6.7.26

A MEMÓRIA E O SOPRO DA VIDA

Parasceve trans-figurado

Numa tradição que já vem de longe, uma vez mais uma artista plástica cria um conjunto de obras a partir do Texto de Llansol. A lista desta interacção entre palavra e imagem é longa, com nomes como Ilda David', Julião Sarmento, Pedro Proença, Rui Chafes, Duarte Belo, Graça Martins, Juju Bento... E agora, na sesão pública de sábado, a artista brasileira Debora Censi, com duas séries de obras, pintura e desenho.


Debora Censi é um artista visual brasileira (São Paulo) que realizou os trabalhos apresentados (e reproduzidos, com textos de Llansol, no caderno feito para a sessão), inspirados na Obra de Maria Gabriela Llansol, com destaque para o livro Parasceve. Puzzles e ironias, durante a 4ª Residência Artística Taguspark (em Oeiras), entre Janeiro e Abril deste ano. Estas obras dão continuidade a uma prática de pintura sobre papel, centrada na construção de paisagens e arquitecturas inexistentes através de camadas e transparências, num processo de «sobreimpressão» que evoca o conhecido método de escrita de Llansol. Desde 2023 que a literatura integra o seu processo criativo, servindo de ponto de partida para as suas pinturas e desenhos.

João Barrento começou por fazer uma introdução ao livro-fonte destes trabalhos, destacando, no percurso da figura da Mulher que atravessa todo o livro num «processo de individuação» original, o significado das figuras, lugares, objectos e temas/motivos escolhidos pela artista, e que a leitura da actriz Eva Dória no final foi dando a ouvir em fragmentos extraídos do livro Parasceve, a começar pela figura condutora da Mulher em busca de si, e continuando com o dicionário que começa na p. 33; o plátano de seu nome Grande Maior (a cidade-árvore de Parasceve); o vaso quebrado que representa toda uma nova teoria estética dos fragmentos; o lobo no quarto de arrumos, que incita ao sonho e à alegria; o corvo amarelo, portador do saber do Tratado da Reforma do Entendimento, de Spinoza; a criança-ruah, símbolo puro das origens que a Mulher busca, «decepando a memória»; o piano móvel que transporta consigo a música da grande polifonia da vida que ultrapassa a autobiografia e anuncia uma biografia futura; com o percurso a terminar À beira do rio da escrita, na mais-paisagem da ponte que a Mulher atravessará...

Da conversa com a artista sobre o seu processo criativo e a ligação à escrita ficaram ideias como:
–  O que move esta forma de arte é o dar a ver, sem metafísica, o metabolismo das imagens por onde passa um sopro original, como o da própria escrita, também ela animada pela energia das palavras que se soltaram do dicionário.
– Traçam-se contornos nítidos (é inevitável a associação com o more geometrico de Spinoza, a construção rigorosa e aberta da sua Ética), sugeridos por «palavras-imagens» de coisas-objectos, figuras e lugares, trabalha-se com jogos de luz e graus de «vibração» que estabelecem passagens que ofuscam, apagam diferenças, anulam limites e tempos, para os reconfigurar numa penumbra nítida como cristal. 
– Aquilo que aqui se apresenta pede para ser olhado, e o olhar procura compreender, chegar a uma nova conceptualidade, a partir do «texto orgânico» de Llansol. A nova lei é a lei do pouco, do vestígio, do quase vazio, da leveza de uma aura – auréola, resto que se perfila discretamente, se eu o souber olhar.
– A arte, o belo, não são uma questão de formas que estão aí (para ficar?), são uma questão de (novas) relações. Sempre renováveis, e sempre igualmente geradoras de significação, de prazer e de júbilo.

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Pinturas: «Tudo o que resta de uma vida quando ela passa aqui»

Apresentação da artista:
«O ensaio visual apresentado foi realizado a partir do texto de Maria Gabriela Llansol Parasceve. Puzzles e ironias (Relógio D'Água, 2001), produzindo imagens em que perpassam olhares sobre a escrita de Llansol.
Inverte o processo da autora, que parte de uma imagem-objecto e parte para a palavra. Aqui, a palavra é o ponto de partida, produzindo uma outra imagem, não a original, nem uma ilustração ou representação, mas sim um procedimento interpretativo, um novo acontecimento. Existe, no entanto, a intenção de manter os deslocamentos característicos de Llansol. Os tempos são deslocados e relocados, sobrepostos como camada de pintura, transparências, resultando em uma imagem onde a cronologia perde importância e sentido – há então a simultaneidade».

Desenhos: «Recordar é quase, de certeza, um ainda-mais-morrer»

Apresentação da artista:
«A partir do livro Parasceve. Puzzles e ironias, de Maria Gabriela Llansol, produzi uma sequência de desenhos. São árvores que imaginei estarem relacionadas com a escrita e o percurso de Llansol.

Para Llansol, a árvore se apresenta como acontecimento, como presença. É a existência plena e, principalmente, livre de autobiografia.

Os desenhos são basicamente de troncos e galhos, árvores invernais, estação predominante no livro. É a estrutura que se sustenta no torpor até o início do florescer. É Parasceve.

26.6.26

 LLANSOL EM ESPANHA

Acabam de sair na Editora Ybernia, de Madrid, mais dois livros de Maria Gabriela Llansol em versão castelhana do seu fiel tradutor Mario Grande, que também enriquece as edições com textos seus que muito iluminam as obras da nossa autora. Outros livros virão, na mesma Editora de Madrid.

23.6.26

 PARASCEVE EM IMAGENS

A artista brasileira Debora Censi, frequentadora assídua do Espaço Llansol a viver há vários anos em Portugal, participou recentemente (de Janeiro a Abril de 2026) na 4ª Residência Artística Taguspark (em Oeiras). Para o trabalho aí desenvolvido inspirou-se na Obra de Maria Gabriela Llansol, partindo em especial do livro Parasceve. Puzzles e ironias.

As obras criadas pela artista nessa Residência integram duas séries – «Tudo o que resta de uma vida quando ela passa aqui» (16 pinturas) e «Recordar é quase, de certeza, um ainda-mais-morrer» (8 desenhos de árvores) –, que serão mostradas no Espaço Llansol na sessão de 4 de Julho (a partir das 16h): «A memória e o sopro da vida. Parasceve trans--figurado».

Apresentaremos o essencial do livro Parasceve. Puzzles e ironias, conversaremos com a artista sobre esta interacção entre texto e imagem, a actriz Eva Dória lerá textos de Llansol ligados aos temas das pinturas e desenhos, e teremos o habitual caderno que reproduz todos os trabalhos, ligando-os a textos da autora.

1.6.26

A CORRENTE DO «RIO DA ESCRITA» 

A colecção «Rio da Escrita», editada pela Mariposa Azual e o Espaço Llansol desde 2008, alcançou o significativo número de trinta volumes, dedicados à Obra de Maria Gabriela Llansol.  Vamos assinalar o facto e conversar sobre a história desta colecção – caso único de dedicação a um(a) autor(a) – na Feira do Livro de Lisboa no próximo sábado, dia 6 de Junho, pelas 15h.



27.5.26

 ECKHART E[M] LLANSOL



19.5.26

IMAGENS DE «PARASCEVE» 

A artista brasileira Debora Censi concluiu recentemente um projecto que designou de «ensaio visual» concebido a partir do livro de Maria Gabriela Llansol Parasceve. Puzzles e ironias. O projecto foi desenvolvido no âmbito da 4ª Residência Artística Taguspark (em Oeiras), entre Janeiro e Abril de 2026, e dele resultaram duas séries de obras, de que aqui apresentamos uma breve selecção (com os respectivos textos de apresentação pela artista): uma série de dezasseis pinturas a óleo («Tudo o que resta de uma vida quando ela passa aqui») e outra de oito desenhos de árvores, em grafite e «aguadas» («Recordar é quase, de certeza, um ainda-mais-morrer»).


                    I - TUDO O QUE RESTA DE UMA VIDA QUANDO ELA PASSA AQUI

«O ensaio visual foi realizado a partir do texto de Maria Gabriela Llansol Parasceve. Puzzles e ironias, produzindo imagens que perpassem olhares sobre a escrita de Llansol.

Inverte o processo da autora, que parte de uma imagem-objeto e segue para a palavra. Aqui, a palavra é o ponto de partida, produzindo uma outra imagem, não a original, nem uma ilustração ou representação, mas sim um procedimento interpretativo, um novo acontecimento. Existe, no entanto, a intenção de manter os deslocamentos característicos de Llansol. Os tempos são deslocados e realizados, sobrepostos como camadas de pintura, transparências, resultando em uma única imagem: onde a cronologia perde importância e sentido, há então a simultaneidade».

«O CORVO AMARELO» e «O PIANO»


«A MULHER» e «SPINOZA»


                   II - RECORDAR É QUASE, DE CERTEZA, UM AINDA-MAIS-MORRER

«A partir da leitura do livro Parasceve. Puzzles e ironias, de Maria Gabriela Llansol, produzi uma sequência de desenhos. São árvores que imaginei estarem relacionadas com a escrita e o percurso de Llansol.

Para Llansol, a árvore se apresenta como acontecimento, como presença. É a existência plena e, principalmente, livre de autobiografia.

Os desenhos são basicamente troncos e galhos, árvores invernais, estação predominante no livro. É a estrutura que se sustenta no torpor até o início do florescer.

É Parasceve».


17.5.26

MUSIL E(M) LLANSOL

Dois místicos sem misticismo

O essencial de uma convergência singular entre dois escritores «inactuais» e necessários à actualidade, na introdução ao caderno que acompanhou – com uma Cronologia ilustrada da vida e Obra de Robert Musil – a sessão de sábado no Espaço Llansol:





6.5.26

 MUSIL E(M) LLANSOL

«O MISTICISMO DO DIA CLARO» 

No próximo dia 16 de Maio, pelas 16 horas, trataremos, em mais uma sessão pública, da relação de convergência e afinidade entre Llansol e uma das suas «figuras» até agora pouco tratadas, o autor de O Homem sem Qualidades, Robert Musil, que ela traz para a sua escrita e considera ser da sua «linhagem». O ponto de convergência poderá ser o de um «misticismo do dia claro», objecto de busca do romance de Musil. Trata-se de um «estado de alma» que que se alimenta, não do mistério das religiões, mas do enigma das coisas, a «luz do dia claro» em Musil, uma «estética do fulgor» em Llansol.

João Barrento comentará as ligações entre os dois «escreventes», e teremos o habitual caderno, com textos de ambos.

29.4.26

 MICROLEITURAS LLANSOLIANAS: APRESENTAÇÃO

No dia 7 de Maio, pelas 18h, apresentamos na Livraria Tigre de Papel o último volume da colecção «Rio da Escrita», a colectânea de textos/ensaios de João Barrento Fragmentos (quase) completos-Microleituras llansolianas. A Profª Paula Mendes Coelho (Universidade Aberta) apresentará o livro, com a presença do autor, da editora Helena Vieira e de Farnando Ramalho, da Tigre de Papel (ver, no post anterior, a capa e o Índice deste livro).

15.4.26

PAISAGENS DO UNIVERSO LLANSOL

Novo livro de João Barrento



Acaba de sair. O índice permite perceber quais os terrenos percorridos: