19.1.26

 TRÊS OLHARES SOBRE AS LISBOAS DE LLANSOL

Na sessão do último sábado, sobre «As Lisboas de Llansol», João Barrento apresentou o tema com ligações à tradição da «poesia urbana» desde Baudelaire, e especialmente a autores portugueses contemporâneos que se ocuparam deste tema. A visão de Llansol (que o caderno feito para este dia documenta) foi apresentada através da leitura de Diogo Dória e Eva Dória, enquadrada por três peças musicais sobre Lisboa, de Jorge Palma, do grupo Tara Perdida e de Camille Saint-Sens (que podem ouvir-se no final deste post).

Deixamos aqui o essencial da apresentação do tema por João Barrento:

Talvez faça sentido lembrar algumas visões modernas da cidade (nomeadamente de Lisboa), entre Baudelaire e Pessoa, para depois passarmos às imagens de Lisboa em Maria G. Llansol, que num ou noutro aspecto ainda tem traços delas, mas as ultrapassa. A marca da modernidade é muito semelhante desde O Spleen de Paris (por contraste com o realismo e o naturalismo): o objecto é assimilado à imaginação do sujeito criador, a cidade torna-se translúcida, sem tipos urbanos definidos, o que num caso era quadro de superfície surge como palimpsesto em que o verniz espesso da linguagem própria impregna silhuetas de torres e labirintos de ruas, fazendo ressaltar conexões mais profundas. No seu livro de reminiscências de infância na Berlim de início do século XX, Walter Benjamin evoca a arte, não de descrever uma cidade, mas de se perder nela: «Desorientarmo-nos numa cidade não tem muito que se lhe diga. Mas sabermos perder-nos numa cidade, como quem se perde numa floresta, exige uma preparação muito especial. Os nomes das ruas têm que falar-nos como o estalar de ramos secos, e as ruas estreitas do centro dar-nos o tempo tão claramente como um vale na montanha. Aprendi tarde esta arte, e ela veio realizar o sonho cujos primeiros indícios tinham sido os labirintos nos mata-borrões dos meus cadernos.»

    Desde Baudelaire, com os seus «Tableaux parisiens» (em As Flores do Mal, que Llansol traduziu) e os Petits poèmes en prose por onde passa a brisa do spleen de Paris, que as cidades ocupam um lugar importante na Obra de poetas e narradores (como Edgar Alan Poe), transformando-se mesmo, em alguns, em «lugares» no sentido muito especial que o termo assume em Maria Gabriela Llansol – não meros cenários ou objectos de descrição, mas espaços com uma vibração própria que os transfigura em função do corpo que os vive ou da mente que os pensa.

    Lisboa assim transfigurada está presente, não apenas no nosso Fernando Pessoa, como sabemos, mas também em Baudelaire. No cap. 48 de O Spleen de Paris («Anywhere out of the world») lemos: «'Dize-me tu, minha alma, pobre alma friorenta, que pensarias tu de viver em Lisboa? Deve lá fazer calor, e podias regalar-te como um lagarto. A cidade ergue-se à beira d'água; dizem que é construída de mármore, e que o povo tem tanto ódio ao vegetal que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem a teu gosto: uma paisagem feita de luz e de mineral, com o líquido para os reflectir.' A minha alma não responde... Por fim, a minha alma explode, e grita-me ajuizadamente: 'Seja para onde for! Seja para onde for! contanto que seja para fora deste mundo!».

    Pessoa dá expressão mais clara a esta transfiguração e interiorização da cidade quando escreve a Sá-Carneiro, que está em Paris (em Julho de 1914): «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima das educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidade. Estavam todas dentro de si.»

    Esta é – e será também um pouco assim em Llansol – «a cidade lá fora cá dentro», como na «Tabacaria» de Álvaro de Campos, ou mais ainda, no sentido de uma leitura simbólica da escrita da cidade e da cidade como escrita, no Livro do Desassossego (que foi um livro-chave para a Maria Gabriela). É a fórmula exemplar de Bernardo Soares «Ver é também sonhar». E então o mundo citadino surge aí como imagem («sombra», com ecos platónicos), as pessoas são palavras, o quarto uma página, a cidade um livro meio opaco em que se abrem janelas que abrem para uma visão outra, crepuscular, humanizadora de um deserto, imaginária... Em F. Pessoa, até A Lisboa que o Turista Deve Ver (vd. livro editado por Teresa Rita Lopes) espelha esta sua cidade presente-ausente, mitificada. Tal como Maria Gabriela escreve na frase que me serviu de epígrafe para o caderno «As Lisboas de Llansol» («O nome de cada rua de Lisboa é para mim um acto de amor e um pensamento filosófico»), também Teresa Rita Lopes destaca no prefácio: «Pessoa amou Lisboa. Pessoa rima com Lisboa [...] Tão longamente sonhou com Lisboa e, ausente, a mitificou, que quando voltou se sentiu engeitado pela sua realidade – eternamente órfão e apátrida. Mas nunca deixou de procurar o corpo que lhe fugia». Como Teolinda Gersão, no romance A Cidade de Ulisses, já aqui (e em Llansol) se distingue entre turista e viajante: «Os turistas vão à procura de lugares para fugirem de si próprios, e logo os trocam por outros e fogem para mais longe. Os viajantes vão à procura de si noutros lugares, e nenhum esforço lhes parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de chegarem ao seu destino...».

 

*

     Llansol «veste» as suas Lisboas e os seus lugares com roupagens inusitadas, sempre personalizadas ou visionadas, distribuindo o seu mapa de Lisboa pelos três «modos de usar» que o nosso caderno documenta (e as leituras deram a ouvir): 

    a) os lugares vividos em deambulações pessoais desde a infância, evocadas na escrita mais tardia, ou depois do regresso do exílio; 

    b) os becos e travessas de uma Lisboa histórica trazida para alguns dos seus primeiros livros, como «enquadramento» adequado para as figuras (sobretudo beguinas e mitos nacionais) das duas trilogias, entre a «Geografia de Rebeldes» europeia e «O litoral do mundo» português; 

    c) e uma cidade capaz de desafiar a imaginação e levar a momentos de escrita claramente visionários (sem a ambição planetária das visões de Marco Polo nas cinquenta e cinco cidades de Italo Calvino em As Cidades Invisíveis!). Tais passagens são em Llansol um evidente contraponto das mais comuns vivências da cidade, uma escrita antecipatória, expressão de desejos de mudança que podem manifestar-se na simples substituição do tradicional emblema da cidade (corvos de São Vicente e caravela do fatídico «caminho da água» português) pelo do «gato Auroro» do zimbório da Basílica da Estrela, que traz outras promessas. São, como já vimos, passagens que subitamente revelam paralelos com as do Livro do Desassossego de Pessoa, em que os lugares (e as pessoas) evocam também «estados de alma», paisagens que são um sinal para qualquer outra coisa (mas diferente do sentimentalismo de Amiel, «sonhador débil», escreve Bernardo Soares!).

 


    A)

            Em qualquer dos casos, a Lisboa de Llansol é sempre vista/vivida da distância: a da infância e juventude, rememorada muitos anos mais tarde (nos Diários da juventude, a partir dos dezoito anos, a «sua» cidade está ausente); a do exílio, que será a Lisboa histórica reconstituída nos primeiros livros escritos aí (com algumas visitas a Lisboa depois do 25 de Abril. É visível também, nas «radiografias» de Lisboa, dos seus ambientes e das suas pessoas a partir de 1985, um progressivo desencanto, que se acentua nos anos noventa, com alguns momentos de excepção, sobretudo as vivências das vindas semanais a Campo de Ourique, ou alguns Cafés de eleição (a «Tentadora», a «Ferrari» antiga, a «Versailles») [vd. dois dos nossos cadernos: Campo de Ourique e Cafés]. Lisboa, que excepcionalmente pode ser ainda uma «cidade da Poesia», vai-se tornando cada vez mais um misto de «civilidade e incivilidade», um lugar «onde se fala sem nada dizer». Nos anos oitenta a cidade é ainda uma Lisboa «com menos gente e maior espaço», mas na década seguinte já «as pessoas circulam como coisas», anónimas e desumanizadas. E em Lisboaleipzig (um livro de 1994) deparamos com aquela passagem, retrato exacto da Lisboa «gentrificada» e hipercapitalista de hoje, em que Pessoa/Aossê regressa a casa e constata: «Na Lisboa / que vim encontrar agora, a crença é o progresso que, / na realidade, é dinheiro a correr mais ligeiro e abundante e que, na mais-realidade ainda, é o nome do nada-de-prata que a Europa pluthocrata, telemathica e futurenta deu a alguns aqui...» (Lisboaleipzig, 2ª ed., pp. 348-349). Uns anos depois, no final do século e num Café, a imagem dos lisboetas é dada nos seguintes termos: «cansaço das suas vozes gesticulantes», «nada é fluente» [como o Texto], «pesadelos aos gritos». E na viragem do milénio (em O Começo de um Livro É Precioso, de 2003) tudo parece piorar: é a «devastação urbana», «espaços vagos» com humanos como «patos bravos» no «nosso Ocidente prosaico», de um «bem-estar opaco»...



    B)

            Também a Lisboa histórica das beguinas vindas de Antuérpia (que iremos encontrar em livros como Na Casa de Julho e Agosto e Causa Amante) se revela desde logo como um lugar híbrido: por um lado, lugar de acolhimento – mas apenas na casa e na horta de Alisubbo e talvez nas margens de Tejo-Rio, que ainda acolhem o segundo enterro do revolucionário Müntzer –, mas também já de um certo mal-estar, na «casa freirática» do Convento das Madres de Goa (que não é um béguinage), ou na casa onde agora vive Ana de Peñalosa, já envelhecida, e saindo apenas de noite, «quando a cidade culmina no vazio, fica só para ela». Lisboa é agora também lugar de perseguição de «rebeldes», com Jorge Anés [Jorge de Sena] sacrificado na fogueira da Inquisição no Largo de S. Domingos, ou Luís M. exilado na Serra da Arrábida. Já então, tal como hoje, Lisboa, no auge da glória (ou do desastre) dos descobrimentos não é alternativa atraente: as beguinas deslocam-se para o Cabo Espichel, e a beguina Margarida chega mesmo a fugir para as «fontes do Tigre e do Eufrates» com o seu «filho» Luís M., para o banhar em outras águas. A cidade, essa parece ser mais «propícia para ser imaginada».


    C )

            É este o terceiro momento da escrita de M. G. Llansol sobre Lisboa, a de uma cidade-outra vista através da lupa do sonho e da visão, e onde as árvores são «a espécie arquitectónica que prefiro». Cidade sonhada no simples convívio humano com um casal desconhecido num eléctrico, nos passeios pela cidade com o gato Melodia «entre dois anjos», na imaginação de uma «Parasceve Lisboana», lugar de todas as promessas (que o real não confirma, apenas intuída nos eléctricos irreais parados no Largo da Estrela «contra a luz verdealmente saindo das portas do Jardim»); ou na cena dos três Reis Magos procurando com toda a lentidão do mundo, entre os automóveis da Praça do Saldanha, «a estrela que a noite lisboeta ocultava» – mas o «progresso» tinha apagado essa estrela! Estamos em 2000, os passeios já nada têm a ver com os da infância, Lisboa é agora «a ausência que me envolve», uma cidade «acéfala»!

 

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    Poderíamos concluir evocando alguns autores portugueses contemporâneos que se voltaram para Lisboa e da cidade fizeram leituras singulares, com as mais diversas marcas. Lembro alguns, até aos nossos dias.

     A relação de Llansol com a cidade de Lisboa, que assume a já referida tripla dimensão na sua escrita, não é comparável à tradição das descrições mais ou menos típicas que conhecemos desde Cesário Verde (em parte, e num outro registo, também em Pessoa). Mas também se diferencia, por exemplo, da poesia que utiliza a cidade como um meio de crítica política, de sarcasmo e ironia, como na Obra de um Alexandre O'Neill, que se via – tão actual! – «de ombro na ombreira» olhando o mundo «Daqui, desta Lisboa compassiva, / Nápoles por Suíços habitada, / onde a tristeza vil e apagada / se disfarça de gente mais activa»!; um observador atento, e meio perdido, que olha a sua cidade com algum desencanto: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, / na terra onde nasceste e eu nasci?». 

 

Já Armando Silva Carvalho, com o seu irónico «Roteiro sentimental» de Lisboa, nos oferece um sismógrafo lírico dos movimentos mais fundos e das evidências mais enganadoras das grandes metrópoles. Na dedicatória do meu exemplar, leio: «Para o J. B., estas Lisboas que fogem do Cesário, do Campos e do O'Neill [que ele via como seu «primo»!], para irem bater baixinho na mão cansada de quem a quer cantar, apesar de tudo». No texto que escrevi para a Colóquio-Letras a propósito da selecção e tradução alemã da nossa amiga Ilse Pollack (de 2015), leio-o como livro de um «flâneur da alma de lugares e figuras não tipificados», sempre em tensão consigo mesmo, como a própria paisagem citadina, numa cidade e num país de «três sílabas de plástico» («Por-tu-guex») descritos entre a irrisão e o desencanto. Neste «Roteiro sentimental» não há lugar para os tipos urbanos d' O Sentimento dum Ocidental; são antes os representantes de certos fenómenos culturais novos, ou figuras puramente humanas, que apelam ao «sentimento de um acidental» poeta-transeunte, com a sua arte – nisto semelhante à de Llansol – de uma flânerie que não é a de saber perder-se nos labirintos da cidade (como dizia W. Benjamin), mas a de neles ser capaz de se encontrar, nas Lisboas de um país «consumível e consumido». E, como diz Ilse Pollack no prefácio, por «lugares conhecidos e menos conhecidos, muitos, mas só 'familiares' à primeira vista». Relembro ainda um outro autor (Também amigo de Armando), o do interessante e muito pessoal Lisboa. Livro de bordoJosé Cardoso Pires, e o seu mapa de Lisboa, que é sobretudo o dos seus bares, onde por vezes me encontrei com ele, do «English bar» do Cais do Sodré ao «Snob» da Rua do Século e ao «Procópio» das Amoreiras...).

Diferente de Llansol, mas igualmente um livro original e revelador, é também o recente Lisboa Cliché (2021) do fotógrafo Daniel Blaufuks, que bebe muito nos seus poetas, e os transcreve, para acompanharem as fotografias de uma Lisboa muito sua, a da noite, da música, de experiências muito pessoais...

Diferente é ainda a cidade metonímica, que está por um país e vários mundos, que encontramos hoje em L de Lisboa(de 2015), de Ana Marques Gastão. Este seu livro transmite uma imagem desta cidade, a nossa, de hoje, totalmente negativa e descrente (e percebe-se porquê!), de uma Lisboa «impura», «cidade de menos», «no ensejo de atravessar o centro de um umbigo turístico»...


                                                                                   **



    Voltamos à nossa autora, para concluir.

   A visão múltipla das Lisboas de Llansol não se insere, também ela, na grande tradição do flâneur, desde Baudelaire e Walter Benjamin, aquele que deambula e gosta de se perder nos labirintos da cidade. Llansol é antes – nisto muito próxima de Armando Silva Carvalho, mas num registo diferente – uma passeante ocasional, uma acidental escrevente-transeunte que olha a cidade e por ela é olhada, operando nas suas impressões uma transformação que acompanha as várias fases da sua convivência com a cidade real, histórica ou imaginária. Tudo começa, como vimos, com o fascínio por alguns lugares (e pessoas) nas deambulações da infância e adolescência, da estrela ao Camões e pela Baixa, para dar lugar, depois do regresso da Bélgica, a uma «Lisbon revisited» em que a experiência da cidade, ocasional e vista da distância, cede a algumas rotinas e a um olhar cada vez mais crítico sobre pessoas e ambientes, alternando com algumas, poucas, «ilhas» como os Cafés e a «península» do Campo de Ourique das origens, «o meu país estrangeiro em Portugal» (i.é, mais uma ilha dentro da cidade e do país). Nesta cidade que é e não é a sua, ela sente-se antes (como Baudelaire na nova Paris haussmanniana) «out of the world», com o seu spleen próprio, em busca de si no confronto com os outros. Assim, como sempre em Llansol, a cidade é vista com olhos de ver (e corpo de sentir), para lá de meras evocações pitorescas, reconstituições topográficas, ou mesmo simples reminiscências biográficas, sem mais. Na sua vontade de futuro, também em relação à cidade ela parece saber (aqui uma vez mais simbolicamente, na viragem do milénio, em 2000) que para lá do «frenético humano» e dos «sonhos urbanísticos», «as ruas longas quebram-se perdidas, e, nesse perdido, o poema parte a imaginar, / dispara, na esperança de que, na manhã anunciada, seja reposta a continuidade, / não tanto que a cidade volte a ser cidade, porque o será, / mas porque, entretanto, / um mais-saber há-de subir à voz.» (Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 15).

E nós perguntamo-nos: e haverá um mais-saber da cidade/para a cidade? Talvez a leitura de Llansol nos ajude a descobri-lo, tal como a de outros: Ana Marques Gastão  e a sua visão crítica, ou António Guerreiro, que numa crónica recente falava desta Lisboa «gentrificada» como «cidade culturalmente estéril», com uma ou outra ilha, poucas, no meio do deserto animado da Baixa (por exemplo, o cinema Ideal!).

    O mais-saber de que fala a Maria Gabriela, a sua escolha, resultou sempre de um modo particular de ver e viver a cidade que era e não era a sua.

 

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As músicas de Lisboa

 

 Jorge Palma, Canção de Lisboa (1991):

  




Tara Perdida. Lisboa (1995):  



Camille Saint-Sens: Une nuit à Lisbonne (1880):  


15.1.26

 O TEJO-RIO DE LLANSOL EM MADRID

O principal tradutor de obras de Maria Gabriela Llansol em Espanha, Mario Grande, tem prevista para este ano a edição castelhana de mais quatro livros: O Senhor de Herbais, Um Beijo Dado Mais Tarde, Parasceve e O Jogo da Liberdade da Alma, na editora Ybernia, de Madrid. E estão previstos outros para 2027.

Mario Grande acaba de publicar no Blog desta editora, no preciso momento em que iremos falar das «Lisboas de Llansol» em mais uma sessão do Espaço Llansol, um interessante texto sobre o lugar de «Tejo-Rio, o rio-mundo» na Obra de Llansol, que pode ler-se aqui:  https://www.ybernia.com/blog


10.1.26

 AS LISBOAS DE LLANSOL

No próximo sábasdo, 17 de Janeiro, pelas 16 horas, falaremos das Lisboas de Llansol, que João Barrento apresentará a partir de três tipos de vivência da cidade na escrita de Maria Gabriela Llansol: a Lisboa vivida, a Lisboa histórica e textual e a Lisboa imaginária. O tema está documentado no caderno com textos de Maria Gabriela, desde as experiências da infância em Lisboa até às suas reflexões sobre a cidade depois do regresso do exílio e às metamorfoses textuais de Lisboa desde a primeira trilogia. Ouviremos alguns desses textos nas vozes de Diogo Dória e Eva Dória, com momentos musicais sobre a cidade, de Jorge Palma (Canção de Lisboa, 1991), do grupo Tara Perdida (Lisboa, 1995) e de Saint-Saens (Une nuit à Lisbonne, 1880).


26.12.25

 OLHANDO PARA O NOVO ANO...




25.11.25

 O LUGAR DE UM LEGADO

O espólio literário e documental de Maria Gabriela Llansol foi ontem oficialmente doado à Biblioteca Nacional de Portugal. Mas continuará disponível em formato digital no Espaço Llansol, para quem deseje consultá-lo, em particular investigadores.

Na cerimónia de ontem João Barrento e Maria Etelvina Santos fizeram duas intervenções em que reconstituem todo um caminho feito com Maria Gabriela e depois dela. E Hélia Correia, impossibilitada de estar presente, enviou-nos um postal com a sua mensagem. Deixamos aqui os textos destas intervenções, na sequência em que foram lidos, num dia e numa ocasião de grande significado para a preservação da memória de Maria Gabriela Llansol.

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O ESPÍRITO DA OBRA

Este dia é aquele em que, há 94 anos, Maria Gabriela Llansol nasceu para o mundo, e que, graças a este acto, lhe permitirá permanecer nele para além da morte. Por isso o escolhemos para a doação do seu espólio à Biblioteca Nacional, o que lhe garantirá a duração (durée, diria Bergson) para além do tempo. Não para a imortalidade, mas para uma forma particular de eternidade que a Maria Gabriela conhece do seu filósofo, Spinoza, que lhe diz, através da sua edição francesa, e com Deleuze: «Nous sentons et expérimentons que nous sommes éternels» — isto é, libertos  do tempo, porque deixámos rasto. Maria Gabriela Llansol di-lo numa única frase de um dos seus dossiers dactiloscritos: «A duração é a quantidade indefinida da existência».

Consciente desta possibilidade de prolongar a existência, já doente e no hospital, Maria Gabriela deixou sobre a máquina de escrever, no final do ano de 2006, dois papéis, simples folhas A5, que seriam decisivos para o futuro de todo o seu espólio. Um deles, que lemos como uma doação pré-notarial, é dirigido a alguns dos amigos mais próximos do Grupo de Estudos da sua Obra que se constituira seis anos antes, e em que deixou escrito:

«O que há nesta casa fica sob a protecção de João Barrento e Etelvina Santos, que lhe darão seu destino – o mais conveniente. Nas suas decisões contarão com o apoio de Hélia Correia. Quero dizer que os dois dispõem da propriedade e da orientação desses bens – a que acharem melhor segundo o espírito da Obra. Melissa fica entregue à Hélia.  –  (12-12-2006)».

 

O outro papel, que leio como uma introdução ao anterior, dá numa frase a sua relação afectiva com todo esse «património», e diz simplesmente:

«Carta:

O património

            Tenho por ele um sentimento idêntico ao que se dá às crianças – ondulações de suavidade».

 

O que fizemos até hoje foi tratar esse «património» com o mesmo afecto e dedicação, o melhor que pudemos e soubemos, com todos os cuidados para a sua preservação – e «febrilmente», como nossa «Causa Amante», com aquela «febre de arquivo» de que fala Derrida (depois de ter reconhecido, hélas, que muitas vezes predomina, não a febre, mas o «mal de arquivo» – quando esse arquivo é apenas um depósito morto).

Não foi isso o que aconteceu com todo o espólio – literário, documental, pessoal, material – de Llansol, que acolhemos todos estes anos numa casa viva, e não num arquivo morto, como ela própria desejava quando escreve:

«A casa, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder audaciar-se, exprimir-se em Obra que fique em toda a parte» (Outubro 1995).

O nosso trabalho foi, de facto, como já escrevi no livro que documenta todo o espólio, algo assim como «um laboratório de possibilidades (que temos explorado dos mais diversos modos, com vista à sua divulgação e visibilidade), um campo aberto onde cada peça funciona como uma mónada susceptível de ser integrada em constelações diversas» – é, afinal, também o modo de funcionamento do próprio Texto de M. G. Llansol.

Mas tudo remonta aos cinco ou seis anos (2001-2006) de encontros do Grupo de Estudos Llansolianos, que se ocupou, em discussões regulares e Encontros Internacionais, da Obra de Llansol, tentando encontrar, como ela dirá, «a chave sob a maçã» (e eu acrescento: da árvore do conhecimento do seu Texto e do «Espaço Edénico sem Éden» que é o jardim onde ele nasce e floresce). Foi o começo de uma ligação mais íntima do Grupo à Autora e à sua Obra, que talvez explique a nossa presença aqui, neste acto de preservação da sua memória. Foi a hora do nascimento da «Comunidade que veio» e tornou possível tudo o que aconteceu até hoje com este legado, e que a própria Autora descreve assim no final do livro-balanço da sua Obra, O Senhor de Herbais:


«AS COMUNIDADES


Este livro é o confronto de materiais antigos, centrados sobre o tempo que vivi em Herbais, e um encontro de estudos que, durante várias sessões, se debruçou sobre O Livro das Comunidades. Apesar de participar com o meu silêncio, para não interferir na formulação da reflexão, fui sentindo o apelo outrora fortíssimo que me levara a escrever o livro fonte da minha escrita e do meu lugar no mundo. Seja qual for o meu destino, aí selei um contrato com o vivo, e dei o passo irreversível que tanto hesitei

em dar para um texto capaz de conferir uma expressão actual a gritos humanos e não humanos, abafados pelo «assim é» da história, do mundo, do poder de espezinhar.

Quantas vezes, sentada na minha cadeira a ouvir as discussões, dificuldades e dúvidas, senti finalmente que outros, a seu modo, entravam por uma porta não muito diferente daquela por onde eu entrara. Senti que se procurava a chave sob a maçã,


o mistério não é o medo que tolhe os passos, mas a servidão que trazemos acorrentada às mãos e nos impede de tactear a chave sob a impotência e o júbilo de viver,


senti-me estranhamente bem, sem o peso de carregar sozinha uma escrita que fez de mim um ser com aura, permitindo-me reatar o meu caminho para o humano, de ser alguém de único entre únicos também, únicos não querendo significar especiais nem revelados, mas tão-só responsáveis pelo dado indiscutível de que cada um é irrepetível,

quer goste quer não


a perseverança dos outros deu-me coragem

vi que não era uma singularidade vã.»

Gostaria de terminar evocando aquela casa de Sintra onde tudo ficou, quando a ela regressei, dois dias depois da grande viagem da Maria Gabriela, e em que tive uma espécie de visão de todo o seu mundo, real e figural, que deixei na Introdução ao meu primeiro livro de «ensaios llansolianos», saído ainda nesse ano de 2008:

A consciência, envolta em cálice,

de que o dia nasce...


Há dois dias que sou atravessado, dia e noite, por uma catadupa de imagens, de ideias, de afectos que me deixam num estado às vezes quase febril, outras vezes letárgico, outras ainda numa disposição quase visionária – a que sou pouco atreito – que me enche de desejos e convicções em relação ao futuro que espera o legado, a memória, o que fica do Texto de Llansol.

Voltei hoje a Sintra, pela primeira vez depois da noite do fim. Do comboio, vejo quintais com laranjeiras, limoeiros, nespereiras, sinais de vidas simples e límpidas, e logo a seguir, dominando a paisagem, grandes massas de betão, matéria inerte que sustenta o mundo inerte. E lembrei-me do universo desde sempre mais próximo de Llansol: um mundo de vivos e intensos, de energia e vibração contagiosas, sem distinção entre vivos-vivos e vivos tornados vivos pela força da escrita, como os objectos e o próprio texto.

Na noite anterior imaginara a casa vazia, a guardiã que ficou (a gata Melissa) deambulando por ela a chamar as Figuras para um festim de luto e alegria, para uma orgia grave e jubilosa: o menino-Literatura, a boneca preta do relógio, a Senhora decepada, o homem da bigorna, Témia em equilíbrio instável na sua cadeira, Sant’Ana e Myriam, o carneiro e o cão-lobo, a «jovem vestindo o seu jardim», a máquina de escrever, o candeeiro de abat-jour redondo sobre a secretária, todas as figuras que se agitam no armário que lhes coube como casa – Musil e Teresa de Ávila, Rilke e Bach, Teresa de Lisieux e Nietzsche à vista através do vidro –, e as Figuras maiores, os dois grandes companheiros filosóficos e espirituais, abertos em cima da pequeníssima mesa redonda ao lado do lugar de trabalho: Spinoza e João da Cruz.

O terreiro deste grande festim eram as muitas páginas, abertas e estendidas no chão, de todos os livros, d’ O Livro das ComunidadesOs Cantores de Leitura. Era a festa do Texto, sensualética, libidinal, vibrante, orgiástica, de mística e carne, de matéria e espírito, do corpo e da escrita e de todos os arcanos do mundo, sem excepção e sem exclusões. Era a festa da despedida e da esperança, da recusa da «experiência abusiva da morte» e da convicção de que haverá Parasceve, ressuscitação.

Foi então que verdadeiramente compreendi o que este Texto tem para dizer – num único lampejo, como aquele que julguei ver no rosto da Maria Gabriela poucas horas antes da passagem definitiva para a outra margem, o da revisitação de uma vida num instante. E percebi também melhor o sentido daquela frase de Spinoza sobre a qual tantas vezes tinha reflectido, e que a lição de Deleuze me ensinara a entender, mas não a viver em experiência: «Sentimos e experimentamos que somos eternos.»


João Barrento

7 de Março de 2008

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«O teu texto é agora confiado ao edifício forte, aos altos muros feitos de pedras com respiração onde, por vezes, se abrem as janelas.

A irradiação de cada página continuará a transtornar quem se avizinha, e o ar em redor receberá o corpo da palavra, ousado e amante.

E, na desolação do nosso mundo, Prunus Triloba, tantas vezes abatido, de novo levantado sob a luz – o poderoso dom que de ti jorra – manter-se-á o mensageiro do teu júbilo.

Esperas sempre por mim no nosso banco sob a secreta árvore do Parque de Sintra. Esperas sempre por todos no bairro original. Esperas sempre pelo Jade e pelos gatos na solidão de Herbais. Esperas pelos romeiros que hão-de vir à tua nova casa.

Nasces mais uma vez, nasces-me sempre. Aquilo que nos liga – ninguém sabe.

Beijo da tua

Emily» [Hélia]

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DÁ-ME UM LUGAR


eu deslumbro-me quando o tempo se suspende,

e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo.

Maria Gabriela Llansol


I.

Michel de Montaigne relata numa carta o momento em que Étienne de La Boétie se despede dele, fazendo-lhe um pedido meio enigmático: «Dá-me um lugar», é a última frase que repete ao seu grande amigo.

Sempre me impressionou este pedido, por ser uma frase poética na sua essência: reveladora do que não diz, oferece ao leitor um mundo de possibilidades, ficando com ele para sempre. Hoje sei que a Maria Gabriela me fez o mesmo pedido, embora não o expressando desse modo. Corria o ano de 2007. Depois de termos lido e passado, de Maio a Setembro, a versão final de Os Cantores de Leitura, terminando assim um trabalho que, pela companhia, aliviava a sua dor de estar só, uma manhã, na casa de Sintra, a Maria Gabriela pediu-me para abrir os armários das estantes do corredor e tirar tudo o que lá estava dentro. Disse-me: São os cadernos onde sempre escrevi, donde saíram os meus livros. Podemos começar a lê-los, a copiar o que não foi publicado. Vamos dar-lhes um lugar. Pode ser aquele armário que agora está cheio de copos. Fica a ser ‘o armário dos cadernos’. Começaremos a ler as duas o caderno nº 1 e vais passando o que não entrou em livro. Temos aí muito trabalho a fazer. Já tinha pensado num título para o novo livro que viesse a escrever: Livro de Horas. Pode ser esse o título para o que sair do primeiro caderno. Podemos começar no próximo dia. E começámos. Ao reler estas e muitas outras anotações de trabalho, de leitura e reescrita dos textos, apontadas por mim em dois pequenos cadernos, capa de papel kraft, verifico que as suas datas se situam entre Maio de 2007 e Fevereiro de 2008. Seria este o último mês das minhas idas a Sintra tendo a companhia da Maria Gabriela. No final desse mês de Fevereiro, a leitura em voz alta das 370 páginas do caderno nº 1 chegava providencialmente ao fim. A última página fora lida à minha única ouvinte.

Escassos dez dias nos separavam do dia 3 de Março de 2008. Leio uma das minhas últimas anotações: A Melissa passa entre nós e diz qualquer coisa, tão resignada quanto eu. Continuaremos, sabe-se lá até quando, nesta casa de Sintra. Nós e o Texto. Depois, será ele a indicar-nos o caminho.

Há um corredor de claridade que persiste nos meus olhos quando evoco esse momento inesquecível da revelação dos cadernos de escrita e a visão do rio que eles constituíam, espalhados no chão do corredor na casa de Sintra, quando saíram dos armários das estantes. Corredor de claridade que me parece ser a dobra daquele outro que a Maria Gabriela refere, o da casa dos pais, quando escreve «_______ eu nasci em 1931, no decurso da leitura silenciosa de um poema». Era o dia 24 de Novembro. Ambos falam do nascimento da escrita e do ser que a viveu. Gosto de sentir que os dois se fundem no corredor de claridade da casa Espaço Llansol, também em Campo de Ourique, por onde se entra continuamente na leitura, por ser a casa onde acolhemos todos os que, connosco, vêm ler e pensar o texto llansoliano. Mas outros corredores se abrem a partir de hoje: os desta Casa-mãe que preserva a memória e que, a partir de agora, será a guardiã do espólio de Maria Gabriela Llansol, o seu Lugar.

A noção de Lugar sempre foi importante para a Maria Gabriela, que o definia como um Encontro primordial. Ainda que aconteça num determinado espaço, ultrapassa-o geográfica e temporalmente. Foi a partir do Lugar llansoliano que entendi melhor o pedido lançado a Montaigne: «Dá-me um lugar». Há um espaço físico, material, onde se cuida e se preserva a memória. Mas há também o lugar imaterial, o do testemunho, onde as figuras nascem para a sua sobrevida. Este é o lugar do encontro que depende de nós. «Não fiques a recordar; se a amas, trá-la de volta», escreve a Maria Gabriela, num diálogo com Jade, em Onde Vais, Drama-Poesia? Parece-me ser este o outro sentido da frase de La Boétie.

 

II.

Nas últimas páginas do Diário 3, Inquérito às Quatro Confidências, Maria Gabriela Llansol enuncia um pequeno diálogo com Vergílio Ferreira:

 

    O mundo existe e o Vergílio morreu, mas

    mais uma palavra me pede a escrita.

    — Gabriela!

    — Sim!

    — Ver-nos-emos face a face, daqui a milhões de anos.

    — Sim!

    — Faça a sua parte! Sem medo, sem medo, sem medo.

 

Em momentos de desânimo, sempre me lembrei destas palavras. Sabia que também eu teria de fazer a minha parte, e sem medo. Como cada um de nós. «O caminho caminha», como escreveu a Maria Gabriela, e essa parte que me coube em sorte chega hoje aqui. Essa, porque a outra, a do lugar da toalha de leitura continuará o seu percurso em mim, é como um respirar, é o que com humildade sinto que posso ir fazendo – trazer os outros ao Texto. Para isso, guardo sempre comigo esta frase da Maria Gabriela: «Sejamos singulares e totalmente desprovidos de importância».

Agradeço a todos os que, com a sua força inabalável e uma amizade incondicional, me ajudaram a fazer este caminho e tornaram mais leve esta causa amante, sem esquecer a densidade e a beleza da sua raiz. Só podemos antever a direcção do gesto pela firmeza com que seguramos o lápis. Nunca saberemos o que pode um corp’ a screver nem a linhagem que ele dará à escrita.

Lançar uma semente à terra e passar testemunho desenham o mesmo gesto de desprendimento. Creio que a despossessão é uma das formas do conhecimento amativo, aquele que a Maria Gabriela atribuía a Luís Comuns, o poeta.

 

III.

Na última parte do livro Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, sentada junto à grande árvore do Jardim da Parada em Campo de Ourique, depois da morte de Augusto Joaquim, o ausente presente na copa da árvore, Maria Gabriela estabelece com ele um diálogo, apaziguando o processo do seu luto.

São essas palavras que aqui evoco, desejando, a partir de hoje, ouvir a sua dobra na voz da Maria Gabriela, para que também eu, sempre que olhe as árvores da Biblioteca Nacional, me sinta igualmente apaziguada:

    «Ouço-o escrever, na folha de leitura permeável ao vento:

 

    Esta árvore é um metrosideros.

    Eu estou bem.»

 

Biblioteca Nacional, 24 de Novembro de 2025

Maria Etelvina Santos

 


24.11.25

 O PASSADO E O FUTURO:

NOS 94 ANOS DE MARIA GABRIELA LLANSOL


O espólio de Maria Gabriela Llansol, doado à Biblioteca Nacional de Portugal neste dia em que ela faria noventa e quatro anos, é todo um mundo em que «o passado se amplifica e perde os limites». Assim, preservado no Arquivo de Cultura Portuguesas Contemporânea, o seu legado tem já «um futuro a emergir no ciclo do tempo».



17.11.25

 ESCRITA E DESENHO: UMA UNIDADE



O sábado passado, na Galeria Monumental, trouxe momentos de revelação para muitos dos que assistiram à apresentação do último livro da nossa colecção «Rio da Escrita»: «A carne da cor e da imagem«: Os desenhos de Maria Gabriela Llansol.

A primeira revelação foi a da intervenção inicial de Ana Maria Pereirinha, que regressou ao início dos anos 90 para evocar a sua relação com Maria Gabriela, com vista à escrita da sua tese de mestrado, a primeira sobre a Obra de Llansol. Mas também à presença dela e de Augusto Joaquim na Galeria Monumental, hoje dirigida pela Ana Maria e pelo pintor Manuel San Payo, numa série de encontros em que se falava de livros, intitulados «Encontros de Lisboaleipzig».  Llansol havia já escrito, em 1991, o texto de abertura do catálogo de uma exposição de Manuel San Payo na Monumental, em que foi exposto um quadro de grande formato que hoje se encontra no Espaço Llansol.

Quadro de Manuel San Payo (1991)


Depois da projecção de um video que mostra a descoberta e organização de todo o espólio na casa de Llansol em Sintra, muitos desenhos e a sua inserção nos cadernos e ainda o inventário e a classificação do arquivo do Espaço Llansol, Manuel San Payo comentou os desenhos da perspectiva, não só da história desta forma de expressão pictórica, mas sobretudo da íntima relação entre escrita e desenho nos cadernos de Maria Gabriela, onde tantas vezes é evidente o parentesco entre as duas formas de expressão, ambas livres e fora de todas as normas de configuração e de suportes. O desenho liberta a letra, a letra gera desenhos.

João Barrento comentou a natureza particular de grande parte dos desenhos de Llansol como desenhos da imaginação, trans-figurações e não reproduções do real – uma vez mais, tal como a sua escrita. Lembrou algumas das reflexões da própria autora sobre o desenho, e chamou a atenção para a possível tipologia dos milhares de exemplos, que o livro documenta e que encontramos numa grande diversidade de suportes nos cadernos e nos papéis avulsos do espólio, minimamente sugerida pela selecção de desenhos na imagem que se segue.


Deixamos ainda, para quem não conhece o livro, uma selecção de fragmentos de Maria Gabriela Llansol sobre o acto de desenhar, quase sempre na sua inevitável ligação à escrita:

«OS PEQUENOS DESENHOS DÃO PRAZER ÀS LETRAS»
Fragmentos sobre escrita e desenho


O sonho

apresentou-se-me numa sucessão de cenas. Professor de desenho deitado numa cama. Folhas espalhadas. Ensina a vários alunos que se vão sucedendo. Chega a minha vez. Explico-lhe que nem sequer tenho a noção do espaço, que nem sei desenhar. E escrever? Escrevo menos mal, respondo, com um sorriso.



Escrever é menos ácido do que desenhar.

 

Não sei desenhar, mas, escrevendo, sei desenho. Olho, primeiramente, e acima de tudo, para o desenho do que escrevo. Rasurar não é escrever, o texto interrompe-se quando se rasura, quebra o curso que liga a mão a qualquer coisa totalmente inexpressiva enquanto não se exprime nesse movimento. A firmeza deste caderno liga-me à matéria do que sinto ser o mais vibrátil material.  

 

 

Apetece-me desenhar substâncias puras, e permito-me pensar que, desenhando, poderia escrever palavras à vontade, com sublimes erros de ortografia.

 

 

Não desenho, mas capto as linhas do desenho.

Sei qual é a carne da cor e da imagem________       

 

 

O que comanda a minha mão – escrevendo – é o prazer do desenho. Encaracola as letras, dá-lhes um movimento de cavalo, ora em paseio, ora em corrida. Geralmente em corrida.

Só sei desenhar letras, dar-lhes contornos de garupas em movimento.

 

 

... Sinto-me diferente do que sou – subtracção e soma que prossegue acertando contas. As letras seduzem-me como pequenos desenhos livres e acerados. São diminutivos do meu pensamento.

 

 

Eu nunca tinha reparado na beleza de «uma página caligráfica» – vê-la como desenho, obra de beleza, fonte de procura. Nunca tinha reparado – não –, tal era o alvoroço de escrever, de escrever canto, na sua perturbação quente, mas calma.

 

 

Desenho com as letras o que está oculto no meu pensamento e que, sem elas trepidando, ficaria para sempre oculto, pelo menos de vós.

Desenho, com prazer, os contornos, e arrisco-me a voltar a ler a frase depois de escrita. Com prazer.

 

 

Descubro a pergunta: desenhar é melhor do que escrever?

Descubro a resposta: Há uma coincidência feliz entre as duas partes de um todo azul...



16.11.25

 JOÃO MARIA MENDES

Faleceu hoje o jornalista, romancista e autor de importantes livros sobre a história do cinema, director da Escola Superior de Teatro e Cinema e grande amigo de Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim nos anos do exílio em Lovaina. João Mendes daria conta desses anos de convívio, e da sua leitura da Obra de Llansol, no livro Fulgorizações, que publicámos na nossa colecção «Rio da Escrita» em 2019, e que apresentámos com o autor no Espaço Llansol em Setembro desse ano. Nessa sessão regressámos a Lovaina e aos anos 60-70 com um pequeno video que montámos com fotografias do espólio, e que documenta o ambiente cultural, as vivências das escolas fundadas por Gabriela e Augusto e o nascimento do «livro-fonte», O Livro das Comunidades, matérias largamente evocadas e comentadas por João Maria Mendes no seu livro, que também oferece uma fundamentada leitura de toda a Obra de Maria Gabriela Llansol.


João Mendes com João Barrento e Maria Etelvina Santos no Espaço Llansol


A mesa da exposição de 2019, com textos de João Mendes sobre a Lovaina dos anos 70 e a grande entrevista com Maria Gabriela Llansol «No Espaço Llansol«, de 1995