeza de que, tarde ou cedo, nos haveríamos de encontrar. (...)

            Acho que é altura de deixar de ser vista como escritora hermética. Muito desse suposto hermetismo deve provir, creio eu, da falta de coordenadas de leitura. A maior parte dos portugueses cultos – ou assim ditos – não leram talvez o que eu li. O que não se viveu de idêntico não se pode suprir, mas as bibliotecas podem ser progressivamente substituídas. Penso que o Eduardo poderá ajudar os outros a ler-me.

            Desejo-lhe um bom ano de 1989.

            Com um abraço muito amigo,

MGab. Llansol

___________________

* «Porque não pude deixar de vir», no encontro Les Belles Étrangères, Paris, Outubro de 1988 (incluído em Lisboaleipzig 1 - O encontro inesperado do diverso).