7.2.24

 AMAR UM CÃO NO BRASIL

Acaba de sair, em edição da 7Letras, do Rio de Janeiro, mais um livro de Maria Gabriela Llansol, Amar Um Cão, com as colagens de Augusto Joaquim. 

Pode ser adquirido no site da Editora: https://7letras.com.br/livro/amar-um-cao/


5.2.24

 THOMAS MÜNTZER EM LLANSOL:

AS BATALHAS PERDIDAS DA HISTÓRIA


Resumimos aqui alguns momentos da sessão de sábado, dia 3, em que João Barrento fez uma leitura do lugar do «teólogo da revolução» (da era da Reforma e da Guerra dos Camponeses) na primeira trilogia de M. G. Llansol, incluída no ciclo de sessões do Espaço Llansol «A Restante Vida» (mais documentação, escrita e visual, de Llansol e Müntzer, no caderno editado para esta sessão; e também no video apresentado: vd. link no final do texto).


E o homem entenderá que não pode alcançar a salvação pelo entendimento, mas que terá, em primeiro lugar, de chegar à pureza interior dos simples. Ah, que estranho vento vai ser esse para o mundo letrado, da carne e do deboche.

(Thomas Müntzer, Sermão aos Príncipes, Allstedt, 1524)

 

... essa turba camponesa que, perdendo em Frankenhausen, fez perder a Europa que, desde então, repousa,  em hibernação, na cabeça de Müntzer (...)

Müntzer do meu nome, / ou seja, / Müntzer, filho do nada.

(Maria Gabriela Llansol, A Restante Vida)

 

Como explicar a presença de uma figura histórica da Reforma protestante mais radical, bastante desconhecida entre nós, ainda por cima como representante, na Obra de Llansol, da categoria do «Pobre», do desmunido e da despossessão? (vd. Posfácio de A. Borges Restante Vida).

Talvez porque servia bem a M. G. Llansol – tal como recentemente ao escritor francês Éric Vuillard, com a biografia romanceada de Müntzer que intitulou, com ecos llansolianos, A Guerra dos Pobres (Dom Quixote, 2020) – para evidenciar os grandes desastres da história europeia da era moderna e todas as batalhas perdidas dessa história (não há batalhas ganhas, todas as guerras são perdidas, as de ontem como as de hoje!) Mas Müntzer é ao mesmo tempo promessa: é aí, nas suas ideias, que, «em hibernação», pode estar uma vez mais, para Llansol, o  «perfil da esperança» de uma «restante vida»! 

O nome de Thomas Müntzer, o «teólogo da revolução» (radical e não «conservadora», como da de Lutero disse Thomas Mann) no livro do filósofo Ernst Bloch com esse título, convoca toda uma linhagem iconoclasta, de uma dinastia de vencidos que se perfila como linha promissora, mas sempre reprimida por toda a espécie de poderes,  uma afirmação, sempre adiada, do humano na história alemã e europeia. Na sua primeira trilogia, «Geografia de Rebeldes», Maria Gabriela Llansol faz uma reconstituição (figural e não factual, projectiva e não retrospectiva) da história da Europa e da Alemanha modernas pela via de uma «cultura da memória» (que permite recriar comunidades vivas), e não de uma «cultura da história» (que se limita a registar o que está à vista no palimpsesto do tempo), com base numa «árvore genealógica dos irmãos do Vazio Principal» (traçada no Lugar 24 d' O Livro das Comunidades), onde Müntzer surge como figura central, «filho do Nada», defensor de um vazio que permite o recomeço, arauto de promessas não cumpridas da História dos tempos modernos, os que se iniciam, no século XVI, com «a ética protestante e o espírito do capitalismo» (Max Weber), abrindo nela, com o seu pensamento e a sua acção, «um espaço para a evolução do possível».

 

Por paradoxal que pareça, uma tal reconstrução viva e humana do passado implica um esquecimento da história que atinge aqueles que «surgem na história com máscaras e trazem, nos fatos novos, remendos do que roubaram aos mortos» (Llansol, Finita). Fora dessa mascarada, e por vezes denunciando-a e enfrentando-a, estão os pobres da história (com a sua «restante vida» alternativa). Thomas Müntzer será um dos representantes maiores desses «sobreviventes da história» saídos da parte perdida da batalha, em A Restante Vida. O que dela resta, e se perpetua, será aquilo a que Llansol chamará precisamente «a restante vida». A restante vida é a verdade possível da história barrada do humano, que salva o esquecido do esquecimento; e o perseverar nesse gesto é uma das formas de revelar a verdade não cumprida da história, daqueles que constantemente «colocam a restante vida num cadinho para a submeter à prova do fogo» (Causa Amante).  

É claro que não é a especificidade histórico-cultural da matéria, ou de uma figura em particular, que interessa a Llansol na hora de a trazer ao espaço livre da sua singular comunidade. Para ir ao encontro do que aqui mais importa: para além do seu lugar específico na história da Reforma, Müntzer é em Llansol um paradigma radical do movimento da «liberdade de consciência» nos seus começos, e um prolongamento da via interior dos místicos renanos (que poderá corresponder aqui à categoria llansoliana complementar do «dom poético») e dos movimentos medievais do Livre Espírito e das profecias milenaristas que, sob a influência de Müntzer, se propagariam no século XVI e iriam explodir no fundamentalismo alucinado da efémera república anabaptista da cidade de Münster (de que dá conta um livro como Contos do Mal Errante). A grande oposição que Llansol destila a partir daí, e que atravessa toda a história do Ocidente até hoje, é entre o príncipe – todos os príncipes, os do poder político e os do financeiro, os da realeza e os do dinheiro, os da Igreja e os da literatura – e o pobre, sendo que o pobre não é, em Llansol, uma categoria negativa (tal como o camponês, o homem simples, ou os servos da gleba, o não é nos textos de Müntzer): ele não é, nem o pobre de meios, nem o pobre de espírito, nem sequer o proletário, mas o próprio espírito da despossessão espiritualmente intensa como princípio de vida e de acção. 

Müntzer, «teólogo da revolução» em tempos da revolução conservadora que foi a Reforma de Lutero, é a primeira grande figura da linhagem dos «Pobres» em Maria Gabriela Llansol. A segunda, paradoxalmente, será a de Luís de Camões, despido das grandezas épicas para assumir o papel de homem comum – Luís Comuns – e aprendiz de mundo pela mão de mulheres, as beguinas que, na abertura de Na Casa de Julho e Agosto, se apresentam como as Damas do Amor Completo.

O lugar dos pobres da história – o lugar de Thomas Müntzer na sua errância e nas perseguições que o levam à morte – é um lugar de risco: pela exposição aos poderes e à «trama da existência» que os alimenta, e pelo radicalismo ou pela visão antecipatória de que esses pobres são portadores. Müntzer será, por contraste com Lutero (o elemento alemão em estado puro, o anti-europeu por excelência), o elemento alemão em estado extremo, de lucidez alucinada – com o impulso radical e libertador que leva à morte ou à loucura. 

Nas origens deste «destino alemão», que Llansol, assimilando-o à sua Obra, amplia à dimensão de destino europeu e ao fatal «caminho da água» das Descobertas, está o fracasso da Guerra dos Camponeses, que – lembra já Thomas Mann (na conferência em inglês «A Alemanha e os Alemães», que profere no fim da Guerra, em 1945) – «poderia ter dado à história alemã um rumo mais feliz, o rumo para a liberdade, se tivesse vencido». A derrota de Frankenhausen e a decapitação de Müntzer representaram o começo de um destino europeu que ainda é o nosso: o das promessas não cumpridas que dariam lugar à vitória de todas as «revoluções conservadoras», ou cujo destino, nas mãos do poder, acaba por ser esse (Lutero e a Revolução Francesa, a Revolução Russa e a de Hitler, a cubana e a chinesa, a própria «revolução» do 25 de Abril, com a sua rápida «normalização»). É a vitória do falso espírito «social-democrata» no sentido original, marxiano (incluindo o do comunismo real e da sua perversão) sobre todas as mais autênticas visões socialistas e igualitárias: de Lutero sobre Müntzer, do Bonapartismo sobre os ideais da Revolução, do Terror sobre o purismo jacobino (que terá sido também o de Hölderlin), da moral cristã e burguesa sobre a ética da verdade e do porte íntegro (de Nietzsche ou Bloch). 

 




Voltamos a Thomas Müntzer e aos caminhos que a sua cabeça e a sombra do seu corpo tomam nos primeiros livros de Maria Gabriela Llansol. Sobretudo a sua cabeça decapitada, assim tornada autónoma e finalmente livreA figura de Thomas Müntzer funcionará, na primeira trilogia de Maria Gabriela Llansol (O Livro das Comunidades, A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto, publicada entre 1977 e 1984) em registo predominantemente metonímico (um processo que se compreende, e é comum a outras figuras, já que na metamorfose da personagem histórica em figura textual nunca se pretende dar a sua totalidade). Müntzer surgirá, assim, nesta trilogia e também num dos diários, numa tripla dimensão metonímica:

a) como a sua cabeça, que, separada do corpo mas continuando a sonhar, guiará toda a travessia da noite e do exílio que com ele fazem, no barco do tempo e pelo rio da história e do eterno retorno, as outras figuras da comunidade (Ana de Peñalosa, sua «mãe» no texto, João da Cruz, Hadewijch, Eckhart, Ana de Jesus);

b) como o z que, no seu próprio nome, concentra no seu movimento e na sua sonoridade toda a violência da decapitação e da acção devastadora dos príncipes – e da sua «ilusão»: 

c) como centro de Frankenhausen, a batalha, verdadeira «origem» da gesta portuguesa das caravelas – leitura absolutamente original e inaudita de Maria Gabriela Llansol, explicitamente formulada (mas não demonstrada – nem teria de o ser!) numa intervenção feita em 1988 em Paris.

Percebe-se melhor, a esta luz, o estranho destino de Müntzer na primeira trilogia, quando, sem explicação aparente para isso, o seu «segundo enterro» é preparado e realizado com pompa e circunstância (acompanhado por um Requiem de Mozart) pelas beguinas precisamente em Lisboa.

Encerra-se o capítulo da batalha perdida de Frankenhausen, abre-se a via para outra, a de Alcácer-Quibir, cujos despojos darão à costa no Cabo Espichel, na figura do Rei regressado que as mesmas beguinas, para seguir a lei do Texto e renegar a da história, metamorfosearão em Dom Arbusto (em Causa Amante). A «sobreimpressão» dos dois «intentos quebrados», que poderia ter propiciado o encontro do gesto decidido da liberdade de consciência centro-europeia com a atmosfera leve da imaginação criadora que informa o dom poético, nunca chegou a dar-se; o que parecia anunciar o dom – as descobertas e o desejo do novo – foi uma vez mais pervertido pelo poder e a cobiça, e degenerou em negócio e opressão. 

A primeira aparição de Thomas Müntzer no texto de Llansol dá-se em O Livro das Comunidades, numa entrada abrupta em que o pregador alemão irrompe do Prólogo da Viva Chama (ou do êxtase) de João da Cruz. Müntzer surge logo aqui «reduzido a um corpo de criança, cujo tamanho não excede o da minha cabeça decapitada (...), fazendo ressoar com um cântico novo as claras trombetas do ar»: o místico ibérico – cronologicamente posterior! – dá lugar, na linhagem, ao visionário da acção, que intervirá através de um programa espiritual (cântico) e da agitação e da guerra (as trombetas). Mas, enquanto a personagem histórica de Müntzer exerce, de facto, uma acção agitatória e conducente à Guerra dos Camponeses – anunciada em textos tão importantes como O Sermão aos Príncipes (em 13 de Junho de 1524 no castelo de Allstedt), as reivindicações expressas na Magna Carta do Campesinato (Março de 1525, e que parece estar sendo reescrita precisamente nestes nossos dias!) e o manifesto Aos de Allstedt, nas vésperas da batalha (1525) –, a figura criada por Llansol irá sendo progressivamente temperada, ao longo dos dois primeiros livros da trilogia, por outras figuras que a ela se juntam «no barco de que não sairá a não ser para os campos de Frankenhausen», e que os conduzirá a um dos herdeiros futuros, Nietzsche, e, noutro livro, à loucura colectiva do reino dos Anabaptistas de Münster e à experiência paralela do «amor ímpar» (na leitura de Llansol, aliás, com um perfil bem diferente do de José Saramago na peça In nomine Dei, que trata a mesma matéria).

 

Há agora tempo para pensar o sentido da história, não apenas pelas vias mais estreitas da espada ou da alma, mas segundo o espírito da restante vida, que abarca toda a existência. Encontram-se aqui, no lugar em que o sonho diurno vem ocupar o lugar do ainda-não-consumado da história, três caminhos e três projectos afins: o de Thomas Müntzer, o de Ernst Bloch (que o leu e iluminou num livro que Llansol também leu e sublinhou) e o da própria Maria Gabriela Llansol. O livro de Bloch — Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução, publicado já em 1921, na época do seu Espírito da Utopia — abre com uma «Advertência ao leitor» onde se lê uma frase que, à primeira vista, causa alguma perplexidade: «Müntzer situa-se antes de toda a história, no sentido fecundo do termo». O que Bloch quer dizer, e reiteradamente afirma também noutros livros, em particular no mais tardio O Princípio Esperança, é que a obra e a acção de Müntzer assinalam um caminho a percorrer, que, apesar de esse caminho ter sido «barrado» (o termo é de Llansol), ele continua aí, na sua longa viagem, de cabeça debaixo do braço. E que a história pode ter uma validade que não se perde, compreendida como acção prolongada de visões revolucionárias e redentoras como a de Müntzer. Mas o que pode ser ainda mais significativo para a compreensão do lugar deste exemplo paradigmático na visão llansoliana da história é a utilização por Bloch, neste livro, de um conceito caro a Llansol, e que explica o que de mais essencial encontramos na viagem da sua escrita pelos domínios soterrados da história da cultura europeia e alemã: a noção de sobreimpressão. Ela serve a Bloch para explicar como todos os «vencidos», também Müntzer, para além de virem de antes da história (antes de ser já o eram, porque houve outros da mesma linhagem), se situam, por sobreimpressão, para além da história e das suas contingências, porque todo o tempo, como também Llansol bem sabia, é um tempo múltiplo (coisa hoje claramente esquecida, num tempo de vivências ocas do instante, em «tempo real»!). 

E assim Thomas Müntzer se insere na cadeia dos «póstumos» – como de si próprio disse também Nietzsche, como podemos também dizer de Maria Gabriela Llansol. 

Link para ver video apresentado na sessão:

https://vimeo.com/909683796


29.1.24

 CICLO «A RESTANTE VIDA»

2: THOMAS MÜNTZER


No próximo sábado, dia 3 de Fevereiro, pelas 16h, damos continuidade às sessões sobre o tema da «Restante Vida» na Obra de Llansol, agora com destaque para a figura de Thomas Müntzer, o «teólogo da revolução» na época da Reforma e da Guerra dos Camponeses, que atravessa toda a primeira trilogia, a «Geografia de Rebeldes».


Com comentários de João Barrento, a projecção de um video (ca. de 20 minutos) sobre a figura e o envolvimento histórico da Guerra dos Camponeses, exposição de materiais sobre o tema e o habitual caderno, com textos de Llansol e Müntzer e ilustrações provenientes do grande «ciclorama» do Panorama-Museum de Bad-Frankenhausen, o lugar da batalha decisiva da Guerra dos Camponeses.

25.1.24

 AS NÃO-ESCOLAS DE LLANSOL

O JL desta semana (24 de Janeiro) traz no Suplemento «Educação» um elucidativo artigo de Maria Emília Brederode Santos sobre a experiência singular das duas escolas (a escola da Rua de Namur e a La Maison) criadas e mantidas por Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim durante quase uma década do exílio na Bélgica, já documentadas no livro da nossa colecção «Rio da Escrita» A Escola dos Contra-grupos-Uma nova geografia pedagógica e social (de 2019).

 O LIVRO DAS COMUNIDADES EM DESTAQUE


Na próxima terça-feira, 30 de Janeiro, pelas 18h, o crítico António Guerreiro falará de dois livros da sua vida, O Livro das Comunidades, de M. G. Llansol e Finisterra, de Carlos de Oliveira. Na Livraria Linha de Sombra, da Cinemateca Portuguesa (Rua Barata Salgueiro, 39), integrado no ciclo «Que livros levarei para Pasárgada?».

8.1.24

 A VIDA RESTANTE E O RESTO ACTUANTE

Varda-Llansol: As respigadoras


Da sessão do sábado, Dia-de-Reis, com o filme Os Respigadores e a Respigadora, de Agnès Varda, que abriu o ciclo que continuará por mais duas sessões, o resumo da apresentação de João Barrento:

Que significa este conceito de Restante Vida, que deu título ao segundo volume da Trilogia «Geografia de Rebeldes» (mas já aparece bem definido antes, no prólogo de A. Borges a O Livro as Comunidades)? Aí lemos já a frase lapidar: «Este livro é a história da Tradição [sobretudo a dos esquecidos, incompreendidos, perseguidos, no fluxo da História] segundo o espírito da Restante Vida» — ou seja, não segundo a «trama da existência», o que significa que as figuras destes livros seguem o espírito de uma vida outra, não a imposta pelos poderes: são «mutantes», «fora-de-série», «acentrados» (corpo e pensamento actuantes, no caso de um revolucionário como Thomas Müntzer, pobre e puro; corpo capaz de olhar e reconhecer a beleza dos restos, em Llansol ou Varda; corpo disponível para o «Amor completo», como o de Hadewijch e outras beguinas). E ainda: é escrevendo, e escrevendo à margem de normas e modelos dominantes que se pode captar «a densidade da Restante Vida», que aqui corresponde a outra forma de corpo. E isto será decisivo para toda esta Obra, que nasce de «um corp' a 'screver», e não de um qualquer programa conceptual ou da simples vontade de narrar.

Já no posfácio a A Restante Vida, o «livro da batalha» (de Frankenhausen, nas Guerras dos Camponeses), a noção se aplica essencialmente a duas figuras maiores: Müntzer, o Pobre e sobrevivente da batalha (apesar de ter sido decapitado), e Hadewijch, na qual a Restante Vida é essencialmente a da «força amativa» do «Amor completo».

Neste livro, torna-se particularmente evidente a ligação entre a restante vida e os restos (que nos interessa agora, para o filme de A. Varda). Resto será agora tudo o que ainda ficou da História e continua a actuar (é assim que o Pobre não é mero resto morto, mas também arquétipo, ou seja, referência que permanece). A Maria Gabriela definiria, na discussão do filme de Varda em 2005, a «Restante Vida» precisamente como «o resto que tem a potência de agir e que é, no âmago, uma força». Agora, o sobrevivente da História, o Pobre, é aquele que tem «a faculdade de criação de dentro» (no fora, no social, ele é ninguém). A sua «regra», que lhe permite abrir outros horizontes, é agora a do «desmunir» ou da «despossessão». A. Borges conclui: «É no exílio, no fora de fora, que a rede de figuras... se instala para a recepção do mito da Restante Vida».

A figura do Pobre, central aqui, terá ainda outros nomes no pensamento e na escrita de Llansol. Num ensaio sobre o místico catalão Raimundo Lull, afirma-se: «Parece haver dois mundos – o Mundo e a Restante Vida. Irredutíveis entre si, inimigos um do outro, temendo-se». Agora, ao Príncipe opõe-se a figura do eremita, aquele que escolheu também viver à margem.

A importância desta noção na Obra de Llansol é facilmente compreensível se pensarmos no facto de esta Obra pôr em cena «figuras», e não personagens. É inevitável para a figura – ser mutável que vive no e do Aberto – ter de viver no espaço de uma qualquer «restante vida», «estimulando o desenvolvimento das capacidades humanas e desestruturando a realidade hiper-estruturada» (Llansol, 3 de Dezembro de 2005). A restante vida e a figura fogem também à fixação numa «forma», tal como alguma arte dos restos, que o filme também mostra; a «paisagem» (não o «território» dos poderes instituídos) da figura e do espaço da restante vida são des-hierarquizados, contrariando assim a forma mais habitual do mundo; a História provou ser o «eterno retorno do mesmo» – a figura e a restante vida propiciam o «eterno retorno do mútuo» (não numa qualquer sociedade, mas numa comunidade livre)...




Os Respigadores e a Respigadora

(A Restante Vida no filme)

 

O filme de A. Varda é um exemplo acabado da dependência da noção de uma vida restante em relação a um resto actuante.

vida restante é aquela que é possível (ou se impõe a alguns) como aquilo que resta da / na sociedade do desperdício (que é o seu reverso), mum mundo cego para o mundo, que acumula, não restos produtivos, mas resíduos fatais.

resto actuante, por seu lado, é aquele que actua transformando-se (em alimento, em fonte de uma outra beleza, na arte e na escrita) e transformando a vida de quem dá por ele – o olhar é essencial nesta descoberta! – e o recolhe, dando uso ao não-uso.

O filme (e Maria Gabriela) pergunta: como se vive com os restos, para além da necessidade (imposta) de con-viver com o refugo do consumo? O que o mundo rejeita (ou não vê), o Texto e o filme aproveitam, e convertem em beleza, ou fonte de vida, ou sinal e aviso...

Daqui se conclui que há uma «vibração dos restos», que em Llansol está presente no exemplo (em Parasceve) dos cacos postos junto de uma árvore, ou também dos cacos simplesmente, do seu «pregueamento», visto como uma forma outra de beleza, para lá da simetria convencional: estamos perante uma forma de «mais-paisagem» (também própria dos restos e da restante vida), que prova, como diz Adorno na Teoria Estética, que «a arte não é higiénica». O mesmo se passa com os objectos aparentemente inúteis, não actuantes, que Llansol põe a vibrar num livro como Um Beijo Dado Mais Tarde, onde fala também de uma «arte dos restos», que vai além do uso imediato do respigo, rural e urbano, que o filme também mostra, e muita arte do século XX praticou, desde o Dadaísmo, e até à «arte bruta» e à pop.

As duas criadoras deste «encontro inesperado do diverso» entre texto e filme, tendem a valorizar os restos, cada uma à sua maneira. 

1) Em Llansol podemos dizer que há uma escrita dos restos:

– restos fracassados da História (os esquecidos), que é «o nó de que desfiei o Texto»: beguinas, místicos, visionários, rebeldes;

– os restos dos dias: o que não se vê, a não ser «em dobra»: figuras marginais, residuais, sejam elas pessoas, animais, árvores ou objectos...;

– restos de escrita (os que «se revoltam», como um dia nos sugeriu, pouco antes de morrer!); todos os livros nascem desse depósito-berço que são os fragmentos dos Cadernos. (e os muitos papéis avulsos), onde, como sabemos hoje melhor, ficaram muitos restos valiosos – «restos conceptuais altamente condensados», ou «ruídos de beleza, fulgurâncias» (Augusto Joaquim, no posfácio a Um Falcão no Punho).

2) O filme de Varda mostra a dialéctica paradoxal dos restos: há o que se aproveita e se consome, desaparece, não deixa resto nem rasto (a não ser ainda algum lixo); e há os restos rejeitados que permanecem, se transformam, são úteis, geram beleza. A sua lei (tal como a das figuras do Texto) é a da metamorfose, não do desaparecimento (sobretudo na arte dos restos – ou no que poderia ser uma sociedade da plena reciclagem).

Agnès Varda é a respigadora de imagens, descobridora, pelo olhar, daquilo que o mundo rejeita ou não vê — e aqueles restos estavam à espera deste olhar (que conhecemos também de um outro filme, que também já mostrámos, Olhares, Lugares).

O mesmo acontece com a escrita de Llansol, toda ela imagética, visual, e feita do que a ortodoxia literária não quer usar, nem ver. Aqui, como lemos em Lisboaleipzig 1, até «a morte não se limita a guardar os restos. No outro lado, no não-ver, nas nossas costas, está esculpido outro mundo». É o fascínio de uma qualquer «outridade» mais humana nesta escrita, onde o que que fica são «restos indecifráveis de uma atracção irrecusável» (lemos em A Restante Vida).

Afinal, «todos nós temos os nossos restos à mão» (Finita) – é só estendê-la e dar-lhes uso. Ou não-uso, como reconhece a mulher de Parasceve: e daí nasce «qualquer coisa superior à beleza», uma beleza-outra, uma «mais-paisagem» que pode fazer mudar de vida, numa espécie de suspensão do tempo do mundo!



3.1.24

 CICLO «A RESTANTE VIDA»

(Janeiro-Março de 2024)

Acompanhando a temática do Curso «Modos de ler Llansol», que decorre até Junho, centrado na «Geografia de Rebeldes», a primeira trilogia llansoliana, e as suas figuras, dedicamos as nossas sessões públicas deste primeiro trimestre do ano à ideia aí presente, tão ausente e tão necessária hoje, de uma «Restante Vida» à margem dos poderes e da vanidade do mundo. O conceito é explicitado logo no Prólogo que abre a primeira trilogia, deixando claro o sentido de toda uma Obra: «Este livro é a história da Tradição [sobretudo a dos esquecidos, incompreendidos, perseguidos, no fluxo da História], segundo o espírito da Restante Vida».


O ciclo abre  – no sábado 6 de Janeiro, pels 16 horas – com a apresentação do filme de Agnès Varda Os Respigadores e a Respigadora (e a problemática dos «restos», que ouviremos comentada por Llansol em gravações de 2005), e segue com o tratamento de duas figuras dos seus primeiros livros, pouco conhecidas entre nós: o revolucionário da Reforma e da Guerra dos Camponeses Thomas Müntzer (1489-1525) e a beguina-poeta do século XIII  Hadewijch de Antuérpia.

O filme de Varda é um bom exemplo da ideia llansoliana (comentada pela própria Autora na gravação que ouviremos) dos «restos actuantes» que possibilitam essa vida-outra na sociedade do desperdício, num mundo cego para o mundo que acumula, não restos produtivos, mas resíduos fatais.

1.1.24

 O NOVO ANO



4.12.23

 MANUEL GUSMÃO E LLANSOL:

A PARTILHA GENEROSA

Deixamos aqui o essencial da evocação, feita por João Barrento no passado sábado, focando a convivência de Manuel Gusmão, ao longo de várias décadas, com o Texto de Maria Gabriela Llansol, e também a sua própria poesia, lida na sessão por Diogo Dória e Marta Chaves.



O título que demos a esta sessão – «A partilha generosa» – remete-nos para uma ligação de décadas que foi a de Manuel Gusmão com a Obra de Maria Gabriela Llansol. Estávamos em 1991, o ano em que foi atribuído pela primeira vez o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores a um livro de Llansol (Um Beijo Dado Mais Tarde). O Manuel Gusmão fazia parte do Júri, e o título do seu parecer (na altura eram publicados pelo JL) é precisamente «Partilha generosa do que é misterioso». Lendo hoje esse texto, percebemos que se trata de um testemunho inteligente que se apercebe desde logo de algumas das características essenciais, e únicas, desta escrita:

1) que qualquer livro é neste caso «um livro múltiplo» (constituindo todos eles um livro único, «um fragmento completo», como dirá a Autora);

2) que há nesta Obra uma clara ponte entre vida e escrita, que no entanto não cai na «mediocridade da autobiografia»;

3) que existe uma relação singular entre o gesto de escrever e um acto de leitura que «nunca chega ao fim de um livro», um modo de «escreler», diz Llansol, que Manuel Gusmão traduz numa frase que é todo um programa: «É no entre que este livro [Um Beijo Dado Mais Tarde] é legível». Querendo significar que é só nesse pacto entre escrevente e legente, e na multiplicação das leituras, que qualquer livro de Llansol se realiza plenamente. Esta ideia reapareceria na crítica de Gusmão sobre o último livro de Maria Gabriela Llansol, Os Cantores de Leitura; aí lemos que «este livro [...] é um fragmento de um universo que nos interpela, e de alguma forma nos inclui, na medida em que consigamos encontrar nele o nosso lugar» (Público, 14 de Março de 2008). Uma vez mais, na medida em que consigamos responder ao apelo do «Quem me chama?».

E a leitura, por Manuel Gusmão, do livro premiado em 1991, que inaugura uma nova fase na Obra de Llansol, a de uma «ordem figural do quotidiano», termina com a constatação de que «este texto é o operar de uma justiça que nos é feita: a da partilha do esplendor, da fulguração de uma língua...». Para que lhe seja feita «justiça», o livro tem neste caso de ser, não apenas partilhado, mas também completado pelo leitor.

4) Mais tarde, nas primeiras Jornadas que fizemos em 2009 em Sintra, a partir do tópico llansoliano «Nada ainda modificou o mundo» — penso na actualidade, neste momento, desta ideia que está na base do «projecto do humano» que sustenta toda uma Obra como a desta escrevente! –, a partir dessa ideia-chave o Manuel iria enveredar por um caminho que o levaria, em múltiplas variantes, a desenvolver aquele que seria o seu grande tema nos vários momentos em que comenta esta Obra: aquilo a que ele chama «a reconfiguração do humano». Uma perspectiva que não podemos deixar de associar às suas convicções políticas e à sua crença na poesia, na escrita em geral, como uma forma de resistência a esse mundo sempre igual nas suas desigualdades. Estamos sempre a necessitar de novas leituras da História — e vamos sempre dar à gritante imposição do poder arbitrário dos Príncipes sobre a Restante Vida e os «pobres» dessa História, os «sobreviventes», «a imagem da parte perdida da batalha» sem fim – de facto, «nada ainda modificou o mundo»!

Este é um filão a que se tem dado relativamente pouca atenção na Obra de Maria Gabriela Llansol: uma leitura política, com essa problemática do humano e da leitura da História no centro e, implicitamente, a de uma releitura alternativa da noção de comunidade, demarcando-a das noções mais correntes de «sociedade», de um «gregarismo» superficial, e que o Manuel Gusmão designa de «comunidades transtemporais do Vivo».

 

Não gostaria de ser eu a comentar ou interpretar este tema de fundo que constitui o fio condutor das intervenções do Manuel Gusmão a propósito da Obra de Llansol. Por isso vos lerei apenas algumas passagens de intervenções suas em dois dos nossos livros que documentam as Jornadas Llansolianas (em 2009 e 2018).

Do primeiro, Nada ainda modificou o mundo...:


Nas várias vezes que me tenho encontrado a escrever sobre ou com textos de Maria Gabriela Llansol, foi-se-me construindo um horizonte de leitura, em que o seu texto tende a aparece-me como uma acção de reconfiguração do humano. [...] A reconfiguração do humano começa pela afirmação de uma ignorância ou de uma recusa das suas definições estabelecidas ou dos seus retratos oficiais. A afirmação dessa ignorância é o gesto inaugural de uma reconfiguração que não deseja a sua imobilização numa definição, numa norma ou numa lei. [...] A escrita que reconfigura o humano responde a esse fulgor que se apaga e acende nas coisas; não se trata apenas de mudar as representações, o sistema de crenças, as formas do pensamento. Trata-se de mudar os sentidos, a percepção e a sensibilidade; trata-se de ver e de tocar de outra maneira e outras coisas, coisas não-coisas. [...] O texto Llansol é intensamente estranho, até na medida que é intensamente novo; nem poderia ser de outra forma, se o que está em jogo é, entre outras coisas, a reconfiguração em aberto do humano. Ele escreve-se à margem daquilo a que chama o realismo. [...] Para levar a cabo esses procedimentos, Maria Gabriela Llansol tem de se colocar como se estivesse na situação-de Rimbaud. Também ela sente a necessidade de encontrar uma língua... Quem quer reiventar o humano tem de forjar ou dotar-se de uma língua nova, de uma língua em estado de nascimento... [...] As populações e as suas formas de vida que habitam os espaçostempos das obras de Maria Gabriela Llansol, constituem comunidades transtemporais do vivo. Comunidades diz a característica essencial das formas de vida dessas populações: vivem em comunidades. E se uso o plural é porque há mais de uma só comunidade, e elas podem ser internamente plurais ou heterogéneas. Transtemporais diz outra característica fundamental que é a possibilidade de convivência e de reunião num lugar ou num tempo constelado, de personagens que nunca se encontraram na história cronológica e que nos casos extremos vêm de tempos muito diferentes. [...] O que significa o carácter transtemporal, irredutível à linearidade cronológica, das comunidades? Que regime da historicidade aí se manifesta? Porque têm de ser emendadas as figuras, que batem às portas do mundo e se pretende que regressem? Agregada à falta de uma íntima associação entre liberdade de consciência e dom poético, constitui-se então um outro projecto que é o da reconfiguração aberta do humano. A comunicação entre as espécies do vivo, os reinos do orgânico e o não-orgânico, o construído e/ou o imaginado, abrem o humano a outras qualidades.


No segundo texto, que regressa a este tema nove anos depois, nas Jornadas em que vários escritores deram o seu testemunho da leitura de Llansol – «Eu leio assim este Texto». Escritores lêem Llansol –, o Manuel Gusmão juntou duas escritoras da sua predilecção, Maria Gabriela Llansol e Maria Teresa Horta:


Um dos focos do meu fascínio pela escrita de Llansol, é o modo como ela impõe à leitura movimentos que não só são os traços de uma sua idiossincrasia estilística mas que representam um caminho para a partilha das posições do leitor em contacto com a sua actividade e a caminho da sua verdade de leitor.

A nomeação desse foco será hoje e aqui o carácter político do texto de Llansol. Sei que esta decisão minha poderá chocar num periodo em que a palavra política parece aceitar uma desenfredada mistificação. Não tenho qualquer dúvida, entretanto, que a leitura de Llansol põe em jogo uma escuta política que se torna imperiosa em alguns dos seus textos maiores. A frase que escolhi para o meu título, entretanto, não sendo de Llansol – «Certas questões devem pôr-se à beira-Ebro ou no rio que assedia Münster» –, é de uma outra escritora portuguesa que, desta maneira, presta a sua homenagem à Maria Gabriela Llansol. Esta escritora é Maria Velho da Costa. [...]

A visão utópica de Llansol leva a propôr ver a história da Europa como um longo combate nascido de uma incompatibilidade radical e insanável entre o mundo dos príncipes e o das gentes ou dos rebeldes. A circulação e o caminho da escrita de Llansol são-nos propostos como a partilha de um dos bens da Terra que, quanto a ela, são cinco: «O conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver»  [...] O mundo textual de Llansol é o mundo do vivo. A escrita não imagina. A escrita é o que a figura vê, é o que fica depositado nos que a lêem  a nostalgia inexpugnável dos seres que estão por vir...

 

Nestas Jornadas de 2018, numa altura em que o Manuel já tinha alguma dificuldade em ler, emprestei-lhe a minha voz, e com isso dei mais um passo no sentido de uma proximidade e de uma admiração mútua que já vem dos anos oitenta na Faculdade de Letras, quando, em 1983, sabendo da sua tese sobre os fragmentos do Fausto de Fernando Pessoa (que haveria de ser publicada na Editorial Caminho em 1986: O Poema Impossível - O Fausto de Fernando Pessoa), lhe pedi colaboração para um volume que organizei sobre Fausto na Literatura Europeia, editado pela Cooperativa Editorial Apáginastantas, que criei nesses anos.

Começou aí uma relação que mais tarde se iria apofundar por duas vias: a da poesia de Manuel Gusmão, que acompanhei e comentei desde os primeiros livros até ao Pequeno Tratado das Figuras (de 2013) e A Foz em Delta (de 2018), na minha própria escrita sobre a poesia portuguesa contemporânea, nos encontros do «Jornal Falado da Actualidade Literária», que organizávamos no PEN Clube Português, nos balanços literários da revista Vértice ou em diálogos com o Manuel, como o da Feira do Livro do Porto em 2001, sobre esse livro marcante que é Teatros do Tempo.

Um segundo caminho foi o da sua participação nos Encontros do GELL-Grupo de Estudos Llansolianos, ainda com a presença da Maria Gabriela (que co-organizei entre 2001 e 2006), e depois no Espaço Llansol, não apenas com os seus comentários recorrentes do Texto llansoliano (de que já dei uma ideia), mas também activamente, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral desta casa desde a sua fundação.

 


Gostaria ainda de vos deixar, antes de ouvirmos poemas do Manuel Gusmão lidos pelo Diogo e pela Marta, alguns apontamentos, uma breve síntese, da minha leitura desta poesia, a um tempo tão humana, interventiva e poeticamente rigorosa e sensível.

A poesia de Manuel Gusmão é um exemplo singular, quase paradoxal, de um discurso à primeira vista resistente à leitura, pura organização mental, de «uma mão que escreve na mente», como ele próprio reconhece, e ao mesmo tempo atravessada permanentemente por núcleos da mais límpida e fulgurante intensidade lírica. Por exemplo em Pequeno Tratado das Figuras, quando nos surpreende com a inflexão para uma escola miniatural do olhar, inspirada em desenhos de Jorge Vieira, para «a pintura corpo a corpo», título de uma secção do livro, ou para o inesperado tema da natureza («Da linguagem das árvores e do vento»).

A construção do poema contínuo e único faz-se, também aqui, não apenas no mesmo livro, mas de livro para livro: é de tempos, de mapas, de arquitecturas poéticas, do mundo e dos seus teatros de acção e pensamento que se fala nestes livros. Elabora-se uma cartografia de tempos sobrepostos que passam de livro para livro: a escrita regista, em palimpsesto, passados muito vivos que se reinscrevem sobre um presente apagado, e também tempos do Eu que acorrem ao apelo de tempos do Nós – «como se no tempo se pudesse outra vez fazer / o nascimento outro: os imemoriáveis da alegria».

Dedicatórias de Manuel Gusmão a Llansol – com os comentários da escrevente, a lápis

Nestes «teatros do tempo» e do mundo em que se é actor de acasos num tempo vivido como descontínuo, há lugar, na poesia de M. Gusmão, para os tempos da terra e da casa, entre equinócios e solstícios, entre o amor, os livros, a doença; e também para os tempos da História e do grande mundo. E, contra todas as expectativas face ao estado desse mundo, quando o poema faz convergir esses «tempos constelados», nasce nele a alegria da visão, aquela «difícil fidelidade à alegria» que o poeta refere na dedicatória de Migrações do Fogo a Maria Gabriela, em 2004, e que esta comenta na mesma página, a lápis, com a anotação: «[alegria] que é o reverso, ou a dobra, de uma dor». Mas, na sua solidão radical, o poema não clama no deserto: o poema chama para que alguém acorra, e «o mundo não cessa de vir ao lugar do encontro». Podemos, assim, perceber melhor como a poesia de Manuel Gusmão, sem cedências na sua exigência de rigor construtivo, sem hesitações ao convocar toda uma vasta herança literária que dela faz uma poesia «erudita» muito particular (que não ostenta a intertextualidade, mas assimila e integra de forma criativa o texto do outro), faz nascer o júbilo do fundo de uma crença última, que pode vir de Rimbaud ou Hölderlin, de Carlos de Oliveira ou de Fiama e passar por Wittgenstein, Benjamin ou Llansol: a crença de que a coisa estética é indissociável de uma ética e mesmo de uma forma de conhecimento própria do poema. Só assim o poema se pode transformar, como acontece aqui, no lugar da vita nuova que traz «a promessa  a esperança  a alegria justa // a perfeição das coisas  o mundo inacabado», como se lê num dos poemas que iremos ouvir. Mas sem ilusões: as três Graças confundem-se frequentemente com as três Parcas, e o poema, sendo a «promessa justa», nada pode garantir. A não ser – o que não é pouco, e constitui todo um programa – servir de abrigo àquela «insustentável perfeição das coisas», como uma «ruína inacabada» a dominar a «devastadora beleza do mundo». 

Estas e outras imagens, de esperança, apesar de tudo, «contra todas as evidências em contrário», irão ecoar na leitura de poemas que o Diogo e a Marta farão já a seguir.


(J. B.)

28.11.23

LLANSOL E O «EXÍLIO INTERIOR» DE COLARES

No ciclo de conversas «As primeiras segundas», do Espaço Cultural «O FORNO», em Rio de Mouro, João Barrento falará na próxima segunda-feira, 4 de Dezembro, pelas 21h30, com os responsáveis por esse Espaço e pelo Teatro Musgo, Jaime Rocha (dramaturgista e dramaturgo residente) e Paulo Campos dos Reis (encenador e actor), sobre os «lugares» de Maria Gabriela Llansol em Colares (a Casa-o Pinhal-o Mar), a partir do último Livro de Horas, Um Conjunto de Espirais, que abarca os cinco primeiros anos depois do regresso do exílio (1985-1990). Será passado um video que mostra esses lugares, e lidos textos provenientes desse novo livro de inéditos.

(O «Forno» fica na Av. Pedro Nunes, 9 - Rio de Mouro: IC19 --> saída nº 11, Rio de Mouro/Rinchoa.       A entrada é livre).