23.6.19
O FILME-EM-METAMORFOSE DE ONTEM
Tivemos ontem, com um público muito participativo e viva troca de ideias, uma tarde especial, com a projecção da versão actual do filme de Sílvia das Fadas Luz-Clarão-Fulgor, de que dá conta o texto lido pela cineasta (que aqui se reproduz, e que incluímos no folder feito para esta sessão). Com o som de dois projectores de 16 mm sempre em fundo, lembrando antigas salas de cinema, na luz das imagens em paralelo, a preto-e-branco e a cores, a sala cheia pôde seguir os caminhos da câmara da autora por recantos desconhecidos de um Alentejo profundamente transformado. Este primeiro núcleo de imagens recolhidas e montadas em diálogo irá ser continuado nos próximos meses, para dar origem a novas versões de um filme que se apresenta como obra não acabada.
Luz, Clarão, Fulgor
Augúrios Para Um Enquadramento Não
Hierárquico e Venturoso
Deparei com uma fotografia a preto e branco, impressa num
jornal: as ruínas de uma comuna. Mostra uma árvore, o que resta de uma ruína, uma sombra projectada das suas paredes, até ao solo, um poço, um campo aberto e
florido. Poderia passar despercebida, mas a inscrição da fotografia — «Comuna
da Luz», bastou para acender uma centelha e revelar um rastilho que não resisti
a seguir.
A «Comuna da Luz» foi fundada no Sul de Portugal entre
1917 e 1918 por um anarquista Tolstoiano chamado António Gonçalves Correia. No
aparentemente sereno Vale de Santiago, em Odemira, Gonçalves Correia pôs em
prática uma experiência utópica, por fim esmagada pela repressão policial que
acusou estes companheiros de organizarem uma greve de trabalhadores rurais e de
participarem na conspiração que levou à morte de Sidónio Pais. Gonçalves
Correia fundou posteriormente uma segunda comuna, a «Comuna Clarão», em 1926 em
Albarraque, Sintra. Também não foi duradoura, mas Gonçalves Correia persistiu
em escrever panfletos e cartas para jornais anarquistas, ao mesmo tempo que se obstinava
a comprar pássaros em feiras, apenas para os libertar das suas gaiolas. Este
perigoso agitador comunista, de acordo com a polícia política, proclamou a
revolução como sua namorada, e jurou não cortar as suas longas barbas até que o
regime autoritário do Estado Novo fosse destituído. Morreu antes disso, mas o seu nome é ainda uma contra-senha nas terras do Baixo-Alentejo.
Apesar da escassez de documentos, o que me interessa
nestas tentativas colectivas de viver diferentemente é a irrupção do utópico,
com um excedente de sonhos indestrutíveis — uma condição a que chamo fulgor.
Partindo dos vestígios destas duas comunas comecei a engendrar uma terceira
comuna — «Fulgor» — nas ruínas da primeira.
O que é então o
fulgor? Vem de um texto cuja fonte se encontra n' O Livro das Comunidades, uma obra escrita nas margens da literatura
— em solitude, em fortitude, em cadernos, envelopes, guardanapos, e desenhos,
fragmentos de fragmentos — por uma mulher singular para quem escrever era o
duplo de viver: Maria Gabriela Llansol, a escrevente a quem volto continuamente
porque o seu texto nunca deixou de me perturbar, oferecendo-me resistência e
sustento. De acordo com Llansol, o fulgor é uma procura de luz, uma ruptura no
tempo e historicidade que conjura a possibilidade de encontros inesperados a
partir das margens. A luta quotidiana pelo fulgor é o resultado de uma batalha
contínua: um esforço diário para atingir claridade, intensidade — desejo de uma
cintilação possível e necessária. O fulgor, sendo um momento de revelação
súbita, possibilita um entendimento mais profundo do tempo. Já não estamos no
tempo e espaço da narrativa e da sucessão, mas num campo fulgurante onde Ana de
Peñalosa, Hadewijch, a beguina errante, Thomas Müntzer decapitado ou Hölder (de
Hölderlin), são removidos do firmamento da história para se tornarem parte de uma
outra ordem de significado — transmutados em Figuras que, num encontro
inesperado do diverso, formam uma comunidade de rebeldes. Através de uma
técnica de fragmentação e de sobreimpressão, o fulgor introduz brechas que nos
colocam na presença de encontros que ainda hão-de ter lugar, assim mudando a
ordem das coisas. Deste modo, o combate entre príncipes e camponeses ainda fermenta
e tudo continua em risco, seja em Frankenhausen ou no litoral do mundo
(Llansol), em França ou no Egipto (Straub-Huillet), demasiado cedo ou demasiado
tarde.
Palavras e imagens devêm intensidades vivas. O fulgor é
móvel como o olhar ou o voo de uma bruxa, e como tal também eu me desloco
através de diferentes escalas e temporalidades: da Comuna da Luz à Comuna
Fulgor, de António Gonçalves Correia a Maria Gabriela Llansol, em direcção a
uma comunidade de errantes-mutantes. «A energia cénica do fulgor tem uma
qualidade muito espacial ____________________________ põe os seres em
confronto no auge da sua beleza. Interior, exterior e estética.»[i]
A paisagem que resiste é para mim uma cena fulgor.
Transporta em si o potencial de metamorfose e eu reconheço que a luta
quotidiana pelo fulgor tem de ser uma luta inventiva, uma luta que, tal como
Avery F. Gordon e Inês Schaber a colocam está «implicada no cultivo de formas
de vida e de trabalho independentemente/autonomamente de, ou fora de, ou em
oposição a, ou em alternativa a, ou nos mesmos moldes, mas não inteiramente
dentro dos termos dominantes da ordem social.»[ii]
É o reconhecimento desta consciência utópica, e desta insubordinação, que me
faz desejar uma outra comunidade no agora, mesmo que esta só possa ser
provisória, fugitiva, subterrânea, com raízes fundas mas móveis. E, mal comecei
a ensaiar uma comuna provisória nas ruínas de uma comuna histórica, cedo me
apercebi da necessidade de metamorfosear o ‘eu’ em ‘nós’,
e de em comum mapearmos lutas
contemporâneas e ancestrais pela terra e pelo bem colectivo na caleidoscópica
espacialidade do Alentejo, região com nome de rio, para além de um rio.
Talvez não haja nada de mais exterior do que este
território de desmesura e latifúndios, cuja distribuição de terras remonta aos
tempos da Reconquista do país aos Muçulmanos da Península Ibérica. Os primeiros
proprietários eram nobres, de ordens religiosas ou militares, e nessas terras
as comunidades encontravam-se dispersas e despossuídas. Se pressentimos algum espectro a rondar este filme, e outros que por lá se
fizeram, é provável que seja o da Reforma Agrária, semeada pela Revolução dos
Cravos e pelo breve (quão breve?) período insurreccionário que se lhe seguiu. «A batalha vinha, estava vindo»[iii],
pressagia o texto Llansoliano. Os patrões fugiram, e as pessoas,
cansadas de décadas de opressão e de desigualdades sociais, ocuparam as grandes
propriedades e distribuíram as terras por aqueles que, sem nunca as terem
possuído, as sabiam trabalhar. As mulheres estiveram na frente das ocupações, «praticando
a despossessão em colaboração»[iv]. O
cinema também lá esteve, a lutar através de imagens desta região, em filmes
militantes como A Lei da Terra, filme
colectivo realizado pelo Grupo Zero, que acompanha a ocupação da terra, a auto-gestão
dos camponeses e a criação de unidades de produção; ou Terra de pão, terra de luta, um filme de José Nascimento, que
desconstrói o sistema opressivo dos latifúndios. Mais recentemente, Farpões Baldios, de Marta Mateus, testemunhando
uma forma de vida, histórias contadas, histórias escutadas, matéria de
transmissão e tenacidade. A Reforma Agrária foi uma promessa interrompida,
traída, boicotada. No entanto, olhando para trás, não conseguimos deixar de
pensar que as coisas poderiam ter tomado outro rumo. Altos desejos pairam ainda
na paisagem, com resiliência inscritos
nas suas
árvores
nas suas
gentes
no vivo.
Principiámos
a caminhar e a procurar augúrios no Verão passado, concentrando-nos em
fragmentos de tempo: «a densidade da
Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem.»[v] Ali,
com uma violência inarredável deparámos com: cercas e vedações, propriedade
privada, extracções mineiras, arbustos de oliveiras e amendoeiras em fileiras a
saturar o horizonte (cemitérios, aos meus olhos), trabalhadores migrantes e
clandestinos, rios envenenados, a terra erodida. Ali também, uma luta afim por
uma vida vivível está a ser travada: corpos no processo de resistirem e de se
reinventarem a si mesmos, afirmando as margens, reactivando os vínculos à
terra, tornando-se «indisponíveis para a servidão», opondo-se a projectos
extractivistas, contruindo zonas autónomas, disseminando sementes autóctones e
informação crítica, traduzindo poesia, praticando o dom da hospitalidade. Nós
tecemos, seguimos e emaranhamo-nos num fio de engendrar mundos: «Observando geografias de acção
directa, apoio mútuo, e políticas prefigurativas.»[vi]
Nós estamos a preparar-nos. «Queremos
ver aquilo que fazemos à medida que o fazemos. Não é que questões de habilidade
ou de ofícios tenham sido suspensas. Apenas foram socializadas, desindividualizadas,
partilhadas» (clama Fred Moten). Coral, e em processo, criado e incriado, o
filme é uma ferramenta para a convivialidade (Illich, Andersen), dobra-se e
desdobra-se em espanto, guiado pelo fulgor, ou pela potência para florescer em
enquadramentos não-hierárquicos.
Observando
teimosamente as ruínas de uma comuna, procuramos augúrios.
Por exemplo: uma árvore e uma ruína. Um riacho. Uma serpente. Iremos ver.
Através de
práticas quotidianas de recusa e reencantamento, em dissonância, perguntamos:
«Qual a
relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?»[vii]
Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como
poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação
crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial
e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de
rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade»[viii],
o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda
do cinema?
Que as
imagens em bruto que se seguem possam ser «cartas vívidas e imperceptíveis».
Se
ousarmos.
Sílvia das Fadas
Primavera de 2019
[i] Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004.
(Lisboa: Assírio & Alvim, 2006), p. 198.
[ii] Avery F. Gordon and Ines Schaber, “The Workhouse.” Acessível
em: http://www.averygordon.net/current-projects/the-workhouse/ [acesso em: 31 de Maio
2017]
[iii] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017),
p. 48.
[iv] Fred Moten, “come on, get it!,” The
New Inquire (2018) Acessível em: https://thenewinquiry.com/come_on_get_it/ [acesso
em: 12 de Abril 2019]
[v] Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2017),
p. 11.
[vi] Simon Springer, The
Anarchist Roots of Geography: Toward Spatial Emancipation. (Minneapolis/London: University of Minnesota Press,
2016.), p. 94.
[vii] Fred Moten, Id., Ibid.
[viii] Stefano Harney and Fred Moten, The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study (New York:
Minor Compositions, 2013), p. 42.
Publicado às
11:54
11.6.19
CAMINHOS DO FULGOR:
DE LLANSOL À «COMUNA DA LUZ»
No próximo dia 22 de Junho, pelas 16 horas, vamos mostrar um filme singular e conversar com a sua realizadora, Sílvia das Fadas, que já foi uma preciosa colaboradora do Espaço Llansol, e agora regressa para nos mostrar o seu filme Luz-Clarão-Fulgor (em formato de 16 mm, como todos os filmes da Sílvia), que assimila muito da escrita de Maria Gabriela Llansol sobre a ideia de comunidade, o fulgor, a deshierarquização e o Vivo.
O filme recupera a história do anarquista português António Gonçalves Correia e das suas «comunas» – primeiro, a «Comuna da Luz», em Vale de Santiago/Odemira (1917-18), e depois a «Comuna Clarão», em Albarraque (1926) –, e insere essa história na longa luta de resistência contra os senhores da terra num Alentejo desde sempre marcado por profundas desigualdades.
O filme recupera a história do anarquista português António Gonçalves Correia e das suas «comunas» – primeiro, a «Comuna da Luz», em Vale de Santiago/Odemira (1917-18), e depois a «Comuna Clarão», em Albarraque (1926) –, e insere essa história na longa luta de resistência contra os senhores da terra num Alentejo desde sempre marcado por profundas desigualdades.
A Sílvia resume assim a ideia do seu filme, de que nos falará mais pormenorizadamente no dia 22:
«Qual a relação e/ou a diferença entre emancipação e despossessão?»
Quais as condições necessárias à sobrevivência e reencantamento da terra? Como
poderemos reunirmo-nos num lugar de hospitalidade e ensaiar a nossa imaginação
crítica em direcção a um tempo para além da possessão, uma sociedade não racial
e não capitalista? Que imagens darão forma a este anseio por uma comunidade de
rebeldes, «o segredo a que se chamou solidariedade»,
o sonho fugitivo? Onde jaz a semente da insurgência e qual poderá ser a oferenda
do cinema?
Publicado às
13:53
5.6.19
LLANSOL NA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA
Tivemos ontem, em colaboração com o grupo de leitura da Biblioteca / Espaço Europa, de Campo de Ourique, uma sessão na Feira do Livro de Lisboa, com leitura de textos de Maria Gabriela Llansol pelos actores Mónica Garcez e Pedro Oom, e apresentação de João Barrento e Maria Etelvina Santos. Percorremos alguns dos principais caminhos desta Obra, olhando-a do ponto de vista de quem a escreveu e daqueles a quem ela se oferece à leitura.
Mónica Garcez e Pedro Oom lêem Llansol
Publicado às
11:11
31.5.19
LLANSOL EM PARIS
No próximo dia 6 de Junho será apresentada na Fundação Gulbenkian em Paris a antologia francesa de textos de Maria Gabriela Llansol que organizámos para as edições Pagine d'arte, À l'ombre du clair de lune.
Publicado às
18:35
26.5.19
«PORQUE HÁ UM CONTRATO...»
O Vivo e a tecitura do mundo
Tivemos ontem no Espaço Llansol uma sessão viva sobre o Vivo. Com a participação da Profª Teresa Cadete (jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa), escritora e até há muito pouco tempo Presidente do PEN Clube Português, com uma permanente intervenção em áreas como as do Comité dos Direitos Humanos, dos Escritores para a Paz, da luta contra o Acordo/Aborto Ortográfico... Apresentámos mais um caderno de textos de Maria Gabriela Llansol sobre o tema, e pudemos ver uma dupla exposição: de livros, cadernos manuscritos, documentos da biblioteca e do espólio de Llansol, e de painéis com fotografias legendadas que mostravam alguns dos «Vivos» que acompanharam a Maria Gabriela ao longo da vida – do gato Fanfan da infância à Melissa de Sintra e aos muitos gatos dos anos da Bélgica e de Colares, de Prunus Triloba ao pinhal de Colares e ao Grande Maior da Volta do Duche e ao cão Jade...
O ponto de partida foi o titulo que Teresa Cadete encontrou para a sua exposição: «Presos no tecido do mundo», que implica desde logo uma visão holística, de interdependência e cooperação entre todos os agentes do Vivo:
Porque há um contrato... um «acordo de criação»... É o homem que tarda no cumprimento
da sua parte do acordo.
Aliás, todo o movimento do texto e das figuras de desenrola numa respiração ampla, marcada
por uma sístole e por uma diástole. A sístole é aguda e está a cargo do Homem, que tem por
incumbência perscrutar. A diástole compreende os graves, que estão en contacto com as
fontes de alegria. Sempre se pediu que a alegria fosse profunda, como o amor. Os graves
estão a cargo dos animais e da terra. (M. G. L., entrevista «O espaço edénico»)
Abordaram-se em seguida algumas questões subjacentes aos textos de M. G. Llansol que incluímos no caderno Llansol: O Contrato com o Vivo, para os amplificar com considerações sobre o estado actual dessa antiga dialéctica tensional entre os contratos – o social (de Rousseau) e o natural (de Michel Serres) – e sobre a relação entre os universais antropológicos da espécie humana e os direitos de todas as outras «entidades» do Vivo. Teresa Cadete proporcionou-nos uma perspectiva informada e crítica sobre essa grande construção a que Llansol sempre chamou o seu «projecto do Humano»:
A ideia de que tudo o que não é humano tem, tal como o humano, necessidade
de redenção, é vital para a nossa continuação aqui, ou noutro lugar.
(M. G. L., Onde Vais, Drama-Poesia?)
As propostas de leitura do Vivo com recurso a teorias sistémicas de teor holístico revelaram-se, sem surpresa, muito próximas do pensamento sobre o Vivo e o Humano que encontramos nos textos de Llansol. Os três tópicos evocados por Teresa Cadete – os elos da cadeia do Ser, a ciclicidade regeneradora da natureza (contrária aos ciclos industriais e à fatídica ideologia do «crescimento» que nos dominam) e o princípio da cooperação (e não destruição) para manter o equilíbrio da vida no globo – encontraram naturalmente as suas correspondências em M. G. Llansol:
A grande e profunda tristeza dos humanos (e também das outras espécies) vem-lhes de
terem perdido o anel. Esta realidade tem especial incidência em nós, porque só nós
podemos decidir deixar o outro ao abandono. Coisa que um bicho, uma planta, o cume
de uma montanha, o curso de um rio nunca fazem...
Não reprimas o desejo profundo de beleza, mas nomeia as relações que nascem entre os
seres e as coisas, entre o vivo e o inerte. A beleza está ligada ao inesperado, ao novo; odeia
o monótono, o fixo pelo fixo, e seguro por medo; impele o movimento e, sobretudo, inscreve
no vivo um princípio de bondade... («O espaço edénico»)
Convocámos, na discussão animada que se seguiu, muitos nomes, livros, ideias (Rousseau e Adam Smith, Spinoza, Goethe e Schiller, Luc Ferry e Michel Serres, Emanuele Coccia e José Tolentino Mendonça...), para concluirmos que não há no «projecto do Humano» de Llansol propriamente uma utopia – pelo menos no sentido clássico do termo –, mas antes a afirmação de um «princípio esperança» (como o de Ernst Bloch e da sua «utopia concreta») e a construção livre e des-hierarquizada, evolutiva e convergente, de uma ucronia que convoca para o seu texto toda a pluralidade do Ser, segundo um duplo princípio «sensualético» de bondade e de beleza:
A folha erótica
A folha erótica não é de um caderno, de um livro_______ é de uma árvore. Tem um grito
cantante, de animal, depositado nas nervuras. Não sei a que ramo vegetal de vida pertence.
É como eu...
Se o erótico for sempre a manifestação de um instinto genésico, isto é, corresponder
sempre a um instinto criativo feliz________ se o orgasmo for a última pedrada na folha
resplandecente
que não se magoa,
mas voa,
se, voando, deixar a mesma folha que era no ramo_______
se o luar libidinal for o último azul do verde da folha erótica,
então ficarão arrumadas as palavras
que pronunciaram como a felicidade tinha sentido e era o único espaço de procriação...
(Caderno 1.51, 16 de Julho de 1998)
Publicado às
15:06
20.5.19
LLANSOL E IBN 'ARABÎ EM REVISTA
Acaba de ser publicado online o número VI, de 2019, da revista El Azufre Rojo (O Enxofre Vermelho), revista de estudos sobre o místico sufi Ibn 'Arabî, editada pela MIAS Latina, a Sociedade Ibn 'Arabî de Murcia.
Este número reproduz as intervenções do Colóquio A Imaginação do Amor, que teve lugar em Lisboa em 2017, com organização do Espaço Llansol, da MIAS Latina e do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com participação portuguesa, espanhola e brasileira.
Todas as intervenções – e ainda um depoimento pessoal da Profª Christine Gruwez, que conheceu Maria Gabriela Llansol no exílio da Bélgica e a introduziu ao místico sufi – podem ser lidos na versão PDF a que se pode aceder através do seguinte link: https://revistas.um.es/azufre/issue/view/17961/1171
Publicado às
22:43
14.5.19
LLANSOL: O CONTRATO COM O VIVO
No próximo dia 25 de Maio, pelas 16 horas, teremos mais uma das nossas habituais sessões exploratórias do universo Llansol, desta vez em torno da presença do «Vivo» (toda a natureza, plantas, animais e até os chamados «inertes») na sua Obra e na sua vida. Conversaremos com a Profª Teresa Rodrigues Cadete, da Faculdade de Letras de Lisboa, sobre este tema tão actual, mostraremos um video feito para o nosso encontro da Arrábida por Regina Guimarães e Saguenail, ainda com Maria Gabriela Llansol, em 2003, daremos a ver documentos, livros e fotografias sobre o tema, e o público lerá textos de Llansol sobre o Vivo.
Nesse dia, como diria a Maria Gabriela, seremos todos «Vivos no meio do Vivo». E poderemos lê-la, como habitualmente, em mais um dos nossos Cadernos de Tejo-Rio dedicados a este tema.
Publicado às
22:37
8.5.19
LLANSOL PELO MUNDO
Dois eventos em torno de Maria Gabriela Llansol, que continua a fazer caminho entre nós e pelo mundo:
1. Hoje, às 19 horas, Maria da Conceição Caleiro lerá Amar Um Cão e conversa com o público na livraria Snob/Cossoul em Lisboa (Rua Nova da Piedade, 66).
2. No dia 14 de Maio, das 12.30 às 13.30h, Ana Rita Reis, Doutoranda da Universidade de Coimbra, frequentadora regular para investigação no Espaço Llansol desde Sintra, actualmente Leitora do Instituto Camões na Universidade de Guadalajara, México, fará uma conferência em que põe em contacto Maria Gabriela Llansol e o escritor chileno Roberto Bolaño.
Publicado às
11:04
28.4.19
A «MAGNIFICAÇÃO DO FEMININO»
As beguinas na Casa de Julho e Agosto
A tarde de ontem no Espaço Llansol foi dedicada à «Magnificação do Feminino» (Finita, p. 193). De beguinas se falou, na história e nos livros de Maria Gabriela Llansol (que as vê como «as outras de mim mesma»), da sua piedade e das suas heresias, das suas muitas artes, todas presentes nos livros de Llansol, entre A Restante Vida (1983) e O Senhor de Herbais (2002): as do livro, da costura e do bordado, as da escrita e da leitura, as da horta e da cozinha, as da atenção ao outro e aos animais...
Estas figuras de movimentos femininos à margem do poder e da Igreja, mas não do mundo, são mulheres múltiplas, nómadas e transformadoras, de si próprias e sobretudo de figuras masculinas, que no universo de Llansol descem dos pedestais da glória para a condição simplesmente humana, ou natural, de seres da des-possessão (tal como faz essa contenporânea das beguinas históricas, a Beatrice da Vita Nuova de Dante, figura do amor completo também ela, contraposta à Meretrice, a Igreja como instituição). Movendo-se continuamente entre o Brabante, Lisboa, o Cabo Espichel e «as fontes do Tigre e do Eufrates», as Margaridas, Eleonoras, Úrsulas, Claras e Odílias dos primeiros livros chegarão, na Obra de Llansol e já neste século, nos anos de escrita de Parasceve. Puzzles e ironias, a um novo e inaudito beguinato, a «cidade-árvore» de Parasceve, implantada no lugar imaginário e imaginante do «Grande Maior», árvore interlocutora da Volta do Duche, em Sintra, lugar de todas as promessas para a mulher-narradora do livro, e morada das novas beguinas, agora designadas de «parascevianas». «Agora» – escreve a Maria Gabriela num caderno do ano 2000 –, «as beguinas, cobertas por um murmúrio de resposta, intitulam-se, no novo espaço abobadado aberto, parascevianas...»
João Barrento falou da história e do «engenho» destas mulheres singulares dos séculos XIII e XIV (Hadewiijch de Antuérpia, Marguerite Porete, Béatrice de Nazareth, Hildegarda de Bingen, Mechthilde de Magdeburgo e milhares de outras, anónimas), das suas ligações aos vários movimentos heréticos da Idade Média (os Fiéis do Amor, os Irmãos do Livre Espírito, as doutrinas joaquimitas, o franciscanismo herético, cátaros e Albigenses...). E passou mesmo por uma carta do nosso Manuel Severim de Faria, de 1637, em que se dá voz ao desejo de que tais mulheres descessem da Europa do Norte para se instalarem também neste nosso «Litoral do mundo», o que nunca aconteceu (a revelação deve-se à nossa amiga Isabel de Lima e Almeida, ilustre camonista da Faculdade de Letras de Lisboa).
E finalmente fomos dar às duas trilogias de Llansol, onde tantas dessas mulheres, agora com nome figural, têm lugar de destaque. Mostrámos dois videos que fizemos, como Daniel (Ribeiro Duarte) na Bélgica, no béguinage de Bruges e na tipografia de Plantin-Moretus, em Antuérpia. E a Maria Poppe leu alguns textos de M. G. Llansol sobre o tema, e poemas de Hadewijch em tradução portuguesa.
E a tarde acabou em grande festa de convívio na nossa sala da lareira.
Publicado às
16:46
27.4.19
O ESSENCIAL DE LLANSOL
EM FRANÇA E ITÁLIA
As antologias de textos de Maria Gabriela Llansol que organizámos, e que sairam em francês e italiano na Editora Pagine d'Arte, continuam a fazer o seu caminho em França e em Itália.
O último número da revista mensal de literatura contemporânea Le Matricule des Anges traz duas páginas dedicadas à antologia À l'ombre du clair de lune, pelo crítico e leitor de Maria Gabriela desde os anos noventa, Richard Blin (que nesses anos já escrevera sobre Um Falcão no Punho). O artigo destaca alguns dos traços essenciais desta escrita, e conclui: «Defesa e ilustração do texto de fruição [texte de jouissance, como lhe chamou Barthes!], a Obra de M. G. Llansol faz emergir das dobras do real uma forma inédita de literatura fundada na filosofia, na ontologia e na arte do prazer, para melhor se aproximar da misteriosa glória de viver e ao mesmo tempo dando voz ao desconhecido do mundo que nos rodeia».
A antologia italiana – A l'ombra dell chiaro di luna – terá uma apresentação na Biblioteca di Roma-Casa delle traduzioni, especializada em literatura traduzida, pela mão da poeta italiana Rosa Pierno, no próximo dia 14 de Maio. E depois falar-se-á também desta antologia em Mântua, no âmbito do 5º Festival Internacional de Poesia dessa cidade, com a presença dos editores Matteo Bianchi e Carolina Leite, e do poeta Flavio Ermini, que escreveu um prefácio à antologia.
Publicado às
10:18
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