29.5.23

A OFICINA DOS MURMÚRIOS

Leitura e criatividade | Arte e natureza

No próximo dia 7 de Junho, pelas 13h30, a artista, autora e arte-educadora Marina Palácio orienta no Espaço Llansol uma actividade com crianças do 1º ano da Escola Básica Rainha Santa Isabel (e outras que queiram vir), no âmbito das «Oficinas de Leitura e Criatividade - Educação pelo livro, arte e natureza», que criou e orienta desde 2009 por todo o país (em escolas, bibliotecas e instituições culturais), e também em alguns países europeus e africanos.


Desta vez, a «Oficina dos Murmúrios» centrar-se-á no livro de Maria Gabriela Llansol Amar um Cão (na versão «para os mais pequenos» feita pela escritora Hélia Correia, disponível nesse dia num dos nossos «Cadernos de Tejo-Rio»), convocando ainda outras leituras. Pretende-se levar as crianças (e adultos que assistam) a consciencializar o lugar do «Vivo», como Llansol o via, através da leitura, da escrita, do desenho, do diálogo – num exercício de «observação sensível e escuta poética» que Marina Palácio sintetiza nas seguintes questões: «E se começássemos a aproveitar as plantas não só pelo que produzem, como também por aquilo que nos podem ensinar? Serão as plantas, os animais e outras formas de vida os grandes poetas ao longo dos tempos?».

 GABI: A NARRADORA DE SONHOS REAIS...

Regressámos na nossa sessão de sábado aos primórdios da escrita de Maria Gabriela Llansol, comentando e lendo algumas surpreendentes narrativas da aluna do Liceu Pedro Nunes nos anos de 1945-46 (com 13-14 anos de idade), já então vista por alguns colegas como «a literata» da turma, e pela professora Maria Arminda Zaluar como alguém que, «assim, poderá ir até aos astros!».


João Barrento e Maria Brás Ferreira falam das redacções

A poeta Maria Brás Ferreira (autora dos livros Hidrogénio [2020] e Rasura [2021]) comentou algumas dessas redacções, reunidas no caderno feito para esta sessão («Do meu olhar escorre o sonho...» - As redacções da Gabi (1945-46), numa leitura inteligente e iluminante dos aspectos essenciais e mais originais dessa escrita juvenil e já premonitória. Sintetizou-a como sendo uma escrita já então feita como trabalho (e não mero entretenimento), como algo de móbil, um motor ou catalisador da energia da imaginação, e com a capacidade do dom, que proporciona uma leitura activa e devolve alguma coisa a quem lê.

E  conclui: «Todas estas histórias encerram o cunho inaugural da experiência estética. Inaugural, não por se tratar de redacções escolares escritas em idade precoce, mas precisamente por definirem, por extracção do real, o sempre começo, e o acontecimento sempre iniciático, com a solenidade que lhe está associada, do olhar. Trata-se da descoberta da experiência estética como aquela que transforma o limite em limiar, e a paisagem num plano fundo, esquivo. Das tentativas de o fixar [...] restará, inequivocamente resta, o descobrimento de mais uma falha e mais uma morada imaginária para o ser».



Também João Barrento destaca, na Introdução ao «Caderno de Tejo-Rio» com uma dúzia de redacções, momentos como: a surpresa dos «caminhos da imaginação e a riqueza de escrita...  numa escrevente daquela idade»; «a escolha de situações originais, revelando grande capacidade de observação e análise emocional das figuras, interesse social (sobretudo pelas classes mais desfavorecidas), uma tendência visionária que o futuro confirmará, e uma particular sensibilidade à beleza e aos fenómenos naturais». E ainda a diversidade dos tipos de narrativa, a que muitas vezes está subjacente uma «reflexão (quase) filosófica sobre as grandes questões do humano, e o registo fantástico ou parabólico. Muitas das histórias narradas são grandes alegorias da vida humana (...), transfigurando vivências banais em algo de mais elevado com sentido universal».

E ainda, assinalando as afinidades detectadas entre a escrita de Llansol e a poesia de Maria Brás Ferreira (com Spinoza e a «sobreimpressão» em fundo), compôs um «poema-sem-eu llansoliano» em que tudo é autobiográfico sem que o Eu fale de si (como já nas redacções da Gabi e na escrita posterior de Llansol), todo ele construído com linhas tiradas dos poemas dos livros da Maria Brás. Foi também a nossa forma de lhe agradecer a sua participação. Assim:

Vim porque o anonimato falou mais alto

para melhor montar os teatros de menina.

Prefiro os lugares recolhidos

onde se possa tão-só imaginar infinitamente

imagens trémulas, finas membranas de tédio-volúpia.

É isso o que é e o que somos:

nadar no ar, voar rente ao chão.

Devemos mirar-nos de dentro, para dentro,

para poder fixar

a grande evidência das coisas:

O corpo, que desconheço

(mas só o corpo importa);

a voz, o que mais recordo.

Olha para o mundo e diz-me

onde tudo começa.

As palavras dizem mais de mim

do que quero fazer parecer.

A voz extinguiu-se,

pois é o corpo que sempre prova

a bondade e a justiça.

E tudo importará:

por isso não morreremos nunca.

E experimentando e contornando o medo,

descobriremos o encanto da incerteza,

o desprendimento leal das formas amadas.

Que os anjos falem então por mim, de mim,

que falem de uma vez por todas

sem as amarras da língua [da impostura].

Os verbos que me impelem

são os silêncios, as paralisias

da grande História da Humanidade.

Para, em vez de ocupar o tempo,

perfilar a duração, [intuir o Há].

Para perceber como há noites

que são mais altas do que a noite.

 

 (J.B. – alias, M. B. F.)


17.5.23

 AS REDACÇÕES DA GABI


No próximo sábado 27 de Maio, pelas 17 horas, daremos a conhecer algumas das primeiras redacções escolares de Maria Gabriela Llansol. Com comentários da poeta Maria Brás Ferreira e de João Barrento, e leituras de algumas dessas redacções, poderemos constatar como as narrativas da «Gabi», aos 13-14 anos, dão já a ver os caminhos da imaginação, a riqueza de escrita e a escolha de caminhos singulares que a Obra da escrevente Llansol irá confirmar e reforçar mais tarde.

O caderno que imprimimos para esse dia, com uma dúzia de redacções, poderá ajudar a conhecer melhor os primórdios da escrita da nossa autora.

16.5.23

 LLANSOL ENTROU NA LITERATURA ESPANHOLA

Maria Gabriela (Llansol) e Hélia (Correia) são personagens inspiradoras da autora e da protagonista do romance Mondego, de Rebeca Hernández, escritora e professora da Universidade de Salamanca. A personagem central desta narrativa (publicada em 2022 por RIL Editores), Joana Ayres, está em Coimbra, onde se ocupa da história do rei D. Dinis e da Rainha Santa, e é acolhida na cidade do Mondego pelas duas escritoras portuguesas, em cuja casa vive. «Fala durante horas com Maria Gabriela e com Hélia sobre livros e poesia» e «define para si própria uma genealogia constituída por ambas». E exclama: «Tomai-me, irmãs. Sou vossa»! (p. 39).


Com Maria Gabriela, de quem «herdará os seus objectos e a sua história» (incluindo a estátua de S. Ana ensinando a ler a Myriam!), aprende que «a morte é uma flor», e «tem acesso a um território vedado, feito de bruma e de névoa» (p. 40).

O romance tem sido, ao que parece, um êxito editorial em Espanha!

24.4.23

ALMAS GÉMEAS?

Regina Guimarães e Maria Gabriela Llansol

A nossa intenção ao convidarmos essa artista multifacetada que é Regina Guimarães para estar connosco foi a de iluminar, para os que se interessam pelo trabalho singular destas duas almas gémeas habitantes das margens, uma relação que se iniciou nos anos noventa (com o espectáculo do grupo «Três Tristes Tigres» Ferida Consentida, construído com Ana Deus e Alexandre Soares a partir do livro de Llansol Um Beijo Dado Mais Tarde) e teve continuidade até hoje, e de que a Regina nos falou em pormenor. 

Na fase preparatória do espectáculo, em Junho de 1998, Regina Guimarães dava conta a Maria Gabriela Llansol do andamento dos trabalhos, e concluia em tom mais pessoal, mostrando uma clara sintonia com o universo da Gabriela, e revelando já marcas da sua própria poesia : 

«Quantos passos tenho contado em sonhos debaixo dos castanheiros, plátanos etc. que têm o nome do seu reino. Não sei se me deixe apanhar pelos ramos ou pela raiz ou apenas pela abstracta simetria/assimetria que insufla sentido no sonho e no despertar. Às vezes sinto-me tão descentrada em relação às palavras que até as oiço fustigar-me os ouvidos na sua fuga».

E ao mesmo tempo mostrava como, na concepção da Ferida Consentida, ia ao encontro dos modos de pensar a escrita que eram os da nossa autora:

«Estamos a trabalhar a questão da leitura, e até já há um bocadinho de música. Pensámos que, para além da sua voz (a voz de todas as suas vozes no milagre de a registarmos...), seria interessante fazer intervir a nível sonoro um grande número de leitores e afectos de leitura. É por aí que vamos (...) A ideia-chave é que o texto nos lê (nos agarra pela nuca, a nós, pobres tigres de papel».

Deste espectáculo ouvimos um dos momentos, de desconstrução do texto de Llansol, na voz cantada de Ana Deus, que nos deu uma ideia concreta do que a Regina escrevia em 1998, na carta a Llansol: trata-se de articular palavra e música, de sobrepor vozes, de pôr o texto a ler-nos. Na altura, e depois de ter visto o espectáculo em Lisboa e no Porto, a Maria Gabriela reconhece a pertinência da escolha daquele seu livro, em que rememora os tempos da infância, e o trabalho feito sobre ele pelo grupo do Porto, e descobre esses ecos e sonoridades muito particulares, como parece dizer esta carta de 1999:

«Vi por duas vezes Ferida Consentida, e toda a impressão visual da passagem da infância no vosso novo palco assim se renova e mantém presente. Eram vários os elementos que convergiam... criando harmonia e uma sonorodade envolvente e funda. Na nova recriação_____ estava certo. É assim: o tempo não tem limites..., permanece no futuro, se houver olhos abertos que o mantenham presente».


                                                Regina Guimarães, com João Barrento e Helena Vieira


Depois, foi a revelação progressiva, pela Regina, desta relação que data desses anos noventa, quando um dia vai à Editora Afrontamento e descobre aí os primeiros livros de Llansol. Ela própria começara muito cedo a escrever, neste caso poesia, fora das normas e entre os géneros (aspecto que comentou também na Obra de Llansol), com 17-18 anos (à imagem de um dos poetas franceses que ambas traduziriam: Rimbaud, o «rapaz raro», como lhe chamaria Maria Gabriela). Regina não deixará de escrever poesia até hoje, com dezenas de livros publicados (sem pretensões de grande visibilidade, mas todos com uma marca muito sua).

 

                 Exposição de materiais do espólio de Llansol que documentam a relação com Regina Guimarães

Vimos depois dois videos, mais tardios, mas sempre a partir de Obras de Llansol: o primeiro (Presente, 2003, mostrado no encontro que fizemos na Arrábida, ainda com Llansol), parte de O Senhor de Herbais e do «pandemónio das estéticas»; o segundo (Trabalho de Presença, 2022), retoma fragmentos do livro Os Cantores de Leitura, com o motivo da ruína no centro; e ambos com a música de Bach em fundo. Também eles, como a Ferida Consentida, mostram uma capacidade muito particular de ler o Texto de M. G. Llansol, e de ser lido por ele, para o transformar.

Destacámos, em conversa com Regina Guimarães, alguns tópicos que ajudaram a acompanhar a projecção dos dois videos, com evidentes paralelos com o universo llansoliano.

 

1. Presente:

- No pandemónio das estéticas (e suas tentações), a recusa do modelo (ainda) dominante do realismo, em favor de modos mais livres e imaginantes de olhar o mundo.

- Natureza (vegetal, animal, árvores, o falcão, os cães...), em paralelo com a criação artística; ou os caminhos da textura da floresta e os caminhos da floresta do Texto

- A afinidade entre Llansol e Regina Guimarães, fundada na sua escolha de estéticas alternativas, maravilhantes e trémulas, buscando a infância permanente da arte. Tudo iluminado, no fim, pela chama de uma vela, motivo desde muito cedo presente na Obra da nossa autora.

- E ainda (o que nos liga ao segundo video): o motivo, central em Llansol, da casa: espaço de criação, de vida, mesmo no que nele é aparentemente morto, os objectos. E de abertura ao mundo, através do motivo da janela. Ambos os motivos, casa e janela, continuarão a ser centrais no segundo video.

Link para este video: https://youtu.be/YvMAL5VocdU

 

2. Trabalho de Presença:

Aqui, a casa é um corpo vivo, e as janelas continuam a ser os seus olhos para o mundo, apesar do trabalho do tempo, que a transforma em ruína. Mas a ruína é a condição natural do vivo, o seu devir inevitável – e também fonte de formas de beleza antes imprevisíveis (o desenho de plantas e musgos nas paredes, a interligação entre o vegetal e o construído, os ninhos das andorinhas nos beirais...). O contraste com este devir natural do construído são os aglomerados populacionais, os bairros turísticos de um novo-riquismo de imitação, disneylands de hoje; e logo a seguir as simples e autênticas árvores em gravuras a preto-branco, deslizando ao som de Bach. São os contrastes criativos da Regina – e poderiam ser de Gabriela!

Sobre a ruína, imagem que alimenta este novo vídeo, foi ainda evocado um ensaio do filósofo Georg Simmel em que a ruína é vista como a expressão da nostalgia por uma forma-outra, que não a da perfeição da obra acabada. Aí, a obra humana como que se torna um produto da natureza. E a destruição só aparentemente é algo de negativo, pode ser trágica (?), mas não é triste – tem um fulgor próprio: o fulgor dos restos como presença! (uma vez mais, serve as duas autoras).

É o que parecem querer dizer, no final do video, as várias formas de arte que vemos, restos do passado mas não ruínas, quadros, esculturas e formas abrangentes, ramificadas, rizomáticas, absorvendo toda a superfície do quadro – como os musgos, os fungos, as trepadeiras nas paredes das ruínas...

Link para este video: https://youtu.be/npGPsHP9_Dg


E a sessão terminou com uma hommage a Regina Guimarães, através da sua poesia. Poesia iminentemente musical, que chama a música e com ela convive, como podemos ver/sentir nas leituras que a Regina faz, concretamente numa recente experiência, belíssima, com o músico Fred e as suas composições, de que ouvimos dois exemplos (na sequência da gravação, o quarto – Odd Ode – e o décimo – Fuligem). Modulações livres de palavras, formas e ideias, sem abdicar de um substrato humano sempre presente, ou seja, sem cair no mero formalismo. 

É todo um programa de não acomodação, uma «poética do devir», como já se disse da poesia da Regina,  que ouvimos nestas três linhas programáticas de um dos seus poemas (e uma vez mais podia ser Llansol):

«Falo sozinha

numa linguagem de jamais

e já não minha».


As leituras de Regina Guimarães com música de Fred («Mãos no Fogo») podem ser ouvidas no site A Cabine, aqui:

https://acabine.pt/2023/02/lancamentos-favoritos-de-janeiro-2023/

14.4.23

REGINA GUIMARÃES:

DIÁLOGOS COM LLANSOL

No sábado, dia 22 de Abril, pelas 16 horas, teremos no Espaço Llansol mais uma sessão pública, desta vez com a presença da artista e poeta do Porto Regina Guimarães, que nos falará das suas ligações a Maria Gabriela Llansol e ao seu universo desde os anos noventa.

Falaremos dos primeiros contactos e do espectáculo Ferida Consentida, concebido por Regina Guimarães para o grupo Três Tristes Tigres, a partir de Um Beijo Dado Mais Tarde. Veremos dois vídeos de Regina Guimarães, feitos a partir de livros como O Senhor de Herbais e Os Cantores de Leitura. E ouviremos alguns poemas na voz da autora, numa extraordinária gravação com música do compositor Fred («As Mãos no Fogo»).

12.4.23

 LLANSOL: A PULSÃO EPISTOLAR


Damos conta do que foi dito na apresentação do livro Todos os Dias uma Carta, que reune correspondência de Maria Gabriela Llansol entre 1967 e 2005 (apresentado ontem na Livraria Tigre de Papel, em Lisboa, por Helena Vieira e João Barrento, com leituras de algumas cartas por Fernando Ramalho. Uma dessas cartas, a Eduardo Lourenço, reproduz-se também aqui).

Este novo volume da colecção «Rio da Escrita» (o nº 24), que o Espaço Llansol vem editando com a Editora Mariposa Azual desde 2008, é um livro muito especial, a par de um outro, que reune as Entrevistas de M. G. Llansol. Não muitas, que a Autora nunca foi muito dada à feira das vaidades literárias, mas iluminantes, como esta selecção de cartas. Trata-se de livros que ajudam a compreender melhor todo um percurso de escrita, uma Obra e uma vida, também relações afectivas que esta autora singular sempre privilegiou. Também estas não muitas, e quase todas nos vão sendo reveladas pelas cartas que este novo livro contém.

Trata-se, naturalmente, de uma selecção. No espólio de M. G. Llansol encontramos muito mais correspondência, mas sobretudo de carácter familiar ou institucional. Bastante menos correspondência com figuras do mundo literário, português ou outro – o que se explica pelo isolamento, sem fechamento total, em que a autora viveu, no exílio e depois dele. Mas desde cedo que aparecem nomes importantes da literatura ou da crítica, a certa altura também da tradução de algumas obras para francês ou alemão. Acontece, no entanto, que metade da vida literária de Llansol é a dos vinte anos de exílio na Bélgica, com muito poucas ligações ao universo literário português. A primeira secção («O exílio: Tempo de espera») documenta bem as dificuldades de encontrar editor para os primeiros livros, os da primeira e segunda trilogias, todos escritos no exílio belga, entre os anos 70 e a primeira metade de 80. E à medida que avançamos na leitura começamos a perceber como estas cartas não são mera correspondência de circunstância, mas, como acontece também com os milhares de páginas dos diários de Llansol, um repositório de ideias, um espelho da pogressão de uma Obra, um registo diário de experiências que revelam muito dos interesses, das obsessões pessoais e das vicissitudes da vida literária desta autora que a si mesma se vê, de forma viva, como «um corp' a 'screver».

O título que encontrei (que a Maria Gabriela me ofereceu, como quase todos os desta colecção!) para esta selecção de cartas é o de um texto em que a autora imagina uma troca de cartas fictícias com a escritora belga Marguerite Yourcenar, «Todos os dias uma carta», que seria publicado na revista Vida Mundial em Dezembro de 1997 (e que a Introdução clarifica melhor).

Pareceu-nos que haveria interesse em destacar este lado ainda não conhecido de Llansol, a sua pulsão epistolar, «o discurso ritual da manhã» ou, como ela escreve numa das suas agendas, «o grande desejo de escrever cartas e guardar as cópias». De facto, ela guardou muitas cópias, manuscritas (nos cadernos) ou já saídas da máquina de escrever, e foi isso que facilitou a minha tarefa de organização deste livro. A atracção pela escrita epistolar – mais do que pela comunicação oral e rápida do telefonema, que se esfuma e não fica disponível para releitura – aparece por mais de uma vez expressa nestas cartas, que não são simples meio de informação, mas registos de pensamento, ensaios de escrita, testemunho de relações de afecto. Também, por vezes, escrita poética («A verdadeira carta é por natureza escrita poética» – Novalis, citado por Llansol num dos seus cadernos, sem 1992). A atracção pela carta é assim expressa também num desses muitos cadernos, de 1981:

Com uma carta é diferente [diferente de um telefonema], estende-se uma longa teia, se se quiser. E relê-se. E a cada releitura fica-se tão próximo, e encontra-se um novo sentido imaginário, possível. São asssim as cartas de C[hristine] [e, poderíamos dizer, as de Gabi para essa amiga da Bélgica, e outros!]. O ouvido, a vista, o olfacto, o tacto, o entendimento. Mas, o que é que capta a carta? Certamente as leituras sucessivas, as aproximações da necessidade de resposta que não surge no imediato, mas mais tarde...

A carta é, assim, também literatura disponível, um «fragmento de secreto que circula» de mim para outro e de mim para mim, como uma página de diário (é assim que elas devem ser lidas). A sequência das quatro partes em que o volume está organizado mostrará claramente como estas cartas não são mero resultado de condicionalismos exteriores de uma vida literária (edição, crítica, leitores, intervenção de artistas...), mas acima de tudo, e frequentemente, «escrita de si» (como da carta diz Foucault) que ilumina os meandros da Obra e das situações concretas em que ela nasce – sem cair no confessionalismo, ou no que Llansol designa de «a mediocridade da autobiografia». O que elas são, acima de tudo — e quem as for lendo apercebe-se facilmente disso — é, entre outros «guias» úteis, um breviário para a leitura de uma Obra, das margens envolventes e dos núcleos irradiantes de uma escrita que se foi fazendo ao longo de quarenta anos, na teia dos dias e «ao fio do corpo».

J. B.



Da carta a Eduardo Lourenço, de 23 de Dezembro de 1988:


Caro Amigo,

 

            junto lhe envio o meu texto da Sorbonne* (...). Faço-o com muita alegria, na lembrança do nosso encontro em Paris, e pela real amabilidade e apoio que, na altura, me manifestou.

            Conheci-o com muito prazer. Tinha a certeza de que, tarde ou cedo, nos haveríamos de encontrar. (...)

            Acho que é altura de deixar de ser vista como escritora hermética. Muito desse suposto hermetismo deve provir, creio eu, da falta de coordenadas de leitura. A maior parte dos portugueses cultos – ou assim ditos – não leram talvez o que eu li. O que não se viveu de idêntico não se pode suprir, mas as bibliotecas podem ser progressivamente substituídas. Penso que o Eduardo poderá ajudar os outros a ler-me.

            Desejo-lhe um bom ano de 1989.

            Com um abraço muito amigo,

MGab. Llansol

___________________

* «Porque não pude deixar de vir», no encontro Les Belles Étrangères, Paris, Outubro de 1988 (incluído em Lisboaleipzig 1 - O encontro inesperado do diverso).

5.4.23

 «TODOS OS DIAS UMA CARTA»

Novo lançamento


No dia 11 de Abril, pelas 18h30, apresentaremos de novo o livro da Correspondência de Llansol na Livraria Tigre de Papel.



24.3.23

 «TODOS OS DIAS UMA CARTA»

Apresentação do livro com a correspondência de Llansol

Apresentámos ontem, no Espaço Cultural Cinema Europa, e no âmbito da Feira do Livro de Poesia de Campo de Ourique, o volume com uma selecção de cartas de Maria Gabriela Llansol (entre 1967 e 2005), com o título «Todos os Dias uma carta». A editora da Mariposa Azual, Helena Vieira, contextualizou o aparecimento de mais este volume, a professora da Escola Superior de Cinema e Teatro, Maria Duarte, leu algumas das cartas, e João Barrento apresentou o novo livro com o texto que se segue:

                                *

Este novo volume da colecção «Rio da Escrita», que o Espaço Llansol vem editando com a Editora Mariposa Azual desde 2008, é já o nº 24! A maior parte são textos de intervenções nas nossas Jornadas anuais sobre a Obra de Llansol, mas há também alguns volumes de autor (de Eduardo Prado Coelho, João Maria Mendes, Augusto Joaquim, Maria Etelvina Santos ou eu próprio). Este é um pequeno volume muito especial, a par de um outro, que reune as Entrevistas de M. G. Llansol. Não muitas, que a Autora nunca foi muito dada à feira das vaidades literária, mas iluminantes, como esta selecção de cartas. Trata-se de livros que ajudam a compreender melhor todo um percurso de escrita, uma Obra e uma vida, também relações afectivas que esta autora singular sempre privilegiou. Também estas não muitas, e quase todas nos vão sendo reveladas pelas cartas que este novo livro contém.

Trata-se, naturalmente, de uma selecção. No espólio de M. G. Llansol encontramos muito mais correspondência, mas sobretudo de carácter familiar ou institucional. Bastante menos correspondência com figuras do mundo literário, português ou outro – o que se explica pelo isolamento (sem fechamento total) em que a autora viveu, no exílio e depois dele. Mas desde cedo que aparecem nomes importantes da literatura ou da crítica, a certa altura também da tradução de algumas obras para francês ou alemão. Acontece, no entanto, que metade da vida literária de Llansol é a dos vinte anos de exílio na Bélgica, com muito poucas ligações ao universo literário português. A primeira secção documenta bem as dificuldades de encontrar editor para os primeiros livros, os da primeira e segunda trilogias, todos escritos no exílio belga, entre os anos 70 e a primeira metade de 80. E à medida que avançamos na leitura começamos a perceber como estas cartas não são mera correspondência de circunstância, mas, como acontece também com os milhares de páginas dos diários de Llansol, um repositório de ideias, um espelho da pogressão de uma Obra, um registo diário de experiências que revelam muito dos interesses e das obsessões pessoais e das vicissitudes da vida literária desta autora que a si mesma se vê, de forma viva, como «um corp' a 'screver».

                                  Maria Duarte e João Barrento na apresentação do livro


O título que encontrei (que a Maria Gabriela me ofereceu, como quase todos os desta colecção!) para esta selecção de cartas é o de um texto em que a autora imagina uma troca de cartas fictícias com a escritora belga Marguerite Yourcenar, «Todos os dias uma carta», que seria publicado na revista Vida Mundial em Dezembro de 1997 (vd. a minha Introdução).

Interessava-me destacar, com este volume, este lado ainda não conhecido de Llansol, a sua pulsão epistolar, «o discurso ritual da manhã» ou, como ela escreve numa das suas agendas, «o grande desejo de escrever cartas e guardar as cópias». De facto, ela guardou muitas cópias, manuscritas (nos cadernos) ou já saídas da máquina de escrever, e foi isso que facilitou a minha tarefa de organização deste livro. A atracção pela escrita epistolar – mais do que pela comunicação oral e rápida do telefonema, que se esfuma e não fica disponível para releitura – aparece por mais de uma vez expressa nestas cartas, que não são simples meio de informação, mas registos de pensamento, ensaios de escrita, testemunho de relações de afecto. Também, por vezes, pura poesia, o que pode justificar a sua presença nesta Feira do Livro de Poesia de Campo de Ourique, o bairro que a viu nascer e crescer, entre a Rua Azedo Gneco, a Domingos Sequeira e a Igreja de Santa Isabel.

A atracção pela carta é assim expressa por Llansol num caderno de 1981:

Com uma carta é diferente [diferente de um telefonema], estende-se uma longa teia, se se quiser. E relê-se. E a cada releitura fica-se tão próximo, e encontra-se um novo sentido imaginário, possível. São asssim as cartas de C[hristinne] [e, poderíamos dizer, as de Gabi para ela e outros!]: o ouvido, a vista, o olfacto, o tacto, o entendimento. Mas, o que é que capta a carta? Certamente as leituras sucessivas, as aproximações da necessidade de resposta que não surge no imediato, mas mais tarde...

A carta é, assim, também literatura disponível, um «fragmento de secreto que circula» de mim para outro e de mim para mim, como uma página de diário (é assim que elas devem ser lidas). A sequência das quatro partes em que organizei o volume mostrará claramente como estas cartas não são mero resultado de condicionalismos exteriores de uma vida literária (edição, crítica, leitores, intervenção de artistas...), mas acima de tudo, e frequentemente, «escrita de si» que ilumina os meandros da Obra e das situações concretas em que ela nasce – sem cair no confessionalismo, ou no que Llansol designa de «a mediocridade da autobiografia». O que elas são, acima de tudo — e quem as for lendo apercebe-se facilmente disso — é, entre outros «guias» úteis, um breviário para a leitura de uma Obra, das margens envolventes e dos núcleos irradiantes de uma escrita que se foi fazendo ao longo de quarenta anos, na teia dos dias, carta a carta,  e «ao fio do corpo» – como a Maria Gabriela sempre fazia quando escrevia.


(J.B.)


22.3.23

 LLANSOL COM IBN  'ARABÎ


Ontem, Dia Internacional da Poesia e do Ano Novo do calendário persa, Maria Gabriela Llansol esteve presente na sessão da Fundação Gulbenkian integrada no programa da exposição O Poder da Palavra: O caminho dos sufis. Foram lidos, em língua persa e árabe e em tradução portuguesa, poemas de vários autores persas e árabes, que se cruzaram com textos de autores portugueses neles inspirados: Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Catarina Nunes de Almeida, Adalberto Alves, e também fragmentos de Maria Gabriela Llansol em que o místico árabe ibérico Ibn  'Arabî é figura central.

Os textos de Llansol foram lidos pela actriz Teresa Coutinho e pelo poeta Isaac Jaló. Os textos originais, de autores como Rûmi Omar Khayyâm, Ibn 'Arabî, Rabi'a e outros foram lidos por Omid Bahram (persa) e Shahd Wadi (árabe). As leituras foram acompanhadas à guitarra pelo músico José Peixoto (do grupo Madredeus).

A organização e os comentários da sessão devem-se ao Prof. Fabrizio Boscaglia (Universidade Lusófona), especialista da história das religiões e do misticismo no mundo árabe e persa, e leitor de Llansol, que foi conversando sobre esta matéria com Elisabete Caramelo, Directora de Comunicação da Fundação Calouste Gulbenkian.

Veja a seguir dois pequenos videos da sessão gravados por Ângela Solla.

Fabrizio Boscaglia comenta o lugar de Ibn 'Arabî na escrita de Llansol (clique no link abaixo):


O poeta Isaac Jaló lê Llansol sobre Ibn 'Arabî, no diário Finita (clique no link abaixo)