Dou muita importância a uma frase, que aparece no começo de Parasceve, porque me parece ser a melhor maneira de anular a discórdia entre os que gostam e os que não gostam de Llansol (porque alguns não gostam logo à partida, mesmo antes de a lerem). O facto de Llansol incluir na sua obra alguns místicos por quem tem apreço, de fazer deles figuras, como tantas outras da sua obra (e isso ocorreu até mais nas primeiras trilogias), isso não significa que ela se veja como uma encarnação deles, como alguns gostam de insinuar; assim como o facto de gostar de acender uma vela (para iluminar o texto, como dizia, ou para ver nessa luz a presença dele, ou simplesmente porque gostava dessa forma de luz), não significa que se sentisse dentro de um templo ou em adoração a um qualquer deus. Muito teríamos, então, hoje, que dizer da «moda» das velas por tudo e por nada dentro das nossas casas, mercadoria que nos querem vender «porque se usa», que vai com l'air du temps, ainda que algumas surjam aos nossos olhos com formas inauditas, cheiros às vezes insuportáveis, cores que nunca saberemos como nomear. Será isso uma forma de misticismo na nossa sociedade de consumo? A frase a que me refiro atrás é a seguinte: «transpor para a consciência quotidiana o que, durante séculos, fora atribuído ao êxtase» – não encontro melhor para definição daquilo que esteve sempre no horizonte de Llansol e da sua escrita. Quem não quiser, que não veja. Foi sempre, e é, esse o seu fascínio, aquilo que afasta uns e agarra outros – a capacidade de falar do quotidiano, daquilo que todos conhecemos, de um modo desconhecido. Com ela, com a sua obra, não há meio termo, ou se ama ou se detesta, ou se fica, ou se foge (quase) para sempre. A escolha é nossa, claro.

9. Mas, voltando à Maria Gabriela e ao seu modo de estar no mundo.
Há uma passagem no livro Um Beijo Dado Mais Tarde, que talvez seja das mais esclarecedoras relativamente ao modo como ela se via no mundo: diz-se [a Témia] que «uma lamparina de azeite nunca se apaga. É uma luz que realiza sempre a função da luz – extrair objectos iluminados dos objectos apagados». Associo sempre esta lamparina à importância da luz no seu texto e também a ela própria, talvez porque a Maria Gabriela me contou, uma vez, que se via, desde muito pequena, com uma candeia na mão, a abrir caminho na frente de outros. E isto acontecia como uma espécie de sonho recorrente (sonho que pode até ter acontecido). A importância que ela dava a este facto era enorme, mas não porque se sentisse superior aos outros; era, sim, com um grande sentido de responsabilidade que o recordava e que o aceitava como destinação. Se era isso que chamava por ela, o querer abrir caminho, era para isso que viveria e escreveria. E assim aconteceu. Não como missão, mas como um modo de vida igual a qualquer outro. Lastimava aqueles «a quem nada chama», que passam pela vida queimando os dias. Ao contrário, os que sentem um apelo e têm capacidade de decisão (qualidade que a Maria Gabriela muito apreciava), vão atrás do seu sonho, seguem o que consideram ser um «pensamento verdadeiro», acreditam nele incondicionalmente, definem-no como a sua «causa amante», agem com determinação, e vão em frente. Foi isso que ela fez. Com a imensa sorte de ter encontrado Augusto Joaquim, também ele de uma grande generosidade e determinado, se necessário, a abdicar da sua obra em favor da dela. E, infelizmente para ele e para todos nós, foi necessário abdicar. Salvou-se a dela. Os dois previram e aceitaram tudo, como um «ambo». Só não contaram com a decisão das Parcas, de o levar primeiro a ele, doze anos mais novo.

10.