22.10.18

UM LIVRO-BALANÇO

Vamos apresentar no próximo dia 25 de Outubro, às 18 horas no Espaço Llansol, um livro especial, desta vez em estreita colaboração com a Junta de Freguesia de Campo de Ourique: Llansol: Uma vida de escrita. De Campo de Ourique... ao infinito.

Este livro nasceu em 24 de Novembro de 2017, dia em que se assinalavam oitenta e seis anos do nascimento de Maria Gabriela Llansol, e também o da abertura oficial do novo Espaço em Campo de Ourique. Nasceu de uma sugestão feita nesse dia pelo Presidente da Junta de Freguesia, Dr. Pedro Cegonho, a de reunirmos em volume alguns dos muitos cadernos que vimos fazendo desde 2009 para as sessões públicas do Espaço Llansol, particularmente aqueles que pudessem proporcionar a novos leitores um percurso biográfico de M. G. Llansol, o conhecimento de lugares, vivências, projectos, cumplicidades e paixões, determinantes da sua vida, desde que nasce em Campo de Ourique, na Rua Azedo Gneco, até aos últimos anos em Sintra.
E como a vida de Llansol foi a sua escrita, e vice-versa, a melhor maneira de compor essa narrativa é a de a dar através da própria escrita de Llansol, como acontece neste novo livro, composto predominantemente por inéditos do seu espólio e muita documentação fotográfica e iconográfica.

17.10.18

NOVOS LIVROS
de e sobre Llansol

Preparámos nos últimos meses mais algumas edições que agora nos chegam. Uma delas – Llansol: Uma vida de escrita – será apresentada no próximo dia 25 de Outubro no Espaço Llansol, e outras se anunciam para breve. 
As três últimas novidades editoriais do universo Llansol, de que falaremos nas próximas Jornadas Llansolianas (para além do Livro de Horas VI, saído em Junho), são as seguintes:


1. A BIBLIOGRAFIA que regista tudo o que Llansol publicou e o que se publicou sobre a sua Obra, desde 1952 (obra própria) e 1962 (crítica):
«Nas últimas três décadas, em Portugal e no Brasil, no espaço universitário e fora dele, na crítica, no ensaio e no testemunho, a bibliografia llansoliana não tem parado de crescer. Esta recolha põe em evidência uma realidade de que talvez poucos se tenham apercebido: o Texto, 'lugar que viaja', continua em plena travessia, viajando com um número crescente de legentes que, na sua maior parte, souberam corresponder ao seu apelo e 'exercitar os pés por entre imagens, e as mãos sobre a escrita.' (...) Estamos agora em condições de ver melhor onde nos levou muita escrita feita sobre o texto llansoliano – ou com ele, em 'sobreimpressão'. E isso mostrar-nos-á com mais clareza os caminhos que ainda podem ser percorridos.» (da Introdução). Edição Mariposa Azual, na colecção Rio da Escrita, nº 12.


 2. O LIVRO-FONTE: Trata-se do livro que documenta as Jornadas Llansolianas der 2017, evocativas dos quarenta anos da publicação d' O Livro das Comunidades:
« Poucas vezes um livro terá sido visto pelo seu autor, ao longo de toda uma vida, como tão inequivocamente inaugural e seminal como O Livro das Comunidades por Maria Gabriela Llansol. O caso mais frequente é precisamente o oposto, o da rejeição ou relativização das primeiras obras. O Livro das Comunidades, porém, estaria destinado a assumir um lugar determinante como paradigma de uma escrita e de um lugar no mundo que haveria de marcar toda uma linhagem de livros e figuras, como 'ponto de partida de uma espiral' cujas circunvoluções, ao longo de quarenta anos de escrita, acabariam por traçar um arco que une princípio e fim ...» (da Introdução). Edição Mariposa Azual, na colecção Rio da Escrita, nº 13.


3. À L'OMBRE DU CLAIR DE LUNE: A antologia de textos de Llansol em tradução francesa, feita a partir da sua Obra édita e inédita. Selecção de João Barrento, tradução de Guida Marques e prefácio de Laurence Nobécourt:
«A Obra de Llansol é um Mar Vermelho que se abre para deixar passar os Hebreus, uma Páscoa que promete a liberdade do deserto, uma passagem..., uma barca. Não serão muitos os que podem ter lugar numa barca. Mas nela podemos deixar-nos levar de um mundo a outro, com discreção, nas brumas de uma água misteriosa, sem conhecer a geografia exacta das margens. Llansol é uma história de margens e de litoral, de mão estendida para alcançar outra praia.» (do prefácio de Laurece Nobécourt). Edição Pagine d'arte, na colecção Ciel Vague, 78 pp.


4.10.18

ESCRITORES QUE LERAM LLANSOL

As Décimas Jornadas LLansolianas, que terão lugar no Espaço Llansol nos dias 20 e 21 de Outubro, a partir das 11 h e durante todo o dia, trarão à «Casa de Julho e Agosto» escritores de várias gerações e tendências, que darão testemunho sobre a sua leitura de Maria Gabriela Llansol. As Jornadas decorrerão, assim, sob o signo da leitura-escrita, um tema desde sempre caro a Llansol, que sobre ele escreve: «Quando leio, leio duplamente, porque simultaneamente escrevo o que outros hão-de ler... O meu texto e o de outros iniciam as suas vidas paralelas...».

Nestas Jornadas, para além da música com ligações a Llansol, numa peça do compositor João Madureira comentada pelo próprio, e das habituais leituras sobre o tema, pela actriz Rita Loureiro, contaremos com os depoimentos dos escritores Eduardo Lourenço, Hélia Correia, Manuel Gusmão, Julieta Monginho, Patrícia Portela, Ana Marques Gastão, José Manuel de Vasconcelos, Marta Chaves, Elisabete Marques e Rita Taborda Duarte.
Fizemos para a ocasião, como sempre, um caderno com muitos inéditos sobre o tema, e a exposição de livros da biblioteca de M. G. Llansol mostrará os modos como ela inscrevia a sua própria escrita no corpo dos que lia.
Deixamos aqui o programa pormenorizado, e contamos com a presença de todos os leitores de Llansol – e das escritoras e escritores que nos dirão como a leram e lêem.

3.10.18

«GABRIELLE»
A máquina de escrever em exposição

A Biblioteca Municipal da Sertã inaugura no dia 13 de Outubro, uma exposição de máquinas de escrever de alguns escritores, desde Fernando Pessoa, onde estará também presente a «Gabrielle» de Maria Gabriela Llansol, a sua penúltima máquina de escrever. Llansol gostava desta máquina, bem mais do que daquela que veio depois, eléctrica, e de seu nome «Dora». E deixou registo das suas preferências numa página de dossier escrita já nesta última, em 1998.
A exposição da Sertã estará aberta ao público até 30 de Novembro.


27.9.18

LLANSOL: AS RAZÕES DO CORPO

A próxima sessão da nossa Casa de Julho e Agosto – no sábado, 13 de Outubro, às 17 horas – centra-se num tema fundamental de toda a escrita de Maria Gabriela Llansol: o corpo e as suas razões, que não são da ordem do racional, mas do libidinal, afectivo, erótico. Desde o corp' a 'screver que «mete medo», em O Livro das Comunidades, passando pelos corpos entregues ao amor ímpar em Contos do Mal Errante, até aos múltiplos desenvolvimentos do lema de Spinoza «ninguém sabe o que pode um corpo», ou de Nietzsche, «o corpo, a grande razão», este tema atravessa toda a Obra de Llansol.
Por isso ela tem sido «traduzida» para tantas linguagens não verbais – o desenho e a pintura, a colagem e a fotografia, a música e o cinema, e também para essa arte do corpo por excelência que é a performance.

É desta última arte, mas também da presença do corpo na escrita de Llansol, que falaremos no dia 13 de Outubro no Espaço Llansol: 
– João Barrento introduz o tema (a partir dos textos impressos num folder que distribuiremos); e dois artistas brasileiros falarão das suas experiências de trans-mutação de textos de Llansol em escrita dos corpos:
Bernardo Bethônico, que desde há algum tempo integra o grupo C.E.M.-Centro em Movimento, de Lisboa, que por mais de uma vez partiu de textos de Llansol para espectáculos performativos; e
Isadora Bellavinha, responsável artística do espectáculo Entre - Uma casa que se torna, recentemente apresentado no Festival Muscarium, do Teatro Mosca de Sintra.

3.9.18

«ENTRE - UMA CASA QUE SE TORNA»
Um espectáculo a partir do universo Llansol



Integrada no Festival MUSCARIUM, do Teatromosca de Sintra, ai estar em cena nos próximos dias 11 e 12 de Setembro, às 21 horas (no AMAS-Auditório Municipal António Silva, Shopping Cacém, em Agualva-Cacém) uma performance criada pela artista brasileira Isadora Bellavinha a partir do universo literário de Maria Gabriela Llansol (mais informação em:  https://teatromosca.weebly.com/muscarium4.html



«O espaço da CASA, do JARDIM e do IMAGINÁRIO são conjugados e reconfigurados numa sobreimpressão de ambientes abertos aos viajantes em travessia. O público é convidado a habitar essa casa viva com seus antigos moradores que, desdobrando questões do universo de escrita llansoniano, apresentam uma Paisagem onde os protocolos são desorientados, onde o PODER não pode imperar e cada corpo tem sua própria lei de evolução. Um lugar onde tempos, espaços, seres e sons se sobrepõem sem se oprimir e compõem uma ritualística do encontro, tanto entre humanos, como entre as inumanidades de que somos feitos. A Casa transcriada é Corpo e Texto, sem interior nem exterior, em permanente desconstrução, abrigo para rebeldes, refugiados, excluídos. Toda a visita é bem-vinda: ENTRE.»

2.9.18

«O LITORAL DO MUNDO» EM ESPANHA

Saiu em Madrid, na editora Chamán, a segunda trilogia de Maria Gabriela Llansol, «O Litoral do Mundo», que engloba os títulos Causa Amante, Contos do Mal Errante e Da Sebe ao Ser. A tradução, como sempre, é de Mario Grande e Mercedes Cuesta, o tandem que dá pelo nome de Atalaire. É mais um passo importante na expansão desta Obra pelo mundo. E em breve haverá mais notícias de edições vindas do espaço francês e italiano...


Pode encontrar-se informação sobre o novo livro de Llansol em castelhano na página da Editora:
https://chamanediciones.es/producto/el-litoral-del-mundo-maria-gabriela-llansol/


1.7.18

«JADE» E «SOL» NA CASA DE JULHO E AGOSTO

Jade, o cão do futuro, regressou à casa de Julho e Agosto, agora de braço dado com a sua companheira,  cadela Sol. No pátio da casa, pela voz da artista Marta Bernardes, dialogaram Gabi e Emily, a Llansol de Amar Um Cão e a Hélia Correia de O Regresso de Jade

Marta Bernardes

Sob os olhares de Jade na parede do fundo, e de Sol, atenta aos pés da dona, obedescente-independente, não tanto obediente, palavra que «partiu em três pedaços iguais», a Marta recorda, emprestando a voz à Hélia:

Muitos anos mais tarde, se quisermos contar o tempo pelo calendário, esse cão do futuro enfim nasceu. Teve por nome Leão Jade, ruivo como um leão, ou Jade, só. Jade é nome de pedra preciosa.
Ninguém chegou a conhecer a mãe de Jade. O cachorrinho foi deixado suspenso num medronheiro, num berço feito pelos ramos, um berço que não estava nem na terra nem no céu. Jade sentia que não era verdadeiramente pássaro nem verdadeiramente quadrúpede.
Aquele lugar onde ele tinha surgido estava habituado a acolher com bondade todos os seres vivos e entregara-o ao medronheiro. Jade sentia inclinadas sobre si como que umas asas de animal.

E a tarde prosseguiu, entre o eco alto dos aviões e as modulações da voz límpida da Marta na sua leitura encenada, com o público a comentar e interrogar no fim a singular história daquele cão que queria aprender a ler, que viera do futuro, que, mais do que um simples animal, era uma alma crescendo. Foi, pode dizer-se, mais uma cena fulgor. Que a Hélia, no seu Regresso de Jade, define assim, sempre com Gabriela:

Jade partiu da casa junto a Sintra.
Seguiu o seu próprio caminho, seguiu pelo roteiro que tinha no seu corpo.

E ele encontrou-se no centro de
uma cena fulgor.
O que é uma cena fulgor?
Digamos que é um sítio muito especial existente nos livros da Maria Gabriela. É um lugar cheio de luz onde tudo é possível para o tempo, para o espaço e para os seres.
Pessoas que não podem encontrar-se porque vivem em épocas diferentes sentam-se à mesma mesa para jantar, paisagens distantes sobrepõem-se umas às outras como se fossem planos transparentes, invisíveis que ficam visíveis... Enfim: cena fulgor é algo muito especial que se consegue, não com truques de magia, mas entrando nos livros que ela escreve.

Deixamos aqui um documento inédito, escrito por Augusto Joaquim depois da morte do seu cão Jade, e que integra o caderno que fizémos (e ainda está disponível):


 (Clique nas imagens para aumentar e ler)

E o resumo da tarde em imagens, no video que se segue:


28.6.18

«SOLJADE»
Leitura encenada de Marta Bernardes

Agora é como se, sentada em roda com as minhas crianças, eu recontasse,
não o «Amar Um Cão», que não se pode recontar, mas o que dele, às vezes,
vem compor-me os sonhos
(Hélia Correia)

No sábado 30, às 17 horas, a artista-poeta Marta Bernardes vem expressamente do Porto com a sua cadela Sol para uma leitura encenada a partir de dois pequenos textos em que o cão Jade de Llansol está no centro: Amar um Cão e o remake de Hélia Correia O Regresso de Jade. Esta sessão é para todas as idades! Também as crianças terão o seu lugar no espectáculo que ocupará o pátio da Casa de Julho e Agosto! Haverá um caderno com a história de Hélia Correia e vários extratextos reveladores!

19.6.18

O TEMPO DE HERBAIS E OS LABIRINTOS DA ESCRITA
Apresentação do Livro de Horas VI

Foi no passado sábado, uma vez mais casa cheia, novas presenças, ambiente «leve e jubiloso», que no final da sessão, na animada conversa com o público, haveria de «abrir caminho a uma conjectura grave» (para evocar Llansol no começo de Parasceve), a da busca essencial da «verdade» deste Texto.
João Barrento e Maria Etelvina Santos conduziram a sessão, abordando as duas vertentes maiores deste novo Livro de Horas: as idiossincrasias e as oscilações próprias do «tempo de Herbais»(1980-1984) e os múltiplos rios de escrita que o atravessam e se projectam no futuro, até meados dos anos noventa.


João Barrento começou por situar a matéria deste novo livro de inéditos (que, com os cinco anteriores, perfaz já um total de 2.300 páginas editadas) nos últimos anos do exílio belga. O Livro de Horas VI é uma radiografia muito particular de um lugar e de uma época. Lugar e época concentracionários, mais do que os quinze anos anteriores do exílio. A questão essencial foi a de saber como podem um lugar e um tempo ser tão determinantes de uma obra e de uma escrita. Isto aconteceu em Herbais (e não tanto em Lovaina ou Jodoigne) porque aí o simples lugar geográfico se transforma em Lugar, locus/logos, lugar de sentido e de um discurso próprio, mais carregado de tensões. E o tempo, mais do que os trabalhos e os dias (que este livro também espelha), é um tempo do , de uma forma de estar-aí inquieta e activa, que gerou muita escrita, «tempo suspenso» também, na espera da publicação de vários livros e na expectativa de um regresso a Portugal. O tempo de Herbais presente neste Livro de Horas foi um tempo duplo, fotografia a negativo e positivo, num lugar com dupla face, visto ironica e nostalgicamente como Air baie (a baga do ar, algo de precário e isolado) e Hebraï (a terra prometida – que não correspondeu totalmente à promessa).


Maria Etelvina Santos abordou a segunda vertente significativa deste tempo e deste livro, a dos muitos livros e projectos de escrita que nele se concentram. Partiu da noção de «passagens-metamorfose», importante para perceber a génese dos textos de Llansol, suas figuras, desvios e transformações nos projectos de escrita, com a finalidade de dar a conhecer a estrutura deste Livro de Horas VI, e a opção de não incluir nele algumas páginas escritas em Herbais (O Livro de Horas V, ao reunir os trinta anos da matéria pessoana, já inclui cerca de 350 páginas escritas neste lugar da Bélgica). Estabeleceu-se a relação entre os Livros de Horas III e VI, e também a ligação entre as duas primeiras trilogias e os livros seguintes, uma vez que com a mudança de Jodoigne («a casa das beguinas») para Herbais, estava concluída a primeira trilogia e iniciada a segunda, que, a partir de Causa Amante (já com a presença de Luís M., Comuns ou Camões, no Cabo Espichel), vai definir o caminho para o «dom poético», a segunda fase da Obra de Llansol, de que Herbais, no seu grande isolamento e intensidade, foi o núcleo irradiante. Herbais, diz Llansol, será «o lugar de encontro de Infausta, de Aossê e de Bach», mas também de outras figuras que a partir daí terão lugar de destaque na Obra, como Joshua e Hölderlin, de que o Livro de Horas VI é revelador. Como a autora explica numa elucidativa página deste livro, a escrita de «Com João», primeiro título para Da Sebe ao Ser, iniciada em Herbais, vai dividir-se em dois livros: Contos do Mal Errante, escrito quase de forma torrencial durante todo o ano de 1982, sobrepõe-se ao projecto anterior, encerrando no seu âmago o desejo de resolver um tempo de exílio que, embora decisivo, chegava ao fim (esta escrita, tendo passado para o livro praticamente sem alterações, não foi incluída neste Livro de Horas VI); e Da Sebe ao Ser, cuja escrita definitiva se arrastará até aos primeiros meses de 1985, já em Portugal (escrita não incluída no Livro de Horas VI, por abranger cerca de cem páginas em muitas anotações dispersas, que farão parte de uma próxima segunda edição da obra). A partir de meados de 1984, quando já está decidido o regresso a Portugal, começam a aparecer regularmente as figuras de Uriel (da Costa), Hölderlin, Myriam, Joshua, Giordano Bruno, que se encaminham para o futuro livro Hölder, de Hölderlin. Daí que se tenha optado por prolongar as datas deste Livro de Horas até Julho de 1985, quando Llansol está já (transitoriamente) no Mucifal, para ser possível incluir os dois projectos em curso, que são núcleos coesos: «O Livro de Uriel» e «O Livro de Joshua-Hölder». A incluir toda a matéria escrita durante os anos de Herbais, o Livro de Horas VI seria um volume com cerca de 900 páginas. É de Colares, da casa de «Toki Alai», que partiremos para um futuro Livro de Horas.


Depois da projecção do video Herbais foi de Silêncio, que documenta o lugar e a casa da última fase na Bélgica (e que se pode ver aqui), o actor Diogo Dória fez uma luminosa leitura de algumas páginas que espelham a intensa vibração, as oscilações e tensões do tempo duplo, ou múltiplo, dos dias de Herbais.



Uma pergunta de Diogo Dória, depois da leitura e a partir de uma das passagens lidas, abriria um largo tempo de discussão e de interrogações: que espécie de «verdade» conduz esta escrita, nomeadamente na relação de autenticidade que estabelece com os seus leitores, por parte de uma «escrevente» que «gostaria de fazer parte do número germinal dos que não enganaram», na história da literatura universal. E desta questão nasceram outros fios de discussão, nomeadamente o das eventuais afinidades da escrita de Llansol com a de outros escritores, portugueses e estrangeiros (e surgiram nomes de romancistas inovadores do século XX, como Virginia Woolf, Musil ou Kafka; ou autores como Clarice Lispector e Maria Velho da Costa, poetas como Herberto Helder, pensadores como José Gil, músicos como Emanuel Nunes...): e ainda o dos factores que, nesta escrita, levam criadores de outras áreas – as artes plásticas, a música, a fotografia ou o cinema – a lê-la a partir da força da imagem nos seus textos, ou dos ritmos, cesuras e formas de composição particulares que os distinguem.

E à noite chegar-nos-ia ainda a surpresa da reflexão posterior de uma das amigas presentes, a professora de Filosofia Isabel Santiago, a propósito da questão nuclear de onde toda a discussão partiu, a da «verdade» de um texto como o de Maria Gabriela Llansol (que, em última análise, só pode estar nele próprio, na sua linguagem e no impulso que o move: partir de «um primeiro pensamento verdadeiro», como faz Spinoza na busca da sua verdade, para chegar a compreender a «coincidência» de cada ser consigo mesmo, na definição da própria Llansol). Escreveu a Isabel, entre muitas outras considerações, de Platão a Nietzsche, de Spinoza a Kant, e retomando alguns dos tópicos que foram sendo discutidos na conversa final:
«A questão do Diogo foi importante porque aclarou ainda mais a razão do pedido de ir de mãos dadas com Spinoza. Quando o Diogo relembra e defende, a partir do que leu, que Llansol é da verdade porque não quer enganar o leitor, lembra que ela não está a dizer essa verdade que é para todos correspondência entre o dito e o real.
[...]
Ainda somos herdeiros dos que tomam o conhecimento como forma de domínio do mundo, e não raros são os dias em que sabemos que entre ciência e poder as relações são as linhas de poder/potência e dos poderosos do mundo. São, por isso, os senhores do «território» os da ciência e os do poder. Num certo sentido, são os mesmos e perigosamente confundem-se.
[...]
Quando Llansol diz que não quer enganar, ela está a dizer que não quer esta verdade, mas vai mais fundo, como Nietzsche, ela não quer o homem teórico, que é sempre o homem do conhecimento e da moral... Ela não quer o conceito nem a definição, ela quer a imagem.
[...]
E isto eu só percebi hoje, no âmago da discussão: a importância da intuição para ela. A mesma que tem para Spinoza, que a considerou o conhecimento último e, por outro lado, o contributo decisivo que a diferença entre imaginação reprodutora e criadora em Kant tem para percebermos todo o mecanismo da génese transformativa das personagens/autores e outros seres na escrita e na Obra de Llansol.
[...]
Essas imagens errantes não nos devolvem o conhecimento do mundo, até porque não seguem a orientação dada pelo entendimento, mas a beleza do mundo. E a imagem da beleza pertence à arte. Eu não sei se Llansol é uma mulher da literatura, mas sei que ela é uma artista. Sem território: o texto oscila sem género nos géneros, mas ela é musical e plástica. O segredo está nessa permanência na instabilidade da imagem ou da sua entrega à imaginação criadora e para sempre esta recusa em estar no «território» [a zona dos poderes]. Ela não deve escrever apenas, parece-me. Ela constituiu, com o que escreveu e pensou, um imenso catálogo ou álbum das imagens do mundo que mais ninguém viu. E isso exige muito de nós, leitores, que temos de pedir as mãos uns aos outros para não soçobrarmos no pélago do seu texto, que está para além daquilo a que chamamos texto [o platónico «pélago da verdade», na intuição].
Foi isto que pensei durante o caminho e agora entrego ao caminho que se faz para dialogar com o João e os do Espaço, ou melhor, do lugar em que Llansol nos deixa ver ou intuir o que foi por poder ter sido: é um ver sem realidade, mas real, ou, como na conjugação verbal, um mais-do-que-real.
Isabel»