14.1.19

«SEGUINDO O OLHAR»
com Agnès Varda e Llansol

No próximo dia 26 de Janeiro, pela 16 horas, teremos mais um «encontro improvável» na Casa de Julho e Agosto, com a projecção do recente filme de Angès Varda (e do fotógrafo JR), Olhares, Lugares.
O improvável da ligação deixa de o ser quando pensamos na importância do olhar na escrita de M. G. Llansol e no sentido particular que o termo «lugar» nela adquire. A originalidade do filme está nessa partilha de olhares e busca de lugares. Llansol escreveu um dia, parecendo estar a comentar este filme: «Para ficar com o ver, partiram e repartiram o olhar».
De tudo isto e muito mais se falará depois da projecção do filme. E Llansol estará presente, para quem a quiser levar consigo, num desdobrável com textos seus sobre a temática do olhar.

13.1.19

A FOYLES ESCOLHE LLANSOL

Uma das mais antigas e célebres cadeias de livrarias inglesas, a Foyles for Books (com a sua mítica loja de Charing Cross Road, em Londres) escolheu a tradução americana de Geografia de Rebeldes para lhe dar destaque na sua secção de ficção. Assim:

31.12.18

MODOS DE LER LLANSOL


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Para corresponder ao interesse manifestado por várias pessoas, no sentido de que o Espaço Llansol, além das sessões habituais, organize um «curso livre» para ler e pensar o texto de Maria Gabriela Llansol, resolvemos ir ao encontro desse desejo e iniciar a partir de Janeiro de 2019, com um pequeno grupo de 15/20 pessoas, o primeiro curso «Modos de Ler Llansol» (orientado por Maria Etelvina Santos). O objectivo é o de iluminar o texto llansoliano, tanto para leitores já familiarizados com ele como para aqueles que desejem iniciar a sua leitura – portanto, concebido como troca de saberes, sem hierarquias, e fundado no respeito pela palavra, na vontade de conhecer, na procura do júbilo e na alegria da leitura. 
Embora o grupo inicial já se encontre neste momento completo, estamos abertos a futuras inscrições, caso alguns de vós manifestem interesse e disponibilidade.
As sessões decorrem de Janeiro a Junho, duas vezes por mês, num total de 12 sessões / 24 horas.

26.12.18

NA LINHA DO TEMPO...



17.12.18

«O LIVRO DOS DIAS», ou «O LIVRO DE TODO-O-SABER»
O Almanaque Llansol e a tradição dos almanaques

Apresentámos no passado sábado a mais recente edição do Espaço Llansol, Os Rostos do Tempo. Almanaque Llansol, situando-o na já longa e diversa tradição desta forma de livro no Ocidente e no mundo árabe, entre o sapiencial, o prático e o poético. Disso nos falou a Profª Vanda Anastácio, que percorreu a história do Almanaque, desde as suas origens até este nosso novo exemplo llansoliano, abordando aspectos tão variados como a problemática editorial dos almanaques depois da invenção da imprensa, as estratégias de relação com os públicos ao longo do tempo, as orientações dos almanaques, mais práticas, mais científicas ou mesmo ideológicas e de classe, e a sua orientação mais literária a partir do século XVIII, como receptáculo de toda a espécie de literatura, com o aparecimento dos chamados «Almanaques das Musas», que, oriundos de França, depressa foram acolhidos na Alemanha ou na Holanda, e marcaram também presença no século XIX português. É exactamente de finais deste século, de 1896, um dos textos canónicos sobre o almanaque, esse «livro de todo-o-saber», a introdução ao Almanaque Encyclopédico desse ano por Eça de Queirós, a que a Profª Vanda Anastácio deu significativo destaque, lendo algumas páginas memoráveis dessa bela peça de prosa de Eça.
João Barrento com a Profª Vanda Anastácio




O público participou desta vez activamente, e não apenas com algumas questões pertinentes que surgiram e levaram a nossa convidada a falar das diversas formas de publicações que podemos encarar como «livros dos dias» – o almanaque (o perpétuo ou o anual), a agenda, o anuário, o diário...
As habituais leituras de textos de Maria Gabriela Llansol, desta vez centrados na temática do tempo, não foram feitas por actores ou actrizes, mas pelo próprio público, a partir de faixas com fragmentos das obras de Llansol sorteados aleatoriamente, e que transcrevemos a seguir para quem não os pôde ouvir. A sequência de quarenta fragmentos permite vislumbrar sucintamente os muitos rostos que o tempo assume nesta escrita: do tempo dos dias ao da História ou do Ser, do instante vivido ao passado recuperado ou ao futuro vislumbrado, do tempo da vida ao tempo da morte... Esta viagem pelos fragmentos lidos permitiu-nos, como Llansol escreve numa das suas agendas, vivenciar uma «participação mental na elasticidade física do tempo». Também o Almanaque Llansol que apresentámos propicia, de uma forma mais alargada, e ao longo de todo o ano, uma tal viagem pelos tempos – os da Autora ou os de qualquer um dos seus leitores.





Llansol sobre o tempo: fragmentos lidos

15.12.18

ALL'OMBRA DEL CHIARO DI LUNA
Uma Antologia llansoliana em Itália

Acaba de sair em italiano a antologia de textos de Maria Gabriela Llansol All'ombra del chiaro di luna, com chancela das edições Pagine d'arte (www.paginedarte.ch), numa coleccção nova («Fiammiferi» = Fósforos) recentemente inaugurada. A selecção foi feita por João Barrento, que também assina a nota final («Il frammento completo»), a tradução é da escritora italiana Paola d'Agostini, que há anos vive em Lisboa, e o livro traz ainda uma introdução do poeta Flavio Ermini (intitulada «Il giorno presente»).
[O índice da antologia]

3.12.18

O ALMANAQUE LLANSOL


O tempo – os tempos, do instante mais breve e intenso ao grande tempo da História e do Ser – assume um lugar muito particular na Obra de Maria Gabriela Llansol. E também a reflexão sobre o nosso estar aqui, sobre os significados do insignificante, sobre a própria escrita, constitui algo de intrinsecamente presente em qualquer página desta autora. Estas duas vertentes, e tantas outras desta escrita sem limites, vêm ter connosco a cada dia deste «Livro dos dias» que é o almanaque Llansol que acabámos de organizar em edição portuguesa, com a nossa amiga austríaca Ilse Pollack, que o preparou há poucos anos para a edição alemã, e que apresentaremos no dia 15 de Dezembro, às 16 horas, no Espaço Llansol, com a participação da Profª Vanda Anastácio, que nos falará da história dos almanaques em Portugal.

Os Rostos do Tempo é um almanaque perpétuo, insere-se numa tradição do almanaque que entre nós vem do século XIV e que teve como pontos altos, entre outros, o Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto (1496) ou o Almanaque Enciclopédico de 1896, com um histórico prefácio de Eça de Queiroz, e chega até ao conhecido Borda d'Água.
«Os almanaques são geralmente feitos de provérbios, ditos, máximas, pelos quais nos orientamos, ou que nos desafiam a contradizê-los; e isso acontece também com este. Com a diferença de que neste caso eles estão intimamente ligados aos lugares de vida e de escrita da autora: Lisboa ou o «não-lugar» de Herbais, Bruges, lugar de beguinas, ou Alpedrinha, lugar da infância, para apenas mencionar alguns. E neste contexto surgem também as figuras, nomes conhecidos e desconhecidos da História que são reinventados nos textos de Llansol, acolhidos em vários livros onde formam constelações, numa coexistência que supera todas as barreiras de tempo e de espaço.
E tudo isto entrecortado por reflexões sobre a escrita, leituras e gostos pessoais, os animais da casa, sobretudo os gatos, e, enfim, também algumas afinidades especificamente «femininas», muito embora o texto, para esta autora, não tenha sexo.» (Ilse Pollack, da Introdução ao Almanaque Llansol).

 «Do tempo da História ao tempo do Há, atravessando o amplo mosaico dos tempos do quotidiano, o percurso de Llansol parece desenvolver-se em três momentos determinantes e não estanques: 1) o de um tempo-arquivo de visões alternativas da História, que logo ganha forma de memória do humano em tensão com a trama dos poderes, passando por 2) um tempo-do-presente, da imanência do acontecer e do dessassossego da busca de uma existência sem memória, até 3) ao tempo fora do tempo, tempo do Há, da grande melodia do Ser.» (João Barrento, da Introdução).

25.11.18

EVOCAR, «DAR UM LUGAR»
Llansol, entre Hölderlin e Spinoza

Foi assim a dupla evocação de ontem na Casa de Julho e Agosto: de Maria Gabriela e do seu filósofo maior, Spinoza/Bento/Baruch, ambos nascidos a 24 de Novembro, sob o olhar atento de Hölderlin e do seu «ritmo poético fugindo», como sobre ele escreve Llansol.
 
 Do Caderno, com extratexto, feito para esta sessão

João Barrento traçou o rasto da presença do poeta na Obra de Llansol, e dessas palavras de abertura retemos alguns momentos:
[...]
Llansol anota num dos seus cadernos, em 1985, aludindo ao emergir da loucura mansa e ao lugar do ritmo no poeta alemão: «Quando Hölderlin principiou a encher a testa com a sua loucura nascente, olhava longamente um jardim, sempre deserto (…) Tomava-se a si mesmo por um ritmo poético fugindo
O que poderá ter atraído Maria Gabriela Llansol para uma figura como Hölderlin – para além do caso singular de um poeta singular que passa «metade da vida» à margem do mundo e de si – terá provavelmente a ver com este lugar privilegiado do ritmo na sua poesia e no seu pensamento sobre ela. 
[...]
Quando, com Hölder, de Hölderlin (publicado em 1993, mas presente nos cadernos manuscritos já nos anos oitenta), o grande poeta alemão entra na paisagem textual de Llansol, ganha aí um perfil humano, poético e figural que a pouco e pouco, nos fragmentos ritmados que formam este texto, se vai desenhando entre os pólos da natureza e da escrita, da paixão (nos poemas a Diotima, a amada que inventou o petit nom Hölder, presente no título de Llansol) e do êxtase ou da loucura, que nele parece ser a versão moderna, sublimada e extática, mas ao mesmo tempo contida e controlada, do furor poeticus antigo. Em Llansol, a paisagem-Hölderlin traça-se entre a humanização da figura (por vezes com recurso a imagens muito cruas) e a sua fulgorização numa prosa onde também encontramos uma tensão entre a quase visão e uma linguagem precisa, luminosa, ritmada e ritualizada – o júbilo poético controlado que é a marca inconfundível da grande poesia de Hölderlin.  
[...]
Hölder, de Hölderlin segue o fio da loucura do poeta, que não sabemos bem onde começa, do mesmo modo que temos alguma dificuldade em estabelecer, nos modos de escrita de Llansol, os limites entre o impulso poético da imagem e a entrada na zona da visão ou da alucinação. Aragon aborda subtilmente este movimento, quer de Hölderlin, quer de Llansol, ao sugerir num longo e extraordinário poema intitulado «Hölderlin», que estamos nos limites entre o ser e o não-ser, numa zona entre o real e o possível que em Llansol dá pelo nome de «entresser». Deixo ecoar algumas linhas de Aragon:
É certamente cómodo tudo explicar pela
Loucura – onde começa a loucura?
Orfeu
Esse desce ao incompreensível inferno
Em busca de Eurídice. E tu, Diotima,
Talvez nesses dias sobre os quais nunca saberemos nada
Tu o tivesses seguido até ao fundo do não-ser...
A loucura, onde começa a loucura, Hölderlin?
Sobreviver quarenta e um anos
Talvez isso seja
A loucura...
O inexplicável não é aquilo que a loucura explica...
Para os seus, ele era apenas o pequeno Fritz, e a bem-amada
Chamava-lhe o seu Hölder! Ah,
Se tivéssemos todas as suas cartas,
Então
Já não precisaríamos da loucura...

O que comumente se designa de «loucura» é também para Llansol uma forma de extrema lucidez, a capacidade de, com uma língua nova, «ver o Ser e recitá-lo de novo», como escreveu o poeta Fernando Guerreiro ainda a propósito de Hölderlin. 
E Llansol, num caderno manuscrito de 1999:
«A loucura é um conhecimento esfarrapado e desorganizado – sem eixo nem progressão. Mais novo e mais desconhecido é visto como mais loucura, quando afinal, no texto, mais novo e mais desconhecido é mais lucidez.» [...] 

Exposição de manuscritos de Llansol em torno de Hölderlin

Depois, duas leitoras próximas, quer de Llansol, quer do «poeta da Torre», Cristiana Vasconcelos Rodrigues e Teresa Cadete, deram voz ao breve e intenso texto Hölder, de Hölderlin, que por elas foi lido na íntegra.
 Cristiana V. Rodrigues e Teresa Cadete

E a finalizar a sessão, toda ela concebida sob o signo da leitura, dois vídeos, eles também com textos de Hölderlin e Llansol.
João Barrento mostrou e deu a ouvir a sua leitura do poema «Como em dia de festa...»:
 Imagens do video de João Barrento

E Maria Etelvina Santos passou um filme em memória de Maria Gabriela Llansol, em que integra excertos de Os Cantores de Leitura, e que apresentou com as seguintes palavras:
Imagens do video de Maria Etelvina Santos

E se as nuvens fossem ondas?
exercícios do olhar com voz
            Quando alguém, ao separar-se da vida, pede a um amigo «Dá-me um lugar» (como aprendi com Montaigne), pede a quem ama um lugar na sua memória, como se dissesse ‘torna de novo vivo o meu acto de nascer’.
Evocar é, assim, «dar um lugar». Um lugar nascente, construído dia a dia, e que não existe num qualquer território, pois é o lugar volátil de Mnemósine em nós.
O lugar que, por escolha nossa, decidimos dar a Maria Gabriela Llansol, não é apenas esta casa – esta, ao que parece, podemos dizer que foi ela que nos deu, com todos os seus objectos, plantas, cadernos e livros. O lugar que escolhemos dar-lhe é antes o lugar transformante de Mnemósine, trazendo-a à nossa experiência quotidiana como prática de vida. Com leveza. Simplesmente acontecendo, porque aprendemos com Llansol o seguinte modo de estar no mundo: escolher o caminho do júbilo, e uma ética do belo que seja também uma estética da bondade.
            Fulgor ou verosimilhança?
            E se as nuvens fossem ondas?
         Esta minha oferenda, Maria Gabriela, estes meus «exercícios do olhar com voz», colhidos muitos deles na minha casa pelas manhãs, querem mostrar-te como a Reforma do Entendimento Humano, que Spinoza pôs nas tuas mãos e tu reescreveste n' Os Cantores de Leitura, anda a ser lida por mim. Escolhi o ponto de vista do fulgor e do júbilo, e o desejo de ser figura, procurando deixar, como me ensinaste, o melhor de mim em vestígios reformuláveis, não aceitando como inevitável o mundo em que vivo. Porque ser testemunha obriga-nos a passar testemunho – trazer a nós os «brutos e cândidos animais», e escolher tirar um curso para a vida nos «Estudos Gerais das Árvores». Fulgor ou verosimilhança?
«Somos variações da luz» – disseste. Inclinar o olhar dá-nos a possibilidade de ver diferentemente. A uma outra luz, o Sol pode ser Lós, e a aurora dos diferentes dias estar dentro da Aurora de Nietzsche. Ouço-te a dizer-nos: «quando a onda de leitura bate na rocha, eu tomo o rumo que me leva a entrar no mar enevoado». Do ponto de vista da verosimilhança, o mar enevoado há muito que é triste; do ponto de vista do fulgor, o mar enevoado é uma imagem que me enche de júbilo e alegria.
            E se as ondas fossem nuvens?
24 de Novembro 2018

24.11.18

«É MANHÃ SEM SER MANHÃ...»

Foi há 87 anos, à noite... mas o dia inicial é sempre uma aurora. O dia 24 de Novembro de 1931, aquele em que Maria Gabriela iniciaria o seu périplo pelo tempo e pelo mundo a partir de Campo de Ourique, foi o da sua cena primitiva, ou da cena fulgor primordial.

Evocamo-la com uma página de um dos seus dossiers, de uma série de cartas que intitulou «O elogio do fulgor», um breve fragmento que parece trazer até nós, com uma qualquer luz de aurora, em «alegria imaginária», esse começo, como «alguém que se levanta da imobilidade». Depois, lemos noutro caderno do espólio, como todas as biografias que «navegam, à procura de caminho, eu dispus-me a contrapor a minha energia à superfície do tempo________». E com esse gesto e essa decisão um outro nascimento se iria perfilar, o de toda uma Obra que é ainda um universo em aberto.

14.11.18

DUPLA EVOCAÇÃO

No próximo dia 24 de Novembro, dia do nascimento de Maria Gabriela Llansol, faremos uma dupla evocação: da nossa autora (através de uma breve intervenção e de um video de Maria Etelvina Santos) e de uma das suas figuras mais queridas, que integramos na nossa série «A luz de ler»: o poeta Friedrich Hölderlin. Leremos Hölder, de Hölderlin (pela voz de Cristiana Vasconcelos Rodrigues e de Teresa Cadete), e João Barrento falará da presença do poeta na Obra e no espólio de Llansol, e lerá, num video, o poema de Hölderlin «Como em dia de festa...» em tradução sua.
Haverá ainda um caderno com poemas de Hölderlin e textos de Llansol sobre esta sua figura. E exposição de páginas dos seus cadernos manuscritos sobre o poeta.


(Com esta sessão iniciamos a fase do nosso horário de Inverno, começando às 16 horas!!)