5.10.16

O LIVRO DA «RAPARIGA QUE TEMIA A IMPOSTURA DA LÍNGUA»...
… apresentado pela poeta que «vive por causa do amor»

Ontem foi dia de falar de Um Beijo Dado Mais Tarde, na nova edição da Assírio & Alvim. A poeta Marta Chaves falou-nos do livro, o actor Diogo Dória leu, no final, algumas passagens, e João Barrento abriu assim a tarde: 



E a Marta falou de Um Beijo dado Mais Tarde como quem o traz consigo há muito tempo, exactamente desde que ele apareceu, em 1991. Transcrevemos algumas das passagens do seu texto de apresentação:


                                                           FULGOR E MISTÉRIO
«Um eu é pouco para o que está em causa»

[…] Quando fui buscar o exemplar da reedição deste livro (a seguir referido como BDMT), propositadamente não o retirei do envelope que o continha. Passaram-se mais de três horas até que o abrisse. Quis prolongar esta cena, adiando por isso a visão do objecto. Abri o envelope e li o nome: Maria Gabriela Llansol. Pensei que o nome das pessoas, lido depois de já terem morrido, ganha uma dimensão particular de presença. Parece ele próprio uma oferenda. Assim me aconteceu com esta edição que hoje temos aqui, especialmente enriquecida com as fotografias de Duarte Belo. Na capa o verde, tal como o do vale, era verde. Fiquei feliz.

Não poderei falar deste livro enquanto unidade, não me é possível lê-lo isoladamente dos livros de Maria Gabriela Llansol que li antes e depois. Este livro absorve e é absorvido pelos outros. Se tentasse falar sobre ele per se, correria o risco de colocá-lo em lugares onde não pertence. Evitarei descer por esse escorrega perigoso. […]
Estou aqui para dar um testemunho. […]    
[] Desde o início destas minhas leituras, aceitei com uma familiaridade confortável o convívio que me ofereciam. Nos livros de Llansol ficamos no contacto com as cenas fulgor (expressão apaixonante e apaixonada criada por Llansol, que concentra uma morada de vibração e alegria, onde o real iluminado se manifesta), ficamos numa imersão que não carece de água e por isso não traz o risco de afogamento, mas antes de uma limpeza a seco, pureza, ascendência e transformação, sem que haja fim ou finalidade. Esta é a possibilidade: viver o vivo sem sentir aprisionamento nem medo. Trata-se pois de uma despossessão libertadora.
Na generosidade de Llansol não há extravagância, não há teatro, há rendição. Rendermo-nos é ligarmo-nos, e a sua obra oferece-nos a vivência de encontros únicos nos espaços e tempos que atravessam. Há o prazer da desordem vivido numa acepção de liberdade e libertação. É uma dádiva sentir-me amada por ler um livro, sobretudo quando me encontro num desassossego íntimo, como íntimo foi o meu modo de relacionar-me com ela através da sua escrita. O desassossego que conduzia Llansol às viagens, a mim conduz-me aos seus livros. 
Enquanto legente não procuro chegar a nenhum fim e nem a lança da sua morte na minha vida me deu esse sentido, pois que a cada leitura há uma renovação de votos, há um caminho que se abre para o meu ser e portanto esse acontecimento não abrandou o meu amor nem a sua existência em mim.
[]
Ao contrário do verso de Celan que Maurice Blanchot traduziu como le dernier à parler (o último a falar), Llansol, para mim foi a primeira a falar. Tinha dezassete anos quando comecei a lê-la e ter sido a primeira a falar não sucedeu exclusivamente em virtude da minha idade, mas sim pelo inesperado que a sua voz ofereceu ao meu mundo. Celan escrevia para permanecer humano, Llansol concebe um mundo humano que aqui viva (BDMT, p. 122).
Em Um Beijo Dado Mais Tarde, aprendi a ler tal como Témia, a rapariga que temia a impostura da língua. Quantas vezes como ela, sentimos uma nostalgia infinita? Quantos de nós adormecem a suplicar por lugares de aprendizagem? Aprender a ler é sair do negror, da cinza da melancolia (BDMT, p. 48) para o fulgor dos encontros e do encantamento. Com Llansol não há perda, há labor e transformação.
[…]
Que romance será este? É um romance que não o é, e que foi escrito para que o romance não morra, como referiu Llansol no seu discurso de agradecimento do Grande Prémio de Romance e Novela de 1990, atribuído a Um Beijo Dado Mais Tarde, pela Associação Portuguesa de Escritores.
Llansol escreve para que a língua não morra aniquilada pela sua própria impostura. A liberdade na escrita, torna apreensivos e inclusivamente afasta muitos leitores. A sua velocidade pessoal dispensa contornos e formatos. É surpreendente de facto, mas não implica uma lei e tão pouco pede ao leitor que aceite coisa alguma. Não há no seu texto algo de sobrenatural, há um modo de relacionar-se com a vida, que não sendo vulgar, não o torna menor. A falta de sentido atormenta-nos a todos, e é exactamente a essa falta ou ao sentido que nos é imposto pela língua, que Llansol oferece a sua indiferença activa.

Importou-lhe retirar da palavra o sentido de utilidade, essa função que a subjuga e não conduz necessariamente ao encontro entre os humanos. A palavra é tomada enquanto elemento que pode guiar-nos ao sonho sobre o princípio do princípio antes da contaminação que vem depois. A palavra que permite brincar ao pensamento enquanto somos vivos, sendo que conforme Maria Filomena Molder, pensar quer dizer precisamente caminhar em direcção a um que está à nossa espera. Entremos então na palavra como vale encantado, não entre duas montanhas, mas entre os humanos para que possa fazer de nós vivos no meio do vivo (Lisboaleipzig, p. 120).
[…]
A sua vivência é atravessada por um movimento de aproximação, há um intuito relacional que se configura nos encontros entre pessoas e objectos, pessoas e lugares, figuras e tempos. A escrita existe enquanto suporte de celebração não pelo modo como diz, mas por dizer. Não é a forma textual que interessa, mas sim o acto enquanto movimento. Como quem tem um falcão no punho e não consegue deter esse animal veloz, o mais rápido do seu reino. O que imprime na escrita de Llansol o seu carácter de alteridade é uma geografia rebelde que não se quer circunscrita a um campo de entendimento com razões ou fundamentos. O que importa não é que a palavra se ajuste ao corpo de pensamento que a lê, mas que justamente através dela, esse corpo se liberte e viva para além da linguagem, num fora-de-si. Esta postura implica capacidade rítmica e isto sugere-me que quem sente dificuldade em ler Maria Gabriela Llansol, talvez o sinta por não conseguir entrar no ritmo, o que redunda numa falta de compasso.
[…]
Llansol não encara a natureza nem os seres como algo que pode vir a dominar. Penso que prefere a presença das coisas para além de coisas que são, ser leal à natureza, à sua origem e possível mutação, numa relação de afinidade original, porque é perpassada pela sua própria vida, sem leis nem redis. O poder, na sua acepção mais estrita, afasta a vida possível, deixa restos, e são esses restos mal olhados, mal amados que interessam a Llansol. Nem sempre o poder e a língua são justos.
[…]
Ficamos a saber na primeira página de Um Beijo Dado Mais Tarde, que na casa (casa da Rua Domingos Sequeira), não se administrava bem a Justiça da língua. Pressentimos que a língua, mesmo quando não está oculta, pode não dizer, não falar.  Há algo de que se desconfia, um medo do engano, de ser trapaceada pela língua. Ainda assim, quem duvida decide sentar-se numa poltrona, a fazer companhia a toda esta luz ressentida. Estamos num lugar/cena algures entre o nascimento e a morte, entre a alegria sobre a terra e tristeza no paraíso. Quem nasce acolhe ou é acolhido? Há também quem morra enterrado por um simples olhar: um filho bastardo, por exemplo, como neste livro.
Em Um Beijo Dado Mais Tarde, Llansol diz-nos: Numa história, há (ou não há) um momento a que se chama sublime. Normalmente breve. Como penso que um leitor treinado já conhece todos os enredos, quase só esse momento interessa à escrita (BDMT, p. 62). Sublime é precisamente o nome que Llansol dá à escrita e é nesse exercício que está o que importa desvendar.
Havia um segredo, diz-nos o texto, mas diz-nos também que há coisas que se revelam silenciosamente e se adiantam a nós pelo facto de serem vistas por quem lhes tira o véu, por quem duvida se as coisas existem como prova de existência delas próprias ou se nós as vemos ou inventamos para que possamos existir. A disponibilidade e disposição para ver/ler, expande e leva o pensamento em caminho.
A casa que habita este livro é a casa da Rua Domingos Sequeira, em Lisboa. Casa da infância de Maria Gabriela Llansol. A propósito de outra casa, creio, Llansol escreveu em Um Falcão no Punho:  É a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém. Confesso que é das frases que mais me marcaram nas minhas leituras. Maria Etelvina Santos relembra-nos na introdução ao Livro de Horas V (O Azul Imperfeito), que Llansol nomeava as casas onde viveu como passagens-metamorfose. Esta expressão traduz a ligação e o reconhecimento entre paisagens e figuras, o inevitável resgate da origem na direcção do desconhecido. Aprendemos que importa que antepassados e objectos, respirem e sejam baptizados por um raio de sol que os ilumine e resgate do mau silêncio, do não-dito. Entregues à luz, encontrarão a serenidade. Assim se dá um beijo que preenche o vazio, um beijo que se dá mais tarde.
Quando nos dispomos, por obrigação ou vontade íntima, a visitar os lugares do nosso passado, quando olhamos para as heranças das vidas que nos antecederam e que de certo modo antecipam e ditam coisas em nós, quando a elas regressamos, tem de haver algo que ligue este caminho difícil entre três tempos, passado, presente e futuro, algo que reúna o que se herda e o que se escolhe guardar ou transformar. Em um Beijo Dado Mais Tarde, esse algo é alcançado através de um dom poético, quando ouvimos, por exemplo, Bach cantar uma música que faz de corredor no corredor. O sublime facilita assim um caminho para o real que se apresenta. Em Llansol há uma consciência aguda da fragmentação que atinge as nossas vidas, das feridas entre voo e queda, mas há também uma necessidade de congregar a nostalgia imensa e infinita que percorre a existência. É um desejo difícil de concretizar.
Fechar uma porta sabendo que não mais a poderemos abrir, pode ser uma sentença, um dito para sempre, se assim o quisermos entender. Equivale ao esvaziar o guarda-roupa de alguém que morreu. Fecharmos a porta da casa da nossa infância é também despedirmo-nos de uma parte que ficará ali, sem nós, num para sempre, e avançar com outra que nasce dessa morte.
Llansol teve uma vida própria, uma vida com uma maturidade que não desiste de olhar para o que já foi vivido, não como quem relê, mas sim como quem lê, como alguém que está disposto a conceber-se até à morte no sonho acordado dos afectos e que intensamente procura não adoecer com as feridas causadas pelo real.
A sua escrita é marcada por uma transparência invulgar, por mais que nela seja apontada uma densidade impenetrável que necessita ser desvelada, quando de facto para mim sugere um campo aberto. Sentir a vida, mais do que pensá-la, vivê-la e passar com ela e nela, não por ela. Vivê-la de modo cientemente humilde através de uma tomada de conhecimento afectivo. Não é uma escrita que fale do ser humano mas de ser-se humano. É difícil não nos perdermos de nós próprios. É fácil perdermo-nos dos outros. É difícil desembaraçarmo-nos de uma língua pesada e imposta, e Llansol desata os nós da língua para abrir a língua e não os nós.
Oferece-nos uma visão de um mundo que vai além da força ou fraqueza dos objectos e figuras amados. Parece-me que lhe interessa sobretudo a possibilidade de movimento que os habita e é nela que lhe interessa participar: no movimento quase musical que os investe ou que pode ritmicamente ser investido neles. No seu mundo, as imagens ganham existência através do corpo de emoção que produzem em quem vê ou lê e assim o que há de amor em cada parte do ar / é-(lhe) enviado com nome próprio (BDMT, p. 69).
Para Llansol, os bens sobre a terra são cinco: O conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver. Cinco bens entrelaçados, que se alimentam mutuamente, pois que o conhecimento traz abundância, a ponto de tornar generosos os homens (BDMT, p. 62), e porque para ela o humano define-se pelo face a face ao Amante, de que o corpo é a manifestação presente, e o texto a ausência que se manifesta (Lisboaleipzig, p. 130). 

(Fotografia de Inês Dias)

2.10.16

VIII JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
Spinoza em Llansol

As próximas Jornadas Llansolianas ocupar-se-ão da presença de um filósofo tão marcante como Spinoza na Obra de Maria Gabriela Llansol. Desde a escrita de Causa Amante, no final dos anos setenta, até ao último livro, Os Cantores de Leitura, que a figura de Spinoza acompanha esta Obra, e dessa presença falarão, nos dias 5 e 6 de Novembro, no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, alguns estudiosos de Llansol e de Spinoza. Como geralmente tem acontecido nas nossas Jornadas, contaremos também com intervenções de outras áreas: um filme (de Daniel Ribeiro Duarte), uma exposição (de Pedro Proença), uma performance (pelo C.E.M.-Centro em Movimento, de Lisboa), leitura de textos de Llansol pelo actor Luís Lucas e apresentação de novos livros. 


E teremos um caderno de inéditos de Llansol sobre Spinoza:


Daqui a alguns dias daremos a conhecer o programa completo de mais estas Jornadas Llansolianas de Sintra.

26.9.16

LLANSOL NO «FOLIO», EM ÓBIDOS

Passou ontem no FOLIO-Festival Literário Internacional de Óbidos, o filme de Miguel Gonçalves Mendes Curso de Silêncio, feito a partir de obras de Maria Gabriela Llansol e de uma conversa com Maria Etelvina Santos e João Barrento, gravada em Sintra em 2007.
Procurando construir algumas pontes entre o filme, essa entrevista e a Obra de Llansol, João Barrento falou ontem, depois da projecção, para o público que enchia a tenda montada em Óbidos, e desse comentário deixamos aqui algumas passagens mais significativas.


(Foto: Anabela Mota Ribeiro)
Eu começaria assim, indo às origens deste filme e fazendo minhas por um instante as palavras de Maria Gabriela Llansol:
«àquele que já sabe eu explicarei tudo; àquele que nada sabe eu nada poderei dizer».
As palavras vêm de uma conversa que a Vina e eu fizemos com M. G. Llansol em Julho de 2007, a pedido do realizador do filme.
A frase tem um toque sibilino, quase bíblico, mas de facto funciona ao contrário dessa sabedoria profética ou sacerdotal, e a um nível bem mais profano. É antes uma espécie de lema para uma ideia de comunidade humana possível, a dos semelhantes na diferença. A ideia implícita parece ser a da existência de uma consonância tácita (a daqueles que já sabem, mas nunca saberão tudo) – ou então da impossibilidade dela! Transpondo para este momento e este lugar, depois de visionado este filme, eu diria: aqui, estamos, em princípio, em consonância, e por isso é preciso explicar tudo! Ou pelo menos algumas coisas. É o que tentarei fazer, indo às origens.
E nas origens está uma pergunta, uma espécie de eixo central do que poderia ser o guião do filme, e que por sua vez deu origem a outras perguntas, desdobrando-se:
O que é isso a que se chama «riqueza de espírito»? E por que é que isso parece estar tão ausente do nosso «mundo da vida» (e também do mundo da arte, ou de muita coisa que por isso se toma)?
Esta era a pergunta inicial do Miguel a Llansol, e que todos sentimos logo que precisava de ser desmontada, desconstruída. E a Maria Gabriela, já com alguma dificuldade, fê-lo, com palavras que pareciam desde logo ir ao encontro do que seria um filme que ainda não existia, e ela não podia conhecer – daquilo que é, hoje, este filme do Miguel Gonçalves Mendes.
«Riqueza de espírito» é, à primeira vista, uma contradição de termos, uma perversão de sentido dos dois elementos da expressão. Mas é possível recuperar ideias desvirtuadas (quase sempre pelo uso – que não atenta nas palavras, não lhes dá a atenção que elas merecem e pedem!). A palavra «riqueza» foi reduzida ao ter, esquecendo o ser; e o «espírito» caiu em descrédito, tornou-se objecto de suspeição no meio de tanto materialismo de pacotilha, raso e falseado, que nada tem a ver com as origens, quer do materialismo, quer do espírito – que afinal se encontravam, dos pré-socráticos a Lucrécio, do pneuma grego ao ruah hebraico. Afinal, aí, o sopro (depois spiritus) era a energia da criação, a pujança do Ser, o combustível que põe o corpo a agir, a pensar, a criar...
Llansol responde à aparente incompatibilidade entre riqueza (material) e espírito (incorpóreo) desfazendo-a, e falando de um «isso» que estará entre os dois, ou de que ambos podem participar:
«Essa associação não tem sentido, mas não interessa dizer o que tem sentido ou não. Interessa dizer algo sobre ISSO. E isso... é incomunicável, faz-se de imagens pessoalíssimas, do trabalho sobre a vida quotidiana, do mundo envolvente, isto é, é um trabalho de todos os indivíduos, em que o corpo é o suporte físico».
Estamos em pleno no filme do Miguel. Mas Llansol esclarece ainda, dando-lhe outro nome, essa controversa «riqueza de espírito»:
«A vivência, a espiritualidade, chamem-lhe como quiserem. Eu diria mais: a vida imagética interior... pratica-se pela atenção; não tem momento de começar nem de acabar, está no próprio, portanto, é como quem diz: àquele que já sabe eu explicarei tudo, àquele que nada sabe eu nada poderei dizer». 
O momento seguinte foi o de saber: e como se faz um filme com isso? E Llansol respondeu, e o Miguel seguiu por aí:
«É quase impossível fazer um filme sobre isso, a não ser captar imagens: ISSO [lembremos: o dar a ver a «riqueza de espírito»] faz-se captando imagens.»
E veio ainda outra pergunta, no questionário do Miguel: e de que imagens precisamos, e para que servirão essas imagens? É a pergunta essencial do cineasta. A que Llansol responde como se o fosse  também – e mais uma vez é isso que o filme faz e põe em movimento, e tudo lá está, sem explicações, apenas algumas ligações textuais mínimas, com excertos de dois ou três livros: 
«Precisamos de imagens de montanhas, de imagens de textos, de imagens de rios, de imagens dos seres que amamos, de imagens dos animais que amamos, e de imagens do nosso pensamento criativo, é isso». 
E acrescenta uma frase que, ao que me parece, poderia ser o vademecum de qualquer cineasta, e o é neste filme. Disse a Maria Gabriela, à questão «para que servirão essas imagens»:
«As imagens não servem, elas são rainhas»!
O que pode querer dizer: a arte é, em última análise, sem finalidade; ou tem em si mesma a sua finalidade. E também este pressuposto (kantiano) se confirma na última resposta de Maria G. Llansol à pergunta «Escreve-se para quê? Dança-se para quê?», e à preocupação nela implícita. Diz ela, aludindo a uma noção de grandeza que nada tem a ver com fama, antes com o ímpeto que nasce de dentro e faz subir:
«Escreve. Dança. Sê grande. Se for com altura suficiente, ver-se-á... ninguém deixará de te ver. Podes ser tudo. Pois é, isto é muito a infância da arte...»
A infância da arte, a infância e a arte, a infância na arte: estamos novamente no cerne deste filme, em que cada imagem, apresentando-se nua, ganha grande densidade, e que também é um filme feito em larga medida com crianças e adolescentes. Uma vez mais sem finalidade, mas com um desígnio bem preciso. Sem princípio, meio e fim (i. e., sem uma lógica limitativa), apenas sequências não sequenciais de intensidades, de cenas-fulgor.
**
De certo modo, já fui falando do filme do Miguel sem o abordar explicitamente. Mas aproximemo-nos um pouco mais.
Em 2007, aquando da sua apresentação no Festival Temps d'Images, o Expresso esvrevia numa nota: «Um objecto difícil de qualificar». Podiam estar a falar de qualquer livro de Llansol. As duas coisas, filme e livros, serão «inqualificáveis» (i.e.: furtam-se aos padrões de classificação habituiais) em relação a dois aspectos: a construção e a substância, que é como quem diz: a montagem não sequencial-narrativa, e a eventual estranheza ou singularidade das imagens. A montagem do filme é perfeitamente equiparável à montagem textual em Llansol: a articulação de cenas ou planos não é logicamente perceptível à primeira vista, mas há um subtexto que os liga, um fio de profundidade que assegura, no subconsciente da obra e de quem a vê/lê, o que é comum; algo semelhante à ideia do «esquema» kantiano (algo assim como um terceiro excluído incluído), um pressuposto do conhecimento que não é o objecto do conhecimento, mas que é decisivo para apreender o que está para lá da superfície visível das imagens. Para entender o que é esse «subtexto», poderíamos perguntar, por exemplo: o que liga, no filme, o gesto de escrever/copiar ao de acariciar a casca de uma árvore? ou a casa à floresta? ou o gesto invulgar de semear no mar ou de nascer de uma árvore? ou o homem nu ao piano/o rapaz que toca violino em plena natureza e a mulher constantemente rodeada de folhas de escrita?
Os entretextos que, como no cinema mudo, pontuam o caminho de plano a plano, e que provêm de livros de Llansol (muitos deles desse grande livro de luto e caminhada para a luz que é Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004), evidenciam esse substrato de ligação, e condensam o que as imagens irão mostrar: o acto de escrever/ler/copiar (seminal e sempre presente em Llansol), a casa como Lugar do intenso, ou a floresta como lugar do júbilo, os corpos que não servem uma acção, mas valem por si e em si, a relação humano/não humano, o poder da luz ou dos elementos, o princípio da metamorfose...
E uma ideia de fundo a atravessar tudo isso, indissociável da escolha de um grupo de crianças adolescentes como actantes (não actores!): como podem aqueles/aquilo que não tem voz ganhar uma voz própria? No filme (como em Llansol), esses/isso corresponde a duas esferas:
1) a criança, particularmente numa fase em que começa a querer ter voz, mas a ordem instituída quase nunca lho permite (em Llansol, escrita e infância andam sempre juntas, e a figura da(s) criança(s) está presente desde O Livro das Comunidades);
2) os seres mudos, todos eles tendo e não tendo voz: porque a árvore rumoreja, o mar brama, os animais têm as suas vozes... mas o que os faz existir, ou não, é o dar-se ou não atenção a essas suas vozes. A atenção que se dá ou não se dá ás coisas que estão aí e acontecem à nossa volta é decisiva, nomeadamente, como escreve Llansol, para nos apercebermos, em cada coisa e em cada ser, do que não está à vista, mas existe e é essencial: «reparar no real faz eclodir o real que, no invisível, lhe corresponde» – a atenção faz então nascer, ou despertar, aquilo que Llansol designa de «sensualidade do invisível». Também isto faz parte da «riqueza de espírito»: sem a atenção – essa «oração natural da alma», diz Benjamin – não se chega à «vida imagética interior» que corresponde, para Llansol, a essa riqueza de espírito.
O filme aproxima-se, como disse, muito da prática de escrita de Llansol, quer na montagem, na recusa de uma trama narrativa, quer também na fuga a qualquer sugestão de transcendência ou metafísica, nomeadamente dessa abominável «metafísica dos sentimentos», banal e kitsch, melíflua ou violenta, que ainda domina algum romance e mais ainda, actualmente, a praga das novelas televisivas de produção nacional.
Isto quer dizer: este filme faz-se e afirma-se, como qualquer texto de Llansol, na pura ordem da imanência (imagens, corpos, objectos, percepções, também a música). Aqui, não se documenta nada (não se trata de um documentário), nem se inventa nada (não é ficção): mostram-se, numa desar-ticulação de superfície, feita de intensidades, cenas fulgor que se articulam através daquele substrato de que eu falava há pouco, e que é o de uma ideia de busca – não de busca de um sentido (que o mundo não tem), mas de uma energia que anima as coisas e os corpos desse mundo, nesse mundo, e das razões da sua permanente metamorfose a caminho de uma qualquer «revelação» profana. Como M. G. Llansol explicou, em 1994, quando alguém lhe pergunta também por que escreve, para quê ou para quem escreve:
«eu ando a contar o mal-estar profundo dos seres humanos, dos animais e das plantas, ando à procura de um final feliz. Ando a ver se o fulgor que, por vezes, há nas coisas, é melhor guia do que as crenças que temos sobre elas, ou do que os pensamentos que, a propósito delas, nos ocorrem.»
Ou seja, importa ver e dar a ver, sem especulação nem crença. Como no filme, de plano para plano, e com um duplo centro, muito llansoliano: uma casa (centro aglutinador, onde nasce a escrita e os objectos ganham estatuto de figuras) e o mundo (não o social, o gregário, mas o da physis, do Vivo – que também pode ser o inerte). Este filme, mostrando (porque mostrar é a sua natureza e a sua vocação) o que é misterioso ou pouco expectável, nas imagens, nos lugares, nos gestos, vem dizer-nos uma vez mais, como Llansol sempre fez: vejam (e ouçam) precisamente aquilo que o mundo que nos rodeia não deixa ver e ouvir. Esta incapacidade de ver e ouvir é de há muito o traço paradoxal que marca esta civilização dita da imagem, que também é a do ruído, em que vivemos há décadas. Do outro lado está o caminho da arte e de quem a recebe, é esta a perene «infância da arte» que vive da atenção, da ambiguidade e da inquietação produtivas, da questionação que provoca, de permanentemente nos lembrar a perda do Humano e apontar para a sua regeneração, dando sinais (elementares) de orientação – a quem os quiser entender, os que «já sabem» (os outros nunca precisarão deles). Sinais como aquele de uma imagem que se atravessa na minha memória visual, vinda de outro filme de que falei há pouco tempo, a de um copo de água límpida na mão da actriz Edith Clever num filme/espectáculo de H. J. Syberberg, contra o fundo de escombros da casa de Goethe em Weimar, destruída pelas bombas, e com a Pastoral de Beethoven a ecoar num fio de música ténue. Ou como as imagens tantas vezes contrastantes deste Curso de Silêncio do Miguel Gonçalves Mendes: as mais elementares, do mundo sensível da natureza, e as mais elaboradas, do universo da arte – o homem nu ao piano, a escrita (do rapaz deitado no soalho, de lápis na boca, da mulher à mesa, no seu ritmo incontido) ou a música de Bach. Ambas presentes e alternantes, sem hierarquias. E há sempre, nesta busca de rastos e restos, um movimento que é o da vontade de decepação da memória da morte pelo júbilo, o fulgor e a eterna lei da metamorfose. Sem preocupação de encontrar para tudo um sentido, uma lógica argumentativa ou narrativa. Llansol deixa claro este desapego do sentido, em favor de uma estética do aberto e do possível, quase no final de um dos seus livros mais carismáticos, Um Beijo Dado Mais Tarde, que iremos apresentar dentro de dias em segunda edição, e que agora me serve de ponte para o visionamento do filme do Miguel:
«Nunca olhes os bordos de um texto. Tens que começar numa palavra. Numa palavra qualquer se conta. Mas, no ponto-voraz, surgem fugazes as imagens. Também lhes chamo figuras. Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é impostura da língua. Vou, finalmente, soletrar-te as imagens deste texto, antes que meus olhos se fatiguem [...] O indizível é feito de mim mesma, Gabi, agarrada ao silêncio que elas representam.»

(J. B.)

21.9.16

«CURSO DE SILÊNCIO»
Um filme de Miguel Gonçalves Mendes 
a partir de M. G. Llansol


No próximo domingo, dia 25 de Setembro, pelas 12h30, passa uma vez mais, no FOLIO-Festival Literário Internacional de Óbidos, o filme de Miguel Gonçalves Mendes Curso de Silêncio, feito em 2007 a partir do universo imagético e de fulgor de Maria Gabriela Llansol.


O título remete para o penúltimo livro publicado em vida da autora, Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004, um impressionante «trabalho de luto» que caminha para a luz, e é a sua resposta ao desaparecimento do seu companheiro de uma vida, Augusto Joaquim, em 2003. O filme (um projecto originalmente feito em colaboração com Vera Mantero) aproveita também uma última conversa-entrevista de Llansol com João Barrento e Maria Etelvina Santos, em 28 de Julho de 2007.


Curso de Silêncio será apresentado em Óbidos por João Barrento, que recordará essa última conversa e abordará algumas ligações do filme de Miguel Gonçalves Mendes com a paisagem literária do humano e do não humano nesse universo «megavibrátil» que é o de Maria Gabriela Llansol.