25.2.18
LENDO A LUZ DO «CURSO DE SILÊNCIO»
Tivemos ontem a primeira sessão do ciclo «A Luz de Ler», que dedicámos ao livro Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, e também à memória de Teresa Belo, que há uma semana nos deixou. E dialogámos com o espectro amplo e diverso de amigos e leitores de Llansol que vieram à «Casa de Julho e Agosto» sobre os modos de ler este grande livro do luto, amplificando e tentando iluminar alguns dos seus «fragmentos sem elo lógico», ouvidos na voz de quem os escreveu.
Com algumas páginas manuscritas e um friso de fotografias do «Ambo» formado por Gabriela-Augusto (ou, figuralmente, Gabi-Nómada), fomos percorrendo os temas e motivos que os fragmentos ouvidos nos sugeriam. E passámos pelo trabalho de luto a contrapêlo que este livro oferece, pelas distinções, já freudianas, entre «luto e melancolia», e que aqui têm também o seu lugar; seguimos o caminho da luz a partir das trevas, que nos permitiu ir percebendo como aqui não há uma narrativa do luto, mas antes uma «tecelagem» de intensidades e silêncios alternantes, que leva à progressiva transmutação da dor e da perda no silêncio jubiloso da escrita, pela interrogação (do mistério da morte que não há) e da escuta do outro (desde o «Quero saber mais do lugar para onde irei» até ao derradeiro «Eu estou bem», sob o grande metrosideros do Jardim da Parada, em Campo de Ourique).
Os fragmentos lidos sugeriram-nos um percurso pelos modos da «legência» com o corpo, alertaram-nos para a função lutuosa-jubilosa dos objectos no momento em que ganham existência figural no texto, ou para os processos de «decepação da memória», que é uma forma de fazer «os despejos do presente», um processo de libertação que já conhecemos de outro livro, Parasceve. Puzzles e ironias, que explicitamente se continua em Amigo e Amiga.
A conversa final com alguns dos presentes permitiu-nos ainda chegar mais próximo do sentido último deste livro e dos modos possíveis de o ler, que a própria Maria Gabriela, no início do discurso de agradecimento do Grande Prémio de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído a Amigo e Amiga, resumia deste modo lapidar e surpreendente: «Este livro, Amigo e Amiga, exprime a escolha entre o abandono à dor destrutiva e a opção pela dor criativa. Abriu-me o caminho da música, e nele prossegui com Os Cantores de Leitura.»
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16:35
21.2.18
UM NOVO CICLO:
«LLANSOL - A LUZ DE LER»
Para Llansol, ler era indissociável do acto de escrever (de «escreler»), criando-se desde logo um «elo de escrita e de leitura». Ler é «nunca chegar ao fim de um livro», mas podemos sempre tentar iluminá-lo percorrendo os seus meandros, decifrando os seus enigmas, acompanhando a surpresa das suas «cenas fulgor». As mais das vezes bastam alguns fragmentos, a parte lança de imediato luz sobre o todo, que é o livro, mas também o corpo e a energia libidinal que o escreveram, e que nele estão presentes em qualquer página.
É o que queremos fazer com o novo ciclo que inauguramos no próximo sábado, 24 de Fevereiro, às 16 horas, e em que, a partir de algumas páginas de um livro, procuraremos iluminá-lo por dentro, com a participação de quem vier. Assim chegaremos todos talvez um pouco mais perto do que há de mais revelador nesta escrita. Desta vez, com a ajuda da própria voz de Llansol, que ouviremos em gravações de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio d 2004, o grande livro do luto que, paradoxalmente ou não, é uma caminhada no sentido de uma luz cada vez mais clara, apaziguadora e jubilosa.
E assim o espaço da nova «Casa de Julho e Agosto» encontrará a sua vocação primeira, que é a de dar a ler – e ouvir – a escrita de Llansol e o seu mundo inconfundível.
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12:42
18.2.18
«… NADA DISTO CABE NUMA SÓ PALAVRA…»
Teresa Belo na «Letra E» do Espaço Llansol, em Sintra
Sentimos já o peso da recordação daquela que ontem nos deixou, a Teresa Belo, grande amiga do Espaço Llansol e da escrita da Maria Gabriela.
«Somos hóspedes de um só dia», lemos em Salomão 5, 15, e O Ruy (Belo), que hoje e aqui iremos cruzando com Llansol para nos aproximarmos da Teresa, repete-o no título de um dos seus poemas: «Somos hóspedes e peregrinos sobre a Terra». Muitos são os momentos da sua poesia onde um sereno meditar o leva até ao limite do abismo do tempo, por vezes num diálogo com os que, afinal como ele próprio, partiram cedo de mais – e que agora se poderia repetir com a sua Teresa:
Que foi..., amiga? O que é feito de ti? Que se passa contigo?
[…] Acaso caberiam nestes dias
essas mágicas mãos feitas de estrelas?»
Onde, sem ser no Verão, sem ser em nós,
terá enfim ficado o teu sorriso?
Certamente numa qualquer «margem da alegria», diríamos. Agora que te despediste da «terra da alegria», onde estiveres, seja onde for, é o jardim de harmoniosos pensamentos. Foste para onde foste
Cansaste-te e foste-te embora
não passarão por ti mais primaveras
fosses para onde fosses foste decerto
para o país de onde afinal eras…
Sabes, Teresa, a nossa Gabriela, sempre tão presa ao júbilo e ao fulgor do mundo, sabia do lugar onde agora ambas vos cruzais. A morte, dizia ela, é apenas a parte escondida da vida. E quando chega, é, para os que ficam, o velho contratempo. Para quem parte, porém, como vós, representa apenas um outro estádio do tempo, um contra-tempo, que apaga o daqui.
E nós, que nada sabemos, ficamos a saber com a Gabriela que é um só o livro, o da vida e da morte. E suspeitamos vagamente de que na página final se pode esconder outro rosto redondo onde o Sol se inscreve______
Também o teu Ruy sabia que haverá um Sol aí, e que aqui ele não se apagou, e vive da tua memória:
Haverá sol aí? Eis-te sozinha
em ti. Perdeste quanto eras no lá fora
Nem sei como dizer-te como tudo continua…
_______
E «nada disto cabe numa só palavra…»
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19:38
1.2.18
PIANO, PIANO…
LLANSOL EM ITÁLIA
A escrita de Llansol vai entrando pouco a pouco também em Itália. Depois do primeiro livro, O Jogo da Liberdade da Alma + O Espaço Edénico (de 2010), sairá em breve uma antologia de textos preparada por nós e prefaciada pelo conhecido poeta italiano Flavio Ermini.
Entretanto, Rosa Pierno, autora do blog «Trasversale» ( https://rosapierno.blogspot.it), publica nessa página um texto sobre aquele primeiro livro de Llansol em tradução italiana, de que damos conhecimento a seguir:
mercoledì 31 gennaio 2018
Maria
Gabriela Llansol “Il gioco della libertà dell’anima. Lo spazio edenico” Pagine
d’Arte, 2010
Maria Gabriela Llansol em 2006
Un corto circuito tra musica, lettura, sesso,
scrittura. A volte si accende la luce, che illumina un singolo soggetto sulla
scena: “- io - che osservo il possente e mobile uomo nudo della matematica musicale
di quelle equazioni e abissi”. Immanente e trascendente, messi a contatto in
modo sulfureo, emanano ossidi, odori, cose spurie, non collocabili in nessun
tipo di ordine. Oggetti inaccordabili, d’altra parte, quale tipo di armonia
potrebbero produrre? Eppure si scambiano caratteristiche, qualità, posizioni:
“la scrittura che la musica celebra non ha macchia di rumore”. Non una
metamorfosi, né operazione alchemica. Certamente collage, accostamenti
forzati che non perdono lo stridio, anche dopo pagine e pagine, trascinando con
irruenza la sintassi.
La scrittura di Maria Gabriela Llansol non si svolge
sul solo piano linguistico, anche se esso è messo fortemente in tensione,
risuonando in tutte le sue gamme più dissonanti, poiché la tensione nasce
primariamente nella realtà percepita, fra gli oggetti e gli elementi. Un sesso
diventa una tazza, non con un investimento simbolico, ma con una sostituzione
figurale, sinonimica o funzionale. Viene in mente che quello che si può fare
con un sesso lo si possa fare proprio perché somiglia a una tazza e viceversa.
Non una cosa che stia per l’altra rendendo tutto equivalente, ma un mondo
ridisegnato nelle sue funzioni, rifondato.
Tuttavia, non c’è nessuna comunicazione tra le arti.
Pur se la musica trapassa nel testo, esse comunque non possono condividere
alcunché, anzi la loro presunta comunicabilità “non sarebbe che una melanconica
constatazione della notte”. Nessuna oscurità, nessun enigma alligna nel testo
concretissimo. È appunto una constatazione. Allo stesso tempo, “il corpo è
materialmente frasi / che materiale e letterale non hanno differenze” e per
comprendere questo passaggio è necessario far saltare la logica, poiché basta
l’anima a rimettere in ordine le cose e senz’altro allora l’ordine sarà diverso
anche da se stesso.
In codesta maniera, “l’invisibile quando si fa
sensuale, apre al linguaggio sentieri che il racconto ha ostruito col coperchio
del pianoforte, i bassi muri del reale, le tenui pareti della vita”.
Comprendiamo, condotti come per mano dalla scrittrice portoghese, che la
realtà, come il piano astratto, non è più quello normalmente esperito. È
necessario un esercizio alla visione, una metodica trasposizione di piani, uno
scambio costante, un’osmosi iniziata e continuamente interrotta. Un metodo che
la scrittura mostra in maniera lampante. In questo modo “il testo apprende la
materialità dello spazio attraverso cui scorre”.
Anche le cose hanno gli occhi, hanno il nostro sguardo
come orizzonte. Lo sguardo è una modalità di accordo con le cose, ed è sempre
attraverso lo sguardo che le colline divengono un vassoio. Naturalmente, se le
colline sono vassoio, anche il testo è uguale al testo. Forse, la scrittura
diviene qualcosa di cui potersi appropriare, di fisico, dacché era mentale e
viceversa. “Un florilegio di attributi, direbbe Spinoza”, a cui ogni cosa può
attingere. Accade che qualcosa dematerializza la sostanza e materializza lo
spirito. È il testo che può ricostruire giorni perduti, “ossa disseccate”.
Resurrezione dei corpi è scrivere. Non che la scrittura attui il gioco delle
coincidenze, delle rimembranze, dell’inizio e della fine, ma sono lo scrivente
e il leggente a giocare “con la cosa del testo”. E, con il testo della
Llansol, noi lettori veniamo meravigliosamente giocati, o meglio rimessi in
gioco.
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12:20
21.1.18
… E A CASA VOOU…
Ontem, no Espaço Llansol, a casa voou, tudo nela se transformava, a animação foi grande, com as crianças que vieram para ouvir ler a história Oh, oh, oh, a Casa da Avó, escrita há muitos, muitos anos por Maria Gabriela Llansol e as crianças do «Contra grupo Alpha» da Escola La Maison, na Bélgica:
Há uma fonte clara
Mesmo no meio do
quarto.
O amor cai e inunda,
Corre pela água
funda.
A gatinha
sábia-selvagem
Sabe que é só uma
imagem.
Pelo bordo da fonte
clara
Corre, amorosa, a
água.
A gatinha
sábia-selvagem
Sabe que é só uma
imagem.
Esvazia-se a fonte
clara
Gota a gota, a água vai
Enchendo o pequeno
quarto.
A gatinha
sábia-selvagem
Sabe
que é só uma aragem.
E as crianças ouviram, viram os desenhos muito antigos – Bélgica, 1975! — serem projectados, plantaram um «Jardim de Palavras» nos vidros das janelas, e desenharam o que viram na história.
Por fim, depois do lanche, foi a loucura completa com a montanha de almofadas espalhadas pelo chão. E a casa sorriu, feliz, com esta primeira animação do ano:
A Casa da Avó
queria levantar voo. Abrir janelas e portas e levantar voo. Ah, se as janelas
fossem penas! Se as paredes e as portas fossem ossinhos leves… Mas, no momento em que um poderoso
albatroz atravessou os céus, a Casa da Avó sentiu que se transformava mesmo num
pássaro.
Alguns dos desenhos nascidos na tarde de sábado, da autoria de:
Leonor
Laura
Inês
João Mendes
António Mendes
Miguel
Zé Luís
(e ainda uma «Gatinha» de pai anónimo!)
E em eco ouve-se ao fundo a voz de Augusto Joaquim, que, no caderno que fizemos para esta ocasião escreve, a propósito do seu trabalho de desenho com as crianças da «Escola» La Maison:
Desde Cézanne... que não há desenho
infantil. Nem também desenho de adultos. Existem seres que se distinguem por
diferenças descontínuas, ancorados em contra-grupos ou, à falta disso, em
igualdade de condições, à espreita da transcendência, se entregam em
consciência e instintivamente à memória, para entrarem no jogo subtil e sério
da comunicação quase não verbal.
Tudo isto acontece numa
«escola» onde as crianças se encontram todos os dias, uma vez que nunca vão à
escola. Em torno da leitura, ultrapassando constantemente limites, com o
cinema, a pintura, os trabalhos manuais, a mecânica, os passeios, o cálculo,
numa palavra, a vida a deixar-se conduzir por uma intensa vontade de unificação
e de expansão.
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12:47
9.1.18
OH, OH, OH! A CASA DA AVÓ
O recomeço, com os mais pequenos
A Casa de Julho e Agosto inicia as suas actividades regulares com o regresso à história escrita por M. G. Llansol com as crianças da escola «La Maison», na Bélgica, em 1975. Dessa experiência pedagógica do «Contra-grupo Alpha» participou também Augusto Joaquim, que se encarregaria de dinamizar a parte visual, estimulando as crianças a fazer uma série de perto de oitenta desenhos, que temos no Espaço Llansol e mostraremos no próximo dia 20, sábado, às 16 horas, em Campo de Ourique.
A nossa sessão, destinada a crianças dos 5 aos 10 anos, será uma oficina de leitura e desenho dinamizada pelas professoras Albertina Pena e Celeste Pedro. Projectaremos um pequeno video com leitura de parte da história Oh, oh, oh, a Casa da Avó, e haverá um caderno com o texto integral em português e um extratexto com desenhos das crianças da Bélgica.
Venham e tragam a criançada!
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23:23
28.12.17
14.12.17
«AS HORAS EXTRAORDINÁRIAS»
NO ESPAÇO LLANSOL
A Rádio Televisão Portuguesa (RTP 3) esteve recentemente na nova casa do Espaço Llansol, com o programa «As horas extraordinárias», que nesse dia se passou totalmente neste novo Lugar que acolhe o espólio e a memória de Maria Gabriela Llansol. A meio do programa, entre os minutos 13.24 e 16.50, a realizadora do programa, Teresa Nicolau, conversou com João Barrento sobre o novo Espaço, o seu espírito e a herança de Maria Gabriela, em especial a da sua escrita.
Pode ver o programa no link que se segue e seleccionar o período acima referido da emissão global:
https://www.rtp.pt/play/p3140/e320350/as-horas-extraordinarias
https://www.rtp.pt/play/p3140/e320350/as-horas-extraordinarias
Publicado às
23:45
13.12.17
«ENTRE»
Um espectáculo experimental a partir de Llansol
em cena no Brasil
Está em cena até Domingo, no Centro de Juventude de Belo Horizonte, o espectáculo-exposição concebido por Isadora Bellavinha, artista performática e teatral, mestranda em Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e amante de Llansol, intitulado «Entre – Uma casa que se torna». A notícia é dada hoje pelo portal brasileiro «Hoje em dia», mas a autora do espectáculo está desde há meses em contacto com o Espaço Llansol, e sabemos que ele virá a Portugal em Setembro do próximo ano, integrado no Festival Muscarium, do Teatro Mosca de Sintra (e eventualmente noutros locais).
Damos a seguir a notícia de hoje no portal brasileiro, e deixamos também a informação de que já dispomos sobre este espectáculo original todo ele inspirado no universo de Maria Gabriela Llansol.
“Entre–uma casa que se torna” é uma experimentação plástica, musical e performática inspirada na obra da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, que ocupa o Centro de Referência da Juventude (Praça Rui Barbosa, 50, Centro) desta quarta-feira (13) até domingo (17). A obra busca resgatar os valores estéticos e filosóficos da autora para outras linguagens artísticas.
“Entre–uma casa que se torna” é uma experimentação plástica, musical e performática inspirada na obra da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, que ocupa o Centro de Referência da Juventude (Praça Rui Barbosa, 50, Centro) desta quarta-feira (13) até domingo (17). A obra busca resgatar os valores estéticos e filosóficos da autora para outras linguagens artísticas.
Reinventar a cena física e sonora a partir de Llansol
O trabalho é composto por uma instalação de cerca de 70m² e pelo espetáculo-performance de mesmo nome. O espaço é conjugado e reconfigurado numa sobre-impressão de ambientes abertos aos visitantes, composta por paredes de tecido translúcido, cômodos dispostos de maneira inusitada, plantas e objetos que remetem a um lar. Assim, a instalação busca simultaneamente acolher o desejo de criar recantos de refúgio e resistência em meio a loucura que se alastra pelo mundo atual.
Publicado às
23:08
27.11.17
A FESTA
Com o dia do regresso a casa (24 de Novembro, dia em que Maria Gabriela Llansol faria oitenta e seis anos), com o Espaço Llansol no seu lugar de origem, veio também a desejada chuva, sinal de um renascer deste país à míngua de água… E a sala grande encheu-se de amigos e interessados na Obra de Llansol.
A Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Dra. Catarina Vaz Pinto, recordou o seu empenho em conceder ao Espaço Llansol e ao legado de Maria Gabriela um lugar condigno na cidade que a viu nascer, e como isso aconteceu em tão pouco tempo, e como esse espaço se situa numa convergência de vida e escrita que não podia estar mais carregada de simbolismo. O Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, Dr. Pedro Cegonho, manifestou o seu regozijo por poder contar com mais um núcleo literário significativo, ao lado da Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, e o seu desejo de reforçar a presença da literatura neste bairro de Lisboa através de uma rede de pólos de divulgação e criação literárias, para além dos já existentes.
E João Barrento evocou mais largamente o significado desta inauguração, a história e o sentido do trabalho do Espaço Llansol desde 2008 e as perspectivas futuras. Com as palavras que a seguir se reproduzem:
Amigas e amigos do
Espaço Llansol
A chuva,
que finalmente veio, quis acompanhar-nos neste dia em que lançamos a sementeira
de uma nova casa que abriga um corpo vivo de escrita e um precioso conjunto de
testemunhos de uma vida. É um sinal de renascimento desta a que chamámos desde
logo, ecoando um título de Llansol, a Casa
de Julho e Agosto. Sinal de regeneração que acompanhará, à nossa medida e
nos campos da cultura, da leitura, dos encontros, da escrita, aquele outro
renascer que todos esperamos para este país em seca desoladora. É esse o
espírito que nos anima, é essa a nossa promessa – a de continuar e reforçar o
trabalho iniciado há quase dez anos em torno da Obra e do legado de Maria
Gabriela Llansol, agora neste lugar que a viu nascer e crescer e que, como ela
previu num dos seus cadernos em 2001, se tornará,
se tornou já, num lugar que abriga todo um universo aberto e pronto a ser
partilhado com todos os que aqui vierem. Como ela escrevia nesse caderno, «esta
casa tornou-se universalmente querida, pois mal abro a porta e entro nela, sei
que ela estende continuamente o espaço para além dos limites das suas
paredes...» (Caderno 1.60, 141).
E de facto assim é, porque o Espaço Llansol
(que fundámos ainda com a Maria Gabriela em 2006), como diz o primeiro ponto da
nossa Carta de Princípios, «não é
apenas um lugar físico, mas também o lugar real, visível e invisível,
disseminado pelo Texto de Maria Gabriela Llansol». E ainda: «Lugar de vida sob
o signo dos afectos, no seu triplo registo: o Belo, o Pensamento e o Vivo». O
Espaço Llansol, diz o último ponto dessa Carta,
«é o jardim que o pensamento permite» – que reencontramos nesta nova Casa, lá
fora, no pátio (e que havemos de usar com certeza, naquele longo rectângulo que
já baptizámos, recorrendo a Causa Amante,
de «Corredor da claridade»). O jardim é, aliás, para Llansol metáfora de um
mundo-outro, um microcosmo onde não se «segue uma rota de exclusão da pujança»,
um espaço não utópico, mas potencial, que nela dá pelo nome de «a restante
vida» – um horizonte ético e estético capaz de produzir ideias e beleza, formas
de actuação que recuperem e reafirmem o que o passado, remoto ou recente, tem
para oferecer de mais genuinamente humano, libertador e formador das
consciências. Algo que nesta nossa Europa, perdida de si mesma, parece
trazer-nos de volta aquela imagem que dela nos deu Augusto Joaquim, o
companheiro de uma vida e o mais arguto legente desta Obra, logo na hora de
nascimento do livro-fonte de Llansol, O
Livro das Comunidades, que evocámos há pouco semanas no Centro Cultural do
Cinema Europa: «Barbárie a Leste, lucro a Oeste, pobreza a Sul, neve a Norte».
Mas os tempos, os nossos, portugueses, pelo
menos, parecem também querer hoje trazer um novo «perfil de esperança» ao
«jardim devastado» do mundo, como a Maria Gabriela escreve nesse grande livro
pessoano a contrapêlo que é Lisboaleipzig.
Um perfil de esperança que, lemos no seu último livro, passa pela necessidade
de saber «o que é o corpo, / o que é a luz, / o que é a força, / o que é o
afecto, / o que é o pensamento...» É todo um programa que podemos seguir, sem
ilusões nem pretensões utópicas, mas assumindo «o presente como destino» e
continuando a escrever o texto de Llansol «na plena posse das nossas faculdades
de leitura» – leitura desse texto iluminante e leitura do mundo,
articulando-os.
Nesse perfil de esperança inclui-se, hoje, a
desejada chuva, e com ela termino, pela voz de Maria Gabriela Llansol. Comecei
por aí: a chuva... e o renascer... e o nosso trabalho aqui, o mais visível,
como hoje, e o mais silencioso, que tanto mundo tem dado a conhecer. A Maria
Gabriela sabia que ela viria, essa chuva regeneradora, e que a Casa iria
acolher essa nova vida e esse mais-saber, e poderia ter agradecido com as
palavras que lerei a seguir. Mas antes quero eu agradecer em seu nome a todos
os que vieram, aos amigos de sempre e, last
not least, às nossas incansáveis beguinas, laboriosas e sensíveis – a Vina,
a Helena, a Albertina, a Teresa, a Cândida –, ao Diogo Dória, uma voz que nos
tem acompanhado desde 2010, e naturalmente, a «Campo de Ourique, planície da
amizade e da solidariedade», e àqueles que nos permitem agora espraiar o olhar
por ela: a Dra. Catarina Vaz Pinto e o Dr. Pedro Cegonho, sem os quais não
estaríamos aqui hoje.
Imagino então a Maria Gabriela a falar-vos
assim, para vos agradecer, neste dia de chuva benfazeja em que ouço o eco da
sua voz clara, lendo alto, como ela gostava de fazer:
Um
dia de chuva é um dia propício ao enunciar de novos dias, obscuridade serena e
bem-vinda.
A
chuva corre agora na vertical, eu
sinto-me totalmente transparente e comunicante. A chuva é a minha base,
equivalente a uma raiz.
Respiro
/ é um caudal de chuva apolínea que não faz esmorecer nem a alegria, nem a
obscuridade, / de que tento reescrever, no princípio da aurora, / a relação
simultânea.
O
território desta casa, hoje, dia de chuva, estremece / como uma chávena nas
mãos de Deus. (...) Faz parte da minha sobrevivência actual, é o caderno
guardado onde escrevo os meus apontamentos...
...
e a chuva desabando finalmente sobre a casa, / criando um espaço vazio que
há-de ser sereno até à próxima tempestade...
Não.
Não é a chuva miudinha, mas uma nascente hesitante a polvilhar-nos de luz.
[E, de forma quase premonitória, naquele que
seria o último livro que publicou em vida, Os
Cantores de Leitura]:
O
tempo volta a abrir as suas portas
Coincide
com a chuva e a penetração
sombria
do nevoeiro em mim
E
transforma-se em claridade absoluta que paira sobre a Casa.
Maria Etelvina Santos leu um texto de Hélia Correia (ausente em Inglaterra) sobre esta hora do nascimento e as promessas da nova Casa, e o actor Diogo Dória deu-nos a ouvir um conjunto de fragmentos de Maria Gabriela Llansol que evidenciam a sua relação, de vida e de escrita, com este bairro de Lisboa onde nasceu (como melhor documenta o caderno que fizemos para a ocasião).
A Casa está aberta, são todos bem-vindos: amigos e investigadores, escritores e leitores, amadores de Llansol em geral.
Publicado às
17:02
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