15.4.21

NOVOS LIVROS

de e sobre Maria Gabriela Llansol


Acabam de sair duas edições com obras de Maria Gabriela Llansol em alemão, no âmbito da Feira do Livro de Leipzig, que não se pôde realizar neste ano em que Portugal seria o país-tema e toda a participação nacional foi colocada sob o signo de Llansol, com o título «Encontros insperados».

Os dois livros agora publicados são o diário Um Falcão no Punho e uma nova edição de Lisboaleipzig, num só volume em formato de bolso. Ambos os livros são ilustrados com fotos e manuscritos, sairam na editora Leipziger Literaturverlag, com tradução de Markus Saht e Ilse Pollack, e serão apresentados, numa sessão online, no dia 5 de Maio, com intervenções de João Barrento em dois videos gravados expressamente para essa ocasião. 

 

Também agora foi publicado pela Universidade Lusófona, em colaboração com a Sociedade Ibn' Arabî de Murcia, um belo volume que reune as intervenções do colóquio que organizámos em 2017 sob o tema A Imaginação do Amor - Llansol e Ibn' Arabî. Esta publicação, da responsabilidade de Fabrizio Boscaglia (docente da Universidade Lusófona, membo do Instituto de Filosofia da Universidade de Lisboa, e especialista nas relações literárias entre Portugal e o Islão) e Luiza Rosa (investigadora e performer brasileira) retoma a edição online da revista da Sociedade Ibn' Arabî El Azufre Rojo, de 2019, agora em papel. 

 

Destacamos o testemunho (em inglês) de uma grande amiga de Llansol e Augusto Joaquim durante o exílio belga, a Profª Christine Gruwez (nesses anos 60 e 70 Christine Lauwert), que terá dado a conhecer a Maria Gabriela o universo do misticismo sufi. Esse testemunho fecha com a seguinte observação:

«Gaby, por vezes de maneira muito divertida, evitava que a nossa conversa derivasse para questões teológicas ou filosóficas. Era o coração, o órgão da percepção interior, que tinha de falar, numa linguagem para além das palavras. Uma linguagem cujas palavras só ela era capaz de criar».


14.4.21

A VOZ DAS FIGURAS

5 - Jorge de Sena/Jorge Anés

Link para ver o video:  https://vimeo.com/536512238

 

12.4.21

A VOZ DAS FIGURAS

4 - Fernando Pessoa/Aossê

Ver video neste link: https://vimeo.com/535625794


9.4.21

A VOZ DAS FIGURAS

3 - Emily Dickinson e Rilke


Link para ver os videos: https://vimeo.com/534618765

7.4.21

LLANSOL E BAUDELAIRE

O JL de 7 de Abril evoca os 200 anos do nascimento de Charles Baudelaire, e entre os vários artigos e depoimentos sobre a efeméride, publica igualmente vários excertos dos cadernos de Maria Gabriela Llansol, da fase em que traduziu As Flores do Mal (2003).  Os fragmentos são apresentados e contextualizados por João Barrento, e podem ser lidos clicando na imagem abaixo para aumentar.


A VOZ DAS FIGURAS

2 - Camões e Hölderlin




Link para o video com as leituras:  https://vimeo.com/533718101


5.4.21

A VOZ DAS FIGURAS

Nova série de leituras


Depois de algum tempo em que fomos partilhando textos de Maria Gabriela Llansol escolhidos e lidos pelos seus/pelas suas legentes, iniciamos hoje uma nova série, desta vez para dar a conhecer melhor, ainda que de forma limitada, o que escreveram algumas das Figuras maiores dos seus livros que foram também «escreventes»: poetas, místicos, pensadores, romancistas muito particulares...


Pareceu-nos importante dar a ouvir a voz dessas Figuras, tantas vezes um complemento da voz da própria autora, a partir de uma prática que foi sempre a sua, a de estabelecer um elo entre o que lia e o que escrevia, num diálogo constante que gera um «encontro inesperado do diverso» que poderemos ir seguindo neste novo ciclo de leituras.

Leituras desta vez preparadas por um grupo de actrizes e actores, ex-alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema, sob a direcção da Profª Maria Duarte. Abrimos com uma introdução que esclarece as intenções e o sentido deste novo ciclo de leituras, que iremos divulgando durante este mês de Abril, a um ritmo de três vezes por semana. Iniciamos com a figura maior e legente privilegiado dos textos de Llansol, que foi Augusto Joaquim (que assume nomes figurais como A. Nómada, Luís ou Tual). E terminaremos com outra figura de escritor muito próximo de Llansol, e centro do seu terceiro Diário, que foi Vergílio Ferreira.

Link para o video de introdução: https://vimeo.com/532852977

Link para a leitura de dois textos de Augusto Joaquim:  https://vimeo.com/532854221

30.3.21

 O ÁLBUM DO BEBÉ

ou Biografia de uma infância

Vamos hoje até ao princípio de tudo. O horizonte são as origens. Por vezes há-as duplas, mesmo múltiplas. Escolhemos muitas origens ao longo da vida, e Maria Gabriela Llansol fê-lo certamente. Em 1969, nos primeiros anos do exílio e já de preparação do que seria a sua primeira Escola, a da Rua de Namur em Lovaina, Gabriela regressa um dia às suas raízes, propondo-se levar a cabo um projecto que começa por intitular Leitura de um Álbum - Biografia de uma Infância. Esse álbum existe, está no seu espólio fotográfico e foi organizado pelo pai com fotografias que ele próprio fez desde os primeiros meses da filha, e até aos seus três/quatro anos.

O álbum abre com a seguinte inscrição do pai: «Álbum de fotografias da minha querida filha / Maria Gabriela / tiradas por mim / 9-6-34 / 37 anos» (imaginámos que a fotografia de baixo, que foi retirada – pela própria Maria Gabriela? –,  poderia ser a da mãe, talvez a que agora aí voltamos a montar. Elvira, a mãe, tinha então 30 anos)

Mas nesses anos de Lovaina Maria Gabriela Llansol descobre também – ou rememora – um livro publicado originalmente em 1925, e com várias reedições nos anos trinta e quarenta. Esse livro funcionará  no seu «projecto» como contraponto do álbum paterno: trata-se d' O Livro de Bèbé, uma edição com versos de Delfim Guimarães e ilustrações de Raquel Roque Gameiro Ottolini, que Gabriela vê como uma «compilação de tiques de relações familiares», «um rito, um protocolo..., com as suas imagens estereotipadas».

Por essa altura lia Maria Gabriela, com Augusto, muita da literatura teórica então em voga, de estruturalistas, sociólogos, linguistas, psicanalistas, o que a leva a tomar como ponto de partida para a sua análise do álbum (e do livro) as considerações de Lacan em torno dos tópicos do «estádio do espelho» e da formação do eu através da imagem do corpo, da «instância da letra no inconsciente», etc. (há páginas do caderno onde o projecto vai ganhando forma que referem o lugar desta teoria, muitas vezes intimamente ligada a desenhos de Llansol).

Se Maria Gbriela tivesse ficado em Portugal, talvez também se apercebesse da entrada dessa nova vaga teórica: pela mesma altura, em 1969, o estruturalismo entra em Portugal pela mão de Eduardo Prado Coelho («enfin, Édouard vint!», como escreveria então Arnaldo Saraiva), e também Lacan e outros entrariam uns anos depois, pela colecção «Práticas de Leitura», que Maria Alzira Seixo lança na editora Arcádia (nomeadamente com O Sujeito, o Corpo e a Letra, de Lacan, Serge Leclaire, J. Laplanche e O. Mannoni – todos representados com obras próprias na biblioteca de M.G. Llansol).

Eis as linhas dos Écrits de Lacan de onde Gabriela parte para a leitura do álbum:

O nome:

O sujeito é servo de um discurso em cujo movimento universal o seu lugar já está inscrito desde o seu nascimento, quanto mais não seja sob a forma do seu nome próprio.


E seguem-se os primeiros comentários de Maria Gabriela, que reflectem o seu propósito de ler o álbum e o livro à luz de uma tripla perspectiva: sociológica, semiológica e psicanalítica, regressando às suas próprias origens numa família de média burguesia católica e conservadora, num Portugal saído de uma «revolução» e pronto para entrar numa ditadura dita «branda»:

Como acho urgente esta abertura, sobretudo para Portugal, e me interesso muito pela origem de tabus, de formas paralisadas de convivência, da aceitação incontestada da diversidade de classes, em resumo, pelas origens da incomunicabilidade individual e social, estou a tentar proceder à leitura de um Álbum de Bebé, na década de trinta/quarenta, análise que comporta uma variedade de planos diferentes (semiológico, sociológico e psicanalítico) e que apenas encontrará a sua significação definitiva quando os referidos planos forem reunidos num texto global. Aqui, presa do próprio nome, o sujeito é presa de «O Álbum do Bebé», em que confluem, para querer e desejar no lugar dele, um hábito social da classe burguesa (ideologia), a montagem do álbum e as notas do relator, o pai, centro dos fantasmas da família e dos seus fantasmas. Este tem por móbil aparente fazer a história do sujeito, o seu filho, num livro que guarde a sua memória. Mas, com este processo, o que irá é inscrever a direcção obrigatória do seu crescimento.

Um pouco mais adiante, no caderno, ficam claras as ligações entre o livro de 1925 e o Álbum (pessoal) do Bebé:

Pretendo encontrar a relação entre o sujeito deste texto (o pai) e o significante (o filho), de modo a estabelecer aproximadamente o padrão da sociedade burguesa dos anos de 1931-34. Uma criança é, pois, o nódulo em que se articula e decifra essa personagem parental. Escolhi tal período porque em 1931 nasce a criança que ficará colocada entre a espada (a potencialidade de se exprimir livremente) e a parede (o pai). Leitura obrigatória, pela criança, das palavras e figuras desenhadas. Disponho de uma resenha, escrita pelo próprio pai, dessa criança-chave, ou seja, de um Livro de Bebé.

Mas o centro luminoso da casa não é o pai, como lemos por duas vezes neste caderno: A Maria Amélia é o centro, não o meu pai. Quase quarenta anos mais tarde, Gabriela regressa a esse tema e aos testemunhos de uma infância para os analisar ao nível icónico (as suas próprias fotografias, e os desenhos de Raquel Roque Gameiro no livro) e linguístico (os comentários e textos do pai, e os versos de Delfim Guimarães no livro, submetendo estes a uma desmontagem implacável), sabendo que qualquer linguagem que fale a partir desta distância, avançando nela, é uma linguagem de ficção. É preciso então atravessar toda a prosa e toda a poesia, todo o romance e toda a reflexão, sem distinções (Marcelin Pleynet, na altura editor da importante revista Tel Quel).

Llansol fará precisamente isso, vinte anos depois, com livros como Um Beijo Dado Mais Tarde, que refaz a história da «rapariga que temia a impostura da língua», levando-a a adquirir rosto e voz própria para lá da voz da autoridade que, lemos neste caderno de 1969, tende a moldar até as formas da oração:

______ eu rezava segundo as suas indicações. Formas de contestação adentro da aceitação: o meu livrinho de orações com a cruz pintada.


Dez anos depois do Beijo, em O Jogo da Liberdade da Alma, dá-se finalmente a (aparente e ficcional?) decepação da memória, a rapariga é agora a «desmemoriada», e acontece então, sentada no colo humanizante de Spinoza, nas escadas do prédio, a definitiva morte do fantasma do pai, dos vários pais (é o momento do fim do ciclo, através da reconciliação), que começou a acontecer no momento  de rebeldia suave do Livro de Ourasões. Então, já com oito anos, talvez fosse ainda o tempo da proverbial infância feliz. Mas o caderno anota também (imagine-se de que fonte: Trotski!): Diz-se da infância que é o tempo mais feliz de uma existência. Será sempe assim? Não. E algumas páginas mais adiante, e da mesma fonte: Mas eu não conheço tragédia pessoal.

O que nos é contado marginalmente neste caderno de 1969 é também já um destino de mulher, semelhante àquele que Gabriela encontra descrito no livro que lê na mesma altura – L'échec de Pavese / O Fracasso de Pavese, de Dominique Fernandez, 1968 – e de onde transcreve, em francês, um fragmento directamente relacionado com a Biografia da infância:

... e as mulheres não contam, na família. Quero dizer que entre nós as mulheres ficam em casa, põem-nos no mundo e não dizem nada e não contam para nada, e assim desaparecem das nossas recordações... As mulheres não fumam nem bebem, sabem apenas ficar paradas ao sol...

Mas, o que é uma biografia?, pergunta-se já então Maria Gabriela. Para responder: Não é certamente ser guardada à vista, inspeccionada, espiada... Por isso, conclui que é preciso fazer a crítica da palavra biografia, assim entendida. Mais tarde explicará isso melhor, quando, em Inquérito às Quatro Confidências, traz a noção alternativa de signografia do Há: o registo de sinais próprios que, para lá do nome, inscrevem cada ser individual na ordem geral, e mais autêntica, do Ser.

J. B.

O ÁLBUM DA INFÂNCIA : ALGUMAS IMAGENS 

(De Janeiro de 1932 a Agosto de 1934)

 
 
 
 

P.S. – A biografia da infância de Maria Gabriela Llansol pode ser seguida (até aos doze anos) nas nossas publicações: O Ofício de Crescer (Caderno da Letra E, 15 de Novembro de 2014) e Llansol. Uma vida de escrita. Espaço Llansol/Mariposa Azual, 2018.

27.3.21

A LUZ DE LER

(16)

Recebemos do C.E.M.-Centro em Movimento, de Lisboa, através dos amigos Bernardo Bethônico (ex-colaborador do Espaço Llansol) e Sofia Neuparth (que dirige o C.E.M.), três videos-performance com leituras feitas a partir do livro Contos do Mal Errante (capítulos XII, XV e XIV).

Deixamos o link para o visionamento dos três videos em sequência, com os nossos agradecimentos ao Bernardo, à Sofia e a todo o C.E.M. : https://vimeo.com/529417681


22.3.21

 A LUZ DE LER

(15)

Mais uma leitura, desta vez por voz masculina, na série que já vem de longe, A Luz de Ler.



 

Jaime Rocha, poeta, dramaturgo, novelista, lê-nos o enigmático e revelador início de Um Beijo Dado Mais Tarde, em que é cortada a língua da impostura que a rapariga tanto temia – e que mais tarde deixou de temer, porque decepou a memória desses tempos e se tornou na «rapariga desmemoriada» de O Jogo da Liberdade da Alma. E que no livro de onde hoje se fará a leitura chega já, enquanto Témia, a uma «relação de não hipocrisia com a palavra», coisa quase desconhecida nos tempos que correm.

O video com a leitura de Jaime Rocha pode ver-se aqui: https://vimeo.com/527274567