14.7.19

                  LER COMO QUEM DANÇA
                                    DANÇAR COMO QUEM LÊ

O grupo de doze mulheres vindas de Lugo/Galiza para nos comentar e mostrar a sua experiência de ler-dançar Llansol proporcionou-nos ontem uma tarde inesquecível. Numa primeira parte, Nieves Neira e o seu grupo falaram-nos deste projecto singular, mostraram um video que documenta a sua actuação nos claustros da catedral de Lugo em 2018, e apresentaram o livro Fulgor, onde reunem os fragmentos de Llansol que vamos ouvindo na leitura dançada que imaginaram.

O livrinho é uma preciosidade, e saiu numa editora (animada por duas das «beguinas de Lugo», María Grandío e Nieves Neira), com um nome – ÁMBOA – e uma história carregados de ecos, que podemos ler no marcador que acompanha o livro. E o azul forte que o atravessa é também o da gravura, em azul da Prússia, que acompanhou o lançamento do livro, uma obra de María Corral Fernández.

O desdobrável que distribuímos na sessão de ontem dá conta, nas palavras de Nieves Neira, que abrem o livrinho, deste modo singular de apropriação afectiva e artística das palavras de Maria Gabriela Llansol, num gesto de amor sive legens (que é o título, llansoliano, da introdução de Nieves Neira).

Depois, foi o belo espectáculo no pátio da Casa de Julho e Agosto, por entre objectos, panos, plantas deixados pela Maria Gabriela. Uma movimentação dinâmica que encheu o pátio de fragmentos, frases soltas, perguntas, repetições, de textos vindos dos mais diversos livros, que o corpo e a sensibilidade de cada uma das leitoras dançantes deles retirava. A sequência de fotos e a breve montagem em video dirão ainda melhor o que foi este belo momento, que encerrou as nossas actividades antes da pausa de Verão.
 
 

6.7.19

DANÇAR COM AS PALAVRAS DE LLANSOL

No próximo sábado, 13 de Julho, pelas 17 horas, recebemos um grupo muito especial de doze mulheres-beguinas vindas de Lugo, na Galiza. Dez delas apresentarão uma leitura dançada de textos de M. G. Llansol, no nosso pátio da Casa de Julho e Agosto, à semelhança do que já fizeram nos claustros da catedral da cidade galega.
Nieves Neira, jornalista e escritora de Lugo, principal animadora deste grupo de mulheres e grande legente de Llansol, teve esta original ideia, que apresenta assim no livro feito para esta ocasião (e que incluimos, completo, no desdobrável que distribuiremos):
 «Ler como dançamos? Da leitura conhecemos um corpo sentado, um corpo que se transformou com a aparição do alfabeto, que trabalhosamente inibiu outros sentidos em favor da visão. Anne Carson insinua em Eros-Poética do desejo que é da oposição entre um interior e um exterior, criada pela palavra escrita, que nasce Eros como obsessão na Grécia arcaica, e que a poética do desejo de que ainda hoje somos herdeiros se petrificou no espaço negativo da leitura, como também a ideia de que os livros diferem da vida. A Obra de Llansol convida-nos, no entanto, a reduzir e desfazer essas dicotomias [...]
Ler como dançamos: é o resultado desse jogo. A sua única regra foi a de deixar-se levar pelo afecto e pelo fulgor: ler em voz alta – do sussurro ao grito – só aquelas frases que despertassem esse afecto, que nos chamassem. E sublinhá-las sabendo que com esse gesto estávamos escolhendo os fragmentos que figurariam no livro que fizemos, aproximando assim com o lápis a mão que escreve da mão que lê, a mão que lê da mão que escreve...»
Esperamos por todos às cinco da tarde para um espectáculo certamente surpreendente. Antes teremos, na sala grande, a projecção de um video e conversa com as beguinas de Lugo sobre o livrinho que nasceu desta experiência, e estará disponível.

23.6.19

O FILME-EM-METAMORFOSE DE ONTEM

Tivemos ontem, com um público muito participativo e viva troca de ideias, uma tarde especial, com a projecção da versão actual do filme de Sílvia das Fadas Luz-Clarão-Fulgor, de que dá conta o texto lido pela cineasta (que aqui se reproduz, e que incluímos no folder feito para esta sessão). Com o som de dois projectores de 16 mm sempre em fundo, lembrando antigas salas de cinema, na luz das imagens em paralelo, a preto-e-branco e a cores, a sala cheia pôde seguir os caminhos da câmara da autora por recantos desconhecidos de um Alentejo profundamente transformado. Este primeiro núcleo de imagens recolhidas e montadas em diálogo irá ser continuado nos próximos meses, para dar origem a novas versões de um filme que se apresenta como obra não acabada.


Luz, Clarão, Fulgor
Augúrios Para Um Enquadramento Não Hierárquico e Venturoso 

Deparei com uma fotografia a preto e branco, impressa num jornal: as ruínas de uma comuna. Mostra uma árvore, o que resta de uma ruína, uma sombra projectada das suas paredes, até ao solo, um poço, um campo aberto e florido. Poderia passar despercebida, mas a inscrição da fotografia — «Comuna da Luz», bastou para acender uma centelha e revelar um rastilho que não resisti a seguir.
A «Comuna da Luz» foi fundada no Sul de Portugal entre 1917 e 1918 por um anarquista Tolstoiano chamado António Gonçalves Correia. No aparentemente sereno Vale de Santiago, em Odemira, Gonçalves Correia pôs em prática uma experiência utópica, por fim esmagada pela repressão policial que acusou estes companheiros de organizarem uma greve de trabalhadores rurais e de participarem na conspiração que levou à morte de Sidónio Pais. Gonçalves Correia fundou posteriormente uma segunda comuna, a «Comuna Clarão», em 1926 em Albarraque, Sintra. Também não foi duradoura, mas Gonçalves Correia persistiu em escrever panfletos e cartas para jornais anarquistas, ao mesmo tempo que se obstinava a comprar pássaros em feiras, apenas para os libertar das suas gaiolas. Este perigoso agitador comunista, de acordo com a polícia política, proclamou a revolução como sua namorada, e jurou não cortar as suas longas barbas até que o regime autoritário do Estado Novo fosse destituído. Morreu antes disso, mas o seu nome é ainda uma contra-senha nas terras do Baixo-Alentejo.

Apesar da escassez de documentos, o que me interessa nestas tentativas colectivas de viver diferentemente é a irrupção do utópico, com um excedente de sonhos indestrutíveis — uma condição a que chamo fulgor. Partindo dos vestígios destas duas comunas comecei a engendrar uma terceira comuna — «Fulgor» — nas ruínas da primeira.

O que é então o fulgor? Vem de um texto cuja fonte se encontra n' O Livro das Comunidades, uma obra escrita nas margens da literatura — em solitude, em fortitude, em cadernos, envelopes, guardanapos, e desenhos, fragmentos de fragmentos — por uma mulher singular para quem escrever era o duplo de viver: Maria Gabriela Llansol, a escrevente a quem volto continuamente porque o seu texto nunca deixou de me perturbar, oferecendo-me resistência e sustento. De acordo com Llansol, o fulgor é uma procura de luz, uma ruptura no tempo e historicidade que conjura a possibilidade de encontros inesperados a partir das margens. A luta quotidiana pelo fulgor é o resultado de uma batalha contínua: um esforço diário para atingir claridade, intensidade — desejo de uma cintilação possível e necessária. O fulgor, sendo um momento de revelação súbita, possibilita um entendimento mais profundo do tempo. Já não estamos no tempo e espaço da narrativa e da sucessão, mas num campo fulgurante onde Ana de Peñalosa, Hadewijch, a beguina errante, Thomas Müntzer decapitado ou Hölder (de Hölderlin), são removidos do firmamento da história para se tornarem parte de uma outra ordem de significado — transmutados em Figuras que, num encontro inesperado do diverso, formam uma comunidade de rebeldes. Através de uma técnica de fragmentação e de sobreimpressão, o fulgor introduz brechas que nos colocam na presença de encontros que ainda hão-de ter lugar, assim mudando a ordem das coisas. Deste modo, o combate entre príncipes e camponeses ainda fermenta e tudo continua em risco, seja em Frankenhausen ou no litoral do mundo (Llansol), em França ou no Egipto (Straub-Huillet), demasiado cedo ou demasiado tarde.
Palavras e imagens devêm intensidades vivas. O fulgor é móvel como o olhar ou o voo de uma bruxa, e como tal também eu me desloco através de diferentes escalas e temporalidades: da Comuna da Luz à Comuna Fulgor, de António Gonçalves Correia a Maria Gabriela Llansol, em direcção a uma comunidade de errantes-mutantes. «A energia cénica do fulgor tem uma qualidade muito espacial­­­­­­ ­____________________________ põe os seres em confronto no auge da sua beleza. Interior, exterior e estética.»[i]
A paisagem que resiste é para mim uma cena fulgor. Transporta em si o potencial de metamorfose e eu reconheço que a luta quotidiana pelo fulgor tem de ser uma luta inventiva, uma luta que, tal como Avery F. Gordon e Inês Schaber a colocam está «implicada no cultivo de formas de vida e de trabalho independentemente/autonomamente de, ou fora de, ou em oposição a, ou em alternativa a, ou nos mesmos moldes, mas não inteiramente dentro dos termos dominantes da ordem social.»[ii] É o reconhecimento desta consciência utópica, e desta insubordinação, que me faz desejar uma outra comunidade no agora, mesmo que esta só possa ser provisória, fugitiva, subterrânea, com raízes fundas mas móveis. E, mal comecei a ensaiar uma comuna provisória nas ruínas de uma comuna histórica, cedo me apercebi da necessidade de metamorfosear o ‘eu’ em ‘nós’, e de em comum mapearmos lutas contemporâneas e ancestrais pela terra e pelo bem colectivo na caleidoscópica espacialidade do Alentejo, região com nome de rio, para além de um rio.
Talvez não haja nada de mais exterior do que este território de desmesura e latifúndios, cuja distribuição de terras remonta aos tempos da Reconquista do país aos Muçulmanos da Península Ibérica. Os primeiros proprietários eram nobres, de ordens religiosas ou militares, e nessas terras as comunidades encontravam-se dispersas e despossuídas. Se pressentimos algum espectro a rondar este filme, e outros que por lá se fizeram, é provável que seja o da Reforma Agrária, semeada pela Revolução dos Cravos e pelo breve (quão breve?) período insurreccionário que se lhe seguiu. «A batalha vinha, estava vindo»[iii], pressagia o texto Llansoliano. Os patrões fugiram, e as pessoas, cansadas de décadas de opressão e de desigualdades sociais, ocuparam as grandes propriedades e distribuíram as terras por aqueles que, sem nunca as terem possuído, as sabiam trabalhar. As mulheres estiveram na frente das ocupações, «praticando a despossessão em colaboração»[iv]. O cinema também lá esteve, a lutar através de imagens desta região, em filmes militantes como A Lei da Terra, filme colectivo realizado pelo Grupo Zero, que acompanha a ocupação da terra, a auto-gestão dos camponeses e a criação de unidades de produção; ou Terra de pão, terra de luta, um filme de José Nascimento, que desconstrói o sistema opressivo dos latifúndios. Mais recentemente, Farpões Baldios, de Marta Mateus, testemunhando uma forma de vida, histórias contadas, histórias escutadas, matéria de transmissão e tenacidade. A Reforma Agrária foi uma promessa interrompida, traída, boicotada. No entanto, olhando para trás, não conseguimos deixar de pensar que as coisas poderiam ter tomado outro rumo. Altos desejos pairam ainda na paisagem, com resiliência inscritos
nas suas pedras
nas suas árvores
nas suas gentes
no vivo.

Principiámos a caminhar e a procurar augúrios no Verão passado, concentrando-nos em fragmentos de tempo: «a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem[v] Ali, com uma violência inarredável deparámos com: cercas e vedações, propriedade privada, extracções mineiras, arbustos de oliveiras e amendoeiras em fileiras a saturar o horizonte (cemitérios, aos meus olhos), trabalhadores migrantes e clandestinos, rios envenenados, a terra erodida. Ali também, uma luta afim por uma vida vivível está a ser travada: corpos no processo de resistirem e de se reinventarem a si mesmos, afirmando as margens, reactivando os vínculos à terra, tornando-se «indisponíveis para a servidão», opondo-se a projectos extractivistas, contruindo zonas autónomas, disseminando sementes autóctones e informação crítica, traduzindo poesia, praticando o dom da hospitalidade. Nós tecemos, seguimos e emaranhamo-nos num fio de engendrar mundos: «Observando geografias de acção directa, apoio mútuo, e políticas prefigurativas.»[vi] Nós estamos a preparar-nos.  «Queremos ver aquilo que fazemos à medida que o fazemos. Não é que questões de habilidade ou de ofícios tenham sido suspensas. Apenas foram socializadas, desindividualizadas, partilhadas» (clama Fred Moten). Coral, e em processo, criado e incriado, o filme é uma ferramenta para a convivialidade (Illich, Andersen), dobra-se e desdobra-se em espanto, guiado pelo fulgor, ou pela potência para florescer em enquadramentos não-hierárquicos.
Observando teimosamente as ruínas de uma comuna, procuramos  augúrios. Por exemplo: uma árvore e uma ruína. Um riacho. Uma serpente. Iremos ver.
Através de práticas quotidianas de recusa e reencantamento, em dissonância, perguntamos:
«Qual a relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?»[vii] Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade»[viii], o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda do cinema?
Que as imagens em bruto que se seguem possam ser «cartas vívidas e imperceptíveis».
Se ousarmos.
Sílvia das Fadas
Primavera de 2019

[i] Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2006), p. 198.
[ii] Avery F. Gordon and Ines Schaber, “The Workhouse.” Acessível em: http://www.averygordon.net/current-projects/the-workhouse/ [acesso em: 31 de Maio 2017]
[iii] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017), p. 48.
[iv] Fred Moten, “come on, get it!,” The New Inquire (2018) Acessível em: https://thenewinquiry.com/come_on_get_it/ [acesso em: 12 de Abril 2019]
[v] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017), p. 11.
[vi] Simon Springer, The Anarchist Roots of Geography: Toward Spatial Emancipation. (Minneapolis/London: University of Minnesota Press, 2016.), p. 94.
[vii] Fred Moten, Id., Ibid.
[viii] Stefano Harney and Fred Moten, The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study (New York: Minor Compositions, 2013), p. 42.


11.6.19

CAMINHOS DO FULGOR:
DE LLANSOL À «COMUNA DA LUZ»

No próximo dia 22 de Junho, pelas 16 horas, vamos mostrar um filme singular e conversar com a sua realizadora, Sílvia das Fadas, que já foi uma preciosa colaboradora do Espaço Llansol, e agora regressa para nos mostrar o seu filme Luz-Clarão-Fulgor (em formato de 16 mm, como todos os filmes da Sílvia), que assimila muito da escrita de Maria Gabriela Llansol sobre a ideia de comunidade, o fulgor, a deshierarquização e o Vivo.
 O filme recupera a história do anarquista português António Gonçalves Correia e das suas «comunas» – primeiro, a «Comuna da Luz», em Vale de Santiago/Odemira (1917-18), e depois a «Comuna Clarão», em Albarraque (1926) –, e insere essa história na longa luta de resistência contra os senhores da terra num Alentejo desde sempre marcado por profundas desigualdades.
A Sílvia resume assim a ideia do seu filme, de que nos falará mais pormenorizadamente no dia 22:
«Qual a relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?» Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade», o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda do cinema?


5.6.19

LLANSOL NA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA

Tivemos ontem, em colaboração com o grupo de leitura da Biblioteca / Espaço Europa, de Campo de Ourique, uma sessão na Feira do Livro de Lisboa, com leitura de textos de Maria Gabriela Llansol pelos actores Mónica Garcez e Pedro Oom, e apresentação de João Barrento e Maria Etelvina Santos. Percorremos alguns dos principais caminhos desta Obra, olhando-a do ponto de vista de quem a escreveu e daqueles a quem ela se oferece à leitura.
Mónica Garcez e Pedro Oom lêem Llansol

31.5.19

LLANSOL EM PARIS

No próximo dia 6 de Junho será apresentada na Fundação Gulbenkian em Paris a antologia francesa de textos de Maria Gabriela Llansol que organizámos para as edições Pagine d'arte, À l'ombre du clair de lune.


26.5.19

«PORQUE HÁ UM CONTRATO...»
O Vivo e a tecitura do mundo


Tivemos ontem no Espaço Llansol uma sessão viva sobre o Vivo. Com a participação da Profª Teresa Cadete (jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa), escritora e até há muito pouco tempo Presidente do PEN Clube Português, com uma permanente intervenção em áreas como as do Comité dos Direitos Humanos, dos Escritores para a Paz, da luta contra o Acordo/Aborto Ortográfico... Apresentámos mais um caderno de textos de Maria Gabriela Llansol sobre o tema, e pudemos ver uma dupla exposição: de livros, cadernos manuscritos, documentos da biblioteca e do espólio de Llansol, e de painéis com fotografias legendadas que mostravam alguns dos «Vivos» que acompanharam a Maria Gabriela ao longo da vida – do gato Fanfan da infância à Melissa de Sintra e aos muitos gatos dos anos da Bélgica e de Colares, de Prunus Triloba ao pinhal de Colares e ao Grande Maior da Volta do Duche e ao cão Jade...





O ponto de partida foi o titulo que Teresa Cadete encontrou para a sua exposição: «Presos no tecido do mundo», que implica desde logo uma visão holística, de interdependência e cooperação entre todos os agentes do Vivo:

Porque há um contrato... um «acordo de criação»... É o homem que tarda no cumprimento 
da sua parte do acordo.
Aliás, todo o movimento do texto e das figuras de desenrola numa respiração ampla, marcada
por uma sístole e por uma diástole. A sístole é aguda e está a cargo do Homem, que tem por
incumbência perscrutar. A diástole compreende os graves, que estão en contacto com as
fontes de alegria. Sempre se pediu que a alegria fosse profunda, como o amor. Os graves
estão a cargo dos animais e da terra. (M. G. L., entrevista «O espaço edénico»)


Abordaram-se em seguida algumas questões subjacentes aos textos de M. G. Llansol que incluímos no caderno Llansol: O Contrato com o Vivo, para os amplificar com considerações sobre o estado actual dessa antiga dialéctica tensional entre os contratos – o social (de Rousseau) e o natural (de Michel Serres) – e sobre a relação entre os universais antropológicos da espécie humana e os direitos de todas as outras «entidades» do Vivo. Teresa Cadete proporcionou-nos uma perspectiva informada e crítica sobre essa grande construção a que Llansol sempre chamou o seu «projecto do Humano»:

A ideia de que tudo o que não é humano tem, tal como o humano, necessidade
de redenção, é vital para a nossa continuação aqui, ou noutro lugar.
(M. G. L., Onde Vais, Drama-Poesia?)

As propostas de leitura do Vivo com recurso a teorias sistémicas de teor holístico revelaram-se, sem surpresa, muito próximas do pensamento sobre o Vivo e o Humano que encontramos nos textos de Llansol. Os três tópicos evocados por Teresa Cadete – os elos da cadeia do Ser, a ciclicidade regeneradora da natureza (contrária aos ciclos industriais e à fatídica ideologia do «crescimento» que nos dominam) e o princípio da cooperação (e não destruição) para manter o equilíbrio da vida no globo – encontraram naturalmente as suas correspondências em M. G. Llansol:

A grande e profunda tristeza dos humanos (e também das outras espécies) vem-lhes de 
terem perdido o anel. Esta realidade tem especial incidência em nós, porque só nós
podemos decidir deixar o outro ao abandono. Coisa que um bicho, uma planta, o cume
de uma montanha, o curso de um rio nunca fazem...
Não reprimas o desejo profundo de beleza, mas nomeia as relações que nascem entre os 
seres e as coisas, entre o vivo e o inerte. A beleza está ligada ao inesperado, ao novo; odeia 
o monótono, o fixo pelo fixo, e seguro por medo; impele o movimento e, sobretudo, inscreve 
no vivo um princípio de bondade... («O espaço edénico»)


Convocámos, na discussão animada que se seguiu, muitos nomes, livros, ideias (Rousseau e Adam Smith, Spinoza, Goethe e Schiller, Luc Ferry e Michel Serres, Emanuele Coccia e José Tolentino Mendonça...), para concluirmos que não há no «projecto do Humano» de Llansol propriamente uma utopia – pelo menos no sentido clássico do termo –, mas antes a afirmação de um «princípio esperança» (como o de Ernst Bloch e da sua «utopia concreta») e a construção livre e des-hierarquizada, evolutiva e convergente, de uma ucronia que convoca para o seu texto toda a pluralidade do Ser, segundo um duplo princípio «sensualético» de bondade e de beleza:

A folha erótica
A folha erótica não é de um caderno, de um livro_______ é de uma árvore. Tem um grito 
cantante, de animal, depositado nas nervuras. Não sei a que ramo vegetal de vida pertence. 
É como eu...
Se o erótico for sempre a manifestação de um instinto genésico, isto é, corresponder 
sempre a um instinto criativo feliz________ se o orgasmo for a última pedrada na folha 
resplandecente
que não se magoa,
mas voa,
se, voando, deixar a mesma folha que era no ramo_______
se o luar libidinal for o último azul do verde da folha erótica,
então ficarão arrumadas as palavras
que pronunciaram como a felicidade tinha sentido e era o único espaço de procriação...
(Caderno 1.51, 16 de Julho de 1998)


20.5.19

LLANSOL E IBN 'ARABÎ EM REVISTA

Acaba de ser publicado online o número VI, de 2019, da revista El Azufre Rojo (O Enxofre Vermelho), revista de estudos sobre o místico sufi Ibn 'Arabî, editada pela MIAS Latina, a Sociedade Ibn 'Arabî de Murcia.

Este número reproduz as intervenções do Colóquio A Imaginação do Amor, que teve lugar em Lisboa em 2017, com organização do Espaço Llansol, da MIAS Latina e do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com participação portuguesa, espanhola e brasileira.
Todas as intervenções – e ainda um depoimento pessoal da Profª Christine Gruwez, que conheceu Maria Gabriela Llansol no exílio da Bélgica e a introduziu ao místico sufi – podem ser lidos na versão PDF a que se pode aceder através do seguinte link: https://revistas.um.es/azufre/issue/view/17961/1171

14.5.19

LLANSOL: O CONTRATO COM O VIVO

No próximo dia 25 de Maio, pelas 16 horas, teremos mais uma das nossas habituais sessões exploratórias do universo Llansol, desta vez em torno da presença do «Vivo» (toda a natureza, plantas, animais e até os chamados «inertes») na sua Obra e na sua vida. Conversaremos com a Profª Teresa Rodrigues Cadete, da Faculdade de Letras de Lisboa, sobre este tema tão actual, mostraremos um video feito para o nosso encontro da Arrábida por Regina Guimarães e Saguenail, ainda com Maria Gabriela Llansol, em 2003, daremos a ver documentos, livros e fotografias sobre o tema, e o público lerá textos de Llansol sobre o Vivo.
Nesse dia, como diria a Maria Gabriela, seremos todos «Vivos no meio do Vivo». E poderemos lê-la, como habitualmente, em mais um dos nossos Cadernos de Tejo-Rio dedicados a este tema.

8.5.19

LLANSOL PELO MUNDO

Dois eventos em torno de Maria Gabriela Llansol, que continua a fazer caminho entre nós e pelo mundo:
1. Hoje, às 19 horas, Maria da Conceição Caleiro lerá Amar Um Cão e conversa com o público na livraria Snob/Cossoul em Lisboa (Rua Nova da Piedade, 66).


2. No dia 14 de Maio, das 12.30 às 13.30h, Ana Rita Reis, Doutoranda da Universidade de Coimbra, frequentadora regular para investigação no Espaço Llansol desde Sintra, actualmente Leitora do Instituto Camões na Universidade de Guadalajara, México, fará uma conferência em que põe em contacto Maria Gabriela Llansol e o escritor chileno Roberto Bolaño.