25.5.11

LLANSOL EM PLAQUETE DE ARTISTA

As Edizioni Rovio, de Lugano, apresentaram no passado dia 19 a quarta edição das plaquetes de artista que editam em ritmo bienal, na «Piccola biennale del nero e del bianco». As plaquetes reunem uma obra de gravura e o texto de um escritor escolhido pelo artista.
Este ano coube a vez a Flavio Paolucci, artista suíço do Ticino, que apresentou uma obra intitulada Meta-notte, inspirada na sua leitura de Il giocco della libertà dell'anima/Lo spazio edenico (publicado o ano passado pela editora Pagine d'Arte) e directamente relacionada com um fragmento de Maria Gabriela Llansol (de Um Falcão no Punho: «Nem hierarquia, nem ruptura entre corpo e alma»).
O Espaço Llansol esteve representado na exposição e no lançamento deste livro de artista, na Fondazione Diamante, em Lugano, na companhia dos nossos amigos, os editores Matteo Bianchi e Carolina Leite. Damos a seguir algumas imagens de mais esta iniciativa que projecta o nome e a Obra de Maria Gabriela Llansol no estrangeiro.

Os livros de M. G. Llansol e a plaquete de Paolucci

A exposição de Flavio Paolucci

Paolucci, Llansol, o Espaço Llansol

As plaquetes editadas

A plaquete Paolucci-Llansol

A gravura de Flavio Paolucci Meta-notte

Em conversa com Flavio Paolucci (ao centro, de preto)

João Barrento, o Prof. Ottavio Besomi, Carolina Leite, Matteo Bianchi (e Flavio Paolucci em segundo plano)

GUSMÃO E LLANSOL EM CONVERGÊNCIA



O último número da revista Colóquio-Letras (0 177, Maio-Agosto 2011) traz um artigo da professora Maria Lúcia Wiltshire, da Universidade Federal Fluminense, de Niterói (que já por duas vezes trabalhou durante meses no Espaço Llansol, pesquisando o espólio), sobre a poesia de Manuel Gusmão, nas múltiplas relações que evidencia com a Obra de Llansol. Maria Lúcia Wiltshire destaca na sua aproximação dos dois autores «três eixos»: «1º) a concepção da poesia como reinvenção do mundo em que o 'vivo' e a imagem se colocam em oposição à representatividade da metáfora, com ultrapassagem dos limites de género e da língua convencional; 2º) a forte presença da subjectividade como um processo de transformação pelo convívio estético, em que a suposta morte do eu se articula em favor da alteridade na forma de um 'outro', que tanto pode ser o leitor quanto a presença do estatuto do 'mútuo'; e 3º) o futuro e a promessa neguentrópica diante do cosmo através da textualidade para o advento de um novo humanismo. Esta tríade recobre uma visão da escrita que alia o estético, o ético e o político, compatibilizando de forma inovadora algumas tradições que são muitas vezes vistas como opostas na poesia portuguesa.»

17.5.11

«PIRANHA»: A GRANDE RAZÃO

Sobre o bailarino e performer brasileiro Wagner Schwartz (actualmente a viver e trabalhar em Paris), escrevi um dia, depois de uma memorável intervenção sua num colóquio llansoliano no Convento da Arrábida (2003), que «um texto se faz gesto e corpo desatando-lhe os nós». Wagner Schwartz (que, à letra, significa «o desafiador do negro», como eu lembrava nesse texto de 2003) regressou, de novo com uma performance a solo, a sós com o prodígio do seu corpo, intitulada «Piranha - Dramaturgia da migração», em 14 de Maio, no 13º Festival da Fábrica (de Movimentos), que decorreu no Teatro Helena Sá e Costa e no Balleteatro Auditório, no Porto.
Estão traçadas as coordenadas de mais uma performance colocada, tal como a anterior, sob o signo de uma epígrafe de Maria Gabriela Llansol, desta vez também de Finita: «Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós».


No novo espectáculo de Wagner Schwartz, em que «Piranha é a metáfora de um corpo em reclusão» (lemos no programa), o absolutamente só é o corpo exposto (sob um foco de luz intensa), corpo ex-posto, posto fora-de-si, corpo ex-cesso, corpo ex-tático. Presença energética e vibrátil progressivamente in-suportável, porque é prova viva da intuição de Spinoza (e, depois, também de Llansol) de que «ninguém sabe o que pode um corpo». De facto assim é. Pude constatá-lo, cheio de espanto diante do im-provável, e do medo de que aquele corpo fracassasse.
Tudo se passa num espaço de tempo de tal intensidade que parece estar fora do tempo, apesar da clara progressão no processo de tensão e busca de libertação que sustentam o espasmo contínuo do corpo sitiado. Assim o visionou também Llansol, em situação-limite, em Amigo e Amiga:
«... fragmentos que principiam a pulsar em todos os lados do meu corpo. Sucede-se uma excitação incomunicável»; e «a matéria transforma-se em energia». E, como ainda escreve Llansol, o corpo assim enclausurado no quadrado de luz (negra) que lhe é concedido, transforma-se no «emissor de um estranho de beleza».
O corpo de Wagner nesta performance é levado a zonas impensáveis (porque não alcançáveis pelo pensamento), zonas de risco, de grito, de êxtase, de revolta – e de todos os seus reversos de beleza, ali, diante dos nossos olhos incrédulos, no «desenho íntegro» daquele «corpo-risco» (como diz ainda Llansol num outro livro).


O que vemos é a materialização, num corpo absolutamente só, da violência de todos os processos de mutação, de deslocamento, de migração, forçada ou não, consciente ou não. Estamos na pura, dura, mas também bela, «escarpa da mutação», com tudo o que ela pode conter: «o medo, o frio, o transporte, o corpo dilacerado, a ideia e o sentimento súbitos, as mãos dadas e desavindas______ e todos os seus reversos» (Ardente Texto Joshua).
É este, parece-me, o tema de Piranha, de Wagner Schwartz, numa actuação fulgurante e terrível (porque, sabemos, «todo o Anjo é terrível», e o sublime participa desse terror) do seu «corpo cantante» em que um espírito se faz corpo no corpo, num corpo pleno, pura imanência com alma (a alma, lemos em Spinoza, é a ideia – indissociável – do corpo).
Mas, para chegarmos ainda mais próximo da experiência in-descritível deste espectáculo (anunciado por um breve video, só de palavras feito, como que anunciando, por contraste absoluto, a pura imagem vibrante do corpo, que se segue), para aí chegarmos desafiando os limites da palavra para vislumbrar os abismos da «fenda do desejo» (Artaud), talvez seja necessário recorrer a alguém que, como Friedrich Nietzsche, a quem Llansol chama «homem do livro» e «mestre das imagens e da eternidade» (e do saber do corpo), no Zaratustra, fala do corpo como «a grande razão». No seu transe, em trânsito para regiões a que o entendimento nunca chegará, o corpo-mente-alma de Wagner Schwartz sabe disso, conhece, sem recurso às pequenas razões, a grande razão do seu corpo que, como diz Nietzsche, se supera ao «não dizer Eu, mas fazer Eu».
Piranha é isto: um corpo assediado, bombardeado, metralhado, pelos ruídos digitais ininterruptos que traduzem a violência de uma contemporaneidade insensível, amorfa, sempre-igual e desconhecedora da grande e subtil razão do corpo e da terra e do Eu que a si mesmo se faz – desconhecendo-se. De um corpo em processo de fazer Eu que, sem nada para dizer, tudo diz: mostra-se, expõe-se, transcende-se. Faz-se corpo só, absolutamente só.

João Barrento

16.5.11

«O MUNDO É PURAMENTE ESTÉTICO...»

O Senhor de Herbais, livro-síntese de uma Obra, será objecto de análise por Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Direcção do Espaço Llansol e professora da Universidade Aberta) nas Segundas Jornadas de Literaturas Europeias, organizadas pelo Departamento de Humanidades da Universidade Aberta, no próximo dia 26 de Maio, pelas 15.30h, na Sala Polivalente do Taguspark (ver cartaz, clicar na imagem para aumentar).

11.5.11

LLANSOL: A LUZ DE LER NA LUZ


5.5.11

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

in memoriam

O José Augusto Mourão deixou-nos hoje, ao dealbar do dia. O José Augusto é alguém a quem o Espaço Llansol e a Obra de Maria Gabriela Llansol devem muito. Não apenas pelo que escreveu, mas também porque, sem a sua mediação por altura da formação do grupo de estudos llansolianos (o GELL), que nasceu em 2000, com a própria autora e Augusto Joaquim, alguns de nós, os que agora integram o Espaço Llansol, não teriam provavelmente chegado à intimidade da Maria Gabriela, nem seriam hoje os legatários do seu imenso espólio.
O José Augusto era um homem íntegro, rigoroso, parco de palavras mas generoso e profundo na discussão. Dividido, como disse um dia, «entre duas vidas», como dominicano e como universitário, foi mais nesta última qualidade que o conheci. Mas não deixei de me aproximar também um pouco da outra, durante o tempo em que as reuniões do GELL se faziam, num sábado do mês, no Convento Dominicano de Benfica. Aí, na discussão sempre muito viva, no confronto de ideias e na cordialidade do convívio o fui conhecendo melhor. E vi que havia nele a humildade de quem sabe e a intuição do não-saber, que distingue os melhores.
Solicitado por Maria João Seixas a terminar uma entrevista com uma «palavra de eleição», o José Augusto disse-a, e traçou com ela, como diria Llansol, o seu auto-retrato «grave e jubiloso». Disse simplesmente: «Alegria-triste».
Sobre a sua ligação a Maria Gabriela Llansol e ao seu texto escreveu um dia José Augusto Mourão (e lembro-me de ter ouvido essas palavras da sua boca, num dos nossos encontros):
«Sou um legente que escreve desde há uns anos já sobre Maria Gabriela Llansol com o sentimento de ter sempre vagueado por uma inextricável linha de costa, portanto sem ter a presunção de alguma vez ter chegado a um terminal de mundos, sabendo que das ruínas da biografia não se pode erguer uma estátua, temendo ademais, e como Témia, a impostura da língua, fiado apenas na 'cordialidade' do sentido (Tauler), no puro amor do 'há', na equivalência entre estética e ética, nada sabendo em definitivo, apenas entrevendo. Sabe-se que se é legente quando o júbilo de existir e o ler se tocam.»
(O Fulgor é Móvel, 189).
João Barrento

**

(«Clareira de Parasceve», Serra de Sintra, Julho de 2001)

Zé Augusto,

Estava triste o pátio da Faculdade esta manhã.

Agora, em casa, pensando em ti, no Augusto, na Maria Gabriela e na clareira de Parasceve, desejei ter as palavras certas, dizer-tas numa linguagem em que me possas ouvir. Abri o Ardente Texto Joshua, que selou muito do que nos uniu, e leio:

Ouço o ranger de uma janela a abrir-se. Tentam depois abrir outra janela, que range menos, e não abre.

Neste momento, passos breves atravessam o claustro

que é

um adro, com um cruzeiro ao centro, e cinco castanheiros dispersos.

(...) o caderno esta caído no chão, entreaberto.

Queria deixar contigo estas palavras...

Vina

3.5.11

COMUNICAÇÕES SOBRE LLANSOL

no Colóquio Interdisciplinar «Da Letra ao Imaginário», organizado pelo Centro de Estudos sobre o Imaginário Literário (CEIL) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Falam sobre M. G. Llansol:

Paula Mendes Coelho (Universidade Aberta). «La Chanson de Bilitis ou 'O Sexo de Ler' de Maria Gabriela Llansol» (Auditório I, Torre B, 9h 50)


Maria Carolina Fenati (CEIL/Espaço Llansol): «A ordem figural do quotidiano» (Auditório I, Torre B, 11h 50)



Entrada livre. O programa do Colóquio pode ser visto aqui.

13.4.11


ECOS DO DIA LLANSOL (VII)
A TV da Universidade Aberta na exposição Sobreimpressões

Continuam os ecos do Dia Lansol e da exposição do CCB (que encerra hoje), com momentos das intervenções de Hélia Correia e João Barrento, do concerto de Ana Telles e Diogo Dória, depoimentos de Cristiana Vasconcelos Rodrigues (do Espaço Llansol) e comentário final de António Mega Ferreira, Presidente do CCB. A ver e ouvir, no programa televisivo da Universidade Aberta na RTP 2, entre espécies marinhas e os azulejos do Grande Panorama de Lisboa (do minuto 11'50'' a 21'48'').

Para ver e ouvir clique aqui.

3.4.11

ECOS DO DIA LLANSOL (VI)

No dia 27 de Março, no CCB, o Presidente da Direcção do Espaço Llansol apresentou o Dia e a exposição acabada de inaugurar. Deixamos aqui algumas das suas palavras, e com isso fechamos, para já, os ecos deste dia importante para a memória de Maria Gabriela Llansol e também para o trabalho que vimos fazendo.


Caros amigos,

este dia assinala mais uma etapa no percurso póstumo da Obra de Maria Gabriela Llansol, que o Espaço Llansol, guiado pelo sentido dessa Obra e pela memória que preservamos da escritora, tem vindo a promover durante os últimos três anos.

Este Dia e a exposição que acabámos de inaugurar só foram possíveis graças à disponibilidade manifestada, há já algum tempo, pelo António Mega Ferreira para os acolher, a partir das ideias que desenvolvemos para o Dia Llansol e para a exposição . Quando digo «desenvolvemos» estou a falar de um pequeno núcleo de pessoas que, com a sua entrega e o seu dinamismo, têm mantido vivos nestes três anos, através de uma série de iniciativas e publicações, a vibração de uma escrita e o fulgor de um pensamento de que somos devedores e de algum modo também servidores. E o «servir», neste sentido, é, diria Llansol, a postura de homens ou de mulheres livres (de escolher um caminho). Quero, por isso, agradecer em primeiro lugar a esse pequeno grupo de colaboradores e cúmplices desinteressados e sempre disponíveis, e nomeá-los, porque (como dizia o Augusto Joaquim) «quem escolhe a palavra decide o real», e porque o Espaço Llansol não é uma abstracção, nem sequer propriamente uma instituição, é um núcleo vivo de consensos e dissensos, de trabalho e discussão que, desde 2008, age e progride por «encontros de confrontação» produtivos sem os quais também a Obra de Llansol não seria o que é.

Agradeço então à Hélia pelos conselhos sempre sábios e pela justeza das suas intuições (que a mim me faltam), à Etelvina, que é talvez, entre nós, a mais meticulosa e de convicções mais fortes, à Carolina pela energia e pelo júbilo que põe em tudo o que faz, à Cristiana (e ao João) pela disponibilidade criativa, à Albertina pela militância intermitente mas inabalável, à Sílvia das Fadas pela capacidade de sonhar que nos transmite, à Helena por transformar a nossa escrita em livros, ao Daniel por ser o nosso «mestre das imagens», ao Bernardo pelo silêncio discreto em que vai dando o lugar certo a toda a escrita epistolar da Maria Gabriela.

Depois, o meu agradecimento vai para os artistas, e amigos todos eles, que corresponderam ao nosso apelo no sentido de tornar visíveis, com obras expressamente feitas para a ocasião, algumas das percepções mais fulgurantes de Llansol, que a levaram a operar mutações radicais de figuras portuguesas como Pessoa, Camões ou D. Sebastião, que agora renascem nesta exposição pela mão do Rui Chafes, do Pedro Proença e do Manuel Santos Maia. E agradeço igualmente àqueles que deram corpo, num concerto a três, a algumas das muitas referências e preferências musicais da Maria Gabriela: o João Madureira, a Ana Telles e o Diogo Dória (que, como o João, já nos acompanha há algum tempo).

Finalmente, last, not least, as instituições. Não porque sejam menos importantes, muito pelo contrário, mas porque constituem uma espécie de retaguarda que protege, sustenta e possibilita o nosso trabalho: a Fundação Calouste Gulbenkian, que tem apoiado o tratamento do espólio de Llansol, a Câmara Municipal de Sintra, que nos permitiu ficar no lugar onde esse espólio tem a sua morada natural; e, especialmente em ligação com este Dia e esta exposição, o Dr. José Manuel Durão Barroso, leitor e entusiasta de Llansol, que só não está aqui hoje devido à conjuntura política que todos conhecemos; e a Representação da Comissão Europeia em Portugal, através da Dra. Margarida Marques, que deu um contributo importante para a produção dos videos que pontuam a exposição.


E é tempo de dizer alguma coisa sobre a própria exposição, a sua ideia e a sua estrutura. Limito-me a clarificar brevemente as duas noções presentes no título a que chegámos para a exposição: uma visão da Europa e uma visão em sobreimpressão. Quando digo «visão» não estou a dizer «ideia» ou «imagem» da Europa, nem sequer penso numa «leitura» da sua história. Porque o que Llansol tem para oferecer, e esta exposição sugere, é da ordem do virtual ou potencial: mais do que falar daquilo que foi (na História), ela fala do que não foi. É este o sentido daquela passagem de um dos seus livros onde se lê: «O que a História não permitiu, a visão ofertou». É este o ponto de vista assumido por Llansol: o de uma visão que por vezes se apresenta ela mesma como visionária, mas não utópica, porque se fundamenta no sentido de possibilidade, que a História parece contradizer, mas não negar em princípio, de um projecto do humano de teor eudemonista (de que Spinoza é o grande mentor, ao propor uma filosofia prática cujo fim último é o da felicidade humana).

Como disse, não vou seguir a exposição nos seis Lugares em que a organizámos. Prefiro lembrar e comentar um pouco os princípios que nos guiaram e os caminhos que seguimos, que são os mesmos percorridos por Maria Gabriela Llansol na sua construção de um projecto trans-histórico da História, desde O Livro das Comunidades, escrito no início dos anos setenta.

Precisamente nesses anos acontece, como escreveu Eduardo Lourenço em A Europa Desencantada, o fim do que o Eduardo chama o «narcisismo ocidental»; essa década «representa a morte do olhar ocidental como olhar absoluto da História». Llansol não conhece olhares absolutos, prefere quase sempre ver o tempo pelo lado do reverso sempre adiado da História. É também por esses anos que ela começa a construir o seu edifício de uma contra-visão da história da Europa e, mais tarde, da história humana em geral. Quando deflagra em Portugal a revolução de todas as promessas e de muitos fracassos, está já talhada a primeira pedra dessa construção – O Livro das Comunidades – e escrito o seu Prólogo, que podemos ler como manifesto fundador de uma visão alternativa da história europeia, e da portuguesa nela, que se prolongaria por duas trilogias e mais alguns livros. Até aos começos deste século, com livros como O Senhor de Herbais, a escrita de Llansol centra-se nessa problemática da tensão e da dialéctica irresolvida na história europeia moderna, entre uma insuficiente e sempre periclitante liberdade de consciência nascida nos alvores da modernidade e a vontade da sua superação por uma visão do mundo de natureza ético-estética.


O que daí resulta é qualquer coisa de diferente de outras leituras, ou ficcionalizações, da Europa e de momentos da sua história na literatura e no pensamento portugueses contemporâneos. A Europa — essa «doença incurável», como a via Nietzsche no auge dos nacionalismos, esse continente de crises, como surge já nos folhetins do nosso Eça em tempos de decadência, e mais tarde repetidamente, nas primeiras décadas do século XX, em Hofmannsthal ou Husserl, em Valéry ou Heidegger. Há também alguns livros de poesia, ou poemas hoje quase clássicos, que pensam esta matéria candente: de Vasco Graça Moura ou Paulo Teixeira, de João Miguel Fernandes Jorge ou Fernando Pinto do Amaral, na sequência dos olhares desencantados ou satíricos de Sena, O’Neill ou Armando Silva Carvalho, e quase sempre à margem da atracção erótica (e ilusória) por uma Europa da cultura que é ainda a de David Mourão-Ferreira num poema célebre a que chamou «Retrato de rapariga». Mas é no ensaio, mormente no de Eduardo Lourenço, que se oferecem – ainda que por antítese – os termos de comparação mais interessantes com a leitura da história por Llansol no nosso próprio tempo. Eduardo Lourenço acompanha, em vários livros e como que a partir de dentro, o processo histórico-cultural dessa Europa (e de Portugal nela, ou desencontrado dela); Llansol, pelo contrário, «inventa», numa conjectura espiritual única, uma outra Europa, um outro Portugal e outro mundo – uma contra-realidade textual no exterior da própria história tal como ela foi e vai sendo configurada. À visão hermenêutica que procura compreender o que acontece contrapõe-se uma visão alternativa e projectiva que confronta aquilo que foi, ou é, com o que poderá vir a ser, conferindo-lhe uma ideia e dando-lhe uma forma.

A ideia de Europa não se traduz em Llansol por uma reflexão explícita sobre a Europa, mais eufórica ou mais disfórica, mas antes, como disse, na construção de um universo trans-histórico textualizado e habitado por Figuras nas quais se descobrem linhagens – um universo que nem por isso deixa de ter um claro e forte sentido político. A forma específica dessa construção é a de uma topologia literária que recria no espaço do texto o que não pôde realizar-se no tempo da história, reconfigurando assim o potencial libertador dessa mesma história. Rejeita-se a matéria histórica enquanto fundo passivamente disponível para adaptação pelo imaginário ficcional, e relê-se a história a partir do lugar desejante, e alheio aos poderes, que é o de uma comunidade de singulares, de semelhantes na diferença (um conceito que aparece também nos fragmentos póstumos de Nietzsche) cujo princípio orientador poderá ser o (deleuziano) da diferença na repetição: também aqui a repetição não é cópia e a diferença não é negação. Da confrontação do diverso resultam uma positividade e uma afirmação. A visão llansoliana da história não se funda na contradição, nem se serve de nenhuma forma de dialéctica, mas aposta na contra-dicção, isto é, numa escrita inconfundível que é ela mesma o lugar dessa diferença. Aí, no espaço de uma «restante vida» estranho ao dos poderes, vivem e agem linhagens de figuras resgatadas da sua neutralização pela redução ao idêntico ou do esquecimento na história de onde provêm. São algumas dessas figuras que podemos ver documentadas e prolongadas pelos materiais e pelas obras desta exposição.

Uma exposição que, vista com olhos de ver, proporcionará, não apenas uma perspectiva singular e surpreendente sobre figuras conhecidas e menos conhecidas da história cultural e espiritual da Europa, mas também, nas entrelinhas e nalguns textos mais explícitos, um olhar para os subterrâneos de glórias e progressos dessa história que, do ponto de vista desta Obra, foi uma história de desastres e derrotas, um notório fracasso na construção de «um mundo humano que aqui viva». Vemo-lo hoje bem, e por isso Llansol pode afirmar, com a legitimidade que o desastroso estado do mundo lhe confere, que «nada ainda modificou o mundo». Mas não há aqui niilismo: depois do fracasso de todos os humanismos, Llansol vem trazer a sua versão própria de um outro humanismo, a que eu chamaria um humanismo do risco, ou talvez melhor, uma visão do humano que propõe o vislumbre da luz pelos caminhos do que ela designa de «metanoite», quando escreve: «o ser humano é o único que pode arriscar a sua identidade. Ao lugar desse risco eu chamo metanoite».

Esta leitura projectiva e «salvadora» dos destroços da história faz-se – e com isto comento brevemente o segundo termo, o de sobreimpressão, que escolhemos para título da exposição – segundo um método prismático, fractal ou transversal, que Llansol define como uma «técnica visual» das suas Figuras, «a sua arte de ver o mundo sobreimpresso, impelindo a deslizar umas sobre as outras paisagens afastadas que o poder nunca alcançaria submeter ao seu domínio». E acrescenta, esclarecendo a sua própria prática de escrita: «Sei hoje que é nessa sobreimpressão que eu habito o mundo, e vejo, com nitidez, que outros vieram ter comigo». A história apresenta-se, assim, não como um contínuo, nem sequer como um palimpsesto, mas como um campo de sobreimpressões. Sobreimpressão não é palimpsesto, porque este permite ver, à transparência ou não, camadas da história; é uma imagem vertical do tempo, na perpendicular do plano do presente, um poço circular (mas não espiralado). Sugere uma visão sequencial da história, que tende a esconder ou anular o que está antes, correspondendo a uma visão competitiva, burguesa ou heróica, do tempo: se cada época sonha a seguinte, como queria Michelet, cada época deseja igualmente anular a anterior.

A sobreimpressão, pelo contrário, corresponde a um desvio, opera um deslocamento, os seus momentos não são sobrepostos, mas transversais (por isso ela acontece no espaço), situam-se, não apenas uns sobre os outros, mas ao lado uns dos outros («É a Flandres e o Brabante com a costa portuguesa ao lado»). Enquanto modo de estar no mundo e na escrita, mas também de entender a história, a sobreimpressão é, assim – uso definições de Llansol –, uma «vibração dissonante», o «encontro inesperado do diverso», a «coabitação serena do disperso», ou «um efeito surpreendente de beleza sem nostalgia». Esta última definição (vinda do Diário para Vergílio Ferreira) parece-me particularmente sugestiva, e vale a pena dá-la no seu contexto: «entre houve e há (…) haverá sobreimpressão. Não saberemos talvez mais por isso, mas assistiremos a um efeito surpreendente de beleza sem nostalgia». Ou seja: em primeiro lugar, da sobreimpressão não resulta mais saber, mas a percepção de outros níveis de realidade; depois, na sobreimpressão, os seus elementos não exercem qualquer forma de dominância um sobre o outro, mas estão ao mesmo nível; nem sequer um provoca a «nostalgia» do outro, situando-se antes dele ou acima dele. E ainda: o propósito da sobreimpressão não é o de recuperar um passado (mais ou menos idealizado ou instrumentalizado), mas o de fazer convergir vários tempos (ou elementos díspares: a língua portuguesa sobre a paisagem do Brabante, o texto de Llansol sobre o de uma das suas figuras, a música de Bach atravessando a poesia de Aossê...) numa paisagem-outra situada num presente ao qual são trazidos fragmentos irresolvidos do passado. A sobreimpressão de Llansol contraria, assim, as visões progressivistas da história, ao contrapor-lhes uma visão ainda e sempre estratificada, mas em décalage, e descontínua, gerando uma densidade relacional que aquelas não têm. Nela, o tempo abre-se, as épocas encontram-se, as figuras renascem num espaço de afinidades, saindo assim do tempo controlável da história e furtando-se à acção dos poderes. Por isso o texto assim construído «mete medo». A vertigem, mais do que a voragem, é o seu modo de relação com o(s) tempo(s).

O terreno da história apresenta-se então com um vasto texto cheio de indícios que pedem para ser lidos e recolhidos, e é preciso – como para Walter Benjamin – ler também «o que não foi escrito», os testemunhos sem voz desse grande texto. Recolhendo o que não foi recolhido, Maria Gabriela Llansol vem dizer e mostrar que a Europa foi o continente de todas as oportunidades, mas que ela foi, e é, um continente de muitas oportunidades perdidas – como se não existisse passado, como se desse passado se não pudessem extrair «lições» (o século XX terá sido, na opinião de um historiador actual como Tony Judt, aquele que mais inexplicavelmente parece ter esquecido essas lições). Mas, de facto, para Llansol o passado «enquanto tal» não existe (esse é o pressuposto conservador do historicismo positivista) – ou melhor, o passado não existe enquanto tal, é antes um reservatório vivo de onde podem saltar sempre promessas não cumpridas da história. É disso que se alimenta a sua Obra e a visão «sobreimpressa» da história que a informa.

Essa visão apresentou-a Maria Gabriela Llansol um dia ao Parlamento Internacional de Escritores, reunido em Lisboa em 1994, nos seguintes termos. Concluo com algumas palavras desse texto, que espelham, hoje também, um ponto de vista claro sobre o estado do mundo, deste país e da Europa, e ecoam como um libelo acusatório contra a desumanização da era do «incaracterístico», como lhe chamou o meu amigo António Vieira no seu Ensaio sobre o Termo da História:



Tudo segue uma rota de exclusão da pujança. Instalou-se um processo imparável de exclusão, está de volta o medo, embora difuso e diverso, de uma exclusão ainda maior. (...) É o grande êxodo da liberdade de consciência: eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira (...) A liberdade de consciência é uma fonte inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas elas, participaram na rapina (...) Para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? (...) Um dia a crença partirá. A razão partirá também. E eu desaparecerei do vosso corpo. Só o homem ficará finalmente sozinho sobre a Terra. Nenhum de nós imagina o esplendor que isso é – mas será assim.


2.4.11

ECOS DO DIA LLANSOL (V)
A exposição

Uma breve viagem para quem está longe, ou ainda não teve oportunidade de ver a exposição Sobreimpressões – M. G. Llansol: Uma visão da Europa (no CCB, das 14 às 18 h, até 13 de Abril)