31.1.16
AS SINTRAS DE LLANSOL:
«Em passo de pensamento»
Tivémos ontem a primeira sessão da nova fase da «Letra E», em que começámos por evocar a «Carta de princípios» deste nosso espaço público, agora distribuído por vários lugares de acolhimento, para lembrar como a «comunidade na diáspora» mantém os princípios que desde sempre a orientaram.
Voltámos ao MU.SA-Museu das Artes de Sintra, com um tema perfeitamente ajustado ao local. Maria Etelvina Santos e João Barrento contextualizaram o tema – «As Sintras de Llansol» – esclarecendo algumas das noções-chave de M. G. Llansol importantes para compreender a sua relação com os lugares da experiência e a sua transformação em lugares-do-Texto: noções como as de «Lugar», «Paisagem», «Memória», «Figura» ou «Encontro».
Passámos um vídeo que dá a ver os lugares da deambulação pensante de Llansol, entre Colares/Praia das Maçãs/Mucifal/Penedo, e vários percursos na Vila de Sintra, com particular destaque para a Volta do Duche e de uma figura magna nela implantada, o «Grande Maior». O vídeo pode ver-se aqui:
Finalmente, e antes de uma viva conversa com o público, quatro alunas da Escola Secundária de Santa Maria (orientadas pela professora Maria Fernanda Peixoto, a quem muito agradecemos) leram durante meia hora alguns dos textos sobre esses lugares, que figuram no caderno feito para este dia: M. G. Llansol: Sintra em passo de pensamento.
Para os que não puderam ir a Sintra, transcrevemos ainda do Caderno a introdução de João Barrento:
As Sintras de Llansol
De
regresso ao «país português» após vinte anos de exílio na Bélgica, Maria Gabriela
Llansol parece a princípio sentir-se perdida no seu novo-velho habitat, que lhe
surge «como um dado esbatido a decifrar». Estamos em 1985, a princípio, por
poucos meses apenas, no Mucifal, depois em Colares, nessa primeira verdadeira
casa-abrigo que recebe o nome basco de «Toki Alai», lugar onde, como nas casas
da Bélgica, «se faziam ouvir os primórdios do que estava para ser». E muito foi
o que nasceu nos espaços de Sintra, que o olhar de quem os escreve, no seu
«passo de pensamento», transforma em verdadeiros lugares – não cenários ou objectos
de descrição, mas pretextos de visões e vislumbres, de gestação de figuras e de escrita
livre.
Por isso
a velha questão dos lugares e da sua relação, directa ou indirecta, com o que
neles, ou a partir deles, se escreve, assume no caso de Llansol contornos
radicalmente diferentes dos mais habituais. Como os fragmentos deste caderno
mostrarão, os lugares de Sintra (incluindo aí a experiência dos dez anos de
Colares) que para ela apelam não são os mais óbvios e expectáveis. Longe disso,
trata-se quase sempre de uma geografia muito pessoal, em consonância com um
universo de escrita singular e um modo de estar no mundo a contrapêlo dos
lugares-comuns que o cristalizam. São muitas vezes lugares em que ninguém
repara (se este texto não alertar para eles), lugares sem nome que desencadeiam
torrentes de escrita, encontros insólitos, micronarrativas inesperadas – o
«Pinhal» em Colares, as ruas, as pessoas, os gatos anónimos, o plátano nomeado
de «Grande Maior» ou a «Vivenda Anna» em ruínas, em Sintra.
Mas
outras vezes a Vila e os seus lugares emblemáticos – a Volta do Duche, a Vila
Velha (e aí o adro da igreja de S. Martinho), a Serra ou simplesmente a casa da
Estalagem da Raposa – libertam a imaginação e as mais inesperadas associações,
produzindo peças de escrita visionária, no sentido literal do termo:
antecipatória, criadora de mundos alternativos, intensamente imagética – como
sempre o fez a escrita de M. G. Llansol. Em qualquer lugar pode «brotar a
imagem», e esse lugar, de todos conhecido, transfigura-se a ponto de se tornar
inassimilável à sua imagem mais comum e trivial. Um passeio à Vila Velha para
meter uma carta no correio, uma manhã na Sapa ou uma visita ao antigo Museu
Berardo convocam figuras e encontros (a mulher do quadro de Balthus, Marguerite
Yourcenar, a mulher do campo que conhece os «Estudos Gerais das Árvores»
sintrenses) e resultam em paisagens textuais únicas, nascidas de um território
que é o de todos.
Essas
paisagens, a própria escritora as foi criando nos lugares onde viveu: em
Colares, elas desenrolam-se entre a casa, o pinhal e o mar; em Sintra, entre a
Estalagem da Raposa e os lugares circundantes, da Estefânea à Vila, muitas vezes
com a Serra (a sua, a de «Sintra, a montanhesa») em fundo. Mas talvez se deva
dizer que a grande e decisiva paisagem foi sempre, para Llansol, a das casas,
como muitos registos neste caderno deixam perceber. Daí parte-se para o mundo,
ou simplesmente vê-se o mundo para o reinventar.
Nunca
Llansol escreveu sobre os lugares onde viveu: cria os seus próprios, escrevendo
com eles, com as energias que neles pulsam. Assim, como seria de esperar, não
há aqui a mínima ilustração ou representação literária dos lugares – que por
isso nem «cenário» são, como em tantos outros autores que por Sintra passaram, dos Românticos a Eça ou a Vergílio Ferreira.
A Sintra escrita por Llansol (a Sintra de Llansol) corre, assim, o risco de
muitas vezes (aparentemente) se distanciar do seu objecto, em vez de, como
quase sempre acontece, o reflectir, idealizar ou sacralizar. Mas este é o processo de deslocamento do
olhar, e de estranhamento criativo, comum a toda a escrita de Maria Gabriela
Llansol.
Publicado às
15:48
6.1.16
A «LETRA E» CONTINUA…
Programa para Janeiro e Fevereiro
Mudam os lugares, mas mantém-se o espírito. As sessões da Letra E do Espaço Llansol continuarão, em Sintra e Lisboa, e temos já pronto o programa das sessões de Janeiro e Fevereiro.
Em 30 de Janeiro, no MU.SA-Museu das Artes de Sintra (na Sala da Clarabóia, às 16 horas), falaremos da Sintra de Maria Gabriela Llansol, dos seus percursos, do seu modo de ver, reinventar e sonhar os lugares, entre a Praia das Maçãs e a Praia Grande, a Várzea de Colares e a Serra, a Volta do Duche e a Vila Velha, os cafés de Sintra e os «Estudos Gerais das Árvores». Apresentaremos um video feito a partir do arquivo fotográfico do Espaço Llansol, e alunas e alunos da Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, lerão excertos dos cadernos de Llansol sobre lugares de Sintra
No sábado seguinte, 6 de Fevereiro, a partir das 16 horas, estaremos em Lisboa, na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery, 42, ao Rato), com mais uma exposição da fotógrafa Teresa Huertas (Aparições, Desaparecimentos), em que exploraremos as surpreendentes e fascinantes ligações entre este projecto de re-figuração de rostos a partir de uma fotografia antiga e o lugar do rosto e do olhar, ou as noção de figura e de retrato na escrita de Llansol.
Para cada uma das sessões, como já vem sendo hábito, teremos um Caderno da Letra E, numa segunda série que agora se inicia.
Publicado às
17:17
26.12.15
27.11.15
LLANSOL NA CASA FERNANDO PESSOA:
SOB O SIGNO DO AZUL
Neste dia, faz hoje 84 anos,
nascia bem perto do lugar onde nos encontramos, aqui em Campo de Ourique, Maria
Gabriela Llansol. E num outro, há 21 anos (em 18 de Julho de 1994), estava
Maria Gabriela Llansol nesta Casa para a apresentação do seu primeiro grande
livro pessoano, Lisboaleipzig, por
Eduardo Prado Coelho.
Para ir ao encontro do título
do Livro de Horas que hoje
apresentamos – O Azul Imperfeito –, e
porque imagino que o azul será a cor do «final feliz» de que Llansol anda à procura
quando traz Pessoa para o seu texto, em O
Ensaio de Música, penso que o azul poderá ser visto como a cor deste dia do
seu nascimento. Mas também Pessoa é por excelência o poeta da im-perfeição e da
nostalgia de um certo azul, se este pudesse ser uma «consciência azul» que
funcionaria nele como contraponto do «azul que pertence ao céu», de Llansol
(LHV, p. 301).
O azul é em Llansol metáfora,
ou imagem, de uma completude ou perfeição que não exige explicação («O azul é o
sinal da esfera terrestre»), uma cor e um lugar que anulam as tensões do ser
(ninguém questiona o miosótis pelo seu azul, o azul não tem origem, etc.) – o
azul é aquilo que é, como o deus de Israel, e nessa sua quietude de ser é
in-questionável. É assim em geral, desde a Bíblia, passando por muita pintura,
de Giotto a Yves Klein e Almada, e muita literatura e poesia em que o azul é
por excelência o objecto da nostalgia do intocável e acabado - em Hölderlin
("In lieblicher Bläue"/ "Em azul ameno") ou em Novalis (na simbologia da Flor Azul), também em
Llansol, como «figura de contemplação» (LHV, p. 360).
Ao introduzir, com a
adjectivação de «imperfeito» (intrínseca à essência da aventura pessoana, e
também llansoliana), aquele leve tremor na intangibilidade soberana do azul
(tão mais própria do universo da música de Bach), Llansol põe também desde logo
em cena o núcleo figural mais relevante deste projecto, a dupla Pessoa-Bach, a
poesia (moderna e problemática) e a música (intemporal e quase divina).
Se a sala dos Bach em Leipzig
é «um infinito azul» (LHV, p. 274), cada quarto alugado de Pessoa em Lisboa é o
espaço cinzento e fechado de um ajudante de guarda-livros sonhando com o azul,
na plena consciência de nunca o alcançar (em certos momentos, ele parece estar
do outro lado do muro, ou da janela
aberta, no Esteves que sai da tabacaria – mas esse será, ainda assim, um azul baço, «sem
metafísica», apenas de «coisa real por fora» e não o do «sonho, como coisa real
por dentro»).
Voltando a este dia 24: nós
sabemos exactamente onde a Maria Gabriela nasceu, aqui em Campo de Ourique (na Rua Azedo
Gneco, mas passando a viver, ainda muito pequena, na Domingos Sequeira):
poderia ainda ter-se cruzado com Fernando Pessoa, ao colo da Maria Amélia, ou
já andando por seu pé, a caminho da casa da «Avó Azul» (!), como chama áquela
que vivia também na Rua Domingos Sequeira, um pouco acima da dos pais.
Mas com Llansol sabemos
também que se pode nascer em qualquer lugar, e como que «sem origem», como ela
diz do azul numa breve gravação que iremos ouvir a seguir. De facto, como
também Nietzsche, e talvez Pessoa, sabiam, não é a origem genealógica que mais importa,
mas aquela que se escolhe. Para Pessoa, Llansol encontra uma outra em Leipzig,
fazendo-o renascer aí; para si própria escolhe várias, por exemplo a de nascer «no
decurso da leitura silenciosa de um poema», «na sequência de um ritmo», como
lemos no início de um dos seus livros. Ou aquela outra que deriva do que, em Amigo e Amiga, designa de «operação do
azul», que é aí a cor do trabalho de luto que consiste em ser capaz de apagar
«o negrume da noite» para deixar surgir «o fulgor que há nas coisas». Que será
certamente azul. Penso que isto é audível na voz da Maria Gabriela, no excerto
de Amigo e Amiga. Curso de silêncio de
2004, que ouvimos neste vídeo que hoje aqui trazemos de novo. É um modo, entre outros, de evocarmos a sua
memória, ainda sob o signo do azul.
João Barrento
[Foto: Maria Etelvina Santos]
Maria Etelvina Santos
Uma outra percepção de elos e de relações
O conjunto
de inéditos de Maria Gabriela Llansol que
constitui este Livro de Horas V, O Azul Imperfeito,
reúne (como indicado em subtítulo) todos os textos que, redigidos entre 1976 e
2006, surgem associados ao «Projecto Lisboaleipzig», onde é central a figura do
poeta Pessoa, juntamente com a do músico Bach e a do filósofo Spinoza.
Devo salientar,
como ponto prévio, que esta
apresentação não incidirá, pela sua necessária brevidade, em aspectos de ordem
processual que se prendem com critérios de selecção do corpus
final deste livro, ou de inclusão de notas e de remissões, aspectos todos eles
explicitados na respectiva introdução ao volume; excluo também a referência às
diferentes tramas narrativas que, embora protagonizadas por Pessoa na figura de
Aossê, estão largamente desenvolvidas em livros como Lisboaleipzig, Um Falcão no
Punho, Um Beijo Dado Mais Tarde, Onde Vais Drama-Poesia? ou O Senhor de Herbais, para referir apenas
alguns, pois dos cerca de trinta livros publicados por Llansol, metade incluem
Pessoa-Aossê como figura. Procurarei, antes, seguir duas linhas de leitura em
constante diálogo que, estando presentes nos livros editados por Llansol, se
acentuam e esclarecem com a publicação destes inéditos: uma que tenta perceber
o que em Pessoa motivou Llansol, a ponto de se fazer acompanhar e dar
testemunho da presença do poeta ao longo de trinta anos de escrita; e outra que
procura mostrar como através da transformação de Pessoa na figura de Aossê, e
tomando esta recolha como paradigma do gesto literário e da oficina de escrita
de Llansol, podemos observar temáticas recorrentes e programáticas do seu
texto.
I.
Dar conta do
imenso rio subterrâneo que corre paralelo ao rio da escrita que vai sendo dada
à estampa, observar textos que partem e textos que ficam, apela a uma leitura
articulada com os diferentes livros, o que, no caso de Llansol, contribui
significativamente para irmos completando as múltiplas constelações figurais
que constituem o seu texto. Na primeira página do livro Causa Amante, Llansol dá uma imagem que nos legitima a seguir este
modo de ler, cruzando os textos dos livros com os textos dos diários
manuscritos. Fala do seu jardim da casa de Herbais coberto de neve, ocultando
os arbustos, e completa: «como se a
estrutura dos arbustos e os relevos que sustentam a neve fossem o meu diário, e
a neve total que os cobre, os meus livros, desde o livro das comunidades».
Noutro momento, evoca a figura de Coração do Urso, o que protege os livros por
dentro, como sendo «o companheiro permanente da espera». É essa relação dos
textos dos diários como textos em espera,
que é significativa no caso de Llansol (como também aconteceu com Pessoa,
embora por diferentes caminhos). Os inúmeros inéditos que percorrem as páginas
dos diários de Llansol não ficavam esquecidos nos cadernos manuscritos depois
da publicação dos respectivos livros, ficavam à espera que as figuras os chamassem a novos livros, o que
recorrentemente acontecia. Por isso a sua obra é um texto contínuo, por isso os
dois planos dos textos éditos e inéditos podem, com legitimidade, ser cruzados
ininterruptamente, de modo a completar ideias retomadas. Cabe ao leitor a
multiplicidade das leituras. Quanto a nós, o que podemos continuar a fazer é
apenas ir contribuindo para desenhar o imenso mapa da escrita llansoliana,
édita e inédita, e é tarefa para muitos anos.
Tratando-se, no caso deste Livro de Horas V, de um volume de inéditos reunidos cronologicamente, não existindo nele a
organicidade dos diferentes fios narrativos que, não sendo embora apanágio do
texto de Llansol, está presente nos livros publicados pela sua mão, ainda
assim, podemos ver nele os mesmos módulos
de pensamento que, como nos livros editados, viajam ao sabor e pelo saber
das horas e dos dias, interligando-se, acrescentando, desdobrando e
amplificando possibilidades
textuais geradoras de novos pensamentos criadores ou de diferentes modos de fazer mundos.
Num texto
agora editado, com data de 10 de Junho de 1983, com o título «Os trinta últimos
momentos de Aossê», Llansol parece sintetizar o modo como leu o poeta Pessoa,
que afirma pela voz de Aossê: «todas as minhas camadas
foram quebradas no combate, deixo um rasto que se assemelha a um grupo disperso
de plantas fósseis, e aponta ao meu coração que não cessa, com uma corda, de
dar pancadas no meu corpo; [...] deixo de sentir a fadiga dos meus vários
nomes; [...] estou só na minha sombra, sou o superlativo absoluto simples, ou a
verdadeira causa de exceptuar».
E
continuo, com um excerto do dia 11 de Julho de 1983: «Bach [...] era o guardião da sua vida naquele momento, que
fechara, não metaforicamente, a porta para onde a morte o queria levar. Porque
Aossê devia viver mais do que os seus quarenta e cinco anos já vividos – desse
a morte por onde desse. E [...] a partir daí, seus animais descalços e
taciturnos, a que chamavam heterónimos, haviam de ser domados e repletos da
unidade de Aossê».
É
este o Pessoa de Llansol, transmudado na figura de Aossê, a caminho de uma
unidade perdida em Lisboa e recuperável em Leipzig. Enumero apenas algumas das
linhas recorrentes da sua transmutação, que com este Livro de Horas V se clarificam:
Na
página de rosto da sua edição do Livro do
Desassossego, Llansol enuncia:
«Bach
organiza Pessoa / Pessoa caotização de Bach».
«Gostava de
exprimir a parte de felicidade que ele não teve».
Com base
neste enunciado, iremos assistir à criação de figuras femininas necessárias à
realização deste propósito. Refiro duas: Anna Magdalena Bach, a mulher-mãe, a
que representa o amor na casa dos Bach, a mulher que faltou a Pessoa, ela ou
Elizabeth, a filha do casal Bach, que se apaixonará por Aossê; e Infausta, por
vezes nomeada como o heterónimo feminino de Aossê, noutras surgindo como
narradora ou «a chave da porta»; Infausta que nestes inéditos dá a ver o imenso
percurso que está por detrás do seu nome, desde Infalsa a Infausta, ela que
começou por ser Florbela e Mansuetude. É talvez das figuras que mais se
completa com a edição deste volume de inéditos.
Outra linha
recorrente prende-se com a ideia de casa, com tudo o que ela pressupõe: a casa
única, desejada, que Pessoa não teve, apesar das muitas por onde passou, e que
Aossê encontra em Leipzig na família Bach. E que é também a casa onde a música
se ouve, dentro e fora, até ao canto de Anna Magdalena. Casa onde Aossê será
recebido, como hóspede e peregrino, ele «o poeta estrangeiro» – casa que lembra
a da infância perdida, a do Largo de São Carlos, com a música por perto.
Também o
desejo de viagem é uma constante em Pessoa e na sua transformação nos textos de
Llansol: «Ir pelo mundo teria sido a alegria inteira de Aossê», diz-se em 11 de
Janeiro de 1983.
E também a
cidade como lugar de encontros ou da falta deles, a Lisboa de Pessoa, cidade
que reprime, cinzenta e de vontades sempre adiadas. A Lisboa que se transforma
em Lisboaleipzig, não a cidade inventada, não como lugar geográfico, mas como
lugar textual, o lugar da «efectivação do
possível».
Refiro
apenas mais uma linha de leitura que com este Livro de Horas V se amplifica: a da intertextualidade dos textos de
Llansol e Pessoa, principalmente de Alberto Caeiro e Bernardo Soares, com
muitas citações explícitas de «O Guardador de Rebanhos» e do Livro
do Desassossego.
II.
Os novos
mundos possíveis que o texto põe em prática, como o que resulta do encontro
entre os Bach, Aossê, Infausta e Baruch Spinoza, são, no dizer de Llansol,
«fascinantes e incómodos, aparentemente utópicos» porque parecem nascer só da
linguagem, parecem vir do nada, mas «existem, são futuros», como refere no
livro O Senhor de Herbais. Nesta frase gramaticalmente paradoxal –
«existem, são futuros» – reside um
dos motores da escrita de Llansol, para o qual convoca Fernando Pessoa e a
leitura que dele faz, para depois deixar a quem lê a tarefa de saber dar força
e pujança ao não-evidente e, de modo similar, reconhecer o que dizem os autores
que não são do seu próprio tempo, os póstumos, os intempestivos, que
generosamente nos retiram o tapete do «horizonte de expectativa» em que nos sentamos.
Neste
sentido, falando de Maria Gabriela Llansol estamos também a falar de Fernando
Pessoa, de Emily Dickinson, de Rilke ou de Hölderlin, daqueles que propondo-nos
um «pacto de inconforto», negando-nos a certeza de um sentido, nos oferecem, à
deriva de protocolos de leitura, a intensidade do acto de ler e a possibilidade
de criar pensamento. Com eles
aprendemos que é pelo desassossego e no jogo do intenso que o vislumbre
acontece. E a leitura, como da escrita diz Llansol n’ O Livro das Comunidades, vislumbra, não presta para consignar.
Como no caso
do vislumbre, o reflexo de luz que antecipa, também no texto llansoliano o
carácter fragmentário e aparentemente des-ordenado, acentrado face a uma condição narrativa, antecipa e produz
núcleos de significação ou cenas irradiantes, geradoras de intensidades
dramáticas que põem em acção outras viabilidades de sentido e,
consequentemente, uma outra percepção de elos e de relações. Dizer isto da escrita de Llansol é dizer o
mesmo de Pessoa face à sua condição poética: a mesma intensidade
dramática, o mesmo carácter fragmentário, a mesma infinitude compósita. Em
ambos a capacidade modular e
antecipatória de contribuir, ainda que de modo diferido, para a efectivação do possível. Em ambos a
condição fragmentária não se fixa, aspira ao movimento, exactamente para que o
sentido, sendo também mutante, continue a proporcionar o vislumbre.
É da «imensa
fragmentação que Pessoa deixou escrita», e do vislumbre dessa leitura, que
emerge o enorme potencial que Llansol viu nele. Pessoa que não será personagem
de romance, porque para Llansol o potencial que, como outros ele oferece, está
para além do ficcionável. Por isso o texto llansoliano, como sabemos, não cria
indivíduos-personagens, mas módulos transitáveis de energia, figuras de
«recomeço de novos ciclos de pensamento e de formas de viver», como se diz em Um Falcão no Punho (FP: 97). Não
personagens, não heterónimos, como o poeta antecipou, mas figuras, para que,
destituídas de psicologia, possam suscitar novas formas de pensar o humano.
É esta a
força projectiva do texto de Llansol, para o qual convoca Pessoa – «conceber um
mundo humano que aqui viva», sendo que o humano precisa de ser redefinido (e
hoje de modo ainda mais premente). Alargar a noção de humano ao vivo da espécie terrestre, como Llansol
propõe, deverá ser o contrato a estabelecer com o mundo. Efectivar essa
possibilidade, ainda que como linha do horizonte, é tarefa para inúmeras
gerações; primeiro recuperando vestígios, depois, sobre esta terra (que outra
não temos) ensaiar poeticamente novas humanidades, leia-se, pôr a agir de outro
modo, fazer ser novas formas de
humano. Pessoa mostrava-se capaz da tarefa, mas num país adiado.
Llansol vai
ensaiar, com Pessoa e através dele (com a ajuda de Bach e de Spinoza), esse
contrato que implica redefinir o humano, ao alargá-lo a todo o vivo e ao
fazê-lo evoluir através de várias humanidades, das quais a bi-humanidade de
Aossê, narrada em Lisboaleipzig, será
a primeira, não sob a forma do hermafrodita (pelo regresso a uma mítica origem
perdida), mas sob a forma do híbrido que pertence a uma geração sem-nome, capaz
de mutação, e que seja sinal da evolução da espécie. A figura do híbrido,
explicitada mais concretamente num livro como Parasceve, publicado em 2001, está presente no «projecto
Lisboaleipzig» através da figura do falcão, gerado por Aossê, anunciando o híbrido de um homem novo com
olhos de falcão. Mas é preciso pensar esta imagem quimérica, a do novo ser,
para além do fabuloso: se Llansol atribui a Pessoa-Aossê a capacidade de gerar
um homem com olhos de falcão, habitante dos ares, é para lhe retirar a
«projecção maiúscula» que lhe atribuímos como poeta-pátrio onde o enredámos, e
pondo ênfase no uso da retina tentar chegar à Índia por outra via, abordar o
Oriente de outra perspectiva, ou seja, definir outros métodos ou caminhos para
o humano, fora da esfera do poder e do lucro, construindo através do falcão
Aossê «uma nova arquitectura para a aventura da água». Tentar perceber, não
historica mas esteticamente, como se desconstrõe o «paradigma da água», símbolo
da nossa ideia viciada de glória. O ar será um meio mais propício a Aossê, e a
música de Bach a possibilidade dessa elevação.
Se «os
limites da espécie humana não são conhecidos», e não é só Llansol que o diz,
ensaiar a leitura do encontro entre o poeta Pessoa e o músico Bach,
submetendo-os ao pensamento de Spinoza, pode provocar uma mudança de escala:
pode, por exemplo, relançar o
pensamento sobre a glória de Deus na música de Bach, sobre a postura de
poeta-pátrio em Pessoa, ou sobre o nome do atributo escondido na Ética de Spinoza; isto, e muito mais, se
nos apercebermos da «complexidade inextricável» desse encontro, escovando a
História a contrapêlo, como propunha Walter Benjamin, ou submetendo os textos a
pontos de vista desconstrucionistas, como tão bem entendeu Derrida, que teria
tido no texto llansoliano um gratificante campo de leitura.
Bach arranca
Pessoa da «ínfima escala» em que este se encontra como poeta-pátrio, se
conseguirmos ler nessa imagem uma mudança de paradigma, a da substituição do
conceito de pátria pelo de comunidade, aliás mais conforme ao desejo de Pessoa,
como tantas vezes enunciou, de contribuir «para o progresso da civilização e o
alargamento da consciência da humanidade», como refere, logo em 1915, numa
carta a Armando Côrtes-Rodrigues.
Que
potencial de leitura se esconde nos inúmeros planos deixados por Pessoa! Quantas
humanidades subterrâneas e encontros possíveis não chegaram ainda a acontecer,
quantas possibilidades, para além do jogo heteronímico, foram já soterradas
pela leitura dispersiva dos seus nomes!
Não faço
juízos de valor. É verdade que cabe à crítica a difícil tarefa de consignar,
não tanto a de vislumbrar, mas cabe às escolas
de saber livre (modo como António José Saraiva, em tempos, se referia às
universidades) ensaiar novos modos de ler os grandes textos (para que não
corram o risco de cair em estereótipos canónicos e leituras feitas), porque é
no vislumbre que se ensaia o jogo do possível, e é para efectivar o possível
que eles foram escritos. Descobrir-lhes as potencialidades e os vestígios que
deixaram é o que nos permite (ou não) prolongá-los numa «sobrevida» operante
que formule, hoje, novos modos de pensar a nossa condição no mundo, porque como
póstumos eles estavam já a ler e a escrever estes nossos dias futuros.
A edição de
textos inéditos, em autores multímodos e de uma complexidade tão abrangente em
termos fragmentários, como Pessoa ou Llansol, pode ser particularmente
elucidativa por potenciar linhas de pensamento que, por vezes, extravasam os
domínios circunscritos à publicação dos textos editados. Pessoa porque quase
nada publicou em livro, Llansol porque deixou, para além dos livros, um imenso
espólio inédito – «restos que se revoltam», assim lhe chamou, porque reunem a
força de um dia serem chamados a efectivar
o possível.
III.
Uma última
palavra para o título deste Livro de Horas V, O Azul Imperfeito, anotado num inédito como título para o terceiro
volume de Lisboaleipzig que,
previsivelmente, seria uma obra em seis ou sete volumes, o que justifica o
imenso material que permaneceu inédito. Também a ele me refiro na introdução.
Gostaria agora de lembrar apenas o vocábulo «imperfeito» – não o seu
significado imediato, mas a forma verbal que ele enuncia, a do ainda-não
concluído, a que possibilita que a acção verbal continue, a que está em processo de, à espera como os
inéditos, na iminência de acontecer. Este modo
imperfeito de ser é o que melhor serve à leitura do fragmento, mas pode
também ser uma escolha, a decisão de um modo de ler. Relembro um parágrafo
escrito por Llansol no pequeno livro Amar
um Cão: «Uma frase lida destacadamente, aproximada de outra que talvez lhe
correspondesse em silêncio, é uma alma
crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das
almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se
mantém há gerações».
Resta-nos o imperfeito e a tarefa infinita da leitura. Mas podemos escolher o lugar ou ponto
de vista onde nos situamos face ao mundo: não o aceitando sem ter de o recusar,
escolha-se o alpendre do mundo. A partir daí, vislumbrar a terra azul como o
infinitamente grande, ou procurar no infinitamente pequeno o que eternamente
vive
na flor azul de Novalis,
ou no azul imperfeito de Llansol.
Na sessão de apresentação do novo Livro de Horas participaram ainda:
O violoncelista Nelson Ferreira, que executou três peças para violoncelo:
João Madureira, Inscrição para violoncelo (inspirada no texto de Llansol)
J. S. Bach, Prelúdios das suites para violoncelo # 1 e 2.
[Foto: Helena Alves]
Publicado às
19:23
CONTOS DO MAL ERRANTE
EM ESPANHA
(Pintura de Ilda David' na edição portuguesa de Contos do Mal Errante)
Os incansáveis tradutores de Llansol em Espanha, Mario Grande e Mercedes Cuesta («Atalaire») escolheram alguma capítulos de Contos do Mal Errante e deram-nos a conhecer aos leitores espanhóis na revista digital FRONTERA D, uma publicação de grande sensibilidade literária e belo e discreto aspecto gráfico, que se apresenta como «una revista digital para las imensas minorías». Os excertos do livro de M. G. Llansol em tradução (e original) foram incluídos na secção «La nube habitada», coordenada e ilustrada por Anxo Pastor.
Publicado às
11:29
24.11.15
… EU EXPERIMENTO A LUZ
Hoje é dia de luz e do Azul Imperfeito. A Maria Gabriela faria 84 anos, e o seu grande livro de Aossê – O Azul Imperfeito- Livro de Horas V – vai ser apresentado no mesmo lugar em que a sua versão primordial, Lisboaleipzig, veio à luz em 1994, a Casa Fernando Pessoa. Neste universo, a luz é indissociável do processo de escrita e também do de leitura. Disso dão testemunho dois fragmentos com que hoje evocamos este dia, uma página de caderno de 24 de Outubro de 1999, e um papel avulso, também de Outubro, provavelmente do ano de 2004.
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Tenho sempre diante dos olhos a imitação da luz com que nasci, A luz é o princípio da palavra, mesmo se for primeiro grito, ou vagido...
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4 de Out. [2004]
___________ eu experimento a luz; tiro uns objectos, ponho outros, afasto uma cadeira______ e sei que a luz tem uma incidência imediata no meu espírito________ conforme as partes que ilumina, estabelece-se uma ponte e, quando leio, a leitura passa por essa luz, regulo as gradações e a sensibilidade ao grande texto de um autor que começo a conhecer é imediata.
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Publicado às
10:36
13.11.15
AOSSÊ NA CASA FERNANDO PESSOA
No próximo dia 24 de Novembro, pelas 19 horas, faremos na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, uma apresentação do novo «Livro de Horas» (o quinto) transcrito dos cadernos de escrita de M. G. Llansol. Este volume, de 730 páginas, tem o título O Azul Imperfeito, e reune toda a escrita inédita de Llansol sobre Fernando Pessoa-Aossê e figuras envolventes, em especial J. S. Bach e todo o ambiente musical (e figural) na casa dos Bach em Leipzig. Por isso, para além da apresentação do livro por Maria Etelvina Santos (responsável do Espaço Llansol por esta edição), ouviremos excertos deste novo livro, lidos pelos actores Diogo Dória e Raquel Mendes, e também música de J. S. Bach e do compositor João Madureira, pelo violoncelista Nelson Ferreira.
(Clique na imagem para aumentar)
E, dado tratar-se do dia de nascimento de Maria Gabriela Llansol, abriremos a sessão com uma evocação na qual incluiremos um pequeno video em que ouviremos a sua voz a ler um fragmento em que se fala do significado do «Azul» na sua escrita.
Publicado às
11:28
30.10.15
OS EXÍLIOS DE LLANSOL
– Sétimas Jornadas Llansolianas de Sintra –
Foi já a sétima vez que reunimos em Sintra, este ano no MU.SA-Museu das Artes, algumas dezenas de estudiosos e leitores de Llansol para mais uma viagem com o seu texto, que no último fim de semana nos permitiu deambular por um largo espectro de questões relacionadas com o tema que escolhemos, o da «Vocação do exílio» na existência, nos modos de escrita e na visão do mundo de uma autora como Maria Gabriela Llansol.
Ao cabo de dois dias de intervenções e debates, de filmes e de leituras, percebeu-se como a vocação do exílio em Llansol, para além de visceral, é dupla e paradoxal. Há na sua vida, que é a sua Obra, uma tendência natural para, em sentido real e metafórico, se exilar do mundo, do «gregário», do comum, e zarpar para as margens: «nós» – isto é, os de uma estirpe que é a sua e a das suas figuras – «herdámos as margens», lemos já em Causa Amante. Por outro lado, num dado momento do seu percurso acontece o chamamento do exílio concreto, que a levará a viver vinte anos numa Europa do Norte que, de outro modo, não teria conhecido – pelo menos como a conheceu depois da decisão do exílio semi-voluntário, forçado pelas circunstâncias de uma guerra que faria nascer muita outra literatura «empenhada», com um empenho que não seria o seu, apesar de, nos dez anos de Lovaina, e mesmo depois, viver imersa num ambiente de contestação do Estado Novo e dessa Guerra Colonial. Mas o lugar de exílio de Llansol estava já assinalado antes, desde a adolescência: é o da Ilha – que tanto pode ser a do quarto onde lê e escreve como a de Robinson, por analogia (por exemplo em Lisboaleipzig, ou já nos diários de juventude), ou a «Ilha de Ana de Peñalosa», o «lugar onde se resiste», por afinidade figural, desde O Livro das Comunidades.
Será, porém, nos anos do exílio real da Bélgica (e não no interior, o dos anos do Portugal de Salazar) que se abrem os caminhos de um outro exílio dentro do exílio, o da escrita das «órbitas excêntricas» (como Hölderlin), o da língua que dá por si em «sobreimpressão» com mundos-outros, e assim se renova, o da comunidade de figuras aí descobertas, que vêm das margens da História e que, nos primeiros livros, começam a configurar o espaço de exílio dos «rebeldes» que mais tarde, no exílio português de Colares e Sintra, se prolongaria pela ordem figural de um quotidiano ainda e sempre desterrado, em busca de «um mundo humano que aqui viva…»
Mas em Llansol a condição de exílio – ficou claro nestas Jornadas que é disso que se trata, e não de mero exílio de circunstância – é de tal modo visceral que se pode dizer que começa pelo próprio nome, aquele nome literário que acaba por escolher, o da mãe, que traz em si as palavras Luz e Llansol. Também ele um nome que veio da distância, no tempo e no espaço, e de uma língua (a «língua d'Oc» da Provença e da Catalunha) também ela exilada entre as maiores e dominantes. Este é um exílio de matriz uterina, que poderia levar a dizer: «Meu nome é exílio». Um exílio que tem a sua casa própria no corpo e na imanência do mundo, e não em espaços de nostalgia e desencanto, ou de amargura e resistência activa, como tantas vezes acontece com os exilados. O seu modelo, a tê-lo, não seria o de um Ovídio lamentando-se no Ponto Euxino, mas o de Dante, fazendo do exílio estímulo e fonte da Obra, de uma Obra que agora, em Llansol, não é devaneio metafísico, mas projecto puramente humano.
De tudo isto se falou nos dois dias das Jornadas, em particular nas intervenções do crítico e ensaísta António Guerreiro (que abordou o «exílio essencial» e o lugar de Llansol numa «pós-literatura»), do poeta e tradutor José Manuel de Vasconcelos (que se centrou na «errância e indeterminação» deste universo de escrita, colocando-o em paralelo com o de um Julien Gracq ou de um Jorge Guillén), de João Barrento (que enquadrou o tema na totalidade da escrita e nas várias fases de vida de Llansol) ou de intervenientes de uma nova geração de legentes de Llansol, originalmente vindos de áreas como a História ou a Filosofia: Carolina Fenati (que colaborou muito com o Espaço Llansol e fez duas teses sobre Llansol) ou Hugo Monteiro, professor da Escola Superior de Educação do Porto e radicado nas filosofias de Blanchot, Derrida ou Jean-luc Nancy, pensadores que trouxe à sua leitura do espaço literário exilado de Llansol e do seu «anti-método».
João Barrento | Maria Etelvina Santos | António Guerreiro
José Manuel de Vasconcelos | João Barrento | Ma. Etelvina Santos | Silvina R. Lopes
Maria Carolina Fenati | Cristiana Vasconcelos Rodrigues | Hugo Monteiro
Mas houve também «encontros improváveis» (como os que algumas vezes provocámos nas nossas sessões da «Letra E»), e altamente reveladores, do universo de Llansol com o de outros exilados: Hannah Arendt, pela voz de Teresa Cadete (escritora, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, e Presidente do PEN Clube Português), que tocou em questões geralmente menos abordadas, mas muito pertinentes – a distinção entre herança e testamento, os usos particulares do passado ou o lado político de ambas as autoras; e o judeu exilado do nosso século XVII, Uriel da Costa, que suscitou a Llansol muita escrita nos cadernos e no que designou de «Diário do Mucifal», no período de quase um ano compreendido entre os últimos meses de Herbais e os primeiros depois do regresso a Portugal, entre 1984 e 1985. Disso nos falou Ilse Pollack, grande conhecedora da literatura e da realidade portuguesas que veio da Áustria e é autora de uma das mais originais publicações em torno do texto de Llansol, o Almanaque Llansol que publicou, em alemão, em 2013 (Territorium der Randständigen. Ein Llansol-Almanach, Berlin Press).
Não houve até hoje Jornadas Llansolianos sem livros novos, os da série dos Livros de Horas (na Assírio & Alvim) e os da colecção «Rio da Escrita» (da Mariposa Azual). Este ano tivemos, nesta colecção, O Império dos Fragmentos. Llansol e a exigência fragmentária, que documenta as Jornadas de 2014, e foi apresentado por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, com a editora, Helena Vieira. E o grande acontecimento no âmbito dos «Livros de Horas» (a publicação de maior peso que fizemos até hoje, depois de Europa em Sobreimpressão. Llansol e as dobras da História, de 2011), o quinto volume da série, da responsabilidade de Maria Etelvina Santos, que documenta toda a escrita de Llansol em torno da figura de F. Pessoa/Aossê e seus «satélites» na casa dos Bach, ao longo de trinta anos. Este grande volume de mais de 700 páginas foi apresentado por Silvina Rodrigues Lopes, e a sua génese, o processo editorial e o espectro de matérias cobertas amplamente comentados pela responsável da edição. Trata-se sem dúvida de um marco importante neste ano, tão pessoano, do centenário de Orpheu.
Helena Vieira (Mariposa Azual) | Cristiana V. Rodrigues
O novo Livro de Horas: O Azul Imperfeito (Pessoa em Llansol)
Mas as Jornadas Llansolianas nunca se fizeram sem o contributo de outras artes, e também este ano não foi excepção. Tivémos um filme de Daniel Ribeiro Duarte – Ao Lugar de Herbais – que mostra de forma original como o exílio de Llansol acontece num movimento oscilante entre o mundo (Herbais, lugar-chave dessa experiência) e a escrita (o arquivo de Sintra, com todas as suas ramificações). Herbais e Sintra encontram-se e confundem-se neste filme, «sob o signo da passagem por lugares provisórios», de exílio a exílio.
No encerramento, ouvimos as vozes dos actores Diogo Dória e Raquel Mendes a ler textos de Llansol sobre a temática das Jornadas:
E como também já vem sendo hábito, fizemos um caderno com muita escrita de Llansol, fotos e documentos: «O caderno do Exílio», com 72 páginas e organizado em cinco secções: 1. Do exílio em geral; 2. Os lugares do exílio; 3. A língua e o exílio; 4. A escrita: desterro da literatura; 5. Comunidade, figuras e exílio.
Mostrámos ainda, numa exposição com largas dezenas de fotografias, os «Lugares e rostos do exílio» de M. G. Llansol. O tratamento digital das fotografias foi feito por Teresa Projecto. Também essa exposição pode ser vista, com as fotos e os textos que as acompanham, na montagem que se segue:
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12:08
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