13.2.08

LLANSOL:
CANTAR A LEITURA (2)

Do invisível




12.2.08

LLANSOL:
CANTAR A LEITURA (1)

Ler é, na Obra de Maria Gabriela Llansol, um acto constitutivo de viver. Llansol gosta de ler em voz alta, e sempre o fez, desde há anos, no início dos encontros do Grupo de Estudos Llansolianos. Não há muitas gravações da sua voz, mas dispomos de algumas, quer de leitura de fragmentos de livros seus, quer de intervenções, por vezes decisivas para clarificar noções e problemas centrais do seu Texto, nas discussões deste Grupo.
Ler, ler com o «sexo de ler», libidinal e mentalmente, ler em troca e não apenas como indagação de sentido, fonte de informação ou expectativa de sequências narrativas é um gesto de amplificação do mundo, que não sabemos quanto tempo perdurará nem por onde se repercutirá.
Se ler é amplificar o mundo, ler em voz alta é convocar, pela voz e pela entrega do corpo, o daimon vivo das sonoridades e das vibrações que atravessam o ar para chegar ao outro. Ler em voz alta é cantar a leitura. Os primeiros cantores de leitura são os animais, lê-se já em Amigo e Amiga. No último livro, precisamente intitulado Os Cantores de Leitura, este modo particular de ler assume-se decididamente como atitude de vida e resposta ao mundo: resposta do Texto e da sua comunidade – mais do que nunca apostada na amplitude e na igualdade dos seres no Ser, colocando os animais no seu centro – à incapacidade de «cantar» do mundo. É o lamento órfico de alguém que sabe que, se a leitura não for canto, o mundo não responde. Por isso, lemos em Os Cantores de Leitura, «é preciso cuidar a leitura,
porque a voz – se for incerta no seu deserto – mata, mata a leitura e o texto _______ o tom da voz a não impostura das suas pausas de silêncio _____
é determinante para o cuidado fraterno a ter com as figuras,
que estão por detrás de nós,
no seu desejo de abrir para si o Ler.» (Partícula 16).
A voz de quem lê torna-se, assim, o «contraste» da leitura, a sua marca de autenticidade, como nos metais preciosos.
Vamos dar aos leitores deste Espaço a possibilidade de ouvirem a voz de Maria Gabriela Llansol numa série de gravações. Começamos por dois excertos de O Senhor de Herbais, gravados em 2002, e continuaremos com fragmentos de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, e depois ainda com algumas intervenções, mais vivas, nas nossas discussões de grupo.

J. B.




27.1.08

NA APRESENTAÇÃO DE AMIGO E AMIGA
e
AGUARDANDO OS DESENHOS A LÁPIS COM FALA


Para quem não pôde assistir à apresentação do livro de M. G. Llansol Amigo e Amiga, na Árvore do Porto e na galeria da Assírio & Alvim em Lisboa, em 2006, aqui fica a sequência de imagens que na altura mostrámos (mas sem animação), associadas a uma montagem de textos de Llansol e Augusto Joaquim, lidos por Maria Etelvina Santos e João Barrento. A música é de Bach (prelúdio da primeira suite para violoncelo, BWV 1007, por M. Rostropovich; e o adagio do concerto para violino em mi maior, BWV 1042, por Hillary Hahn e a Los Angeles Chamber Orchestra). Alguns dos desenhos mostrados fazem parte do álbum de Augusto Joaquim Desenhos a Lápis com Fala, a editar muito brevemente pela Assírio & Alvim (inclui o texto de Llansol Amar Um Cão, uma apresentação de Augusto Joaquim e uma nota de João Barrento). Nessa altura, esperamos voltar à galeria da Assírio para falar do último livro de Maria Gabriela Llansol, Os Cantores de Leitura, e deste álbum de Augusto Joaquim.


MGL-AJ-A&A(1).mp3

MGL-AJ-A&A(2).mp3

Para ouvir, clique no botão entre as duas setas

23.12.07


(Clique na imagem para aumentar)

12.12.07


OS CADERNOS DE MARIA GABRIELA LLANSOL


Temos publicado neste espaço alguns fragmentos dos setenta cadernos manuscritos em que Maria Gabriela Llansol vem escrevendo regularmente desde os tempos do exílio na Bélgica. A Associação ESPAÇO LLANSOL vai iniciar em Janeiro de 2008 um projecto de digitalização, transcrição e, na medida do possível, edição desses cadernos. Trata-se de um projecto de grande dimensão e projecção – os cadernos contêm quinze a vinte mil páginas e papéis manuscritos – , cuja finalidade é a de garantir a preservação e tratamento deste importante espólio de M. G. Llansol (o que, aliás, é um dos principais objectivos estatutários desta Associação). A Fundação Gulbenkian reconheceu o alcance desta iniciativa, e irá apoiá-la financeiramente já nesta primeira fase.

O projecto prevê a digitalização, organização em arquivo digital, descrição física e de conteúdo, organização de índices e subsequente transcrição do conjunto de setenta cadernos de reflexões e anotações, organizados cronologicamente e com registos que cobrem o período de 1974 até hoje. Este conjunto de cadernos vai sendo preenchido, durante estes anos, com anotações de natureza múltipla e híbrida, desde a entrada de diário até reflexões mais longas sobre os temas e assuntos que alimentam os livros da Autora, sínteses ou notas de leitura, registos literários de experiências, imagens, conversas que acompanham os dias.



A importância deste espólio manuscrito é inestimável para o estudo da Obra de Llansol, na medida em que acompanha, prolonga, ilumina e aprofunda a matéria de todos os seus livros, desde que começou a escrever aquele que considerou o «livro-fonte» de toda a sua Obra,
O Livro das Comunidades (escrito em 1974, na Bélgica). Mas é igualmente um repositório único de perspectivas sobre a cultura e a língua portuguesas, sobre as grandes linhas do pensamento e da espiritualidade europeia, e sobre o encontro destas duas realidades.


Tudo isto passa, quer pelo registo e comentário de figuras históricas, quer pelo de lugares europeus e portugueses marcados por uma grande densidade histórica e cultural, quer ainda por momentos que permitem reconstituir alguns aspectos da vida e da actividade dos núcleos portugueses de exilados (na Bélgica, concretamente em Lovaina), nos anos sessenta e setenta do século passado. Até hoje, a Autora nunca deixou de acompanhar a escrita dos seus mais de trinta livros com a destes cadernos, que, apresentando paralelos e convergências com as obras editadas, vão muito para além delas e constituirão um instrumento fundamental para a investigação e o esclarecimento da Obra desta autora singular da nossa literatura contemporânea.


Apesar de um projecto desta dimensão exigir bastante tempo para a sua execução, podemos dar já aos interessados duas boas notícias: a) logo que esteja disponível o arquivo digital dos cadernos, esperamos poder torná-los acessíveis a investigadores e estudiosos da Obra, naturalmente com as restrições impostas pela própria Autora; b) neste momento a M. G. Llansol está a organizar, com a nossa colaboração, um primeiro volume de textos extraídos dos primeiros cadernos, a editar logo que possível.

JB

5.12.07


A VIBRAÇÃO DO SILÊNCIO

Sobre filmes de Vera Mantero e Miguel Gonçalves Mendes
feitos a partir da Obra de M. G. Llansol
e apresentados em 3 e 4 de Novembro no



Take 1

O Texto e o Corpo

Dois nomes lêem o Texto llansoliano, em momentos diversos de um só acto de leitura: a descoberta dos lugares a filmar e a sua montagem num filme que os dá a ver. Por «Lugar» queremos dizer, dentro do espírito do Texto de Maria Gabriela Llansol, uma imagem-que-vai-adiante, ou seja, algo que atrai e prende o nosso olhar/corpo, que acontece sem espaço nem tempo, mas tem corpo de Acontecer e assim nos enleva, sem nada prometer («________ o texto é sem promessa e sem garantia», lê-se em
Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 188).


Do ponto de vista de quem vê o filme projectado na tela, a descoberta dos lugares, que faz surgir a matéria do filme, é uma experiência de leitura conjunta, próxima do espírito llansoliano — ler em Llansol é um acto de partilha entre vozes e olhares diferentes, quase nunca consonantes, mas permeáveis. Já a fase da montagem do filme parece quebrar este acto de permuta, deixando surgir dois filmes que marcam sobretudo a distância entre as personalidades de Mantero e Gonçalves Mendes. E no momento em que os dois filmes são projectados e mostram uma mesma matéria, ora ao serviço de um narcisismo um pouco mais desregrado (Vera Mantero), ora ao serviço de um olhar mais documental documental (Miguel Gonçalves Mendes), estamos perante duas leituras de costas voltadas entre si. Ver dois filmes montados a partir de uma matéria fílmica comum ter-nos-ia dado uma experiência insólita e única de como os olhares de um só acto de leitura se cruzam, ainda dentro do espírito de permuta e partilha a que convida o Texto de Maria Gabriela Llansol.

O olhar narcísico de Vera Mantero perturba, ao pretender «encenar» o Texto, recriando a figura da «mulher que não queria ter filhos de seu ventre» (O Livro das Comunidades, p. 11), mas com isso a fazer-se «centro de cena», impondo à Voz textual a sua própria voz — um narcisismo análogo ao que se viu na encenação recente, por André E. Teodósio, da ópera Metanoite, baseada no texto de Llansol, com libreto de João Barrento e música de João Madureira. O olhar documental de Miguel Gonçalves Mendes aproxima-se do Texto de forma mais contida, guardando uma distância que o deixa respirar no seu mistério e expressividade imensos, sem contudo se deixar enlevar pelo seu Lugar – ou seja, o que sobressai é o exercício de montagem e de manipulação de uma matéria fílmica belíssima, particularmente quando já a conhecemos do filme anterior, assinado por Mantero.

Ainda assim, a matéria dos filmes tem uma força expressiva e uma beleza tais, que nos convidam a abrir o olhar às imagens e a ponderá-las nesta abertura — como as ilustrações de Ilda David nos livros de Llansol nos convidam a fazer. Na redescoberta dos lugares do Texto llansoliano em algumas destas imagens, dá vontade de as deixar pairar, como, afinal, paira o Texto llansoliano, sem antes nem depois, mas sempre-adiante, fugazes e intensas.

A paisagem de vento, as árvores, a folhagem, a casa, o interior da casa, os corpos em movimento, os gestos da escrita e da leitura, o corpo a correr, o corpo disperso por corpos-outros, o fogo e a água: estes são alguns dos elementos dos filmes que se associam ao Texto de Maria Gabriela Llansol como uma sua ilustração mimética. Este mimetismo do Texto é o que dá às imagens dos filmes a sua força expressiva, e nesse sentido elas são felizes, concretizam as dobras do Texto, a sua pluralidade de vozes e de corpos movendo-se e relacionando-se, sem querer saber para-onde. Alguns momentos são especialmente fortes e belos no dar-corpo de imagem visual ao Texto e à Imagem de que este é capaz: as crianças a escrever «em fúria»; a corrida no bosque; os corpos pendurados na árvore; a mão-que-escreve; o fogo sobre as águas correndo…

Mas encontramos nos filmes também a expressão de uma angústia (mais presente no filme de Vera Mantero do que no de Miguel Gonçalves Mendes) que é inexistente no Texto llansoliano. Esta angústia exprime-se nas imagens de animais mortos, violentados, quando o corpo se enrola sobre si mesmo ou se movimenta por espasmos, quando o olhar e a voz parecem buscar o que não têm. O semblante llansoliano, se é sem-expressão, é por estar sem posse, é por não se impor, mas não por estar em carência. Esta expressão da angústia está longe da Obra de Llansol e do seu convite à libertação jubilosa de tudo o que tolhe e oprime.

O difícil exercício de um fazer-com (no lugar do fazer-sobre), encontra-se na matéria de que são feitos ambos os filmes, mercê de um acto conjunto de leitura dos textos de Maria Gabriela Llansol. Algumas das imagens geradas desse acto são ímpares, respiram beleza e dão a ver o texto improvável de Maria Gabriela Llansol. Essa dádiva é preciosa.

Cristiana Vasconcelos Rodrigues


Take 2


1.

Uma mulher, uma casa, crianças que ela não quer ensinar, mas deixar que cresçam, mostrando-lhes o mundo: o que está aí e o que parece não estar aí, porque só existe na dobra.
Todos existem e aprendem a viver numa dupla «província pedagógica»: vivem a casa – na escrita / na cópia, na leitura, no jogo – e percorrem o mundo, derramam-se nele – na terra e nas árvores, no vento e na água, nos animais e nas plantas... Descobrem o corpo, semeiam futuro (num eterno retorno do mútuo), entram em consonância com a vibração do mundo, o que os envolve e o que trazem em si.
A mulher é presença-pivot, mais do que guiar emite sinais, é corpo de experiência que interage com o corpo-de-natureza das crianças (que em certos planos é também o seu), disponível, maleável, generoso, aberto – à escrita/cópia num frenesi por vezes excessivo, à sementeira, à fusão com os troncos das árvores ou as folhas do chão, aos ritmos, à música, ao apelo da terra.
Esta primeira experiência feita sobre a matéria do texto de Llansol por Vera Mantero é nervosa e vibrátil, investe mais no movimento do que na concentração, e afecta com isso a pele das cenas e da sua transição, e a beleza estética do conjunto, que no entanto emerge repetidas vezes em vários planos de grande beleza, mas menos serenidade.

2.

Um homem nu, ao piano (evocando o começo de
O Jogo da Liberdade da Alma e passagens de Amigo e Amiga) ou em espaços abertos mais ou menos imponderáveis, segue o rasto de uma mulher que segue o rasto de um homem desaparecido: «aquelesser». O que ele/ela buscam é reconstituir a sombra de uma presença-ausência, de uma ausência presente que partiu. Para um mundo que, desconhecido, se sabe que é aquele «para onde irei». A busca tem uma finalidade, que abre para dois sentidos possíveis e complementares, consoante se ouve da boca dos adultos ou das crianças: «quero saber mais do mundo para onde irei...» A única maneira de o saber, insuficiente, incerta, tacteante, e que por isso justifica a busca, é seguir o rasto – os traços de carácter e de acção de «aquelesser», la trace, o rosto e a assinatura – deixado nas coisas por esse ser que partiu. Na experiência de Miguel Gonçalves Mendes, a ambiência resulta mais nostálgica, o ritmo respira uma maior serenidade. A linha de desenvolvimento é mais clara, menos dispersa: é a da decepação da memória da morte pelo júbilo e pelo fulgor.
E do júbilo e do fulgor de uma beleza por vezes cortante das imagens e das sequências vivem estas duas experiências, até hoje ímpares, realizadas em sobreimpressão com o texto de Maria Gabriela Llansol.

João Barrento


(As fotos são de Margarida Ribeiro e vêm da rodagem dos filmes,
que os autores intitularam «Curso de Silêncio».
A sequência completa pode ser vista aqui.
Alguns fotogramas dos filmes aqui.)

25.11.07




Obrigada, Maria Gabriela, pelo encontro de ontem na Casa da Saudação. Vieste com as mãos disponíveis, como sempre nos habituaste, desde aquele primeiro encontro, na Casa da Praia Grande, quando pela primeira vez nos olhámos como um grupo de início. E éramos. E somos. O que te levámos ontem, lembrando o teu aniversário, cabe numa pequena lista de oferendas, mas dá a ver o que entre nós importa:

um vestido castanho, costurado pelas mãos de uma mulher da tua idade, com que outra, delicada, te ajudou a vestir o corpo;


um cesto com laranjas, apanhadas da árvore, manhã cedo;

um vaso de violetas, com a cor do seu nome, para acompanhar os teus dias;

um hábil «mensageiro de sonhos», para acompanhar as tuas noites;

duas tabuinhas de cera, encontradas há muito, perto de uma igreja, em Itália;

um vaso com um metrosideros, para crescer entre nós e permanecer, e que escolheste plantar perto da porta da Casa...

e outras pequenas-grandes coisas com que habitamos os dias, criando na paisagem a «mais-paisagem» que nela existe, não para regressar a ela, mas para a trazer de volta.

ES





19.10.07


OS CANTORES DE LEITURA

Dentro de dias chegará às livrarias o novo livro de Maria Gabriela Llansol, Os Cantores de Leitura (Assírio & Alvim).
Todo o livro, na sua tripla fragmentação (partículas, duplos, contextos) vive da movimentação de figuras, novas e antigas, entre Casas, num vaivém contínuo entre lugares e momentos de escrita, leitura, contemplação, diálogo com as coisas, reflexão sobre o mundo. De partícula para partícula assistimos a uma espécie de sonho em que imagens contínuas, mas díspares, se vão mostrando, naquele que é provavelmente o mais livremente associativo de todos os livros de Llansol. No seu centro está a Leitura, leitura agora «cantada», resposta do texto à incapacidade de cantar do mundo, e «contraste» (i. é, marca de autenticidade) desta nova Comunidade de seres que vivem da e para a beleza do conhecimento e dos afectos.


Transcrevemos uma das «Partículas» do livro e respectivo «contexto» (designações de uma estrutura fragmentária que sugere «leituras minimais que se correspondem conforme a transparência da sensibilidade de quem lê», Partícula 44):

PARTÍCULA 43 — O Livro dos Afectos

Uma das actividades mais misteriosas da escrita é, como diz Tual, dar
nome a um texto, vê-lo mudar de nome, e
guardar secreto esse nome.

Este é O Livro dos Afectos.

Exprime bem o que exprime; tem, contudo, uma conotação sentimental, romântica (muito ligeira, eu sei) que o torna mais frágil que o outro nome — Os Cantores de Leitura. Na realidade, é um nome forte, aberto, transversal, que inscreve uma distância sobreposta entre dois lugares. No entanto, o nome de O Livro dos Afectos, apesar de mais fraco, diz exactamente o que se passa nessa distância sobreposta. Se me perguntarem (de facto, já não perguntam) o que se passa neste texto, eu posso dizer, do meu ponto de escrita, que, na distância entre canto e leitura — dois lugares —, uma linhagem de seres visíveis e invisíveis revive o afecto, a miríade de afectos que soube e não soube viver,
como escrevia Friedrich N.,
antes de chegar.

seu contexto
:

viemos até aqui, na forma da presença peculiar de

cada um, para tentarmos reviver, mais uma vez,
o que é o corpo,
o que é a luz,
o que é a força,
o que é o afecto,
o que é o pensamento,
o que é a figura.

Simplesmente procurar saber, no seu próprio corpo reflectido na imagem __________ na prática, seremos artesãos de tarefas simples, realizadas de modo impecável, como estamos a procurar fazer com Lós, que se tornou nosso filho. Embora ninguém saiba — sem pelo menos uma hesitação — o que é a responsabilidade de educar o sol. Seria fora de razão e prestar-se-ia ao riso acreditar, palavra por palavra, que tal aconteceu. Todos nós sabendo e não sabendo como nos tornamos sol consciente e livre, num texto aproximado

no seu próprio corpo reflectido na imagem _____
na prática do amor de afectuante para afectuante, o que é
o eterno retorno do mútuo.

17.10.07



AD LOCA LLANSOLIANA (2)


Como prometemos aqui, voltamos aos lugares llansolianos da Bélgica, onde a escritora viveu e escreveu entre 1965 e 1985. Primeiro em Lovaina, depois em Jodoigne, finalmente em Herbais. Outros lugares decisivos para o arranque desta Obra nesses anos foram o béguinage de Bruges e a abadia de Maredret, onde foi escrito em parte e concluído O Livro das Comunidades. Destes lugares, e da Bélgica como espaço e paisagem de uma «sobreimpressão» da língua portuguesa dão conta muitas passagens de livros de Maria Gabriela Llansol, de onde extraímos os excertos que se seguem, sumariamente ilustrados. As fotos mais antigas são de Augusto Joaquim, as mais recentes de João Barrento e Vina Santos. Um périplo mais completo desses lugares, ontem e hoje, pode ser visto na sequência fotográfica que abre esta página.


1 - A Bélgica

Tempo excepcional, embora severo, em certas circunstâncias;
(…)
il y avait une ombre,
dont il était impossible de faire le portrait;

quand il n’y avait plus de lumière,

l’ombre tombait par terre
.
(
Finita)

…. sinto-me como alguém que viaja em país estrangeiro, por não me sentir, de modo algum, ligada a uma nação. Na Bélgica, sinto-me menos em terra alheia talvez porque está explícito que nenhum laço de origem política me liga a este país. Sem país em parte alguma, salvo no vazio em que me dei a uma comum idade. Comum idade real por imaginária, e imaginária por verdadeira. A escrita, os animais, fazem parte dessa orla, e são tais seres excluídos pelos homens que eu recebo.
Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós.
(
Finita)


O extremo ocidental do Brabante

I

(…) Entre vós, na minha língua confrontada às vossas paisagens. Que podeis confrontar e identificar sem, no entanto, desvendar a língua que foi a sua raiz. Por outro lado, os portugueses, que nem as vêem, nem as identificam, nem são embebidos por elas, podem ouvir a língua que as fala.
(…)
Sei hoje que é nessa
sobreimpressão que eu habito o mundo, e vejo, com nitidez, que outros vieram ter comigo:
«concebe um mundo humano que aqui viva, nestas paragens onde não há raízes.»

III

Desses primeiros anos na Bélgica guardo uma imagem difusa, e ligeiramente irreal: as planuras do Brabante e o vale do Mosela; as fachadas góticas da Flandres; a vida de estudante, em Lovaina; o direito efectivo à informação. As particularidades, múltiplas e incontáveis, de um país conservador, percorrido por pessoas livres e trabalhadoras que, embora achando muito original a imaginação das gentes vindas de outras terras, não podiam deixar de marcá-la com os indícios de uma espécie de bom senso degenerado…
(
Lisboaleipzig 1)


2 - Bruges, béguinage

Há muitos anos, quando comecei a viver na Bélgica, sem
pressentir que seria por tantos, esta nossa longa ausência fez-me uma profunda impressão. Estava eu no
béguinage de Bruges, com o sentimento fortíssimo de que já ali teríamos estado. Nós, não era eu. (…)
Data de então a presença constante, invasora e quase exclusiva, de certas figuras europeias nos meus livros. (…)
Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewijch, a Ruysbroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavem Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer.
De esquecer tudo isso.
(
Lisboaleipzig 1)


3 - Lovaina

Há muito que não frequento as livrarias de Lovaina, em que começava a enervar-me a lei do número, o modo de
expor, e um certo relento de Universalidade. (…)
O que me choca é a vastidão dos textos que não ficarão e que, hoje, no espaço fechado da livraria, fazem um ruído ensurdecedor de «papotage» que quase tornou inaudível o diálogo entre os livros que falam e mantêm entre si a arte da conversação infindável sobre o entresser.
(
Finita)


4 - Jodoigne

Casa de Jodoigne, 23 de Abril de 1977

(…) dou finalmente posse à minha verdadeira figura, e as composições de imagens e ideias que se tinham formado durante a noite refazem-se naquele instante: estou em baixo, na cozinha ampla e branca, a preparar uma refeição, voltada para a mesa redonda, e de costas para o armário mural. A cozinha mergulha numa luz que vem do fulgor. A janela, que tem por cortinado uma colcha das ilhas é, atraentemente, uma fonte.
(
Finita)


Jodoigne, 6 de Agosto de 1977,
em que acabei de escrever
A Restante Vida

O ano de 74, ano da libertação política de Portugal, ainda decorreu em Lovaina. Só partimos para Jodoigne em Abril de 75, embora já durante todo o mês de Março, tivéssemos preparado a casa. A casa pareceu-me grande, o jardim um terreno vago no meio de muros bem calculados e envelhecidos; nessa altura, o portão ainda não era uma chave no espaço apesar de ter a presciência de que, vindo para esta casa, me daria a uma escrita mais segura, feita da experiência dos silenciados e de outras realidades por hábito abandonadas, ou não penetradas. Não me lembro do primeiro verão, devia ser um verão intermédio, embora já nele tivesse plantado, para meu sossego, Spirea e Prunus Triloba. Fui buscá-las a território flamengo, a Tienen, e elas cresceram com acessos de doçura e de força; com inteligência visionária se alongariam meus dias, em noites obscuras e horas fecundas, quase intermináveis…
(
Finita)


5 - Herbais

Lugar mítico, paisagem que avistei durante anos do meu quarto minúsculo de Herbais. Paisagem nem urbana, nem rural, com essa faixa que ainda hoje a atravessa e que sempre me dava a vontade de a seguir. Sem saber como, eu sabia que no fim dessa estrada estava um mar. A este processo chamei a convicção íntima, e foi nela e suspensa da janela desse quarto que escrevi, dias a fio, Contos do Mal Errante.

Herbais,
é a paisagem que Herbais guarda como lhe pertencendo verdadeiramente. Vejo nela o Jade correndo, os carreiros uma grande explosão de fundo. Nada explode. Tudo é isto, campos imensos de variedades de cereais, ou então só matizes de verde e, próximo, raros arbustos e árvores que não foram abatidas.

Herbais,
uma ilha humana, ao longe, na crista da paisagem. Para ela se orientam naturalmente os passos humanos. Mas, para a compreender para além da sua pequenez, precisámos de deixar partir de nossas mentes a imagem de cidade, aglomeração humana densa.

(«O pensamento de algumas imagens», in:
A Restante Vida, 2ª ed.)

16.10.07

LIVRO DE ASAS PARA LLANSOL




Acaba de sair, na Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, o Livro de Asas para Maria Gabriela Llansol, um volume que reune, em 280 páginas, pela mão de Lúcia Castello Branco e Vania Baeta Andrade, os textos apresentados e enviados ao primeiro Colóquio sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol, que teve lugar no teatro barroco de Sabará, uma cidade histórica nos arredores de Belo Horizonte, em Dezembro de 2002.
É uma vintena de contributos, de legentes brasileiros e portugueses, sobre os mais diversos livros e temas do universo llansoliano, transportados por oito "Asas", que correspondem aos vários momentos do Encontro: Asa do texto: lugar que viaja; Asa dos legentes: o mundo figural; Asa dos legentes: a textualidade; Asa dos absolutamente sós; Asa dos reais-não-existentes; Asa dos textuantes; Asa de cenas fulgor; Asa do lugar.
Foi, como se diz na «Abertura», «um primeiro colóquio de leituras-escritas em torno da Obra, sopradas ao vento por diversas artes: a poesia, a música, o canto, a dança, a fotografia, o bordado, a jardinagem e as artes plásticas.»
Sob o signo do lema, tão llansoliano, «Este é o jardim que o pensamento permite» se fez este primeiro Colóquio, a que outros dois se seguiriam, organizados em Portugal pelo antepassado próximo deste Espaço Llansol, o GELL-Grupo de Estudos Llansolianos: o da Arrábida, em Setembro de 2003, e o de Mourilhe, em Julho de 2005 (deste último editámos uma caixa-livro,
Vivos no Meio do Vivo, a que já nos referimos aqui).
Em todos esses encontros, como ainda escrevem as organizadoras, «estivemos na clareira: sempre entre as árvores, os troncos, as folhas, os ramos e os jardins. Afinal, o pacto da legência admite, já de início, além do inconforto, que a árvore é um livro a distribuir suas folhas pelos ramos.
É na textualidade de um livro cujas folhas retornam à matéria primeira do papel — a árvore — que este livro se compõe. E, porque as folhas e os ramos também voam — reunindo os legentes daqui, do Brasil, aos de lá, de Portugal, e a outros ainda, de lugares longínquos, do passado, e de lugares futurantes, ainda por vir —, este livro se quer um
livro de asas