21.2.10

ELEIÇÕES NO ESPAÇO LLANSOL

Na Assembleia Geral eleitoral de ontem, que decorreu na sede do Espaço Llansol em Sintra, com Manuel Gusmão a presidir à Mesa, foi eleita por unanimidade, para o triénio 2010-2012, a seguinte lista de Corpos Gerentes:
Mesa da Assembleia Geral: Manuel Gusmão, José Augusto Mourão e Daniela Oliveira.
Direcção: João Barrento, Hélia Correia, Maria Etelvina Santos, Cristiana Vasconcelos Rodrigues e Helena Vieira.
Conselho Fiscal: Sandra Santos, Albertina Pena e João Madureira.

Os trabalhos nos vários sectores do espólio de Maria Gabriela Llansol prosseguem, e a Casa de Sintra continua a transformar-se: temos a Biblioteca que foi de Llansol e Augusto Joaquim organizada e concentrada numa só sala, e em fase de catalogação; o arquivo mudou também um pouco de aspecto, para receber sectores que exigem condições especiais de preservação, como o arquivo fotográfico. Entretanto, está praticamente concluída a digitalização e classificação de todo o acervo manuscrito (cadernos, agendas, blocos de notas e papéis avulsos), e disponível em formato PDF para consulta. O arquivo de imprensa (jornais e revistas generalistas) está também em fase de conclusão no suporte físico, e será digitalizado e disponibilizado online daqui a algum tempo. Paralelamente, está a ser organizado o arquivo em papel de todos os artigos e trabalhos publicados em revistas especializadas e académicas e em volumes colectivos, em suporte de papel ou online, e actualizada toda a bibliografia llansoliana, activa e passiva (reiteramos o nosso pedido de envio de qualquer trabalho publicado sobre Llansol, ou a indicação do endereço de Internet onde se possa encontrar). A correspondência e os materiais (textos, imagens, slides) das escolas fundadas na Bélgica por Llansol e Augusto Joaquim estão a ser identificados e classificados, e prossegue o moroso trabalho de indexação de todo o espólio manuscrito.
Seguem-se algumas imagens do nosso actual ambiente de trabalho:

(Clique na imagem para aumentar)

1.2.10

LLANSOL: O LIVRO

(Clique na imagem para aumentar)

26.1.10

LLANSOL: A LUZ DE LER # 6

DO AZUL

«O azul não tem origem», escreve Llansol em Amigo e Amiga, o livro do «curso de silêncio» e de um processo de luto muito particular, no qual o azul representa o momento de estabilização, entre o negro inicial e a luz que por fim regressa. Outros livros, e agora também textos inéditos dos cadernos e papéis avulsos encontrados no espólio, falam do azul. Alguns deles podem ser ouvidos no vídeo que se segue, nas vozes de João Barrento e da própria Llansol.


22.1.10

LLANSOL NA BRETANHA

O chocolate literário de Pont-Aven (de que demos notícia antes), uma iniciativa de Cristina Isabel de Melo e da nova editora Vagamundo, decorreu no passado sábado de forma animada, como noticia a imprensa local. As próximas leituras com chocolate, também com Llansol no menu, terão lugar na Primavera.

Do jornal Télégramme, hoje

Do jornal Ouest-France, 20 de Janeiro
À esquerda, Graham MacLachlan, que leu Pessoa em inglês;
à direita, Cristina Isabel de Melo, que falou de
Llansol e Nuno Júdice e os leu em francês

6.1.10

CHOCOLATE LITERÁRIO COM LLANSOL

No próximo dia 16 de Janeiro Llansol será lida, em português e francês, na cidade dos pintores na Bretanha (Pont-Aven), no âmbito de uma sessão de leitura em que se poderá ouvir também poesia de Fernando Pessoa e Nuno Júdice, e ainda do poeta bretão Xavier Grall. Tudo acontecerá na Chocolaterie de Pont-Aven, por iniciativa da recém-criada Associação Vagamundo, vocacionada para a divulgação de autores lusófonos no espaço francófono e de literatura de língua francesa no espaço lusófono. A Vagamundo – o nome teve inspiração em M. G. Llansol – é uma criação de Cristina de Melo, artista plástica e tradutora francesa de Llansol, que se associou a Sylvie Eschbach (fotógrafa) e a Graham MacLachlan (escritor, tradutor e marinheiro), todos residentes na Bretanha.
Para ler o programa da sessão, clique na imagem:


5.1.10

LIVRO DE HORAS CHEGA AO BRASIL

A primeira recensão brasileira do primeiro volume dos Diários inéditos de Llansol (Uma Data em cada Mão. Livro de Horas I. 1972-1977, Assírio & Alvim, 2009) acaba de ser publicada no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, pela mão de Maria Carolina Fenati, colaboradora do Espaço Llansol (para ler o texto, clique na imagem abaixo).



23.12.09

OS TRÊS VAZIOS DE LLANSOL

Acaba de sair em livro mais uma tese de mestrado sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol, nas Edições Vendaval. Três Vazios - Leitura de «Geografia de Rebeldes» de M. G. Llansol, de Maria Carolina Fenati, brasileira de Belo Horizonte e colaboradora do Espaço Llansol, foi um trabalho preparado no âmbito do Programa Erasmus Mundus, orientado pela Profª Silvina Rodrigues Lopes e defendido na Universidade italiana de Bergamo.


O livro agora publicado desenvolve uma análise aprofundada de alguns dos vectores essenciais do texto llansoliano, a partir da noção ambivalente do Vazio – provocado, continuado e vislumbrado – proposta no enigmático e seminal texto de abertura de O Livro das Comunidades, e orienta-se no sentido de destacar nos textos de Llansol «o que nos pode afectar, atingir e desviar das rotas postas do mundo, da rigidez do instituído, dos caminhos avessos à fecundidade do desejo» – lê-se na contracapa.

21.12.09

AOS PÉS DO »GRANDE MAIOR»

A placa (foto de Vina Santos)

Foi hoje descerrada em Sintra, junto do «Grande Maior», na Volta do Duche, a placa que assinala a presença desta árvore como figura em Parasceve. Para além de membros e amigos do Espaço Llansol, estavam presentes vários vereadores e representantes de órgãos do município. Usaram da palavra, evocando Llansol, a sua Obra e a sua intervenção em defesa do património vivo de Sintra, o Presidente da Câmara, Prof. Fernando Seara, Adriana Jones (da Associação para a Defesa do Património de Sintra) e o Presidente da Direcção do Espaço Llansol.
Três mulheres do Espaço Llansol – Hélia Correia, Maria Etelvina Santos e Helena Vieira – leram um texto dos cadernos inéditos, que aqui reproduzimos parcialmente.


Meditação através do verde
[O Grande Maior, Marguerite Yourcenar
e a mulher que passa pelo verde]


Volta do Duche (foto de Augusto Joaquim)

Quando eu passo, as árvores ficam sempre – é uma constatação que eu faço, caminhando da Sintra comercial para a Sintra confusa e banal onde se eleva o Palácio. Sintra fraca e promíscua, penso muitas vezes. «Se não fossem as árvores», não haveria arquitectura em Sintra, penso muitas vezes. Caminho, pois, na Volta do Duche, acompanhada pelo lado aéreo do olhar que vou lançando sobre as árvores, e por estar a querer fazer um texto sobre Marguerite Yourcenar – de quem deixei, em casa, um livro aberto.
É um daqueles dias em que receber companhia equivale a um certo desejo de conversar e de crescer. A tarde é verídica, vou a Sintra pôr uma carta enviada em correio azul, em passo de pensamento, que é muitas vezes o meu passo lento de passeio.
Na mesma direcção que eu, mas real, não mulher de pensamento, Yourcenar ou outra, uma mulher de tez clara caminha a meu lado – rústica, sólida, daqueles seres criados no campo com quem faço uma troca imediata. Diz-me:
- Como Sintra é bela, por ter às vezes também árvores!
Passávamos agora por Grande Maior, a minha árvore favorita, pela impressão que me traz a sua grandeza, na sua sombra de simplicidade.
[...]

O Grande Maior (foto de Vina Santos)

É um facto que eu, quando penso em Marguerite Yourcenar, penso sempre numa árvore que escreve, com uma escrita que circula entre a raiz e o cimo, tecendo uma rede sinuosa em que a seiva, mesmo ascendente, está sempre ligada ao peso grave de tanto se imiscuir na terra.
Poderia ser uma árvore, uma ave que levanta voo coberta pelo seu peso,
e que cai de novo sobre a raiz,
transformando o voo cortado em seu verde?
Sombra verde, em tentativa rápida realizada. Apoio seguro. Tronco por onde eu passo levantando os olhos _______ e seguindo para a frente.
Poderia ser Yourcenar uma figura, tal como eu a concebo? Uma espécie de lugar de troca, como as árvores o são – uma espécie de realização duradoura, presa, e material do espírito? E no tom de olhar com que as concebo e as vejo?...
[...]
Nesta meditação, a olhar através das plantas verdes, ocorre-me que outro dia, pela Volta do Duche, seguia para a Vila Velha através de plátanos, castanheiros, e de uma árvore soberba – a que eu chamo Grande Maior. Quando passo por ela digo sempre (pura verdade!):
- Bom dia, Grande Maior!
Assim me apetecia saudar Marguerite Yourcenar, sabendo que Grande Maior, sobretudo no tronco, tem as suas limitações de transparência, de movimento e de diáfano.
Mas a tal mulher, que não era ela, pôs-se a meu lado enquanto eu seguia e, a níveis e a entoações diferentes, falou-me da mesma paixão – a sua passagem através do verde, que não era a minha. Mas falávamos com muita verdade mútua, e encantamento pela expressão dos verdes, nos animais, nos homens, nas plantas verdejantes e nas coisas.

Do Caderno 1.48, 1997

«Grande Maior» – a minha árvore preferida da Volta do Duche, está oscilando sobre esta imagem que – já só por si – treme. A árvore ainda existe? O plátano ainda existe, pois.
Vejo-a imobilizar-se no écran do computador e quero saber o que é o fasto e o nefasto, e ouço a voz dos automóveis que me diz: «que só há caminho».
É a primeira vez que uma coisa assim inerte e útil me fala. Ou haverá imagens translúcidas de beleza no que eu julgava inerte?
Se assim for, dou o sentido por não sentido – como faço sempre. Tenho pouca ciência para aprofundar a eclosão da beleza.
[...]

(Do Caderno 1.48 do espólio, 1997)

17.12.09

LLANSOL E O «GRANDE MAIOR»

No próximo dia 21 de Dezembro, às 10h30, a Câmara Municipal de Sintra, pela mão do seu Presidente, descerrará uma placa evocativa da ligação de Maria Gabriela Llansol a Sintra, junto da árvore que dá pelo nome de «Grande Maior» no livro Parasceve. Puzzles e ironias (Relógio d'Água, 2001).
Fica aqui o convite
(Clique na imagem para aumentar)

e algumas passagens do livro em que esta portentosa árvore – um grande plátano – tem lugar de destaque:


II - O Vaso Quebrado e o Grande Maior
ergo os olhos para a cúpula da árvore. Próximo, há uma fonte, a fonte do Plátano, e o que me atraiu foi a humidade do lugar, e a anfractuosidade da pedra para apoiar as costas. Mas, já sentada, apoiei a nuca sobre a rocha e principiei a ver que, por cima da minha cabeça, seguindo os raios de luz que desejavam partir, havia ruas extensas e elípticas, orifícios ou vazios entre as folhas, que correspondiam a praças verdes, que acolhiam um lugar habitado, elevado à potência da copa de uma árvore. O meu corpo sentado perdeu-se, e fiquei visível e invisível. Dois cães não tiveram medo da minha imobilidade, e o meu encontro com eles foi breve, pois estavam de passagem. Tinha o sentimento de que, com um simples olhar, eu própria deslocara o meu corpo. E o corpo estava onde estava o meu olhar, às portas de uma cidade-árvore que eu intitulara o Grande Maior. Nesse lugar, eu não devia preocupar-me com a credibilidade do meu testemunho, pois seria dito, de uma vez para sempre, que era uma cidade invisível e que só eu via. A árvore, essa, poderia ser vista por toda a gente. (p. 11) […] Descrever um lugar indescritível é torná-lo inamovível para o resto da minha vida, que certamente decorrerá ao lado da árvore, como sempre tem decorrido no jardim que o pensamento permite. O jardim não é criado pelo pensamento, o jardim permite pensar, tem a sua própria forma de pensar o pensamento. O Grande Maior tem as mesmas propriedades. Apenas não pensa do mesmo modo. Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos. Falo do meu ponto de vista de visitante, porque ali não havia morte… (p. 12) […]
– É doloroso dar vida ao espírito bravio, e não lembrar... – Acho que ter um tronco e equilibrá-lo é preferível a ter memória. – Também é verdade que, com algum treino, o dentro e o fora se tornam reversíveis, quase sem dor. – Nascer e renascer. Dar botões e ramos. Deixar cair as folhas e torná-las matéria nossa... – É a tua travessura de árvore. A tua pujança não recorda. Mas eu não sou árvore. – Por que hei-de fazer como tu? – Haverá uma outra maneira efectiva de procurar? Se viver fosse recordar, uma semente sonhante seria o seu perfeito equivalente. Olha, seríamos cristais... (p. 131) […]
Explicitar medo pode escrever-se dentro, a partir de fora, como faz o realismo. A estaca apoia a árvore. A árvore cresce, a estaca apodrece. É mais prático escrever dentro, de dentro. É o ponto de vista da seiva. Nem sempre é possível, é a arte de jardinar. A mulher ouvia a voz, era a sua estaca. O grão corria pela voz, a seiva. Alguém-infância cantava. No jardim onde está, neste momento, ela ouve um ruah nos ares. (p. 151) […] … Na minha procura de ritmo, cheguei à seguinte conclusão: «a causa que é totalmente diferente de outra causa mas produz um efeito semelhante e muito próximo, deve ter tido, embora muito longe, um encontro fulgurante com essa causa». Não cheguei lá sozinho, fui muito ajudado pelo Grande Maior. O que é o Grande Maior? Um ser que certamente acharias muito estranho. O Alguém-vegetal que, num momento extremo, salvou uma criança humana de perder o seu ruah. Ruah? A parte mais íntima e activa do som. De um som que podes chamar ar ou vento. Somos suas causas longínquas, sem que ela seja, no entanto, nosso efeito… (p. 177)

Cartazes do Espaço Llansol e da Associação para a Defesa do Património de Sintra, colocados no Grande Maior no Dia Mundial da Árvore em 21 de Março de 2008

3.12.09

LLANSOL: A LUZ DE LER # 5

A vocação do exílio



Num conjunto de sete pequenas folhas avulsas, inseridas num dos primeiros cadernos manuscritos (e agora também no Livro de Horas I - Uma Data em Cada Mão), Llansol reflecte, numa rápida visita a Lisboa, em 1976, sobre alguns dos seus temas de sempre: o exílio, a difícil relação com Portugal, a língua sem metáforas que se deposita, em sobreimpressão, sobre a paisagem belga, ou sobre o nosso grande mundo aquático, para os trasformar.