23.12.07
Publicado às
12:32
12.12.07
OS CADERNOS DE MARIA GABRIELA LLANSOL
Temos publicado neste espaço alguns fragmentos dos setenta cadernos manuscritos em que Maria Gabriela Llansol vem escrevendo regularmente desde os tempos do exílio na Bélgica. A Associação ESPAÇO LLANSOL vai iniciar em Janeiro de 2008 um projecto de digitalização, transcrição e, na medida do possível, edição desses cadernos. Trata-se de um projecto de grande dimensão e projecção – os cadernos contêm quinze a vinte mil páginas e papéis manuscritos – , cuja finalidade é a de garantir a preservação e tratamento deste importante espólio de M. G. Llansol (o que, aliás, é um dos principais objectivos estatutários desta Associação). A Fundação Gulbenkian reconheceu o alcance desta iniciativa, e irá apoiá-la financeiramente já nesta primeira fase.
A importância deste espólio manuscrito é inestimável para o estudo da Obra de Llansol, na medida em que acompanha, prolonga, ilumina e aprofunda a matéria de todos os seus livros, desde que começou a escrever aquele que considerou o «livro-fonte» de toda a sua Obra, O Livro das Comunidades (escrito em 1974, na Bélgica). Mas é igualmente um repositório único de perspectivas sobre a cultura e a língua portuguesas, sobre as grandes linhas do pensamento e da espiritualidade europeia, e sobre o encontro destas duas realidades.
Tudo isto passa, quer pelo registo e comentário de figuras históricas, quer pelo de lugares europeus e portugueses marcados por uma grande densidade histórica e cultural, quer ainda por momentos que permitem reconstituir alguns aspectos da vida e da actividade dos núcleos portugueses de exilados (na Bélgica, concretamente em Lovaina), nos anos sessenta e setenta do século passado. Até hoje, a Autora nunca deixou de acompanhar a escrita dos seus mais de trinta livros com a destes cadernos, que, apresentando paralelos e convergências com as obras editadas, vão muito para além delas e constituirão um instrumento fundamental para a investigação e o esclarecimento da Obra desta autora singular da nossa literatura contemporânea.
Apesar de um projecto desta dimensão exigir bastante tempo para a sua execução, podemos dar já aos interessados duas boas notícias: a) logo que esteja disponível o arquivo digital dos cadernos, esperamos poder torná-los acessíveis a investigadores e estudiosos da Obra, naturalmente com as restrições impostas pela própria Autora; b) neste momento a M. G. Llansol está a organizar, com a nossa colaboração, um primeiro volume de textos extraídos dos primeiros cadernos, a editar logo que possível.
Publicado às
15:41
5.12.07
A VIBRAÇÃO DO SILÊNCIO
Sobre filmes de Vera Mantero e Miguel Gonçalves Mendes
feitos a partir da Obra de M. G. Llansol
e apresentados em 3 e 4 de Novembro no

Take 1
feitos a partir da Obra de M. G. Llansol
e apresentados em 3 e 4 de Novembro no
Take 1
O Texto e o Corpo
Dois nomes lêem o Texto llansoliano, em momentos diversos de um só acto de leitura: a descoberta dos lugares a filmar e a sua montagem num filme que os dá a ver. Por «Lugar» queremos dizer, dentro do espírito do Texto de Maria Gabriela Llansol, uma imagem-que-vai-adiante, ou seja, algo que atrai e prende o nosso olhar/corpo, que acontece sem espaço nem tempo, mas tem corpo de Acontecer e assim nos enleva, sem nada prometer («________ o texto é sem promessa e sem garantia», lê-se em Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 188).

Do ponto de vista de quem vê o filme projectado na tela, a descoberta dos lugares, que faz surgir a matéria do filme, é uma experiência de leitura conjunta, próxima do espírito llansoliano — ler em Llansol é um acto de partilha entre vozes e olhares diferentes, quase nunca consonantes, mas permeáveis. Já a fase da montagem do filme parece quebrar este acto de permuta, deixando surgir dois filmes que marcam sobretudo a distância entre as personalidades de Mantero e Gonçalves Mendes. E no momento em que os dois filmes são projectados e mostram uma mesma matéria, ora ao serviço de um narcisismo um pouco mais desregrado (Vera Mantero), ora ao serviço de um olhar mais documental documental (Miguel Gonçalves Mendes), estamos perante duas leituras de costas voltadas entre si. Ver dois filmes montados a partir de uma matéria fílmica comum ter-nos-ia dado uma experiência insólita e única de como os olhares de um só acto de leitura se cruzam, ainda dentro do espírito de permuta e partilha a que convida o Texto de Maria Gabriela Llansol.
O olhar narcísico de Vera Mantero perturba, ao pretender «encenar» o Texto, recriando a figura da «mulher que não queria ter filhos de seu ventre» (O Livro das Comunidades, p. 11), mas com isso a fazer-se «centro de cena», impondo à Voz textual a sua própria voz — um narcisismo análogo ao que se viu na encenação recente, por André E. Teodósio, da ópera Metanoite, baseada no texto de Llansol, com libreto de João Barrento e música de João Madureira. O olhar documental de Miguel Gonçalves Mendes aproxima-se do Texto de forma mais contida, guardando uma distância que o deixa respirar no seu mistério e expressividade imensos, sem contudo se deixar enlevar pelo seu Lugar – ou seja, o que sobressai é o exercício de montagem e de manipulação de uma matéria fílmica belíssima, particularmente quando já a conhecemos do filme anterior, assinado por Mantero.
Ainda assim, a matéria dos filmes tem uma força expressiva e uma beleza tais, que nos convidam a abrir o olhar às imagens e a ponderá-las nesta abertura — como as ilustrações de Ilda David nos livros de Llansol nos convidam a fazer. Na redescoberta dos lugares do Texto llansoliano em algumas destas imagens, dá vontade de as deixar pairar, como, afinal, paira o Texto llansoliano, sem antes nem depois, mas sempre-adiante, fugazes e intensas.
A paisagem de vento, as árvores, a folhagem, a casa, o interior da casa, os corpos em movimento, os gestos da escrita e da leitura, o corpo a correr, o corpo disperso por corpos-outros, o fogo e a água: estes são alguns dos elementos dos filmes que se associam ao Texto de Maria Gabriela Llansol como uma sua ilustração mimética. Este mimetismo do Texto é o que dá às imagens dos filmes a sua força expressiva, e nesse sentido elas são felizes, concretizam as dobras do Texto, a sua pluralidade de vozes e de corpos movendo-se e relacionando-se, sem querer saber para-onde. Alguns momentos são especialmente fortes e belos no dar-corpo de imagem visual ao Texto e à Imagem de que este é capaz: as crianças a escrever «em fúria»; a corrida no bosque; os corpos pendurados na árvore; a mão-que-escreve; o fogo sobre as águas correndo…
Mas encontramos nos filmes também a expressão de uma angústia (mais presente no filme de Vera Mantero do que no de Miguel Gonçalves Mendes) que é inexistente no Texto llansoliano. Esta angústia exprime-se nas imagens de animais mortos, violentados, quando o corpo se enrola sobre si mesmo ou se movimenta por espasmos, quando o olhar e a voz parecem buscar o que não têm. O semblante llansoliano, se é sem-expressão, é por estar sem posse, é por não se impor, mas não por estar em carência. Esta expressão da angústia está longe da Obra de Llansol e do seu convite à libertação jubilosa de tudo o que tolhe e oprime.
O difícil exercício de um fazer-com (no lugar do fazer-sobre), encontra-se na matéria de que são feitos ambos os filmes, mercê de um acto conjunto de leitura dos textos de Maria Gabriela Llansol. Algumas das imagens geradas desse acto são ímpares, respiram beleza e dão a ver o texto improvável de Maria Gabriela Llansol. Essa dádiva é preciosa.
Cristiana Vasconcelos Rodrigues
Dois nomes lêem o Texto llansoliano, em momentos diversos de um só acto de leitura: a descoberta dos lugares a filmar e a sua montagem num filme que os dá a ver. Por «Lugar» queremos dizer, dentro do espírito do Texto de Maria Gabriela Llansol, uma imagem-que-vai-adiante, ou seja, algo que atrai e prende o nosso olhar/corpo, que acontece sem espaço nem tempo, mas tem corpo de Acontecer e assim nos enleva, sem nada prometer («________ o texto é sem promessa e sem garantia», lê-se em Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 188).
Do ponto de vista de quem vê o filme projectado na tela, a descoberta dos lugares, que faz surgir a matéria do filme, é uma experiência de leitura conjunta, próxima do espírito llansoliano — ler em Llansol é um acto de partilha entre vozes e olhares diferentes, quase nunca consonantes, mas permeáveis. Já a fase da montagem do filme parece quebrar este acto de permuta, deixando surgir dois filmes que marcam sobretudo a distância entre as personalidades de Mantero e Gonçalves Mendes. E no momento em que os dois filmes são projectados e mostram uma mesma matéria, ora ao serviço de um narcisismo um pouco mais desregrado (Vera Mantero), ora ao serviço de um olhar mais documental documental (Miguel Gonçalves Mendes), estamos perante duas leituras de costas voltadas entre si. Ver dois filmes montados a partir de uma matéria fílmica comum ter-nos-ia dado uma experiência insólita e única de como os olhares de um só acto de leitura se cruzam, ainda dentro do espírito de permuta e partilha a que convida o Texto de Maria Gabriela Llansol.
Ainda assim, a matéria dos filmes tem uma força expressiva e uma beleza tais, que nos convidam a abrir o olhar às imagens e a ponderá-las nesta abertura — como as ilustrações de Ilda David nos livros de Llansol nos convidam a fazer. Na redescoberta dos lugares do Texto llansoliano em algumas destas imagens, dá vontade de as deixar pairar, como, afinal, paira o Texto llansoliano, sem antes nem depois, mas sempre-adiante, fugazes e intensas.
Mas encontramos nos filmes também a expressão de uma angústia (mais presente no filme de Vera Mantero do que no de Miguel Gonçalves Mendes) que é inexistente no Texto llansoliano. Esta angústia exprime-se nas imagens de animais mortos, violentados, quando o corpo se enrola sobre si mesmo ou se movimenta por espasmos, quando o olhar e a voz parecem buscar o que não têm. O semblante llansoliano, se é sem-expressão, é por estar sem posse, é por não se impor, mas não por estar em carência. Esta expressão da angústia está longe da Obra de Llansol e do seu convite à libertação jubilosa de tudo o que tolhe e oprime.
O difícil exercício de um fazer-com (no lugar do fazer-sobre), encontra-se na matéria de que são feitos ambos os filmes, mercê de um acto conjunto de leitura dos textos de Maria Gabriela Llansol. Algumas das imagens geradas desse acto são ímpares, respiram beleza e dão a ver o texto improvável de Maria Gabriela Llansol. Essa dádiva é preciosa.
Cristiana Vasconcelos Rodrigues
Take 2
1.
Uma mulher, uma casa, crianças que ela não quer ensinar, mas deixar que cresçam, mostrando-lhes o mundo: o que está aí e o que parece não estar aí, porque só existe na dobra.
Todos existem e aprendem a viver numa dupla «província pedagógica»: vivem a casa – na escrita / na cópia, na leitura, no jogo – e percorrem o mundo, derramam-se nele – na terra e nas árvores, no vento e na água, nos animais e nas plantas... Descobrem o corpo, semeiam futuro (num eterno retorno do mútuo), entram em consonância com a vibração do mundo, o que os envolve e o que trazem em si.
A mulher é presença-pivot, mais do que guiar emite sinais, é corpo de experiência que interage com o corpo-de-natureza das crianças (que em certos planos é também o seu), disponível, maleável, generoso, aberto – à escrita/cópia num frenesi por vezes excessivo, à sementeira, à fusão com os troncos das árvores ou as folhas do chão, aos ritmos, à música, ao apelo da terra.
Esta primeira experiência feita sobre a matéria do texto de Llansol por Vera Mantero é nervosa e vibrátil, investe mais no movimento do que na concentração, e afecta com isso a pele das cenas e da sua transição, e a beleza estética do conjunto, que no entanto emerge repetidas vezes em vários planos de grande beleza, mas menos serenidade.
2.
Um homem nu, ao piano (evocando o começo de O Jogo da Liberdade da Alma e passagens de Amigo e Amiga) ou em espaços abertos mais ou menos imponderáveis, segue o rasto de uma mulher que segue o rasto de um homem desaparecido: «aquelesser». O que ele/ela buscam é reconstituir a sombra de uma presença-ausência, de uma ausência presente que partiu. Para um mundo que, desconhecido, se sabe que é aquele «para onde irei». A busca tem uma finalidade, que abre para dois sentidos possíveis e complementares, consoante se ouve da boca dos adultos ou das crianças: «quero saber mais do mundo para onde irei...» A única maneira de o saber, insuficiente, incerta, tacteante, e que por isso justifica a busca, é seguir o rasto – os traços de carácter e de acção de «aquelesser», la trace, o rosto e a assinatura – deixado nas coisas por esse ser que partiu. Na experiência de Miguel Gonçalves Mendes, a ambiência resulta mais nostálgica, o ritmo respira uma maior serenidade. A linha de desenvolvimento é mais clara, menos dispersa: é a da decepação da memória da morte pelo júbilo e pelo fulgor.
E do júbilo e do fulgor de uma beleza por vezes cortante das imagens e das sequências vivem estas duas experiências, até hoje ímpares, realizadas em sobreimpressão com o texto de Maria Gabriela Llansol.
João Barrento

Uma mulher, uma casa, crianças que ela não quer ensinar, mas deixar que cresçam, mostrando-lhes o mundo: o que está aí e o que parece não estar aí, porque só existe na dobra.
Todos existem e aprendem a viver numa dupla «província pedagógica»: vivem a casa – na escrita / na cópia, na leitura, no jogo – e percorrem o mundo, derramam-se nele – na terra e nas árvores, no vento e na água, nos animais e nas plantas... Descobrem o corpo, semeiam futuro (num eterno retorno do mútuo), entram em consonância com a vibração do mundo, o que os envolve e o que trazem em si.
A mulher é presença-pivot, mais do que guiar emite sinais, é corpo de experiência que interage com o corpo-de-natureza das crianças (que em certos planos é também o seu), disponível, maleável, generoso, aberto – à escrita/cópia num frenesi por vezes excessivo, à sementeira, à fusão com os troncos das árvores ou as folhas do chão, aos ritmos, à música, ao apelo da terra.
Esta primeira experiência feita sobre a matéria do texto de Llansol por Vera Mantero é nervosa e vibrátil, investe mais no movimento do que na concentração, e afecta com isso a pele das cenas e da sua transição, e a beleza estética do conjunto, que no entanto emerge repetidas vezes em vários planos de grande beleza, mas menos serenidade.
Um homem nu, ao piano (evocando o começo de O Jogo da Liberdade da Alma e passagens de Amigo e Amiga) ou em espaços abertos mais ou menos imponderáveis, segue o rasto de uma mulher que segue o rasto de um homem desaparecido: «aquelesser». O que ele/ela buscam é reconstituir a sombra de uma presença-ausência, de uma ausência presente que partiu. Para um mundo que, desconhecido, se sabe que é aquele «para onde irei». A busca tem uma finalidade, que abre para dois sentidos possíveis e complementares, consoante se ouve da boca dos adultos ou das crianças: «quero saber mais do mundo para onde irei...» A única maneira de o saber, insuficiente, incerta, tacteante, e que por isso justifica a busca, é seguir o rasto – os traços de carácter e de acção de «aquelesser», la trace, o rosto e a assinatura – deixado nas coisas por esse ser que partiu. Na experiência de Miguel Gonçalves Mendes, a ambiência resulta mais nostálgica, o ritmo respira uma maior serenidade. A linha de desenvolvimento é mais clara, menos dispersa: é a da decepação da memória da morte pelo júbilo e pelo fulgor.
E do júbilo e do fulgor de uma beleza por vezes cortante das imagens e das sequências vivem estas duas experiências, até hoje ímpares, realizadas em sobreimpressão com o texto de Maria Gabriela Llansol.
João Barrento
(As fotos são de Margarida Ribeiro e vêm da rodagem dos filmes,
que os autores intitularam «Curso de Silêncio».
A sequência completa pode ser vista aqui.
Alguns fotogramas dos filmes aqui.)
que os autores intitularam «Curso de Silêncio».
A sequência completa pode ser vista aqui.
Alguns fotogramas dos filmes aqui.)
Publicado às
21:51
25.11.07
Obrigada, Maria Gabriela, pelo encontro de ontem na Casa da Saudação. Vieste com as mãos disponíveis, como sempre nos habituaste, desde aquele primeiro encontro, na Casa da Praia Grande, quando pela primeira vez nos olhámos como um grupo de início. E éramos. E somos. O que te levámos ontem, lembrando o teu aniversário, cabe numa pequena lista de oferendas, mas dá a ver o que entre nós importa:
um vestido castanho, costurado pelas mãos de uma mulher da tua idade, com que outra, delicada, te ajudou a vestir o corpo;
um cesto com laranjas, apanhadas da árvore, manhã cedo;
um vaso de violetas, com a cor do seu nome, para acompanhar os teus dias;
um hábil «mensageiro de sonhos», para acompanhar as tuas noites;
duas tabuinhas de cera, encontradas há muito, perto de uma igreja, em Itália;
um vaso com um metrosideros, para crescer entre nós e permanecer, e que escolheste plantar perto da porta da Casa...
e outras pequenas-grandes coisas com que habitamos os dias, criando na paisagem a «mais-paisagem» que nela existe, não para regressar a ela, mas para a trazer de volta.
ES
Publicado às
17:49
19.10.07
OS CANTORES DE LEITURA
Dentro de dias chegará às livrarias o novo livro de Maria Gabriela Llansol, Os Cantores de Leitura (Assírio & Alvim).
Todo o livro, na sua tripla fragmentação (partículas, duplos, contextos) vive da movimentação de figuras, novas e antigas, entre Casas, num vaivém contínuo entre lugares e momentos de escrita, leitura, contemplação, diálogo com as coisas, reflexão sobre o mundo. De partícula para partícula assistimos a uma espécie de sonho em que imagens contínuas, mas díspares, se vão mostrando, naquele que é provavelmente o mais livremente associativo de todos os livros de Llansol. No seu centro está a Leitura, leitura agora «cantada», resposta do texto à incapacidade de cantar do mundo, e «contraste» (i. é, marca de autenticidade) desta nova Comunidade de seres que vivem da e para a beleza do conhecimento e dos afectos.
Todo o livro, na sua tripla fragmentação (partículas, duplos, contextos) vive da movimentação de figuras, novas e antigas, entre Casas, num vaivém contínuo entre lugares e momentos de escrita, leitura, contemplação, diálogo com as coisas, reflexão sobre o mundo. De partícula para partícula assistimos a uma espécie de sonho em que imagens contínuas, mas díspares, se vão mostrando, naquele que é provavelmente o mais livremente associativo de todos os livros de Llansol. No seu centro está a Leitura, leitura agora «cantada», resposta do texto à incapacidade de cantar do mundo, e «contraste» (i. é, marca de autenticidade) desta nova Comunidade de seres que vivem da e para a beleza do conhecimento e dos afectos.
Transcrevemos uma das «Partículas» do livro e respectivo «contexto» (designações de uma estrutura fragmentária que sugere «leituras minimais que se correspondem conforme a transparência da sensibilidade de quem lê», Partícula 44):
PARTÍCULA 43 — O Livro dos Afectos
Uma das actividades mais misteriosas da escrita é, como diz Tual, dar
nome a um texto, vê-lo mudar de nome, e
guardar secreto esse nome.
Este é O Livro dos Afectos.
Exprime bem o que exprime; tem, contudo, uma conotação sentimental, romântica (muito ligeira, eu sei) que o torna mais frágil que o outro nome — Os Cantores de Leitura. Na realidade, é um nome forte, aberto, transversal, que inscreve uma distância sobreposta entre dois lugares. No entanto, o nome de O Livro dos Afectos, apesar de mais fraco, diz exactamente o que se passa nessa distância sobreposta. Se me perguntarem (de facto, já não perguntam) o que se passa neste texto, eu posso dizer, do meu ponto de escrita, que, na distância entre canto e leitura — dois lugares —, uma linhagem de seres visíveis e invisíveis revive o afecto, a miríade de afectos que soube e não soube viver,
antes de chegar.
seu contexto:
viemos até aqui, na forma da presença peculiar de
cada um, para tentarmos reviver, mais uma vez,
o que é o corpo,
o que é a luz,
o que é a força,
o que é o afecto,
o que é o pensamento,
o que é a figura.
Simplesmente procurar saber, no seu próprio corpo reflectido na imagem __________ na prática, seremos artesãos de tarefas simples, realizadas de modo impecável, como estamos a procurar fazer com Lós, que se tornou nosso filho. Embora ninguém saiba — sem pelo menos uma hesitação — o que é a responsabilidade de educar o sol. Seria fora de razão e prestar-se-ia ao riso acreditar, palavra por palavra, que tal aconteceu. Todos nós sabendo e não sabendo como nos tornamos sol consciente e livre, num texto aproximado
no seu próprio corpo reflectido na imagem _____
na prática do amor de afectuante para afectuante, o que é
o eterno retorno do mútuo.
Publicado às
16:23
17.10.07
AD LOCA LLANSOLIANA (2)
Como prometemos aqui, voltamos aos lugares llansolianos da Bélgica, onde a escritora viveu e escreveu entre 1965 e 1985. Primeiro em Lovaina, depois em Jodoigne, finalmente em Herbais. Outros lugares decisivos para o arranque desta Obra nesses anos foram o béguinage de Bruges e a abadia de Maredret, onde foi escrito em parte e concluído O Livro das Comunidades. Destes lugares, e da Bélgica como espaço e paisagem de uma «sobreimpressão» da língua portuguesa dão conta muitas passagens de livros de Maria Gabriela Llansol, de onde extraímos os excertos que se seguem, sumariamente ilustrados. As fotos mais antigas são de Augusto Joaquim, as mais recentes de João Barrento e Vina Santos. Um périplo mais completo desses lugares, ontem e hoje, pode ser visto na sequência fotográfica que abre esta página.
1 - A Bélgica
(…)
il y avait une ombre,
dont il était impossible de faire le portrait;
quand il n’y avait plus de lumière,
l’ombre tombait par terre.
(Finita)
…. sinto-me como alguém que viaja em país estrangeiro, por não me sentir, de modo algum, ligada a uma nação. Na Bélgica, sinto-me menos em terra alheia talvez porque está explícito que nenhum laço de origem política me liga a este país. Sem país em parte alguma, salvo no vazio em que me dei a uma comum idade. Comum idade real por imaginária, e imaginária por verdadeira. A escrita, os animais, fazem parte dessa orla, e são tais seres excluídos pelos homens que eu recebo.
Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós.
(Finita)
Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós.
(Finita)
O extremo ocidental do Brabante
I
(…) Entre vós, na minha língua confrontada às vossas paisagens. Que podeis confrontar e identificar sem, no entanto, desvendar a língua que foi a sua raiz. Por outro lado, os portugueses, que nem as vêem, nem as identificam, nem são embebidos por elas, podem ouvir a língua que as fala.
(…)
Sei hoje que é nessa sobreimpressão que eu habito o mundo, e vejo, com nitidez, que outros vieram ter comigo:
«concebe um mundo humano que aqui viva, nestas paragens onde não há raízes.»
III
Desses primeiros anos na Bélgica guardo uma imagem difusa, e ligeiramente irreal: as planuras do Brabante e o vale do Mosela; as fachadas góticas da Flandres; a vida de estudante, em Lovaina; o direito efectivo à informação. As particularidades, múltiplas e incontáveis, de um país conservador, percorrido por pessoas livres e trabalhadoras que, embora achando muito original a imaginação das gentes vindas de outras terras, não podiam deixar de marcá-la com os indícios de uma espécie de bom senso degenerado…
(Lisboaleipzig 1)
(…)
Sei hoje que é nessa sobreimpressão que eu habito o mundo, e vejo, com nitidez, que outros vieram ter comigo:
«concebe um mundo humano que aqui viva, nestas paragens onde não há raízes.»
III
Desses primeiros anos na Bélgica guardo uma imagem difusa, e ligeiramente irreal: as planuras do Brabante e o vale do Mosela; as fachadas góticas da Flandres; a vida de estudante, em Lovaina; o direito efectivo à informação. As particularidades, múltiplas e incontáveis, de um país conservador, percorrido por pessoas livres e trabalhadoras que, embora achando muito original a imaginação das gentes vindas de outras terras, não podiam deixar de marcá-la com os indícios de uma espécie de bom senso degenerado…
(Lisboaleipzig 1)
2 - Bruges, béguinage
pressentir que seria por tantos, esta nossa longa ausência fez-me uma profunda impressão. Estava eu no béguinage de Bruges, com o sentimento fortíssimo de que já ali teríamos estado. Nós, não era eu. (…)
Data de então a presença constante, invasora e quase exclusiva, de certas figuras europeias nos meus livros. (…)
Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewijch, a Ruysbroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavem Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer.
De esquecer tudo isso.
(Lisboaleipzig 1)
3 - Lovaina
expor, e um certo relento de Universalidade. (…)
O que me choca é a vastidão dos textos que não ficarão e que, hoje, no espaço fechado da livraria, fazem um ruído ensurdecedor de «papotage» que quase tornou inaudível o diálogo entre os livros que falam e mantêm entre si a arte da conversação infindável sobre o entresser.
(Finita)
4 - Jodoigne
(…) dou finalmente posse à minha verdadeira figura, e as composições de imagens e ideias que se tinham formado durante a noite refazem-se naquele instante: estou em baixo, na cozinha ampla e branca, a preparar uma refeição, voltada para a mesa redonda, e de costas para o armário mural. A cozinha mergulha numa luz que vem do fulgor. A janela, que tem por cortinado uma colcha das ilhas é, atraentemente, uma fonte.
(Finita)
Jodoigne, 6 de Agosto de 1977,
em que acabei de escrever A Restante Vida
O ano de 74, ano da libertação política de Portugal, ainda decorreu em Lovaina. Só partimos para Jodoigne em Abril de 75, embora já durante todo o mês de Março, tivéssemos preparado a casa. A casa pareceu-me grande, o jardim um terreno vago no meio de muros bem calculados e envelhecidos; nessa altura, o portão ainda não era uma chave no espaço apesar de ter a presciência de que, vindo para esta casa, me daria a uma escrita mais segura, feita da experiência dos silenciados e de outras realidades por hábito abandonadas, ou não penetradas. Não me lembro do primeiro verão, devia ser um verão intermédio, embora já nele tivesse plantado, para meu sossego, Spirea e Prunus Triloba. Fui buscá-las a território flamengo, a Tienen, e elas cresceram com acessos de doçura e de força; com inteligência visionária se alongariam meus dias, em noites obscuras e horas fecundas, quase intermináveis…
(Finita)
5 - Herbais
Herbais,
é a paisagem que Herbais guarda como lhe pertencendo verdadeiramente. Vejo nela o Jade correndo, os carreiros uma grande explosão de fundo. Nada explode. Tudo é isto, campos imensos de variedades de cereais, ou então só matizes de verde e, próximo, raros arbustos e árvores que não foram abatidas.
Herbais,
uma ilha humana, ao longe, na crista da paisagem. Para ela se orientam naturalmente os passos humanos. Mas, para a compreender para além da sua pequenez, precisámos de deixar partir de nossas mentes a imagem de cidade, aglomeração humana densa.
(«O pensamento de algumas imagens», in: A Restante Vida, 2ª ed.)
Publicado às
23:13
16.10.07
LIVRO DE ASAS PARA LLANSOL
Acaba de sair, na Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, o Livro de Asas para Maria Gabriela Llansol, um volume que reune, em 280 páginas, pela mão de Lúcia Castello Branco e Vania Baeta Andrade, os textos apresentados e enviados ao primeiro Colóquio sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol, que teve lugar no teatro barroco de Sabará, uma cidade histórica nos arredores de Belo Horizonte, em Dezembro de 2002.
É uma vintena de contributos, de legentes brasileiros e portugueses, sobre os mais diversos livros e temas do universo llansoliano, transportados por oito "Asas", que correspondem aos vários momentos do Encontro: Asa do texto: lugar que viaja; Asa dos legentes: o mundo figural; Asa dos legentes: a textualidade; Asa dos absolutamente sós; Asa dos reais-não-existentes; Asa dos textuantes; Asa de cenas fulgor; Asa do lugar.
Foi, como se diz na «Abertura», «um primeiro colóquio de leituras-escritas em torno da Obra, sopradas ao vento por diversas artes: a poesia, a música, o canto, a dança, a fotografia, o bordado, a jardinagem e as artes plásticas.»
Sob o signo do lema, tão llansoliano, «Este é o jardim que o pensamento permite» se fez este primeiro Colóquio, a que outros dois se seguiriam, organizados em Portugal pelo antepassado próximo deste Espaço Llansol, o GELL-Grupo de Estudos Llansolianos: o da Arrábida, em Setembro de 2003, e o de Mourilhe, em Julho de 2005 (deste último editámos uma caixa-livro, Vivos no Meio do Vivo, a que já nos referimos aqui).
Em todos esses encontros, como ainda escrevem as organizadoras, «estivemos na clareira: sempre entre as árvores, os troncos, as folhas, os ramos e os jardins. Afinal, o pacto da legência admite, já de início, além do inconforto, que a árvore é um livro a distribuir suas folhas pelos ramos.
É na textualidade de um livro cujas folhas retornam à matéria primeira do papel — a árvore — que este livro se compõe. E, porque as folhas e os ramos também voam — reunindo os legentes daqui, do Brasil, aos de lá, de Portugal, e a outros ainda, de lugares longínquos, do passado, e de lugares futurantes, ainda por vir —, este livro se quer um livro de asas.»
É uma vintena de contributos, de legentes brasileiros e portugueses, sobre os mais diversos livros e temas do universo llansoliano, transportados por oito "Asas", que correspondem aos vários momentos do Encontro: Asa do texto: lugar que viaja; Asa dos legentes: o mundo figural; Asa dos legentes: a textualidade; Asa dos absolutamente sós; Asa dos reais-não-existentes; Asa dos textuantes; Asa de cenas fulgor; Asa do lugar.
Foi, como se diz na «Abertura», «um primeiro colóquio de leituras-escritas em torno da Obra, sopradas ao vento por diversas artes: a poesia, a música, o canto, a dança, a fotografia, o bordado, a jardinagem e as artes plásticas.»
Sob o signo do lema, tão llansoliano, «Este é o jardim que o pensamento permite» se fez este primeiro Colóquio, a que outros dois se seguiriam, organizados em Portugal pelo antepassado próximo deste Espaço Llansol, o GELL-Grupo de Estudos Llansolianos: o da Arrábida, em Setembro de 2003, e o de Mourilhe, em Julho de 2005 (deste último editámos uma caixa-livro, Vivos no Meio do Vivo, a que já nos referimos aqui).
Em todos esses encontros, como ainda escrevem as organizadoras, «estivemos na clareira: sempre entre as árvores, os troncos, as folhas, os ramos e os jardins. Afinal, o pacto da legência admite, já de início, além do inconforto, que a árvore é um livro a distribuir suas folhas pelos ramos.
É na textualidade de um livro cujas folhas retornam à matéria primeira do papel — a árvore — que este livro se compõe. E, porque as folhas e os ramos também voam — reunindo os legentes daqui, do Brasil, aos de lá, de Portugal, e a outros ainda, de lugares longínquos, do passado, e de lugares futurantes, ainda por vir —, este livro se quer um livro de asas.»
Publicado às
23:37
30.9.07
LLANSOL «MEGAVIBRÁTIL»
A Obra de Maria Gabriela Llansol parece ser cada vez mais um íman que atrai criadores de outras artes.Depois da pintura (com Julião Sarmento, Manuel San Payo ou Ilda David'), da fotografia (Duarte Belo) e da música (Amílcar Vasques Dias, com Doze Nocturnos em Teu Nome, e João Madureira, com a ópera Metanoite), e também do documentário (o vídeo Redemoinho- Poema, em preparação pela legente brasileira, atenta e sensível, de Llansol que é Lúcia Castello Branco, realizadora de um outro documentário, Língua de Brincar, sobre o poeta Manoel de Barros, recentemente editado pela Quási), chegou a vez da dança e do cinema: Vera Mantero e Miguel Gonçalves Mendes (que fez antes o vídeo-retrato sobre e com Mário Cesariny Autografia - Reverso de Autografia, editado pela Assírio & Alvim) apresentaram, entre sexta-feira 28 e domingo 30 de Setembro, no Circular – Festival de Artes Performativas de Vila do Conde, o espectáculo Curso de Silêncio, uma criação de dança-cinema que parte do universo «literário» de Maria Gabriela Llansol (é o que diz a notícia de jornal, mas podíamos chamar-lhe antes espaço universal do humano e não humano posto em linguagem).
Os autores partem da noção llansoliana de «cena fulgor», e explicam no programa: «O núcleo das cenas fulgor pode ser uma imagem, um pensamento ou um sentimento intensamente afectivo.» Curso de Silêncio integrar-se-á também no Festival Temps d'Images, e poderá, assim, ser visto ainda em Lisboa no CCB, nos dias 3 e 4 de Novembro.
Esta performance de Vera Mantero e Miguel G. Mendes nasceu de numa ideia, arriscada hoje, a que a obra de Llansol lhes pareceu dar múltiplas respostas: o que é isso de «riqueza de espírito», como redefinir esta noção ambígua e quase perdida, que lugar existe para a sua prática no mundo contemporâneo, que gestos, que passos, que acções implica?
A estas perguntas respondeu a própria Maria Gabriela Llansol numa conversa que com ela fizémos (a Vina Santos – MES – e eu – JB), a pedido da Vera e do Miguel, em 28 de Julho passado, e de que reproduzimos aqui uma parte:
JB: A primeira questão, que era a de ordem mais geral que a Vera colocava, era um pouco, pelo que eu percebi, a ideia de fundo do filme que eles querem fazer: a do lugar do que ela chama a “riqueza de espírito” no mundo de hoje; se será preciso redefinir a noção… Eu pensei ontem que “espírito” é uma palavra um bocado caída em descrédito, hoje em dia. Mas há outros modos de dizer, por exemplo, formas de espiritualidade, o que é outra coisa.
MES: E a questão da “riqueza”…
MGL: Sobre isso eu penso que não há “riqueza de espírito”, porque riqueza é um termo material e espírito seria algo de incorpóreo, portanto, essa associação não tem sentido; mas não interessa dizer o que tem sentido ou não, interessa dizer algo sobre isso. Acho que isso, para utilizar alguns adjectivos, é incomunicável, faz-se de imagens pessoalíssimas, faz-se do trabalho sobre a vida quotidiana de todos os dias, faz-se do mundo envolvente, isto é, é um trabalho em conjunto, de todos os indivíduos, em que o corpo é o suporte físico.
JB: Era isso um pouco o que a Vera tentava perceber na segunda questão: como é que na prática se pode viver uma ou outra forma de espiritualidade, que gestos, que acções implica essa vivência concreta; e isso vai mais ao encontro do que estavas agora a dizer, não é?
MGL: A vivência, a espiritualidade, chamem-lhe como quiserem, eu diria mais a vida imagética interior, eu diria mais assim…, é o produto de um cruzamento em que o principal actor é o que tem a vida espiritual, e pratica-se pela atenção; não tem momento de começar nem de acabar, está no próprio, portanto, é como quem diz: àquele que já sabe eu explicarei tudo, àquele que nada sabe eu nada poderei dizer.
JB: A sequência das perguntas leva para o que acabaste de dizer, sinteticamente: como é que se mantém isso a que a Vera chama “riqueza de espírito”? Está lá?
MGL: Está lá, está…
JB: Não tem que se manter porque…
MGL: É quase impossível fazer um filme sobre isso, a não ser captar imagens; isso faz-se captando imagens. De outro modo, quem faz essas perguntas é como se não tivesse nenhum contacto com a vida espiritual.
JB: A Vera Mantero pergunta também, no fim, de que imagens precisamos; essa é uma questão-chave.
MGL: Precisamos de imagens de montanhas, de imagens de textos, de imagens de rios, de imagens dos seres que amamos, de imagens dos animais que amamos, e de imagens do nosso pensamento criativo, é isso.
JB: Implícito na pergunta dela está também: para que é que servirão essas imagens.
MGL: Elas não servem, elas são rainhas.
JB: Pois. Essa frase é muito boa. Exactamente.
MGL: Quem mais serve, mais rei é. Mais soberano. Só que, no seu ser mais profundo, não tem a consciência disso. Saber-se quem se é, ou para o que se tende, é magnífico, é vida espiritual; saber-se quem nos chama é vida espiritual, ouvir, ouvir… Eu estou aqui convosco, e nós estamos a fazer o quê? A servir. A magnificência é de nós três. Mas é tão normal e tão natural, naturalíssimo…
MES: É quase como respirar…
JB: Podemos fazer só mais uma pergunta que a Vera Mantero coloca no fim, e que pode ser interessante. Ela pergunta: como é que se deu a viragem, se é que houve alguma viragem no teu caso, para este modo de estar no mundo e de ver o mundo; como é que esse corpo se tornou num corpo vibrátil, “megavibrátil”?
MGL: Eu fui sempre assim. Mas o meu grande companheiro ajudou-me a ser assim. Como eu o ajudava a ele, e vós todos; a ligação à comunidade cria-nos.
JB: Quero dizer, quando ela pergunta o que é que te levou para este universo, nós podemos pensar naquele momento em que tu própria dizes, nos teus diários: um dia vi-me sem normas. Mas isso só tem a ver com a escrita propriamente dita, saíste dum universo para entrar no teu próprio; mas a questão da vibração do corpo já vem desde as origens?
MGL: Desde que nasci. Lembro-me provavelmente de mim no ventre da minha mãe, acho que ainda me lembro, vagamente… e de mim ao colo da Maria Amélia. E depois devo dizer-vos que através da minha vida só houve uma pessoa ou duas…, sempre encontrei pessoas extraordinárias. E os homens eram extraordinários, os homens por quem me apaixonei ou amei, não importa — era o meu tio, era o Padre Armindo, e era o Augusto. Eram pessoas excepcionais. E já partiram todos. Mas, de certo modo, estão aqui. Eles estão é que é a palavra.
MES: Isso tem a ver também com o universo das figuras, não é? Isso de estar sempre a falar uns com os outros.
MGL: Tem. As figuras são imagens corporalizadas, e actuantes, e vivas, e tornadas humanas, quase…
MES: Quase, porque o humano delas é diferente.
MGL: É. O humano delas é diferente. A Etelvina percebe muito disto.
MES: Não percebo, eu…
MGL: Tu percebes. Também nasceste lá. O João também, nasceu aí…
MES: Já a cansámos muito?
MGL: Não. Fiquei feliz.
MES: Porque estamos a conversar. É um alimento de que nós precisamos todos, com a Maria Gabriela, e a Maria Gabriela connosco…
MGL: É. Mas às vezes sinto-me muito sozinha; e esse alimento é fundamental para mim, ajuda a aliviar as dores; o tratar de assuntos como este…
MES: … ver uma imagem ou outra…O caminho da vida espiritual também é alimentar o nosso dia-a-dia com essas imagens…
MGL: Não, porque as imagens estão connosco, e nós não nos comemos a nós próprios. Nós fazemos o que vimos, e vimos o que fazemos, somos uma roldana.
JB: Há aqui uma pergunta que revela uma certa preocupação, neste caso de dois artistas de uma outra geração, que estão aí no mundo, que têm de fazer coisas para serem vistas, a dança, o cinema; a preocupação da Vera Mantero numa das perguntas é a de saber como é que se sobrevive, no âmbito a que eles chamam artístico, neste mundo. Escreve-se para quê?, Dança-se para quê?
MGL: Como eu faço. Escreve. Dança. Sê grande. Se for com altura suficiente, ver-se-á. Desde que sejas suficientemente grande, ninguém deixará de te ver. Podes ser tudo. Pois é, isto é muito a infância da arte. Mas vê-se que ela vai pelo bom caminho.
Publicado às
23:59
27.9.07
Como noticiámos aqui anteriormente, realizou-se no dia 5 de Setembro um Colóquio na Universidade de Liverpool, com a finalidade de assinalar os trinta anos da publicação de O Livro das Comunidades. Recebemos hoje o relatório-síntese dos trabalhos desse dia, que nos foi gentilmente enviado por Raquel Ribeiro, doutoranda naquela Universidade e, com Claire Williams, organizadora do Encontro.
LLANSOLLIVERPOOL:
GUIA DE QUESTÕES PARA DISCUTIR O LIVRO DAS COMUNIDADES
GUIA DE QUESTÕES PARA DISCUTIR O LIVRO DAS COMUNIDADES
Como as figuras Llansolianas, disse Claire Williams (U. Liverpool) no início do encontro, “todos nós vimos de diferentes cidades e diferentes países (apesar de estarmos todos no mesmo século), falamos diferentes línguas e trazemos diferente bagagem connosco”. No encontro em Liverpool que, no dia 5 de Setembro, comemorou os trinta anos da publicação de O Livro das Comunidades, cada participante falou na língua em que se sentia mais confortável, o que fez do encontro de legentes uma pequena babel num sótão da Blackburne House.
Houve uma série de coincidências: tal como Ana de Peñalosa escrevia no topo da casa, também todos nos reunimos num sótão de um antigo colégio e hoje uma instituição para o ensino de mulheres. Além disso, a Universidade de Liverpool foi durante mais de trinta anos a “casa” do Professor Doutor E. Allison Peers, pioneiro de estudos Espanhóis no Reino Unido e tradutor de Teresa de Ávila e San Juan de La Cruz.
Houve uma série de coincidências: tal como Ana de Peñalosa escrevia no topo da casa, também todos nos reunimos num sótão de um antigo colégio e hoje uma instituição para o ensino de mulheres. Além disso, a Universidade de Liverpool foi durante mais de trinta anos a “casa” do Professor Doutor E. Allison Peers, pioneiro de estudos Espanhóis no Reino Unido e tradutor de Teresa de Ávila e San Juan de La Cruz.
O desafio era ler O Livro das Comunidades trinta anos depois da sua publicação e tentar responder a uma série de perguntas. Talvez as respostas não tenham surgido como definitivas, mas o encontro proporcionou um guia de questões sobre a obra Llansoliana que todos os participantes empenhadamente se voluntariaram a responder.
“Este livro vai deixá-lo desconfortavel. Vai fazê-lo pensar outra vez sobre como a linguagem funciona, como se interpreta. Não é fácil de ler. Sofre mutações cada vez que se lê. Desintegra-se e reformula-se a si mesmo”, disse Claire Williams.
Paulo de Medeiros (U. Utrecht) foi o primeiro a fazer perguntas: Será O Livro das Comunidades uma “tentativa de escrita contra um vazio ou um paradoxo?”, perguntou, para depois afirmar que este livro é um “texto temporário sobre o que ainda está por vir; não é um programa ou texto embrionário: é um livro-questão, que levanta muitas questões e que nos deixa a fazer perguntas”.
“Este livro vai deixá-lo desconfortavel. Vai fazê-lo pensar outra vez sobre como a linguagem funciona, como se interpreta. Não é fácil de ler. Sofre mutações cada vez que se lê. Desintegra-se e reformula-se a si mesmo”, disse Claire Williams.
Paulo de Medeiros (U. Utrecht) foi o primeiro a fazer perguntas: Será O Livro das Comunidades uma “tentativa de escrita contra um vazio ou um paradoxo?”, perguntou, para depois afirmar que este livro é um “texto temporário sobre o que ainda está por vir; não é um programa ou texto embrionário: é um livro-questão, que levanta muitas questões e que nos deixa a fazer perguntas”.
Maria de Lourdes Soares (U. Federal do Rio de Janeiro) falou de uma obra “fonte da escrita e do lugar no mundo” e de Ana de Peñalosa, como “fonte-matricial”, “a maternidade de várias espécies”. Esse “medo florido da viagem”, de que Llansol fala no Lugar 26, é “impulsionador de novos textos”, e esse texto “acolhe o dom da generosidade, gerando novas configurações e desviando o fio da história”. “Ana — o seu nome começa e acaba num princípio: “a” amor porque se abre ao terceiro sexo em que a linguagem está separada do masculino e do feminino”, disse.
No texto, Llansol proporciona o encontro e, para Maria Carolina Fenati (U. Nova de Lisboa) “a comunidade é o mecanismo, a dinâmica do texto”. Segundo Fenati, “o texto avança por paradoxos num processo de desaceleração que desafia todos os hábitos”. O leitor terá de se confrontar com os seus códigos, com as comunidades em que está inserido, com o seu papel de cidadão ou de leitor.
Por isso, ler O Livro das Comunidades é como jogar um jogo. Mas Pedro Eiras (U. Porto) disse que não é possível fazer um “jogo das comunidades”. O texto llansoliano, disse Eiras, “não segue as regras de um jogo de linguagem, mas sim as regras incontáveis de inúmeros jogos, sempre surpreendentes. Esta escrita não é, portanto, estocástica, caótica, ela é simplesmente muito complexa: sobrepõe diversas linguagens, reconhecíveis ou não noutros textos de outros autores, e trabalha menos objectos do que um devir.”
A leitura do capítulo sobre O Livro das Comunidades em O Senhor de Herbais, por Francisco Serra-Lopes (U. Barcelona), trouxe alguma polémica ao encontro. O Livro das Comunidades confirma Llansol “na filiação mística”, mas as suas “consequências políticas não são apreciáveis”. Assim, “a congregação simbólica em torno a uma experiência-fulgor parcialmente traduzida na revolução de 1974 parece converter-se, na primeira obra publicada após o 11 de Setembro de 2001 — em certo sentido diabólica — num voto de isolamento e pessimismo.”
Raquel Ribeiro (U. Liverpool) fez uma leitura do Lugar 26 de O Livro das Comunidades, reflectindo sobre o modo como a geração de um monstro, no final deste primeiro capítulo da trilogia, despoletará uma série de novos seres.
No texto, Llansol proporciona o encontro e, para Maria Carolina Fenati (U. Nova de Lisboa) “a comunidade é o mecanismo, a dinâmica do texto”. Segundo Fenati, “o texto avança por paradoxos num processo de desaceleração que desafia todos os hábitos”. O leitor terá de se confrontar com os seus códigos, com as comunidades em que está inserido, com o seu papel de cidadão ou de leitor.
Por isso, ler O Livro das Comunidades é como jogar um jogo. Mas Pedro Eiras (U. Porto) disse que não é possível fazer um “jogo das comunidades”. O texto llansoliano, disse Eiras, “não segue as regras de um jogo de linguagem, mas sim as regras incontáveis de inúmeros jogos, sempre surpreendentes. Esta escrita não é, portanto, estocástica, caótica, ela é simplesmente muito complexa: sobrepõe diversas linguagens, reconhecíveis ou não noutros textos de outros autores, e trabalha menos objectos do que um devir.”
A leitura do capítulo sobre O Livro das Comunidades em O Senhor de Herbais, por Francisco Serra-Lopes (U. Barcelona), trouxe alguma polémica ao encontro. O Livro das Comunidades confirma Llansol “na filiação mística”, mas as suas “consequências políticas não são apreciáveis”. Assim, “a congregação simbólica em torno a uma experiência-fulgor parcialmente traduzida na revolução de 1974 parece converter-se, na primeira obra publicada após o 11 de Setembro de 2001 — em certo sentido diabólica — num voto de isolamento e pessimismo.”
Raquel Ribeiro (U. Liverpool) fez uma leitura do Lugar 26 de O Livro das Comunidades, reflectindo sobre o modo como a geração de um monstro, no final deste primeiro capítulo da trilogia, despoletará uma série de novos seres.
Finalmente, a mesa-redonda sobre “Será Maria Gabriela Llansol traduzível?” juntou todos os participantes do encontro, mais os tradutores espanhóis Mercedes Cuesta e Mario Grande (tradutores para castelhano de O Livro das Comunidades) e Claire Williams (que está a ultimar a tradução para inglês). Depois de se discutirem diferentes excertos das primeiras páginas deste livro, e alguns conceitos que Llansol vai enunciando em toda a sua obra, concluiu-se que, para traduzir Llansol, é preciso chegar a um consenso entre intuição e exactidão.
Publicado às
16:57
26.9.07
AD LOCA LLANSOLIANA (1)
O meu país não é a minha língua,
mas levá-la-ei para aquele que encontrar.
M. G. Llansol, Um Falcão no Punho,
Herbais, 13 de Agosto de 1981)
Fátima Rolo Duarte, uma portuguesa inteligente emigrada/ exilada/ retirada na Bélgica (como Llansol entre 1965 e 1985), fez há dias o périplo dos lugares llansolianos nessas paragens – a cidade de Lovaina, a vila de Jodoigne, a aldeia de Herbais. Assim, por esta ordem, do grande para o pequeno, do urbano para o rural, do deserto social para o jardim selvagem que o pensamento permite, e que permitiu que aí se escrevesse uma parte substancial da Obra insituável de M. G. Llansol.

A Fátima, que se interessa por tudo (quem navegar por este sítio facilmente constatará que assim é), mas é uma leitora desinteressada e sensível de Llansol (com isto quero dizer: que não persegue nenhum interesse particular, nem crítico, nem académico, nem de capela ou de culto, e se deixa apenas guiar na leitura por uma intuição certeira), colocou online uma sequência fotográfica daqueles três lugares, «entre Leuven e Herbais (...), seguindo pelas palavras dela [MGL] o rasto do silêncio que continua a ser silêncio. Tal e qual. Herbais parado num dia de sol e céu muito azul, português.»

Vi as fotos – o link segue dentro de momentos – e recordei o meu próprio périplo, a peregrinatio ad loca llansoliana de há três anos, sob um céu menos luminoso, num frio mês de Dezembro. Nas fotos da Fátima apercebo-me de pormenores que o olho da máquina foi captando e que reconstituem bem o olhar de Llansol sobre a Bélgica, fixado nos Diários e em O Senhor de Herbais: as sombras e os pormenores das casas, o hibridismo de espaços rurais já com tintas urbanas, os campos e a terra fria e plana, o recorte da meia dúzia de casas de Herbais no horizonte, uma ilha cheia de histórias mesquinhas que se repetem há séculos, a mancha do bosque (sombrio, como a alma de Llansol em alguns desses anos de desterro, e que só a escrita obsessiva e a dobra para dentro pôde iluminar), as empenas cegas ou em escada, e o tijolo, muito tijolo, quase só tijolo com ar sólido a prometer eternidade àquelas casas, pequenas e grandes, de campo e vila e cidade, e todas burguesas, dessa Bèlgica de ontem e de hoje, de que Llansol manteve sempre distância e que lhe serviu quase só de mata-borrão que ia absorvendo a «sobreimpressão» de uma língua levada de cá e de estranhas figuras descobertas lá, nesse pequeno mundo aparentemente tranquilo, mas dominado por ressentimentos. Com muito silêncio em volta.

Da distância, a Fátima fala desta perseguição de imagens e põe, como Llansol antes, o dedo sobre essa ferida dos estrangeirados e exilados, que não é saudade de «pátria» nenhuma, mas uma tristeza e um mal-estar pintados de indiferença e alguma ira: «... adorei andar à caça dos passos da escritora. Apanhei um dia de sol lindo, e conforme ia recordando O Senhor de Herbais, partes que sei quase de cor, ia olhando e vendo para crer. Um filme e um mind map. Muito bonita a descida para o silêncio em Herbais, e depois isso de que me fala. As sombras e o contraste com a escrita da Llansol que, a meus olhos, vibra e é luminosa, tão densa como leve, as palavras bailam, não é fácil de ler mas não se pode dizer que seja difícil. Para dizer a verdade, sempre a achei inqualificável. Não a sei arrumar na estante: está à parte.
(...) Lembrei-me, enquanto ia por ali fora, como seria interessante e útil ter um documentário cuja répérage fiz parcialmente. Mas aí em Portugal é difícil aceitarem coisas vindas de ninguém, como eu me sinto ninguém quando tenho de falar com Portugal. Mais facilmente vendo a ideia ao canal Arte. Portugal desertifica-se e daqui vejo o meu país eufórico com nada.»

Há textos de Maria Gabriela Llansol que dizem coisas parecidas. Vários, espalhados por livros publicados (escolheremos alguns para acompanhar uma próxima peregrinatio fotográfica a estes e outros lugares do Brabante que viram nascer a escrita de Llansol) e pelas muitas dezenas de cadernos manuscritos que um dia talvez possam ver a luz do dia em letra impressa. Como o fragmento que publicámos em Agosto aqui.
E agora a ligação às fotos da Fátima Rolo Duarte, que podem ser vistas aqui.
A Fátima, que se interessa por tudo (quem navegar por este sítio facilmente constatará que assim é), mas é uma leitora desinteressada e sensível de Llansol (com isto quero dizer: que não persegue nenhum interesse particular, nem crítico, nem académico, nem de capela ou de culto, e se deixa apenas guiar na leitura por uma intuição certeira), colocou online uma sequência fotográfica daqueles três lugares, «entre Leuven e Herbais (...), seguindo pelas palavras dela [MGL] o rasto do silêncio que continua a ser silêncio. Tal e qual. Herbais parado num dia de sol e céu muito azul, português.»
Vi as fotos – o link segue dentro de momentos – e recordei o meu próprio périplo, a peregrinatio ad loca llansoliana de há três anos, sob um céu menos luminoso, num frio mês de Dezembro. Nas fotos da Fátima apercebo-me de pormenores que o olho da máquina foi captando e que reconstituem bem o olhar de Llansol sobre a Bélgica, fixado nos Diários e em O Senhor de Herbais: as sombras e os pormenores das casas, o hibridismo de espaços rurais já com tintas urbanas, os campos e a terra fria e plana, o recorte da meia dúzia de casas de Herbais no horizonte, uma ilha cheia de histórias mesquinhas que se repetem há séculos, a mancha do bosque (sombrio, como a alma de Llansol em alguns desses anos de desterro, e que só a escrita obsessiva e a dobra para dentro pôde iluminar), as empenas cegas ou em escada, e o tijolo, muito tijolo, quase só tijolo com ar sólido a prometer eternidade àquelas casas, pequenas e grandes, de campo e vila e cidade, e todas burguesas, dessa Bèlgica de ontem e de hoje, de que Llansol manteve sempre distância e que lhe serviu quase só de mata-borrão que ia absorvendo a «sobreimpressão» de uma língua levada de cá e de estranhas figuras descobertas lá, nesse pequeno mundo aparentemente tranquilo, mas dominado por ressentimentos. Com muito silêncio em volta.
Da distância, a Fátima fala desta perseguição de imagens e põe, como Llansol antes, o dedo sobre essa ferida dos estrangeirados e exilados, que não é saudade de «pátria» nenhuma, mas uma tristeza e um mal-estar pintados de indiferença e alguma ira: «... adorei andar à caça dos passos da escritora. Apanhei um dia de sol lindo, e conforme ia recordando O Senhor de Herbais, partes que sei quase de cor, ia olhando e vendo para crer. Um filme e um mind map. Muito bonita a descida para o silêncio em Herbais, e depois isso de que me fala. As sombras e o contraste com a escrita da Llansol que, a meus olhos, vibra e é luminosa, tão densa como leve, as palavras bailam, não é fácil de ler mas não se pode dizer que seja difícil. Para dizer a verdade, sempre a achei inqualificável. Não a sei arrumar na estante: está à parte.
(...) Lembrei-me, enquanto ia por ali fora, como seria interessante e útil ter um documentário cuja répérage fiz parcialmente. Mas aí em Portugal é difícil aceitarem coisas vindas de ninguém, como eu me sinto ninguém quando tenho de falar com Portugal. Mais facilmente vendo a ideia ao canal Arte. Portugal desertifica-se e daqui vejo o meu país eufórico com nada.»
Há textos de Maria Gabriela Llansol que dizem coisas parecidas. Vários, espalhados por livros publicados (escolheremos alguns para acompanhar uma próxima peregrinatio fotográfica a estes e outros lugares do Brabante que viram nascer a escrita de Llansol) e pelas muitas dezenas de cadernos manuscritos que um dia talvez possam ver a luz do dia em letra impressa. Como o fragmento que publicámos em Agosto aqui.
E agora a ligação às fotos da Fátima Rolo Duarte, que podem ser vistas aqui.
J. B. (com F.R.D.)
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23:59
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