26.9.08

A RESTANTE VIDA, LA VIDA RESTANTE, TRILOGIA E GEOGRAFIA...


O Espaço Llansol – neste caso eu – errou! Obrigado à Ana Maria Pereirinha e ao blog Frenesi por terem assinalado o dislate!
É claro que a primeira trilogia de M. G. Llansol se chama «Geografia de Rebeldes», é claro que o título do livro que em Espanha se chama La Vida Restante é em português A Restante Vida. Quanto à «Trilogia de Rebeldes», fui levado, sabe-se lá por que perversidades do inconsciente, pela indicação da segunda badana da edição espanhola, onde se apresenta a «Trilogía Geografía de Rebeldes».
Mea culpa!

João Barrento

24.9.08

A RESTANTE VIDA SAI EM ESPANHA


Acaba de sair a tradução castelhana do segundo volume da Trilogia «Geografia de Rebeldes». A edição – que se segue a El Libro de las Comunidades, publicado em 2005 em Madrid – aparece desta vez na colecção de ficção da editora Cultiva Comunicación, também de Madrid.


A tradução deve-se à dedicação ímpar de Mario e Mercedes Atalaire na divulgação da Obra de Maria Gabriela Llansol em Espanha. Numa entrega que é uma verdadeira «causa amante», os Atalaire ocupam-se há anos, com empenho e saber, da tradução, da edição, da apresentação dos livros de Llansol em Espanha. Seguir-se-á o terceiro volume da primeira trilogia, Na Casa de Julho e Agosto, e está já traduzida parte da segunda trilogia, «O Litoral do Mundo».
A badana deste volume faz uma excelente síntese de «Geografia de Rebeldes», uma leitura única dos destinos da Europa (e da Ibéria) à sombra da grande figura tutelar de Ana de Peñalosa, a grande mãe dos rebeldes e iconoclastas, figuras «de rara presença», de que se alimentam estes primeiros livros.

(Clique na imagem para ler)

E em breve virão outras edições de textos éditos e inéditos, em revistas e em livro, em Portugal, Espanha, França, Suíça e Itália, confirmando, depois da morte, o que Llansol deixou escrito em vida: que o texto é «um lugar que viaja».

20.9.08

MELISSA MODERNA – E DE SEMPRE

No exílio da Bélgica, em Jodoigne e Herbais, Maria Gabriela Llansol tinha muitos gatos.


Em Sintra, nos últimos anos, era só Melissa, a gata de pêlo macio e farto, branco-e-amarelo, olhar doce, que a Maria Gabriela sempre viu e tratou como ser inteligente e superior. Nunca se aproximou muito do comum dos mortais, quero dizer, daqueles que, a partir de um certo momento, visitavam a casa e acompanhavam a Maria Gabriela. O primeiro dia – melhor, noite – em que senti que Melissa me aceitou e falou foi na noite em que Augusto Joaquim nos morreu. Nos morreu é a expressão certa, porque o Augusto já era nosso havia algum tempo, e porque, literalmente, nos morreu ali, na cama nova que eu montara, serenamente, sem dramas – a mim, à Maria Gabriela, à Vina e à gata. Melissa, que até aí disparava como uma seta pelo corredor fora assim que entrávamos, para se refugiar na cozinha ou mesmo no telhado, nessa noite chegou-se, mansa, e deixou que lhe tocasse pela primeira vez.

(Se as quiser ver melhor, clique na imagem)

Mas só se tornaria verdadeiramente sociável na fase de doença da Maria Gabriela, e sobretudo nos meses que se seguiram à sua passagem, quando nos esgotávamos a desarrumar- arrumar-desarrumar a casa e nos espantávamos com a descoberta progressiva do espólio. Aí, Melissa rondava, olhava, falava, conversava mesmo, oferecia-se, exigia atenção. Que de todos recebia, até mais do que quando estava sozinha com a dona. Agora vive em feliz relação de facto com Emily Duncan, pequena dama arisca, vestida de preto-e-branco, e que já deve ter aprendido com a mais circunspecta Melissa alguma sabedoria de vida.
Um destes dias, Melissa e Emily D. receberam visitas, três de uma vez, no seu novo domicílio de Janas. Todos pequenos, todos curiosos, todos atenção.


E um deles, o Leonardo, de 3 anos, sem que ninguém lho pedisse, pediu lápis de cor e deixou no papel um redemoinho, formas dinâmicas e cores justas, o olhar de Melissa, o corpo-novelo de Melissa, o registo pictórico intuitivo e centrifugado de Melissa, a evocar a escrita das essências e o movimento do olhar que transforma imagens reais em figuras potenciadas e vibráteis nos textos de Llansol. Chamou-lhe simplesmente «Melissa», e o resultado foi este:


Uma Melissa «moderna» — estatuto que Llansol não reclamava para si, mas que um dia descobriu que se ajustava a Melissa, e fixou-o nesta «estância» de O Começo de Um Livro é Precioso (Assírio & Alvim, 2003):

59
Os olhos que se lhe abrem de manhã saem

Rapidamente para o telhado e para os sons

Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.

Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,

Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,

Não para mim, para ela, com o som cadenciado

Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.

Moderno é um termo que me intriga, que briga

Comigo, que não se torna compreensível,

Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma

Abstracção indecisa, um prazo que trai um

Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,

Pouco se distingue das extremidades da rua

Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,

Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.

E, quando assim concluo, Melissa é moderna,

Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir

De visu o que, desde então, se alterou.


J.B.

ESTÁ AÍ A ÍNDICE DOS LIVROS


Vai ser lançado, em distribuição gratuita, o número zero da nova revista ÍNDICE, que a partir de agora associará a sua vida à dos livros em todas as suas vertentes, sob o signo da liberdade e do prazer de ler, como melhor diz o indicial Editorial de Helena Vieira:


Este número zero toca-nos particularmente, já que, reza a ficha técnica, foi feito «sob a influência de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho». Dois nomes que, em vida, souberam dialogar como Llansol gostava e o Eduardo sabia fazer, em «encontros de confrontação» de lucidez e afecto, sem incompatibilidades entre as duas coisas.
A ÍNDICE evoca Llansol publicando alguns fragmentos dos Cadernos inéditos, e abre com um texto de Maria Etelvina Santos que ilumina os modos e os caminhos da escrita de Maria Gabriela Llansol:



(Clique nas imagens para ler)

Longa vida à ÍNDICE!

15.9.08

EM CHEIO!
A dívida de Eduardo Lourenço


Na entrevista que deu à revista LER-Livros e Leitores, publicada no último número (Setembro 2008), Eduardo Lourenço refere-se à Obra de Maria Gabriela Llansol como aquela em relação à qual sente que tem uma grande dívida a saldar, por não ter escrito mais demoradamente sobre ela. Com a clarividência e a acuidade que lhe conhecemos, o ensaísta acerta em cheio ao reconhecer o lugar ímpar ocupado por esta Obra no século XX pós-pessoano, considerando-a, por paralelo com a do próprio Pessoa, «o próximo grande mito literário português». Lapidar e fulgurante, também ele, ao assinalar nestes termos o lugar de Llansol na literatura portuguesa do últimno século. Até mesmo quando, de forma apenas mais estranha para quem o não saiba ler, fala da «seita» de admiradores, e desta Obra como «desagradável». O que se esconde por detrás de tais termos, e o conjunto do depoimento de Eduardo Lourenço confirma, é que estamos perante uma Obra que se pode dizer, em duplo sentido, «de eleição»: são poucos os que a escolheram e escolhem (o que pode ser ilusório, neste momento em que nos chegam com frequência notícias de novos entusiastas), acabando inevitavelmente por ser escolhidos por ela; e perante uma forma de escrita que nunca abdicou dos princípios que um dia, ao ver-se «sem normas» no panorama que a rodeava, para si mesma traçou, à margem do conforto a-problemático da tradição realista, do nosso sentimentalismo lírico de sempre e também de alguma dureza, toda mental, da herança modernista. Um dos mais arriscados – mas também mais desafiantes e gratificantes – desses princípios, para aquele tipo de leitor que este Texto criou, e a que chamou «legente», é o do «pacto de inconforto» (de «des-agrado», diz Eduardo Lourenço) que a Obra de Llansol pressupõe. Um pacto que não é súbito, que exige persistência e que acaba por se transformar em fonte de prazer e descoberta constante. O «mistério» deste encontro e desta entrega, explica-o a própria autora em Lisboaleipzig - O encontro inesperado do diverso: «se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável.» É também isto o que quer dizer Eduardo Lourenço quando conclui: «Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita.»
Reproduzimos a seguir as passagens sobre Llansol na grande entrevista de Eduardo Lourenço à LER.

(clique na imagem para aumentar)

24.7.08

NOVO ANO, NOVA CASA

Esta página faz hoje um ano, exactamente no momento em que, ao cabo de quatro meses de trabalhos de toda a ordem, concluímos a remodelação da nova sede do Espaço Llansol em Sintra, que manteremos com o generoso apoio da Câmara Municipal.
Por enquanto, esta página continuará a ser a nossa janela para o mundo, meio de informação sobre todas as nossas actividades e iniciativas, e espaço de publicação, quer de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, quer de contributos que iluminem o seu universo.
Para assinalar a data e fazer a festa, abrimo-vos as portas da nova/nossa/vossa casa, e convidamo-vos a entrar.

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Esta casa, como as outras que acolheram Maria Gabriela Llansol desde pequena – na Rua Domingos Sequeira em Lisboa, em Alpedrinha, em Lovaina, em Jodoigne, em Herbais, em Colares – foi sobretudo uma casa de escrita. Agora passará a ser o lugar que tornará a escrita, os documentos, as imagens e os objectos que nos foram legados coisa viva e disponível, num processo que já começou e se prolongará por alguns anos. O espírito que nos anima é aquele que a Maria Gabriela deixou expresso em muitas páginas dos seus livros, e também dos Cadernos inéditos que estamos a tratar. Páginas como estas:

Mas uma casa sem ninguém é como um terreno sem cultura.
(
Contos do Mal Errante)

— Podeis utilizar esta casa — disse a Ibn’ Arabi —
como mundo aberto. Eu sentia-a em vias de dirigir-se para os seus fins, ou de retroceder às suas origens.

... quando tudo por
mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
(
Finita)

Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava...
(
O Raio sobre o Lápis)

Na casa enorme,

O simultâneo cria sempre mais espaço...

(
O Começo de um Livro é Precioso)

Esta moradia de leitura foi edificada sobre a Casa da Saudação. Os tempos sucedem-se aos tempos, o tempo alimenta-se dos tempos..
.
(Os Cantores de Leitura)

Estou bem onde escrevi; estou melhor onde hei-de escrever; o presente é este movimento que se dirige para duas portas opostas e as abre, de escuro a claro, para o mesmo lugar onde já se acende a centelha que ondulará, finalmente, à mais ligeira aragem.

(Caderno 22, Praia Grande, 29 Julho 1986)


________
abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos.
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte
_______
(Caderno 43, 1995)

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Destes excertos quero reter hoje o último, neste momento em que a Casa está pronta para acolher a preparação de tudo o que possa gerar movimento em torno do texto, o trabalho no espólio e todos aqueles que se interessam ou venham a interessar-se pela Obra de Llansol, a passada e a futura. Este Espaço nunca será um museu, apesar de termos mantido viva numa parte dele a atmosfera de vida e de escrita de Maria Gabriela Llansol. Esta Casa quer, acima de tudo, continuar a ser um pensamento, um projecto vivo, «audaciar-se» em novos voos a partir do Texto de Llansol.

(Clique na imagem para aumentar)

Como o daquele pássaro jovem que, há dias, quando nos ocupávamos dos retoques finais, me surpreendeu, dentro da casa, com o seu voo rasante e aparentemente sem norte. Mas nesse momento, sem que ele o soubesse, achei que o seu norte (que acabou por reencontrar, no ar de onde viera) era a nossa bússola. Eram 10 horas da manhã, e por isso o baptizei de «Falcão matutino». Constatei, ao tê-lo por algum tempo no punho, que não era falcão, muito menos o falcão peregrino que povoa alguns textos de Maria Gabriela Llansol, nomeadamente Lisboaleipzig, associado à Figura de Aossê/Pessoa. Ainda assim, mantenho o nome, e deixo aqui o registo desse incidente prodigioso e do seu rasto, agora que o Falcão que nos veio anunciar a continuidade do espírito da mutação já voa novamente, livre, nos céus de Sintra:


O «Falcão matutino» no punho

«Foi como uma seta despedida sobre a minha cabeça – a «consciência azul» da sala em devir –, para parar na ilusória transparência da janela. Deixou-se cair e ficou no chão, atrás do pote de porcelana azul e branco, à espera da minha mão, os olhos ainda semicerrados, ou abertos de medo e súplica, o antracite das penas brilhando, as garras casadas com a carne dos meus dedos, sem querer separar-se. Acolheu-o um punho que nunca conhecera falcão, e que subitamente passou a ser, por instantes, poiso e casa desta ave vinda não se sabe de que ovo, iluminando a sala para nela deixar o sinal, a certeza de que este lugar será de pensamento e criação e mutação. E voltou a partir para o azul de onde viera.
Que destino me ligava, nos ligava, a esta aparição acidental, marcada para o encontro inesperado? Que poderes a trouxeram, ave jovem em crescimento, a este lugar em transformação, a esta Casa crescendo?
Não há sentido para os sinais. O seu é apenas o do caminho que mostram.»

Dois dias antes dera num dos Cadernos do espólio com uma série de dezasseis cartas a Ana sobre «O sonho de ler ou de estar voando»:

1ª carta
Se o azul pertence ao céu, pertencia também à consciência azul de que ia voltar a ver voar a ave: escreveu-me Ana no instante em que se fechou no sonho de ler, ou de estar voando.

[...]
8ª carta
lerás quem é «a consciência azul».


9ª carta

Leste que a consciência azul é o falcão peregrino


10ª carta

… a prumo na tua mão. Que treme, por ser [uma] outra ave, que hei-de lançar no seu voo.
[...]
(Caderno 28, 1988)

J. B.


DOS LEGENTES


O TEMPO SOB A FORMA DE LUGAR

— São 365 dias, Gabriela, mas tu ensinaste-nos o tempo da simultaneidade.

Não posso ter a veleidade de imaginar o texto que a Maria Gabriela faria sair hoje do seu punho, para incluirmos aqui neste espaço, como marca da passagem destes dias ou ano, ou mesmo se acharia relevante registar esse acontecimento. Talvez nos dissesse que o importante era continuarmos a nossa presença aqui ou noutro lugar, desde que mantivessemos o diálogo e o fizessemos crescer e irradiar, com prudência mas decididamente. Sem concessões, mas como dádiva. Como troca verdadeira. Face ao tempo cronológico, penso que teria o desejo de evocar de novo o tempo da simultaneidade, o que permitiu o encontro de Bach e Aossê, o da aliança dos semelhantes, o que emerge de todo o contrato de mútua não-anulação. Provavelmente (quase adivinho o seu ar sereno de mulher de muitos anos, como já gostava de se ver), diria que o mais importante é que há muito, muito ainda para fazer até que à liberdade de consciência se venha juntar o dom poético, e que para isso não podemos pensar só no tempo de uma vida.
É assim que penso hoje quando penso em ti, Maria Gabriela, e no teu Texto. Nos milhares de páginas que nos deixaste nas mãos, para tomar conta e trazer à luz — «até que as letras brilhem». É por isso que, pensando no tempo cronológico de um ano de blog, o vejo como um ínfimo, e sinto vontade de convidar os que nos lêem a revisitar esse outro tempo da simultaneidade, e a olhá-lo sobreimpresso no novo Lugar que temos vindo a construir, lugar para o qual já não terias corpo físico, mas que nos deixaste antever n' Os Cantores de Leitura — seja a casa última da Reconstituição ou a primeira do Pinhal, ou agora a sem-nome, será a Casa, e dela aqui deixo uma imagem de leitura.


Maria Etelvina Santos



No primeiro aniversário do blogue Espaço Llansol, eu gostaria de pegar num dos textos da Maria Gabriela que mais gosto me dá a ler, e que é O Jogo da Liberdade da Alma. Porque creio que este blogue tem conseguido, além de toda a informação e atenção que dá ao que vai surgindo e acontecendo à volta do nome e da Obra de Maria Gabriela Llansol, acarinhar o Texto llansoliano, tal como este foi sendo moldado e reflectido pela Maria Gabriela.

O carvalho milenar de Mourilhe

Neste livro, sob o signo de Spinoza, vemos a expressão do desejo de textualizar como tornar o amor infinito (p.9), para além (diria Nietzsche) das fronteiras do visível e perecível, e à medida que vamos lendo, vamos encontrando um pensamento que se tece sobre a relação entre escrita e música, norteada pela mútua afecção de que os corpos são capazes (Spinoza), na construção humilde e desprendida, da noção de texto infinito e amante:

_____________ aprendi com a linguagem de Hallâj […]

que o invisível, quando se sensualiza, abre à linguagem caminhos que o narrativo obliterou com a tampa do piano, os muros baixos do real, as ténues paredes da vida

que, chegado a esse ponto, o por escrever tem uma visibilidade sem fim que, por isso, a nova linguagem é fácil, e se reproduz por si mesma, contendo em si o próprio princípio de existir

que é querer continuar a viver sem que o grau da vida degenere, […]
que o caderno não é o escrevente do texto
mas o lugar onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.

No entanto, o texto é livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo_______
a substância narrando-se,
diria Spinoza.
(JLA, pp. 11-12)

Cristiana Vasconcelos Rodrigues

8.7.08


LLANSOL EM FRANCÊS

A revista francesa online Poezibao – Le journal permanent de la poésie acaba de editar, com data de 7 de Julho, excertos de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, juntamente com informação biográfica e bibliográfica sobre Maria Gabriela Llansol. A iniciativa e a tradução dos textos foi de Cristina Isabel de Melo, artista plástica e tradutora de Llansol.



A esta seguir-se-ão em breve uma série de outras publicações de inéditos dos Cadernos e textos sobre Llansol em revistas de Portugal (Mealibra, Índice e Foro das Letras), Espanha (Serta), Brasil (Polichinello) e Itália (Libretto). Neste momento estão ainda no prelo, ou em tradução para francês (por Guida Marquès e Cristina de Melo) e italiano (por Alessandro Granata), Onde Vais, Drama-Poesia?, O Raio sobre o Lápis, Cantileno, Hölder de Hölderlin, O Jogo da Liberdade da Alma e «O Espaço Edénico».

18.6.08


NOVA CASA PARA O ESPAÇO LLANSOL

O nosso esforço dos últimos meses foi finalmente recompensado: a Câmara Municipal de Sintra e a proprietária da casa onde viveu Maria Gabriela Llansol reconheceram a importância da Associação e do nosso trabalho futuro, e possibilitaram a manutenção da casa de Sintra como sede do Espaço Llansol. A partir de agora é aí que reuniremos, prepararemos as nossas actividades e trabalharemos no espólio.


A «Casa da Reconstituição» (como já lhe chamamos, inspirados em Os Cantores de Leitura) vai precisar de pequenas obras, que faremos nas próximas semanas. Depois continuará o trabalho no espólio. Estamos neste momento a digitalizar, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o primeiro núcleo de 76 cadernos manuscritos e numerados pela Autora, a que se seguirá um segundo núcleo de 73 cadernos avulsos e, mais tarde, o tratamento do resto deste imenso legado (diários, correspondência, agendas, blocos, papéis avulsos, recortes de imprensa, juvenilia, marginalia, fotografias, diapositivos, iconografia, audiovideoteca, objectos). No fim do ano iniciaremos a indexação destes cadernos, sem o que o trabalho sobre eles será inviável, e daqui a pouco mais de um ano tencionamos disponibilizá-los em edição digital. Até lá, definiremos as normas e condições de utilização por investigadores interessados em trabalhar com este espólio.
A nossa proposta de um ciclo de vários dias e de uma grande exposição intitulada «Sobreimpressões - A dimensão europeia da Obra de M. G. Llansol» foi aceite pelo Centro Cultural de Belém, e deverá concretizar-se no Outono de 2009 ou na Primavera de 2010.
As nossas edições dos Cadernos Llansolianos (e outras publicações) continuarão, agora com a chancela da Editora Mariposa Azual, que regressa após um interregno de alguns anos.
Mais do que nunca, agradecemos o apoio de todos a esta «causa amante», e continuamos à vossa disposição.

J. B.


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9.6.08


LLANSOL EM FRANCÊS E CASTELHANO

Duas revistas editadas respectivamente em França e no Luxemburgo – Décharge e Abril –, em francês e em castelhano, incluiram nos seus últimos números textos de Maria Gabriela Llansol em tradução.


A Décharge publica um dossier organizado por Cristina de Melo, artista plástica e poeta portuguesa radicada na Bretanha, que inclui, para além da apresentação da Autora e de um excerto do texto de João Barrento publicado aqui depois da morte da Maria Gabriela, uma selecção de textos extraídos de
O Começo de um Livro é Precioso, Amigo e Amiga e Os Cantores de Leitura. Na apresentação de Maria Gabriela Llansol, Cristina de Melo justifica a sua inclusão num dossier de «Cinco poetas portugueses» (para além de Llansol, Nuno Júdice, Maria Andresen, Cristina de Melo e Fernando Pinto do Amaral, presentes num encontro recente em Dijon): «Se em Portugal o texto de Llansol continua a ser visto como inclassificável, ele tem uma tal força poética e plástica que, sem pretender etiquetá-lo, não hesitei em inclui-lo nesse campo particularmente amplo que é o da experiência poética.» No mesmo número, o crítico Luce Guilbaud escreve ainda sobre a obra de Llansol, a partir dos livros até agora editados em França, Un Faucon au Poing e Les Érrances du Mal.


O «conto» incluído
no nº 35/2008 da revista Abril (que se edita no Luxemburgo, e dedica este número à memória das escritoras José Ensch e Maria Gabriela Llansol) é o fragmento LXII de Contos do Mal Errante, e foi escolhido pelo responsável por este número dedicado ao conto de autores de língua portuguesa de todo o mundo, o tradutor António Gonçalves, que oferece estes textos aos leitores como «amostras, pontos de partida para a descoberta da Obra de cada um dos autores, dos mundos físicos e imaginários neles presentes. Como um convite à viagem, uma etapa – ou talves se possa dizer uma 'tapa' para ir abrindo o apetite.»
Em breve mais quatro revistas – duas que se editam em português, uma em todas as línguas neolatinas e outra em italiano – publicarão textos de Maria Gabriela Llansol, desta vez inéditos dos Cadernos do espólio (que continuamos a classificar e tratar).