CANTAR A LEITURA (1)
Ler, ler com o «sexo de ler», libidinal e mentalmente, ler em troca e não apenas como indagação de sentido, fonte de informação ou expectativa de sequências narrativas é um gesto de amplificação do mundo, que não sabemos quanto tempo perdurará nem por onde se repercutirá.
Se ler é amplificar o mundo, ler em voz alta é convocar, pela voz e pela entrega do corpo, o daimon vivo das sonoridades e das vibrações que atravessam o ar para chegar ao outro. Ler em voz alta é cantar a leitura. Os primeiros cantores de leitura são os animais, lê-se já em Amigo e Amiga. No último livro, precisamente intitulado Os Cantores de Leitura, este modo particular de ler assume-se decididamente como atitude de vida e resposta ao mundo: resposta do Texto e da sua comunidade – mais do que nunca apostada na amplitude e na igualdade dos seres no Ser, colocando os animais no seu centro – à incapacidade de «cantar» do mundo. É o lamento órfico de alguém que sabe que, se a leitura não for canto, o mundo não responde. Por isso, lemos em Os Cantores de Leitura, «é preciso cuidar a leitura,
porque a voz – se for incerta no seu deserto – mata, mata a leitura e o texto _______ o tom da voz a não impostura das suas pausas de silêncio _____
é determinante para o cuidado fraterno a ter com as figuras,
que estão por detrás de nós,
no seu desejo de abrir para si o Ler.» (Partícula 16).
A voz de quem lê torna-se, assim, o «contraste» da leitura, a sua marca de autenticidade, como nos metais preciosos.
Vamos dar aos leitores deste Espaço a possibilidade de ouvirem a voz de Maria Gabriela Llansol numa série de gravações. Começamos por dois excertos de O Senhor de Herbais, gravados em 2002, e continuaremos com fragmentos de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, e depois ainda com algumas intervenções, mais vivas, nas nossas discussões de grupo.
J. B.