15.10.08

Sob esta rubrica dar-lhe-emos de futuro a possibilidade de aceder a artigos e outros textos em linha sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol, que poderá descarregar ou imprimir. Antigos e recentes, ensaios e recensões, comunicações e leituras de aspectos particulares do texto de Llansol.
Para começar, os seguintes:

Maria Etelvina Santos
Site da Assírio & Alvim
http://www.assirio.com/autor.php?i=M&id=3061

Pedro Eiras
Recensão de Os Cantores de Leitura, in: Colóquio-Letras
http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/news?i=31

António Guerreiro
M. G. Llansol: A imperdoável (Expresso, 8.3.08)
http://www.agencia.ecclesia.pt/ecclesiaout/snpcultura/impressao_digital_maria_gabriela_llansol.html

Ricardo Gil Soeiro
Amanhecendo com Maria Gabriela Llansol (Revista Autor)
http://www.revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=215&Itemid=38

Maria João Cantinho
Imagem e tempo na obra de M. G. Llansol, Revista Especulo (Madrid)
http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/llansol.html

Nilson Oliveira
M. G. LLansol: a escrita como vontade
http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=63

Fernando Pinto do Amaral
A escrita fulgurante de M. G. Llansol (Colóquio/Letras)
http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=132&p=196&o=p

Luís Maffei
Llansolmúsica
Revista Escrita (PUC, Rio de Janeiro), 2005-06, secção «Ensaios»
http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/db2www/PRG_1065.D2W/input?CdLinPrg=pt

Eloísa Porto Corrêa (UERJ)
Um beijo dado mais tarde.
(Re)lendo e (re)escrevendo o mundo
http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno04-15.html

P(aulo) C(arvalho)
Finais-felizes,3
http://www.lacoctelera.com/artedoperigo

Matilde Gonçalves
Perspectivas linguístico-textuais da escrita fragmentária na literatura portuguesa contemporânea
http://www.clunl.edu.pt/resources/docs/Grupos/Gramatica/equipa/matildegoncalves/matildeji_1.pdf

Erick Gontijo Costa
Escrever, dosar o amor
http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/42/1171.pdf

Pedro Mexia
Sobre Finita
http://dn.sapo.pt/2005/08/12/artes/um_texto_como_tecido.html

Patrícia Riberto Lopes
O caminho e a pedra
http://www.revistaipotesi.ufjf.br/volumes/5/cap11.pdf

Tatiana Salem Levy
Deslize na linguagem
http://www.polichinello2004.blogger.com.br/2006_05_01_archive.html

Maria de Lourdes Soares
Perfil
http://www.editonweb.com/noticias/Noticias.aspx?did=54&type=pas

Maria de Lourdes Soares
Lídia Jorge e Llansol: Casas de escrita
http://64.233.183.104/search?q=cache:Aa_LSH-jOkEJ:www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro/Maria%2520de%2520Lourdes%2520Soares.doc+Maria+Gabriela+Llansol&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=63&gl=pt

Maria de Lourdes Soares
Página de informação bibliográfica
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4767333U6

11.10.08

SINTRA DISTINGUE MARIA GABRIELA LLANSOL

No acto de assinatura do protocolo entre o Espaço LLansol e a Câmara Municipal de Sintra, realizado ontem (dia em que esta Associação assinala dois anos de existência), foi atribuída a Maria Gabriela Llansol, a título póstumo, a Medalha Municipal (1º grau, ouro), entregue ao presidente da Direcção pelo Vereador da Cultura, Dr. Luís Patrício.


A decisão, tomada já em reunião camarária de 9 de Abril passado, constituiu uma agradável surpresa para todos os presentes. Na ocasião, o presidente da Direcção do Espaço LLansol agradeceu o apoio concedido pelo município de Sintra, e evocou, através de dois excertos dos Cadernos inéditos, Maria Gabriela Llansol, a sua ligação à casa onde agora trabalhamos e ao espaço envolvente, e o seu desejo de que este Lugar não cristalizasse sob a forma de um «museu», mas se «audaciasse» em pensamento:

A CASA DA ESCRITA E A ESTANTE DAS ÁRVORES

Este momento, a que o Sr. Presidente Fernando Seara em boa hora quis dar um cunho simbólico, é hora de agradecimento e de evocação. De agradecimento ao Presidente e à Vereação desta Câmara, que souberam compreender a importância da manutenção em Sintra, e na casa que foi a última de Maria Gabriela Llansol, do imenso legado que a escritora nos deixou. E souberam compreendê-la com uma hoje cada vez mais rara consciência dos valores culturais e com uma intuição que Llansol – pouco dada a namoros com os poderes, como sabemos – certamente teria apreciado e sabido reconhecer.
Quando se conhece a Obra e o modo de estar no mundo e de o amplificar de uma escritora tão singular e tão comum como Maria Gabriela Llansol, percebe-se melhor como tudo nela convergia para um centro e para uma periferia (próxima desse centro), focos vitais da sua vida e da sua escrita nos últimos anos, e como o seu olhar e a sua palavra conferiam dimensões universais a esse microuniverso: o centro é esta casa de Sintra, onde agora continuaremos a manter viva, a habitar e a divulgar a sua Obra; a periferia é a envolvência mais próxima, particularmente este Largo da Câmara Velha (onde por nós esperava quando o grupo se reunia em Colares, naquela que baptizou de «Casa da Saudação», sentada ali fora nos degraus da coluna com a esfera armilar, a olhar o Parque da Liberdade e o Castelo dos Mouros, ou inventando sabe-se lá que viagens para o seu texto, sempre de caderno no regaço); e essa periferia do mundo prolongava-se depois pela Volta do Duche, a serpentina verde debruada de grandes árvores por onde tantas vezes ia à Vila Velha, e que lhe oferecia matéria de escrita, de que adiante darei testemunho.

A casa e a Câmara Velha (foto J.B.)

A Volta do Duche no Outono (foto de Augusto Joaquim)

Casa e árvores são, desde os primeiros livros, dois motivos centrais na Obra de Llansol, e duas referências maiores, quer dos livros, quer dos cadernos inéditos, que continuou a escrever desde que, em finais de 1984, se fixou no concelho de Sintra. É deles que, pela voz da escritora, vos quero dar neste momento um breve testemunho, com fragmentos retirados dos cadernos do espólio referentes aos primeiros meses na vila de Sintra, com ligação directa a esta casa da antiga Estalagem da Raposa, que o Município generosamente nos permite manter como lugar de tratamento da herança de Llansol, e à Volta do Duche, que viu nascer, a partir de uma das suas árvores mais majestosas – a que a Maria Gabriela chamou o Grande Maior – um livro-chave do seu percurso, Parasceve. Puzzles e ironias, aquele em que definitivamente se opera a viragem da grande História humana ou da pequena história familiar para o que ela designava de «ordem figural do quotidiano» de uma «geração sem nome».

O Grande Maior, a «cidade-árvore» de Parasceve (foto J.B.)

Nessa ordem, que é afinal a do dia-a-dia de cada um de nós, viveu também ela, entre «casas de escrita» – em Lisboa, Lovaina, Jodoigne, Herbais, Colares, Sintra – cujo futuro, que é este nosso presente, Llansol não desejava que fosse a de mero museu, e aquilo a que chama num dos Cadernos os «Estudos Gerais das Árvores», uma das escolas da grande comunidade dos Vivos com que dialogava e que colocava à altura da do humano.
Permitam-me então que, neste espírito, vos leia dois pequenos excertos dos seus Cadernos, indelevelmente ligados a esta casa e a esta terra, e escritos poucos meses depois da mudança para a Estalagem da Raposa, onde no dia 3 de Março se despediu de nós. E peço-vos, caro Dr. Luís Patrício, amigos, que os entendam como sinal de gratidão, por interposta voz, da própria escritora cuja Obra a vossa decisão ajuda a perpetuar com o gesto de assinatura deste protocolo.

1.


Vila de Sintra
29 Janeiro 1995

A estante das árvores olha para mim. Estou sentada na Volta do Duche, próximo do monumento a Gregório Rafael Silva d'Almeida _____ foi o Amigo Maior e mais desinteressado dos pobres — diz o livro em que uma mulher ensina a ler.
Procuro não ver os automóveis — somente a estante das árvores, que coincide com o bosque dos livros. Que deleitosa serenidade em ser mais velha, e poder tratar com bondade e disciplina as emoções [!].

Tenho sempre um encontro aos domingos de manhã. Esse encontro não foi possível realizar hoje,

fiquei igualmente feliz com a fonte, o verde geral das árvores, o caminho.

Fui aos Estudos Gerais das Árvores, e encontrei o todo resplandecente em cada uma delas,

nem lhes propus que mudassem de lugar

porque elas não quereriam. Preferem que o pensamento venha a elas — o pensamento filosófico — nesse instante ——— porque é esse o olhar com que as olho. Transmito-lhes o que penso, o que sei, o que li, ofereço-lhes a minha Casa — a minha casa de Sintra muito se parece com a de Herbais.

Uma única diferença [:]

não é a memória, o corte vertical no tempo, que a faz resplender _______ ela já resplende aqui _____ será um lugar para ser habitado para sempre pela alegria que sinto hoje _____ a alegria do mundo

com que me introduzi neste texto.


(do Caderno 41, 1995)


2.


arrumo bem a estante do meu quarto________ e recebo a energia dos livros que estão nela__________
Gostaria de ter uma casa imensa_______ para expor meus pensamentos e objectos_______ o meu olhar sobre a realidade que se transforma: este é o meu quarto de Sintra, o meu quarto velado à luz da vela ________ e hoje arrumei melhor a estante dos livros_______ e parti dela.

Olho e volto a olhar, consigo um olhar novo – o sentido dos livros vivos desperta em mim a partir da estante. Trabalhasse eu mil horas por dia, e reteria sempre mais trabalho _______ deve ser de haver múltiplos seres em mim com o desejo de continuar-me e acabar-me...
________ abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos. As casas estavam gastas por nascerem sempre umas dentro das outras como crianças surdas. A Casa da Saudação estava mais além, na fímbria do bosque, fora deste jogo exemplar de casas dentro de casas, olhos dentro de olhos olhando sempre para o mesmo lugar desabitado.
[...]

A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______

(Do Caderno 43, 1995)

Também nós faremos tudo o que pudermos e soubermos para corresponder a este apelo e ao generoso apoio da C. M. de Sintra, através das actividades que desenvolveremos no concelho com vista a manter vivo o nome de Maria Gabriela Llansol e o espírito da sua Obra.
Muito obrigado, Dr. Luís Patrício.
Obrigado a quantos nos quiseram acompanhar neste dia simbólico em que se completam exactamente dois anos sobre o registo de baptismo do Espaço Llansol. E agora convidamos todos os que o desejem a visitar a nossa «casa de escrita» e de trabalho, aqui mesmo ao lado.

7.10.08

PROTOCOLO ENTRE O ESPAÇO LLANSOL
E A CÂMARA MUNICIPAL DE SINTRA

(Clique na imagem para aumentar)

29.9.08

JADE – CADERNOS LLANSOLIANOS

Durante os últimos anos, antes da constituição do Espaço Llansol, o então denominado GELL-Grupo de Estudos Llansolianos foi editando numa série de cadernos («Jade-Cadernos Llansolianos») os resultados da reflexão e da discussão produzidas no Grupo em torno da Obra de Maria Gabriela Llansol. Desse trabalho resultou um total de 13 cadernos, quase todos ainda disponíveis, e que poderão ser encomendados através do nosso e-mail ou por correio. A lista dos disponíveis está aqui ao lado, na barra lateral, e as capas são estas (clique na imagem para aumentar):


A partir de agora, os trabalhos produzidos por membros do Espaço Llansol, e outras edições relacionadas com a Obra de Llansol, serão editados pela Mariposa Azual, em estreita colaboração com a nossa Associação. A Obra inédita de Maria Gabriela, derivada dos cadernos manuscritos e outros materiais do espólio, sairá naquela que já era a última editora das suas obras em vida, a Assírio & Alvim, a partir de 2009.

26.9.08

A RESTANTE VIDA, LA VIDA RESTANTE, TRILOGIA E GEOGRAFIA...


O Espaço Llansol – neste caso eu – errou! Obrigado à Ana Maria Pereirinha e ao blog Frenesi por terem assinalado o dislate!
É claro que a primeira trilogia de M. G. Llansol se chama «Geografia de Rebeldes», é claro que o título do livro que em Espanha se chama La Vida Restante é em português A Restante Vida. Quanto à «Trilogia de Rebeldes», fui levado, sabe-se lá por que perversidades do inconsciente, pela indicação da segunda badana da edição espanhola, onde se apresenta a «Trilogía Geografía de Rebeldes».
Mea culpa!

João Barrento

24.9.08

A RESTANTE VIDA SAI EM ESPANHA


Acaba de sair a tradução castelhana do segundo volume da Trilogia «Geografia de Rebeldes». A edição – que se segue a El Libro de las Comunidades, publicado em 2005 em Madrid – aparece desta vez na colecção de ficção da editora Cultiva Comunicación, também de Madrid.


A tradução deve-se à dedicação ímpar de Mario e Mercedes Atalaire na divulgação da Obra de Maria Gabriela Llansol em Espanha. Numa entrega que é uma verdadeira «causa amante», os Atalaire ocupam-se há anos, com empenho e saber, da tradução, da edição, da apresentação dos livros de Llansol em Espanha. Seguir-se-á o terceiro volume da primeira trilogia, Na Casa de Julho e Agosto, e está já traduzida parte da segunda trilogia, «O Litoral do Mundo».
A badana deste volume faz uma excelente síntese de «Geografia de Rebeldes», uma leitura única dos destinos da Europa (e da Ibéria) à sombra da grande figura tutelar de Ana de Peñalosa, a grande mãe dos rebeldes e iconoclastas, figuras «de rara presença», de que se alimentam estes primeiros livros.

(Clique na imagem para ler)

E em breve virão outras edições de textos éditos e inéditos, em revistas e em livro, em Portugal, Espanha, França, Suíça e Itália, confirmando, depois da morte, o que Llansol deixou escrito em vida: que o texto é «um lugar que viaja».

20.9.08

MELISSA MODERNA – E DE SEMPRE

No exílio da Bélgica, em Jodoigne e Herbais, Maria Gabriela Llansol tinha muitos gatos.


Em Sintra, nos últimos anos, era só Melissa, a gata de pêlo macio e farto, branco-e-amarelo, olhar doce, que a Maria Gabriela sempre viu e tratou como ser inteligente e superior. Nunca se aproximou muito do comum dos mortais, quero dizer, daqueles que, a partir de um certo momento, visitavam a casa e acompanhavam a Maria Gabriela. O primeiro dia – melhor, noite – em que senti que Melissa me aceitou e falou foi na noite em que Augusto Joaquim nos morreu. Nos morreu é a expressão certa, porque o Augusto já era nosso havia algum tempo, e porque, literalmente, nos morreu ali, na cama nova que eu montara, serenamente, sem dramas – a mim, à Maria Gabriela, à Vina e à gata. Melissa, que até aí disparava como uma seta pelo corredor fora assim que entrávamos, para se refugiar na cozinha ou mesmo no telhado, nessa noite chegou-se, mansa, e deixou que lhe tocasse pela primeira vez.

(Se as quiser ver melhor, clique na imagem)

Mas só se tornaria verdadeiramente sociável na fase de doença da Maria Gabriela, e sobretudo nos meses que se seguiram à sua passagem, quando nos esgotávamos a desarrumar- arrumar-desarrumar a casa e nos espantávamos com a descoberta progressiva do espólio. Aí, Melissa rondava, olhava, falava, conversava mesmo, oferecia-se, exigia atenção. Que de todos recebia, até mais do que quando estava sozinha com a dona. Agora vive em feliz relação de facto com Emily Duncan, pequena dama arisca, vestida de preto-e-branco, e que já deve ter aprendido com a mais circunspecta Melissa alguma sabedoria de vida.
Um destes dias, Melissa e Emily D. receberam visitas, três de uma vez, no seu novo domicílio de Janas. Todos pequenos, todos curiosos, todos atenção.


E um deles, o Leonardo, de 3 anos, sem que ninguém lho pedisse, pediu lápis de cor e deixou no papel um redemoinho, formas dinâmicas e cores justas, o olhar de Melissa, o corpo-novelo de Melissa, o registo pictórico intuitivo e centrifugado de Melissa, a evocar a escrita das essências e o movimento do olhar que transforma imagens reais em figuras potenciadas e vibráteis nos textos de Llansol. Chamou-lhe simplesmente «Melissa», e o resultado foi este:


Uma Melissa «moderna» — estatuto que Llansol não reclamava para si, mas que um dia descobriu que se ajustava a Melissa, e fixou-o nesta «estância» de O Começo de Um Livro é Precioso (Assírio & Alvim, 2003):

59
Os olhos que se lhe abrem de manhã saem

Rapidamente para o telhado e para os sons

Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.

Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,

Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,

Não para mim, para ela, com o som cadenciado

Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.

Moderno é um termo que me intriga, que briga

Comigo, que não se torna compreensível,

Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma

Abstracção indecisa, um prazo que trai um

Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,

Pouco se distingue das extremidades da rua

Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,

Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.

E, quando assim concluo, Melissa é moderna,

Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir

De visu o que, desde então, se alterou.


J.B.

ESTÁ AÍ A ÍNDICE DOS LIVROS


Vai ser lançado, em distribuição gratuita, o número zero da nova revista ÍNDICE, que a partir de agora associará a sua vida à dos livros em todas as suas vertentes, sob o signo da liberdade e do prazer de ler, como melhor diz o indicial Editorial de Helena Vieira:


Este número zero toca-nos particularmente, já que, reza a ficha técnica, foi feito «sob a influência de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho». Dois nomes que, em vida, souberam dialogar como Llansol gostava e o Eduardo sabia fazer, em «encontros de confrontação» de lucidez e afecto, sem incompatibilidades entre as duas coisas.
A ÍNDICE evoca Llansol publicando alguns fragmentos dos Cadernos inéditos, e abre com um texto de Maria Etelvina Santos que ilumina os modos e os caminhos da escrita de Maria Gabriela Llansol:



(Clique nas imagens para ler)

Longa vida à ÍNDICE!

15.9.08

EM CHEIO!
A dívida de Eduardo Lourenço


Na entrevista que deu à revista LER-Livros e Leitores, publicada no último número (Setembro 2008), Eduardo Lourenço refere-se à Obra de Maria Gabriela Llansol como aquela em relação à qual sente que tem uma grande dívida a saldar, por não ter escrito mais demoradamente sobre ela. Com a clarividência e a acuidade que lhe conhecemos, o ensaísta acerta em cheio ao reconhecer o lugar ímpar ocupado por esta Obra no século XX pós-pessoano, considerando-a, por paralelo com a do próprio Pessoa, «o próximo grande mito literário português». Lapidar e fulgurante, também ele, ao assinalar nestes termos o lugar de Llansol na literatura portuguesa do últimno século. Até mesmo quando, de forma apenas mais estranha para quem o não saiba ler, fala da «seita» de admiradores, e desta Obra como «desagradável». O que se esconde por detrás de tais termos, e o conjunto do depoimento de Eduardo Lourenço confirma, é que estamos perante uma Obra que se pode dizer, em duplo sentido, «de eleição»: são poucos os que a escolheram e escolhem (o que pode ser ilusório, neste momento em que nos chegam com frequência notícias de novos entusiastas), acabando inevitavelmente por ser escolhidos por ela; e perante uma forma de escrita que nunca abdicou dos princípios que um dia, ao ver-se «sem normas» no panorama que a rodeava, para si mesma traçou, à margem do conforto a-problemático da tradição realista, do nosso sentimentalismo lírico de sempre e também de alguma dureza, toda mental, da herança modernista. Um dos mais arriscados – mas também mais desafiantes e gratificantes – desses princípios, para aquele tipo de leitor que este Texto criou, e a que chamou «legente», é o do «pacto de inconforto» (de «des-agrado», diz Eduardo Lourenço) que a Obra de Llansol pressupõe. Um pacto que não é súbito, que exige persistência e que acaba por se transformar em fonte de prazer e descoberta constante. O «mistério» deste encontro e desta entrega, explica-o a própria autora em Lisboaleipzig - O encontro inesperado do diverso: «se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável.» É também isto o que quer dizer Eduardo Lourenço quando conclui: «Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita.»
Reproduzimos a seguir as passagens sobre Llansol na grande entrevista de Eduardo Lourenço à LER.

(clique na imagem para aumentar)

24.7.08

NOVO ANO, NOVA CASA

Esta página faz hoje um ano, exactamente no momento em que, ao cabo de quatro meses de trabalhos de toda a ordem, concluímos a remodelação da nova sede do Espaço Llansol em Sintra, que manteremos com o generoso apoio da Câmara Municipal.
Por enquanto, esta página continuará a ser a nossa janela para o mundo, meio de informação sobre todas as nossas actividades e iniciativas, e espaço de publicação, quer de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, quer de contributos que iluminem o seu universo.
Para assinalar a data e fazer a festa, abrimo-vos as portas da nova/nossa/vossa casa, e convidamo-vos a entrar.

(Clique na imagem para aumentar)

Esta casa, como as outras que acolheram Maria Gabriela Llansol desde pequena – na Rua Domingos Sequeira em Lisboa, em Alpedrinha, em Lovaina, em Jodoigne, em Herbais, em Colares – foi sobretudo uma casa de escrita. Agora passará a ser o lugar que tornará a escrita, os documentos, as imagens e os objectos que nos foram legados coisa viva e disponível, num processo que já começou e se prolongará por alguns anos. O espírito que nos anima é aquele que a Maria Gabriela deixou expresso em muitas páginas dos seus livros, e também dos Cadernos inéditos que estamos a tratar. Páginas como estas:

Mas uma casa sem ninguém é como um terreno sem cultura.
(
Contos do Mal Errante)

— Podeis utilizar esta casa — disse a Ibn’ Arabi —
como mundo aberto. Eu sentia-a em vias de dirigir-se para os seus fins, ou de retroceder às suas origens.

... quando tudo por
mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
(
Finita)

Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava...
(
O Raio sobre o Lápis)

Na casa enorme,

O simultâneo cria sempre mais espaço...

(
O Começo de um Livro é Precioso)

Esta moradia de leitura foi edificada sobre a Casa da Saudação. Os tempos sucedem-se aos tempos, o tempo alimenta-se dos tempos..
.
(Os Cantores de Leitura)

Estou bem onde escrevi; estou melhor onde hei-de escrever; o presente é este movimento que se dirige para duas portas opostas e as abre, de escuro a claro, para o mesmo lugar onde já se acende a centelha que ondulará, finalmente, à mais ligeira aragem.

(Caderno 22, Praia Grande, 29 Julho 1986)


________
abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos.
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte
_______
(Caderno 43, 1995)

(Clique na imagem para aumentar)

Destes excertos quero reter hoje o último, neste momento em que a Casa está pronta para acolher a preparação de tudo o que possa gerar movimento em torno do texto, o trabalho no espólio e todos aqueles que se interessam ou venham a interessar-se pela Obra de Llansol, a passada e a futura. Este Espaço nunca será um museu, apesar de termos mantido viva numa parte dele a atmosfera de vida e de escrita de Maria Gabriela Llansol. Esta Casa quer, acima de tudo, continuar a ser um pensamento, um projecto vivo, «audaciar-se» em novos voos a partir do Texto de Llansol.

(Clique na imagem para aumentar)

Como o daquele pássaro jovem que, há dias, quando nos ocupávamos dos retoques finais, me surpreendeu, dentro da casa, com o seu voo rasante e aparentemente sem norte. Mas nesse momento, sem que ele o soubesse, achei que o seu norte (que acabou por reencontrar, no ar de onde viera) era a nossa bússola. Eram 10 horas da manhã, e por isso o baptizei de «Falcão matutino». Constatei, ao tê-lo por algum tempo no punho, que não era falcão, muito menos o falcão peregrino que povoa alguns textos de Maria Gabriela Llansol, nomeadamente Lisboaleipzig, associado à Figura de Aossê/Pessoa. Ainda assim, mantenho o nome, e deixo aqui o registo desse incidente prodigioso e do seu rasto, agora que o Falcão que nos veio anunciar a continuidade do espírito da mutação já voa novamente, livre, nos céus de Sintra:


O «Falcão matutino» no punho

«Foi como uma seta despedida sobre a minha cabeça – a «consciência azul» da sala em devir –, para parar na ilusória transparência da janela. Deixou-se cair e ficou no chão, atrás do pote de porcelana azul e branco, à espera da minha mão, os olhos ainda semicerrados, ou abertos de medo e súplica, o antracite das penas brilhando, as garras casadas com a carne dos meus dedos, sem querer separar-se. Acolheu-o um punho que nunca conhecera falcão, e que subitamente passou a ser, por instantes, poiso e casa desta ave vinda não se sabe de que ovo, iluminando a sala para nela deixar o sinal, a certeza de que este lugar será de pensamento e criação e mutação. E voltou a partir para o azul de onde viera.
Que destino me ligava, nos ligava, a esta aparição acidental, marcada para o encontro inesperado? Que poderes a trouxeram, ave jovem em crescimento, a este lugar em transformação, a esta Casa crescendo?
Não há sentido para os sinais. O seu é apenas o do caminho que mostram.»

Dois dias antes dera num dos Cadernos do espólio com uma série de dezasseis cartas a Ana sobre «O sonho de ler ou de estar voando»:

1ª carta
Se o azul pertence ao céu, pertencia também à consciência azul de que ia voltar a ver voar a ave: escreveu-me Ana no instante em que se fechou no sonho de ler, ou de estar voando.

[...]
8ª carta
lerás quem é «a consciência azul».


9ª carta

Leste que a consciência azul é o falcão peregrino


10ª carta

… a prumo na tua mão. Que treme, por ser [uma] outra ave, que hei-de lançar no seu voo.
[...]
(Caderno 28, 1988)

J. B.


DOS LEGENTES


O TEMPO SOB A FORMA DE LUGAR

— São 365 dias, Gabriela, mas tu ensinaste-nos o tempo da simultaneidade.

Não posso ter a veleidade de imaginar o texto que a Maria Gabriela faria sair hoje do seu punho, para incluirmos aqui neste espaço, como marca da passagem destes dias ou ano, ou mesmo se acharia relevante registar esse acontecimento. Talvez nos dissesse que o importante era continuarmos a nossa presença aqui ou noutro lugar, desde que mantivessemos o diálogo e o fizessemos crescer e irradiar, com prudência mas decididamente. Sem concessões, mas como dádiva. Como troca verdadeira. Face ao tempo cronológico, penso que teria o desejo de evocar de novo o tempo da simultaneidade, o que permitiu o encontro de Bach e Aossê, o da aliança dos semelhantes, o que emerge de todo o contrato de mútua não-anulação. Provavelmente (quase adivinho o seu ar sereno de mulher de muitos anos, como já gostava de se ver), diria que o mais importante é que há muito, muito ainda para fazer até que à liberdade de consciência se venha juntar o dom poético, e que para isso não podemos pensar só no tempo de uma vida.
É assim que penso hoje quando penso em ti, Maria Gabriela, e no teu Texto. Nos milhares de páginas que nos deixaste nas mãos, para tomar conta e trazer à luz — «até que as letras brilhem». É por isso que, pensando no tempo cronológico de um ano de blog, o vejo como um ínfimo, e sinto vontade de convidar os que nos lêem a revisitar esse outro tempo da simultaneidade, e a olhá-lo sobreimpresso no novo Lugar que temos vindo a construir, lugar para o qual já não terias corpo físico, mas que nos deixaste antever n' Os Cantores de Leitura — seja a casa última da Reconstituição ou a primeira do Pinhal, ou agora a sem-nome, será a Casa, e dela aqui deixo uma imagem de leitura.


Maria Etelvina Santos



No primeiro aniversário do blogue Espaço Llansol, eu gostaria de pegar num dos textos da Maria Gabriela que mais gosto me dá a ler, e que é O Jogo da Liberdade da Alma. Porque creio que este blogue tem conseguido, além de toda a informação e atenção que dá ao que vai surgindo e acontecendo à volta do nome e da Obra de Maria Gabriela Llansol, acarinhar o Texto llansoliano, tal como este foi sendo moldado e reflectido pela Maria Gabriela.

O carvalho milenar de Mourilhe

Neste livro, sob o signo de Spinoza, vemos a expressão do desejo de textualizar como tornar o amor infinito (p.9), para além (diria Nietzsche) das fronteiras do visível e perecível, e à medida que vamos lendo, vamos encontrando um pensamento que se tece sobre a relação entre escrita e música, norteada pela mútua afecção de que os corpos são capazes (Spinoza), na construção humilde e desprendida, da noção de texto infinito e amante:

_____________ aprendi com a linguagem de Hallâj […]

que o invisível, quando se sensualiza, abre à linguagem caminhos que o narrativo obliterou com a tampa do piano, os muros baixos do real, as ténues paredes da vida

que, chegado a esse ponto, o por escrever tem uma visibilidade sem fim que, por isso, a nova linguagem é fácil, e se reproduz por si mesma, contendo em si o próprio princípio de existir

que é querer continuar a viver sem que o grau da vida degenere, […]
que o caderno não é o escrevente do texto
mas o lugar onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.

No entanto, o texto é livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo_______
a substância narrando-se,
diria Spinoza.
(JLA, pp. 11-12)

Cristiana Vasconcelos Rodrigues