2.2.17
AS ACTIVIDADES DESTE TRIMESTRE
As actividades da «Letra E» do Espaço Llansol continuam, em vários lugares. Damos aqui uma primeira informação sobre as quatro próximas sessões, em Sintra, Vila Velha de Ródão e Lisboa. Com a colaboração generosa de poetas, actores e instuituições. A seu tempo lembraremos cada uma destas actividades.
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14:03
23.1.17
ONDE VAIS, DRAMA-POESIA?
lido pelo grupo «Fósforo»
A leitura em voz alta ainda pode ser uma forma de embalar o ouvido e incendiar os espíritos. Ainda há gente diferente do padrão mais comum, até entre a juventude (ou precisamente aí?). Um grupo de estudantes, em parte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, resolveu formar um círculo de leitura a que deu o nome incendiário de «Fósforo-Leituras». Fazem sempre leituras integrais do livro escolhido, e lêem as obras nos mais diversos lugares, fechados e abertos, da cidade.
A sessão de leitura de ontem foi a quadragésima. À tarde, a partir das 14 horas, num andar da Avenida de Berna, em frente dos jardins da Fundação Gulbenkian, lançaram-se à leitura integral de um dos mais extensos e densos livros de Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?. Ficam algumas imagens da leitura, e o nosso agradecimento pela escolha deste livro à Catarina Real e ao André Tavares Marçal [vd. www.facebook.com/fosfotoleituras].
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10:03
9.1.17
VIAGEM A FARO
ou
UMA POÉTICA
A viagem sempre foi para Llansol lugar e tempo de escrita. Viagens longas, no espaço, não fez muitas. Documentadas, com cadernos próprios ou em registo disperso, conhecemos: um cruzeiro no Mediterrâneo em 1953, uma viagem por Espanha em 1957, andanças pelo Sul de França com a irmã e uma amiga, e as deslocações entre a Bélgica e Portugal nos últimos anos do exílio. Mas o texto é para Llansol, por natureza, «lugar que viaja», com o texto viajava sempre, e o comboio foi muitas vezes lugar de escrita, como no excerto que se ouve no vídeo, nascido de uma viagem a Faro em 15 de Maio de 1997, para falar do terceiro diário, Inquérito às Quatro Confidências. Como também acontece com textos de vária natureza nascidos no comboio entre Sintra e Lisboa, nos anos das visitas regulares aos lugares de Campo de Ourique que a viram nascer e crescer. Do outro lado da janela, a paisagem, mesmo a mais desolada, anima-se com as palavras (que conseguem operar nas coisas do Ser uma deslocação da esfera do simples atributo para a da substância), e reconfigura-se nas figuras da linhagem. Em viagem, e não só, o olhar é o órgão fundamental da escrita, «o movimento_____ é a passagem obrigatória para a pupila» (lemos num dossier dactiloscrito de 1987). A escrita em movimento, que – isso percebe-se uma vez mais claramente a certa altura do fragmento da viagem a Faro – não é literatura, mas o «exterior do meu interior», é escrita do movimento, e da viagem nasce toda uma arte poética e uma visão do mundo.
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12:00
4.1.17
O trabalho permanente no espólio de Maria Gabriela Llansol reserva-nos constantemente surpresas e descobertas. Como a de ontem, num texto (aqui reproduzido em parte) escrito para o catálogo da Europália de Bruxelas, dedicada a Portugal em 1991. O texto acompanha nessa publicação desenhos de Julião Sarmento (muitos deles estão na edição de O Raio Sobre o Lápis, que saiu nessa ocasião em livro de artista), e o poema de Hölderlin referido é «Os carvalhos», de que aqui damos uma tradução de João Barrento. Dois anos mais tarde sairia esse pequeno e intenso livro-carta de Llansol que é Hölder, de Hölderlin, e logo a seguir a recolha de poemas intitulada Diotima, em versão de Maria Clara Salgueiro, id est Maria Gabriela Llansol.
O texto, transcrito sobre imagens desses anos no pinhal de Colares, remete para as deambulações de Llansol nessa época, entre a casa de Toki Alai e a Praia das Maçãs ou o Mucifal, e mostra-a entre os caminhos do sentir e do pensar, buscando encontrar o corpo de afectos, o pensamento em corpo, e as linhas do mundo por onde se derrama a sua escrita.
A página de abertura do texto da Europália/1991
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16:50
2.1.17
A fotógrafa e designer (e tantas outras coisas) Fátima Rolo Duarte, que vive há eternidades na Bélgica, descobriu o Espaço Llansol na hora do seu nascimento, em 2006, mas já lia Llansol muito antes, ainda em Colares, por onde a via andar. Trocámos muitas mensagens a partir dessa altura, e um dia escrevi-lhe com comentários ao seu excelente blog (f-world) e a uma fabulosa leitura sua de Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, que ela aí tinha colocado. A Fátima andou depois pela Bélgica percorrendo e fotografando os lugares llansolianos (alguns deles na montagem abaixo: Lovaina, Jodoigne, Herbais), e enviou-nos mais tarde, num fim de ano, um precioso caderninho com algumas dessas fotos, entrecortadas por textos da Maria Gabriela.
Reproduzo abaixo o e-mail de há dez anos, porque ele traz a marca de um entusiasmo raro, ainda por cima em relação a um dos livros menos curiais e ditos «estranhos» de Llansol. É mais uma boa maneira de iniciar o ano.
J. B.
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17:36
27.12.16
Publicado às
15:52
18.12.16
24.11.16
«CASAS DENTRO DE CASAS DENTRO DE CASAS…»
Nos 85 anos de Llansol
Maria Gabriela Llansol nasceu para a escrita faz hoje oitenta e cinco anos. As suas «casas de escrever» são, desde os primeiros escritos de infância e juventude, «casas dentro de casas dentro de casas», e afinal sempre a mesma casa arquetípica, arcano central desta Obra.
De cidades interiores de onde se olha para o mundo para lhe ver o corpo e a alma se fez desde sempre essa escrita. E de certo modo se vai fazendo a nossa, num trabalho persistente de presença silenciosa, na transparência luminosa da sua Obra. Na casa de escrever de Maria Gabriela Llansol, casa sempre cheia de sinais e com múltiplas janelas sobre o universo, tudo gira em permanente vibração e devir. Aí, lemos num dos cadernos,«o balanço deste meu, vosso, mundo não tem fim: a necessidade de abrir-lhe as portas é real…».
Neste dia do seu nascimento, há oitenta e cinco anos, num bairro de Lisboa aonde sempre regressava, evocamos alguns fragmentos da sua escrita inédita sobre a casa, as muitas casas que se esfumam no tempo da memória mas permanecem nítidas no da escrita, lugares por excelência da estabilidade inquieta e do devir «audaciante» que a movia – e que é também o móbil que a nós nos faz continuar a olhar em frente.
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11:12
10.11.16
AS OITAVAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
Spinoza revisitado
Os dois dias das Jornadas Llansolianas com Spinoza, visto através das lentes de fulgor e dos prismas de pensamento de Maria Gabriela Llansol e Spinoza, só poderiam ser intensos e diversos. A intensidade associou-se ao pensamento vivo que, vindo das duas margens do rio que ia correndo pela «Sala da Clarabóia» do Museu de Sintra, foi iluminando e desdobrando a quadrícula translúcida e porosa, aberta a muitas leituras, da Obra do filósofo, com a «mansidão dos seus raciocínios geométricos» a entrecruzar-se com o «luar libidinal» e a «lei do Vivo» que regem a partitura da escrita de Maria Gabriela Llansol.
O trânsito entre os dois lados do rio foi constante, como tinha de ser, Spinoza alimentando o texto de Llansol, este dando uma nova forma à estética escondida na sua Ética, amplificando os modos do seu entendimento, assimilando os seus ritmos secretos, transformando noções em imagens concretas.
O que levou a Sintra, para nestes dois dias darem testemunho, os que vinham da margem de Spinoza e da Filosofia – Diogo Pires Aurélio, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Carlos Couto Sequeira Costa, Bruno Béu – e os que viajam mais nas águas do texto de Llansol – Maria Etelvina Santos, Isabel Santiago, Cristiana Vasconcelos Rodrigues ou João Barrento, mas também Pedro Proença e os seus desenhos, António Guerreiro e o seu olhar crítico, o actor Luís Lucas e a sua voz, Daniel Ribeiro Duarte e o seu filme, os artistas do corpo do C.E.M.-Centro em Movimento?
O actor Luís Lucas lê Llansol sob o olhar atento de Spinoza
O que nos moveu a todos foi uma espécie de urgência – um impulso e uma necessidade – que Llansol já conhecia e que a todos animou, incluindo a pequena árvore à sombra da qual falámos, vimos e ouvimos, Prunus triloba spinoziana cruzada de plátano e metrosideros, e cujo tronco, como o de Jodoigne, no exílio da Bélgica, deve ter sentido de novo a mão e o halo de Spinoza, que «tem por hábito deixar-se ficar no tronco, e suscita à volta uma claridade sem limites».
A Maria Gabriela já nos havia aberto o caminho, deixando nele sinais que apenas tivemos de seguir para corresponder ao seu apelo:
Com
Spinoza sucede uma coisa estranha: mal me aproximo dele, do seu texto, suas
ideias, que se distinguem de palavras e imagens, são suficientes para que se
defina claramente no meu campo de trabalho toda uma sequência descritiva…
... era urgente que a nossa passagem por aquele lugar […] fizesse entrar animais, arbustos e galáxias
na espiral de acompanhamento dos homens ou,
... era urgente que a nossa passagem por aquele lugar […] fizesse entrar animais, arbustos e galáxias
na espiral de acompanhamento dos homens ou,
mais simplesmente,
um homem, uma mulher, um cão, um rio. Prunus
Triloba e toda uma paisagem de clareza súbita. Uma página entreabriu-se no
livro, e vimos Spinoza a espreitar-nos com o seu novo olhar, um olhar à cão, e
mal nos reconheceu dizer-nos, ele que, pouco depois, iria expirar
repentinamente de angina de peito, «entrem, entrem, é urgente» […]:
companheiros
filosóficos, amigos e inimigos da filosofia, haveis de inventar uma estética literária para a geometria,
mundos e comunidades singulares…
Tentámos todos inventar, reinventar, dar a ver e a ouvir, uma estética recoberta por uma ética (e vice-versa), reconstituir uma comunidade sempre singular, entreabrir páginas de livros, de cadernos manuscritos, folhas de escrita de onde foi saltando, sob múltiplas formas, «toda uma sequência descritiva» de um sistema-poema escrito a quatro mãos, reescrito a muitas, entre o polidor de lentes em busca da eternidade neste mundo e a escrevente da Sensualética antevista como «a grande descoberta do próximo milénio».
(Veja aqui a exposição de Pedro Proença)
E entre as lupas que pontuavam uma das paredes da sala, os quarenta e oito desenhos de Pedro Proença que as olhavam da outra, e a escrita de Maria Gabriela Llansol patente, nos seus manuscritos, em algumas vitrines colocadas entre as duas, desenrolou-se certamente nestes dois dias (e provavelmente também nas noites em que não assistimos à festa) um jogo e um diálogo, uma dança de olhares e trocas que a batuta de Prunus-Triloba-Metrosideros ia conduzindo, à margem do discurso dos humanos, questionante, empenhado em chegar perto da «ideia adequada» deste encontro (o de Llansol com Spinoza, e o nosso com ambos), aberto às muitas vias de leitura que nele se descortinam. Com as suas palavras, os seus corpos, traços e imagens, que não podiam ser mais do que tacteantes, todos procuraram chegar perto da «ciência intuitiva» do «conhecimento jubiloso», entre o rigor da ideia, a vibração da beleza e a alegria que leva à paisagem onde se pode caminhar e existir sub specie aeternitatis.
Breves momentos da performance «O que pode um corpo?»,
pelo «Pátio–Ajuntamento Performativo», do C.E.M. - Centro em Movimento
Como queria Llansol, que o deixou dito «em escólio»:
Spinoza não era o
sorumbático que se imagina.
Se abro a Reforma do
Entendimento, ouço-o dizer
Distintamente: «Farão os
números, meu amor
Sem quantidade, parte da qualidade? Que achas,
Meu sexo de ler? Se te
oferecer duas
Rosas vermelhas, duas num
único vermelho,
Como reages? Que eu
especulo continuadamente.
Mas quem, senão eu, dispõe
matéria bem criada,
No riste do teu ventre?
Direi em escólio ___ há um
aquém-afecto, a que
Chamo tristeza, há um
além-afecto, que designarei
Por jubiloso conhecimento.
Maria Etelvina Santos: Affectio - Hommage
Publicado às
23:03
7.11.16
«O ESCRITÓRIO ESPECULATIVO»
ou «o imenso território do falcão»
ou «o imenso território do falcão»
Antes de darmos conta do que aconteceu nas nossas Oitavas Jornadas Llansolianas, que decorreram no passado fim de semana em Sintra, deixamos aqui o video que passou recentemente no programa da RTP2 «Literatura aqui…», em que Filipa Leal leu fragmentos de O Raio sobre o Lápis, sobre imagens captadas no Espaço Llansol. É um belo instantâneo do «escritório especulativo» de Maria Gabriela Llansol.
(pode aumentar o video clicando no canto inferior direito!)
Publicado às
17:41
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