25.8.07

Para o Eduardo, um beijo de Témia
























"Qualquer leitor pode bater à porta e entrar. O que o aguarda é apenas a serenidade e a justeza das coisas evidentes: pão, água, o convívio com as plantas e os animais, alguma luz mesmo de noite, alguma noite no corpo da própria luz. E o amor como partilha do mais difícil."

Eduardo Prado Coelho, in Público, 11 Junho 1991





________________ O caderno do pão (Outubro de 1992)





















Olho ___ e é como se estivesse já escrito. Está, de facto, já escrito _______________________ a escrita antecipada abre-me o olhar. O que sucedeu hoje, com Témia __ figura de rapariguinha muito jovem que me enviou num bilhete postal o Ed[uardo] Prado Coelho ao ler "Um Beijo Dado [Mais] Tarde".
Dirijo-me a ela, vendo-a sobre a cómoda, e sorrio. Tudo aconteceu espontaneamente quando o meu olhar desceu das flores para ela.
O quarto já estava escrito às três horas da tarde. É assim que eu me rodeio dele - e me sento à mesa
Para comer
a sensação plena do pão do mundo
que me invade

13.8.07



Do Diário 46



… Quem cuspiu
foi a mão

que segurava

a caneta

pois ela é

verdadeiramente

imprescindível ______

_______ para escrever,
mas, sobretudo,
dar a ler com
a recta intenção
da manhã q[ue]
se levanta
O resto____

senhores e senhoras

pássaros, fugi ____

isto é











Portugal decadente

ou Europa que

se portugalizou.

Mas eu amo o sinal

deste espaço que é a

sua língua e os
seus vivos habitan-

tes inocentes.
Não vos declaro a

guerra, pois sois

inexistentes. Mas
para esta paisagem
onde o ar das borbo-

letas ainda é possí-
vel no princípio

das palavras que vão jorrar a
limpo
____ não passareis








sem corpo são, visível,
responsável e sonoro




12.8.07



Meus sentimentos tocam as trombetas da alvorada _______ é amanhecer. Uma brisa provoca-os e eles aglomeram-se junto de mim, e eu procuro um cão amestrado e fiel para os guardar. Esse cão chama-se JuÁ. Ju, de Júbilo, A, de Alegria.
E assim me levantei de uma manhã (alvorecer) de domingo. Sinto que, de novo, um livro vindo de longe, prolongado e uno, me espera para entrar na língua portuguesa, e me toca; às vezes, me confrange.

"Um dos primeiros dos meus afectos é aos livros abertos, que
se suicidam em cada página, para renascer na próxima linha".






JUÁ - s.m. 1. designação comum a algumas plantas da fam. das solanáceas, esp. dos gén. Solanum e Physalis; 2. m.q. Juazeiro (Ziziphus joazeiro); 3. fruto do juazeiro. Etim. tupi yu'a "designação comum a diversas plantas da família das solanáceas"; segundo Teodoro Sampaio "fruta do espinho"; f. hist. 1663 joà, 1702 joás, 1875 juá.
juá-açu - ginjeira-da-terra (Prunus sphaerocarpa);
juá-amarelo - de folhas ovais e bagas globosas; juá-listrado, juazinho-amarelo, melancia-da-praia.
juá-arrebenta-cavalo; juá-branco; juá-bravo; juá-de-capote; juá-grande; juá-mirim; juá-miúdo; juá-mole; juá-uva.

juazeiro - árvore com comprimento até 10 m (Ziziphus joazeiro), da fam. das ramnáceas, nativa do Brasil, de folhas serreadas e trinérveas, inflorescências em cimeiras globosas, drupas amarelas e comestíveis, casca amarga, adstringente e febrífuga; joazeiro, juá.

(in, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)


2.8.07



EDIÇÕES DO ESPAÇO LLANSOL

O Espaço Llansol edita, e continuará a editar, uma série de Cadernos Llansolianos que vai já em onze números, e eventuais publicações soltas sobre temáticas relacionadas com a Obra de Maria Gabriela Llansol. Todas as edições da Associação poderão encontrar-se, a partir de meados de Setembro próximo, nas seguintes livrarias:
— LISBOA: Assírio & Alvim, Ler Devagar, Lácio e Colibri (n
a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova)
— PORTO: Leitura e Faculdade de Letras.

Podem também ser pedidas directamente à distribuidora:
NOVA OPTIMAPRESS
Rua de Alba Plena, 7 – 2705-134 Colares
optimapress@sapo.pt

Tel.: 21.9283451

Edições disponíveis:



Vivos no meio do Vivo

3º Colóquio sobre Maria Gabriela Llansol.
Mourilhe, Julho de 2005
4 cadernos e um DVD, em caixa (€ 15,00)
(ver índice aqui)





JADE — Cadernos Llansolianos
(€ 3,00 cada):













1. M. G. Llansol/A. Joaquim/J. Barrento/
Maria Etelvina Santos,
À Beira do Rio da Escrita














2. Augusto Joaquim, Nesse Lugar
(Três frases de O Livro das Comunidades)













3. Llansoliana (I): Bibliografia activa e passiva
(2ª edição)














4. João Barrento, A Chave de Ler
(Caminhos do texto de Maria Gabriela Llansol)
(esgotado)














5. Pedro Eiras, O texto sobrevivente
(Lendo três Lugares d’ O Livro das Comunidades)














6. João Barrento, A voz dos tempos e o silêncio
do tempo (O projecto inacabado da História em
O Livro das Comunidades
)












7. Augusto Joaquim, Aos Fiéis do Amor.
Lugar cénico para O Livro das Comunidades
(caderno duplo)














8. João Barrento, Metanoite. Libretto
(a partir de O Senhor de Herbais e de outros livros
de Maria Gabriela Llansol)














9. Hélia Correia / João Barrento /
Maria de Lourdes Soares / Pedro Eiras,
O Livro das Transparências
(Leituras de Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004)














10. Llansoliana (II). Bibliografia comentada
de Maria Garbriela Llansol (1962-2006)














11. João Barrento / Maria Etelvina Santos /
Cristiana Vasconcelos Rodrigues
Um Ser sendo. Leituras de
Amar Um Cão


1.8.07



Partícula 42 – Bach traz os cantores de leitura

__________ enquanto o autocarro corre pela estrada,
eu me sinto, como outrora, nas mãos da pequena planta de água, filomenón,
a falar-lhe do que Aossê queria saber.

Mas esta hora consciente da vigília de ontem é tão deslumbrante que só uma pergunta “Onde falta o conhecimento?”, me conduz a um estado latente de meditação, até que me dou conta de que estou pensando na Casa da saudação, ainda vazia, desde que vi entrar pela única porta uma mulher de idade avançada, de calças largas azuis e túnica branca que tinha marcada a beleza do conhecimento na sua face, e certamente a trouxera sempre através da sua longa vida.

Em todos os outros rostos, no autocarro – notei –, não existiam sinais de beleza do conhecimento. Estremeci por dentro:
– É Anna. É Anna Magdalena.
– Vim para ensinar Rorante a amamentar Lós – disse, dirigindo-se a mim: – Johann já está na tua Casa, eu sei. E os cantores de leitura estão quase a chegar.

Calou-se, e eu abri-lhe a cancela.

De: Os Cantores de Leitura (inédito)

31.7.07



TERCEIRO ENCONTRO LLANSOLIANO


O Grupo de Estudos Llansolianos (GELL), entretanto transformado em Associação, realizou o seu último Encontro no Hotel Rural de Mourilhe, Trás-os-Montes (gerido pelo Padre Lourenço Fontes, de Vilar de Perdizes), de 20 a 24 de Julho de 2005, em colaboração com dois outros núcleos de investigação: o IELT-Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (da Universidade Nova de Lisboa) e o Grupo Transdisciplinar de Pesquisas Literaterras (um núcleo de estudo das etnias índias brasileiras, da Universidade Federal de Minas Gerais).

Hotel Rural de Mourilhe

Antes de Mourilhe houve dois Encontros llansolianos: o primeiro em Sabará, cidade histórica de Minas Gerais, organizado em 4 e 5 de Dezembro de 2002 pelo núcleo llansoliano da Universidade Federal de MG, por iniciativa da Profª Lúcia Castello Branco, sob o lema «Este é o jardim que o pensamento permite...»:











Teatro de Sabará, lugar do primeiro Encontro llansoliano


O segundo Encontro llansoliano teve lugar entre 29 de Setembro e 1 de Outubro de 2003 no Convento da Arrábida, organizado pelo GELL-Grupo de Estudos Llansolianos sob o lema «Concebe um mundo humano que aqui viva...»:







© Vina Santos


Convento da Arrábida

Do Encontro de Mourilhe resultou a publicação de Vivos no meio do Vivo, um conjunto de quatro cadernos e um DVD em que se reunem todos os materiais produzidos e apresentados nesse Colóquio (e que pode ser pedido à Associação Espaço Llansol ou à distribuidora Nova Optimapress: optimapress@sapo.pt). Esta publicação inicia uma colecção do Espaço Llansol – «Rio da Escrita» – que poderá acolher de futuro outras publicações em livro, para além da série de cadernos que continuamos a editar («Jade - Cadernos llansolianos»).


Deixamos aqui o índice, que dá uma imagem da dimensão e da diversidade deste terceiro Encontro. Se quiser ver os lugares, os ambientes e alguns dos momentos de discussão, de convívio e de leitura do Colóquio, pode ter acesso ao Álbum do Encontro, em formato slide show aqui.


Índice


[1º Caderno]

«Em busca da troca verdadeira...»

Hélia Correia, Teresinha canta

«Quem somos? Quem nos chama?»

Ana Paula Guimarães, Quem somos?
IELT, Literatura Tradicional, arredores e companhia

Lúcia Castello Branco, A melhor forma de amor: Ler com Llansol

Maria Inês de Almeida, A textuante língua portuguesa:
Maria Gabriela Llansol e a escritura indígena no Brasil

João Barrento, A chave sob a maçã

[2º Caderno]

«Cem memórias de paisagem»

Lúcia Castello Branco / Cynthia Barra, Onde vais, Dama-Poesia?
Sobrescritos à paisagem de O infinito e ela

Maria Etelvina Santos, Onde a natureza é mais-paisagem há um
corpo que escreve

Daniela Jones de Oliveira, Desculpindo-se numa paisagem

«Um fio de voz...»

João Madureira, Inscrição (partitura)
Hélia Correia, Amar um cão

Discussão:
Do amor que a criação tem à criação:
Da música,da escrita
e de outras artes

[3º Caderno]

«A imagem repentinamente sabe...»

Maria Gabriela Llansol, A Última Ceia: A chave de ler
(de: Um Beijo Dado Mais Tarde)

Vania Baeta, A Festa de Babette

Ana Paula Guimarães, Os Respigadores e a Respigadora

Restos... - Um diálogo a partir de
Os Respigadores e a Respigadora
,

de Agnès Varda

Isabel Catalão, Charca Viva

Amílcar Vasques Dias, Elaphe scalaris
(Cobra de escada ou riscadinha)



[4º Caderno]

«Recriar as densidades e os materiais...»

Paulo Sarmento, Herbário de possibilidades
(Sobre Na Casa de Julho e Agosto)

Cristiana Vasconcelos Rodrigues, Seis capítulos de
Na Casa de Julho e Agosto

Ricardo Marques, Da literatura tradicional
à escrita de Llansol: Uma perspectiva


«O mesmo vestido, lido de outro modo...»

Maria de Lourdes Soares, Tocar a dobra, criar o coração,
«por
alegria de vida»
(Apontamentos a partir da primeira notação de Finita)

João Barrento, Uma conversa de beguinas:
Sobre Augusto Joaquim, Aos Fiéis do Amor

Momentos do Encontro de Mourilhe

30.7.07



30 ANOS DE O LIVRO DAS COMUNIDADES
Últimas sobre o Colóquio de Liverpool

O Colóquio que anunciámos aqui no dia 27 tem programa praticamente definitivo:


Clique nas imagens para aumentar

Para mais informação sobre o Colóquio, cuja inscrição é gratuita, pode ir ao site da Universidade de Liverpool, aqui


A METANOITE DO e. t.



Metanoite:
verbo grego, forma do imperativo de metanoia,
significando literalmente
"Pensai para além do que é conhecido!"
Perpetuou-se a tradução errónea,
nas versões católica e protestante do
Novo Testamento (Mat., 4, 17),
por "Fazei penitência!"
("Tut Buße!" na tradução de Lutero).


Um dos últimos acontecimentos culturais relacionados com a Obra de Maria Gabriela Llansol foi a estreia da ópera de câmara
Metanoite, no âmbito do Fórum Cultural do projecto «O estado do mundo», na Fundação Calouste Gulbenkian. A ópera, com música de João Madureira, libretto de João Barrento e uma encenação que anulou estes dois ingredientes essenciais, pôde ser vista no Grande Auditório nos dias 29 e 30 de Junho passados.
A auto-encenação de Metanoite na Gulbenkian foi engendrada por um rapaz, de seu nome André e. t. (ver mais aqui), e é narcísica, egocêntrica, megalómana, arbitrária, absurda, abusiva e ruidosa a todos os níveis. Não entendeu nada do libretto, mistura-o abusivamente, em projecções paroxísticas de texto sobre vidro que cegam o espectador e lhe desviam a atenção do que é importante, com o seu próprio palavreado po-mo pretensamente culto ou erudito, meteu-se a brincadeiras de mau gosto com o nome de Maria Gabriela Llansol, enfim, conseguiu anular completamente a música de João Madureira (pode ouvir algumas obras deste compositor aqui
). Êxito em todas as frentes, portanto, tiro na mouche para quem apenas busca promoção pessoal. Mas a fumarada não impede que se veja como foi tudo fogo de artifício para confundir e épater.

Reproduzimos aqui os textos escritos pelo compositor e pelo autor do
libretto, que dão a entender como o espectáculo poderia ser, mas não foi, um encontro de vozes e de linguagens em convergência, no espírito do texto original de onde tudo partiu (as montagens são de fotos dos ensaios). E remetemos os interessados para o oitavo caderno da série «Jade–Cadernos Llansolianos», editados pelo Espaço Llansol, onde se pode encontrar a versão original do libretto:



João Madureira
A PROPÓSITO DE METANOITE

A encomenda de uma ópera para o Fórum Cultural O Estado do Mundo, a propósito das comemorações dos 50 anos da Fundação Gulbenkian, permitiu-me continuar um caminho que venho trilhando há já alguns anos. Tenho vindo a escrever música para textos de autores como Ana Hatherly, Herberto Helder, Álvaro de Campos, António Franco Alexandre, Sóror Mariana Alcoforado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Belo, Heinrich Heine, isto para além de música de cena para O Casamento de Fígaro, de Beaumarchais, e para Os Dias de Hoje, de Jacinto Lucas Pires. Compus também música directamente inspirada por textos como Ausgraben und Erinnern (Escavar e Recordar, de Walter Benjamin), ou Inscrição (a partir de Amar um Cão, de Maria Gabriela Llansol).
O texto, a palavra escrita ou falada, tem desempenhado uma função central na minha produção musical. E quando o texto não está presente, é a própria música que se assume como tal, como em Glosa, para marimba e orquestra de câmara.
Na verdade, desde Poemúsica — sobre poemas de Herberto Helder, estreado em 1998 por Luís Miguel Cintra e Nuno Vieira de Almeida — que procurei encarar a coexistência de dois discursos distintos — palavra e música — para além das formas tradicionais. A relação entre estas duas realidades discursivas — ora se encontrando, ora seguindo caminhos diferentes, embora paralelos — revelou-me, com o tempo, um tecido que, longe de ser uma mera sobreposição de discursos, proporcionava uma reflexão e iluminação mútua entre ambos: o texto pensava a música e a música, mais do que apenas o reflectir, reimaginava-o. Esta relação de fricção entre duas realidades tem-me levado, assim, a reflectir sobre a multidimensionalidade de cada uma delas.
Se todos sabemos que o texto não é portador de apenas um nível de sentido, e que a música mora entre os vários aspectos que a compõem, na composição de Metanoite estes aspectos ganharam o dramatismo inerente à própria ideia de narrativa e de um tempo dilatado de convivência. Narrativa e acção musical que se opunham à mera criação de momentos estáticos. Tempo alargado de convivência que exige a constante reinvenção da relação entre texto e música. Esta experiência plural confrontou-me, finalmente, com duas questões maiores: a potência da música talvez resida no facto de ela ser pobre de língua, uma linguagem não verbal, e portanto 'condenada' à criação de significados dúbios e indefinidos, numa espiral que ela própria não consegue dominar. Paralelamente, talvez o texto, na sua aparente coerência linguística, mais não seja do que veículo para a expressão musical do testemunho vivencial de quem o pratica.
Penso que o texto de Llansol tem demonstrado a pertinência destas questões. Mas, mais do que isso, parece-me ser um texto que denuncia como a nossa relação com a linguagem acaba por condicionar a maneira como pensamos e ser algo de decisivo no destino que o mundo tem tomado. Temos tendência a aceitar a impostura da língua (Llansol) como algo inevitável, mas, como nos diz o libreto de João Barrento, a partir das palavras de Llansol:

Quem escolhe a palavra, decide o real…
E a terceira atitude existe, é o terceiro sexo,
o sexo de ler e o das coisas, força actuante
para lá de fusão e intercepção,
um rumor, espécie de brumor no mundo,
uma coisa que o atravessa e o murmura,
envolta numa bruma sem linguagem.

Metanoite é uma ópera que, mais do que reflectir de forma exaustiva sobre «o estado do mundo», procura mostrar como ele se espelha neste microclima que é o meio artístico erudito dos nossos dias.

Resta-me agradecer a João Barrento a oferta do libreto para esta ópera, e a Maria Gabriela Llansol pelo entusiasmo com que acolheu esta ideia.

© Henrique Figueiredo

João Barrento

UMA MÚSICA SEM MANCHA DE RUÍDO



Metanoite é o espectáculo de um espectáculo virtual dentro do grande espectáculo real do mundo. Um espectáculo sobre o estado desse mundo e as suas perspectivas futuras, nomeadamente no âmbito da produção artística. Como a play within the play de Hamlet («The play’s the thing / Wherein I’ll catch the conscience of the King», II, ii), a ópera é um catalizador que porá à vista a consciência — e o inconsciente — do nosso mundo.
De que matéria(s) se faz hoje o mundo? A visão barroca e simbolista do mundo como sonho aplica-se menos ao nosso mundo do que a shakespeariana (e também calderoniana) do mundo como palco. Maria Gabriela Llansol, que forneceu a matéria para o libretto desta ópera, via-o, a princípio, como sendo feito sobretudo da matéria da injustiça, da «trama da existência» subordinada ao tempo do poder. Hoje, sem renunciar a esse ponto de vista, mas deslocando-o e ampliando-o, insiste mais (como demonstra o subtítulo de um dos últimos livros, O Senhor de Herbais. Breves ensaios literários sobre a reprodução estética do mundo, e suas tentações) na matéria das imagens e na natureza constitutivamente estética do mundo.
«O mundo é puramente estético (mas raramente santo)», diz a Rapariga do Fulgor. O ser estético disponibiliza-o para uma série de possibilidades (potencialidades) de apreensão para lá da sua mera representação e exposição, numa zona de que a maior parte das pessoas, ocupadas com o que (lhes) é útil, não se apercebe — porque esse trabalho estético consiste em ver à sombra do que se não vê. O não ser santo, por sua vez, implica que o mundo só pode ser (tendencialmente) cínico, pérfido, ressentido, absurdo. As estéticas de que o mundo é feito dão corpo, cor, imagem às coisas, são sinais de vida: «a beleza da forma e da cor é a santidade das coisas», lemos já, na pré-história desta Obra, em Depois dos Pregos na Erva. É essa, precisamente, a sua outra «santidade», aquela que Spinoza nelas viu com olhar (de) intenso. E é esse equilíbrio tensional entre a substância do invisível (que o estado actual do mundo insiste em esconder ou negar) e o estendal de absurdidade da sua imensa superfície visível, que Metanoite pretende dar a ver e problematizar — com humor e sensibilidade. Musil trata já este problema e esta tensão em O Homem sem Qualidades, uma obra imensa em que o essencial se joga entre a busca d’ «o outro estado» (que implica uma existência tacteante e céptica, aberta ao reino do possível e sem «qualidades») e a auto-satisfação dos «pragmáticos da razão suficiente». No meio, em inúmeras variantes, vegetam os ingénuos paladinos de uma realidade já sem perfil identificável, a que a cultura ocidental gosta de chamar o «Espírito», com maiúscula.
Também o libretto de Metanoite propõe dois filões alternantes, deixando repetidamente o caminho aberto a terceiras vias. O primeiro é o da paródia e da ironia, mais presente do que geralmente se pensa na Obra de Maria Gabriela Llansol, e que só por si poderia ter originado uma ópera puramente buffa. A paródia, lembremo-lo, tem a sua etimologia no párodos do teatro grego, aquela entrada lateral, ou canto paralelo que, remetendo para o pano de fundo contra o qual se desenrola a acção, se apresenta como discurso que passa ao lado da acção principal (isto é, mais visível) do mundo, que, no nosso caso, se pretende séria e é hilariante e absurda («Se o mundo é o imediato, este espectáculo / passa longe dele», diz a sua criadora, Psalmodia). O segundo filão, representado pelos intermezzi e pelo coro final, dá voz ao que deseja o que o desejo pode, à potência, despossuída de interesse, do «sexo do mundo», terceiro sexo que pode propiciar a terceira via implícita na ideia de Psalmodia para o seu espectáculo, que, repetindo realidades e práticas correntes no universo capitalista dominante, é sabotado, destruído, atraiçoado pelos «intermediários» (aquelas figuras, sinistras, invertebradas e sem rosto, de «funcionários» e guardas de uma lei que desconhecem, que povoam o universo de Kafka). A perspectiva aberta da criação, para lá do «Ou... ou» do Produtor e da ignorância gestionária do Escrivão, é a do «ímpar»: não simplesmente a do número, já que participa do duplo sentido do termo, e implica, para um espectáculo como para uma existência, a relação tensional fora da simetria estéril, a orientação para a singularidade in-igualável (do mundo por vir). Só assim se poderá sair dos maniqueísmos do mundo e da eterna oposição não resolvida entre o carnaval (trágico) da História e um outro antiquíssimo (e mais humano) rumor da história. «Onde houver Bem e Mal» — lemos em O Senhor de Herbais — «a justiça nunca será reposta.» Mas, sabemo-lo há muito, o mundo precisa de se reger (de ser regido) por batutas dualistas, desvirtuando inevitavelmente os resultados dessa equação viciada. Por isso, o grande problema do mundo — e do espectáculo (de Psalmodia) dentro do espectáculo (da ópera) dentro do espectáculo do mundo – é o da reposição de uma justiça imanente, para além do Bem e do Mal.
O libretto de Metanoite estrutura-se também em canto (odós, caminho, passagem; e óde, ode, canto) e contracanto (párodos), mas com todos os ingredientes que permitem minar este dualismo – como numa peça do teatro do absurdo, até certa altura mais próximo do universo radical de Beckett, depois, à medida que se caminha para o apoteótico e distópico final, evocando mais o nonsense de Ionesco. A figura de Psalmodia gere as oposições e desfaz o seu maniqueísmo, assumindo-se como o compromisso possível entre presente e futuro, e como representante de uma estética do «entre», do não definitivo. O canto, que vem do segundo grupo de figuras e do lugar da Rapariga, de Ana e Llansol, é a música leve e jubilosa dos que apostam no quase nada de uma existência nua e intensa, e se abrem ao Aberto do mundo. O contracanto é a cegarrega dissonante e estridente de clones e posers que não vêem e não sabem «o que deseja o que o desejo pode», nem entendem que «o uso do desejo é preferível ao uso do poder». Qualquer destas duas partes pode (e deve) provocar o riso como postura ética: o primeiro grupo, mais através da ironia subtil dos vencidos que acreditam no poder da metamorfose e (com Spinoza) que podemos «sentir e experimentar que somos eternos»; o segundo, pela paródia hilariante de um universo da «kultura» que se afunda no seu próprio delírio de audiências, orçamentos, néons e gadgets, e de uma precária eficácia instrumental esvaziada de conteúdo.
A suspeita em relação a visões dualistas é ainda evidenciada pela própria estrutura do libretto, com o seu desenvolvimento em três quadros e três momentos alternantes. O primeiro quadro propõe o espectáculo de Psalmodia como materialização sensível de um mundo desejado e desejante: daí o ser designado, num termo-síntese do qual irradia a sua intencionalidade, como «sonóptica com faro». No segundo somos confrontados com a visão do Produtor e as suas quimeras de uma cultura do futuro (que, como tudo aquilo que se não faz para um presente, está destinada a não ter futuro). No terceiro é-nos dado assistir ao descalabro contratual (e, assim, à inviabilidade do espectáculo), já que o contrato que se vai esboçando é um contrato com a técnica, mas não com o Vivo, com o «pacto de Bondade» proposto pela Rapariga do Fulgor, um contrato que se revela incapaz de conciliar a criação com a visão. Como contraponto dos três quadros, três momentos em que as vozes parecem vir já claramente do lado de lá da linha divisória da «metanoite»: as vozes da mulher (Ana-Llansol, últimas testemunhas humanas da clonização da arte), da Rapariga (a que «teme a impostura da língua», a desmemoriada — porque é só presente vivo —, a do sonho e do fulgor) e do cão Jade (um «ser sendo» que sabe como «desculpir o humano» dos medos que o tolhem). É uma galeria, múltipla e una, do que há de mais vivo no Vivo, no meio de um mundo a caminho de um futuro delirantemente dissonante, e que irá implodir para dentro de si próprio, tal como a arte que gera, progressivamente transformada no seu próprio medium, estéril, impraticável e vazio. E a viagem faz-se a bordo de um «comboio hidrofóbico»: porque a água é o elemento de um fado a que este país não soube furtar-se, nem compensar com a sua dose de liberdade de consciência.
As cenas da preparação do espectáculo (gorado) a que aqui se assiste deixam no ar dilemas e perguntas: como conceber o grande teatro do mundo de modo a que nele se possa afirmar a forma do humano? O humano será já hoje um fóssil, como sugere, no segundo quadro, a máquina que lê o pensamento e grava a palavra? Já estivémos mais perto da sua efectivação? A técnica desumaniza? Quando poderá o humano voltar a ser o que a visão ofertou a alguns e a História lhes retirou? Quando é que os olhos do humano estarão melhor apetrechados para ver o invisível, arriscando entrar no brilho perigoso e irresistível do Sol da metanoite? O que é, afinal, a metanoite?
A metanoite é o que nos espera do outro lado de uma fronteira que poucos atravessam: uma noite, mas de luz, um lugar de risco que é preciso atravessar para crescer na intensidade. Desde O Livro das Comunidades que encontramos na Obra de Maria Gabriela Llansol três noites: a do deserto, noite do agir em vida, travessia cega que os Gregos subordinavam a um destino que o texto de Llansol desconhece, porque nele o caminho da Figura, o «nocturno trabalho figural» (Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 167), é o da busca de uma energia autónoma (dos semelhantes na diferença); a do exílio, noite escura dos banidos do tempo, do esquecimento a que a História e os seus poderes os votaram; e a do espírito (daquele espírito que é manifestação de uma energia do corpo), da futura noite da ressuscitação sem ressurreição, da salvação sem deus, de um «espaço edénico» a-teológico, que pode estar à espera de cada um de nós na dobra de qualquer experiência, do outro lado da fronteira da metanoite. A metanoite seduz, e mete medo. Os perigos inerentes ao poço da metanoite, com a sua natureza de «imagens tempestuosas», são inseparáveis dos prazeres do jogo da escrita, da criação e do encontro de si (a psicologia jungiana chama-lhe «processo de individuação», e nele o papel da arte é também central): porque é aí que encontramos o que não sabemos, mas precisamos de saber, porque é aí que arde a «chama num interior de anel», ou seja, a luz que torna possível o «eterno retorno do mútuo» e a emergência do humano – aquela categoria que o texto de Llansol desde sempre desloca do centro para a periferia e questiona, o não realizado, já fóssil e ainda quimera. A metanoite, na definição que dela dá em O Ensaio de Música (pp. 13-14), é o terreno onde se ilumina a transparência deste enigma:

«Há, no real, um lugar envolvente e sublime, a que chamo metanoite, que está para além da noite,
quando se caminha porque é o único caminho,
obscura,
mas, depois dela,
o corpo volta a envolver o querer, o paladar age com a certeza, a visão rejubila em metamorfose. É nesse momento
do corpo dividido, mas já correndo,
que é noite, que será sempre noite, sem trevas, que a metanoite tem o poder de seduzir o texto, e de o fazer esvair-se do que é.»

Nesse momento poderemos talvez estar às portas do «espaço edénico (...) criado no meio da coisa, como um duplo feito de novo e de desordem» (M. G. Llansol, «O Espaço Edénico»). O contrato para a produção do espectáculo de Psalmodia não prevê tal momento. Mas quem sabe se, encostando o ouvido à pequena fresta que abre para um qualquer paraíso sem anjos, ali mesmo ao dobrar da esquina, não ouviremos ao longe — se isso é possível, e humano —, sobrepondo-se à «beleza ensurdecedora» do espectáculo, uma música sem mancha de ruído... Semelhante à língua do poema, que segue outro rumo e deixa ouvir outro rumor (brumor) que não é o da língua comum, geralmente atravessada pela «impostura». Em O Senhor de Herbais (p. 55), Llansol explica:

«... há um rumor, uma espécie de brumor, no mundo. É uma coisa que o atravessa e murmura. A linguagem ruidosa que falamos como aflitos ou velozes não lhe presta ouvidos (...) É um rumor envolto numa bruma sem linguagem. Ainda não foi codificado. [Vem de] antes da infância...» E, como diria Caeiro, e Llansol confirma pela boca de Jane Austen e de Diotima, não há mistério nenhum nisto. Há e não há, como sempre nos textos de Maria Gabriela Llansol. De todas as figuras de Metanoite, talvez só o cão Jade possa verdadeiramente entender essa língua.

© Henrique Figueiredo