GUIA DE QUESTÕES PARA DISCUTIR O LIVRO DAS COMUNIDADES
Houve uma série de coincidências: tal como Ana de Peñalosa escrevia no topo da casa, também todos nos reunimos num sótão de um antigo colégio e hoje uma instituição para o ensino de mulheres. Além disso, a Universidade de Liverpool foi durante mais de trinta anos a “casa” do Professor Doutor E. Allison Peers, pioneiro de estudos Espanhóis no Reino Unido e tradutor de Teresa de Ávila e San Juan de La Cruz.
“Este livro vai deixá-lo desconfortavel. Vai fazê-lo pensar outra vez sobre como a linguagem funciona, como se interpreta. Não é fácil de ler. Sofre mutações cada vez que se lê. Desintegra-se e reformula-se a si mesmo”, disse Claire Williams.
Paulo de Medeiros (U. Utrecht) foi o primeiro a fazer perguntas: Será O Livro das Comunidades uma “tentativa de escrita contra um vazio ou um paradoxo?”, perguntou, para depois afirmar que este livro é um “texto temporário sobre o que ainda está por vir; não é um programa ou texto embrionário: é um livro-questão, que levanta muitas questões e que nos deixa a fazer perguntas”.
No texto, Llansol proporciona o encontro e, para Maria Carolina Fenati (U. Nova de Lisboa) “a comunidade é o mecanismo, a dinâmica do texto”. Segundo Fenati, “o texto avança por paradoxos num processo de desaceleração que desafia todos os hábitos”. O leitor terá de se confrontar com os seus códigos, com as comunidades em que está inserido, com o seu papel de cidadão ou de leitor.
Por isso, ler O Livro das Comunidades é como jogar um jogo. Mas Pedro Eiras (U. Porto) disse que não é possível fazer um “jogo das comunidades”. O texto llansoliano, disse Eiras, “não segue as regras de um jogo de linguagem, mas sim as regras incontáveis de inúmeros jogos, sempre surpreendentes. Esta escrita não é, portanto, estocástica, caótica, ela é simplesmente muito complexa: sobrepõe diversas linguagens, reconhecíveis ou não noutros textos de outros autores, e trabalha menos objectos do que um devir.”
A leitura do capítulo sobre O Livro das Comunidades em O Senhor de Herbais, por Francisco Serra-Lopes (U. Barcelona), trouxe alguma polémica ao encontro. O Livro das Comunidades confirma Llansol “na filiação mística”, mas as suas “consequências políticas não são apreciáveis”. Assim, “a congregação simbólica em torno a uma experiência-fulgor parcialmente traduzida na revolução de 1974 parece converter-se, na primeira obra publicada após o 11 de Setembro de 2001 — em certo sentido diabólica — num voto de isolamento e pessimismo.”
Raquel Ribeiro (U. Liverpool) fez uma leitura do Lugar 26 de O Livro das Comunidades, reflectindo sobre o modo como a geração de um monstro, no final deste primeiro capítulo da trilogia, despoletará uma série de novos seres.