Por enquanto, esta página continuará a ser a nossa janela para o mundo, meio de informação sobre todas as nossas actividades e iniciativas, e espaço de publicação, quer de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, quer de contributos que iluminem o seu universo.
Para assinalar a data e fazer a festa, abrimo-vos as portas da nova/nossa/vossa casa, e convidamo-vos a entrar.
Mas uma casa sem ninguém é como um terreno sem cultura.
(Contos do Mal Errante)
— Podeis utilizar esta casa — disse a Ibn’ Arabi — como mundo aberto. Eu sentia-a em vias de dirigir-se para os seus fins, ou de retroceder às suas origens.
... quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
(Finita)
Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava...
(O Raio sobre o Lápis)
Na casa enorme,
O simultâneo cria sempre mais espaço...
(O Começo de um Livro é Precioso)
Esta moradia de leitura foi edificada sobre a Casa da Saudação. Os tempos sucedem-se aos tempos, o tempo alimenta-se dos tempos...
(Os Cantores de Leitura)
Estou bem onde escrevi; estou melhor onde hei-de escrever; o presente é este movimento que se dirige para duas portas opostas e as abre, de escuro a claro, para o mesmo lugar onde já se acende a centelha que ondulará, finalmente, à mais ligeira aragem.
(Caderno 22, Praia Grande, 29 Julho 1986)
________ abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos.
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______
(Caderno 43, 1995)
Que destino me ligava, nos ligava, a esta aparição acidental, marcada para o encontro inesperado? Que poderes a trouxeram, ave jovem em crescimento, a este lugar em transformação, a esta Casa crescendo?
Não há sentido para os sinais. O seu Há é apenas o do caminho que mostram.»
Dois dias antes dera num dos Cadernos do espólio com uma série de dezasseis cartas a Ana sobre «O sonho de ler ou de estar voando»:
1ª carta
Se o azul pertence ao céu, pertencia também à consciência azul de que ia voltar a ver voar a ave: escreveu-me Ana no instante em que se fechou no sonho de ler, ou de estar voando.
[...]
8ª carta
lerás quem é «a consciência azul».
9ª carta
Leste que a consciência azul é o falcão peregrino
10ª carta
… a prumo na tua mão. Que treme, por ser [uma] outra ave, que hei-de lançar no seu voo.
[...]
(Caderno 28, 1988)
J. B.
— São 365 dias, Gabriela, mas tu ensinaste-nos o tempo da simultaneidade.
É assim que penso hoje quando penso em ti, Maria Gabriela, e no teu Texto. Nos milhares de páginas que nos deixaste nas mãos, para tomar conta e trazer à luz — «até que as letras brilhem». É por isso que, pensando no tempo cronológico de um ano de blog, o vejo como um ínfimo, e sinto vontade de convidar os que nos lêem a revisitar esse outro tempo da simultaneidade, e a olhá-lo sobreimpresso no novo Lugar que temos vindo a construir, lugar para o qual já não terias corpo físico, mas que nos deixaste antever n' Os Cantores de Leitura — seja a casa última da Reconstituição ou a primeira do Pinhal, ou agora a sem-nome, será a Casa, e dela aqui deixo uma imagem de leitura.
Neste livro, sob o signo de Spinoza, vemos a expressão do desejo de textualizar como tornar o amor infinito (p.9), para além (diria Nietzsche) das fronteiras do visível e perecível, e à medida que vamos lendo, vamos encontrando um pensamento que se tece sobre a relação entre escrita e música, norteada pela mútua afecção de que os corpos são capazes (Spinoza), na construção humilde e desprendida, da noção de texto infinito e amante:
_____________ aprendi com a linguagem de Hallâj […]
que o invisível, quando se sensualiza, abre à linguagem caminhos que o narrativo obliterou com a tampa do piano, os muros baixos do real, as ténues paredes da vida
que, chegado a esse ponto, o por escrever tem uma visibilidade sem fim que, por isso, a nova linguagem é fácil, e se reproduz por si mesma, contendo em si o próprio princípio de existir
que é querer continuar a viver sem que o grau da vida degenere, […]
que o caderno não é o escrevente do texto
mas o lugar onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.
No entanto, o texto é livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo_______
a substância narrando-se,
diria Spinoza.