TRÊS OLHARES SOBRE AS LISBOAS DE LLANSOL
Na sessão do último sábado, sobre «As Lisboas de Llansol», João Barrento apresentou o tema com ligações à tradição da «poesia urbana» desde Baudelaire, e especialmente a autores portugueses contemporâneos que se ocuparam deste tema. A visão de Llansol (que o caderno feito para este dia documenta) foi apresentada através da leitura de Diogo Dória e Eva Dória, enquadrada por três peças musicais sobre Lisboa, de Jorge Palma, do grupo Tara Perdida e de Camille Saint-Sens (que podem ouvir-se no final deste post).
Deixamos aqui o essencial da apresentação do tema por João Barrento:
Talvez faça sentido lembrar algumas visões modernas da cidade (nomeadamente de Lisboa), entre Baudelaire e Pessoa, para depois passarmos às imagens de Lisboa em Maria G. Llansol, que num ou noutro aspecto ainda tem traços delas, mas as ultrapassa. A marca da modernidade é muito semelhante desde O Spleen de Paris (por contraste com o realismo e o naturalismo): o objecto é assimilado à imaginação do sujeito criador, a cidade torna-se translúcida, sem tipos urbanos definidos, o que num caso era quadro de superfície surge como palimpsesto em que o verniz espesso da linguagem própria impregna silhuetas de torres e labirintos de ruas, fazendo ressaltar conexões mais profundas. No seu livro de reminiscências de infância na Berlim de início do século XX, Walter Benjamin evoca a arte, não de descrever uma cidade, mas de se perder nela: «Desorientarmo-nos numa cidade não tem muito que se lhe diga. Mas sabermos perder-nos numa cidade, como quem se perde numa floresta, exige uma preparação muito especial. Os nomes das ruas têm que falar-nos como o estalar de ramos secos, e as ruas estreitas do centro dar-nos o tempo tão claramente como um vale na montanha. Aprendi tarde esta arte, e ela veio realizar o sonho cujos primeiros indícios tinham sido os labirintos nos mata-borrões dos meus cadernos.»
Desde Baudelaire, com os seus «Tableaux parisiens» (em As Flores do Mal, que Llansol traduziu) e os Petits poèmes en prose por onde passa a brisa do spleen de Paris, que as cidades ocupam um lugar importante na Obra de poetas e narradores (como Edgar Alan Poe), transformando-se mesmo, em alguns, em «lugares» no sentido muito especial que o termo assume em Maria Gabriela Llansol – não meros cenários ou objectos de descrição, mas espaços com uma vibração própria que os transfigura em função do corpo que os vive ou da mente que os pensa.
Lisboa assim transfigurada está presente, não apenas no nosso Fernando Pessoa, como sabemos, mas também em Baudelaire. No cap. 48 de O Spleen de Paris («Anywhere out of the world») lemos: «'Dize-me tu, minha alma, pobre alma friorenta, que pensarias tu de viver em Lisboa? Deve lá fazer calor, e podias regalar-te como um lagarto. A cidade ergue-se à beira d'água; dizem que é construída de mármore, e que o povo tem tanto ódio ao vegetal que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem a teu gosto: uma paisagem feita de luz e de mineral, com o líquido para os reflectir.' A minha alma não responde... Por fim, a minha alma explode, e grita-me ajuizadamente: 'Seja para onde for! Seja para onde for! contanto que seja para fora deste mundo!».
Pessoa dá expressão mais clara a esta transfiguração e interiorização da cidade quando escreve a Sá-Carneiro, que está em Paris (em Julho de 1914): «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima das educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidade. Estavam todas dentro de si.»
Esta é – e será também um pouco assim em Llansol – «a cidade lá fora cá dentro», como na «Tabacaria» de Álvaro de Campos, ou mais ainda, no sentido de uma leitura simbólica da escrita da cidade e da cidade como escrita, no Livro do Desassossego (que foi um livro-chave para a Maria Gabriela). É a fórmula exemplar de Bernardo Soares «Ver é também sonhar». E então o mundo citadino surge aí como imagem («sombra», com ecos platónicos), as pessoas são palavras, o quarto uma página, a cidade um livro meio opaco em que se abrem janelas que abrem para uma visão outra, crepuscular, humanizadora de um deserto, imaginária... Em F. Pessoa, até A Lisboa que o Turista Deve Ver (vd. livro editado por Teresa Rita Lopes) espelha esta sua cidade presente-ausente, mitificada. Tal como Maria Gabriela escreve na frase que me serviu de epígrafe para o caderno «As Lisboas de Llansol» («O nome de cada rua de Lisboa é para mim um acto de amor e um pensamento filosófico»), também Teresa Rita Lopes destaca no prefácio: «Pessoa amou Lisboa. Pessoa rima com Lisboa [...] Tão longamente sonhou com Lisboa e, ausente, a mitificou, que quando voltou se sentiu engeitado pela sua realidade – eternamente órfão e apátrida. Mas nunca deixou de procurar o corpo que lhe fugia». Como Teolinda Gersão, no romance A Cidade de Ulisses, já aqui (e em Llansol) se distingue entre turista e viajante: «Os turistas vão à procura de lugares para fugirem de si próprios, e logo os trocam por outros e fogem para mais longe. Os viajantes vão à procura de si noutros lugares, e nenhum esforço lhes parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de chegarem ao seu destino...».
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Llansol «veste» as suas Lisboas e os seus lugares com roupagens inusitadas, sempre personalizadas ou visionadas, distribuindo o seu mapa de Lisboa pelos três «modos de usar» que o nosso caderno documenta (e as leituras deram a ouvir):
a) os lugares vividos em deambulações pessoais desde a infância, evocadas na escrita mais tardia, ou depois do regresso do exílio;
b) os becos e travessas de uma Lisboa histórica trazida para alguns dos seus primeiros livros, como «enquadramento» adequado para as figuras (sobretudo beguinas e mitos nacionais) das duas trilogias, entre a «Geografia de Rebeldes» europeia e «O litoral do mundo» português;
c) e uma cidade capaz de desafiar a imaginação e levar a momentos de escrita claramente visionários (sem a ambição planetária das visões de Marco Polo nas cinquenta e cinco cidades de Italo Calvino em As Cidades Invisíveis!). Tais passagens são em Llansol um evidente contraponto das mais comuns vivências da cidade, uma escrita antecipatória, expressão de desejos de mudança que podem manifestar-se na simples substituição do tradicional emblema da cidade (corvos de São Vicente e caravela do fatídico «caminho da água» português) pelo do «gato Auroro» do zimbório da Basílica da Estrela, que traz outras promessas. São, como já vimos, passagens que subitamente revelam paralelos com as do Livro do Desassossego de Pessoa, em que os lugares (e as pessoas) evocam também «estados de alma», paisagens que são um sinal para qualquer outra coisa (mas diferente do sentimentalismo de Amiel, «sonhador débil», escreve Bernardo Soares!).
A)
Em qualquer dos casos, a Lisboa de Llansol é sempre vista/vivida da distância: a da infância e juventude, rememorada muitos anos mais tarde (nos Diários da juventude, a partir dos dezoito anos, a «sua» cidade está ausente); a do exílio, que será a Lisboa histórica reconstituída nos primeiros livros escritos aí (com algumas visitas a Lisboa depois do 25 de Abril. É visível também, nas «radiografias» de Lisboa, dos seus ambientes e das suas pessoas a partir de 1985, um progressivo desencanto, que se acentua nos anos noventa, com alguns momentos de excepção, sobretudo as vivências das vindas semanais a Campo de Ourique, ou alguns Cafés de eleição (a «Tentadora», a «Ferrari» antiga, a «Versailles») [vd. dois dos nossos cadernos: Campo de Ourique e Cafés]. Lisboa, que excepcionalmente pode ser ainda uma «cidade da Poesia», vai-se tornando cada vez mais um misto de «civilidade e incivilidade», um lugar «onde se fala sem nada dizer». Nos anos oitenta a cidade é ainda uma Lisboa «com menos gente e maior espaço», mas na década seguinte já «as pessoas circulam como coisas», anónimas e desumanizadas. E em Lisboaleipzig (um livro de 1994) deparamos com aquela passagem, retrato exacto da Lisboa «gentrificada» e hipercapitalista de hoje, em que Pessoa/Aossê regressa a casa e constata: «Na Lisboa / que vim encontrar agora, a crença é o progresso que, / na realidade, é dinheiro a correr mais ligeiro e abundante e que, na mais-realidade ainda, é o nome do nada-de-prata que a Europa pluthocrata, telemathica e futurenta deu a alguns aqui...» (Lisboaleipzig, 2ª ed., pp. 348-349). Uns anos depois, no final do século e num Café, a imagem dos lisboetas é dada nos seguintes termos: «cansaço das suas vozes gesticulantes», «nada é fluente» [como o Texto], «pesadelos aos gritos». E na viragem do milénio (em O Começo de um Livro É Precioso, de 2003) tudo parece piorar: é a «devastação urbana», «espaços vagos» com humanos como «patos bravos» no «nosso Ocidente prosaico», de um «bem-estar opaco»...
B)
Também a Lisboa histórica das beguinas vindas de Antuérpia (que iremos encontrar em livros como Na Casa de Julho e Agosto e Causa Amante) se revela desde logo como um lugar híbrido: por um lado, lugar de acolhimento – mas apenas na casa e na horta de Alisubbo e talvez nas margens de Tejo-Rio, que ainda acolhem o segundo enterro do revolucionário Müntzer –, mas também já de um certo mal-estar, na «casa freirática» do Convento das Madres de Goa (que não é um béguinage), ou na casa onde agora vive Ana de Peñalosa, já envelhecida, e saindo apenas de noite, «quando a cidade culmina no vazio, fica só para ela». Lisboa é agora também lugar de perseguição de «rebeldes», com Jorge Anés [Jorge de Sena] sacrificado na fogueira da Inquisição no Largo de S. Domingos, ou Luís M. exilado na Serra da Arrábida. Já então, tal como hoje, Lisboa, no auge da glória (ou do desastre) dos descobrimentos não é alternativa atraente: as beguinas deslocam-se para o Cabo Espichel, e a beguina Margarida chega mesmo a fugir para as «fontes do Tigre e do Eufrates» com o seu «filho» Luís M., para o banhar em outras águas. A cidade, essa parece ser mais «propícia para ser imaginada».
C )
É este o terceiro momento da escrita de M. G. Llansol sobre Lisboa, a de uma cidade-outra vista através da lupa do sonho e da visão, e onde as árvores são «a espécie arquitectónica que prefiro». Cidade sonhada no simples convívio humano com um casal desconhecido num eléctrico, nos passeios pela cidade com o gato Melodia «entre dois anjos», na imaginação de uma «Parasceve Lisboana», lugar de todas as promessas (que o real não confirma, apenas intuída nos eléctricos irreais parados no Largo da Estrela «contra a luz verdealmente saindo das portas do Jardim»); ou na cena dos três Reis Magos procurando com toda a lentidão do mundo, entre os automóveis da Praça do Saldanha, «a estrela que a noite lisboeta ocultava» – mas o «progresso» tinha apagado essa estrela! Estamos em 2000, os passeios já nada têm a ver com os da infância, Lisboa é agora «a ausência que me envolve», uma cidade «acéfala»!
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Poderíamos concluir evocando alguns autores portugueses contemporâneos que se voltaram para Lisboa e da cidade fizeram leituras singulares, com as mais diversas marcas. Lembro alguns, até aos nossos dias.
A relação de Llansol com a cidade de Lisboa, que assume a já referida tripla dimensão na sua escrita, não é comparável à tradição das descrições mais ou menos típicas que conhecemos desde Cesário Verde (em parte, e num outro registo, também em Pessoa). Mas também se diferencia, por exemplo, da poesia que utiliza a cidade como um meio de crítica política, de sarcasmo e ironia, como na Obra de um Alexandre O'Neill, que se via – tão actual! – «de ombro na ombreira» olhando o mundo «Daqui, desta Lisboa compassiva, / Nápoles por Suíços habitada, / onde a tristeza vil e apagada / se disfarça de gente mais activa»!; um observador atento, e meio perdido, que olha a sua cidade com algum desencanto: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, / na terra onde nasceste e eu nasci?».
Já Armando Silva Carvalho, com o seu irónico «Roteiro sentimental» de Lisboa, nos oferece um sismógrafo lírico dos movimentos mais fundos e das evidências mais enganadoras das grandes metrópoles. Na dedicatória do meu exemplar, leio: «Para o J. B., estas Lisboas que fogem do Cesário, do Campos e do O'Neill [que ele via como seu «primo»!], para irem bater baixinho na mão cansada de quem a quer cantar, apesar de tudo». No texto que escrevi para a Colóquio-Letras a propósito da selecção e tradução alemã da nossa amiga Ilse Pollack (de 2015), leio-o como livro de um «flâneur da alma de lugares e figuras não tipificados», sempre em tensão consigo mesmo, como a própria paisagem citadina, numa cidade e num país de «três sílabas de plástico» («Por-tu-guex») descritos entre a irrisão e o desencanto. Neste «Roteiro sentimental» não há lugar para os tipos urbanos d' O Sentimento dum Ocidental; são antes os representantes de certos fenómenos culturais novos, ou figuras puramente humanas, que apelam ao «sentimento de um acidental» poeta-transeunte, com a sua arte – nisto semelhante à de Llansol – de uma flânerie que não é a de saber perder-se nos labirintos da cidade (como dizia W. Benjamin), mas a de neles ser capaz de se encontrar, nas Lisboas de um país «consumível e consumido». E, como diz Ilse Pollack no prefácio, por «lugares conhecidos e menos conhecidos, muitos, mas só 'familiares' à primeira vista». Relembro ainda um outro autor (Também amigo de Armando), o do interessante e muito pessoal Lisboa. Livro de bordo, José Cardoso Pires, e o seu mapa de Lisboa, que é sobretudo o dos seus bares, onde por vezes me encontrei com ele, do «English bar» do Cais do Sodré ao «Snob» da Rua do Século e ao «Procópio» das Amoreiras...).
Diferente de Llansol, mas igualmente um livro original e revelador, é também o recente Lisboa Cliché (2021) do fotógrafo Daniel Blaufuks, que bebe muito nos seus poetas, e os transcreve, para acompanharem as fotografias de uma Lisboa muito sua, a da noite, da música, de experiências muito pessoais...
Diferente é ainda a cidade metonímica, que está por um país e vários mundos, que encontramos hoje em L de Lisboa(de 2015), de Ana Marques Gastão. Este seu livro transmite uma imagem desta cidade, a nossa, de hoje, totalmente negativa e descrente (e percebe-se porquê!), de uma Lisboa «impura», «cidade de menos», «no ensejo de atravessar o centro de um umbigo turístico»...
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Voltamos à nossa autora, para concluir.
A visão múltipla das Lisboas de Llansol não se insere, também ela, na grande tradição do flâneur, desde Baudelaire e Walter Benjamin, aquele que deambula e gosta de se perder nos labirintos da cidade. Llansol é antes – nisto muito próxima de Armando Silva Carvalho, mas num registo diferente – uma passeante ocasional, uma acidental escrevente-transeunte que olha a cidade e por ela é olhada, operando nas suas impressões uma transformação que acompanha as várias fases da sua convivência com a cidade real, histórica ou imaginária. Tudo começa, como vimos, com o fascínio por alguns lugares (e pessoas) nas deambulações da infância e adolescência, da estrela ao Camões e pela Baixa, para dar lugar, depois do regresso da Bélgica, a uma «Lisbon revisited» em que a experiência da cidade, ocasional e vista da distância, cede a algumas rotinas e a um olhar cada vez mais crítico sobre pessoas e ambientes, alternando com algumas, poucas, «ilhas» como os Cafés e a «península» do Campo de Ourique das origens, «o meu país estrangeiro em Portugal» (i.é, mais uma ilha dentro da cidade e do país). Nesta cidade que é e não é a sua, ela sente-se antes (como Baudelaire na nova Paris haussmanniana) «out of the world», com o seu spleen próprio, em busca de si no confronto com os outros. Assim, como sempre em Llansol, a cidade é vista com olhos de ver (e corpo de sentir), para lá de meras evocações pitorescas, reconstituições topográficas, ou mesmo simples reminiscências biográficas, sem mais. Na sua vontade de futuro, também em relação à cidade ela parece saber (aqui uma vez mais simbolicamente, na viragem do milénio, em 2000) que para lá do «frenético humano» e dos «sonhos urbanísticos», «as ruas longas quebram-se perdidas, e, nesse perdido, o poema parte a imaginar, / dispara, na esperança de que, na manhã anunciada, seja reposta a continuidade, / não tanto que a cidade volte a ser cidade, porque o será, / mas porque, entretanto, / um mais-saber há-de subir à voz.» (Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 15).
E nós perguntamo-nos: e haverá um mais-saber da cidade/para a cidade? Talvez a leitura de Llansol nos ajude a descobri-lo, tal como a de outros: Ana Marques Gastão e a sua visão crítica, ou António Guerreiro, que numa crónica recente falava desta Lisboa «gentrificada» como «cidade culturalmente estéril», com uma ou outra ilha, poucas, no meio do deserto animado da Baixa (por exemplo, o cinema Ideal!).
O mais-saber de que fala a Maria Gabriela, a sua escolha, resultou sempre de um modo particular de ver e viver a cidade que era e não era a sua.
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As músicas de Lisboa
Jorge Palma, Canção de Lisboa (1991):
Tara Perdida. Lisboa (1995):
Camille Saint-Sens: Une nuit à Lisbonne (1880):




