27.10.23

LER O MUNDO COM LLANSOL

Práticas de leitura comparada II


Inicia-se no sábado 28 de Outubro mais um Curso sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol (com inscrições já preenchidas), ministrado pela Profª Maria Etelvina Santos, que decorrerá até Junho de 2024. Desta vez centrado na primeira trilogia, a «Geografia de Rebeldes», com destaque para a figura que atravessa todos os livros (ainda até Causa Amante), a de Ana de Peñalosa.


24.10.23

A «RESTANTE VIDA» DO REINO ANIMAL

XIV JORNADAS LLANSOLIANAS



João Barrento abriu estas XIV Jornadas Llansolianas, dedicadas ao «Prazer do reino animal» no mundo de Llansol, evocando o desprazer do mundo que diariamente nos cai em cima neste nosso nada «admirável mundo novo». Com estas palavras:

«Há um chocante contraste que nos atinge ao abrirmos mais umas Jornadas, que sempre foram momentos carregados de esperança, de beleza e de júbilo, como toda a escrita da Maria Gabriela: vamos falar durante dois dias de um universo de harmonia, entendimento mútuo, diálogo entre seres, humanos e não humanos, que nos oferece um horizonte de paz, silêncio criador, coexistência possível. E lá fora, no grande e no pequeno mundo, no dos poderes arbitrários e desumanos como no de um dia a dia de indiferença, banalidade e ruído, a paisagem é a de um apocalipse universal em que a violência, a brutalidade e a hipocrisia tudo abarcam e dominam.

Ocorre citar Augusto Joaquim, ao evocar já profeticamente, há meio século, um mundo devastado, anunciando o de hoje, a que a Geografia de Rebeldes da Maria Gabriela iria contrapor uma alternativa. Na contracapa da primeira edição de O Livro das Comunidades o Augusto escreve: "Barbárie a Leste, lucro a Oeste, pobreza a Sul, neve a Norte". E a própria Llansol responde no que escreve então sobre as contradições do mundo e o que dele está ausente, com "a dualidade dos mundos, que tem causado imensas e incalculáveis perdas ao ser humano mais comum. A ele, mas também a esta pedra, a este arbusto, a este bicho... Parece haver dois mundos: o Mundo e a Restante Vida. Irredutíveis entre si, inimigos um do outro, temendo-se"».

Vamos tentar, durante estes dois dias, contrariar o Mundo (com M grande e carregado a negro)! Depois, provavelmente regressaremos à consciência do «fim das possibilidades», que era já a minha há alguns anos, quando escrevi a minha versão d' A Nave dos Loucos, de onde transcrevo apenas algumas linhas do epílogo: 

Nem Deus nem deuses nos dirão como aferir / A geometria dos corpos do tempo por vir, / Peso e medida da pessoa humana / Para lá do 'crescimento', essa obsessão insana. / Tudo recomeçou numa barca, a de Noé, / A de todas as possibilidades, porque aí / Se não distingue o Homem do outro ser, / Nem a dignidade se mede pelo ter. / Virá outro dilúvio, e então saberemos / Pela caixa negra desta barca o que fizemos. / Esquecemos lições. Ignorámos muito sinal. / Cedemos à razão dita instrumental. / Morta a alma, esquecido o corpo, essa 'grande razão', / Perguntamo-nos o que resta então / Das escadas de Odessa, dos murais de Abril: / Guerras e mortos, muros limpos, pesadelos mil. / Europa a crédito. O resto: atrocidades. / Será o fim das possibilidades?

Talvez não. Contrariamente à cegueira e à rigidez dos factos, as possibilidades são sem fim, como certamente nos confirmará a Profª Maria Esther Maciel, com perspectivas mais luminosas na sua intervenção.»

As intervenções sobre o tema das Jornadas iniciaram-se precisamente com a Profª Maria Esther Maciel, da Universidade Federal de Minas Gerais, que há anos se dedica à temática da «Zooliteratura», do «animal escrito» na literatura universal. Partindo do que, recorrendo a um conceito de Roland Barthes, considerou ser a escrita «atópica» de Maria Gabriela Llansol, e lançando mão da ideia seminal do lugar essencial do texto poético no tratamento do animal, teceu considerações sobre «O animal-fulgor: Breves incursões no espaço zoo de Maria Gabriela Llansol», tomando como exemplo paradigmático do animal como meio de subversão da escrita o livro Amar um Cão, e outros textos dos cadernos de inéditos.

João Barrento e Maria Esther Maciel

Por seu lado, João Barrento (na intervenção que intitulou: «Figuras do Aberto: Os animais do Texto e o Texto-animal») perspectivou, na sua ampla diversidade, as figuras de animais em toda a Obra de Llansol, esboçando uma tipologia do «bestiário poético» llansoliano, que comentou a partir da noção rilkeana (e, por contraste, heideggeriana) do Aberto. Para chegar, finalmente, à própria condição animal, de coisa viva, que é a do Texto para Llansol, bem cedo expressa já em Causa Amante: «era uma vez um animal chamado escrita...».

No segundo painel, que reuniu dois escritores muito próximos da Obra e da pessoa humana de Maria Gabriela Llansol – Hélia Correia (com o texto «Outra ocupação da terra») e José Manuel Vasconcelos (com «O convívio perfeito») –, as intervenções trouxeram registos diferentes, mas complementares. 

Hélia Correia deu-nos a ouvir um texto poético, sensível e sempre pensado com Maria Gabriela e os seus animais – que num dado momento, depois da partida da «madrinha» Gabriela, foram também da Hélia: primeiro, com a reescrita de Amar um Cão para os mais pequenos, depois com o acolhimento da última gata, Melissa. E a partir desta dupla referência se construiu a deambulação de Hélia Correia sobre os animais no mundo da vida e na escrita da «dama singular».

Hélia Correia e José Manuel Vasconcelos

José Manuel Vasconcelos alargou, com a sua erudição e as suas muitas leituras, o tema do animal escrito a toda a tradição ocidental desde a Antiguidade, recorrendo depois concretamente ao Texto de Llansol, o édito e o inédito (a partir dos três cadernos que acompanharam estas Jornadas), para inserir a nossa autora no contexto de uma «ecoliteratura» contemporânea e para olhar mais de perto algumas das marcas distintivas da figuração animal (do bestiário vivo e do «bestiário pétreo», o dos animais-objectos) na escrita de M. G. Llansol.

A tarde de domingo acolheu o terceiro painel, com o Prof. Jorge Leandro Rosa (do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto) e a poeta Maria Brás Ferreira (autora dos livros de poesia Hidrogénio [2020] e Rasura [2021]).

Jorge Leandro Rosa (com o texto «Lançar-se adiante das significações: Os animais e o pensamento») começou por recuar até aos primórdios da «Geografia de Rebeldes» para situar Llansol numa linha da «Modernidade» que vem do século XVI e poderá clarificar o sentido de actualidade da sua Obra como «literatura que está de saída» (da norma e do cânone) e se projecta em horizontes-outros, nomeadamente no que ao tema destas Jornadas diz respeito. Interrogando-se sobre o que é um animal, para chegar à sua definição no universo de Llansol, Jorge Leandro responde (com filósofos como Husserl e Hans Jonas): o animal é um ser em movimento, um movimento capaz de «fazer mundo». E toda a sua intervenção teve como centro uma ontologia do movimento, uma permanente oscilação entre o movimento vivo no mundo animal e o curso antagónico da História – com o Texto de Llansol como referência.

Maria Brás Ferreira e Jorge Leandro Rosa

A poeta Maria Brás Ferreira (com o contributo «A escrita do instinto, ou O arquétipo plural do bando») propôs-se comentar a «cosmogonia futurante» (actualizante?) de Llansol a partir do papel «instigador» e iluminador (mas não necessariamente «inspirador») do animal para este Texto e o sentido do Ser que ele propõe, essencialmente por via dos sentidos – o olhar, o tacto, a escuta, vias privilegiadas do agir animal e de a eles chegarmos. Para concluir que as figuras animais nesta escrita configuram «o nascimento da voz» – o oposto de uma língua(gem) normativa ou mesmo morta, que em Llansol é veículo de um «mais-saber».


A tarde de sábado incluiu ainda a apresentação dos dois mais recentes livros de e sobre Llansol: o Livro de Horas IX  (Um Conjunto de Espirais. 1985-1990, da Assírio & Alvim)  e o  25º volume da colecção «Rio da Escrita»  (edição Mariposa Azual / Espaço Llansol) que  documenta  as  Jornadas de 2022: Os Jardins de Llansol: Uma imagem do mundo.

 

Deixamos aqui o link para o video que João Barrento montou para documentar com textos do Livro de Horas IX e imagens do arquivo os lugares de Llansol em Colares, depois do regresso do exílio, a partir dos três tópicos que – para além da escrita preparatória dos três livros que viriam no início dos anos 90: Um Beijo Dado Mais Tarde, Amar um Cão e Hölder, de Hölderlin – ocupam uma boa parte da reflexão de Maria Gabriela Llansol neste novo livro de inéditos: a casa (e os seus animais), a «floresta» (o pinhal de Colares) e o mar.

https://vimeo.com/877559907?share=copy

(Link para o video «Casa-Floresta-Mar»)

As Jornadas encerraram, como habitualmente, com a leitura, pelas jovens actrizes Eva Dória e Anita Ribeiro, de textos inéditos de Llansol sobre a temática do animal: «O prazer do reino animal» (por Eva Dória) e «O livro dos animais no deserto» (por Anita Ribeiro).

 
Eva Dória e Anita Ribeiro

Antes das leituras, João Barrento apresentou o video Jade: Um ser sendo..., em que Maria Gabriela Llansol comenta a figura do cão Jade, em gravações recuperadas dos encontros do Grupo de Estudos Llansolianos em 2005-06, onde falou largamente sobre a noção de «figura» na sua escrita, a partir do exemplo do cão Jade. O video integra a composição musical de João Madureira «Inscrição», feita por essa altura a partir do livro Amar um Cão (a transcrição completa dessas conversas está disponível no livro O que é uma Figura? - Diálogos sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol na Casa da Saudação, Mariposa Azual, 2009).

https://vimeo.com/877566248?share=copy

(Link para o Video «Jade-Um ser sendo»)


AS EXPOSIÇÕES






Exposição de materiais do espólio sobre o tema:

- Animais-objectos («Animais da casa»)

- Cadernos com escrita e desenhos sobre animais

- Livros sobre o tema na biblioteca de M.G. Llansol

- Fotografias de animais e de Llansol com alguns deles 

(«O mundo amante dos animais»)

9.10.23

«O PRAZER DO REINO ANIMAL»

Um Bestiário-Llansol

As XIV Jornadas Llansolianas deste ano, nos dias 21 e 22 de Outubro, serão dedicadas ao tema dos animais na vida, na Obra, nas casas de Maria Gabriela Llansol. Trata-se de um tema que acompanha a escritora desde a infância, e que tem lugar privilegiado na sua escrita, um «bestiário poético» multifacetado que as intervenções dos vários legentes de Llansol (quase todos também poetas) iluminarão nos mais diversos tons.



Documentámos o tema em três cadernos (capas em baixo), que estarão disponíveis durante as Jornadas. Deixamos aqui o cartaz com o Programa completo, e solicitamos aos interessados na visita guiada à Casa e ao espólio de Llansol, no domingo 22, de manhã, o favor de se inscreverem pelo nosso e-mail (espacollansol@gmail.com) até sexta-feira, 20 de Outubro.


8.10.23

UMA TARDE DE IMERSÃO NO AZUL...


Ontem, num Espaço Llansol imerso «num azul ameno», João Barrento situou a escrita e a vida de Maria Gabriela Llansol numa tradição que vem de Novalis e do Romantismo alemão, nomeadamente de uma das figuras da sua Obra envolvidas num fascínio enigmático como o do Azul, a do poeta Hölderlin, que «a si mesmo se tomava por um rirmo poético fugindo», escreve Llansol num dos seus cadernos.

Os dois videos que se podem ver clicando nos links em baixo foram amplamente comentados na intervenção que os acompanhou e iluminou, a que João Barrento deu o título «A cor que nos leva para lá das coisas», partindo do fragmento seguinte de Novalis, de uma inegável actualidade: «Amigos, o solo é pobre, precisamos de lançar muitas sementes para obter modestas colheitas. Procuramos por toda a parte o que está para lá das coisas, e o que encontramos são apenas coisas».

Maria Gabriela Llansol é o exemplo mais acabado de alguém que, pela escrita, sempre buscou e procurou entender o que está para lá das coisas – partindo sempre delas e da sua imanência falante. E no espectro das cores, o Azul, com todas as suas tonalidades, tem sido desde sempre visto como aquela que mais naturalmente proporciona esse salto para o que está mais além, o infinito, o horizonte do sonho – ou a «gruta interior», ela também tão perto e tão longe...


Exposição de objectos, livros e cadernos do espólio de M. G. Llansol

Os textos dos «Poetas da Flor Azul», no primeiro video, e os de Llansol no segundo, poderão sugerir as múltiplas valências, poéticas, psicológicas e artísticas, desta cor que, como já a via Goethe na sua Teoria das Cores, e também Llansol nos seus livros, pode ir do fulgor da luz às trevas do luto.

Link para o video «Poetas da Flor Azul»:

https://vimeo.com/872267959?share=copy

Link para o video «O Azul não tem origem...»:

https://vimeo.com/872266991?share=copy