28.10.18

LLANSOL NA NEW YORK REVIEW OF BOOKS

O número de hoje da influente publicação The New York Review of Books traz uma versão livre do prefácio de Benjamin Moser, o conhecido biógrafo de Clarice Lispector, à edição americana da primeira trilogia de Maria Gabriela Llansol, de que já aqui demos notícia.
O texto pode ser lido em:



Destacamos desse texto de Benjamin Moser (que na edição de Geography of Rebels tem o título «Llansol, Poet of the Posthumous») esta passagem significativa:
«Podemos facilmente imaginar o desespero de uma escritora exilada e sem editor, a meio da vida. A história da literatura oferece-nos muitos exemplos de pessoas nessa situação, que desistiram de escrever e de viver. Só uma mulher de uma energia invulgar podia ter transformado tal necessidade numa virtude, e não deixamos de nos espantar com a coragem que foi precisa a Llansol para escrever como escreveu. Para o fazer tinha de renunciar a uma carreira literária, aceitar a ideia de que uma vida de trabalho podia estar destinada ao lixo – e ainda assim continuar.»

24.10.18

LER DUPLAMENTE
As Décimas Jornadas Llansolianas



Propusémos, para estas Décimas Jornadas Llansolianas, a uma dezena de escritoras e escritores portugueses que viessem simplesmente dar testemunho do(s) modo(s) como lêem Llansol. A aparente singeleza da proposta haveria de desdobrar-se, multiplicar-se, amplificar-se durante dois dias numa grande diversidade de aproximações e vozes que deixaram ouvir na Casa de Julho e Agosto um amplo espectro de ecos, reverberações, respostas e diálogoa entre os textos e as experiências de leitura próprios e o universo da escrita de Llansol.

Como ela própria, afinal, sempre fez com os muitos que leu e transformou, assimilando-os numa original alquimia, em matéria figural da sua própria escrita. Ler como quem conversa com um Alguém, aparentemente sem finalidade, mas produzindo «um efeito raro e diverso da leitura», escreve a Maria Gabriela num dos seus cadernos, esclarecendo ainda: «O que lia tinha uma intensidade nova, como se o companheiro de ler estivesse aberto sobre a página».

Era este o modo de ler da Maria Gabriela, e não foi muito diferente o dos muitos que a leram para nós nestas Jornadas. Numa «relação de anel» como a que ela imaginou para Témia com a sua «estátua de leitura» (da qual Hélia Correia se foi aproximando em bicos de pés no seu belo texto).
Num dos seus últimos cadernos, Llansol resume o que para ela, e agora também para nós, havia de mais essencial nos rituais de leitura: «Está a ler – ler não serve para nada se não houver um lugar de intimidade em que os anéis estejam sobre uma mesa iluminada.»

Foi assim também nestas Jornadas, que nos deram a ouvir cumplicidades diversas e uma diversidade cúmplice de olhares sobre o Texto, todas com um mesmo centro, o do livro único de Llansol. À mesa da sala grande da Casa, iluminada pela luz desse Texto, os escritores que aceitaram dar o seu testemunho de leitura nestas Décimas Jornadas Llansolianas foram também duplos agentes de leitura: leram os livros de Maria Gabriela Llansol e deram-se a ler a quem os ouviu nesse lugar.

«Ler é provocar as palavras», lemos num caderno do espólio. Pro-vocare é desafiar, estimular incentivar, chamar as palavras. E muitas responderam ao apelo, saindo, recortadas e pensadas, graves e jubilosas, livres e irreverentes, da «caixa de leitura» dos escritores legentes que no último fim de semana se encontraram com o seu público no Espaço Llansol.


Também a Maria Gabriela certamente os ouviu e lhes agradeceu, antes mesmo de os ouvir, talvez com esta frase do seu último Livro de Horas:
«Penso, com gratidão, nos autores que esta semana me vão dar umas horas de apaziguamento, de leitura.»

22.10.18

UM LIVRO-BALANÇO

Vamos apresentar no próximo dia 25 de Outubro, às 18 horas no Espaço Llansol, um livro especial, desta vez em estreita colaboração com a Junta de Freguesia de Campo de Ourique: Llansol: Uma vida de escrita. De Campo de Ourique... ao infinito.

Este livro nasceu em 24 de Novembro de 2017, dia em que se assinalavam oitenta e seis anos do nascimento de Maria Gabriela Llansol, e também o da abertura oficial do novo Espaço em Campo de Ourique. Nasceu de uma sugestão feita nesse dia pelo Presidente da Junta de Freguesia, Dr. Pedro Cegonho, a de reunirmos em volume alguns dos muitos cadernos que vimos fazendo desde 2009 para as sessões públicas do Espaço Llansol, particularmente aqueles que pudessem proporcionar a novos leitores um percurso biográfico de M. G. Llansol, o conhecimento de lugares, vivências, projectos, cumplicidades e paixões, determinantes da sua vida, desde que nasce em Campo de Ourique, na Rua Azedo Gneco, até aos últimos anos em Sintra.
E como a vida de Llansol foi a sua escrita, e vice-versa, a melhor maneira de compor essa narrativa é a de a dar através da própria escrita de Llansol, como acontece neste novo livro, composto predominantemente por inéditos do seu espólio e muita documentação fotográfica e iconográfica.

17.10.18

NOVOS LIVROS
de e sobre Llansol

Preparámos nos últimos meses mais algumas edições que agora nos chegam. Uma delas – Llansol: Uma vida de escrita – será apresentada no próximo dia 25 de Outubro no Espaço Llansol, e outras se anunciam para breve. 
As três últimas novidades editoriais do universo Llansol, de que falaremos nas próximas Jornadas Llansolianas (para além do Livro de Horas VI, saído em Junho), são as seguintes:


1. A BIBLIOGRAFIA que regista tudo o que Llansol publicou e o que se publicou sobre a sua Obra, desde 1952 (obra própria) e 1962 (crítica):
«Nas últimas três décadas, em Portugal e no Brasil, no espaço universitário e fora dele, na crítica, no ensaio e no testemunho, a bibliografia llansoliana não tem parado de crescer. Esta recolha põe em evidência uma realidade de que talvez poucos se tenham apercebido: o Texto, 'lugar que viaja', continua em plena travessia, viajando com um número crescente de legentes que, na sua maior parte, souberam corresponder ao seu apelo e 'exercitar os pés por entre imagens, e as mãos sobre a escrita.' (...) Estamos agora em condições de ver melhor onde nos levou muita escrita feita sobre o texto llansoliano – ou com ele, em 'sobreimpressão'. E isso mostrar-nos-á com mais clareza os caminhos que ainda podem ser percorridos.» (da Introdução). Edição Mariposa Azual, na colecção Rio da Escrita, nº 12.


 2. O LIVRO-FONTE: Trata-se do livro que documenta as Jornadas Llansolianas der 2017, evocativas dos quarenta anos da publicação d' O Livro das Comunidades:
« Poucas vezes um livro terá sido visto pelo seu autor, ao longo de toda uma vida, como tão inequivocamente inaugural e seminal como O Livro das Comunidades por Maria Gabriela Llansol. O caso mais frequente é precisamente o oposto, o da rejeição ou relativização das primeiras obras. O Livro das Comunidades, porém, estaria destinado a assumir um lugar determinante como paradigma de uma escrita e de um lugar no mundo que haveria de marcar toda uma linhagem de livros e figuras, como 'ponto de partida de uma espiral' cujas circunvoluções, ao longo de quarenta anos de escrita, acabariam por traçar um arco que une princípio e fim ...» (da Introdução). Edição Mariposa Azual, na colecção Rio da Escrita, nº 13.


3. À L'OMBRE DU CLAIR DE LUNE: A antologia de textos de Llansol em tradução francesa, feita a partir da sua Obra édita e inédita. Selecção de João Barrento, tradução de Guida Marques e prefácio de Laurence Nobécourt:
«A Obra de Llansol é um Mar Vermelho que se abre para deixar passar os Hebreus, uma Páscoa que promete a liberdade do deserto, uma passagem..., uma barca. Não serão muitos os que podem ter lugar numa barca. Mas nela podemos deixar-nos levar de um mundo a outro, com discreção, nas brumas de uma água misteriosa, sem conhecer a geografia exacta das margens. Llansol é uma história de margens e de litoral, de mão estendida para alcançar outra praia.» (do prefácio de Laurece Nobécourt). Edição Pagine d'arte, na colecção Ciel Vague, 78 pp.


4.10.18

ESCRITORES QUE LERAM LLANSOL

As Décimas Jornadas LLansolianas, que terão lugar no Espaço Llansol nos dias 20 e 21 de Outubro, a partir das 11 h e durante todo o dia, trarão à «Casa de Julho e Agosto» escritores de várias gerações e tendências, que darão testemunho sobre a sua leitura de Maria Gabriela Llansol. As Jornadas decorrerão, assim, sob o signo da leitura-escrita, um tema desde sempre caro a Llansol, que sobre ele escreve: «Quando leio, leio duplamente, porque simultaneamente escrevo o que outros hão-de ler... O meu texto e o de outros iniciam as suas vidas paralelas...».

Nestas Jornadas, para além da música com ligações a Llansol, numa peça do compositor João Madureira comentada pelo próprio, e das habituais leituras sobre o tema, pela actriz Rita Loureiro, contaremos com os depoimentos dos escritores Eduardo Lourenço, Hélia Correia, Manuel Gusmão, Julieta Monginho, Patrícia Portela, Ana Marques Gastão, José Manuel de Vasconcelos, Marta Chaves, Elisabete Marques e Rita Taborda Duarte.
Fizemos para a ocasião, como sempre, um caderno com muitos inéditos sobre o tema, e a exposição de livros da biblioteca de M. G. Llansol mostrará os modos como ela inscrevia a sua própria escrita no corpo dos que lia.
Deixamos aqui o programa pormenorizado, e contamos com a presença de todos os leitores de Llansol – e das escritoras e escritores que nos dirão como a leram e lêem.

3.10.18

«GABRIELLE»
A máquina de escrever em exposição

A Biblioteca Municipal da Sertã inaugura no dia 13 de Outubro, uma exposição de máquinas de escrever de alguns escritores, desde Fernando Pessoa, onde estará também presente a «Gabrielle» de Maria Gabriela Llansol, a sua penúltima máquina de escrever. Llansol gostava desta máquina, bem mais do que daquela que veio depois, eléctrica, e de seu nome «Dora». E deixou registo das suas preferências numa página de dossier escrita já nesta última, em 1998.
A exposição da Sertã estará aberta ao público até 30 de Novembro.


27.9.18

LLANSOL: AS RAZÕES DO CORPO

A próxima sessão da nossa Casa de Julho e Agosto – no sábado, 13 de Outubro, às 17 horas – centra-se num tema fundamental de toda a escrita de Maria Gabriela Llansol: o corpo e as suas razões, que não são da ordem do racional, mas do libidinal, afectivo, erótico. Desde o corp' a 'screver que «mete medo», em O Livro das Comunidades, passando pelos corpos entregues ao amor ímpar em Contos do Mal Errante, até aos múltiplos desenvolvimentos do lema de Spinoza «ninguém sabe o que pode um corpo», ou de Nietzsche, «o corpo, a grande razão», este tema atravessa toda a Obra de Llansol.
Por isso ela tem sido «traduzida» para tantas linguagens não verbais – o desenho e a pintura, a colagem e a fotografia, a música e o cinema, e também para essa arte do corpo por excelência que é a performance.

É desta última arte, mas também da presença do corpo na escrita de Llansol, que falaremos no dia 13 de Outubro no Espaço Llansol: 
– João Barrento introduz o tema (a partir dos textos impressos num folder que distribuiremos); e dois artistas brasileiros falarão das suas experiências de trans-mutação de textos de Llansol em escrita dos corpos:
Bernardo Bethônico, que desde há algum tempo integra o grupo C.E.M.-Centro em Movimento, de Lisboa, que por mais de uma vez partiu de textos de Llansol para espectáculos performativos; e
Isadora Bellavinha, responsável artística do espectáculo Entre - Uma casa que se torna, recentemente apresentado no Festival Muscarium, do Teatro Mosca de Sintra.

3.9.18

«ENTRE - UMA CASA QUE SE TORNA»
Um espectáculo a partir do universo Llansol



Integrada no Festival MUSCARIUM, do Teatromosca de Sintra, ai estar em cena nos próximos dias 11 e 12 de Setembro, às 21 horas (no AMAS-Auditório Municipal António Silva, Shopping Cacém, em Agualva-Cacém) uma performance criada pela artista brasileira Isadora Bellavinha a partir do universo literário de Maria Gabriela Llansol (mais informação em:  https://teatromosca.weebly.com/muscarium4.html



«O espaço da CASA, do JARDIM e do IMAGINÁRIO são conjugados e reconfigurados numa sobreimpressão de ambientes abertos aos viajantes em travessia. O público é convidado a habitar essa casa viva com seus antigos moradores que, desdobrando questões do universo de escrita llansoniano, apresentam uma Paisagem onde os protocolos são desorientados, onde o PODER não pode imperar e cada corpo tem sua própria lei de evolução. Um lugar onde tempos, espaços, seres e sons se sobrepõem sem se oprimir e compõem uma ritualística do encontro, tanto entre humanos, como entre as inumanidades de que somos feitos. A Casa transcriada é Corpo e Texto, sem interior nem exterior, em permanente desconstrução, abrigo para rebeldes, refugiados, excluídos. Toda a visita é bem-vinda: ENTRE.»

2.9.18

«O LITORAL DO MUNDO» EM ESPANHA

Saiu em Madrid, na editora Chamán, a segunda trilogia de Maria Gabriela Llansol, «O Litoral do Mundo», que engloba os títulos Causa Amante, Contos do Mal Errante e Da Sebe ao Ser. A tradução, como sempre, é de Mario Grande e Mercedes Cuesta, o tandem que dá pelo nome de Atalaire. É mais um passo importante na expansão desta Obra pelo mundo. E em breve haverá mais notícias de edições vindas do espaço francês e italiano...


Pode encontrar-se informação sobre o novo livro de Llansol em castelhano na página da Editora:
https://chamanediciones.es/producto/el-litoral-del-mundo-maria-gabriela-llansol/


1.7.18

«JADE» E «SOL» NA CASA DE JULHO E AGOSTO

Jade, o cão do futuro, regressou à casa de Julho e Agosto, agora de braço dado com a sua companheira,  cadela Sol. No pátio da casa, pela voz da artista Marta Bernardes, dialogaram Gabi e Emily, a Llansol de Amar Um Cão e a Hélia Correia de O Regresso de Jade

Marta Bernardes

Sob os olhares de Jade na parede do fundo, e de Sol, atenta aos pés da dona, obedescente-independente, não tanto obediente, palavra que «partiu em três pedaços iguais», a Marta recorda, emprestando a voz à Hélia:

Muitos anos mais tarde, se quisermos contar o tempo pelo calendário, esse cão do futuro enfim nasceu. Teve por nome Leão Jade, ruivo como um leão, ou Jade, só. Jade é nome de pedra preciosa.
Ninguém chegou a conhecer a mãe de Jade. O cachorrinho foi deixado suspenso num medronheiro, num berço feito pelos ramos, um berço que não estava nem na terra nem no céu. Jade sentia que não era verdadeiramente pássaro nem verdadeiramente quadrúpede.
Aquele lugar onde ele tinha surgido estava habituado a acolher com bondade todos os seres vivos e entregara-o ao medronheiro. Jade sentia inclinadas sobre si como que umas asas de animal.

E a tarde prosseguiu, entre o eco alto dos aviões e as modulações da voz límpida da Marta na sua leitura encenada, com o público a comentar e interrogar no fim a singular história daquele cão que queria aprender a ler, que viera do futuro, que, mais do que um simples animal, era uma alma crescendo. Foi, pode dizer-se, mais uma cena fulgor. Que a Hélia, no seu Regresso de Jade, define assim, sempre com Gabriela:

Jade partiu da casa junto a Sintra.
Seguiu o seu próprio caminho, seguiu pelo roteiro que tinha no seu corpo.

E ele encontrou-se no centro de
uma cena fulgor.
O que é uma cena fulgor?
Digamos que é um sítio muito especial existente nos livros da Maria Gabriela. É um lugar cheio de luz onde tudo é possível para o tempo, para o espaço e para os seres.
Pessoas que não podem encontrar-se porque vivem em épocas diferentes sentam-se à mesma mesa para jantar, paisagens distantes sobrepõem-se umas às outras como se fossem planos transparentes, invisíveis que ficam visíveis... Enfim: cena fulgor é algo muito especial que se consegue, não com truques de magia, mas entrando nos livros que ela escreve.

Deixamos aqui um documento inédito, escrito por Augusto Joaquim depois da morte do seu cão Jade, e que integra o caderno que fizémos (e ainda está disponível):


 (Clique nas imagens para aumentar e ler)

E o resumo da tarde em imagens, no video que se segue: