20.3.16

UMA VIAGEM PELA OBRA DE M. G. LLANSOL

A ideia subjacente à última sessão da «Letra E» do Espaço Llansol no MU.SA de Sintra foi já explicitada no post anterior. Hoje fazemos, como habitualmente, o resumo da tarde de ontem, dando a ler a quem não esteve em Sintra a introdução de João Barrento ao caderno que reproduz o Bloco 06 do espólio, e, por sugestão de algumas das leitoras, os excertos dos dezassete livros escolhidos para leitura a partir das frases de Llansol no Bloco, que foram sempre introduzidos e comentados por João Barrento ao longo da sessão.

















UMA PEÇA DE ARQUIVO E UM MODO DE LER:
O «BLOCO 06»

Um dia, presumivelmente em 1996, Maria Gabriela Llansol usou todo um pequeno bloco de notas (o número 06 na classificação do espólio, 20 folhas numeradas) para fazer um singular balanço-síntese da sua Obra publicada até aí. De cada livro (e também da Introdução às duas primeiras traduções de poetas de língua francesa, Verlaine e Rilke, então já publicadas) escolhe uma frase que para ela deverá ter apelado particularmente ou que, no momento, sintetizava um aspecto fundamental do livro e dos seus modos de escrever e ver o mundo (indicando sempre a respectiva página). Cada uma dessas frases pode hoje ser entendida como indicadora de um caminho possível para a leitura do respectivo livro.
O que me proponho fazer é tomar cada uma dessas frases de M. G. Llansol como guião de leitura, uma linha de água no grande delta de muitos braços que é o universo da sua escrita única e contínua, para uma abordagem livre e sobretudo amplificadora, que explorará cada motivo ou pormenor da frase, e os seus contextos, e que poderá sair deles e do livro para a Obra de Llansol, sem no entanto os perder de vista. Cada frase (ou frases) funcionará ainda como complemento do comentário, enquanto núcleo de irradiação para a leitura de excertos do livro em questão, que necessariamente conterão as frases escolhidas pela autora.


Ler um livro a partir de uma frase escolhida arbitrariamente pode ser uma empresa de alto risco. Mesmo, ou sobretudo, se o sujeito da escolha foi a própria autora. Porque nesse caso o risco pode ser o da «cegueira crítica», de uma leitura determinada à partida pelo olhar do autor, que impõe um caminho (e com isso impede uma visão mais ampla e «desinteressada» da obra). Mas não é disso que se trata aqui: a ideia de ler uma boa parte da Obra de Llansol à luz do «Bloco 06» poderá transformar-se antes numa espécie de exercício divinatório, num jogo de possibilidades, numa interrogação sobre a imagem (a ideia, as preferências?) que um autor propõe de um livro seu, por vezes a muitos anos de distância.
O «Bloco 06» não nos fornece nenhuma explicação, sequer uma nota, para esse gesto de resumir um livro a partir de uma frase sua. Nem isso seria muito compreensível em Llansol, que temia as simplificações e rejeitava as tentativas de fixação, em definições sintéticas e inevitavelmente fechadas, dos constituintes abertos e mutantes da sua escrita – figuras e noções, lugares e particularidades de estilo. Mas não é propriamente isso o que ela faz com as frases deste bloco. Ainda assim, interrogamo-nos sobre os motivos deste exercício que, na diversidade que parece caracterizar as frases escolhidas, permite – e isso é o mais interessante e produtivo – ler os vários livros, tanto pela via de uma ideia que provavelmente o viu nascer como pela de uma figura que nele se tornou determinante, de um traço de estilo que a autora quis destacar como seu, de uma frase enigmática que sugere, mais do que explicita, uma camada de sentido importante, da «cumplicidade» com figuras ou temas da sua preferência ou de uma proposição lapidar que torna evidente e inquestionável a motivação primeira para a escrita de um livro


Fosse qual fosse a motivação, o bloco está aí e apela para nós com o fascínio de uma peça singular e intrigante no meio da torrente de escrita de dezenas de milhar de páginas dos cadernos e outros blocos de notas. E isso será suficiente legitimação para o gesto ousado de o tentar interpretar e comentar, traçando com isso também um percurso por uma parte significativa da sua Obra (dezassete livros e as duas primeiras traduções de poetas de língua francesa).
João Barrento

O CÍRCULO DA LEITURA

[As frases a verde são as escolhidas por M. G. Llansol para cada livro]

1. OS PREGOS NA ERVA
a) De: A terra fora do sítio
O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que os peixes morriam e o amor, às vezes, principiava. Pousava nas mulheres o cheiro do mar, impregnava-as até aos ossos através das saias e das blusas, de modo que nos seus corpos se abraçavam ondas solidificadas de água. [...]
Era uma manhã de sol, sol de mar, de luz e sal. Os gritos das crianças — "Olá, olé, oli" — convergiam, a acabar-se, para a Escola. Barcos amarravam à areia o seu instinto desumano de partida.
—  O inverno acabou — disse Macário. — Ainda bem.
—  Foi um Inverno frio — respondeu Elisa.
—  Um Inverno duro — acrescentou Macário.
 Ia um pouco adiante. De vez em quando parava ou olhava para trás, a estimular os passos mais vagarosos de Elisa. Derramava em si próprio a silhueta traçada com firmeza em tecido negro, porque não trazia xaile. Tinha olhos castanhos, limitados, e por isso quase fartos.
—  Uma vez deste-me uma bofetada.
—  Não queria bater-te.
Os vestígios dos seus pés marcavam uma fronteira ao mar, mas as águas não a respeitavam. As pegadas alagavam-se, cobertas de seixos e de limos.
— Estamos quase no fim da praia — disse Elisa. — A maré começa a subir.
Macário olhou para trás, a verificar se a distância já os ocultava ou ainda os descobria. Passou um braço em redor dos ombros de Elisa. A água rasava-lhes os tornozelos, a perfurmar-lhes os pés. Voltaram a cabeça para a direita e viram o céu e o mar, as duas profundidades inversas, repletas da cor uma da outra. Rochas eram o sinal do fim da praia e do início da falésia. Sentaram-se na areia pesada que, todavia, comungava a leveza do sol. A maré subia, inadiável. E a blusa de Elisa fez-se ao mar.

b) De: O chão das três árvores 
Através das tábuas desunidas via segmentos dos troncos das três árvores. Sara dormia com a cabeça encostada à parede e o queixo assente sobre o começo do peito. A luz que penetrava pelos mesmos interstícios que permitiam a Marcos a visão de segmentos das três árvores, concentrava-se num facho onde oscilavam poeiras e incidia sobre o ombro nu de Sara como uma flecha de ponta partida.
Abel que passara a noite estendido em frente da porta aproximou- se em silêncio de Sara e beijou-lhe o ombro nu. Marcos olhou-o sem expressão. Abel ficou imóvel, com os joelhos e as mãos sobre o solo. O beijo continuou-se nos lábios de Marcos que virou a cabeça para a fonte de luz começada.
No vestido de Sara pendurado na parede, um pouco para além da porta, uma mosca pousou as patas quase invisíveis. Os curtos fios pretos comunicaram às flores artificiais do tecido uma existência matutina que acabou logo que o insecto voou em direcção ao tecto.
Marcos descerrou a janela. — Ela acorda — disse Abel. […] 
—  Vou-me embora — acrescentou Sara de repente.
—  Para onde?
—  Um dia acontece.
—  Acontece. Não somos capazes.
—  Não. Deitamo-nos no mesmo chão. Pela tarde, Sara beijou Marcos.  
—  Leva os tecidos que quiseres.
—  Não.
 Partiu calada, com os sapatos numa das mãos.
 Marcos deitou-se com a pressão do beijo a repetir-se na face. Através das tábuas desunidas viu, durante instantes, o amarelo girassol do vestido de Sara.
2. DEPOIS DE OS PREGOS NA ERVA
E QUE NÃO ESCREVIA
(auto-análise: «não sou capaz de dar vida
a uma sociedade nova. Mas posso destruir os mortos». )

Como, de resto, é evidente, não tive intenção de ser concebido. Dei comigo já sentado no quarto das sombras com uma perspectiva de descida aos infernos diante dos olhos, ninguém estava à altura de receber-me, nenhuma relação humana era exacta para tornar-me equilibrado e justo, ou útil; no quarto das sombras a luz entrava a jorros por duas grandes janelas de sacada mas eu habitava aí, não ultrapassava o limiar do corredor que possuía uma passadeira de oleado negro e brilhante porque, diziam, havia um fantasma acocorado à entrada e que, afinal, nada mais era do que, a certas horas do dia, o volume rutilante do sol no oleado; ficava, pois, limitado por uma proibição a essa sala. Nas minhas reminiscências, neste passado que se prolonga e faz um com o futuro, aparece castanha, quase luxuosa, infiro que deviam atribuir-me o valor de um anel precioso para nos guardarem juntos     tenho-o pousado em livro à minha mesa de cabeceira amigo único santo fetiche foi o que ele disse    os seus sintomas são resíduos e símbolos de certos acontecimentos (traumáticos) [...] 
Ficha 1 — O quarto é branco, com movimentos de cor pincelados em cada parede, sou eu que os faço; molho o pincel em vários baldes com tinta, segundo me prescreveram na minha terapêutica depois desta aprendizagem de estar doente em que me vou tornando exímio, criança para sempre irremediável sem palavras que não sejam figuras e cor cor que me sai em teia, em fixação no passado com formas actuais conforme o que pinto na parede que é obra minha      banhado nesta expressividade que me acompanha não falo    tenho a mão; que se mantém muito proximamente ligada à boca quando vomito ou como, aos olhos — choro; descobri para as minhas lágrimas a felicidade de decomporem a luz e de me trazerem à lembrança pessoas da minha família minha mãe, meu pai, meus irmãos, minhas criadas também consideradas da nossa família, desejáveis como nos tempos da minha infância ainda a não recuperar-se nesta casa...

3. O LIVRO DAS COMUNIDADES
Lugar 4
[…] A parteira diz-me que vai dormir, que a espera muito se prolonga. Sorrio; e, tendo-a encontrado debaixo da página, guardei no seio a mão decepada; São João da Cruz, ou meu filho, escrevem em vão sobre a folha em branco. Sempre em branco             não havia escrita: deitou-se então sobre o papel, o corpo tomando as proporções de uma criança recém-nascida. Eu olhei, ignorando. Nada se passava, apenas se ouvia um vagido, entre a mesa e o tecto. De olhos fechados, ou abertos, eu não dormia; ele desapareceu na página, e:
onde está a minha mãe?

O rumor da tempestade vem do sul de Fontiveros. Já certamente atravessou Ubeda, e antes de Segóvia não encontrará repouso. Faremos companhia um ao outro; não sinto dores, e de nenhuma parte de meu corpo João poderá nascer; conheço as folhas de Fontiveros no Outono, são vermelhas ou amarelas e ressoam nas ruas quando o ar se carrega de electricidade ou ele passa com sua mão a escrever

deixando as ruas,

encontrou-se em pleno campo. [...]

Lugar 10
Deixara-se levar pelo sono, o vento cálido do deserto apagara o lume

as estrelas despontavam no sobrevoo da extensão gelada
Ana de Jesus abismou-se em Giordano Bruno, e na infinitude do espaço.
Giordano Bruno, de prodigiosa memória, viu a sua testa reflectida na fogueira e lembrou-se de todos os instantes, de todos os minutos, de todas as horas, de todos os anos da sua vida; mais intensamente ainda dos textos que lera e dos autores que lhe haviam concedido esse prazer; depois pressentiu que uma labareda subindo lhe ia dividir a fronte
mas nas duas partes se lembrava que o universo é infinito, povoado de milhares de sistemas com os seus planetas e o seu sol.


4. A RESTANTE VIDA 
a) Capítulo I 
Nos meses de Setembro e Outubro
Por aquele tempo, os dias para Hadewijch, por virtude de muito amor tornada Ana de Peñalosa, eram duros como pedras; sentia-se sem memória, privada da sua sede de aprender, traída; uma espécie de velhice extra terrena antecipava-se ao seu tempo de velhice; Nietzsche subia mansamente nos seus livros, no auge do texto; e ela esperava todos os dias a sua sede de conhecer [...]
Aplicou-se a ler as palavras mas elas explodiam, e rolavam sem direcção precisa para lá de Nietzsche e de Müntzer.
Tinha orado?

Envelhecido?

Libertado o corpo?

Amanhã outro dia começava, e de toda a parte viriam notícias de loucura e de guerra; homens estranhos tomavam o poder, e eram imitados. Quem ali estava com ela sentado à mesa, acabaria por partir; e teria de voltar à sala privilegiada para suportar os seios, um dos lugares aberrantes do seu corpo; mas Müntzer, quando indirectamente lhe falava, dizia-lhe «Sabes que serás em todo o tempo? Em toda a forma?» Via o horror das caras filtrar-se através dos vitrais, e as caras eram horríveis, e todas se inclinavam para ela; as cores perfuravam as caras de mil buracos, e o seu corpo acabara nesse momento de encontrar lugar para as mãos; encontrou então outras mãos de unhas muito longas, e com pele de contacto desconhecido; retirou-se nessa visão e entrou no seu quarto, meio adormecida de tristeza e de amor. Estava à beira do ponto-voraz, acabara de tomar possessão da tua memória,   ó rosto monstruoso que atravessas o vitral. Reconhecia os cães desfigurados pela luta e os corpos de Nietzsche, e de João da Cruz, e de Tomás Müntzer estreitamente desmembrados. O meu horror tão triste pôs-se a cantar com uma voz doce saída da minha boca, seguia-os fielmente como se estivessem mortos e fossem ser enterrados. Não podia alimentar-me a não ser de tristeza [...]
Assim seria encontrada depois da batalha,
longe,
esquecida entre as páginas de um livro velho...
b) Capítulo II
quando intervieram as paixões, foi outra forma de guerra; a princípio não se sabia que trama se estava a preparar, somente Ana de Peñalosa, descerrando a porta do quarto, verificava que muitas bocas se fechavam (a sorrir) ou se abriam (a gritar);
mas,

nesta visão,
não há paixões; desde que aqui me abro ao espaço criado pela casa, deixado em mim pelo jardim, que paira no ar como um insecto repleto de metamorfoses, a guerra e a dor são impensáveis. Ou talvez apenas se apresentem sob a forma de nostalgia, ou de pacífica inquietação: quanto tempo durará esta paz? [...]
Viria a ter amor por quem assim fizesse silêncio, gostaria de recebê-lo aqui.




5. NA CASA DE JULHO E AGOSTO 
a)
(XIV)
Chove serenamente e estamos no verão, é um tempo de prova para as beguinas; não quero prosseguir na noite sem escrever-te, Eleanora, mas estou completamente despojada de imagens e de narrativa; no entanto, queria prevenir-te, sem que devas dar-lhe muita importância, que vai chegar o tempo em que os irmãos do livre espírito serão perseguidos pelas hierarquias e que nós, as beguinas, os esconderemos na teia de uma ampla rede clandestina.
b)
(IX)
Na periferia da madrugada, levantou-se de seu leito, com profundas saudades do destino de Luís M.. Penetrou junto dele sem falar, nem barulho e em breve, sem nenhuma razão aparente estavam a conversar sobre narrativas, quilhas de barcos. Luís M. dizia «o exílio levou-nos a falar a língua por dentro, e a olhá-la por fora». Ao fundo do quarto havia a coluna trepadeira onde estava sempre presente o desejo de nomadismo; diante da escuridão. Era uma coluna de águas silentes voltadas para pontos vários e também Portugal,
torre cravejada de olivais,

sobreiros,

episódios, décadas, peregrinações,

crónicas e estadias suaves visualmente desaparecidas.
c)
Epílogo
Os pobres entraram na Casa, a sala-cozinha tornou-se promíscua. Cada um é meu Mestre. Os pobres, no país desta língua, são andrajosos, ainda mais desprezados do que em qualquer outra parte. Capazes de nos ensinarem muito sobre a trama da vida, têm opiniões sobre os acontecimentos quotidianos que exprimem em frases lapidares e hereditárias. [...]
Entre os pobres, escondem-se alguns perseguidos. É amargo, para quem não é pobre, tomar a fisionomia discreta e monocórdica de pobre. É amargo viver sentado no chão com o espectro da fogueira e de torturas. Quem pode ser morto pelo fogo não ama, como nós, a chama da vela. []

Ser só a mulher que escreve é impossível; uma paisagem permanentemente marejada de pensamentos me mantém com ela sua escrava. Na linguagem de Comuns, diria que é aquela cativa que me traz cativo, mas já o Convento dos Capuchos, na Serra de Sintra, me perturba do fundo da sala, se constitui acontecimento imperfeito de livro.



6. CAUSA AMANTE

a) meu quarto é musical e sem janelas e, no entanto, mal chega ao corredor, abre sobre o cabo Espichel, de onde recebemos sugestões de Lisboa; no Brabante, dava sobre uma árvore, Prunus Triloba; num e noutro país a minha ocupacão principal é ligar-me a uma ideia, e examiná-la cuidadosamente; quando um pensamento é verdadeiro podem deduzir-se, sem interrupção, outros pensamentos verdadeiros. 
[...]
Confrontado ao silêncio com que vivíamos essas noites
     noite      Sebastião deu à praia; a Praça era o nada prestes a ser submerso, e foi molhado pela espuma das ondas que se retiravam que eu vi seu rosto pela primeira vez; nunca mais Sebastião seria o Rei, dele tudo se havia perdido, a não ser o corpo que nós tínhamos; era um corpo quase nu como muitos que nós já encontrámos e, entre estar morto e estar vivo, debrucei-me para ele, pus-lhe a cabeça sobre uma saliência húmida, lembrada da ternura de Coração do Urso por todos os seres semelhantes. Os que lutam e perdem batalhas, como Müntzer, vivem as suas vidas ignoradas em ideias submersas.
[...]
quando Sebastião ouviu (dizer) «Sou eu, Ursula», saiu pela porta dos incógnitos, e tornou-se arbusto com as árvores; uma das três árvores era Prunus Triloba
b)
Os arbustos não foram vencidos pelas armas.
Os arbustos não foram vencidos pelas armas.
Dom arbusto pede-me que procure Comuns na paisagem, e lhe pergunte se ele não deseja admiti-lo na sua companhia.
Sobre a massa de papéis de Comuns,

onde tinha vivido em contradição consigo mesmo,
um peixe arde no meio do Oceano Índico estendido;

As guelras de luz dão a claridade necessária
ao papel em que Comuns escreve,

à volta Úrsula espalhou especiarias,

as rochas ficaram cobertas de moedas.
Comuns responde-lhe que não sabe se se deve, ou não, excluir dom arbusto do caminhar incessante da palavra.
Úrsula diz-lhe que, no Paço, foi dom Sebastião quem o privou de ser ouvido mas dom arbusto, que é o mesmo e o outro, não deve ser condenado a distanciar-se da corrente da língua. [...]
Pelas fendas da paisagem, tornou-se perceptível um curso de ar que agitou de contentamento os ramos de dom arbusto:
daqui faço uma linha que me ata ao sol,
um traço para o solo firme,

uma seta que guardes no coração,


uma fenda para ver o mar.




7.  CONTOS DO MAL ERRANTE
a) 
elevações de Münster
mal conhecida Hadewijch,

desde que tu partiste nunca mais desnudei ninguém, mesmo em pensamento, porque qualquer

nudez seria nudez

sempre opaca e não diáfana.
Ainda bem que, não podendo ver-te, me resta a possibilidade de escrever sobre ti com a esperança de que o leias mais tarde quando acabar o duplo cerco de Münster — o interior e o exterior — e, entre eles, a prova especular que te espera; tento compreender as razões por que te separaste de nós e te fechaste sozinha com a alucinação visual em que percepcionas a imagem do vazio como teu próprio espelho; assim, dentro do cerco maior de Münster, há o cerco fiel da tua imagem e creio que foi por ele que vim, e não por Münster. [...]
Compreendi, pela segunda vez, que nos amavas, e que ou o tudo, ou o nada, ia restar- -nos dessa tentativa.
Ó Hadewijch, quando se fala muito claramente, fala-se muito infinitamente.
b)
eu falo;

mas Hadewijch cala num murmúrio,
e tudo o que ela não diz,

e eu presumo,

pode induzir-me em erro.
de qualquer modo, já passou de meio-dia, e acabámos de consumir o silêncio que tem uma vibração que nos liga, e de que estamos conscientes; disponho-me a fazer-lhe perguntas directas, tal como se o seu corpo conjectural tivesse cedido, e o último dos últimos aparecesse; [...]
Pergunto-lhe, sem rodeios, se ela tem nojo de nós, ou se já não sente alegria na mansão; e se nos atribuiu qualidades divinas, e a desiludimos;

ela diz que, quando casou, foi como se lhe tivessem posto um ovo no lugar onde se quer que a galinha faça a postura [...]
Nunca mais dormirás magicamente connosco?
Oh!, tende paciência. Disse Hadewijch.



8. DA SEBE AO SER
6. “Vamos, agarra-te à minha mão e caminha, vamos ver a nostalgia do mar” — pronunciou inocentemente do lado dos Evangelhos. Esse foi o guia que suportou o seu peso morto, 

até ao Oceano Atlântico onde as esperavam as caravelas; a terra descia e estava arrelvada de retratos que a sua mente guardava como a sua verdadeira vida. [...]

10. Procuro um nome novo para ela que a confirme.
Vejo 

um espaço ilimitado,

e uma angústia plangente

que me acorda. Psalmodia será o seu nome, aquela que sabe que ainda não chegou a minha vez de ser abandonada.

Ela sabe que a minha iguaria preferida é o entendimento e a ternura – o visto com ouvido. [...]

11. Como ela se dedica às cores, perguntei-lhe o que significaria a minha atracção pelo castanho.

— “O castanho é uma cor opaca” — disse ela. Passado um tempo, ia perguntar-lhe: —"O que resta?".  – “A ternura por entender, um grão de areia”. 

Um sinal de beleza sobre o princípio.




9. UM FALCÃO NO PUNHO
Herbais, 2 de Outubro de 1981
Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.

Lisboa 3 de Junho de 1983
A escrita como busca de verdade:
Não sou portadora de uma verdade porque a verdade não pode ser transportada mas sofro o impulso de formular perguntas à verdade que vejo como ajuste. Os seres têm um sentimento final de que há um lugar onde chegarão à sua coincidência.
Para cada um, a sua. [...]
a verdade como matéria
a verdade não é subjectiva, nem objectiva mas o contorno final e acabado da vida de cada um; a resposta dada, com recta intenção, ao justo apelo. Perguntar «quem sou» é uma pergunta de escravo; perguntar «quem me chama» é uma pergunta de homem livre.
Génese e significado das figuras
À medida que ousei sair da escrita representativa em que me sentia tão mal, como me sentia mal na convivência, e em Lisboa, encontrei-me sem normas, sobretudo mentais. [...]
Nessas circunstâncias, identifiquei progressivamente «nós construtivos» do texto a que chamo figuras e que, na realidade, não são necessariamente pessoas mas módulos, contornos, delineamentos.[...]
O que mais tarde chamei cenas fulgor. Na verdade, os contornos a que me referi envolvem um núcleo cintilante. O meu texto não avança por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo, mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor. Há assim unidade, mesmo se aparentemente não há lógica, porque eu não sei antecipadamente o que cada cena fulgor contém. [...] 
O devir como simultaneidade
Como ser civil conheço o presente, o passado, e o futuro. Mas como escritor tenho um olhar que toca sobretudo o espaço, livre de tempo. Nele não há poder, que é sempre o poder de escolher e de chegar à morte. [...] 
Nem hierarquia, nem ruptura entre corpo e espírito
O pensamento é impelido pela geometria dos corpos. [...]
Quando o corpo e o espírito são dois amantes experimentados, surge a proporção escondida, sabem extrair de quase nada o ardor imenso de criar.
O texto, lugar que viaja
O texto é a mais curta distância entre dois pontos. [...]
O acesso ao livro é imediato. Só depois, já nele, principia o extravio. São João da Cruz diz melhor: «Chegaremos aonde não sabemos por caminhos que não sabemos.»




10. FINITA
Jodoigne, 5 de Novembro de 1975
Textual é Prunus Triloba que florirá. Escuto muitas vezes esse arbusto, que se mantém direito a meio da fachada da casa. É Outono, o meu primeiro Outono numa casa minha que tenha um jardim. A ramaria, ainda jovem, de Prunus Triloba, espalha conceitos sobre o ar, conforme penso. Spinoza enunciou que as palavras só têm uma significação precisa em virtude do uso habitual que fazemos dela. Quando terá Prunus Triloba a força suficiente para se tornar um Uso Habitual?
[...] 
A minha impressão é a de que nada foi, tudo está sendo; agora vivos, posso olhar de cima, ou do exterior; acordo e verifico que sobre o dia de hoje já passaram cem anos, e desço uma oitava, ou várias, no tom de descrevê-lo. Dia de verão, tão claro. Sem neve, nem frio, nem claridade opaca. Preferiria um dia mais concentrado sobre a casa, o pátio, o movimento que já pressinto na Avenida para além do portão, que é meu amante (o Augusto atravessa-o quando chega, ou parte).
 Sim, as coisas são veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, os descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
A narrativa que a estas páginas vai estando subjacente não precisará, finalmente, de ficção. Será um livro póstumo, ou um livro antigo, e chamar-se-á, referindo-se a uma mulher, Biografia. Não por eu ser escritora, ou uma mulher que dá testemunho; mas por ter nascido ser vivo; que eu fale sem enigmas, com a clareza e a sinceridade que descansam os espíritos.




11. INQUÉRITO ÀS QUATRO CONFIDÊNCIAS
21 de Fevereiro de 1995
«Aquela história dos pássaros, no outro dia, era o quê?, uma alegoria?»
«Não, uma confidência: um dos lugares onde começa o mundo.»
«Um dos lugares de onde jorra a imanência...»

«Sim...»

«... feita de elos fracos e elos forte. Eu sei que o mundo começa nos elos fortes...»

«... e se desdobra depois, como uma toalha, em elos fracos, em finos desenhos —, a maior parte, imperceptíveis.»

«Sim. Sim. Mas já reparei que a Gabriela não vai muito pelo lado da emoção...»

«Muitos dos elos fracos só têm fraqueza na aparência; a nossa vida é feita de muitos elos frágeis. Quando o Vergílio aborda a imanência fá-lo, sobretudo, pelo lado do sublime — comove. Mas, outro assunto. Quer casa ou cão?»
«Quais são as quatro confidências de que falou?»
Vou dizê-lo muito rapidamente, e depois quero ir consigo a um outro lugar do mundo onde escrever o texto é dançá-lo ao ritmo da sua fragilidade e beleza.
A primeira confidência

é que nada somos _____ («Não se irrite»). O eu como nome é nada. Há um lugar de escravidão.
A segunda confidência

é que os nosso actos, mesmo a transumância ou a transplantação do azul da jarra, são menores do que nós. Há um torvelinho de intensidades a chamar-nos: são os anjos de Rilke, ou as legiões de querubins evanescentes, de Walter Benjamin.
A terceira confidência

é que não há contemporâneos, mas elos de ausências presentes; há um anel de fuga. Na prática, é uma cena infinita — o lugar onde somos figuras.
A quarta confidência

é sobre o desejo e a repulsa da identidade. Há um lugar edénico. («Não, não diga nada»). De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente — é um verbo.
O nosso verbo, por exemplo, é escrever. [...]
                        «Não temos nada, nada nos tiraram.
                        Dissemos, simplesmente. E dizer foi possível.
                        Quase impossível foi encontrar onde».




12. AMAR UM CÃO
Através do outro, e em face do outro, sob o seu olhar, um ser sendo forja a sua identidade. [...]
Pela primeira vez, alimentei Jade (que adoeceu repentinamente), a intervalos certos, durante dias; ele comprimia a minha mão com as patas, e eu dava-lhe leite vitaminado com uma seringa; à medida que, neste trabalho, o aproximava de mim, e eu o sabia construção viva da natureza, principiei a sentir uma alma incipiente insuflada nele, e que duraria até ao fim do mundo, perguntando sempre «o que é a luz comum? Eu sou da luz comum, ou uma primeira alteração dessa luz clara?»   Chamo: — Vem, Jade —, mas, com um prazer muito maior, designá-lo-ia por alma crescendo.
É esta relação de alma crescendo que se estabeleceu entre nós; é esta relação, fora da luz comum, que estabelece as diferenças que desempenham o papel de elementos perturbadores nos hábitos de servir os afectos: eu ia a dizer que, nesta ordem de ler, ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se mantém há gerações. [...]
Foi por causa dessa nostalgia que sonhei, esta noite, que Jade tinha deixado a casa. Só eu fui à sua procura, e um homem, que encontrei numa aldeia, deu-me uma folha de alface para ele se refrescar; uma mulher deu-me os seus sinais e bati a uma parede, do lado da rua. Jade veio, e deitou-se, dando à cauda, num enorme prato de leite. Felizmente, havia a trela, e trouxe-o para o Coreto do Jardim da Estrela, para o lugar de onde havíamos partido.
                                                                     Azenhas do Mar, finais de Agosto de 1990




13. O RAIO SOBRE O LÁPIS
I
Seria eu capaz de sujeitar, ou de vender, estes objectos, de força emocionante, que vivem na paz e na concórdia? Seria eu capaz de trocar por dinheiro a tela de Ana ensinando a ler a Myriam? E a teia da escultura que lhe corresponde, sobre a mesa nua, à entrada da porta? Eles, os objectos, os verdadeiros livros fechados no novo escritório, respondem por mim numa voz inaudível e, assim, eu sei que eles responderam _________; e fico sem resposta. []

XI
Os objectos escavam o espaço, e ocupam nele um lugar. Depois, indicam que um ramo de pinheiro não é o mesmo que o barro, nem que a água. Vistos assim, são o mundo físico da inteligência atravessando a luz.
II
«Um escritório especulativo é o inverso da vida»,
 o segundo capítulo que me ocorreu como frase. O falcão continuava a querer agitar-se dentro da secretária. O falcão só poderia atravessar aquela escolha se se transformasse em intenção de partir.
Não compreendi
a
que nível de existência pertencia o falcão;

se ele era a minha voz, ou o seu súbdito;

se o escritório englobava a secretária, ou era o
imenso território do falcão...
X
________ a jovem Myriam pergunta-me:
— Ana, o que é o infinito?
Só posso mostrar-lho:

— O infinito tenha piedade de mim, e reze. 
IV
Olhei profundamente o chão, na noite, com a mesma expressão de olhar que erguera para o céu; e sob o labéu de feio na sua boca de sapo, descobri um ser de natureza tocante, de aspecto vulnerável e bizarro, em que cada feição me atraía o afecto e o amor. «Ele é assim, infinitamente belo, através de uma outra percepção do Universo», pensei. «Mas não estás no bom caminho», fiz-lhe sentir, com a rapidez indizível da comunicação directa. «Vou pôr-te no bom caminho, pois eu tenho braços, e posso proteger-te do meu falcão.»
Tendo uma certa relutância, por causa da pele viscosa, em pegar directamente no sapo fulgurante, envolvi-o na minha camisola, e pu-lo ao abrigo do olhar de Aramis.
A noite passava, profunda, pelo mundo,
e roubava as almas que amavam o livro de imagens, desde o princípio dos sapos, e das constelações postas sob a protecção de um animal. A Ursa caminha no céu, um sapo dera-me o privilégio de eu lhe pegar, a manhã estava por servir. 

Epílogo
Eu sentei-me aqui para tentar modificar uma ideia principal modulando-a por ideias acessórias. Dispus de um ambiente, incluindo a música que fazia, como um primeiro degrau; depois, subir é fácil, há sempre um terreno superior aos que nos encerravam; há um intervalo, e eu parto para outro texto com os componentes passados desta luz. [...]
Eu ando a pé: penso com maior velocidade.
                                                                        Colares, 3 de Dezembro de 1990




14. UM BEIJO DADO MAIS TARDE
a)
Fiz interpenetrar as duas casas, a que vive comigo, e a que jazia na Domingos Sequeira, com os seus restos, e cinzas de melancolia.
Esta é a história de uma família ambiciosa e fechada, vinda da Beira para um andar mítico na cidade, onde se propôs subir a um alto ramo de árvore. Um divórcio. Uma noite de chuva em que se fez, a correr, uma mudança de domicílio. Um filho que protegia do Pai a mãe, e que era a parte mais enigmática do vermelho adamascado que se usava na sala. Uma sala abrindo para um escritório, e uma criança abraçada aos livros debaixo da sombra de uma criada; uma criada com um filho próprio, desaparecido nas masmorras da casa — contrária à mulher que legitimamente lhe sucedera — e, para todo o sempre, fiel à última criança que a casa teve, e que era fruto da parte verde, fonte da casa;
todos morrem, trocando o instinto da morte pela noite de Natal; mas há sempre um triângulo visível junto à porta da sala de jantar – a criada, um homem novo, e a mulher legítima;
a criada é a jovem, mais tarde possuidora da ciência de inumar os objectos e de solicitar para eles, durante longo tempo, o banho lustral da água, e a sujidade protectora da lama. Paradoxalmente, os objectos são conservados entre a linha da linguagem e, mais longe, a praia calma da destruição. Só e Maravilha está então comigo, e foge de mim. É um objecto que, posto numa sala, a esvazia completamente. Mas não é luz. Nem quadro, ou moldura, suspenso no silêncio. É talvez o fragmento de um livro numa primeira matéria dura e imóvel. [

b)
A estátua de Ana ensinando a ler a Myriam estava no seu lugar, sobre a mesa, mas tornara-se um espelho visionário reflectido no espelho do guarda-fato. O livro, amplificado entre ambas, atraiu Filipe e a Maria Adélia, por razões diferentes, para cada lado do que estava inerte como texto; o homem pousou a cabeça entre as mãos, e viu oscilar, diante de seus olhos verdes, linhas sem sentido que o desesperavam, pois sabia ler __________ e não sabia ler aquele caminho;
  a amante fiel, analfabeta, tocou com a ponta de um pano a fonte que estava próxima, e inclinou-se para limpar, até reluzirem, as letras do título de ouro que ocultava o caminho. Eu senti uma dor aguda, e todos fomos separados, incluindo Bela Face, ainda por criar. «O vislumbre dos corpos», leu Myriam, «foi interceptado por múltiplas poeiras que mantêm, na aparência de construída, a casa desfeita».



15. HÖLDER, DE HÖLDERLIN
I
___________ Hölderlin sentou-se silencioso à minha frente que sou casa — não disse nada — mas eu conhecia quais eram os seus verdadeiros pensamentos pela inconstância do seu olhar [...]
Ao som de «natureza» ouviu o gemido de um cavalo atravessar os ares, e o último mensageiro — o das dez horas —, pedir uma cerveja, e deitar a carta no cesto de pão que estava sobre a pedra.
«Agora pergunto-te,

dizia a carta,

os deuses da Grécia morreram?».
Era a forma de afirmar, perguntando, que os deuses da Grécia morreram. «Sim, morreram», comprovou Hölderlin, sabendo o que lera. «E eu, suspirou, como viver sem essa diferença entre os deuses e os homens?». Olhou para mim que avaliou, ao longe, incapaz de renovação, e sem luzes; avançou para as minhas janelas com uma hesitação que se ia multiplicando; procurou-me a porta, e não encontrou nenhum sentido.
«Será que o Cristo apagou os deuses, e dividiu em miríades de luzes dispersas o meu espírito?».
Alguém — que sou eu —, estava a meio da porta e o recebeu com um abraço universalmente verdadeiro.

VIII
_______________ todos os dias tinha uma energia brilhante em que falava com Myriam, Joshua, Giordano. Era-lhe necessário vencer um obstáculo, pegar num grande peso arrastar, vergar qualquer ideia ao seu sentimento interior (ainda não manchado). Neste processo de transformação vibrante da sua própria pele, a claridade, o tempo, o cheiro de pinheiros que todos respiravam era, essencialmente, brisa e método. [...]
Não suporta que haja espelhos na casa; pôs-se a fazer aparecer verbalmente figuras luminosas sobre as suas próprias espáduas, e deixou-se ir vogando sobre mim apertando o cabelo sobre a nuca. O cabelo que ninguém corta traz uma liberdade infinita aos ombros — e o homem desmultiplicado dorme. 
Hoje, alguém procurou Myriam: — Há aqui um saber perdido?
— É uma visão comovente de Hölderlin – respondeu ela... 

X
Hölderlin brincava ali, saltando; ia-se perdendo na sala; via-se deslizar com ele um lugar sem criaturas humanas. [...]
A excitação sexual foi-se marcando em todos, em torno do pobre tonto. Nenhuma lama se transformara em pássaro. Nessa situação de desejo sensual profundo, Giordano Bruno acabara de entrar. Teria dito
  o que é escabroso no amor é que não tem anel; mas nada disse, nos seus pulmões o ar parecia penetrar por meio de uma bomba
 e todas as outras imagens
haviam 
sido, longe,
 hermeticamente fechadas. Até hoje.
                                                                        Körtemberg, 23 de Junho de 1985




16. O ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO
Este é, Eleanora, o modo abstracto-experimental de formular a emergência dessa quase-figura. Dir-te-ei o que vi.
Nessa manhã, atingiu-se o fim de um andamento, e Infausta sentou-se à mesa de trabalho de Aossê, sem cruzar os olhos com o ramo da língua que lhe trazia a poesia. A uma certa distância da partitura, fazia-se sentir um pedido insistente que eu via sob a forma de um volume evanescente e sólido que ritmadamente se abria e se fechava, porque eu sei que a música é uma parte do espaço organizada por um pulsar vibrante. Infausta também a viu, mas como opala leitosa e azulada, ou uma irmã rival de vegetação herbácea, e fechou os olhos, numa atitude distante.
Aossê continuava a escrever à máquina, ouvindo, ao lado, Bach tocar cravo. [...]
Aossê começou a sentir-se irrequieto, no difícil acabamento do poema iniciado — quando só há poema, se fechado. A quase-figura mostrava uma crescente facilidade de deslizamento, e já se lhe desenhava volúpia nos contornos, mas não sabia o que era seduzir, ter paixão, instintos e sentimentos. Era um neutro, desprovido de sexo e de humano. [...] 
Suspendo a construção deste texto porque todos os fragmentos que o compõem são, de facto, um Diário; escritos nas datas que indico e que escrevi em paralelo com livros que, na altura, estava escrevendo; no entanto, o texto que aqui resulta não é um diário.
Faço-o por vontade própria, e compelida.
Por vontade própria, seria um diário como Um Falcão no Punho; por compulsão, aparece outra forma de texto, próximo de Um Beijo Dado Mais Tarde e que, no tom, prepara Lisboaleipzig, que eu prossigo há anos.
Como se eu investigasse, no dia a dia de outrora, um fio condutor, correspondências temáticas e de preocupação, sob a forma geral da partida e da mudança: saída de Jodoigne para Herbais, e desta para Colares, e entrada em Portugal, após vinte anos. Ao reler-me, porém, essas passagens-metamorfose revelaram-me que Jodoigne foi a casa das beguinas, que Herbais foi o lugar de encontro de Infausta, de Aossê e de Bach, e que em Colares acabaram por encontrar-se os membros dispersos da comunidade, nos seus extractos de época, distintos, idênticos e evolutivos.

E, o mais curioso, é que me encontro face a um texto que não pressentira — porque não me dera conta de quando queriam encontrar-se, enfim, os membros — visíveis e invisíveis — dessa comunidade.




17. O ENSAIO DE MÚSICA
Aossê dizia a Bach que a poesia está no centro. Bach, habituado a servir-se do texto como suporte, discordava, salvo num sentido muito lato de poesia.
O que Aossê lhe queria dizer é que o interior é poético, construído como uma espécie de poesia branca, caótica (Bach concordava que olhar para dentro era penoso, embora soubesse que o belo vinha de dentro, mas do interior alto desse espaço, emanando de uma espécie de névoa de oiro, a que a sua piedade chamava espírito). Aossê não partilhava a ideia dessa arquitectura. Falava-lhe em revoadas de pensamentos, de sentimentos em estado de expressão livre, de visões.
O texto inquietava-se.
Era um facto que havia ali um diálogo íntimo que se difundia (ou seria difuso?), misturando-se com as conversas que se cruzavam. Aossê repetia que a poesia ocupa o centro do corpo, mas uma voz triste levantava tristeza num daqueles corpos,

a que alguém, ou corpo, ou interior, respondia: deixei de correr, de saltar obstáculos. Outra voz (porque só se distinguiam pelos timbres) perguntava porquê? Mas não era disto que Aossê estava a falar. Explicava que existe uma tessitura interior — de cada um, e de todos, e de ninguém. Que os fios desse tecido emaranhado são frases espalhadas. Bach respondia-lhe que o nosso interior era um único, que cada um tinha o seu interior, apesar de todos serem feitos da mesma matéria — som bruto e oração —, ao que Aossê contrapunha que talvez não, ou não bem desse modo, porque no interior havia choque de frases, frases em velocidade ou algumas mortas, mas que ruído não havia. E que oração talvez houvesse, pois era assim que, na sua língua, se dizia frase (Bach sorriu com ironia) e que, se ele quisesse, diria que o interior era um tecido esparso e incompleto de orações a que a voz conferia sonoridade.
Ouvia-se outra voz que dizia o esplendor lascivo (em si) não determinará mais, daqui para a frente, a intensidade máxima dos meus actos. Seria a sombra das sombras
ao que Johann contrapunha que era defeito dos literatos porem defeitos em tudo. Que na origem        mas Aossê explicava que o espaço interior não era originário, e que a poesia não era todo esse espaço. Que era o que havia de sublime nesse interior. O resto, insistia, pertencia ao romance       Bach desconhecia realmente o que era o romance           E Aossê apressou-se a explicar-lhe:   «é uma história iluminada sem luz».








(Fotos: Teresa Huertas e João Barrento)

6.3.16

UM LIVRO NUMA FRASE: O «BLOCO 06»

Um dia, em 1996, com dezassete livros publicados (e já duas traduções de poetas de língua francesa, Verlaine e Rilke), M. G. Llansol utiliza um pequeno bloco de notas apenas para um «exercício de leitura» muito singular: escolhe de cada um desses livros uma frase (num ou noutro caso duas) que indicia – para a autora – a fonte de onde ele nasceu, o seu centro de sentido, a sua quinta-essência, o caminho das suas figuras maiores.
A próxima sessão da «Letra E» do Espaço Llansol irá fazer uma viagem por esses dezassete livros (entre 1962 e 1996) a partir dessas frases, oferecendo com isso a narrativa encadeada de uma Obra que já ia a muito mais de meio, dos contextos que viram nascer cada livro, das ideias ou das figuras que os sustentam, das possíveis razões das escolhas da autora. 


João Barrento contará essa história, tomando cada frase como um guião de leitura e amplificando-a à dimensão de todo o livro. A narrativa será intercalada por leituras de uma página de cada obra, com dezassete vozes diferentes, a saber:
 1. Ana Catarina Violante e Valéria Franjoso (alunas da Escola Secundária de Santa Maria, Sintra) 
     (dois contos de Os Pregos na Erva);
 2. Helena Alves (Espaço Llansol) (Depois de os Pregos na Erva);
 3. Albertina Pena (Espaço Llansol) (O Livro das Comunidades);
 4. Teresa Cadete (Profª da Faculdade de Letras de Lisboa) (A Restante Vida);
 5. Iara Sousa (aluna da Escola Secundária de Santa Maria, Sintra)  (Na Casa de Julho e Agosto);
 6. Maria Etelvina Santos (Espaço Llansol)  (Causa Amante);
 7. Cristiana Vasconcelos Rodrigues (Espaço Llansol)  (Contos do Mal Errante); 
 8. Madalena Bicho (aluna da Escola Secundária de Santa Maria, Sintra)  (Da Sebe ao Ser);
 9. Maria Fernanda Peixoto (Profª da Escola Secundária de Santa Maria)  (Um Falcão no Punho);
10. Isabel Santiago (Profª de Filosofia, Escola Secundária Emídio Navarro, Almada)  (Finita);
11. Anabela Farinha (Profª de História, Escola Secundária Emídio Navarro, Almada)  
      (Inquérito às Quatro Confidências);
12. Beatriz Silva (aluna da Escola Secundária de Santa Maria, Sintra)  (Amar Um Cão);
13. Gabriela Augusto (aluna da Escola Secundária de Santa Maria, Sintra)  (O Raio sobre o Lápis);
14. Marta Chaves (Escritora)  (Um Beijo Dado Mais Tarde)
15. João Barrento (Espaço Llansol)  (Hölder, de Hölderlin); 
16. Maria Gabriela Pais (Legente, sócia do E. L.)  (O Encontro Inesperado do Diverso);
17. Teresa Projecto (Escola de Belas Artes/Espaço Llansol) (O Ensaio de Música)

O «Bloco 06» estará exposto em páginas ampliadas. E haverá, como sempre, um caderno que o reproduz e transcreve.

Tudo se passará mais uma vez no MU.SA - Museu das Artes de Sintra, no sábado, 19 de Março, a partir das 16 horas.


3.3.16

«MANTER-NOS-EMOS NA ALEGRIA…»

«… regra da vida: o que aparece, desaparece_________ Se aderirmos, todos corpos, todos almas – tanto faz – a esta regra, manter-nos-emos na alegria_______» (Caderno 1.68, p. 99)

Maria Gabriela Llansol (24 de Novembro 1931 – 3 de Março 2008)


24.2.16

LLANSOL E RAIMUNDO LLULL:
Um manifesto político

Há um texto de Maria Gabriela Llansol, publicado em 1991 na revista Vértice e incluído no primeiro volume de Lisboaleipzig (O Encontro Inesperado do Diverso) que pode ser lido como um comentário ao Livro do Amigo e do Amado, do místico catalão Raimundo Llull, mas também como um poderoso manifesto político da autora da «Geografia de Rebeldes».


Esse texto preenche agora o Caderno de Leituras nº 43, uma edição gratuita distribuída em formato digital pela editora brasileira Chão da Feira.
Se eventualmente não conhece o «Diálogo com Llull», pode lê-lo clicando na ligação que se segue e descarregando o caderno na página da editora, aqui: http://chaodafeira.com/cadernos/dialogo-com-lull/

16.2.16

LLANSOL E O «ESPAÇO» NA ALAGAMARES-TV

A Alagamares-TV, um canal local da Associação Cultural Alagamares, esteve no Espaço Llansol e fez aí uma reportagem sobre a figura de Maria Gabriela Llansol e o nosso trabalho.
Pode ver-se neste vídeo (e também no MEO KANAL, com o código 499383):



8.2.16

ENCONTROS IMPROVÁVEIS:
A fotografia e a escrita

A fotógrafa Teresa Huertas tem-nos proporcionado, discretamente, «encontros improváveis» de grande intensidade, beleza e troca verdadeira com a escrita e o pensamento imagético de Maria Gabriela Llansol. Primeiro, em 2013, no nosso espaço da «Letra E», com a exposição Lava Walks, «paisagens com figura» (a do próprio corpo da fotógrafa) nos glaciares da Islândia. Agora, com o «exercício melancólico» (que temos de entender no sentido benjaminiano: que destrói para ganhar sentidos novos a partir das ruínas) que intitulou Aparições e Desaparecimentos, volta a aproximar-se, de forma não deliberada, mas inequívoca, dos temas llansolianos do olhar e da figura, da memória e do esquecimento. Foi o que puderam constatar os que no passado sábado encheram a Galeria Diferença, em Lisboa, onde Teresa Huertas mostrou as suas fotografias e conversou sobre esta sua experiência com João Barrento.


Subjacente a este seu trabalho de restituição/emancipação/amplificação de uma série de rostos, «quase-retratos», está a ideia de «devolver uma imagem», como lhe chama Georges Didi-Huberman num texto recente (em Pensar a imagem, Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2015) em que aborda este tipo de trabalho com as imagens, visando libertá-las do suporte e do lugar institucionais estáticos para as trazer de novo à luz, ao olhar comum – para «instituir restos» esquecidos ou censurados. Este trabalho de restituição, que corresponde exactamente ao da génese das «figuras» llansolianas, implica, dizia já Derrida em La vérité en peinture (um livro de 1978), uma ética da dívida (a todos nós, sujeitos e objectos do olhar perante os rostos emancipados do seu limbo) e do dom (a dádiva do dar a ver de novo o que, por razões diversas, ficou escondido ou soterrado).
Ao «profanar» – pela sua fragmentação, que é igualmente uma devolução à vida – um objecto aurático original (uma fotografia de grupo, e de estúdio, de um casamento há quase um século), a fotógrafa restitui o que era da esfera quase-sacra do museu à esfera profana que é de todos e transforma o que era da ordem do gregário e cultual em «singularidades operativas» (neste caso, rostos que agem sobre quem os olha). A «profanação» é, neste sentido que lhe dá Giorgio Agamben, uma emancipação e uma restituição ao uso livre. Esta «profanação» resulta, no trabalho de Teresa Huertas e de Llansol, num processo alquímico que de pessoas/personagens faz figuras: arranca-as a um limbo quase indiscernível ou intocável para as trazer de novo à luz – uma luz que pode ser baça e opaca, mas que por isso mesmo vem mais carregada de enigma e de promessa.
No texto que abre o caderno que fizemos para esta sessão, Teresa Huertas explica, em síntese, este seu «exercício» em que trabalha uma matéria «sensível e sedutora, misteriosa e fantasmática»:
O encontro com uma imagem fotográfica, que integra um velho álbum de família depositado num arquivo museológico, foi o pretexto para um exercício que questiona a Fotografia enquanto instrumento de representação e a convoca como estética da ruína. Trata-se de uma prova de estúdio que regista um retrato de grupo numa cerimónia matrimonial na segunda década do século XX. O cliché cumpre a primeira função popular do medium: perenizar acontecimentos importantes dos indivíduos no seio familiar ou num grupo (Sontag), não aspirando a qualquer intenção mais elevada. 

Se nos perguntarmos quais são os elos de ligação desta experiência singular com a Obra de Llansol e o seu mundo, facilmente constatamos que esses elos são vários, como deixa claro o texto de João Barrento que fecha o caderno: «o lugar da imagem, do rosto e da figura (que não pode deixar de ser rosto próprio), o papel da memória (e do esquecimento) no processo criativo de Llansol, que é também um trabalho sobre ruínas – da História e da existência, da própria e da humana em geral – com vista a salvar delas um qualquer resto luminoso, uma restante vida…»







 

O resto está, com muitos fragmentos inéditos de Maria Gabriela Llansol sobre «Rosto | Figura | Retrato | Olhar», no caderno que intitulámos ROSTOS: Aparições | Desaparecimentos, do qual Maria Etelvina Santos e Helena Alves leram uma sequência de textos.
E aqui ficam alguns momentos da tarde de sábado, com fotografias de Fabrice Ziegler:


7.2.16

LLANSOL: A REINVENÇÃO DE PESSOA

O suplemento Ípsilon do Público da última sexta-feira traz uma primeira crítica ao recente Livro de Horas V, organizado por Maria Etelvina Santos. António Guerreiro destaca o trabalho imenso que se esconde por detrás deste longo e persistente trabalho de escrita em que Llansol, ao longo de trinta anos, reinventa Pessoa.
«Quem se interessar por penetrar e desbravar a sua obra imensa, este quinto volume do Livro de Horas (…) é precioso. Ele permite-nos perceber perfeitamente que Maria Gabriela Llansol nunca escreveu livros como unidades autónomas. (…) A sua obra é um imenso e intrincado puzzle, como sugere Maria Etelvina Santos na sua introdução. Neste aspecto, ela tem algumas afinidades com a de Pessoa. Maria Gabriela Llansol, podemos perceber, é também uma escritora póstuma, não apenas pelo imenso espólio inédito que deixou, mas também porque podemos aproximá-la da categoria nietzschiana dos 'homens póstumos', figuras de grande envergadura, que nunca são contemporâneos do seu próprio tempo.»
(A crítica de António Guerreiro pode ler-se clicando na imagem abaixo, ou arrastando-a para o ambiente de trabalho)

1.2.16

A FOTOGRAFIA E O TEXTO
Diálogo M. G. Llansol | Teresa Huertas

No próximo sábado, 6 de Fevereiro, na Galeria Diferença (Rua S. Filipe Neri, 42-Cave, ao Largo do Rato), traremos de novo ao texto de Llansol a fotografia de Teresa Huertas, que já recebemos na «Letra E» em 2013 com um outro diálogo, o da paisagem.
Desta vez a «Letra E» desloca-se para Lisboa, para – com a generosa colaboração da Galeria Diferença e da Irene Buarque – nos ocuparmos de um tema (Rostos, Aparições, Desaparecimentos) que nos foi sugerido pela mais recente experiência da fotógrafa, que exporá e projectará dezasseis fotografias de rostos em evanescência, que se encontram com o interesse pela imagem em geral, e em particular pelo rosto, a figura e a memória nos textos de M. G. Llansol. Nesses rostos, cuja história singular desvelaremos, encontramos o mesmo enigma da origem e do velamento com que deparamos em tantos textos de Llansol.

(clique na imagem para aumentar)

João Barrento conversará com a fotógrafa, leremos textos de Maria Gabriela Llansol (muitos deles inéditos), e teremos como habitualmente um caderno que reproduz em extratexto as 16 fotografias e inclui fragmentos de Llansol e textos de Teresa Huertas e João Barrento.

31.1.16

AS SINTRAS DE LLANSOL:
«Em passo de pensamento»

Tivémos ontem a primeira sessão da nova fase da «Letra E», em que começámos por evocar a «Carta de princípios» deste nosso espaço público, agora distribuído por vários lugares de acolhimento, para lembrar como a «comunidade na diáspora» mantém os princípios que desde sempre a orientaram.
Voltámos ao MU.SA-Museu das Artes de Sintra, com um tema perfeitamente ajustado ao local. Maria Etelvina Santos e João Barrento contextualizaram o tema – «As Sintras de Llansol» – esclarecendo algumas das noções-chave de M. G. Llansol importantes para compreender a sua relação com os lugares da experiência e a sua transformação em lugares-do-Texto: noções como as de «Lugar», «Paisagem», «Memória», «Figura» ou «Encontro».


Passámos um vídeo que dá a ver os lugares da deambulação pensante de Llansol, entre Colares/Praia das Maçãs/Mucifal/Penedo, e vários percursos na Vila de Sintra, com particular destaque para a Volta do Duche e de uma figura magna nela implantada, o «Grande Maior». O vídeo pode ver-se aqui:

Finalmente, e antes de uma viva conversa com o público, quatro alunas da Escola Secundária de Santa Maria (orientadas pela professora Maria Fernanda Peixoto, a quem muito agradecemos) leram durante meia hora alguns dos textos sobre esses lugares, que figuram no caderno feito para este dia: M. G. Llansol: Sintra em passo de pensamento.


Para os que não puderam ir a Sintra, transcrevemos ainda do Caderno a introdução de João Barrento:

As Sintras de Llansol
De regresso ao «país português» após vinte anos de exílio na Bélgica, Maria Gabriela Llansol parece a princípio sentir-se perdida no seu novo-velho habitat, que lhe surge «como um dado esbatido a decifrar». Estamos em 1985, a princípio, por poucos meses apenas, no Mucifal, depois em Colares, nessa primeira verdadeira casa-abrigo que recebe o nome basco de «Toki Alai», lugar onde, como nas casas da Bélgica, «se faziam ouvir os primórdios do que estava para ser». E muito foi o que nasceu nos espaços de Sintra, que o olhar de quem os escreve, no seu «passo de pensamento», transforma em verdadeiros lugares – não cenários ou objectos de descrição, mas pretextos de visões e vislumbres, de gestação de figuras e de escrita livre.
Por isso a velha questão dos lugares e da sua relação, directa ou indirecta, com o que neles, ou a partir deles, se escreve, assume no caso de Llansol contornos radicalmente diferentes dos mais habituais. Como os fragmentos deste caderno mostrarão, os lugares de Sintra (incluindo aí a experiência dos dez anos de Colares) que para ela apelam não são os mais óbvios e expectáveis. Longe disso, trata-se quase sempre de uma geografia muito pessoal, em consonância com um universo de escrita singular e um modo de estar no mundo a contrapêlo dos lugares-comuns que o cristalizam. São muitas vezes lugares em que ninguém repara (se este texto não alertar para eles), lugares sem nome que desencadeiam torrentes de escrita, encontros insólitos, micronarrativas inesperadas – o «Pinhal» em Colares, as ruas, as pessoas, os gatos anónimos, o plátano nomeado de «Grande Maior» ou a «Vivenda Anna» em ruínas, em Sintra.
Mas outras vezes a Vila e os seus lugares emblemáticos – a Volta do Duche, a Vila Velha (e aí o adro da igreja de S. Martinho), a Serra ou simplesmente a casa da Estalagem da Raposa – libertam a imaginação e as mais inesperadas associações, produzindo peças de escrita visionária, no sentido literal do termo: antecipatória, criadora de mundos alternativos, intensamente imagética – como sempre o fez a escrita de M. G. Llansol. Em qualquer lugar pode «brotar a imagem», e esse lugar, de todos conhecido, transfigura-se a ponto de se tornar inassimilável à sua imagem mais comum e trivial. Um passeio à Vila Velha para meter uma carta no correio, uma manhã na Sapa ou uma visita ao antigo Museu Berardo convocam figuras e encontros (a mulher do quadro de Balthus, Marguerite Yourcenar, a mulher do campo que conhece os «Estudos Gerais das Árvores» sintrenses) e resultam em paisagens textuais únicas, nascidas de um território que é o de todos.
Essas paisagens, a própria escritora as foi criando nos lugares onde viveu: em Colares, elas desenrolam-se entre a casa, o pinhal e o mar; em Sintra, entre a Estalagem da Raposa e os lugares circundantes, da Estefânea à Vila, muitas vezes com a Serra (a sua, a de «Sintra, a montanhesa») em fundo. Mas talvez se deva dizer que a grande e decisiva paisagem foi sempre, para Llansol, a das casas, como muitos registos neste caderno deixam perceber. Daí parte-se para o mundo, ou simplesmente vê-se o mundo para o reinventar.
Nunca Llansol escreveu sobre os lugares onde viveu: cria os seus próprios, escrevendo com eles, com as energias que neles pulsam. Assim, como seria de esperar, não há aqui a mínima ilustração ou representação literária dos lugares – que por isso nem «cenário» são, como em tantos outros autores que por Sintra passaram, dos Românticos a Eça ou a Vergílio Ferreira. A Sintra escrita por Llansol (a Sintra de Llansol) corre, assim, o risco de muitas vezes (aparentemente) se distanciar do seu objecto, em vez de, como quase sempre acontece, o reflectir, idealizar ou sacralizar. Mas este é o processo de deslocamento do olhar, e de estranhamento criativo, comum a toda a escrita de Maria Gabriela Llansol.




6.1.16

A «LETRA E» CONTINUA…
Programa para Janeiro e Fevereiro

Mudam os lugares, mas mantém-se o espírito. As sessões da Letra E do Espaço Llansol continuarão, em Sintra e Lisboa, e temos já pronto o programa das sessões de Janeiro e Fevereiro.
Em 30 de Janeiro, no MU.SA-Museu das Artes de Sintra (na Sala da Clarabóia, às 16 horas), falaremos da Sintra de Maria Gabriela Llansol, dos seus percursos, do seu modo de ver, reinventar e sonhar os lugares, entre a Praia das Maçãs e a Praia Grande, a Várzea de Colares e a Serra, a Volta do Duche e a Vila Velha, os cafés de Sintra e os «Estudos Gerais das Árvores». Apresentaremos um video feito a partir do arquivo fotográfico do Espaço Llansol, e alunas e alunos da Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, lerão excertos dos cadernos de Llansol sobre lugares de Sintra


No sábado seguinte, 6 de Fevereiro, a partir das 16 horas, estaremos em Lisboa, na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery, 42, ao Rato), com mais uma exposição da fotógrafa Teresa Huertas (Aparições, Desaparecimentos), em que exploraremos as surpreendentes e fascinantes ligações entre este projecto de re-figuração de rostos a partir de uma fotografia antiga e o lugar do rosto e do olhar, ou as noção de figura e de retrato na escrita de Llansol. 


Para cada uma das sessões, como já vem sendo hábito, teremos um Caderno da Letra E, numa segunda série que agora se inicia.