30.10.15

OS EXÍLIOS DE LLANSOL
– Sétimas Jornadas Llansolianas de Sintra –

Foi já a sétima vez que reunimos em Sintra, este ano no MU.SA-Museu das Artes, algumas dezenas de estudiosos e leitores de Llansol para mais uma viagem com o seu texto, que no último fim de semana nos permitiu deambular por um largo espectro de questões relacionadas com o tema que escolhemos, o da «Vocação do exílio» na existência, nos modos de escrita e na visão do mundo de uma autora como Maria Gabriela Llansol. 

Ao cabo de dois dias de intervenções e debates, de filmes e de leituras, percebeu-se como a vocação do exílio em Llansol, para além de visceral, é dupla e paradoxal. Há na sua vida, que é a sua Obra, uma tendência natural para, em sentido real e metafórico, se exilar do mundo, do «gregário», do comum, e zarpar para as margens: «nós» – isto é, os de uma estirpe que é a sua e a das suas figuras – «herdámos as margens», lemos já em Causa Amante. Por outro lado, num dado momento do seu percurso acontece o chamamento do exílio concreto, que a levará a viver vinte anos numa Europa do Norte que, de outro modo, não teria conhecido – pelo menos como a conheceu depois da decisão do exílio semi-voluntário, forçado pelas circunstâncias de uma guerra que faria nascer muita outra literatura «empenhada», com um empenho que não seria o seu, apesar de, nos dez anos de Lovaina, e mesmo depois, viver imersa num ambiente de contestação do Estado Novo e dessa Guerra Colonial. Mas o lugar de exílio de Llansol estava já assinalado antes, desde a adolescência: é o da Ilha – que tanto pode ser a do quarto onde lê e escreve como a de Robinson, por analogia (por exemplo em Lisboaleipzig, ou já nos diários de juventude), ou a «Ilha de Ana de Peñalosa», o «lugar onde se resiste», por afinidade figural, desde O Livro das Comunidades.


Será, porém, nos anos do exílio real da Bélgica (e não no interior, o dos anos do Portugal de Salazar) que se abrem os caminhos de um outro exílio dentro do exílio, o da escrita das «órbitas excêntricas» (como Hölderlin), o da língua que dá por si em «sobreimpressão» com mundos-outros, e assim se renova, o da comunidade de figuras aí descobertas, que vêm das margens da História e que, nos primeiros livros, começam a configurar o espaço de exílio dos «rebeldes» que mais tarde, no exílio português de Colares e Sintra, se prolongaria pela ordem figural de um quotidiano ainda e sempre desterrado, em busca de «um mundo humano que aqui viva…»


Mas em Llansol a condição de exílio – ficou claro nestas Jornadas que é disso que se trata, e não de mero exílio de circunstância – é de tal modo visceral que se pode dizer que começa pelo próprio nome, aquele nome literário que acaba por escolher, o da mãe, que traz em si as palavras Luz e Llansol.  Também ele um nome que veio da distância, no tempo e no espaço, e de uma língua (a «língua d'Oc» da Provença e da Catalunha) também ela exilada entre as maiores e dominantes. Este é um exílio de matriz uterina, que poderia levar a dizer: «Meu nome é exílio». Um exílio que tem a sua casa própria no corpo e na imanência do mundo, e não em espaços de nostalgia e desencanto, ou de amargura e resistência activa, como tantas vezes acontece com os exilados. O seu modelo, a tê-lo, não seria o de um Ovídio lamentando-se no Ponto Euxino, mas o de Dante, fazendo do exílio estímulo e fonte da Obra, de uma Obra que agora, em Llansol, não é devaneio metafísico, mas projecto puramente humano.




De tudo isto se falou nos dois dias das Jornadas, em particular nas intervenções do crítico e ensaísta António Guerreiro (que abordou o «exílio essencial» e o lugar de Llansol numa «pós-literatura»), do poeta e tradutor José Manuel de Vasconcelos (que se centrou na «errância e indeterminação» deste universo de escrita, colocando-o em paralelo com o de um Julien Gracq ou de um Jorge Guillén), de João Barrento (que enquadrou o tema na totalidade da escrita e nas várias fases de vida de Llansol) ou de intervenientes de uma nova geração de legentes de Llansol, originalmente vindos de áreas como a História ou a Filosofia: Carolina Fenati (que colaborou muito com o Espaço Llansol e fez duas teses sobre Llansol) ou Hugo Monteiro, professor da Escola Superior de Educação do Porto e radicado nas filosofias de Blanchot, Derrida ou Jean-luc Nancy, pensadores que trouxe à sua leitura do espaço literário exilado de Llansol e do seu «anti-método».

João Barrento | Maria Etelvina Santos | António Guerreiro 

José Manuel de Vasconcelos | João Barrento | Ma. Etelvina Santos | Silvina R. Lopes

Maria Carolina Fenati | Cristiana Vasconcelos Rodrigues | Hugo Monteiro

Mas houve também «encontros improváveis» (como os que algumas vezes provocámos nas nossas sessões da «Letra E»), e altamente reveladores, do universo de Llansol com o de outros exilados:  Hannah Arendt, pela voz de Teresa Cadete (escritora, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, e Presidente do PEN Clube Português), que tocou em questões geralmente menos abordadas, mas muito pertinentes – a distinção entre herança e testamento, os usos particulares do passado ou o lado político de ambas as autoras; e o judeu exilado do nosso século XVII, Uriel da Costa, que suscitou a Llansol muita escrita nos cadernos e no que designou de «Diário do Mucifal», no período de quase um ano compreendido entre os últimos meses de Herbais e os primeiros depois do regresso a Portugal, entre 1984 e 1985. Disso nos falou Ilse Pollack, grande conhecedora da literatura e da realidade portuguesas que veio da Áustria e é autora de uma das mais originais publicações em torno do texto de Llansol, o Almanaque Llansol que publicou, em alemão, em 2013 (Territorium der Randständigen. Ein Llansol-Almanach, Berlin Press).

Teresa Cadete | J. Barrento | Ilse Pollack

Não houve até hoje Jornadas Llansolianos sem livros novos, os da série dos Livros de Horas (na Assírio & Alvim) e os da colecção «Rio da Escrita» (da Mariposa Azual). Este ano tivemos, nesta colecção, O Império dos Fragmentos. Llansol e a exigência fragmentária, que documenta as Jornadas de 2014, e foi apresentado por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, com a editora, Helena Vieira. E o grande acontecimento no âmbito dos «Livros de Horas» (a publicação de maior peso que fizemos até hoje, depois de Europa em Sobreimpressão. Llansol e as dobras da História, de 2011), o quinto volume da série, da responsabilidade de Maria Etelvina Santos, que documenta toda a escrita de Llansol em torno da figura de F. Pessoa/Aossê e seus «satélites» na casa dos Bach, ao longo de trinta anos. Este grande volume de mais de 700 páginas foi apresentado por Silvina Rodrigues Lopes, e a sua génese, o processo editorial e o espectro de matérias cobertas amplamente comentados pela responsável da edição. Trata-se sem dúvida de um marco importante neste ano, tão pessoano, do centenário de Orpheu.


Helena Vieira (Mariposa Azual) | Cristiana V. Rodrigues

O novo Livro de Horas: O Azul Imperfeito (Pessoa em Llansol)

Mas as Jornadas Llansolianas nunca se fizeram sem o contributo de outras artes, e também este ano não foi excepção. Tivémos um filme de Daniel Ribeiro DuarteAo Lugar de Herbais – que mostra de forma original como o exílio de Llansol acontece num movimento oscilante entre o mundo (Herbais, lugar-chave dessa experiência) e a escrita (o arquivo de Sintra, com todas as suas ramificações). Herbais e Sintra encontram-se e confundem-se neste filme, «sob o signo da passagem por lugares provisórios», de exílio a exílio.


No encerramento, ouvimos as vozes dos actores Diogo Dória e Raquel Mendes a ler textos de Llansol sobre a temática das Jornadas:


E como também já vem sendo hábito, fizemos um caderno com muita escrita de Llansol, fotos e documentos: «O caderno do Exílio», com 72 páginas e organizado em cinco secções: 1. Do exílio em geral; 2. Os lugares do exílio; 3. A língua e o exílio; 4. A escrita: desterro da literatura; 5. Comunidade, figuras e exílio. 


Mostrámos ainda, numa exposição com largas dezenas de fotografias, os «Lugares e rostos do exílio» de M. G. Llansol. O tratamento digital das fotografias foi feito por Teresa Projecto. Também essa exposição pode ser vista, com as fotos e os textos que as acompanham, na montagem que se segue:







5.10.15

SÉTIMAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
O programa completo

«A vocação do exílio» é o tema das nossas Jornadas Llansolianas deste ano, que terão lugar, como já anunciámos, nos dias 24 e 25 de Outubro, na «Sala da Clarabóia» do MU.SA-Museu das Artes de Sintra. A partir das 11 horas. A entrada é livre.


O tema do exílio atravessa toda a vida de escrita de Maria Gabriela Llansol, e pode dizer-se mesmo que está inscrito no próprio nome literário que escolheu, ele também proveniente de uma língua exilada entre as «grandes», a «língua d'Oc» da Catalunha e da Provença, onde o nome ainda perdura. São vários os exílios de uma escritora como Llansol: o de uma escrita de «órbitas excêntricas»; o de uma língua que dá por si em «sobreimpressão» com mundos-outros, renovando-se; o de uma comunidade de figuras que vêm das margens da História; ou ainda o da «ordem figural» de um quotidiano também ele exilado do social e da «luz comum». As intervenções previstas abordarão a matéria do exílio a partir de pontos de vista muito diversos, e orientando-se para a escrita ou a língua, o exílio real ou o paralelismo com casos singulares de exilados, como Uriel da Costa ou Hannah Arendt.

(Para aumentar e ler, arraste a imagem para o ambiente de trabalho)

O programa inclui ainda, como sempre, uma exposição fotográfica com imagens do arquivo («Llansol: Lugares e rostos do exílio»); a projecção de um filme em cujo centro se encontra o lugar por excelência do exílio de Llansol (Ao Lugar de Herbais, de Daniel Ribeiro Duarte); apresentação de dois novos livros (o novo Livro de Horas, que recolhe, ao longo de 730 páginas, toda a escrita de Llansol sobre Pessoa-Aossê, as figuras próximas e os seus ambientes, de 1976 a 2006, longa e criteriosamente preparado por Maria Etelvina Santos; e o volume que documenta as Jornadas de 2014, sobre o fragmento); e teremos ainda, a concluir, uma leitura de textos centrados na temática das Jornadas, pelos actores Diogo Dória e Raquel Mendes.

OS NOVOS LIVROS:




16.9.15

VII JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
Temos já definido o programa das Sétimas Jornadas Llansolianas de Sintra, que este ano terão lugar em 
24 e 25 de Outubro
no MU.SA-Museu das Artes de Sintra
recentemente reaberto. As sessões terão lugar na luminosa «Sala da Clarabóia».
A «Sala da Clarabóia» do MU.SA
 O tema
Llansol: «A vocação do exílio» 
foi-nos sugerido por uma série de papéis avulsos com este título (que já transcrevemos no Livro de Horas I, em 2009), e é recorrente em alguns dos livros de Llansol, particularmente nos Diários Um Falcão no Punho e Finita, em Lisboaleipzig 1, nos quatro Livros de Horas já publicados, e também em algumas entrevistas. Trata-se de um tema que permite uma abordagem múltipla, e será explorado à luz de tópicos como os seguintes (ou outros que possam ocorrer aos participantes):

 v    O exílio da Bélgica («sem país em parte alguma»
    v    Escrita e exílio («o exílio faz parte da escrita»)
 v Língua e exílio («nas margens da língua»)
 v Tempo, História e exílio («a noite do exílio»)
 v O exílio interior («fora da literatura»)
 v O exílio como condição, em Llansol e em autores que se tornaram figuras 
           llansolianas, ou  que com ela revelam afinidades.
Contaremos com a participação de:
João Barrento (Espaço Llansol), António Guerreiro (crítico e ensaísta), José Manuel de Vasconcelos (poeta e tradutor), Cristiana Vasconcelos Rodrigues (Professora, Universidade Aberta), Teresa Rodrigues Cadete (Professora da Faculdade de Letras de Lisboa e Presidente do PEN Clube Português), Ilse Pollack (escritora e tradutora austríaca), Hugo Monteiro (Professor do Instituto Politécnico do Porto), Maria Carolina Fenati (investigadora e ex-colaboradora do Espaço Llansol), Silvina Rodrigues Lopes (Professora da Universidade Nova de Lisboa), Maria Etelvina Santos (Espaço Llansol), e ainda dos editores Helena Vieira (Mariposa Azual) e Vasco David (Assírio & Alvim).
A encerrar estas Jornadas, os actores Diogo Dória e Raquel Mendes (da Escola Superior de Artes e Design - ESAD) lerão textos de Llansol sobre o tema do exílio.
Mostraremos ainda uma exposição fotográfica intitulada «Llansol: Lugares e rostos do exílio» e teremos, como sempre, livros de Maria Gabriela Llansol, cadernos e edições do Espaço Llansol à venda, com destaque para o novo «Livro de Horas» (O Azul Imperfeito. Pessoa em Llansol, 1976-2006), mais um volume da colecção «Rio da Escrita» que documenta as Jornadas de 2014 («O Império dos Fragmentos». Llansol e a exigência fragmentária), e O Caderno do Exílio, com textos de M. G. Llansol em torno da sua experiência do exílio.
Em breve divulgaremos o programa completo.

26.7.15

A VOZ DA SARA...

... trouxe ontem de volta o Jade de Amar um Cão no Palácio dos Coruchéus, em Lisboa. Uma voz concentrada de leitora juvenil – a Sara Maia – que interiorizou perfeitamente o texto desta «história» de Maria Gabriela Llansol que se pode considerar um microcosmo paradigmático da sua escrita, do seu universo e pensamento e da sua singular capacidade de pôr em consonância tensional todas as esferas do Vivo, a vida e a morte e as suas permanentes metamorfoses.



Num ambiente quase íntimo, de convivência entre adultos e crianças e cães (estavam quatro ou cinco presentes), a leitura fluía num diálogo com o texto, no ritmo e no tom congeniais com o fulgor, as ideias e a humanidade de uma relação ímpar e íntegra com o cão que nasce, sem ainda ter encarnado, no Jardim da Estrela, nasce para o texto sobre um medronheiro na Arrábida e parte para a sua última viagem em Colares, em 20 de Janeiro de 1989.


Mostrámos as belas colagens do Augusto (vinte «desenhos a lápis com fala», como lhes chamou a Maria Gabriela) feitas em 2002 a partir de Amar um Cão, e reeditámos o caderno de 2013 com o texto de Hélia Correia, escrito para os mais pequenos em sobreimpressão com o de Llansol. Viajámos e pensámos com a Sara, à imagem do Leão Jade na escrita de Llansol:
«O cão Jade é ao mesmo tempo um corredor e um meditativo. Quando corre, seu corpo veloz espelha sua meditação. Quando repousa, corre sobre suas patas dobradas...»

Jade, com Augusto e Maria Gabriela em Lisboa

A nossa gratidão, para além da Sara, vai para a Helena Tavares e o André Maranha, que organizaram e montaram com dedicação o serão de ontem.

21.7.15

AMAR UM CÃO PARA OUVIR E VER

No próximo sábado, dia 25 de Julho, pelas 21h30, o emblemático texto de Maria Gabriela Llansol Amar um Cão será lido na Galeria Quadrum, em Lisboa, por Sara Maia, uma leitora de quinze anos, num ambiente exterior do Palácio dos Coruchéus, adequadamente iluminado e afim da atmosfera do texto. Haverá também uma exposição das 20 colagens originais de Augusto Joaquim feitas a partir desta narrativa de Llansol, e que foram incluídas na edição da Assírio & Alvim intitulada Desenhos a Lápis com Fala - Amar um Cão. A expressão vem do livro de Llansol Amigo e Amiga, e relembramos o contexto desse livro em que ela surge:
«... lembrei-me de Nómada, presente-ausente – a ler e a redesenhar Amar um Cão
Ao seguir com o olhar a colecção de desenhos a lápis com fala onde esboçou a pergunta sobre o nosso cão que nos faltou em '89,
"por onde anda o Jade?"
eu questiono, fazendo agora minha a sua pungente lucidez,
"por onde anda o Nómada?"
De facto, não sei por onde andam, nem o Jade, nem o Nómada. Mas sei que Jade é, subtraído ao tempo, o piso de seu dono.»


Esperamos por todos os amigos do Espaço Llansol na Galeria Quadrum/Palácio dos Coruchéus, em Alvalade (ver planta de localização). A entrada é livre, e todos os cães são bem-vindos.


6.7.15

«O ENIGMA DO MUNDO»
A casa de Llansol em imagens

Fotografar uma casa, em particular uma casa de escritor(a) é entrar num mundo em si inapreensível. Os objectos da fotografia, lembra Barthes, são sempre «parciais», não há outros nesta arte que opera cortes no real. Por isso, o resultado será sempre – e já é muito – a reconstituição fragmentária de recantos, objectos, lugares e materiais de escrita, fontes de leitura, e também, se o fotógrafo para isso tiver a necessária sensibilidade, a recuperação de atmosferas particulares que são uma espécie de líquido amniótico onde se configura uma existência e de onde nasce a escrita.
Numa escritora como Maria Gabriela Llansol, isto era decisivo. E Pedro Teixeira Neves, fotógrafo, mas também jornalista e escritor, soube fazer jus a essa exigência no belo livro (de artista) que compôs com fotografias feitas recentemente na casa da escritora que hoje é o Espaço Llansol. Chamou-lhe O Enigma do Mundo, e fez acompanhar a selecção de fotografias a preto-branco de um pequeno texto que fecha o livro:





O resultado da deambulação do seu olhar muito atento aos mais diversos pormenores é a imagem múltipla de uma «casa de escrever» como a própria «escrevente» a vê num caderno de 1995, onde lemos:

Gostaria de ter uma casa imensa________ para expor meus pensamentos e objectos______ o meu olhar sobre a realidade que se transforma: este é o meu quarto de Sintra, o meu quarto velado à luz da vela________ e hoje arrumei melhor a estante dos livros________ e parti dela.
Olho e volto a olhar, consigo um olhar novo – o sentido dos livros vivos desperta em mim a partir da estante. Trabalhasse eu mil horas por dia, e reteria sempre mais trabalho _______ deve ser de haver múltiplos seres em mim com o desejo de continuar-me e acabar-me [...]
________ abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos. As casas estavam gastas por nascerem sempre umas dentro das outras como crianças surdas. [...]
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______ (Caderno 1.43, 1995)



Nas «casas de escrever», nas várias casas de escrita por onde Llansol passou e em que continuamente vai renascendo – desde a casa paterna na Rua Domingos Sequeira, em Lisboa, à da avó em Alpedrinha, do apartamento urbano de Lovaina ao quarto minúsculo da granja de Herbais e às casas de Colares e Sintra, que tantos livros viram nascer e crescer –, as palavras escritas nos Cadernos (quase sempre a esferográfica, de diversas cores) animam-se para dar corpo aos «múltiplos seres em mim». São, desde os primeiros escritos de infância e juventude, casas dentro de casas dentro de casas, como revela um dos fragmentos citados; e afinal é sempre a mesma casa arquetípica, arcano central desta Obra, que contém a escrita e nela está contida. Casas repletas de objectos, mas em si mesmas vazias, como o «mundo desabitado», «espécie de deserto à minha volta», à espera de serem preenchidas, mobiladas com formas e sentidos vindos – na carroça que atravessa «as ruas do meu interior» – de outros lugares, cidades da alma «onde a imagem estava plena».
Nesta casa feita de muitas casas sempre cheias de sinais, e com múltiplas janelas abertas sobre o universo, tudo gira em permanente vibração e devir. Escrever – escreler com as muitas Figuras que antes dela escreveram e foram acolhidas na casa do texto, e com os legentes que se alimentam da sua escrita e a prolongam – é aí um acto de necessidade, uma espécie de «segunda natureza», como se lê num dos Cadernos. Aí, «o balanço deste meu, vosso, mundo não tem fim; a necessidade de abrir-lhe as portas é real________».

22.6.15

«UM ALVOROÇO DE IMAGENS»
A iconografia llansoliana vista e comentada na «Letra E»

(clique na imagem para aumentar)

Existe no espólio de Maria Gabriela Llansol um conjunto heterogéneo de imagens de vários tipos e proveniências, e sobre os mais diversos suportes, que a autora foi reunindo, sem quaisquer intenções de chegar a algo que se pudesse aproximar de uma colecção ou de um «atlas», mas simplesmente porque, por uma razão ou por outra, e seguindo provavelmente o princípio do imediato não-uso, elas pediam para ser guardadas (olhadas e preservadas), ligando-se a quem as olhava por um elo desinteressadamente afectivo, estético ou já pré- ou pós-figural: «Vou estabelecer um dossier das imagens que me movem e comovem» (lemos no caderno 1.51, p. 68).
A organização e classificação desse núcleo de cerca de 700 imagens (de que demos a ver uma pequena amostra no passado sábado) por Teresa Projecto permite-nos agora – até com algum lugar para a surpresa – estabelecer ligações explícitas ou indirectas com textos e livros de Maria Gabriela Llansol. Para além disso, reforça-se assim o lugar particular, e mesmo decisivo, da imagem nesta Obra: a imagem visual ou icónica (agora apreensível na sua singularidade e nas suas relações) e a imagem textual, que tão fortemente marca esta escrita («A imagem do imaginador é o último reduto da imaginação», Caderno 1.43, p. 138).
Deste novo sector agora disponível do espólio de Llansol nos falou no sábado a Teresa Projecto, doutoranda em Belas-Artes e nossa colaboradora. A sua intervenção trouxe um conjunto de questões que permitem entender melhor a iconografia llansoliana nas diversas vertentes que integram estas imagens no método de escrita, na construção figural ou no universo objectal da autora, através das «correspondências silenciosas» que nesta rede se tecem. Disso dá conta o texto que se pode ler a seguir, que completamos com algumas fotografias da sessão e das imagens expostas na «Letra E».

15.6.15

«O VALE DAS ESTAMPAS PERENES»
As imagens de Llansol na «Letra E»



O vale de que fala o título é o lugar das imagens que desde sempre envolvem o quotidiano de M. G. Llansol, que ela busca ou vêm ao seu encontro. Ao longo dos anos, ela foi guardando imagens de todos os tipos e em todos os suportes, sem preocupações de coleccionar, orientando-se antes por afinidades que subitamente nelas se revelavam com o seu próprio texto (como lemos num caderno de 1998: «vou estabelecer um dossier das imagens que me movem e comovem»). São muitas centenas de postais, folhas de calendários ou catálogos, de revistas e folhetos farmacêuticos, desenhos e pintura, gravura e cerâmica, pagelas e lugares do mundo. Uma panóplia visual que iremos mostrar e comentar no próximo sábado, 20 de Junho, a partir das 16 horas na «Letra E». Teresa Projecto, doutoranda em Belas-Artes e nossa colaboradora, falará deste sector do espólio que organizou e classificou ao longo dos últimos meses. E um desdobrável mostrará, com imagens e textos inéditos, esse mundo por conhecer desta escritora cujos textos regorgitam de imagens.
Esperamos por todos em Sintra nesse sábado, para a última sessão da «Letra E» antes das férias de Verão.

7.6.15

«O MUNDO EXISTE, E O VERGÍLIO MORREU...»

(Caderno 1.45, p. 53, em 5 de Setembro 1996)

«O que está feito, está feito. Não acharei, no entanto, estranho se, nas noites de chuva, muitos virem um funâmbulo aéreo a dar-lhes fé no conhecer, e no facto nu e incompreensível de ser-se humano – homem e mulher.» (M. G. Llansol, Inquérito às Quatro Confidências).
Foi o final da leitura de ontem na «Letra E».  A relação breve,  mas  intensa e  de uma tensão produtiva entre Maria Gabriela Llansol e Vergílio Ferreira, de 1988 a 1996, trouxe ontem ao nosso Espaço momentos significativos de reflexão, debate e leitura que iluminaram mais um «encontro im-provável» – porque as suas motivações não têm prova, ou não precisam dela, e também porque são pouco comuns encontros como este, entre escritores desta estatura. Um encontro que foi ao mesmo tempo um dos muitos exemplos possíveis das «afinidades electivas» no percurso de escrita e vida de Maria Gabriela Llansol, que tantas vezes já temos abordado na «Letra E».

Almoço nas Azenhas-do-Mar, 1991

O tema foi apresentado e amplamente comentado por Bruno Béu, investigador da área da Filosofia e da Literatura (e também músico), que defendeu em 2012 uma tese de doutoramento sobre «Interrogatividade e apofatismo no pensamento de Vergílio Ferreira» e nos falou dos encontros e desencontros entre estes dois nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea, sob o signo do  Nem, que remete para os posicionamentos antidogmáticos de ambos – nem isto nem aquilo, mas também isto e aquilo, que tanto pode ser o uso do fragmento ou da suspensão do fio do pensar como os «momentos líricos» da linguagem ou a relação tensional entre real e irreal, entre o mental e o «místico», entre o humanismo e o pós-humanismo.

Manuscritos de Vergílio Ferreira no espólio de Llansol
(Notas sobre Lisboaleipzig e bilhete por altura da Europália, em Bruxelas, 1990)

Bruno Béu interrogou-se ainda detalhadamente sobre as razões e os sentidos do epíteto de «companheiro filosófico» que Llansol encontra para Vergílio Ferreira, trazendo à discussão autores e problemas que a ambos interessaram, com particular destaque para a problemática do Ser e do «enigma do mundo», que atravessa vários momentos do diário de Llansol Inquérito às Quatro Confidências, a partir de conversas sobre o «Poema» de Parménides, de Levinas ou de María Zambrano. Mas também com referência ao gesto essencialmente «antifilosófico» de ambos, que os leva a privilegiar o espanto e a interrogação face ao real – com saídas diferentes e registos de escrita diversos.

Algumas das dedicatórias de Vergílio Ferreira a Gabriela e Augusto


O debate foi vivo e diversificado. E a leitura final de excertos de Inquérito às Quatro Confidências permitiu compreender ainda melhor as vias cruzadas deste «encontro inesperado do diverso». Mostrámos peças do espólio de Llansol que, para além dos cadernos, agendas e diários em que Vergílio  aparece com frequência, incluem também muitos livros deste autor com dedicatórias especiais, manuscritos e bilhetinhos, e fotografias dos encontros que nos anos noventa eram frequentes, entre Paris e Bruxelas, Colares, Fontanelas e as Azenhas-do-Mar. E uma vez mais tudo isto está documentado no «Caderno da Letra E» intitulado O «Companheiro filosófico». Vergílio Ferreira e Llansol.



1.6.15

O «COMPANHEIRO FILOSÓFICO»
NA «LETRA E»


No próximo sábado, dia 6, às 16 horas, a «Letra E» do Espaço Llansol recebe Vergílio Ferreira, que entrará em diálogo com Llansol através da apresentação de Bruno Béu, especial conhecedor da Obra do autor de Aparição, que na sua Conta-Corrente, particularmente no início dos anos noventa, escreve frequentemente sobre a Obra e a figura de Llansol. Gabriela, por sua vez, dedica-lhe o terceiro diário, Inquérito às Quatro Confidências, onde Vergílio surge como «o mais jovem» e o «companheiro filosófico».


Bruno Béu falará desta relação breve mas intensa, e haverá um caderno que a documenta extensamente (no caso de Llansol, desde os anos sessenta). A abri-lo, um texto de Eduardo Prado Coelho em que se relacionam os dois à luz do encontro entre Filosofia e Literatura, e onde podemos ler: «Não é muito frequente dois grandes escritores encontrarem-se. O costume é terem-se encontrado antes de serem grandes escritores (...) Mas, no caso de Vergílio e de Maria Gabriela, podemos dizer que eles, para além do circunstancial, começam por se encontrar na delegação mútua dos seus próprios textos: Maria Gabriela admira os textos de Vergílio, Vergílio deixa-se intrigar e fascinar pelos textos de Maria Gabriela.»
Esperamos por todos na «Letra E», para mais esta sessão de «Afinidades electivas».