6.11.19

«... VIBRAR NA DIRECÇÃO DE UM MUNDO NOVO...»
Nos 88 anos de Llansol

No próximo dia 24 de Novembro Maria Gabriela Llansol faria 88 anos. Antecipando o dia do seu aniversário, faremos no sábado 23 de Novembro, às 17 horas, uma sessão especial acompanhados por Llansol, não só em espírito, mas em vibração sonora; ouviremos, a partir da cassette original, uma entrevista feita na rádio em 1997 (com a jornalista Graça Vasconcelos), em que é possível acompanhar a imagem humana, o percurso e as motivações da escrita de Llansol através da sua própria voz. Uma conversa altamente reveladora, entrecortada por canções portuguesas (José Mário Branco, Teresa Salgueiro/Madredeus, Dulce Pontes, Fausto) e francesas (Jacques Brel, Bernard Lavilliers, Leo Ferré), escolhidas pela entrevistadora para acompanhar e iluminar alguns dos temas da conversa.
E para completar este retrato vivo ouviremos ainda as actrizes Sara Ferrada e Alexandra Pinheiro (da ESAD das Caldas da Rainha) ler textos de Llansol, de carácter muito pessoal, quase íntimo, como convém mais a esta data. E haverá como sempre um caderno que reproduz a entrevista e algumas páginas de inéditos. Poderá ser uma tarde memorável.

23.10.19

«O COMEÇO DE UM LIVRO...» GANHA VOZ E IMAGEM

Tivémos ontem uma manhã muito especial no Espaço Llansol. Um grupo de trinta alunas/os da Escola Superior de Teatro e Cinema veio conhecer melhor Maria Gabriela Llansol e o seu mundo, com duas professoras dessa Escola: a actriz Maria Duarte (grande incentivadora do «Projecto Teatral») e a escritora Patrícia Portela, que já esteve connosco antes, ambas leitoras de longa data da Obra de Llansol.

O pretexto e a motivação maiores da visita foram os do trabalho dos estudantes neste semestre, em torno de um dos livros desta nossa autora – O Começo de um Livro É Precioso –, a partir do qual trabalharão questões de dramatização de textos não dramáticos, de dicção e imagem. Por isso se falou muito dos modos de trazer à voz e dar a ver o texto de Maria Gabriela Llansol. 

Projecto singular, como singular é o percurso e a Obra destas duas professoras-criadoras. Comentámos o livro, a sua construção particular (um texto ou «estância» para cada dia do ano), a natureza única da forma dos fragmentos (poemas?); falámos do lugar do corpo e das afecções (com frequente recurso a Spinoza), da importância e dos sentidos da «imagem nua» nestes textos, de figuras recorrentes que conferem um discreto fio narrativo ao livro, do que significam os começos (que servem sempre só para continuar por caminhos imprevisíveis) e dos fins (que não há, nesta escrita da metamorfose), enfim, percebemos melhor como cada frase é aqui «uma base de meditação», cada estância traz uma situação, um pensamento, uma cena fulgor novos, e todo o livro é uma espécie de breviário aberto, sem lições nem moralidade...

De um dos cadernos de escrita do livro, em 2003

 Anotação no Bloco de notas B06

... Tudo gira à volta de «O Começo de um livro é precioso» e dos
casos perdidos na leitura... (Caderno 1.65, 26 de Janeiro de 2003)

O interesse – e o espanto – dos estudantes era evidente, a casa e o espólio de Llansol foram claramenre uma revelação, prometendo novas visitas.

14.10.19

«A COSTURA CULTURAL PORTUGUESA»
OU «O LITORAL DO MUNDO»


As XI Jornadas Llansolianas que neste fim-de-semana dedicámos à análise da «costura cultural portuguesa», deste «Litoral do mundo», tal como nos são dados a ver e a ler pelo crivo do olhar e pela mão de escrita de Maria Gabriela Llansol, trouxeram-nos fragmentos da narrativa de uma História (e das mais diversas estórias dentro dela) – história de um país, de uma cultura, de alguma da sua literatura – quase sempre lidas por Llansol «a contrapêlo». Ou também, como logo a abrir salientou António Guerreiro, em chave anti-épica e anti-heróica, em grandes visões alegóricas textualizadas, ou cosmogonias laicas, projecções desejantes e alternativas de outros mundos (em Llansol, os da «comunidade» e da «Restante Vida»). Neste território de uma História que sempre pretendeu «dar passos para a frente», a escrita de Maria Gabriela sobre ela prefere – e é esse o seu selo inconfundível – «dar passos para o lado». É o que acontece, entre outros, com o livro agora reeditado com inéditos, Da Sebe ao Ser, que constituiu uma referência central na intervenção de António Guerreiro sobre «Os potenciais da História».
 António Guerreiro
O espectro das intervenções cobriu depois o campo vasto desta matéria portuguesa na Obra de Llansol, com incursões pelos universos de figuras maiores dessa Obra, como D. Sebastião/Dom Arbusto (da qual se falou, apesar da ausência da nossa amiga Ilse Pollack, que por razões de força maior não pôde deslocar-se da Áustria até às margens de Tejo-rio); de Camões/Comuns/o Pobre, pela Profª Isabel de Lima e Almeida, que, com o seu profundo conhecimento do Camões histórico, seguiu atentamente as deambulações e metamorfoses de Luís M. e da sua Obra pelos livros de Llansol; ou de Pessoa-Aossê por Maria Etelvina Santos, que, no seu já longo périplo pelos trilhos de Aossê na escrita de M. G. Llansol, partiu da Gare do Oriente para explorar outros Orientes desse Oriente, não os caminhos pátrios da água, mas os do sonho criador que faz conhecer, os do dom poético como alquimia ou os de formas várias de paganismo, com um regresso (de ecos hölderlinianos) de deuses por vir, em Pessoa e Llansol, a partir da leitura paralela da nossa autora e do Pessoa da Mensagem e dos heterónimos (ou nem tanto!) António Mora, Bernardo Soares ou Alberto Caeiro.
 Isabel Almeida (com João Barrento)

 Maria Etelvina Santos (com Pedro Proença e J. Barrento)

Na mesma mesa, o artista-escritor e escritor-artista Pedro Proença (que expôs na sala dois desenhos de grande formato que, de forma explícita e com motivos subtilmente disseminados, desfiam mais uma narrativa sobre o tema destas Jornadas) ofereceu-nos um texto escrito numa voz con-sonante com a de Llansol, uma tecitura de imagens e motivos que evocavam «Paraísos resgatados», fábulas de corpos em relação sensualética de «amor ímpar», num gesto de leitura que é dádiva, entrega e eco irónico que faz soar, de perto e de longe, o que há de mais fundo no objecto de leitura – algo que só os grandes leitores, como Pedro Proença, sabem fazer.
 Pedro Proença

 Os desenhos de Pedro Proença

Depois entrámos, com as Profas. Paula Morão e Maria de Lourdes Soares (vinda do Rio de Janeiro), nas linhas cruzadas que ligaram Maria Gabriela Llansol a Vergílio Ferreira e a Jorge de Sena. No primeiro caso, por uma relação mais próxima, de criador com criador, entre escritores diferentes e afins, aproximando-se e divergindo em «encontros de confrontação» em que o espírito crítico e os afectos se confundiam. No caso de Sena, Maria de Lourdes Soares levou-nos por praças e jardins, autos-de-fé e terrenos de exílio, pelos cenários múltiplos em que Llansol põe em cena um Sena trans-figurado em Jorge Anés, o que lhe confere outra liberdade na relação com esse ícone maior do estrangeirado nunca reconciliado com este «reino da estupidez», permitindo-lhe outros voos para além da relação pessoal que neste caso nunca existiu.
 Maria de Lourdes Soares e Paula Morão (com Ma. Etelvina Santos)

E houve ainda lugar para a revelação de um núcleo desconhecido da escrita de Maria Gabriela Llansol, os seus primeiros contos, ainda inéditos (alguns deles agora disponíveis no caderno «O timbre da estrela» - Contos juvenis de Llansol), que João Barrento comentou sob o pano de fundo do Portugal salazarento dos anos quarenta e cinquenta, quando Llansol transforma já em escrita uma «vida contingente sem amplitude em que eu pudesse mover-me», com vista, já então, «a libertar na escrita seres perenes».
 João Barrento (com Ma. Etelvina Santos e António Guerreiro)

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  Os temas e as figuras das XI Jornadas Llansolianas

Da Sebe ao Ser, ou «O movimento do mar»

Os heróis apeados, e aparentemente pouco felizes, da História de Portugal
(Camões, Afonso de Albuquerque, Cabral, o Gama, D. Sebastião),
descobertos por Cristiana Vasconcelos Rodrigues no Jardim de
S. Pedro de Alcântara, em Lisboa, Outubro de 2019

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Como sempre, tivemos o comentário do livro das Jornadas anteriores – «Eu leio assim este Texto» - Escritores lêem Llansol –, numa original e atenta leitura de uma outra escritora, Paola d'Agostino (que recentemente traduziu para italiano a antologia de textos de Llansol All' ombra del chiaro di luna).
 
 
Paola d'Agostino (com Helena Vieira e J. Barrento)

E por fim, como também já vem acontecendo desde as nossas primeiras Jornadas em 2009, o momento final de leitura. Este ano com António Poppe, também poeta e artista, diseur singular que nos trouxe poemas de Camões e Pessoa ditos de cor (ou seja com a voz do coração), fragmentos de M. G. Llansol que espelham a sua visão deste país de portugal que escreve com minúscula «para não ter nunca de estar a braços com uma ideia preconcebida» dele; e por fim um dos contos juvenis: Rapariga Inquieta, a história da rapariga que «crescia naquele meio» (o do Portugal cinzento da «tristeza contentinha»), «mas sabia que não lhe pertencia».
 António Poppe diz Camões

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Estas XI Jornadas Llansolianas trouxeram ainda consigo, como sempre acontece, algumas novas publicações:
- Da Sebe ao Ser (Assírio & Alvim), há muito esgotado, e agora reeditado com um substancial anexo de inéditos relacionados com a escrita desse livro;
- «Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol (Mariposa Azual/Epaço Llansol), o livro que documenta as X Jornadas, de 2018;
- Os cadernos com inéditos que ilustram o tema destas Jornadas: O Litoral do Mundo: O «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol; e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de Maria Gabriela Llansol.

E o público acorreu, e a sala animou-se...

20.9.19

XI JORNADAS LLANSOLIANAS
«O LITORAL DO MUNDO»

Damos já a conhecer o programa das Décimas-primeiras Jornadas Llansolianas, que terão lugar em 12 e 13 de Outubro no Espaço Llansol. Este ano dedicamos as Jornadas à matéria portuguesa na Obra de Maria Gabriela Llansol, o que tanto pode significar a sua desconstrução de vários momentos e filões na História portuguesa (o «caminho da água» dos Descobrimentos, os mitos do Encoberto ou dos Lusíadas, os tempos de chumbo do salazarismo), como os caminhos singulares da revisão ou da leitura de algumas figuras dessa história, política, literária, cultural (Camões e D. Sebastião, Pessoa, Vergílio Ferreira ou Jorge de Sena). Estas Jornadas contam, como é habitual, com a participação de um núcleo significativo de «llansolianos/as» nacionais e estrangeiros, como se pode ver pelo programa que se segue.
E como também vem sendo habitual, teremos dois momentos de apresentação de livros novos: a nova edição de Da Sebe ao Ser, com inéditos (Assírio & Alvim) e o volume que documenta as Jornadas de 2018, dedicadas a leituras de Llansol por outros escritores («Eu leio assim este Texto»: Escritores lêem Llansol, da Mariposa Azual/Espaço Llansol, o número 17 da colecção «Rio da Escrita»). E dois cadernos que ilustram a temática destas Jornadas: O Litoral do Mundo: o «caminho da água» e a matéria portuguesa na Obra de Llansol e «O timbre da estrela»: Contos juvenis de M. G. Llansol.

15.9.19

O FULGOR, O SEGREDO, A MÚSICA


No regresso às actividdes do Espaço Llansol, no último sábado, reunimos na Casa de Julho e Agosto três olhares diversamente retrospectivos sobre a Obra e a figura de Maria Gabriela Llansol.
Com João Maria Mendes (e um pequeno video que montámos com fotografias do arquivo) regressámos a Lovaina e aos anos 60-70, a um ambiente cultural e a uma época decisivos para a grande viragem que se operou a partir daí na Obra da «Gabi-escritora», como ela é designada neste livro do compagnon de route dela e de Augusto Joaquim nas aventuras político-ideológicas, culturais e pedagógicas desses anos do exílio belga. Dessa viragem e da originalidade de toda uma Obra fala também a parte mais interpretativa do livro, fornecendo pontos de vista muito inovadores e produtivos para a leitura futura dos livros desta autora.
In illo tempore: Lovaina, anos 60-70

O segundo livro apresentado reune tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu sobre Llansol (em ensaios, crónicas, críticas, diários e correspondência – incluindo as cartas de Llansol) entre os anos de 1978 e 2006. Tratou-se, como foi destacado na sessão de sábado, de uma relação a vários títulos ímpar entre escritor e crítico, não apenas intelectual, mas ao longo dos anos claramente afectiva e empática – entre duas naturezas tão diferentes, mas que se encontravam no deslumbramento comum com as coisas do mundo, no júbilo de viver que, no fundo, guiou estas duas vidas de escrita. Os girassóis, flores preferidas do Eduardo, em cima da mesa falavam disso...

 Finalmente, Maria Etelvina Santos comentou o livro de João Barrento, que, também ele, condensa uma viagem de dez anos pelos meandros, não já apenas dos livros, mas de todo o imenso espólio de Llansol, com derivas para as mais diversas áreas deste território sem fim: ensaios de fundo sobre temas e figuras, incursões por zonas pouco conhecidas (os desenhos, a poesia, os cafés, as andanças por Colares e Sintra), cruzamentos im-prováveis e surpreendentes (com escritores, pensadores, cineastas, artistas...). Como diz a «Carta de abertura» da Maria Gabriela reproduzida à entrada de mais este volume de «escritos llansolianos», o encontro do leitor (legente?) com a autora (escrevente!) dá-se provavelmente porque ambos buscam, para lá da «impostura da língua», um qualquer «lugar primordial» deste universo único.


9.9.19

DA SEBE AO SER EM NOVA EDIÇÃO


Acaba de sair, em edição de Assírio & Alvim, a nova edição de Da Sebe ao Ser, há muito esgotado. Esta nova edição acrescenta à de 1988 um conjunto significativo de inéditos extraídos dos cadernos de Maria Gabriela Llansol, e provenientes da fase de escrita deste livro que veicula uma leitura escrita da história de Portugal e do seu fatídico «caminho da água».
Na próximas Jornadas Llansolianas, em Outubro, esta nova edição será apresentada e comentada por António Guerreiro.

2.9.19

TRÊS LIVROS, TRÊS OLHARES SOBRE LLANSOL

Retomamos as actividades do Espaço Llansol no sábado, 14 de Setembro, pelas 17 horas, com a apresentação simultânea de três novos livros, que representam três olhares sobre o universo Llansol, três leituras, diversas e igualmente estimulantes, de toda a sua Obra: de João Barrento (dez anos de escrita sobre Llansol), Eduardo Prado Coelho (toda a sua escrita sobre esta Obra, entre 1985 e 2007, correspondência com LLansol, excertos de diários) e João Maria Mendes (um livro de síntese que abre com a evocação da sua relação com «Gabi» e Augusto nos anos setenta, do exílio de Lovaina – que documentaremos num video –, e continua com uma interpretação global desta escrita).
Contamos, para as apresentações em diálogo, com a presença de João Maria Mendes, Maria Etelvina Santos e João Barrento.


Comparado com o meu anterior conjunto de «escritos llansolianos», publicado nesta colecção (Na Dobra do Mundo, 2008), este será porventura um livro mais vivo do que esse primeiro, e sobretudo mais revelador do amplo espectro de relações que se podem tecer a partir desta Obra – com temáticas tantas vezes inesperadas, com outros autores (poetas, ficcionistas, filósofos, místicos...), com domínios extraliterários (a música, as artes visuais, a iconografia, o cinema), com lugares e tempos de vida e de escrita (a Lisboa da adolescência e juventude, a Bélgica do exílio, os cafés, as deambulações por Colares e Sintra).
J. B.


Os textos de Eduardo Prado Coelho sobre Llansol, ou os simples registos fugazes sobre ela nos Diários, pequenas intuições na correspondência, lançam luz, luzes de vária natureza, sobre a pretensa «sombra» desses textos, por vezes com focos de uma grande intensidade. Por exemplo, quando comenta: «Há textos assim: dizem de um modo tão exacto e portentoso aquilo que nos parece evidente depois de os termos lido que sentimos por um instante que não deveríamos fazer mais nada senão o que eles dizem».
E conclui, noutro lugar: «Daí que, às portas do paraíso, Maria Gabriela Llansol diga a Vergílio Ferreira o que qualquer de nós poderá dizer ao leitor futuro de Llansol (e não se pode ler Maria Gabriela Llansol sem assumir a leitura como uma leitura sempre futura, uma leitura por vir): não há segredo, o único segredo é entrar».


 De que me ocupo neste escrito? Num primeiro momento revisito a genealogia da Obra da autora e descrevo-a como sensacionista/intuicionista, sempre confrontada com a memória e a cultura acumuladas na «Casa da Sabedoria». Num segundo momento recordo o que a levou a afastar-se da narratividade dependente da verosimilhança e a adoptar uma textualidade transgressiva... Um terceiro momento é uma reflexão sobre algumas ideias-fortes do glossário llansoliano... Num quarto momento defendo que a Obra llansoliana explora quatro registos de fantástico que herda de um maravilhoso verdadeiro neo-renascentista, e que são, nela, idiossincráticos geradores de texto. Finalmente, num quinto momento, aproximo a composição oficinal dos seus textos e o trabalho do sonho, tal como Freud o descreveu em a Interpretação dos Sonhos...
J. M. M.

4.8.19

[O VERÃO ENTRE PARÊNTESES – COM LEITURAS]

Está aí o Verão, o ritmo abranda, a apetência de leitura cresce. Também a Casa de Julho e Agosto entrará em tempo de penumbra, com suas memórias, suas plantas (que teremos de alimentar), com os seus muitos rios de escrita, visíveis e escondidos. Voltamos em Setembro, com novos recantos, novas perspectivas, corpo e alma lavados. Boas Férias, com Llansol e livros!



14.7.19

                  LER COMO QUEM DANÇA
                                    DANÇAR COMO QUEM LÊ

O grupo de doze mulheres vindas de Lugo/Galiza para nos comentar e mostrar a sua experiência de ler-dançar Llansol proporcionou-nos ontem uma tarde inesquecível. Numa primeira parte, Nieves Neira e o seu grupo falaram-nos deste projecto singular, mostraram um video que documenta a sua actuação nos claustros da catedral de Lugo em 2018, e apresentaram o livro Fulgor, onde reunem os fragmentos de Llansol que vamos ouvindo na leitura dançada que imaginaram.

O livrinho é uma preciosidade, e saiu numa editora (animada por duas das «beguinas de Lugo», María Grandío e Nieves Neira), com um nome – ÁMBOA – e uma história carregados de ecos, que podemos ler no marcador que acompanha o livro. E o azul forte que o atravessa é também o da gravura, em azul da Prússia, que acompanhou o lançamento do livro, uma obra de María Corral Fernández.

O desdobrável que distribuímos na sessão de ontem dá conta, nas palavras de Nieves Neira, que abrem o livrinho, deste modo singular de apropriação afectiva e artística das palavras de Maria Gabriela Llansol, num gesto de amor sive legens (que é o título, llansoliano, da introdução de Nieves Neira).

Depois, foi o belo espectáculo no pátio da Casa de Julho e Agosto, por entre objectos, panos, plantas deixados pela Maria Gabriela. Uma movimentação dinâmica que encheu o pátio de fragmentos, frases soltas, perguntas, repetições, de textos vindos dos mais diversos livros, que o corpo e a sensibilidade de cada uma das leitoras dançantes deles retirava. A sequência de fotos e a breve montagem em video dirão ainda melhor o que foi este belo momento, que encerrou as nossas actividades antes da pausa de Verão.
 
 

6.7.19

DANÇAR COM AS PALAVRAS DE LLANSOL

No próximo sábado, 13 de Julho, pelas 17 horas, recebemos um grupo muito especial de doze mulheres-beguinas vindas de Lugo, na Galiza. Dez delas apresentarão uma leitura dançada de textos de M. G. Llansol, no nosso pátio da Casa de Julho e Agosto, à semelhança do que já fizeram nos claustros da catedral da cidade galega.
Nieves Neira, jornalista e escritora de Lugo, principal animadora deste grupo de mulheres e grande legente de Llansol, teve esta original ideia, que apresenta assim no livro feito para esta ocasião (e que incluimos, completo, no desdobrável que distribuiremos):
 «Ler como dançamos? Da leitura conhecemos um corpo sentado, um corpo que se transformou com a aparição do alfabeto, que trabalhosamente inibiu outros sentidos em favor da visão. Anne Carson insinua em Eros-Poética do desejo que é da oposição entre um interior e um exterior, criada pela palavra escrita, que nasce Eros como obsessão na Grécia arcaica, e que a poética do desejo de que ainda hoje somos herdeiros se petrificou no espaço negativo da leitura, como também a ideia de que os livros diferem da vida. A Obra de Llansol convida-nos, no entanto, a reduzir e desfazer essas dicotomias [...]
Ler como dançamos: é o resultado desse jogo. A sua única regra foi a de deixar-se levar pelo afecto e pelo fulgor: ler em voz alta – do sussurro ao grito – só aquelas frases que despertassem esse afecto, que nos chamassem. E sublinhá-las sabendo que com esse gesto estávamos escolhendo os fragmentos que figurariam no livro que fizemos, aproximando assim com o lápis a mão que escreve da mão que lê, a mão que lê da mão que escreve...»
Esperamos por todos às cinco da tarde para um espectáculo certamente surpreendente. Antes teremos, na sala grande, a projecção de um video e conversa com as beguinas de Lugo sobre o livrinho que nasceu desta experiência, e estará disponível.