«Riqueza de espírito» é, à primeira vista, uma contradição de termos, uma perversão de sentido dos dois elementos da expressão. Mas é possível recuperar ideias desvirtuadas (quase sempre pelo uso – que não atenta nas palavras, não lhes dá a atenção que elas merecem e pedem!). A palavra «riqueza» foi reduzida ao ter, esquecendo o ser; e o «espírito» caiu em descrédito, tornou-se objecto de suspeição no meio de tanto materialismo de pacotilha, raso e falseado, que nada tem a ver com as origens, quer do materialismo, quer do espírito – que afinal se encontravam, dos pré-socráticos a Lucrécio, do pneuma grego ao ruah hebraico. Afinal, aí, o sopro (depois spiritus) era a energia da criação, a pujança do Ser, o combustível que põe o corpo a agir, a pensar, a criar...
26.9.16
LLANSOL NO «FOLIO», EM ÓBIDOS
Passou ontem no FOLIO-Festival Literário Internacional de Óbidos, o filme de Miguel Gonçalves Mendes Curso de Silêncio, feito a partir de obras de Maria Gabriela Llansol e de uma conversa com Maria Etelvina Santos e João Barrento, gravada em Sintra em 2007.
Procurando construir algumas pontes entre o filme, essa entrevista e a Obra de Llansol, João Barrento falou ontem, depois da projecção, para o público que enchia a tenda montada em Óbidos, e desse comentário deixamos aqui algumas passagens mais significativas.
(Foto: Anabela Mota Ribeiro)
Eu
começaria assim, indo às origens deste filme e fazendo minhas por um instante
as palavras de Maria Gabriela Llansol:
«àquele que
já sabe eu explicarei tudo; àquele que nada sabe eu nada poderei dizer».
As
palavras vêm de uma conversa que a Vina e eu fizemos com M. G. Llansol em Julho
de 2007, a pedido do realizador do filme.
A
frase tem um toque sibilino, quase bíblico, mas de facto funciona ao contrário
dessa sabedoria profética ou sacerdotal, e a um nível bem mais profano. É antes
uma espécie de lema para uma ideia de comunidade
humana possível, a dos semelhantes na diferença. A ideia implícita parece
ser a da existência de uma consonância
tácita (a daqueles que já sabem, mas nunca saberão tudo) – ou então da
impossibilidade dela! Transpondo para este momento e este lugar, depois de visionado este filme, eu diria: aqui, estamos, em princípio, em consonância, e por isso
é preciso explicar tudo! Ou pelo menos algumas coisas. É o que tentarei fazer,
indo às origens.
E nas
origens está uma pergunta, uma espécie de eixo central do que poderia ser o
guião do filme, e que por sua vez deu origem a outras perguntas,
desdobrando-se:
O que é isso a que se chama «riqueza de espírito»? E
por que é que isso parece estar tão ausente do nosso «mundo da vida» (e também
do mundo da arte, ou de muita coisa que por isso se toma)?
Esta
era a pergunta inicial do Miguel a Llansol, e que todos sentimos logo
que precisava de ser desmontada, desconstruída. E a Maria Gabriela, já com alguma dificuldade, fê-lo, com palavras que pareciam desde logo ir ao encontro do que seria
um filme que ainda não existia, e ela não podia conhecer – daquilo que é, hoje,
este filme do Miguel Gonçalves Mendes.
«Riqueza de espírito» é, à primeira vista, uma contradição de termos, uma perversão de sentido dos dois elementos da expressão. Mas é possível recuperar ideias desvirtuadas (quase sempre pelo uso – que não atenta nas palavras, não lhes dá a atenção que elas merecem e pedem!). A palavra «riqueza» foi reduzida ao ter, esquecendo o ser; e o «espírito» caiu em descrédito, tornou-se objecto de suspeição no meio de tanto materialismo de pacotilha, raso e falseado, que nada tem a ver com as origens, quer do materialismo, quer do espírito – que afinal se encontravam, dos pré-socráticos a Lucrécio, do pneuma grego ao ruah hebraico. Afinal, aí, o sopro (depois spiritus) era a energia da criação, a pujança do Ser, o combustível que põe o corpo a agir, a pensar, a criar...
«Riqueza de espírito» é, à primeira vista, uma contradição de termos, uma perversão de sentido dos dois elementos da expressão. Mas é possível recuperar ideias desvirtuadas (quase sempre pelo uso – que não atenta nas palavras, não lhes dá a atenção que elas merecem e pedem!). A palavra «riqueza» foi reduzida ao ter, esquecendo o ser; e o «espírito» caiu em descrédito, tornou-se objecto de suspeição no meio de tanto materialismo de pacotilha, raso e falseado, que nada tem a ver com as origens, quer do materialismo, quer do espírito – que afinal se encontravam, dos pré-socráticos a Lucrécio, do pneuma grego ao ruah hebraico. Afinal, aí, o sopro (depois spiritus) era a energia da criação, a pujança do Ser, o combustível que põe o corpo a agir, a pensar, a criar...
Llansol
responde à aparente incompatibilidade entre riqueza (material) e espírito
(incorpóreo) desfazendo-a, e falando de um «isso» que estará entre os dois, ou de que ambos podem participar:
«Essa associação não tem sentido, mas não interessa dizer o que
tem sentido ou não. Interessa dizer algo sobre ISSO. E isso... é incomunicável,
faz-se de imagens pessoalíssimas, do
trabalho sobre a vida quotidiana, do mundo envolvente, isto é, é um trabalho de
todos os indivíduos, em que o corpo é o
suporte físico».
Estamos
em pleno no filme do Miguel. Mas Llansol esclarece ainda, dando-lhe outro nome,
essa controversa «riqueza de espírito»:
«A vivência, a espiritualidade, chamem-lhe como quiserem. Eu
diria mais: a vida imagética interior...
pratica-se pela atenção; não tem
momento de começar nem de acabar, está no
próprio, portanto, é como quem diz: àquele que já sabe eu explicarei tudo,
àquele que nada sabe eu nada poderei dizer».
O
momento seguinte foi o de saber: e como se faz um filme com isso? E Llansol
respondeu, e o Miguel seguiu por aí:
«É quase impossível fazer um filme sobre isso, a não ser captar imagens: ISSO [lembremos: o dar a
ver a «riqueza de espírito»] faz-se captando imagens.»
E
veio ainda outra pergunta, no questionário do Miguel: e de que imagens precisamos, e para
que servirão essas imagens? É a pergunta essencial do cineasta. A que
Llansol responde como se o fosse também – e mais uma vez é isso que o
filme faz e põe em movimento, e tudo lá está, sem explicações, apenas algumas
ligações textuais mínimas, com excertos de dois ou três livros:
«Precisamos de imagens
de montanhas, de imagens de textos, de imagens de rios, de imagens dos seres
que amamos, de imagens dos animais que amamos, e de imagens do nosso pensamento
criativo, é isso».
E
acrescenta uma frase que, ao que me parece, poderia ser o vademecum de qualquer cineasta, e o é neste filme. Disse a Maria
Gabriela, à questão «para que servirão essas imagens»:
«As imagens não servem,
elas são rainhas»!
O que
pode querer dizer: a arte é, em última análise, sem finalidade; ou tem em si
mesma a sua finalidade. E também este pressuposto (kantiano) se confirma na
última resposta de Maria G. Llansol à pergunta «Escreve-se para quê? Dança-se
para quê?», e à preocupação nela implícita. Diz
ela, aludindo a uma noção de grandeza que nada tem a ver com fama, antes com o
ímpeto que nasce de dentro e faz subir:
«Escreve. Dança. Sê grande. Se for com altura suficiente,
ver-se-á... ninguém deixará de te ver. Podes ser tudo. Pois é, isto é muito a infância da arte...»
A
infância da arte, a infância e a arte, a infância na arte: estamos novamente no cerne deste filme, em
que cada imagem, apresentando-se nua, ganha grande densidade, e que também é um filme feito em larga
medida com crianças e adolescentes. Uma vez mais sem finalidade, mas com um
desígnio bem preciso. Sem princípio, meio e fim (i. e., sem uma lógica
limitativa), apenas sequências não sequenciais de intensidades, de
cenas-fulgor.
**
De
certo modo, já fui falando do filme do Miguel sem o abordar explicitamente. Mas
aproximemo-nos um pouco mais.
Em
2007, aquando da sua apresentação no Festival Temps d'Images, o Expresso esvrevia numa nota: «Um objecto
difícil de qualificar». Podiam estar a falar de qualquer livro de Llansol. As
duas coisas, filme e livros, serão «inqualificáveis» (i.e.: furtam-se aos
padrões de classificação habituiais) em relação a dois aspectos: a construção e a substância, que é como quem diz: a montagem não sequencial-narrativa, e a eventual estranheza ou
singularidade das imagens. A montagem
do filme é perfeitamente equiparável à montagem textual em Llansol: a articulação
de cenas ou planos não é logicamente perceptível à primeira vista, mas há um subtexto que os liga, um fio de
profundidade que assegura, no subconsciente da obra e de quem a vê/lê, o que é comum;
algo semelhante à ideia do «esquema» kantiano (algo assim como um terceiro excluído incluído), um pressuposto do conhecimento
que não é o objecto do conhecimento, mas que é decisivo para apreender o que
está para lá da superfície visível das imagens. Para entender o que é esse
«subtexto», poderíamos perguntar, por exemplo: o que liga, no filme, o gesto de
escrever/copiar ao de acariciar a casca de uma árvore? ou a casa à floresta? ou
o gesto invulgar de semear no mar ou de nascer de uma árvore? ou o homem nu ao
piano/o rapaz que toca violino em plena natureza e a mulher constantemente
rodeada de folhas de escrita?
Os entretextos que, como no cinema mudo,
pontuam o caminho de plano a plano, e que provêm de livros de Llansol (muitos
deles desse grande livro de luto e caminhada para a luz que é Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004),
evidenciam esse substrato de ligação, e condensam o que as imagens irão mostrar:
o acto de escrever/ler/copiar (seminal e sempre presente em Llansol), a casa
como Lugar do intenso, ou a floresta como lugar do júbilo, os corpos que não
servem uma acção, mas valem por si e em si, a relação humano/não humano, o
poder da luz ou dos elementos, o princípio da metamorfose...
E uma
ideia de fundo a atravessar tudo isso, indissociável da escolha de um grupo de
crianças adolescentes como actantes (não actores!): como podem aqueles/aquilo que não
tem voz ganhar uma voz própria? No
filme (como em Llansol), esses/isso corresponde a duas esferas:
1) a criança, particularmente numa fase em
que começa a querer ter voz, mas a ordem instituída quase nunca lho permite (em
Llansol, escrita e infância andam sempre juntas, e a figura da(s) criança(s)
está presente desde O Livro das
Comunidades);
2) os
seres mudos, todos eles tendo e não
tendo voz: porque a árvore rumoreja, o mar brama, os animais têm as suas vozes...
mas o que os faz existir, ou não, é o dar-se ou não atenção a essas suas vozes. A atenção que se dá ou não se dá ás
coisas que estão aí e acontecem à nossa volta é decisiva, nomeadamente, como
escreve Llansol, para nos apercebermos, em cada coisa e em cada ser, do que não
está à vista, mas existe e é essencial: «reparar no real faz eclodir o real
que, no invisível, lhe corresponde» – a atenção faz então nascer, ou despertar, aquilo que Llansol designa de «sensualidade do invisível».
Também isto faz parte da «riqueza de espírito»: sem a atenção – essa «oração
natural da alma», diz Benjamin – não se chega à «vida imagética interior» que corresponde, para Llansol, a essa riqueza de espírito.
O
filme aproxima-se, como disse, muito da prática de escrita de Llansol, quer na
montagem, na recusa de uma trama narrativa, quer também na fuga a qualquer
sugestão de transcendência ou metafísica, nomeadamente dessa abominável
«metafísica dos sentimentos», banal e kitsch, melíflua ou violenta, que ainda
domina algum romance e mais ainda, actualmente, a praga das novelas televisivas
de produção nacional.
Isto
quer dizer: este filme faz-se e afirma-se, como qualquer texto de Llansol, na
pura ordem da imanência (imagens,
corpos, objectos, percepções, também a música). Aqui, não se documenta nada
(não se trata de um documentário), nem se inventa nada (não é ficção): mostram-se,
numa desar-ticulação de superfície, feita de intensidades, cenas fulgor que se
articulam através daquele substrato de que eu falava há pouco, e que é o de uma
ideia de busca – não de busca de um
sentido (que o mundo não tem), mas de uma energia que anima as coisas e os
corpos desse mundo, nesse mundo, e das razões da sua permanente metamorfose a
caminho de uma qualquer «revelação» profana. Como M. G. Llansol explicou, em
1994, quando alguém lhe pergunta também por que escreve, para quê ou para quem
escreve:
«eu ando a contar o mal-estar profundo dos seres humanos, dos animais e
das plantas, ando à
procura de um final feliz. Ando a ver se o fulgor
que, por vezes, há nas coisas, é melhor guia do que as crenças que temos sobre elas,
ou do que os pensamentos que, a propósito delas, nos ocorrem.»
Ou seja, importa ver
e dar a ver, sem especulação nem crença. Como no filme, de plano para
plano, e com um duplo centro, muito llansoliano: uma casa (centro aglutinador, onde nasce a escrita e os objectos
ganham estatuto de figuras) e o mundo
(não o social, o gregário, mas o da physis,
do Vivo – que também pode ser o inerte). Este filme, mostrando (porque mostrar é a sua natureza e a sua vocação) o que é
misterioso ou pouco expectável, nas imagens, nos lugares, nos gestos, vem dizer-nos uma vez mais, como Llansol
sempre fez: vejam (e ouçam) precisamente aquilo que o mundo
que nos rodeia não deixa ver e ouvir. Esta incapacidade de ver e ouvir é de há
muito o traço paradoxal que marca esta civilização dita da imagem, que também é a do ruído, em que vivemos
há décadas. Do outro lado está o caminho da arte e de quem a recebe, é esta a
perene «infância da arte» que vive da atenção, da ambiguidade e da inquietação produtivas, da questionação
que provoca, de permanentemente nos lembrar a perda do Humano e apontar para a
sua regeneração, dando sinais (elementares) de orientação – a quem os quiser entender,
os que «já sabem» (os outros nunca precisarão deles). Sinais como aquele de uma
imagem que se atravessa na minha memória visual, vinda de outro filme de que
falei há pouco tempo, a de um copo de água límpida na mão da actriz Edith
Clever num filme/espectáculo de H. J. Syberberg, contra o fundo de escombros da
casa de Goethe em Weimar, destruída pelas bombas, e com a Pastoral de Beethoven a ecoar num fio de música ténue. Ou como as
imagens tantas vezes contrastantes deste Curso
de Silêncio do Miguel Gonçalves Mendes: as mais elementares, do mundo
sensível da natureza, e as mais elaboradas, do universo da arte – o homem nu ao
piano, a escrita (do rapaz deitado no soalho, de lápis na boca, da mulher à
mesa, no seu ritmo incontido) ou a música de Bach. Ambas presentes e
alternantes, sem hierarquias. E há sempre, nesta busca de rastos e restos, um
movimento que é o da vontade de decepação da memória da morte pelo júbilo, o
fulgor e a eterna lei da metamorfose. Sem preocupação de encontrar para tudo um
sentido, uma lógica argumentativa ou narrativa. Llansol deixa claro este
desapego do sentido, em favor de uma estética do aberto e do possível, quase no
final de um dos seus livros mais carismáticos, Um Beijo Dado Mais Tarde, que iremos apresentar dentro de dias em segunda edição, e que agora me serve de ponte para o visionamento do filme
do Miguel:
«Nunca
olhes os bordos de um texto. Tens que começar numa palavra. Numa palavra
qualquer se conta. Mas, no ponto-voraz, surgem fugazes as imagens. Também lhes
chamo figuras. Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é
impostura da língua. Vou, finalmente, soletrar-te as imagens deste texto, antes
que meus olhos se fatiguem [...] O indizível é feito de mim mesma, Gabi,
agarrada ao silêncio que elas representam.»
(J. B.)
Publicado às
12:41
21.9.16
«CURSO DE SILÊNCIO»
Um filme de Miguel Gonçalves Mendes
a partir de M. G. Llansol
No próximo domingo, dia 25 de Setembro, pelas 12h30, passa uma vez mais, no FOLIO-Festival Literário Internacional de Óbidos, o filme de Miguel Gonçalves Mendes Curso de Silêncio, feito em 2007 a partir do universo imagético e de fulgor de Maria Gabriela Llansol.
O título remete para o penúltimo livro publicado em vida da autora, Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004, um impressionante «trabalho de luto» que caminha para a luz, e é a sua resposta ao desaparecimento do seu companheiro de uma vida, Augusto Joaquim, em 2003. O filme (um projecto originalmente feito em colaboração com Vera Mantero) aproveita também uma última conversa-entrevista de Llansol com João Barrento e Maria Etelvina Santos, em 28 de Julho de 2007.
Curso de Silêncio será apresentado em Óbidos por João Barrento, que recordará essa última conversa e abordará algumas ligações do filme de Miguel Gonçalves Mendes com a paisagem literária do humano e do não humano nesse universo «megavibrátil» que é o de Maria Gabriela Llansol.
Publicado às
12:17
19.9.16
UM BEIJO DADO MAIS TARDE
Lançamento da segunda edição
É o regresso das sessões da «Letra E» do Espaço Llansol. Vai ser no dia 4 de Outubro, às 18.30h na Livraria Sistema Solar (ex-Assírio & Alvim, no Chiado), a apresentação da nova edição de Um Beijo Dado Mais Tarde, enriquecida com um conjunto de fotografias de Duarte Belo, pela poeta Marta Chaves, e intervenções, por parte do Espaço Llansol, de João Barrento e Maria Etelvina Santos. Teremos ainda a presença de Vasco David, em representação da Editora. E o actor Diogo Dória lerá uma montagem de excertos da obra.
Um Beijo Dado Mais Tarde, obra à qual foi atribuído em 1990 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, é um dos livros-chave de Maria Gabriela Llansol, um não-romance escrito «para que o romance não morra», um balanço muito particular de meia vida, com alguns nós de significação de que se podem destacar: o papel (problemático) da memória na constituição do eu; a tensão entre a língua herdada e a voz adquirida (ou a herança e o legado, o que nos cai em sorte e o que escolhemos), num processo de aprendizagem que subverte essa herança; a luta entre a impostura e a justiça, entre o ter e o ser, que aqui se configura na dupla vida a que estão destinados os muitos objectos herdados e trans-figurados (passados à condição de figura), que fazem desta obra o grande livro dos objectos na escrita Llansol.
Publicado às
23:26
10.8.16
O REGRESSO DE UM BEIJO DADO MAIS TARDE
quinze anos depois do Prémio
Para além das novidades que se anunciam para este ano e o próximo (Encontros, edições em Portugal e no estrangeiro), de que demos notícia aqui em 5 de Julho, anunciamos ainda a saída, em finais de Setembro, do livro de Llansol que recebeu pela primeira vez o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, e que teve a sua primeira (e até hoje única) edição portuguesa em 1991.
Um Beijo Dado Mais Tarde regressa agora em nova forma, acompanhado de um caderno com fotografias de Duarte Belo que documentam os principais objectos e figuras deste grande livro dos objectos, e com posfácio de João Barrento.
Publicado às
17:18
1.8.16
LLANSOL REGRESSA A GUIMARÃES
Maria Gabriela Llansol volta ao Centro Internacional das Artes José de Guimarães, desta vez com obras dos artistas Ilda David', que já aí tivera em 2014 a grande exposição «O encontro inesperado do diverso» (com o fotógrafo Duarte Belo), e agora apresenta várias peças de tecido bordado, no âmbito da exposição «Caminhos de Floresta» e da Bienal de Arte Têxtil Contemporânea; e Rui Chafes, cuja escultura «Vejo uma luz morrer» (pertencente ao acervo do Espaço Llansol) foi integrada na exposição «Labirinto e eco», que articula a colecção permanente do Centro com outras obras. As duas exposições estarão presentes no C.I.A.J.G. até ao fim do ano.
Ilda David', que desde há muito leva a cabo um trabalho artístico nas mais variadas técnicas e suportes em diálogo com a Obra de M. G. Llansol, apresenta uma série de panos com motivos bordados derivados da sua leitura de livros como Lisboaleipzig (os Falcões), Contos do Mal Errante (o grande pano preto com figuras) e outros (a série de vestidos com bordados, um dos quais traz o nome de Maria Gabriela Llansol).
A escultura de Rui Chafes (que antes estava na «Letra E» do Espaço Llansol) surge agora a uma nova luz na grande sala do CIAJG onde desde sempre muitos objectos da colecção de arte africana de José de Guimarães entram em relações de vizinhança e afinidade, ou de tensão dinâmica. Lembramos a passagem de Lisboaleipzig 2 que inspirou a Rui Chafes esta peça:
– Que estás a ver?
– Vejo uma luz morrer que leva uma parte da tristeza
nas suas penas – uma das quais estranhamente trémula. – E,
como nos dias precedentes, reformulam no alto voo a sua oração
de peregrinos:
– Crês na acção de voar?
– Creio.
– Crês na sublimidade das árvores?
– Creio.
– Crês na velocidade fulgurante que divide em miríades de partes o teu olho luminoso?
– Creio.
– Crês no afecto por todos os seres para além da dor que causamos uns aos outros?
– Creio.
– O sol não nasce.
– Nem se põe. A luz não tem raízes.
– Sentes que o Trimúrti acorda?
– As vagas já lhe batem nos cascos ancorados.
– Sentes o mar a entrar-lhe no átrio?
– Como a dor.
O falcão volta para ela. Estão sós no prado. Por ora, acabou-se o treino e a falcoeira pensa, a sós com o seu falcão…
– Crês na acção de voar?
– Creio.
– Crês na sublimidade das árvores?
– Creio.
– Crês na velocidade fulgurante que divide em miríades de partes o teu olho luminoso?
– Creio.
– Crês no afecto por todos os seres para além da dor que causamos uns aos outros?
– Creio.
– O sol não nasce.
– Nem se põe. A luz não tem raízes.
– Sentes que o Trimúrti acorda?
– As vagas já lhe batem nos cascos ancorados.
– Sentes o mar a entrar-lhe no átrio?
– Como a dor.
O falcão volta para ela. Estão sós no prado. Por ora, acabou-se o treino e a falcoeira pensa, a sós com o seu falcão…
Publicado às
21:13
5.7.16
EM TORNO DE LLANSOL: O QUE AÍ VEM…
O Espaço Llansol continua com a sua actividade em várias frentes – eventos públicos, edições, espólio –, e damos hoje conta dos próximos projectos, para 2016-2017, antes da pausa de Verão.
1. ENCONTROS
Para além das actividades regulares, mensais, da «Letra E», que continuarão, temos duas Jornadas em preparação:
2. DO ESPÓLIO:
3. EDIÇÕES:
– Em Portugal:
Publicado às
22:07
22.5.16
«EM CONTRAPONTO»
Llansol e a música
A tarde de sábado da «Letra E» do Espaço Llansol desenrolou-se desta vez, não num «quarto musical e sem janelas» dando sobre o Cabo Espichel, como lemos em Causa Amante, mas numa ampla sala que se encheu de música nessa tarde, generosamente iluminada por grandes janelas – a do Salão Nobre do ISEG, em Lisboa.
A Teresa Projecto encarregou-se de toda a preparação desta sessão com características diferentes das habituais, especialmente pela participação, ao vivo, do Coro Feminino de Lisboa.
Teresa Projecto
E fizemos como sempre um caderno cheio de textos inéditos de M. G. Llansol sobre a sua relação com a música e os músicos, onde se podem ler/ver fragmentos como os seguintes:
A introdução ao caderno, por João Barrento, sintetiza a ligação entre o texto de Llansol e a composição musical, e destaca alguns dos seus livros em que o tema é central:
Em contraponto?
O título musical deste caderno diz muito
sobre os modos de escrita e de composição dos livros, de toda a Obra, de Maria
Gabriela Llansol. De facto, quer os registos polifónicos da sua linguagem, quer
sobretudo a alternância melódica das vozes das figuras que a autora arranca a
tempos e lugares diversos para as trazer à partitura do texto, são
iminentemente musicais. Música e músicos – e são muitos os nomes que desde
início pontuam as páginas dos seus livros, do Gregoriano a Satie ou Messiaen,
passando por compositores tão importantes para o seu projecto de escrita como
Purcell e sobretudo Bach –, a música e os músicos não se limitam aqui a ser uma
«companhia» para a escrita: modulam e modelam o Texto, que responde de formas
diversas consoante os sons que o envolvem na hora de nascer. E em ambos os
planos, o da música e o do texto, Llansol descobre paisagens da mais pura
liberdade: «o reino que nos coube não tem cadeias, só ritmos e melodias» (Um Falcão no
Punho, 2ª ed., p. 80).
Aquilo que nos é dado ler em muitos
livros e também nos cadernos inéditos de Llansol evidencia claramente o lugar
seminal da música nesta escrita e neste pensamento (a música de Mozart «colora
o pensamento», e há «um tempo interior em que o pensamento 'faz música'»). Nos
cadernos (que este caderno em parte reproduz) damos com frases lapidares como:
«A música implantou-se em mim definitivamente...» (Setembro 1986); «Tenho uma
grande sensibilidade à música, de tal modo que ela é o avesso do tecido mais
precioso que possuo» (6 de Outubro 1986); ou, de forma ainda mais decisiva: «a
música é o ovo de meus livros» (8 de Outubro 1988).
E no entanto (tal como acontece na sua
relação com o desenho), Llansol reitera por mais de uma vez a sua impreparação
e incapacidade musicais, o seu fraco ouvido, a sua ignorância técnica – e isso
leva-a a anotar com frequência nos cadernos a informação, técnica e biográfica,
buscada e recolhida em livros e enciclopédias. Mas a música, sendo algo de
exterior à escrita, não deixa por isso de ser uma espécie de movimento
ondulatório essencial ao nascimento dos ritmos dessa mesma escrita (tal como o
desenho é, confessadamente, prolongamento e complemento da caligrafia). O
texto tem as suas músicas próprias, deixa ouvir vozes muito diversas, é, em
última análise, uma partitura à espera de ser cantada.
Há mesmo livros inteiros dominados pelo
espírito e pela substância da música. O Jogo da Liberdade
da Alma abre com a cena poderossíssima do
«homem nu ao piano», e esta figura acabará por estruturar subterraneamente todo
o livro. Neste mesmo livro torna-se a certa altura evidente a importância da
polissemia da palavra «toque» – e neste caderno vamos encontrar uma página
inédita em que a «escrevente» a si mesma se vê como «tocante», executante de
uma música verbal que Llansol toca de forma muito particular e inconfundível
(vd. texto de 22 de Setembro de 2001).
Para além deste livro, haverá dois outros
grandes «momentos musicais» na Obra de Maria Gabriela Llansol: Lisboaleipzig e Os Cantores de Leitura. O primeiro traz para o centro de uma
narrativa em contraponto a figura de Johann Sebastian Bach, que, no contexto da
polifonia de vozes que habitam a sua casa de Leipzig, dialoga com o pensamento
(Baruch Spinoza) e com a poesia (Pessoa-Aossê), e consegue operar em ambos uma
metamorfose significativa. No segundo alcança-se, com o coro de cantores da
leitura que enche as muitas Casas do livro, uma quase música das esferas,
naquele que é o mais etéreo livro de Llansol, e o seu canto do cisne. É aqui
que a nostalgia da música se revela verdadeiramente como horizonte último da
escrita de M. G. Llansol. Como ela própria confessa numa passagem deste caderno:
«A música é mais secreta do que a linguagem, e sumamente secreto é o lugar para
onde desejo ir.» (22 de Outubro 1999).
A sessão abriu com uma apresentação do tema da música na Obra da nossa autora por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, de que reproduzimos aqui alguns momentos essenciais:
Eu começaria por vos falar de uma tripla presença da música no texto llansoliano; ou melhor,
consigo descrever três modos de estar da Música nesta escrita, sendo que
cada um deles contamina, como é evidente, os outros, não sendo possível
garantir entre eles uma fronteira estanque. E, embora vá falar de cada um deles
em particular, remetendo para os livros de Llansol, vou querer, também, revisitar
alguns fragmentos coligidos no Caderno de hoje, pois estes
bastariam, por si só, para ilustrar esta tripla presença.
1) Vamos então
começar por falar de um modo de estar da Música no texto llansoliano, que
perpassa toda a escrita da autora e que nos ajuda, até certo ponto, a apurar o
nosso modo de ver o seu texto. Falo do texto musical de Llansol, especificamente.
Uma das aproximações mais recorrentes e desenvolvidas à escrita llansoliana tem
sido a sua matriz formal, entre uma grafia (e ortografia) singular, com a
mancha gráfica do texto, as suas suspensões, a sua forma compulsivamente
fragmentária, o seu ritmo sincopado, a sua oscilação entre lugares, motivos, a
recorrência obsessiva de palavras, a sonoridade de certas expressões, a
construção das cenas por camadas, a não hierarquização do narrado, o
privilegiar da parataxe, a polifonia da voz e o sujeito de enunciação múltiplo,
enfim, um conjunto de traços formais que, não podendo de forma alguma ser
ponderados isolada e independentemente da substância trabalhada no texto,
levam-nos a falar de um processo de abstracção da língua que se aproxima da
língua em construção que geralmente define a música. Não querendo, com isso,
enveredar pela discussão interessante sobre se a música significa algo ou se se
trata de um tecido sonoro sem qualquer sentido (discussão que é sempre
profícua), podemos, contudo, servir-nos do seu código de notação e da sua
potência sonora não-verbal para afirmarmos, do texto llansoliano, que tende
para uma certa abstracção do próprio código e do discurso por ele articulado.
Não sendo esta
abstracção um fim em si mesmo, ela é, no entanto, sentida, na evidência do
texto e à superfície mais epidérmica de quem o lê. De facto, o texto
llansoliano começa por nos retirar o chão debaixo dos pés, se considerarmos as
competências de leitura que nos são dadas desde a primeira escolaridade. E a
necessária reaprendizagem da leitura em que somos envolvidos prevê, também, a
percepção de estarmos perante uma rasura formal e conceptual, onde as coisas
ganham novo sentido, pelas palavras que as dizem e pela sua disposição num
discurso singular. Também poderíamos apontar para a confrontação, creio que
útil, de todos estes traços do discurso llansoliano com os traços da música
erudita contemporânea, em alguns dos seus nomes — estou a lembrar-me de Luciano
Berio, de György Ligeti, de György Kurtág, de John Cage, mas há muitos outros,
e todos devem a Erik Satie alguns dos seus traços. Falo de Satie, porque é um
dos compositores mencionados no espólio de Llansol, e cuja música, no que a
singulariza, não está tão longe assim da sensibilidade do discurso
llansoliano. Também a reverberação do sentido das palavras e a ‘sonoridade’ do
texto, de que falei atrás pertencem ao texto musical de Llansol
[…]
2) Há uma segunda presença da
música no texto llansoliano, que remete
para a música como
tema/assunto. Esta presença,
também muito bem ilustrada pelos fragmentos do espólio presentes neste Caderno de
hoje, diz respeito às considerações sobre a música e à recepção de alguns
compositores no seu quotidiano e no seu labor da escrita, diz respeito também à
relação difícil de Llansol com a matéria própria da língua musical, que ela não
domina, e diz também respeito à sua própria maturação como ouvinte, fazendo
encontrar por vezes o ouvir e o ler de forma muito pertinente.
Eu diria que esta
presença da música no texto llansoliano não será a mais profícua de sentido, ou
a que nos ajude a entender melhor a relação de Llansol com a Música, muito
embora num dos seus livros, O Senhor de Herbais, se encontrem reflexões
muito pertinentes e de grande sensibilidade à música, no contexto em que aí se
pensa a “reprodução estética do mundo e suas tentações”, nas palavras do seu
subtítulo.
Mas seria injusto, no
mínimo, não falar da presença da figura de Bach num dos livros que considero
axiais na produção llansoliana, o projecto Lisboaleipzig, onde assistimos a um
confronto de Razões – a razão barroca e crente de Bach e a razão moderna e
descrente, desencantada, de Aossê, ou Pessoa – e depois também a confrontação
do chamado “dom poético”, de que Bach e Aossê são os representantes maiores
neste livro, com a “liberdade de consciência” de que Baruch Spinoza será o
arauto. Mas há um momento interessante de confrontação estética no encontro de
Bach com Aossê, sobre o qual não me vou demorar aqui, mas que constitui um
momento de Lisboaleipzig (publicado em primeira edição em 1994) que ajuda a perceber também
a recepção llansoliana da música de Bach, e o que esta representa (vd. Lisboaleipzig, vd. ed. em 1 vol., 2014, pp.117-182).
[…]
3) Chegamos à
terceira presença da Música no texto de Llansol, que é, a meu ver, a mais
interessante e inesgotável de todas, sendo que, em muitos dos seus fios, se
liga estreitamente às considerações já feitas anteriormente sobre o texto
musical de Maria Gabriela Llansol. Falo agora da música como o lugar de um desejo. A expressão é cifrada e não consegue abraçar completamente a
complexidade da presença da Música enquanto figura e enquanto imagem no texto
llansoliano, e levei algum tempo a chegar a ela, embora esta se aproxime,
afinal, de uma frase que considero lapidar, que conhecia primeiramente de Amigo
e Amiga, mas que vem dos cadernos e data
de 1999, sendo também incluída num dos fragmentos incluídos no Caderno de hoje. O
João Barrento, com toda a pertinência, também aponta para esta frase no final
do seu texto introdutório, e não é por acaso. Começo por ler a tal frase de
1999: «A música é mais secreta do que a linguagem, e sumamente secreto é o lugar para onde
desejo ir».
Esta terceira presença da
Música em Llansol remete para vários planos que conhecemos da escrita
llansoliana, mas hoje falo somente de dois que me são particularmente caros e
me ajudam nesta apresentação: o primeiro remete para a ponderação da escrita
sobre si mesma e sobre a sua habilidade, ou capacidade de metamorfose do real
(em última análise, de metamorfose e superação da própria morte); o segundo
remete para a recepção de Espinosa, filósofo por demais vital a uma compreensão
aprofundada do texto de Llansol.
[…]
Bastaria lermos o
início de Os Cantores de Leitura, logo a Partícula 1 e seu duplo,
para percebermos que a Música será uma presença que é da natureza do próprio
escrever llansoliano, na justa medida em que este escrever dá testemunho do
“cântico de leitura” intensiva de Espinosa. Processo sempre arriscado, que faz
da música um instrumento de combate ao medo e ao perigo. […]
Seguiu-se a leitura de textos de Llansol por Maria Etelvina Santos, Helena Alves e João Barrento, intercalada pela audição de excertos musicais das peças referidas nos textos lidos.
Maria Etelvina Santos
Helena Alves
E a tarde foi declinando ao som das vozes do Coro Feminino de Lisboa, com as seguintes peças, de que deixamos aqui dois momentos (a desfocagem é efeito intencional!):
Publicado às
23:12
19.5.16
LLANSOL E ILDA DAVID' NA «FESTA NO CHIADO»
No âmbito da semana «Festa no Chiado» e do programa «5 Livros / 5 Autores», do Centro Nacional de Cultura, falou-se ontem, no Círculo Eça de Queiroz, do Livro de Horas V (O Azul Imperfeito), edição Assírio & Alvim, e do livro catálogo que reune trinta anos de desenho da pintora Ilda David', com o título Do Negro a Luz, uma edição Documenta/Fundação Carmona e Costa, da responsabilidade de Nuno Faria e Manuel Rosa.
Numa conversa moderada por Ana Marques Gastão, Maria Etelvina Santos e Ilda David' deram conta dos respectivos livros, destacando-se ao longo do diálogo configurações de práticas e de ideias que aproximam a escritora e a pintora, nomeadamente:
Maria Etelvina Santos, Ana Marques Gastão e Ilda David'
no Círculo Eça de Queiroz
– uma ideia de Comunidade que faz convergir figuras, seres, objectos para um espaço sem tempo nem cronologia que o determine;
– neste contexto situou Maria Etelvina Santos uma figura como Aossê e os elementos «catalizadores» da sua metamorfose na casa dos Bach, que constitui o fio condutor essencial dos trinta anos de escrita em torno de F. Pessoa agora depositados neste quinto Livro de Horas;
– a ideia, comum a ambas as criadoras, de um trabalho que se desenvolve como um «Livro de Horas» contínuo, em que nas várias horas do dia a leitura (matéria-prima comum a ambas), o olhar sobre o mundo, a escrita, o desenho brotam de modo não pré-concebido, para depois se configurarem, numa total disponibilidade e imprevisibilidade, em obras sempre inacabadas;
– o paradigma «arqueológico» que serve às duas autoras, um processo de trabalho em camadas, que vive de ecos, ressonâncias, recuperação de matéria aparentemente perdida;
– finalmente, e tomando como pretexto o título do livro-catálogo de Ilda David', as três intervenientes falaram ainda, também com o público, da importância de um modo muito particular de entender a luz, presente também na sombra e no negro, e determinante, quer para a artista, quer para a escrevente «canibal de olhos», imagem que um dia serviu a Llansol para dar de forma intensa o seu modo próprio de se relacionar com o mundo.
Publicado às
16:39
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