2.6.24

 OS TEMPOS DA GRAFONOLA

O sábado passado decorreu, no Espaço Llansol, entre os livros e a música da grafonola. Regressámos à infância de Llansol, em Alpedrinha e Campo de Ourique, e aos gostos musicais de uma média burguesia dos anos trinta. Primeiro, através da contextualização – social, familiar, cultural – da música gravada na intervenção da Profª Leonor Losa, de cujo livro Machinas Falantes. A música gravada em Portugal no início do século XX transcrevemos alguns momentos que abordam a matéria de que a autora nos falou:

«As formas de audição de som e música mediadas pela tecnologia de reprodução sonora descrevem uma das significativas transformações de hábitos e práticas sociais motivadas pela modernidade tecnológica, num período de acontecimentos políticos e sociais marcantes no contexto nacional e internacional. Estimulando a rápida circulação e o consumo massificado de conteúdos musicais, a gravação veio instituir novos modos de relação com repertórios e práticas musicais, aparentemente sob o signo exclusivo do entretenimento. (...)

Os processos sociais, políticos e económicos que o país atravessava encontraram ténue reflexo nos conteúdos da música gravada. Quando acontece, é sobretudo no repertório de teatro de revista – tradicionalmente crítico e consumindo a realidade política e social do país como fonte primordial dos conteúdos narrativos. (...) Na sua maioria, o repertório fonográfico situava-se num terreno neutro, sobretudo de carácter lúdico. (...) As empresas fonográficas com representação no país, num processo dialógico compreendendo o seu público, encontraram um terreno de exploração fonográfica fortemente apoiado em repertórios e práticas musicais de enraizamento mais ou menos urbano, de amplo reconhecimento local. A coexistência de diversos espaços comerciais dedicados à fonografia nas principais cidades portuguesas dava conta, como vimos, de que uma economia de mercado sustentável se havia formalizado no país. Contudo, esta existência conflitua com a inexistência praticamente total de elementos discursivos sustentando a emergência de um espaço de expressão social das práticas de escuta, consumo e produção de música gravada. Nas fontes da época, a música gravada não é contemplada, um fenómeno de invisibilidade que perdurará ao longo da história, desconhecendo-se as dinâmicas de produção de música gravada neste período.(...)

Contrariamente ao que as fontes da época sugerem, discos e gramofones parecem ter encontrado um terreno de existência e expressão gerador de novos modos de consumo de música e, sobretudo, recheado de sentidos sociais, no qual a circunscrição de categorias musicais genéricas constituiu um meio eficaz de mediar a criação de práticas sociais em torno da música gravada. (...). A análise destas categorias genéricas, mais do que um meio de aceder a diferentes formas de organização de géneros ou estilos musicais (por vezes sobrepostos entre diferentes categorias), permite-nos compreender as formas de organização da realidade subjectiva e empírica e, portanto, a génese da formação histórica de fronteiras discursivas de gosto, tantas vezes promovendo modos mais alargados de diferenciação social (de nacionalidade, classe, identidade regional, entre outras).»

João Barrento comentou depois o tema, e a importância da música na infância de Llansol, através das várias referências à grafonola, aos discos do «His Master's Voice» e à dança que eles suscitavam, que recolhemos no caderno que acompanhou esta sessão, que inclui também o catálogo descritivo dos 47 discos que ficaram no espólio, num leque que espelha os gostos da época, e em que sobressaem a música de dança, a música clássica e a opereta, a música popular espanhola, sem esquecer o fado e o teatro de revista. E destacou também o papel da música em geral na escrita de Llansol, através da leitura de registos dos seus cadernos pelos quais é possível compreender como música e escrita se encontram no registo polifónico da linguagem, na alternância melódica das vozes das figuras, ou no próprio texto em geral entendido como uma partitura. Em Llansol, a música e os músicos modulam e modelam o Texto, e os primeiros sons ouvidos na grafonola incitavam-na claramente à dança como forma de expressão: «um passo de dança foi a minha primeira curva de escrever, quando eu dançava, movia o corpo, e seguia por uma história que a mim mesma contava, por entre a música e os movimentos da dança.» 

Finalmente, com a ajuda do especialista em restauro das «máquinas falantes» de há um século, o Sr. António João Guerreiro, colaborador do Museu da Música Mecânica, ouvimos num belíssimo gramofone uma selecção representativa deste repertório das casas dos avós paternos em Alpedrinha, e dos pais na Rua Domingos Sequeira, em Lisboa.

Deixamos aqui, no breve vídeo que se pode ver clicando no link, esse som tão característico das «máquinas falantes», com alguns poucos exemplos do que ouvimos (o «Fado do Algarve», o número de teatro de revista «O teu cantar», a marcha andaluza «La Giralda» e a peça do compositor francês André Hornez «Quand reviendra le jour» – do filme Destins –, composta a partir da «Serenade» de Schubert).

                                    https://vimeo.com/952891553?share=copy

E tivemos ainda, durante todo o dia, uma grande Feira do Livro (llansoliano e não só), em colaboração com a nossa editora, Mariposa Azual, onde foi possível adquirir a preços reduzidos todos os livros disponíveis de M. G. Llansol, os volumes da nossa colecção «Rio da escrita», cadernos temáticos feitos para as sessões públicas do Espaço Llansol, e muitos outros livros de autores portugueses, bem como traduções e obras próprias de João Barrento.






20.5.24

 ECOS VIVOS DO ARQUIVO

3 - A GRAFONOLA

Nas próxima sessão pública do Espaço Llansol (no sábado, 1 de Junho, pelas 16 horas), e no âmbito do ciclo «Ecos vivos do arquivo», recuperamos um sector desconhecido e original do espólio de Maria Gabriela Llansol: os discos de grafonola e gramofone ouvidos nos anos trinta nas casas dos avós, em Alpedrinha, e dos pais, na Rua Domingos Sequeira, em Campo de Ourique.


Contamos com uma dupla colaboração para este dia: da Profª Leonor Losa (etnomusicóloga, actualmente membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra), que explorou os caminhos da história das «máquinas falantes» nas primeiras décadas do século XX, com um livro pioneiro, Machinas Falantes. A música gravada em Portugal no início do século XX (Tinta-da-China, 2013); e ainda do Sr. António João Guerreiro, coleccionador, especialista em restauro desses aparelhos musicais e colaborador do Museu da Música Mecânica.

Ouviremos, numa grafonola por ele recuperada, alguns dos discos que animaram os serões de Alpedrinha e Campo de Ourique (num espectro bastante amplo, característico dos gostos da média burguesia da época: fado, números de revista, opereta, música espanhola, música de dança, mas também clássica, hinos e marchas...). E teremos o habitual caderno sobre o tema, com textos em que Maria Gabriela relembra o seu fascínio pela música do gramofone, e pela música em geral


E faremos ainda, em colaboração com a editora Mariposa Azual, durante todo o dia (a partir das 11h), a Feira do Livro llansoliano (e outros), que não pudemos concretizar durante a pandemia


6.5.24

 MÁQUINAS DA IMAGINAÇÃO

Os «Atlas» de Warburg e Llansol

A sessão de sábado passado convocou mais um «encontro improvável» entre o universo Llansol e outros, afins, neste caso o do «Atlas da memória das imagens» do historiador de arte Aby Warburg. A matéria começou por ser comentada, com referência a Warburg, por António Guerreiro, autor do único livro português sobre esta figura tão original da história da cultura: O Demónio das Imagens. Sobre Aby Warburg (Edição Língua Morta, 2018).

João Barrento e António Guerreiro

António Guerreiro comentou amplamente as noções centrais do pensamento de Warburg, a partir da sua releitura da História (na sua relação com a memória que reabilita e actualiza momentos do passado), de uma teoria da imagem para além da iconologia e da história da arte, de uma ideia da biblioteca como reserva viva e móvel (e não como mero depósito), da imagem não estática mas possuída de uma energia que vem das suas origens e a traz a outros presentes, num processo que lhe confere uma «vida póstuma» (Nachleben). A ideia do «Atlas» assenta, assim, sobre o pressuposto da disponibilidade de toda a matéria cultural para entrar em novas constelações. E poder ser lida à luz de «sinais», gestos, comportamentos de sentido trans-histórico, universal, que inserem a vida das imagens num processo an-acrónico de fórmulas dinâmicas (em Warburg, a «fórmula de pathos», i. é, do dinamismo das imagens, dos ritos e dos mitos) que suscita a metamorfose dessas imagens em configurações e constelações sempre novas a partir de uma origem, segundo uma lei da «boa vizinhança» (e não da ordem lógica) e da possibilidade de súbitas e inesperadas «aparições».

Por sua vez João Barrento propôs um modelo de configuração possível de um «Atlas-Llansol» que abarcaria todo o seu universo de escrita e de vida, hoje reconstituível a partir do seu espólio. Resumem-se a seguir os principais momentos desta intervenção, acompanhada por uma apresentação em Power Point, aqui convertida no video que se pode ver no fim.

O primeiro «atlas» que o Espaço Llansol apresentou, mas que não se chamava assim, foi a grande exposição intitulada – significativamente – «Sobreimpressões», que deu a ver no Centro Cultural de Belém (em 2011), em seis «Lugares» (espaços em que vários tempos, figuras e realidades coexistem!), o grande painel das principais figuras europeias de Llansol, trazidas dos mais diversos tempos e latitudes ao espaço textual das duas primeiras trilogias e alguns outros livros (vd., no video, o «triângulo do mundo figural» europeu). Aí se traçaram as paisagens, as ligações inesperadas, as sobre-impressões de lugares e tempos históricos que geravam constelações surpreendentes… 

Mas hoje será preciso redefinir o termo e o âmbito do «Atlas», no universo Llansol: nomeadamente no sentido de uma construção global e interrelacional de todas as esferas do seu universo. Como uma constelação (termo também caro a Warburg, ou a Walter Benjamin) com várias mónadas disponíveis para diferentes leituras, «funcionalidades» e destinos – atributos, gestos, perfis afectivos novos: uma outra forma de pathos! E indo talvez além da dupla articulação de Warburg (a sua noção de «polaridade»), que trabalha essencialmente com a imagem (o «Atlas Mnemosina das imagens») e a Biblioteca (que abarcava todo o espaço de uma ampla «ciência da cultura» – de facto, uma ciência «ainda sem nome»), e com base numa dialéctica dos contrastes...

No espólio de Llansol, as coisas apresentam-se  de maneira diferente, como se vê neste possível «organigrama» (Warburg chamar-lhe-ia «dinamograma») de todo o espólio/Atlas, que seria preciso animar, mostrando a interacção entre todos os sectores:

Um possível Atlas-Llansol seria, assim, um universo irradiante e sem fronteiras em que tudo tem a ver com tudo, tudo se interpenetra, cruza e ilumina mutuamente, segundo duas leis determinantes: a relação (o link no domínio hipertextual/ hipervisual)  e a metamorfose.

Esse Atlas-Llansol, uma ideia que exige meios técnicos próprios para se concretizar, terá de convocar, em formas diversas de apresentação e exposição, todo o universo físico reconstituível do arquivo/espólio (os objectos-figura), nas suas ligações com o da escrita (cadernos, agendas, dossiers, avulsos, blocos), das leituras (a biblioteca, os jornais, a correspondência), das escolhas (tão pessoais e singulares) de iconografia, de música, de cinema que nos chegaram e que atravessam o próprio corpo da escrita de Llansol; mas também todos os lugares que esse corpo conheceu –  Lisboa, vários da Bélgica, Colares, Sintra, e todos os pequenos e grandes mundos circundantes: o Béguinage de Bruges, os cafés ou o pinhal de Colares ou a Volta do Duche de Sintra –, as muitas casas que viram nascer a escrita desde a infância (e que só por si merecem um atlas próprio), a experiência das escolas, em Lisboa e na Bélgica, a presença constante de animais e plantas, etc…



                   
A exposição que reconstituiu o Atlas do mundo figural de Llansol


A questão que se coloca é: Como dar forma sensível e apreensível a um tal espaço-tempo? Como figurar e relacionar tanta experiência de vida escrita? A Maria Gabriela parece ter consciência desta necessidade de preservar, e mesmo arquivar, para depois permitir uma tal con-figuração global do seu mundo num Atlas abrangente. Alguns momentos do video que aqui se pode ver dão conta desta sua reflexão sobre o «arquivo», a mobilidade da escrita, as constelações móveis que a animam, uma visão da História em que o passado está sempre «em movimento para o presente», propiciando a aparição de constantes «cenas fulgor» (que na nossa conversa relacionámos com a noção de pathos em Warburg).

Mas em cada um desses sectores há cruzamentos de vária ordem: um caderno contém desenhos, os objectos «nómadas» passaram para os livros, as fotografias remetem para lugares de vida e escrita, a correspondência reflecte a exterioridade do trabalho literário, a iconografia encontra-se com figuras da Obra, com relações pessoais, com gostos estéticos, uma cassette de música gregoriana vai dar a uma página de diário, etc, etc.

As imagens ilustrativas do video são meramente exemplificativas de uma determinada realidade de escrita ou biográfica, mas podem multiplicar-se por muitas outras possíveis. Por isso, o processo mais adequado de construir um futuro Atlas-Llansol global será provavelmente o de um hipertexto visual-escritural, sendo que «texto» teria de ter aqui o sentido original de tecido, textura que tudo absorve! Nos tempos de Warburg, há um século, e já muito antes, o instrumento disponível para este fim, no que à escrita diz respeito, era a caixa de fichas, também ela uma máquina da imaginação, um dispositivo móvel e dinâmico que permite constantes mudanças de lugar e vizinhanças e a organização flexível do pensamento.



As caixas de fichas de Aby Warburg (na casa de Hamburgo e no Arquivo de Londres)


Os quadros no video mostram os diversos territórios deste espólio, e também é possível distinguir logo neles vários caminhos,  escalas e cruzamentos diferentes: a planície sem fim dos suportes da escrita, os amplos salões da leitura, as aprazíveis alamedas das imagens (fotografias, iconografia), os atalhos dispersos dos sons (música de vária ordem, em diversos suportes: falaremos disso na próxima sessão!), a floresta colorida dos objectos, sempre disponiveis para entrar no reino figural; os lugares e as casas (também as escolas) de um quotidiano vivido entre o corpo, a imaginação e os afectos; enfim, os animais e as plantas que invadem este território textual de muitas tonalidades e aberto a todo o ser – também ele, na escrita de Llansol, de sentido antropológico global, e mesmo cósmico, e não apenas histórico e social.

Link para o video «O Atlas-Llansol»: https://vimeo.com/manage/videos/942989379


29.4.24

ECOS VIVOS DO ARQUIVO

II - O ATLAS-LLANSOL


A próxima sessão do ciclo «Ecos vivos do arquivo», no próximno sábado, 4 de Maio, pelas 16h,  abordadrá uma visão global do espólio e do universo de M. G. Llansol, à luz da noção, muito particular, de um «Atlas da memória» (textos, imagens, objectos, figuras), proposta há um século pelo historiador da arte Aby Warburg, e que António Guerreiro (autor do livro O Demónio das Imagens. Sobre Aby Warburg, ed. Língua Morta, 2018) comentará, antes da intervenção de João Barrento, que exporá uma visão global e interactiva de todo o arquivo, a partir da projecção de um Power Point e também da exposição que estará presente, a propósito do tema.
A Obra e o espólio de Llansol serão, assim, apresentados como uma biblioteca imensa feita das mais diversas espécies que se interrelacionam hoje no arquivo vivo que é o espólio, em paisagens textuais e visuais que começam com a própria Obra e se continuam pelas dezenas de milhar de páginas manuscritas e dactiloscritas que deixou, pela sua biblioteca pessoal, por sectores específicos (fotografias, audio, video, correspondência, iconografia, etc.) e pelos muitos objectos e lugares de que esta Obra se alimenta.
Chega-se assim à ideia de um grande Atlas-Llansol onde tudo isso caberá e entrará em relações que se situam fora do tempo (an-acrónicas) e convergem para um só tempo, numa carta de regiões que se cruzam – um Atlas da memória escritural, visual, figural, mental, espacial, afectivo...

7.4.24

ECOS VIVOS DO ARQUIVO - I

O QUE É UMA FIGURA?


Da sessão de sábado, dia 6, fica o essencial para a comprensão da ideia de fundo deste novo ciclo, e da noção original de «Figura» em Llansol, através da voz da própria autora.


I - O Ciclo e o Arquivo:


O que significa, neste caso muito particular, «Arquivo»?

Há uma ou duas indicações de Maria Gabriela Llansol nos seus cadernos, que tentámos seguir até hoje, e que lançam luz sobre os modos como tem funcionado este arquivo vivo:

«... procuro, às vezes perdida, encontrar os meus objectos fundadores... A vontade desejosa de arquivo e catalogação surge de novo – como se tudo isso fosse, e fizesse parte, de «o jardim que o pensamento permite...

Não são recordações – é o passado em movimento para o presente...»

E depois, regressando à ideia do arquivo como um «jardim que o pensamento permite» (que foi o de Herbais e é o do próprio texto como fonte de pensamento), ideia que nos tem guiado até hoje:

«A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder 'audaciar-se', exprimir-se em obra que fique em toda a parte_______»

Isto quer dizer que, quando trazemos à luz um «eco vivo» deste arquivo – a voz de Llansol gravada em CDs ou cassetes, os discos de grafonola que reflectem todo um ambiente social da burguesia nos anos 30/40 do século passado, ou todo o arquivo, para mostrar a interacção criativa entre todos os seus sectores (a ideia do «Atlas») –, quando assim procedemos estamos a falar deste «arquivo», não como materiais mortos extaticamente «expostos», mas como um laboratório de possibilidades em que cada peça (suporte de escrita, objecto, livro, móveis...) é uma mónada, e o conjunto uma constelação aberta e multifacetada. Temos, de facto, tratado e dado a ver este arquivo como uma totalidade múltipla que inclui, para além da escrita, a paisagem estilhaçada e una de objectos e lugares, pessoas e retratos, figuras e seres, leituras e ideias. Tem sido a nossa «febre de arquivo» (que lhe dá vida há uma dúzia de anos), algo que Jacques Derrida designou um dia como o contraponto do que também vê como «o mal de arquivo» (que tantas vezes o transforma num conjunto de objectos mortos).

 

 

II - A noção de «Figura»:

 

O primeiro desses «Ecos vivos do arquivo» é então algo que não podia ser mais vivo: a própria voz da escritora, comentando uma noção também ela viva, móvel e não estática, como é a de 'FIGURA'.

Estamos em 2005-2006, com o grupo a que chamámos GELL-Grupo de Estudos Llansolianos, e discutimos durante meses essa noção, tomando como referência uma figura animal, a do cão Jade, e não uma das muitas figuras históricas ou reais que percorrem a Obra, que também nos poderia servir, mas seria mais óbvia expectável (dessas nos ocupámos na grande exposição do CCB em 2011, «Europa em sobreimpressão»: vd. as faixas com essas figuras históricas, hoje patentes na sala de sessões do Espaço Llansol). 


Dessas discussões, que gravámos e depois fixámos em livro (O que é uma Figura?, Mariposa Azual, 2009 – um dos primeiros livros da nossa colecção «Rio da Escrita»), faço uma breve síntese para destacar o que essencialmente caracteriza a noção de figura (por contraste com a de personagem de ficção), que integra inesperadas aparições figurais que não são sequer da esfera do vivo humano, mas animal ou vegetal, ou simplesmente «coisas», objectos que ganham vida – e que têm alguma coisa para nos ensinar....

A partir do pequeno caderno elaborado para esta sessão, e do que ouvimos na voz da Maria Gabriela, podemos chegar a compreender melhor o que é afinal aqui uma «Figura».

Sabemos que os textos de Maria Gabriela Llansol são narrativas sem enredo e sem personagens, uma espécie de tecido de «cenas fulgor» em cujo centro se encontra esta noção de «Figura». A figura é sempre o nódulo-imagem no centro dessas cenas-fulgor: o cão Jade nascendo sobre um medronheiro, aprendendo nomes de plantas e a ler, mas também ensinando o que é um «ambo», um «ser sendo» com identidade própria; S. João da Cruz levitando para mostrar às crianças a leveza do seu pensamento; a «estátua de leitura» mostrando a Témia (e ao Carneiro inglês!) o que é «ler, lendo» (não simplesmente ler, e ponto final, mas ler activamente, e sem fim); o Homem negro da bigorna ou o Cão-lobo, guias e salvadores da mulher que busca a sua identidade...  (no final da sessão conhecemos e comentámos algumas delas, centrando-nos em particular no objecto-figura). 

 

Quanto à figura em geral:

— As figuras «vêm sem ser chamadas»: entram por um qualquer imperativo na casa (corpo-espírito) de quem escreve, são «hóspedes de rara presença». Escrevente, figuras e legente con-vivem nesta comunidade, vista como «um grande universo cosmogónico» (dela nascem sempre outros mundos).

— As figuras são actantes (diferentemente das personagens de romance, que são actores), imagens que vivem (imagens em devir, sem fim e sem morte), e não personagens imaginadas, estáticas, prolongamentos do plano social ou biográfico. As figuras nunca são o que foram (na História ou na vida), porque a sua vocação é a de serem transformadas em algo de diferente e mais humano.

— A figura não conhece limites, não é apenas humana, mas abarca todo o ser e também as coisas, que ganham vida e agem sobre quem as olha. São forças activas, energias em fulgor que sustentam o Texto: são os seus «nós construtivos». Não as há «secundárias», todas são «principais», porque têm um perfil único, móvel e híbrido, sem necessidade de identidade ou nome próprio (que perdem em favor de outros, vários, relacionados com o que fazem, não com o que são no plano biográfico: «o nome é nada»), que as fixaria numa «forma» (e elas não são apenas uma forma, são uma força, algo que age). A figura é sem nome, sem psicologia, sem Eu. E faz parte de um universo sem hierarquias. O seu modo de estar-aí (no Texto) é o uma afirmação pela (aparente) negação.

— A figura tem uma vocação «integrativa»: há uma «ordem figural», onde se inscrevem também o escrevente e o legente; figuras do espaço biográfico da Autora (A.J.=Nómada, etc.), do quotidiano, ou o próprio Texto e os seus títulos (no caso de um livro como O Senhor de Herbais)! Diluem-se assim noções convencionais como as de «autor» «narrador», «leitor», género («romance», «poesia»...).

— A figura situa-se sempre nas margens do institucional («nós herdámos as margens»).

— O objectivo último da invenção da Figura na Obra de Llansol é a (desejada e vista como possível) humanização do mundo. O horizonte último da noção alternativa e englobante de figura é: «Concebe um mundo humano que aqui viva...» – no Texto, e se possível na vida (é aí que vão dar os comentários finais das conversas gravadas): a ideia do mundo como um círculo com 'o humano' no centro, mas sem hierarquias).

— Em resumo, e recorrendo a uma definição de M. G. Llansol num dos encontros do Grupo de Estudos Llansolianos em Dezembro de 2004: Figura é «aquele/aquela/aquilo [e a presença do neutro/da coisa aqui é decisiva!] que é susceptível de ressuscitação ou metamorfose, e que incorpora um princípio de vida».

 

III - Gravações: Llansol sobre a Figura:

 

A audição foi feita por secções, comentadas brevemente. Pode ouvir-se a seguir um breve momento dos comentários de Llansol sobre a Figura. E transcrevem-se na totalidade os textos ouvidos, que figuravam numa folha de sala que acompanhava o caderno da sessão:





IV - Os objectos-figura escolhidos:

 

Para evidenciar melhor o amplo espectro da noção de figura, escolhi dez objectos-figura do espólio. Os objectos têm, naturalmente, o seu lugar no romance convencional, mas a sua função e a sua natureza aí são totalmente diferentes – são sedentários e dependentes, ou mero adorno, e não nómadas e autónomos (como o objecto-figura em Llansol).

Estas designações surgem num postal avulso do espólio que contém uma tipologia do objecto em Llansol. O mais significativo é o «objecto nómada» (também visto como «salvo das águas» – do tempo, da família, da herança...). O objecto nómada é certamente o mais importante no Texto (que é também móvel, «lugar que viaja»): é aquele objecto que muda constantemente de lugar, de luz e de significação, e que a certa altura vai parar ao Texto e nele se integra activamente. Como os que aqui temos, que um dia, olhados de forma diferente, se transformam em matéria figural de primeira ordem, são figuras decisivas para a construção do Texto (o exemplo maior será Um Beijo Dado Mais Tarde, o grande livro dos objectos, de onde provêm quase todos estes, e os textos que os acompanham e clarificam, e que foram lidos por alguns dos presentes na sessão).


Os objectos-figura, para o serem, têm de sair do espaço da autobiografia para entrarem naquele outro a que Llansol chama da «signografia» [do Há] – tornam-se sinais de uma outra existência, como qualquer das suas figuras humanas e históricas. As coisas, mudadas de lugar, «fazem sinal», apelam a novos sentidos. Por detrás desses objectos há toda uma história, tempos vários, sociais, familiares, pessoais, que se reconstituem e se superam pela escrita – e também, neste nosso novo Ciclo, no «Atlas» de uma memória de que são parte integrante e activa (veremos como na próxima sessão).


[J.B.]

 

4.4.24

«ECOS VIVOS DO ARQUIVO»

Novo ciclo de sessões públicas

O novo ciclo de sessões públicas do Espaço Llansol recupera materiais e temas menos conhecidos do espólio, nomeadamente a voz de Maria Gabriela Llansol em debates de 2005-06 sobre a sua noção de «Figura»; a totalidade do seu espólio como um grande «Atlas da memória» (no sentido do historiador de arte alemão Aby Warburg), numa reconstituição interactiva entre todos os sectores; e um acervo ainda desconhecido de discos para gramofone, com as músicas que se ouviam nas casas dos avós paternos e dos pais. As sessões de Maio e Junho têm convidados especiais, como se pode ver pela programação que se segue.


A primeira sessão é já neste sábado, 6 de Abril, às 16h.


2.4.24

A «OFICINA DOS MURMÚRIOS»

Com Jade e Llansol na Serra da Gardunha

A artista e educadora Marina Palácio registou em video a sua experiência com o projecto «Oficina dos Murmúrios», levado a cabo em várias escolas (e no Espaço Llansol), a partir da história do cão Jade contada às crianças por Hélia Correia, e de textos da própria Maria Gabriela Llansol.

A úlrima apresentação do projecto teve lugar no Fundão, com irradiações até Alpedrinha e à «Casa da Estação», dos avós paternos, onde Llansol em criança passava férias de Verão.

Clique no link para ver o video:  https://www.youtube.com/watch?v=1XyZPNBTThI

17.3.24

 LLANSOL: FICÇÃO-CONTRA-FICÇÃO


Na quinta-feira, 21 de Março, pelas 18h30, a Livraria Tigre de Papel (Lisboa) apresenta mais uma sessão do ciclo «Ficção-contra-ficção», desta vez dedicado à Obra de Maria Gabriela Llansol, numa conversa entre Maria Etelvina Santos (do Espaço Llansol) e a poeta Elisabete Marques.

13.3.24

 O ESPAÇO LLANSOL NA FEIRA DO LIVRO DE POESIA 

EM CAMPO DE OURIQUE

O Espaço Llansol estará mais uma vez na Feira do Livro de Poesia, no Jardim da Parada em Campo de Ourique, juntamente com a nossa co-editora Mariposa Azual. Estarão presentes todos os livros disponíveis da nossa colecção «Rio da Escrita», bem como grande parte dos cadernos temáticos das sessões públicas do Espaço Llansol.

O programa dos dias da Feira, entre 19 e 24 de Março, está disponível na página da Casa Fernando Pessoa, organizadora do evento:

https://www.casafernandopessoa.pt/pt/cfp/programacao/evento/feira-do-livro-de-poesia-3?occurrenceID=5948

3.3.24

A «RESTANTE VIDA» DO AMOR

Com a beguina Hadewijch de Antuérpia

Concluimos ontem o ciclo «A Restante Vida» com os comentários (de João Barrento), a habitual exposição (de materiais do espólio e da Biblioteca), o video (com leituras de textos de Llansol sobre Hadewijch, e imagens e peças musicais afins), e finalmente a leitura de Poemas de Hadewijch de Antuérpia (pelas jovens actrizes Eva Dória e Anita Ribeiro). 


Deixamos aqui o essencial dos comentários de João Barrento, que podem ser completados com a introdução ao Caderno que acompanhou a sessão:

  

Hadewijch: O Amor sem porquê

ou:

- O «Amor completo» – e sempre irrealizado, objecto de busca (vd. Luís M. e a sua «Carta às Damas do Amor Completo», em Na Casa de Julho e Agosto);

- Uma dialéctica do Amor (espiritual vs. nupcial, ele e o seu contrário = a vida, o tempo, o mundo...)

 

Estamos no terceiro momento do Ciclo «A Restante Vida do Amor», e regresso à noção de Restante Vida (que não é só de Llansol): já vem dos Gregos, e – ocorreu-me a propósito desta sessão – está presente em Kafka na expressão «das sonstige Leben» (literalmente: «a restante vida»), no capítulo V do romance O Castelo.

Kafka é também (como todas as suas personagens) um dos que «herdaram as margens», uma referência em Llansol, e neste ponto com evidentes coincidências quanto à leitura de um mundo humano «sem raízes», no reverso de qualquer Restante Vida.

Em Kafka, tal mundo é dado pelas instituições do Conde, as leis e o poder do Castelo, e o lugar da personagem K. nesse contexto: «A relação directa com as instituições não era assim tão difícil, porque o papel das instituições, por mais organizadas que fossem, era o de defender coisas distantes e invisíveis, em nome de uns senhores distantes e invisíveis [o castelo inacessível], enquanto K. lutava por algo de vivo e próximo».

[Hoje tudo se extremou, o distante e invisível acentuou-se, e o vivo e próximo quase desapareceu! E já não se luta por uma restante vida – a consciência dessa outra realidade mais real foi absorvida por um novo poder sem face, o digital-artificial].

Um pouco mais adiante lemos: «K. foi remetido para uma esfera de vida fora das instituições, totalmente inapreensível e cinzenta...» Daí a sua busca de uma «restante vida» (ein sonstiges Leben) à margem dos poderes, fora do Castelo. E o narrador pergunta:

«E o que era neste caso essa restante vida? Em nenhum outro lugar K. tinha visto um tal entrelaçamento entre Poder e Vida... Por vezes parecia até que poder e vida tinham trocado de lugares»!

[Sem o saber, Kafka chega aqui até aos nossos dias e ao tema da «biopolítica», proposto por Michel Foucault, em Vigiar e Punir, e tratado também por filósofos como Giorgio Agamben ou Roberto Esposito. Essa biopolítica é a dos poderes que controlam e decidem sobre as vidas/os corpos de cada um, não deixando qualquer espaço para a restante vida. E enganando, fazendo crer que defendem e estimulam a vida… É a política actual da abstracção dos corpos reduzidos a números, a falsa liberdade (cínica) das democracias formais. Mas algo como a biopolítica – e a sua crítica nas sociedades burguesas nascentes – aparece já antes, desde Marx e Nietzsche (vd. Considerações Intempestivas), até Althusser e outros (nos anos 60), com noções como os «aparelhos ideológicos» (do Estado, da escola, da Igreja...) que gerem as vidas individuais. Aliás, já entre os Gregos antigos existia uma distinção fundamental, expressa nos termos (ambos para designar a «vida») zoé (a vida nua de homens e animais, o simples facto de viver) e bios (a «vida qualificada», e quantificada, dos indivíduos ou grupos que a política decide e controla) (vd. Agamben A Comunidade que Vem e Homo Sacer).

E uma nota ainda, que pode aproximar Kafka da nossa figura de hoje, a beguina Hadewijch. Walter Benjamin define a Obra de Kafka como «uma elipse com dois vectores» – o da experiência «mística» (da Kabbala judaica e da própria escrita como «oração«) e o da sua experiência no mundo (a cidade de Praga, a lei, os poderes)]. 

Também em Hadewijch, e Llansol, há dois vectores sempre presentes quando se trata do Amor como forma essencial de uma Restante Vida, como veremos a seguir. E tudo isto está também presente no recente filme de Bruno Dumont (2009), intitulado simplesmente Hadewijch, que trata esta matéria a partir de uma figura feminina contemporânea que recupera esse nome, e que se move entre o o convento e as contradições do amor no espaço do «mundo».


 

A figura de Hadewijch surge precisamente em A Restante Vida, já como figura muito singular, diferentemente dos livros seguintes, onde as beguinas surgem como comunidade, com muitos nomes e artes. Mas Na Casa de Julho e Agosto abre já com uma «Carta de Luís M. às Damas do Amor Completo» que também nos poderia servir de guia nesta viagem pelo tema, central nos primeiros livros, até Causa Amante, se reconhecermos nessas mulheres, e particularmente em Hadewijch de Antuérpia, uma «forma amativa de conhecimento».

O tempo de Hadewijch é também o do  «reino da Dama» na literatura cortês/ trovadoresca, que não deixa de ter ecos na poesia do Amor (Minne) de Hadewijch ou Beatrice de Nazareth – que vão beber (para além do Cântico Maior) alguma influência nos trovadores, mas reduzem o Amado a um só (Ele!) – que pode ser vários, assumir diversas configurações! Nasce aqui, nesta poesia do Amor a um tempo espiritual e do corpo, o chamado misticismo nupcial de João da Cruz, (no Cântico Espiritual e na Chama de Amor Viva), como expressão de uma ligação imediata e directa da Alma com o Amado, um evangelho interior de um Amor eterno... (há também paralelos com Dante, na Vita Nuova, ou, no que à vertente mais conceptual ou «essencial» diz respeiro, com Mestre Eckhart).

São formas novas de religiosidade e vivência extática que atravessam as obras de algumas beguinas, em paticular de Hadewijch de Antuérpia, que não deixou rasto biográfico, apenas poemas, visões e cartas (vd. textos no final do caderno que acompanha esta sessão). É, em Llansol, a beguina mais livre e disponível para metamorfoses, símbolo e figura de um misticismo do corpo, do amor ímpar e da liberdade das imagens, a sua forma própria de restante vida no seio da Comunidade híbrida com a qual convive discretamente. 

Maria Gabriela Llansol ligará as duas correntes: o verbo e a alma, o corpo e a ideia (do Amor), na busca de um «abismo da unidade» que (segundo o místico belga Jan van Ruysbroeck) faz desaparecer «pessoas, modos e nomes»; é uma via intuicionista que liga a experiência directa de um Deus presente na Substância/no mundo, sem mediação (como em Eckhart ou Spinoza) com a vontade de apreensão de uma unidade do Ser, «sem porquê» (como ainda em Eckhart e mais tarde em Silesius, o de "A rosa é sem porquê», no século XVII). E poderíamos evocar ainda outros autores que imaginam um «misticismo sem mística», como os austríacos Hofmannsthal ou Musil (com o seu «misticismo do dia claro», em O Homem sem Qualidades«um mistério pelo qual entramos num outro mundo, o mistério de viver de modo diferente no nosso próprio mundo» (é mais uma possível definição da «restante vida» llansoliana!).

A beguina Hadewijch é em Llansol paradigma de uma concepção aberta de misticismo erótico (ou erotismo místico), uma figura dotada de uma grande capacidade de metamorfose e de mediação (a que propicia as tréguas no «livro da batalha»), que morre e renasce, reencarna em Ana de Peñalosa, no Pobre, no cão Pedra, é a avó azul e a mãe, é Escarlate (em Contos do Mal Errante) e será Psalmodia (em Da Sebe ao Ser)... E regressará ainda bem mais tarde, já na viragem do século, no complexo narrativo recentemente publicado O Texto Catarina, ou o Divã de Hadewijch (Edições Sr. Teste, 2020).

De facto, o aparecimento de Hadewijch na escrita de M. G. Llansol, logo em 1975, situa-a desde logo nessa dupla perspectiva do misticismo (com ligações a Eckhart) e do erotismo (vd. a cena da «sedução de Hadewijch», em 26 de Abril de 1975, no primeiro caderno do espólio, retomada em A Restante Vida, onde a sua primeira palavra é) «Eu vos amo!», o seu primeiro acto «fazer amor» (pp. 27-28). Mas ela é também figura do Espírito (com maiúscula, tal como o Amor nos poemas da Hadewijch histórica).

 

Maria Gabriela parece ler à letra (demasiado à letra?) o misticismo do corpo nos poemas da beguina Hadewijch, e cruza-os com uma outra tradição medieval importante, a dos Fiéis do Amor, os primeiros de uma linhagem mística e filosófica que já encontramos n' O Livro das Comunidades, e de que também Augusto Joaquim um dia se ocupou, ao fazer a dramatização d' O Livro das Comunidades, dando-lhe o título Aos Fiéis do Amor



Também aí as duas beguinas que intervêm são possuídas de grande «densidade amorosa», num plano «totalmente terreal e imanente»: acontece nessa peça a construção do «Modo Completo do Corpo». Em A Restante Vida vemos Hadewijch, sempre ausente ou fugidia, em constante metamorfose e figura de uma só arte, a do Amor, a de uma «poética do corpo» (como lhe chama Michel de Certeau, em La Fable Mystique). Mas os poemas que deixou, e algumas das suas Visões, deixam já perceber a ideia llansoliana do «Amor Completo». Esse «amor completo» é o programa de beguinas como Hadewijch de Antuérpia, fora dos «actos maiores» de todos os poderes do mundo, apontando possíveis caminhos do futuro. Porque, lemos num outro caderno, em 2003, «as beguinas... existiram a seu tempo, pretérito, porque estas damas do amor completo futurantes [i.e., de uma qualquer «restante vida»] haviam de existir...» (Caderno 1.66, p. 90).



Não vou comentar os Poemas de Hadewijch de Antuérpia que iremos ouvir ler, mas gostava de referir ainda ainda uma série de fragmentos de Maria Gabriela Llansol sobre este tema da «Restante Vida do Amor», presentes na folha de sala distribuída, em que os paralelos com Hadewijch são evidentes, na ideia de um amor múltiplo (e sempre incompleto), com várias formas possíveis, e evolutivo, ao longo de uma vida.

A fórmula que poderíamos aplicar a esta visão aberta do Amor é, uma vez mais, a do «sem porquê». Para regressar a alguns tópicos comuns a Hadewijch e Llansol quanto a uma Restante Vida do Amor, poderíamos pôr em confronto frases de uma e outra em que se torna evidente que o Amor, afinal, nunca é «completo» (a sua essência é a da incompletude, que incita à busca); que ele é a grande promessa, mas, como tudo neste mundo, não permanece idêntico a si mesmo, mas se transforma permanentemente; que, prometendo algo como a eternidade, essa eternidade é contraditória; que nele a imagem ideal do paraíso pode facilmente transformar-se num «Nada» (mas também nesse «Nada pleno» estão presentes outras formas de Amor); e ainda que a vida (o modus vivendi, o estar-aí de cada um) pode corresponder a um modus amoris (o «estar no amor», sem mais); porque o Amor, afinal, sendo «inagarrável e inenarrável», é «um inconhecido que se conhece» (diz Llansol), porque este deus humano que Deus desconhece, é «ora gracioso, ora terrível, / agora próximo e ainda há pouco distante...» (lemos num dos Poemas de Hadewijch)...

É o contrário da lição «oficial», ortodoxa, em que o Amor (espiritual) é estável e imutável. Aqui, ele é «qualquer coisa que não tem forma, nem razão, nem figura», como lemos ainda num dos poemas de Hadewijch (que serão lidos no final da sessão).



O video desta sessão pode ver-se clicando no seguinte link:

 https://vimeo.com/918493481?share=copy