NA «LETRA E»
25.5.14
LLANSOL: OS ROSTOS DO TEMPO
NA «LETRA E»
NA «LETRA E»
Como via / vivia / escrevia M. G. Llansol o tempo? Que formas assume o tempo em geral, os tempos dos dias, o tempo da História e o tempo sem tempo do «Há» nos seus livros e manuscritos?
É este o tema da próxima sessão da Letra E do Espaço Llansol, no próximo sábado, dia
31 de Maio, às 16 horas.
Tomamos como pretexto a publicação recente de um Almanaque Llansol em língua alemã, editado pela Berlin-Press e organizado, traduzido e prefaciado pela lusitanisra austríaca Ilse Pollack, grande conhecedora da literatura portuguesa.
A autora estará na Letra E nesse sábado para nos falar da sua obsessão por almanaques e coisas passadas, e em particular deste livro, o único almanaque até agora feito a partir de textos e imagens da Obra e do espólio de Llansol. Falaremos também do tema do tempo em Llansol, documentado em mais um «Caderno da Letra E» que fizémos para a ocasião e que, como sempre, ofereceremos aos presentes. Mostraremos muitos almanaques (alguns da biblioteca de M. G. Llansol) e manuscritos dos cadernos sobre a temática do tempo, e temos pronta uma sequência de fragmentos sobre o tema, que distribuiremos pelos que vierem, para a habitual leitura, que desta vez não será feita por actores ou pelas colaboradoras mais próximas do Espaço Llansol, mas pelo público.
Esperamos por todos no sábado, dia 31 à tarde, para uma imersão na letra e no espírito do tempo em Llansol.
Publicado às
13:33
7.5.14
FILME SOBRE LLANSOL
NO «PANORAMA 2014»
O filme de Daniel Ribeiro Duarte Ao Lugar de Herbais, feito em 2012 para as Jornadas Llansolianas de Sintra, vai ser mostrado na oitava edição do «Panorama do Documentário Português», que terá lugar em Lisboa (Cinema S. Jorge e Cinemateca) entre 9 e 15 de Maio.
«Ao Lugar de Herbais», 2012
O filme passará no próximo sábado, dia 10, às 15 horas no Cinema S. Jorge (Sala 3).
Veja toda a programação da mostra aqui: www.panorama.org.pt
Publicado às
15:01
28.4.14
«ESCREVO SOBRE O GRANDE GUARDANAPO BRANCO...»
Os cafés de Llansol
Ainda com ecos e imagens dos 40 anos do 25 de Abril presentes, a sessão de sábado da Letra E levou-nos até aos cafés de Maria Gabriela Llansol, lugares onde, entre Lovaina, Lisboa e Sintra, ela foi escrevendo com alguma regularidade. Com a sala completamente transformada, a condizer com o tema, João Barrento situou a escrita de café de Llansol no contexto dessa grande tradição europeia desde o século XVIII, assinalando o que mais distingue M. G. Llansol dos tradicionais literatos de café. Alguns momentos dessa intervenção:
[...] Sendo frequente, a escrita de café em Llansol não é
propriamente um hábito regular, muito menos um ritual: é
antes o prolongamento natural da escrita dos dias e do apelo
dos cadernos que quase sempre a acompanhavam – e quando
isso não acontecia, também o jornal, o guardanapo de papel ou
um envelope podiam servir de suporte de escrita imediata.
A escrita de café é, no caso de Llansol, muitas vezes o
resultado da observação do que se passa à sua volta, logo
seguida do imperativo de escrever. Coisa que não é muito
diferente de escrever em casa, nem impede que nasçam
também, nessa outra situação, fragmentos literários mais
acabados, ou escrita sobre alguma matéria particular que, no
momento, lhe ocupa o campo libidinal e mental. Mas em geral, para M. G.
Llansol, o café é um espaço neutro, sem matéria figural visível
ao primeiro olhar.
[...] O que não encontramos nos cafés de Llansol é a atmosfera
efervescente, animada, snob, antiburguesa dos cafés literários
que referi antes, os dos movimentos de vanguarda por toda a
Europa, entre 1900 e os anos trinta. Nem encontramos aí também o espírito de grupo, mais ou menos sectário, mais ou
menos aberto, que foi o de alguns cafés marcados por grupos
geracionais ou tendências literárias, entre os anos quarenta e
setenta do século passado, onde a maior parte do tempo não se
escrevia, mas se conversava e discutia. Nos cafés de Llansol
não sopra propriamente nenhum «espírito» de grupo, quando
muito (e alguns textos dão a entender isso) um estilo de época,
um Zeitgeist quase sempre perturbador para a escrevente. Os cafés de Llansol
eram os de toda a gente, e neles a escritora passeante, isolada e
atenta, observava e escrevia – tinha de escrever, obedecendo
ao imperativo que sobre ela descia em qualquer lugar onde se
encontrasse e sempre que o mundo envolvente viesse ter com
ela.
Os «textos de café» de Maria Gabriela Llansol, talvez mais
claramente na fase portuguesa do que na Bélgica, são textos de
observação, não raramente com alguma ironia, e também de
reflexão, aqui e ali na companhia de alguma figura maior do
seu Texto (Spinoza no Ramisco) ou de algum livro em fase de
construção. As mais das vezes, tal como os próprios cafés por
onde circula, se senta acidentalmente e escreve, os textos são
escrita de circunstância, produto da situação, e por isso às
vezes se acomodam nas margens do jornal, em guardanapos ou
mesmo, na hora do nascimento deste tipo de escrita, nas bases
dos copos de cerveja dos cafés de Lovaina, num jogo amoroso
com Augusto Joaquim, anunciando já, nesses suportes de
escrita a quatro mãos dos anos sessenta, o nascimento do
«ambo».
[...]
Contrariando também a grande tradição europeia e
moderna da preferência de alguns escritores pelos fundos mais
escuros dos seus cafés (o exemplo paradigmático pode ser o de
Adalbert, o novelista, na novela de Thomas Mann Tonio Kröger), Llansol prefere muitas
vezes as esplanadas (vejam-se alguns dos textos de Lisboa e
Sintra), lugares de luz e de verde, para nelas dialogar, por
escrito, com transeuntes, árvores, paisagens. O olhar e a
imaginação activa têm aí o seu terreno propício para se
cruzarem e gerarem a escrita do corpo e da alma que é quase
sempre a de Llansol, nesse seu «horizonte bipartido do silêncio»,
anotando «coincidências» que sabe «serem apenas a face escondida de outros sinais no mundo», deixando convergir também
nestes textos escritos muitas vezes no meio da multidão, como
o escritor do conhecido conto de Poe ou em Baudelaire e Benjamin, tudo
o que a imaginação e a visão acrescentam ao que o olhar vê.
[...]
E nem a morte escapa a esse poder de observação que se casa com a imaginação, como no último texto que leremos, onde subitamente, no lago em frente do café do Jardim da Estrela, um pato sulca o abismo, a «falha súbita» que se abre na água, numa visão do fim que converge com a das origens, no voo do pato até à fonte de Neptuno, «que conheço desde a minha infância», diz a anotação em pequenas folhas de bloco avulsas.
Veja aqui uma síntese da sessão em imagens (com a Cantata do Café, de J. S. Bach)
Da selecção que fizémos da escrita de café inédita, e que agora se pode ler em mais um «Caderno da Letra E», extraímos alguns dos textos que foram lidos no sábado por Maria Etelvina Santos e Helena Alves.
O Jardim da Parada
13 de Março 1985
[...]
Os cafés prefiguram este lugar, com suas portas
abertas e mesas escolhidas; um criado circula para servir e
as vozes são a moeda de troca. Quem troca não está
perdido; nos cafés, trocar é uma tentativa, um símbolo de
ignorância e de desejo – tal como o meu.
Tenho vários cafés à minha volta, mas o que prefiro é o
do Jardim da Parada, com a entrada aberta sob as árvores.
O jardim quadrado da cidade deixa uma praça quadrada
quando desaparece, se desaparecesse, e o seu estímulo é
humano e vegetal, uma vigília do vegetal sobre o humano, e
a minha vigília que os liga. O café padece de falta de
palavras úteis; mas as inúteis são um rumor que me
entrega a clorofila de que eu preciso.
[...]
O Brasseur de Lovaina
24 de Abril 1974
Não tenho dinheiro para
comprar a saia de cor
crua que desejava e
transformo o meu desejo
em escrita e espaço
cénico sobre a mesa do
café (o «Brasseur»); vejo-me rodeada de folhas de papel que murmuram música,
mobilidade e noite, não obscura; flutuo num ritmo de
Nietzsche, livros, o meu braço nu assente sobre a página,
moreno e cheio, por envelhecer. Por escrever está o nosso
futuro, à minha frente o Augusto atinge com o olhar o
nosso encontro, vê o que é.
No Ramisco, Várzea de Colares
Anos 80
As pessoas partiram e deixaram no terraço, a substituí-las, a sombra das árvores. O falcão observou do alto esta passagem do humano para o vegetal da sombra. Interrogou-se sobre a ausência do corpo que estivera na cadeira pintada de branco, à esquerda, junto do muro. Era tão brilhante e difícil de apagar que se fixou numa forma finita__________
À mesa do Ramisco, lembrei-me do desaparecimento ardente da Ferrari.
A Tentadora, Campo de Ourique
28 de Setembro 1988
[...]
No Ramisco, Várzea de Colares
Anos 80
As pessoas partiram e deixaram no terraço, a substituí-las, a sombra das árvores. O falcão observou do alto esta passagem do humano para o vegetal da sombra. Interrogou-se sobre a ausência do corpo que estivera na cadeira pintada de branco, à esquerda, junto do muro. Era tão brilhante e difícil de apagar que se fixou numa forma finita__________
À mesa do Ramisco, lembrei-me do desaparecimento ardente da Ferrari.
A Tentadora, Campo de Ourique
28 de Setembro 1988
Evoluí longamente para além de tudo o que possamos
imaginar que eu evoluí. Sinto o café/restaurante totalmente vazio à minha volta, sem contacto humano, e sem
sentido. Penso na floresta, que é o pinhal onde talvez se
estenda a nossa casa de madeira a implantar, e vejo, em
todo o seu espaço, como todos os meus novos companheiros e amantes me levaram daqui.
E tão progressivamente, tão docemente que nem me dou conta.
E tão progressivamente, tão docemente que nem me dou conta.
Somam-se os chás e o
resultado no meu corpo
humano é surpreendente.
Um outro globo paira, que
me envolve, e não pode
medir-se, ligeiro, na atmosfera e no ar. Mas o ar
desta cidade está cheio de
corações humanos sufocados ______ e mesmo o mais ínfimo animal
é mais igual a mim.
17 de Janeiro 2000
As pombas rolam no espaço que espelha a igreja do Santo Condestável sobre as mesmas pombas. Entramos na Tentadora, e as antigas paredes, sobretudo o tecto trabalhado de outrora, dissolvem-se no chão. O que há, existe. Não tenhas medo – a arte de escrever é apenas entreabrires a gola do vestido, e deixar uma passagem deserta para todo o andar do corpo. Quem se ama, é ainda o Anjo da escrita caminhante – e só ele. Dar-me-ás, pois, para principiar esta velada caminhada, o arco da tua mão, onde vou pôr a flecha e amar o que escreveres, até que o que escreveres se arremesse sem medo, sem vacilação, e atinja o alvo.
17 de Janeiro 2000
As pombas rolam no espaço que espelha a igreja do Santo Condestável sobre as mesmas pombas. Entramos na Tentadora, e as antigas paredes, sobretudo o tecto trabalhado de outrora, dissolvem-se no chão. O que há, existe. Não tenhas medo – a arte de escrever é apenas entreabrires a gola do vestido, e deixar uma passagem deserta para todo o andar do corpo. Quem se ama, é ainda o Anjo da escrita caminhante – e só ele. Dar-me-ás, pois, para principiar esta velada caminhada, o arco da tua mão, onde vou pôr a flecha e amar o que escreveres, até que o que escreveres se arremesse sem medo, sem vacilação, e atinja o alvo.
Na Sapa, Sintra
9 de Maio 1996
Sobe a manhã a partir da
mesa de café da Sapa,
onde estou comungando
com desconhecidos sobre
o passeio. Será este? Será
aquele? Será aquela
Joshua, o princípio do
desconhecido evidente no
conhecido?
[..]
[..]
Na atmosfera azul, a Serra de Sintra esplende, irmana-se com as planícies do Alentejo, baixa para elas na
imobilidade, sem cortar o espaço – o espaço que me
surpreende.
Eu estou nua, vestida, completando os sentidos que me ocorrem e voltando a chávena com o pires sobre o guardanapo de papel – para eles. A fusão tem várias camadas, resistências, interstícios, e não é total.
Eu estou nua, vestida, completando os sentidos que me ocorrem e voltando a chávena com o pires sobre o guardanapo de papel – para eles. A fusão tem várias camadas, resistências, interstícios, e não é total.
17 de Dezembro 1997
Continua a ventar, estive na
Sapa a contemplar o jardim
aprofundado no solo, rodeado
de uma sequência quadrada
de casas que hei-de transpor
para o livro O Senhor de
Herbais – o espaço-livro.
Nesse jardim há jarros
sempre molhados e uma
multiplicidade de pequenas
habitações encaixando-se em
portas e janelas que parecem
não ter fim – quanto mais
princípio.
Mas tem o princípio do olhar – o eu do meu olhar
material, a observá-la da sala antiquada da Sapa.
O que domina o tempo é a matéria; o que domina o espaço é o fio de verde. Os géneros do discurso estão ausentes – e a língua renova-se, porque chove, na sua densidade material. A língua é uma concentração abrindo-se para um alvo – alva neve.
Foi a neve – ausente aqui – que hoje disse___________
24 de Dezembro 1997
O que domina o tempo é a matéria; o que domina o espaço é o fio de verde. Os géneros do discurso estão ausentes – e a língua renova-se, porque chove, na sua densidade material. A língua é uma concentração abrindo-se para um alvo – alva neve.
Foi a neve – ausente aqui – que hoje disse___________
24 de Dezembro 1997
Perfeito dia de imperfeito Natal _________ que o lugar
comum diria sempre imperfeito sobre esta Terra________
Sem horários – eu venho aqui quando os outros não vêm, e a véspera de Natal na sala é deserta e a Serra profunda noutra luz_____ sem iluminação.
Sem horários – eu venho aqui quando os outros não vêm, e a véspera de Natal na sala é deserta e a Serra profunda noutra luz_____ sem iluminação.
É a sala do tempo.
No Jardim da Estrela
12 de Fevereiro 2001
No Jardim da Estrela
12 de Fevereiro 2001
Passeio com L.
Numa cadeira do JARDIM DA ESTRELA
______ O que atravessou o meu olhar/espírito naquele momento foi a morte e o pato sobre o lago, ou, melhor olhando, o pato e a morte sobre o lago. O pato estava próximo, deslocava-se no seu movimento imóvel. E veio uma pomba dar um passeio na terra firme.
O pato tinha o bico recurvo amarelo e nadava entre duas folhas, na falha súbita que eu vi no lago. Era o meu pato – o meu pato fúnebre.
E dei-lhe a minha vida.
Sobrevoando (o lago), o pato afastou-se no sentido contrário – em direcção às águas que jorravam de Neptuno (o fontanário que conheço desde a minha infância).
Numa cadeira do JARDIM DA ESTRELA
______ O que atravessou o meu olhar/espírito naquele momento foi a morte e o pato sobre o lago, ou, melhor olhando, o pato e a morte sobre o lago. O pato estava próximo, deslocava-se no seu movimento imóvel. E veio uma pomba dar um passeio na terra firme.
O pato tinha o bico recurvo amarelo e nadava entre duas folhas, na falha súbita que eu vi no lago. Era o meu pato – o meu pato fúnebre.
E dei-lhe a minha vida.
Sobrevoando (o lago), o pato afastou-se no sentido contrário – em direcção às águas que jorravam de Neptuno (o fontanário que conheço desde a minha infância).
Estava resolvido o problema.
(Mais tarde).
(Mais tarde).
Publicado às
00:13
22.4.14
«LETRA E»: OS CAFÉS DE LLANSOL
No próximo sábado, dia 26 de Abril, a partir das 16 horas, a Letra E vai transformar-se num café literário, com leitura de inéditos de Maria Gabriela Llansol nascidos nos seus cafés da Bélgica e de Portugal, textos escritos nesses cafés e sobre eles. João Barrento fará uma introdução em que falará das particularidades da escrita de M. G. Llansol enquanto autora-de-cafés, por comparação com toda uma tradição europeia que vem já do século XVIII. E poderemos conversar no «Café da Letra E» sobre o tema, com café, chá e bolos nas mesas – e um cravo vermelho para não esquecermos a véspera e os quarenta anos de uma revolução desastrosamnte traída. Haverá, como sempre, mais um «Caderno da Letra E» (48 p.) sobre Os Cafés de Llansol, desde o «Brasseur» de Lovaina até à «Sapa» de Sintra.
Venham tomar café e conversar connosco e com Llansol. As mesas já estão postas, e o ambiente a condizer com o tema.
E atenção ao novo horário: 16 horas!
Publicado às
15:14
4.4.14
A «LETRA E» DE ABRIL A JUNHO
Deixamos aqui o programa da Letra E para os próximos três meses. Com temas novos - e talvez inesperados - como o dos Cafés de Llansol (nesse dia a Letra E será mesmo um café!), os almanaques e o tempo, e ainda uma figura próxima e distante como Virginia Woolf, comentada por duas conhecidas escritoras nossas, Ana Luísa Amaral e Hélia Correia.
Chamamos a atenção para a nova hora de começo das sessões – 16 horas! –, resultado de um breve inquérito feito junto de alguns frequentadores das Letra E. As opiniões divergiam, mas pensamos que com a nova hora encontraremos um meio termo que não interfere com as horas de almoço e jantar de sábado, e poderá convir a todos.
Publicado às
15:42
23.3.14
«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»
A sessão de ontem na «Letra E» estava originalmente prevista para ter lugar numa ruína – em Sintra, onde há muitas, espelho de um estado de coisas em desagregação, ou noutro lugar deste país em ruínas. Acabou afinal por se fazer no lugar habitual, porque o tempo atmosférico, tal como a atmosfera asfixiante da pseudocultura dominante e do pensar, continuam frios e sem chama. O espaço da «Letra E» transformou-se, por isso, numa espécie de gruta – ilha, na visão de Llansol –, um dos lugares, não apenas simbólicos, mas reais, disseminados por aí, onde alguns não desistem de pensar e resistir.
Cad. 1.10, 208: «Dagaia, a Ilha de Ana de Peñ[alosa]»
O lugar da Terra onde se resiste, contra a falsificação pelos mitos...
Dos modos vários dessa resistência se falou ontem, traçando amplos arcos que não se limitaram ao texto de Llansol, mas procuraram ir a algumas raízes, remotas e mais próximas, do «mal-estar na civilização» que é a nossa. Sobre as nossas cabeças pairava ontem uma «floresta do texto», algumas dezenas de fitas de papel com frases na caligrafia original dos cadernos de Llansol (de que deixamos aqui uma amostra, e que o video que inserimos no final dá uma imagem mais viva). Penduradas do tecto, eram como morcegos que, de cabeça para baixo, activam o seu sonar para auscultar este mundo às avessas, investindo em voo picado contra ele.
Foi o que fizeram os dois intervenientes que convidámos – o escritor António Vieira e o crítico e ensaísta António Guerreiro –, ao dissecarem a situação actual, com olhares amplos que vinham inevitavelmente pousar nas linhas do grande universo de Llansol, tendo já dele partido pela leitura dos textos e fragmentos inéditos que reunimos em mais um «Caderno da Letra E» (de onde transcrevemos parte da introdução de João Barrento, que contextualiza o tema da sessão). Os que vieram puderam levar para casa este caderno, e também uma ou mais das fitas de papel com autógrafos de M. G. Llansol que pendiam do tecto.
(Da Introdução de João Barrento ao Caderno da Letra E)
Tivemos connosco dois actores que abriram a sessão com a leitura de alguns textos de Llansol: António Fonseca (que recentemente chamou a atenção com os seus espectáculos em que dizia Os Lusíadas de cor) e Helena Ávila (acabada de chegar da Ilha do Pico, nos Açores). E a conversa alargou-se à sala, e a temas como o lugar dos editores hoje; os sentidos (ominosos e também promissores) da «comunidade», em Llansol e outros, ao longo do século XX; as linhas de demarcação entre utopia e ucronia na «comédia humana» de Llansol e na sua leitura do mundo e da História; a sua inserção na constelação do «fim do humanismo» e a construção de um novo «projecto do humano», trans-humano e radicalmente novo; enfim, as formas de resistência «imanentes», no plano de uma escrita como a de Llansol, que só por si, na sintaxe, desestrutura o pensamento estabelecido, num registo «atonal» que inquieta e nos mantém despertos (como bem salientou a pianista brasileira Gilda Oswaldo Cruz, que ontem esteve mais uma vez entre nós).
Traçaram-se, assim, algumas cartas de rumos, e sentiram-se os ventos que sopram da «Ilha de Ana de Peñalosa», pela mão daquela que escrevia já, em Na Casa de Julho e Agosto (1984): «Eu sou a nota fora das sete da comunidade das beguinas...».
Publicado às
16:44
17.3.14
«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»
No próximo sábado, 22 de Março, às 17 horas, teremos mais uma sessão da «Letra E», desta vez com a voz mais «política» de Llansol. A partir de textos seus, escritos entre os anos oitenta do século passado e o início deste, traremos mais uma achega à discussão e indignação em curso sobre o estado deste país e do mundo. Com outras vozes, que disso falarão a partir desses textos – as do escritor António Vieira e do crítico e ensaísta António Guerreiro –e que lerão alguns deles – as do actor António Fonseca e da actriz Crista Alfaiate.
Como sempre, haverá um caderno de textos que procura transmitir as dimensões várias da revolta, da «Restante Vida contra o mundo», na Obra de M. G. Llansol, que desde cedo se decide por uma «ordem» que, paradoxalmente, ou não, é a de quem assume como sua condição «espalhar a justiça e a desordem», subvertendo os padrões instituídos do gregarismo capitalista-consumista e, nesse contexto, também da pseudo-cultura em que vivemos.
Quem vier poderá desta vez levar para casa um autógrafo de Llansol, frases manuscritas que são como setas disparadas contra o estado de a que chegou o país e o mundo.
Publicado às
21:45
16.3.14
LLANSOL NO BRASIL
1. A partilha do incomum
O texto de Maria Gabriela Llansol continua a fazer o seu caminho por terras brasileiras, também por lugares onde a sua presença até agora não era tão frequente.
É o caso da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.editora.ufsc.br), onde acaba de sair um importante volume colectivo com ensaios e textos inéditos de M. G. Llansol, organizado por Maria Carolina Fenati, nossa colaboradora muito próxima e grande conhecedora da Obra e do espólio de Llansol. O livro intitula-se Partilha do Incomum. Leituras de Maria Gabriela Llansol, e tem contributos de quinze estudiosos e escritores portugueses e brasileiros, como se pode ver pelo índice abaixo (clique na imagem para aumentar).
Como escreve Carolina Fenati a abrir,
Este livro – que reúne leituras do texto da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol
(1931-2008) e fragmentos inéditos de seu espólio – é um gesto de acolhimento da sua escrita no
momento em que ela começa a ser editada no Brasil. A publicação de três diários – Um falcão no
punho (1985), Finita (1986) e Inquérito às quatro confidências (1996) – amplia a possibilidade da
partilha desses textos e seus fragmentos, que, vindos de Portugal já circulavam de mão em mão
entre vários leitores, relançam-se agora no devir das suas leituras.
(Entretanto, mais um livro – Um beijo dado mais tarde – saiu em 2013 na Sete Letras, do Rio de Janeiro, e outros virão).
No final da nota introdutória a organizadora explicita o título do livro e esclarece a intenção de mais esta importante e diversificada publicação sobre o universo singular de Llansol:
Escrever com os textos de Maria Gabriela Llansol – partilhar o incomum que nos é
oferecido – é dizer que os textos só permanecem na medida em que partem, só não desaparecem
quando são transformados pela leitura que os contra-assina, que com eles escreve afirmando o
seu excesso em relação a qualquer leitura. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, esses textos
convidam a ler «até ao limite em que o entendimento é já a alegria do desentendimento» e
exigem a seriedade e a paciência de uma reflexão que, reconhecendo o movimento que lhe
escapa, abre linhas de fuga através das quais tudo pode sempre recomeçar. Cantar a leitura talvez
seja desejar a conversa infinita, buscar o exercício da palavra como a relação mais íntima com o
que é partilhável sem medida.
2. Algumas «trocas verdadeiras»
No site Ler Jorge de Sena, da responsabilidade da Profª Gilda Santos, conhecida seniana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode ler-se um informado artigo da Profª Maria de Lourdes Soares sobre a presença de Jorge de Sena, da sua obra e da sua transformação figural, na escrita de Maria Gabriela Llansol. Sena e Llansol já haviam sido objecto de um outro artigo no mesmo site, por Tatiana Pequeno (com o título «Llansenas»:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando. O artigo pode ler-se aqui:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando. O artigo pode ler-se aqui:
Publicado às
11:49
14.3.14
LLANSOL E A «SENSUALIDADE
DO INVISÍVEL»
No próximo dia 19 de Março, entre as 16 e as 17.30h, a Profª Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Universidade Aberta e membro da direcção do Espaço Llansol), fará uma conferência na Universidade Católica de Lisboa (Edifício da Biblioteca João Paulo II) em que falará de «Maria G. Llansol: o texto como busca da 'sensualidade do invisível'».
Fica o convite a todos os leitores de Llansol e amigos do Espaço Llansol.
Publicado às
13:31
3.3.14
A PRESENÇA FRAGMENTADA
DO GRANDE ESPAÇO AUSENTE...
É dia de lembrar Maria Gabriela Llansol. Com o seu texto e a luz que dele emana:
Publicado às
11:47
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