28.4.14

«ESCREVO SOBRE O GRANDE GUARDANAPO BRANCO...»
Os cafés de Llansol


Ainda com ecos e imagens dos 40 anos do 25 de Abril presentes, a sessão de sábado da Letra E levou-nos até aos cafés de Maria Gabriela Llansol, lugares onde, entre Lovaina, Lisboa e Sintra, ela foi escrevendo com alguma regularidade. Com a sala completamente transformada, a condizer com o tema, João Barrento situou a escrita de café de Llansol no contexto dessa grande tradição europeia desde o século XVIII, assinalando o que mais distingue M. G. Llansol dos tradicionais literatos de café. Alguns momentos dessa intervenção:  

[...] Sendo frequente, a escrita de café em Llansol não é propriamente um hábito regular, muito menos um ritual: é antes o prolongamento natural da escrita dos dias e do apelo dos cadernos que quase sempre a acompanhavam – e quando isso não acontecia, também o jornal, o guardanapo de papel ou um envelope podiam servir de suporte de escrita imediata.
A escrita de café é, no caso de Llansol, muitas vezes o resultado da observação do que se passa à sua volta, logo seguida do imperativo de escrever. Coisa que não é muito diferente de escrever em casa, nem impede que nasçam também, nessa outra situação, fragmentos literários mais acabados, ou escrita sobre alguma matéria particular que, no momento, lhe ocupa o campo libidinal e mental. Mas em geral, para M. G. Llansol, o café é um espaço neutro, sem matéria figural visível ao primeiro olhar. 
[...] O que não encontramos nos cafés de Llansol é a atmosfera efervescente, animada, snob, antiburguesa dos cafés literários que referi antes, os dos movimentos de vanguarda por toda a Europa, entre 1900 e os anos trinta. Nem encontramos aí também o espírito de grupo, mais ou menos sectário, mais ou menos aberto, que foi o de alguns cafés marcados por grupos geracionais ou tendências literárias, entre os anos quarenta e setenta do século passado, onde a maior parte do tempo não se escrevia, mas se conversava e discutia. Nos cafés de Llansol não sopra propriamente nenhum «espírito» de grupo, quando muito (e alguns textos dão a entender isso) um estilo de época, um Zeitgeist quase sempre perturbador para a escrevente. Os cafés de Llansol eram os de toda a gente, e neles a escritora passeante, isolada e atenta, observava e escrevia – tinha de escrever, obedecendo ao imperativo que sobre ela descia em qualquer lugar onde se encontrasse e sempre que o mundo envolvente viesse ter com ela.
Os «textos de café» de Maria Gabriela Llansol, talvez mais claramente na fase portuguesa do que na Bélgica, são textos de observação, não raramente com alguma ironia, e também de reflexão, aqui e ali na companhia de alguma figura maior do seu Texto (Spinoza no Ramisco) ou de algum livro em fase de construção. As mais das vezes, tal como os próprios cafés por onde circula, se senta acidentalmente e escreve, os textos são escrita de circunstância, produto da situação, e por isso às vezes se acomodam nas margens do jornal, em guardanapos ou mesmo, na hora do nascimento deste tipo de escrita, nas bases dos copos de cerveja dos cafés de Lovaina, num jogo amoroso com Augusto Joaquim, anunciando já, nesses suportes de escrita a quatro mãos dos anos sessenta, o nascimento do «ambo». 
[...] 
Contrariando também a grande tradição europeia e moderna da preferência de alguns escritores pelos fundos mais escuros dos seus cafés (o exemplo paradigmático pode ser o de Adalbert, o novelista, na novela de Thomas Mann Tonio Kröger), Llansol prefere muitas vezes as esplanadas (vejam-se alguns dos textos de Lisboa e Sintra), lugares de luz e de verde, para nelas dialogar, por escrito, com transeuntes, árvores, paisagens. O olhar e a imaginação activa têm aí o seu terreno propício para se cruzarem e gerarem a escrita do corpo e da alma que é quase sempre a de Llansol, nesse seu «horizonte bipartido do silêncio», anotando «coincidências» que sabe «serem apenas a face escondida de outros sinais no mundo», deixando convergir também nestes textos escritos muitas vezes no meio da multidão, como o escritor do conhecido conto de Poe ou em Baudelaire e Benjamin, tudo o que a imaginação e a visão acrescentam ao que o olhar vê. 
[...]
E nem a morte escapa a esse poder de observação que se casa com a imaginação, como no último texto que leremos, onde subitamente, no lago em frente do café do Jardim da Estrela, um pato sulca o abismo, a «falha súbita» que se abre na água, numa visão do fim que converge com a das origens, no voo do pato até à fonte de Neptuno, «que conheço desde a minha infância», diz a anotação em pequenas folhas de bloco avulsas.


Veja aqui uma síntese da sessão em imagens (com a Cantata do Café, de J. S. Bach)

Da selecção que fizémos da escrita de café inédita, e que agora se pode ler em mais um «Caderno da Letra E», extraímos alguns dos textos que foram lidos no sábado por Maria Etelvina Santos e Helena Alves.

O Jardim da Parada

13 de Março 1985
[...]
Os cafés prefiguram este lugar, com suas portas abertas e mesas escolhidas; um criado circula para servir e as vozes são a moeda de troca. Quem troca não está perdido; nos cafés, trocar é uma tentativa, um símbolo de ignorância e de desejo – tal como o meu.
Tenho vários cafés à minha volta, mas o que prefiro é o do Jardim da Parada, com a entrada aberta sob as árvores. O jardim quadrado da cidade deixa uma praça quadrada quando desaparece, se desaparecesse, e o seu estímulo é humano e vegetal, uma vigília do vegetal sobre o humano, e a minha vigília que os liga. O café padece de falta de palavras úteis; mas as inúteis são um rumor que me entrega a clorofila de que eu preciso. 
[...]

O Brasseur de Lovaina
24 de Abril 1974
Não tenho dinheiro para comprar a saia de cor crua que desejava e transformo o meu desejo em escrita e espaço cénico sobre a mesa do café (o «Brasseur»); vejo-me rodeada de folhas de papel que murmuram música, mobilidade e noite, não obscura; flutuo num ritmo de Nietzsche, livros, o meu braço nu assente sobre a página, moreno e cheio, por envelhecer. Por escrever está o nosso futuro, à minha frente o Augusto atinge com o olhar o nosso encontro, vê o que é.

No Ramisco, Várzea de Colares
Anos 80

As pessoas partiram e deixaram no terraço, a substituí-las, a sombra das árvores. O falcão observou do alto esta passagem do humano para o vegetal da sombra. Interrogou-se sobre a ausência do corpo que estivera na cadeira pintada de branco, à esquerda, junto do muro. Era tão brilhante e difícil de apagar que se fixou numa forma finita__________ 


À mesa do Ramisco, lembrei-me do desaparecimento ardente da Ferrari.

A Tentadora, Campo de Ourique
28 de Setembro 1988

Evoluí longamente para além de tudo o que possamos imaginar que eu evoluí. Sinto o café/restaurante totalmente vazio à minha volta, sem contacto humano, e sem sentido. Penso na floresta, que é o pinhal onde talvez se estenda a nossa casa de madeira a implantar, e vejo, em todo o seu espaço, como todos os meus novos companheiros e amantes me levaram daqui.
E tão progressivamente, tão docemente que nem me dou conta.
[...]
Somam-se os chás e o resultado no meu corpo humano é surpreendente. Um outro globo paira, que me envolve, e não pode medir-se, ligeiro, na atmosfera e no ar. Mas o ar desta cidade está cheio de corações humanos sufocados ______ e mesmo o mais ínfimo animal é mais igual a mim.


17 de Janeiro 2000
As pombas rolam no espaço que espelha a igreja do Santo Condestável sobre as mesmas pombas. Entramos na Tentadora, e as antigas paredes, sobretudo o tecto trabalhado de outrora, dissolvem-se no chão. O que há, existe. Não tenhas medo – a arte de escrever é apenas entreabrires a gola do vestido, e deixar uma passagem deserta para todo o andar do corpo. Quem se ama, é ainda o Anjo da escrita caminhante – e só ele. Dar-me-ás, pois, para principiar esta velada caminhada, o arco da tua mão, onde vou pôr a flecha e amar o que escreveres, até que o que escreveres se arremesse sem medo, sem vacilação, e atinja o alvo.
 
Na Sapa, Sintra
9 de Maio 1996
Sobe a manhã a partir da mesa de café da Sapa, onde estou comungando com desconhecidos sobre o passeio. Será este? Será aquele? Será aquela Joshua, o princípio do desconhecido evidente no conhecido?
[..]
Na atmosfera azul, a Serra de Sintra esplende, irmana-se com as planícies do Alentejo, baixa para elas na imobilidade, sem cortar o espaço – o espaço que me surpreende.
Eu estou nua, vestida, completando os sentidos que me ocorrem e voltando a chávena com o pires sobre o guardanapo de papel – para eles. A fusão tem várias camadas, resistências, interstícios, e não é total.
 
17 de Dezembro 1997
Continua a ventar, estive na Sapa a contemplar o jardim aprofundado no solo, rodeado de uma sequência quadrada de casas que hei-de transpor para o livro O Senhor de Herbais – o espaço-livro. Nesse jardim há jarros sempre molhados e uma multiplicidade de pequenas habitações encaixando-se em portas e janelas que parecem não ter fim – quanto mais princípio. 

Mas tem o princípio do olhar – o eu do meu olhar material, a observá-la da sala antiquada da Sapa.
O que domina o tempo é a matéria; o que domina o espaço é o fio de verde. Os géneros do discurso estão ausentes – e a língua renova-se, porque chove, na sua densidade material. A língua é uma concentração abrindo-se para um alvo – alva neve.
Foi a neve – ausente aqui – que hoje disse___________ 

24 de Dezembro 1997

Perfeito dia de imperfeito Natal _________ que o lugar comum diria sempre imperfeito sobre esta Terra________
Sem horários – eu venho aqui quando os outros não vêm, e a véspera de Natal na sala é deserta e a Serra profunda noutra luz_____ sem iluminação.
É a sala do tempo. 

No Jardim da Estrela
12 de Fevereiro 2001

Passeio com L.
Numa cadeira do JARDIM DA ESTRELA

______ O que atravessou o meu olhar/espírito naquele momento foi a morte e o pato sobre o lago, ou, melhor olhando, o pato e a morte sobre o lago. O pato estava próximo, deslocava-se no seu movimento imóvel. E veio uma pomba dar um passeio na terra firme.
O pato tinha o bico recurvo amarelo e nadava entre duas folhas, na falha súbita que eu vi no lago. Era o meu pato – o meu pato fúnebre.
E dei-lhe a minha vida.

Sobrevoando (o lago), o pato afastou-se no sentido contrário – em direcção às águas que jorravam de Neptuno (o fontanário que conheço desde a minha infância).
Estava resolvido o problema. 
(Mais tarde).

22.4.14

«LETRA E»: OS CAFÉS DE LLANSOL



No próximo sábado, dia 26 de Abril, a partir das 16 horas, a Letra E vai transformar-se num café literário, com leitura de inéditos de Maria Gabriela Llansol nascidos nos seus cafés da Bélgica e de Portugal, textos escritos nesses cafés e sobre eles. João Barrento fará uma introdução em que falará das particularidades da escrita de M. G. Llansol enquanto autora-de-cafés, por comparação com toda uma tradição europeia que vem já do século XVIII. E poderemos conversar no «Café da Letra E» sobre o tema, com café, chá e bolos nas mesas – e um cravo vermelho para não esquecermos a véspera e os quarenta anos de uma revolução desastrosamnte traída. Haverá, como sempre, mais um «Caderno da Letra E» (48 p.) sobre Os Cafés de Llansol, desde o «Brasseur» de Lovaina até à «Sapa» de Sintra.


Venham tomar café e conversar connosco e com Llansol. As mesas já estão postas, e o ambiente a condizer com o tema.
E atenção ao novo horário: 16 horas!

4.4.14

A «LETRA E» DE ABRIL A JUNHO

Deixamos aqui o programa da Letra E para os próximos três meses. Com temas novos - e talvez inesperados - como o dos Cafés de Llansol (nesse dia a Letra E será mesmo um café!), os almanaques e o tempo, e ainda uma figura próxima e distante como Virginia Woolf, comentada por duas conhecidas escritoras nossas, Ana Luísa Amaral e Hélia Correia.
Chamamos a atenção para a nova hora de começo das sessões – 16 horas! –, resultado de um breve inquérito feito junto de alguns frequentadores das Letra E. As opiniões divergiam, mas pensamos que com a nova hora encontraremos um meio termo que não interfere com as horas de almoço e jantar de sábado, e poderá convir a todos.

23.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

A sessão de ontem na «Letra E» estava originalmente prevista para ter lugar numa ruína – em Sintra, onde há muitas, espelho de um estado de coisas em desagregação, ou noutro lugar deste país em ruínas. Acabou afinal por se fazer no lugar habitual, porque o tempo atmosférico, tal como a atmosfera asfixiante da pseudocultura dominante e do pensar, continuam frios e sem chama. O espaço da «Letra E» transformou-se, por isso, numa espécie de gruta – ilha, na visão de Llansol –, um dos lugares, não apenas simbólicos, mas reais, disseminados por aí, onde alguns não desistem de pensar e resistir.

 Cad. 1.10, 208: «Dagaia, a Ilha de Ana de Peñ[alosa]»
O lugar da Terra onde se resiste, contra a falsificação pelos mitos...

Dos modos vários dessa resistência se falou ontem, traçando amplos arcos que não se limitaram ao texto de Llansol, mas procuraram ir a algumas raízes, remotas e mais próximas, do «mal-estar na civilização» que é a nossa. Sobre as nossas cabeças pairava ontem uma «floresta do texto», algumas dezenas de fitas de papel com frases na caligrafia original dos cadernos de Llansol (de que deixamos aqui uma amostra, e que o video que inserimos no final dá uma imagem mais viva). Penduradas do tecto, eram como morcegos que, de cabeça para baixo, activam o seu sonar para auscultar este mundo às avessas, investindo em voo picado contra ele.


Foi o que fizeram os dois intervenientes que convidámos – o escritor António Vieira e o crítico e ensaísta António Guerreiro –, ao dissecarem a situação actual, com olhares amplos que vinham inevitavelmente pousar nas linhas do grande universo de Llansol, tendo já dele partido pela leitura dos textos e fragmentos inéditos que reunimos em mais um «Caderno da Letra E» (de onde transcrevemos parte da introdução de João Barrento, que contextualiza o tema da sessão). Os que vieram puderam levar para casa este caderno, e também uma ou mais das fitas de papel com autógrafos de M. G. Llansol que pendiam do tecto.

 (Da Introdução de João Barrento ao Caderno da Letra E)

Tivemos connosco dois actores que abriram a sessão com a leitura de alguns textos de Llansol: António Fonseca (que recentemente chamou a atenção com os seus espectáculos em que dizia Os Lusíadas de cor) e Helena Ávila (acabada de chegar da Ilha do Pico, nos Açores). E a conversa alargou-se à sala, e a temas como o lugar dos editores hoje; os sentidos (ominosos  e também promissores) da «comunidade», em Llansol e outros, ao longo do século XX; as linhas de demarcação entre utopia e ucronia na «comédia humana» de Llansol e na sua leitura do mundo e da História; a sua inserção na constelação do «fim do humanismo» e a construção de um novo «projecto do humano», trans-humano e radicalmente novo; enfim, as formas de resistência «imanentes», no plano de uma escrita como a de Llansol, que só por si, na sintaxe, desestrutura o pensamento estabelecido, num registo «atonal» que inquieta e nos mantém despertos (como bem salientou a pianista brasileira Gilda Oswaldo Cruz, que ontem esteve mais uma vez entre nós).
Traçaram-se, assim, algumas cartas de rumos, e sentiram-se os ventos que sopram da «Ilha de Ana de Peñalosa», pela mão daquela que escrevia já, em Na Casa de Julho e Agosto (1984): «Eu sou a nota fora das sete da comunidade das beguinas...».

17.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

No próximo sábado, 22 de Março, às 17 horas, teremos mais uma sessão da «Letra E», desta vez com a voz mais «política» de Llansol. A partir de textos seus, escritos entre os anos oitenta do século passado e o início deste, traremos mais uma achega à discussão e indignação em curso sobre o estado deste país e do mundo. Com outras vozes, que disso falarão a partir desses textos – as do escritor António Vieira e do crítico e ensaísta António Guerreiro –e que lerão alguns deles – as do actor António Fonseca e da actriz Crista Alfaiate.

Como sempre, haverá um caderno de textos que procura transmitir as dimensões várias da revolta, da «Restante Vida contra o mundo», na Obra de M. G. Llansol, que desde cedo se decide por uma «ordem» que, paradoxalmente, ou não, é a de quem assume como sua condição «espalhar a justiça e a desordem», subvertendo os padrões instituídos do gregarismo capitalista-consumista e, nesse contexto, também da pseudo-cultura em que vivemos.
Quem vier poderá desta vez levar para casa um autógrafo de Llansol, frases manuscritas que são como setas disparadas contra o estado de a que chegou o país e o mundo.

16.3.14

LLANSOL NO BRASIL

1. A partilha do incomum


O texto de Maria Gabriela Llansol continua a fazer o seu caminho por terras brasileiras, também por lugares onde a sua presença até agora não era tão frequente.
É o caso da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.editora.ufsc.br), onde acaba de sair  um importante volume colectivo com ensaios e textos inéditos de M. G. Llansol, organizado por Maria Carolina Fenati, nossa colaboradora muito próxima e grande conhecedora da Obra e do espólio de Llansol. O livro intitula-se Partilha do Incomum. Leituras de Maria Gabriela Llansol, e tem contributos de quinze estudiosos e escritores portugueses e brasileiros, como se pode ver pelo índice abaixo (clique na imagem para aumentar).

Como escreve Carolina Fenati a abrir,   
Este livro – que reúne leituras do texto da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) e fragmentos inéditos de seu espólio – é um gesto de acolhimento da sua escrita no momento em que ela começa a ser editada no Brasil. A publicação de três diários – Um falcão no punho (1985), Finita (1986) e Inquérito às quatro confidências (1996) – amplia a possibilidade da partilha desses textos e seus fragmentos, que, vindos de Portugal já circulavam de mão em mão entre vários leitores, relançam-se agora no devir das suas leituras.  
(Entretanto, mais um livro – Um beijo dado mais tarde –  saiu em 2013 na Sete Letras, do Rio de Janeiro, e outros virão). 
No final da nota introdutória a organizadora  explicita o título do livro e esclarece a intenção de mais esta importante e diversificada publicação sobre o universo singular de Llansol:
Escrever com os textos de Maria Gabriela Llansol – partilhar o incomum que nos é oferecido – é dizer que os textos só permanecem na medida em que partem, só não desaparecem quando são transformados pela leitura que os contra-assina, que com eles escreve afirmando o seu excesso em relação a qualquer leitura. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, esses textos convidam a ler «até ao limite em que o entendimento é já a alegria do desentendimento» e exigem a seriedade e a paciência de uma reflexão que, reconhecendo o movimento que lhe escapa, abre linhas de fuga através das quais tudo pode sempre recomeçar. Cantar a leitura talvez seja desejar a conversa infinita, buscar o exercício da palavra como a relação mais íntima com o que é partilhável sem medida.



2. Algumas «trocas verdadeiras»

No site Ler Jorge de Sena, da responsabilidade da Profª Gilda Santos, conhecida seniana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode ler-se um informado artigo da Profª Maria de Lourdes Soares sobre a presença de Jorge de Sena, da sua obra e da sua transformação figural, na escrita de Maria Gabriela Llansol. Sena e Llansol já haviam sido objecto de um outro artigo no mesmo site, por Tatiana Pequeno (com o título «Llansenas»:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando.  O artigo pode ler-se aqui:

14.3.14

LLANSOL E A «SENSUALIDADE 
DO INVISÍVEL»

No próximo dia 19 de Março, entre as 16 e as 17.30h, a Profª Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Universidade Aberta e membro da direcção do Espaço Llansol), fará uma conferência na Universidade Católica de Lisboa (Edifício da Biblioteca João Paulo II) em que falará de «Maria G. Llansol: o texto como busca da 'sensualidade do invisível'».
Fica o convite a todos os leitores de Llansol e amigos do Espaço Llansol.

3.3.14

A PRESENÇA FRAGMENTADA 
DO GRANDE ESPAÇO AUSENTE...

É dia de lembrar Maria Gabriela Llansol. Com o seu texto e a luz que dele emana:


23.2.14

BLANCHOT - LLANSOL
Encontro improvável, ontem na Letra E

Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta.
Não absoluta, porque o absoluto é vão.
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)

Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.
(Maurice Blanchot, Faux pas, 1943)

De forma algo inesperada, dada a densidade da matéria, a Letra E encheu-se ontem de interessados em Blanchot e Llansol, com rostos novos e provenientes dos mais diversos lugares (Sintra, Lisboa, Braga, o Brasil e até a Bulgária!), para além de outros frequentadores, já conhecidos e mais habituais.
A ligação explícita de Llansol com Blanchot é esparsa, este autor, como não acontece com outros filósofos muito convocados para a Obra llansoliana, está pouco ou nada presente na sua biblioteca, e mais ainda nos cadernos de escrita, onde existe uma única menção: a intenção de adquirir L'amitié, registada em 18 de Janeiro de 2000 (Caderno 1.58, p. 67). Na biblioteca, apenas dois livros: Faux pas, comprado em Louvain-la-Neuve em 25 de Fevereiro de 1984, e com alguns sublinhados e marcas de leitura da introdução e de capítulos sobre Kierkegaard, Eckhart, Rilke, Proust; e ainda O Livro por Vir, num exemplar com dedicatória de «Regina» (Regina Louro, então jornalista do Expresso e tradutora do livro), em Abril de 1986.
E no entanto, o «Encontro improvável» e intenso de ontem, conduzido por Paulo Sarmento a partir do documentário de Hugo Santiago visionado antes, revelou imensas afinidades, e alguns desencontros, de pensamento, modos de escrever e viver, interesse comum por determinadas figuras e temáticas – a indeterminação ou a rejeição da «literatura» em favor da «escrita», o apagamento de fronteiras entre géneros, o estilhaçamento da ficção, a «exigência fragmentária», modos afins e diversos de viver a solidão, o silêncio, a morte, a anulação de tempos no espaço do instante que é o do texto no acto de se escrever e de ser lido; e finalmente, a construção de pontes e abismos entre os dois, quanto a uma ideia de «comunidade» de ausências presentes, a comunidade alimentada por um princípio de incompletude e a comunidade na diáspora...
Todos estes temas, presentes em mais um caderno que elaborámos para esta ocasião, com textos dos dois autores, foram ampla e vivamente discutidos no final, numa «conversa infinita» e naturalmente inconclusiva. Continua tudo em aberto para o regresso a este ou outros «Encontros improváveis», na Letra E ou noutros lugares.
Com uma certeza; que os intensos, como Blanchot e Llansol, continuam aí, para lá de si mesmos, sabendo, como sabiam, que não há morte, que a morte é apenas aquele «sentimento de leveza» sempre iminente que lemos em L'instant de ma mort, e que, como escreve M. G. Llansol num dos seus cadernos (o 1.18, p. 67), «o tempo e a morte são constantes, e é intenso o espaço que os circunda.»
Deixamos aqui, a montagem fragmentária de algumas páginas do nosso caderno, numa sequência que inclui no fim a leitura de excertos de La folie du jour, retirada do filme de Hugo Santiago.



E para quem não pôde vir mas gostaria de ver o documentário na íntegra, aqui fica o respectivo link: http://www.youtube.com/watch?v=F32bSMK1iNA

17.2.14

BLANCHOT E LLANSOL NA «LETRA E»

O próximo «Encontro improvável» na Letra E do Espaço Llansol é já no próximo sábado, dia 22 de Fevereiro, às 17 horas. Paulo Sarmento, escritor e professor de Filosofia, falará da «solidão essencial» destes dois escritores e de alguns tópicos que os ligam: a experiência interior e a impossibilidade da literatura, a indeterminação do «ficcional», a «exigência fragmentária», a morte, a escrita, a comunidade... 


Veremos o documentário de Hugo Santiago Maurice Blanchot, de 1998, e conversaremos sobre o filme e o que ouvimos. E, como já vem sendo hábito, teremos mais um «Caderno da Letra E» dedicado a este encontro, com textos em diálogo, extraídos dos livros de Blanchot e dos cadernos inéditos e também alguns livros de Llansol.
Fica aqui a página de abertura, que dá o «tom» de mais este caderno: