14.9.22

DOIS NOVOS LIVROS:

MARGENS E DIÁRIOS

Acabam de sair dois novos livros, que apresentaremos condignamente nas próximas Jornadas Llansolianas, em Outubro, mas de que damos já conta.

O primeiro, na série dos Livros de Horas com inéditos do espólio llansoliano (Escrito nas Margens. Livro de Horas VIII, 288 p. na Assírio & Alvim), reune toda a marginalia, a escrita nas margens e nos espaços brancos dos livros da biblioteca de Llansol. Sobre ele escreve João Barrento na Introdução:

«Este novo Livro de Horas é preenchido pela escrita nas margens expectantes de uma boa parte dos livros lidos por Maria Gabriela Llansol. Nas onze partes em que o organizámos, estabelece-se uma imediata conexão, que Llansol por mais de uma vez destaca, entre o acto de ler e o impulso de escrever. Trata-se de um gesto diferente, e único, de escrita a partir da leitura, para o qual a autora inventa um novo verbo: escreler. Partindo da distinção (e complementaridade) entre a escrita que nasce do olhar sobre o mundo (que em Llansol pode ser o da imanência das coisas ou o do curso da História) e aquela cuja origem primeira é o livro alheio, chegamos a essa dupla forma de escrita-leitura: a do escre-ver (o livro do mundo) e a do escre-ler (o livro do outro).»

O segundo livro que agora saiu é o 23º volume da nossa Colecção «Rio da Escrita» (Espaço Llansol/Mariposa Azual, 153 p.), e documenta as Jornadas Llansolianas de 2021: «A Conta-corrente do Mundo»: Llansol e a escrita do diário. Para além das habituais intervenções (de João Barrento, Ilse Pollack, Maria Etelvina Santos, Ana Marques Gastão e Cristiana Vasconcelos Rodrigues), inclui larga documentação em imagens, do video-diário apresentado pelas artistas Ana Mata e Catarina Domingues (Cadência), de dois dos Arquivos de Diários da rede europeia, o de Pieve Santo Stefano, em Itália (onde tudo começou em 1948) e o de Lisboa. Inclui ainda documentação visual e textos sobre os Diários lidos por Llansol e os muitos projectos de diários que foi fazendo ao longo da vida, bem como uma recolha de textos, éditos e inéditos, do seu pensamento sobre a forma do diário.

31.8.22

 COM LLANSOL, NA ESCOLA...


Os «Cadernos de Leitura», da editora brasileira Chão da Feira (Belo Horizonte), que já alcançaram o belo número 152, preenchem a sua última edição com um texto de Maria Carolina Fenati, antiga colaboradora do Espaço Llansol em Sintra, intitulado «Aprender e escrever – Maria Gabriela Llansol e as crianças da Escola da Rua de Namur». A matéria é recuperada da tese de doutoramento de Carolina Fenati, apresentada à Universidade Nova de Lisboa em 2015, e o texto dá conta das experiências singulares levadas a cabo nessa Escola de Lovaina, fundada por Llansol e Augusto Joaquim em 1971. O assunto foi também já amplamente tratado e documentado no volume da nossa colecção «Rio da Escrita» A Escola dos Contra-grupos. Uma nova geografia pedagógica e social (Lovaina, 1971-1979) (Espaço Llansol/Mariposa Azual, 2019). E uma das experiências mais interessantes de trabalho interdisciplinar com as crianças foi também já apresentada em livro pela Editora Chão da Feira: a história infantil, escrita e concebida por Llansol, Augusto Joaquim e as crianças da Escola, e documentada com desenhos destas (A casa do alto, Chão da Feira, 2021: vd.neste blog, o dia 5 de Novembro de 2021).



17.7.22

À SOMBRA DE LLANSOL

EM VILA VELHA DE RÓDÃO


A Biblioteca Municipal José Baptista Martins, de Vila Velha de Ródão, e a sua activa e inventiva responsável, Graça Batista, vêm desde há uma década chamando pessoas à leitura, à escrita, à natureza, à partilha de pensamento em Comunidades de vária ordem, vocacionadas para todas as faixas etárias. Isto vem acontecendo também há já bastante tempo sob a inspiração do Texto de Maria Gabriela Llansol. Agora com uma série de postais que apelam à ligação com os livros e com a escrita, em projectos que se vão sempre renovando. O verso de cada postal dá conta desses projectos, partindo sempre de um fragmento de Llansol que serve de guia e fio condutor.

Deixamos aqui alguns, que nos chegaram ontem pela mão da Graça! Muito obrigado!








14.6.22

A OFICINA DOS MURMÚRIOS

Leitura e criatividade / Arte e Natureza


No próximo dia 25 de Junho, pelas 16 horas, a artista e animadora cultural Marina Palácio orientará, no pátio da nossa Casa de Julho e Agosto, uma actividade com crianças no âmbito das «Oficinas de Leitura e Criatividade – Educação pelo Livro, Arte e Natureza», que criou e orienta desde 2009 por todo o país (em escolas, bibliotecas e instituições culturais), e também em alguns países europeus e africanos.

Desta vez, a «Oficina dos Murmúrios» partirá do livro de Maria Gabriela Llansol Amar um Cão (na versão «para os mais pequenos» feita pela escritora Hélia Correia, disponível nesse dia num dos nossos cadernos), e levará crianças (e adultos) a consciencializar o lugar do «Vivo», como Llansol o via, através da leitura, da escrita, do desenho, do diálogo – num exercício de «observação sensível e escuta poética» que Marina Palácio sintetiza nas seguintes questões: «E se começássemos a aproveitar as plantas não só pelo que produzem, como também por aquilo que nos podem ensinar? Serão as plantas, os animais e outras formas de vida os grandes poetas ao longo dos tempos?»


(Desdobrável que servirá de «Folha de sala» para a sessão)

15.5.22

A LUZ DE LER LLANSOL

E O PRINCÍPIO DA DESPOSSESSÃO


Foi no sábado, dia 14, mais uma sessão da série «A Luz de Ler», em que escritores têm vindo a dar conta da sua relação com o universo da escrita de Maria Gabriela Llansol, e os modos de a ler. Desta vez com o poeta Luís Filipe Pereira, autor de três livros de poesia densos e originais, escritos – tal como o próximo, a sair em Junho – em diálogo mais ou menos explícito com escritores, filósofos, artistas, com quem o poeta convive há anos, em particular António Ramos Rosa e Maria Gabriela Llansol.

Os livros de poesia de Luís Filipe Pereira

João Barrento apresentou a Obra deste autor, destacando aspectos que podemos pôr em paralelo com os modos da escrita de Llansol, como a capacidade de ver e transmutar o fluxo incessante do rio das imagens, a linguagem que é expressão de uma total autonomia (imagética) do dizer que nasce do ver, com referentes concretos que se esfumam mas nunca se perdem de vista; a poesia que busca trazer à palavra, não lugares ou acontecimentos, mas «paisagens» no sentido llansoliano do termo (espaços animados e vibrantes, uma língua própria em acção); a centralidade de cadeias isotópicas focadas em imagens de luz e de sombra, numa poesia de grande densidade, conhecedora da carne e do sangue (da crosta e do miolo) das palavras, e sensível aos apelos mais humanos, transcendentais ou ínfimos, de um mundo sempre vivido e transformado. Partilha-se aqui com Llansol a capacidade (necessidade?) de transmutar o visto em visionado, para chegar ao outro lado das coisas, ao cerne invisível da película do visível. Tudo isto num trabalho rigoroso e criativo com a linguagem, para chegar a uma fala poética própria, muito para lá do dizer comum (até de grande parte da poesia que hoje se faz).

João Barrento e Luís Filipe Pereira

E Luís Filipe Pereira trouxe-nos, para além de comentários que esclareceram a sua ligação com a Obra de Llansol, uma intervenção reveladora de grande saber filosófico e literário, e sobretudo de um raro conhecimento de uma escrita e de um mundo complexos e luminosos, que o poeta leu a partir de um motivo que é muito mais do que isso, porque pode explicar o móbil que desde sempre alimentou o «projecto do humano» de Llansol: a figura e os significados múltiplos do «Pobre» nesta Obra. Como sempre em Llansol, longe dos sentidos mais correntes do termo, a figura do pobre, o princípio da «despossessão» (há muito proposto por Silvina Rodrigues Lopes) e do «desmunir» (no posfácio a A Restante Vida) pode explicar as transmutações operadas em todas as figuras históricas da Obra da autora e o que acontece na «casa do Texto» e no processo único da escrita de Llansol. Luís Filipe Pereira iluminou este princípio fundador do trabalho da «escrevente Llansol», comentando detalhadamente os muitos encontros dos seus livros com os das inúmeras figuras que os alimentam e que são, elas mesmas, exemplos acabados dessa noção de pobreza ou despossessão de marca humanamente positiva: de Camões (Comuns, «o Pobre», em mais do que um livro) a Spinoza, dos místicos a Rilke, de Hölderlin ao «eremita» Raimundo Lull, de Pessoa a Eckhart ou Müntzer, e tantos outros.


2.5.22

 «A LUZ DE LER»

COM O POETA LUÍS FILIPE PEREIRA

No próximo dia 14 de Maio, pelas 16 horas, daremos continuidade às conversas com escritores que lêem Llansol, desta vez com o poeta Luís Filipe Pereira, desde há muito legente desta Obra e escrevente que a integra, explícita ou implicitamente, na sua poesia. Disso nos falará o poeta, autor de obras como A Tela do Mundo (DG Edições, 2008), No Lugar da Pouca Farinha (Temas Originais, 2016) e Consoante as Estevas (Coisas de Ler Edições, 2018).

Luís Filipe Pereira é licenciado e pós-graduado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, licenciado em Literatura Francesa e pós-graduado em Criações Literárias Contemporâneas pela Universidade de Évora, onde concluiu também o Mestrado com uma tese sobre a poética de António Ramos Rosa em diálogo com a filosofia de Maurice Merleau-Ponty. Para além dos três livros de poesia referidos, tem ampla colaboração em revistas e publicações colectivas nas áreas da poesia e do ensaio.

11.4.22




«SERES MUSICAIS E VIVOS»

Os gatos de M. G. Llansol



(Fotografias: Maria Etelvina Santos)

A tarde de sábado no Espaço Llansol foi dedicada a esses seres singulares, «musicais e vivos», os gatos, em todas as suas variantes – e são muitas as que nos oferecem os livros e os cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol: de Fanfan, em 1933, de pé com o seu bastão na varanda da Rua Domingos Sequeira em Campo de Ourique, até à derradeira companhia, a de Melissa, em Sintra. Melissa, «a Douradinha», a «Fidelinha», que haveria de terminar os seus dias, em idade avançada, na companhia de uma amiga mais nova, a gata Emily, em casa de Hélia Correia.

Hélia: a sabedoria felina

Hélia Correia ouvindo, deliciada, a apresentação e as leituras que «uma pequenina beguina» lhe veio ofertar...

(Fotografias: Fátima Vicente Silva)

       Foi precisamente a escritora Hélia Correia que, numa sala repleta, nos introduziu neste universo felino, com um saber e um dom intuitivos que nos levaram às origens e à história destes seres que, segundo a Hélia, fogem às leis da evolução das espécies e ocupam um lugar absolutamente singular no mundo animal. E entrámos, com a Hélia, também no universo múltiplo dos muitos gatos de Llansol desde o exílio da Bélgica, e das suas histórias de vida, narradas nos muitos textos que nos chegaram.

                        

(Fotografias: Fátima Vicente Silva)
Tudo isto documentado em dois cadernos que acompanharam a sessão,  que  terminou com leituras de textos de Llansol por Teresa Cadete, Helena Roldão e Michelle Nobre Dias, enquadradas pela voz viva e infantil da Ana Filipa.


31.3.22

 O TERRITÓRIO DOS GATOS

No sábado, dia 9 de Abril, pelas 17 horas, trataremos em mais uma sessão do Espaço Llansol, com comentários da escritora Hélia Correia, de um tema aparentemente marginal, mas de facto com um lugar importante em alguns livros e sobretudo nos cadernos de escrita de Maria Gabriela Llansol desde os tempos do exílio da Bélgica, até aos últimos anos, em Colares e Sintra: os muitos gatos que acompanham os seus dias, com identidade e histórias próprias, numa troca de afectos permanente.

O caderno que fizemos para a ocasião documenta bem o tema. Alguns dos textos que aí figuram serão lidos por três frequentadoras do Espaço Llansol, também elas amantes dos felinos: Teresa Cadete, Helena Roldão e Michelle Nobre Dias

28.3.22

OS PLÁTANOS DE SINTRA/COLARES... E O DE LLANSOL

Devido à intervenção persistente da Associação de Defesa do Património de Sintra, da associação Alagamares, de Colares, e de outras instituições e cidadãos de Sintra, foram recentemente classificados como árvores de interesse público 33 plátanos em Colares. O facto foi assinalado pela Alagamares com uma placa que contém duas frases, uma de Platão e outra de Maria Gabriela Llansol.

Em 2009 a Câmara Municipal de Sintra reconhecera já o interesse público de um plátano particular da «Volta do Duche», que tem lugar de destaque no livro de Llansol Parasceve. Puzzles e ironias, e mereceu uma placa especial, que ainda se encontra aos pés desta árvore, com uma citação deste livro. Reproduzimos aqui a placa original do «Grande Maior» e o cartaz que fizemos na altura.



13.3.22

OS DESENHOS DE LLANSOL

Na sessão do último sábado, em que mostrámos e comentámos os milhares de desenhos de todos os tipos que povoam os cadernos de escrita de Maria Gabriela Llansol, pudemos contar com a colaboração do pintor Pedro Proença, que fez uma abordagem múltipla e contextualizada dessa prática de escrita visual paralela, com referências à tradição do desenho e às várias possibilidades de leitura dessa «grande figuração» de ausências presentes que é o desenho desde as origens. Origens essas, desde os hieróglifos e as escritas orientais, em que escrita e desenho se entrecruzam – como acontece em Llansol.

A abrir, para dar ao público que enchia a sala uma primeira entrada neste universo, passámos o video que se pode ver clicando neste link: https://vimeo.com/687614258

                                             Pedro Proença medita e comenta...

Pedro Proença interrogou-se sobre o modo como nascem estes desenhos, as ambiguidades ou polaridades que a própria autora neles vê, quase sempre em diálogo com a escrita – ela própria, para Llansol, uma forma de desenho –, para acentuar a importância da linha e dos seus gestos nas formas essencialmente «vitalistas» dos desenhos de Maria Gabriela (o que não exclui a presença de outros registos, conceptuais, narrativos, construtivistas, expressionistas, minimalistas...). Mas será, segundo Proença, esse lado vitalista o dominante, pelo claro predomínio das formas circulares e espiraladas, dos motivos florais ou dos corpos. O desenho, salientou Pedro Proença, é assim uma forma de agir, mais sensível do que a da própria escrita, uma «meditação ou tensão amorosa» prolongada (isso é visível, por exemplo, quer nas ligações frequentes entre desenho e escrita, quer nas muitas páginas de desenhos que, nos cadernos de Llansol, nascem durante reuniões e colóquios que não acabam!).

O desenho, conclui Pedro Proença, é aqui uma forma de vibração particular, semelhante à do tactear da criança no processo de aprendizagem da escrita, nesse caso com os inevitáveis desvios dos erros ortográficos. A pulsão de escrever é também, na Llansol adulta, uma forma de desenho, e vice-versa, e ela própria destaca esta interacção nos textos que incluímos nos cadernos feitos para esta sessão. Algo que os presentes puderam ver claramente nos muitos cadernos e papéis avulsos com os desenhos originais, que seleccionámos do espólio de Maria Gabriela Llansol.



Desses cadernos leu, no final, o actor Diogo Dória alguns fragmentos de Llansol sobre desenho e arte, que a seguir se transcrevem.


Diogo Dória lê


1



«OS PEQUENOS DESENHOS DÃO PRAZER ÀS LETRAS»

Fragmentos sobre escrita e desenho


O sonho

apresentou-se-me numa sucessão de cenas. Professor de desenho deitado numa cama. Folhas espalhadas. Ensina a vários alunos que se vão sucedendo. Chega a minha vez. Explico-lhe que nem sequer tenho a noção do espaço, que nem sei desenhar. E escrever? Escrevo menos mal, respondo, com um sorriso.



Escrever é menos ácido do que desenhar.


Não sei desenhar, mas, escrevendo, sei desenho. Olho, primeiramente, e acima de tudo, para o desenho do que escrevo. Rasurar não é escrever, o texto interrompe-se quando se rasura, quebra o curso que liga a mão a qualquer coisa totalmente inexpressiva enquanto não se exprime nesse movimento. A firmeza deste caderno liga-me à matéria do que sinto ser o mais vibrátil material.   



Apetece-me desenhar substâncias puras, e permito-me pensar que, desenhando, poderia escrever palavras à vontade, com sublimes erros de ortografia.



Não desenho, mas capto as linhas do desenho.

Sei qual é a carne da cor e da imagem________       



O que comanda a minha mão – escrevendo – é o prazer do desenho. Encaracola as letras, dá-lhes um movimento de cavalo, ora em paseio, ora em corrida. Geralmente em corrida.

Só sei desenhar letras, dar-lhes contornos de garupas em movimento.



Florzinha de desenho: 

não deixou de desenhar 

colorir-se toda a noite; 

estava alvoroçada, com o lápis na mão. 

Sua espécie anterior 

seu epicentro era o silêncio,

agora desenhava,

tinha um corpo.



... Sinto-me diferente do que sou – subtracção e soma que prossegue acertando contas. As letras seduzem-me como pequenos desenhos livres e acerados. São diminutivos do meu pensamento.



Eu nunca tinha reparado na beleza de «uma página caligráfica» – vê-la como desenho, obra de beleza, fonte de procura. Nunca tinha reparado – não –, tal era o alvoroço de escrever, de escrever canto, na sua perturbação quente, mas calma.



Desenho com as letras o que está oculto no meu pensamento e que, sem elas trepidando, ficaria para sempre oculto, pelo menos de vós.

Desenho, com prazer, os contornos, e arrisco-me a voltar a ler a frase depois de escrita. Com prazer.



Descubro a pergunta: desenhar é melhor do que escrever?

Descubro a resposta: Há uma coincidência feliz entre as duas partes de um todo azul...



2



O ELOGIO DO FULGOR

Fragmentos sobre arte e artistas



a arte obsidia-me. Compreendo mal a sua natureza. Vejo-a intimamente tão perto que o que ela é________________ eu sou. É uma atmosfera de louvor à consciência, ao sentimento de a ver pensar inabalável. Porque ela está no olhar quando ele, atento, se envolve_____________ e enfrenta. O que ela vê nesse olhar, fica unificado consigo. Há uma intimidade entre a memória do olhar e a memória da consciência. Memória de um olhar que é espelho de energia. Energia-fulgor que passa num lampejo.


e pouco a pouco,

o texto apodera-se do fulgor e desdobra-o em imagem sobre o papel. Tornam-se a única realidade palpável e coerente. Esta é a realidade possível que me obsidia.



O artista não é uma testemunha sem o saber, é o personagem principal da sua obra. Se viver ao nível da vida, não viverá ao nível da transformação da vida.



Compreendo agora que a arte se transforma em quem nós somos claramente.



A arte só pode ter origem num centro rigorosamente anónimo.

    A arte é uma física experimental.



O «cálculo» do estatuto da obra de arte. Pode-se assim ler duas vezes uma obra de arte: segundo as impressões produzidas, segundo a desmontagem e [o] funcionamento. 



Psicologia é para os actos medíocres (medidos) da vida. O artista, ou encontra a forma, ou não existe.



Para o artista, amar é «prodigalizar formas». 



O modo mais eficaz, e menos perigoso, de atingir as zonas interditas do pensamento________ é com os instrumentos da arte. Sem  a arte mais se fechariam à nossa volta os círculos normativos. 



Nada_____ a não ser um traço, indicia a beleza.

Só progridem os grupos ou seres humanos em que opera a contradição.

O percurso através das imagens da visão artística_______ o artístico como expressão de formas espirituais em evolução. 



Ao contrário de Nabokov, eu não digo que a arte é volúpia,

a arte desfaz-se

e o seu modo de entrar em mim nunca é igual. 



_________ Gosto da pintura porque ela estende o olhar, antes da compreensão – tal como um sonho.



Os quadros________

Primeiro está a parede, branca, sombreada ou luminosa, e o rectângulo, ou o quadrado, ou o círculo, desce sobre ela. Não é um livro, mas vê-se. Eu tenho por hábito pensar os quadros, abrangê-los com a ilusão de ler — estando simplesmente a olhar. O quadro é estático — parece. Mas se eu deixar meu coração zumbir por cima do olhar, concentrar nele a abertura maior da minha consciência — o quadro evade-se, adquire para si toda a liberdade do meu espírito. Logo me apetece relembrá-lo, ou escrevê-lo, se estou ausente; é compacto de tintas, ou lápis, ou óleo ou aguarelas, mas o que está a perturbar-me agora tem uma árvore sobre uma mancha figural rosa. Delas nasce uma frase: para bem compreender que o problema de criar é insolúvel, é necessário estar no acto de criar.