18.2.15

LLANSOL: OS PRIMÓRDIOS DA ESCRITA
Sábado na «Letra E»


A próxima sessão da «Letra E» do Espaço Llansol dará a conhecer – pela palavra, pela imagem e por uma exposição documental – os primeiros exemplos de escrita de Maria Gabriela Llansol, na fase de adolescência e juventude. Esta época é a menos documentada no espólio não literário de Llansol (fotografias, objectos, correspondência), mas também aquela em que começa a brotar, como de «uma nascente no meio de um rio», a pulsão da escrita. 
Estamos nos anos do Liceu (Pedro Nunes, em Lisboa) e da Faculdade de Direito, e dos que se seguem, até ao encontro com Augusto Joaquim e à ida para a Bélgica. Anos densos de experiência e de tensões – familiares, sociais, religiosas –, como testemunham os diários de que dispomos, entre 1949 e 1965. A escrita, essa inicia (a partir dos onze anos, com o primeiro conto) o seu curso para nunca mais parar, e distribui-se por vários géneros – conto, diário, poesia, teatro –, dos quais os dois primeiros estariam destinados a ter continuidade, enquanto dos dois últimos não restam mais do algumas tentativas juvenis que daremos a conhecer, pela leitura que faremos (desta vez, esperamos, com a colaboração do público) e pelo caderno que, uma vez mais, editamos nesta ocasião, e que contém registos diarísticos e um desdobrável com exemplos de conto, poesia e teatro.


Para quem acompanhou a escrita de Llansol em livro, a partir de Os Pregos na Erva, esta sessão poderá ser altamente reveladora, pelo carácter seminal de muitos dos textos que nesta época foram escritos, e pelo desconhecimento total que até hoje envolve estas primeiras tentativas literárias.

A PRIMEIRA TRILOGIA SAI NO BRASIL

Pouco depois da edição castelhana, num volume, acabam de sair na Editora 7Letras, do Rio de Janeiro, os três volumes da primeira trilogia de M. G. Llansol, «Geografia de Rebeldes». Na mesma editora já saiu Um Beijo Dado Mais Tarde, e esperam-se novas edições.


Cada um dos volumes desta edição brasileira é apresentado, na badana, por um excerto dos posfácios das segundas edições portuguesas, textos solicitados ainda pela Maria Gabriela a cada um dos autores – Silvina Rodrigues Lopes, José Augusto Mourão e João Barrento.


AMAR UM CÃO EM ESPANHA

O tandem que dá pelo nome de Atalaire, Mario e Mercedes, dedicados leitores e tradutores de Llansol em Espanha, com vários títulos publicados e outros a caminho, acaba de verter para castelhano esse pequeno e precioso texto que é Amar Um Cão. Saiu em formato de plaquette, em edição bilingue, acompanhando o último número da revista La Galla Ciencia (que já publicou excertos de O Livro das Comunidades). A divulgação do acontecimento pela própria revista pode ler-se aqui: http://www.lagallaciencia.com/p/blog-page_29.html


25.1.15

«PENSAR É COM O CORPO...»
Clarice e Llansol na «Letra E»

Sobre Clarice Lispector escreveu um dia Llansol (que, ao que podemos depreender hoje pela sua biblioteca, só terá lido dois livros da escritora brasileira), que ela «é uma beguina – uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro; o que nos une é que ela surpreende-me, como eu hei-de surpreender... Somos um indício de que a impossibilidade de ser-se sempre igual existe» (Caderno 1.22, pp. 265-266, 17 de Setembro de 1986).


A tarde de ontem na «Letra E» correu no espírito de um encontro-desencontro, como se esperaria. As entrevistas das duas escritoras («escreventes»?) que vimos e ouvimos tanto as aproximam como as distinguem. A nossa convidada de ontem, Maria Carolina Fenati, falou, a partir da sua própria experiência de leitura, das duas autoras, traçando paisagens que passaram pela questão central da maior ou menor facilidade de «compreensão», pela necessidade da releitura dos textos de ambas («eu ganho na releitura», dizia Clarice na entrevista), tanto ao nível de todo um livro como, em Llansol, de um único parágrafo ou de uma página. Abordaram-se ainda as diferentes «viagens» que uma e outra propiciam ao leitor (mais interior em Clarice, mais voltada para o mundo em Llansol). Dos ritmos e dos modos de escrita se falou também, em particular da intensidade da escrita em ambas, e do que isso gera, no ritmo diário de escrita ou na composição dos textos. Num e noutro caso, sugeriu a Carolina, há uma «orquestração» muito particular de intensidades, que fragmenta necessariamente a realidade («A realidade, para ser profunda, tem que ser fragmentada. É impossível aguentar a intensidade continuamente...», diz Llansol na entrevista de 1997).

Clarice no espólio de Llansol, e na sua recepção em Portugal
Um tópico importante, que derivou da entrevista de Llansol e suscitou várias intervenções do público – muito participante ontem –  foi a da relação pensar-sentir (e ver, particularmente na autora portuguesa). O caminho de Clarice e Llansol (que esta contrapõe ao da «racionalização» de Vergílio Ferreira) é o da absorção de toda a experiência sensorial no pensamento, retirando-lhe a carga de abstracção e de pretensão de autonomia. Llansol diz (e Clarice também o sugere na sua entrevista); «Eu não faço separações. Para ser real e para dizer realmente como eu apreendo – apreendo estando lá. Eu acho que sinto, vejo, penso, tudo é simultâneo (...) Pensar é com o corpo...»

Maria Carolina Fenati e o público

22.1.15

ECOS DE LLANSOL 
NA ESCOLA SECUNDÁRIA DE SANTA MARIA

No passado dia 14 estivemos na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, e abrimos horizontes novos aos alunos do 10º e 11º anos, revelando-lhes o universo e os modos de escrita de M. G. Llansol. A ideia foi da professora de Literatura Portuguesa, Maria Fernanda Peixoto, e a conversa parece ter deixado algumas sementes, como se pode ver por esta pequena amostra das muitas opiniões dos alunos que a professora nos fez chegar (juntamente com as fotos)...


20.1.15

CLARICE LISPECTOR NA «LETRA E»

É já no próximo sábado que retomamos as actividades da «Letra E», com o «encontro improvável» entre Maria Gabriela Llansol e a escritora Clarice Lispector. Contamos com a participação da nossa colaboradora brasileira Maria Carolina Fenati, veremos uma entrevista filmada de Clarice e ouviremos outra de Maria Gabriela Llansol, dada à Antena 1 em 1997. E conversaremos depois com todos os que vierem.

12.1.15

LLANSOL VAI À ESCOLA

Na próxima quarta-feira, dia 14, a partir das 11h40, falaremos de Maria Gabriela Llansol, do seu percurso e da sua escrita, para alunos e professores da Escola Secundária de Santa Maria (na Portela de Sintra, Rua Pedro Cintra). No Auditório, e a convite da professora desta Escola, Maria Fernanda Peixoto, sócia do Espaço Llansol.


3.1.15

A «LETRA E» NO PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2015

A Letra E do Espaço Llansol vai reabrir em 24 de Janeiro, para mais uma série de quatro sessões neste primeiro trimestre do ano, dando continuidade a ciclos já iniciados: os «Encontros improváveis», desta vez com as possíveis ligações entre os universos e a escrita de Llansol e Clarice Lispector (com um olhar brasileiro a apresentar as duas escritoras, o da nossa colaboradora da primeira hora Maria Carolina Fenati); e os «Lugares e tempos de Llansol», com a fase de adolescência e juventude em Lisboa, que são já anos de muita escrita desconhecida que iremos divulgar. O destaque do trimestre, num terceiro momento deste ciclo, vai no entanto para uma matéria até agora em tratamento e organização no espólio, que entretanto estamos em condições de divulgar e que merecerá duas sessões em Março, particularmente interessantes para professores e pedagogos: trata-se de apresentar e comentar os modelos pedagógicos, as actividades diárias e as práticas comunitárias nas duas escolas que Llansol, Augusto Joaquim e alguns outros criaram na Bélgica, e que funcionaram entre 1969 e 1979: a Escola da Rua de Namur, em Lovaina, e a La Maison, em Louvain-la-Neuve, esta integrada na Cooperativa Ferme Jacob. Teremos a colaboração de um pedagogo belga, Pascal Paulus, há muitos anos activo em Portugal, e também, nomeadamente para os ateliers com crianças na segunda sessão, das colaboradoras do Espaço Llansol Albertina Pena (professora do 1º Ciclo) e Teresa Projecto (Mestre em Pintura), e do professor Paulo Sarmento. Para as sessões de Fevereiro e Março haverá um dos habituais Cadernos da Letra E sobre o tema.
Deixamos aqui o programa do trimestre, e voltaremos a lembrar cada uma das sessões (como habitualmente, aos sábados às 16 horas).

26.12.14

COM LLANSOL, NO NOVO ANO

(Clique na imagem para aumentar)

16.12.14

AUGUSTO JOAQUIM 
(16 de Dezembro de 1943 – 11 de Novembro de 2003)

Augusto Joaquim foi durante anos o primeiro, e também o mais atento e crítico, legente dos textos de Maria Gabriela Llansol. No dia do seu nascimento, evocamos alguns aspectos menos conhecidos da Obra do Augusto – poesia, desenhos e colagens –, retomando alguns momentos do caderno da «Letra E» que fizemos em 2013.

Augusto Joaquim em 2001, num dos piqueniques anuais do GELL-Grupo de Estudos Llansolianos
Há um «défice de Augusto Joaquim» quando se fala de Llansol e da sua escrita. Mas a verdade é que ele teve parte activa e influência decisiva nesta Obra e no seu devir-texto, desde logo por ter arrastado a sua autora para um exílio que foi determinante para a sua mudança de paradigma literário e existencial. Mas não só por isso. Os cadernos e outros documentos de ambos os espólios mostram hoje à evidência que sempre existiu uma forte interacção, e que a presença e a intervenção de Augusto Joaquim foram determinantes para o nascimento e o progresso da Obra de M.G. Llansol a partir da ida para Lovaina. O diário Finita dá já bastante conta desta disponibilidade do Augusto, primeiro leitor dos seus textos e, no início, frequentemente escrevente a quatro mãos com a «Gabi», em algumas páginas de caderno ou em bases de copos de cerveja, nos cafés de Lovaina. Mas a interacção não se limita à leitura dos textos que Gabriela vai escrevendo (um ritual – mas com consequências efectivas – evocado pelo próprio Augusto no início do posfácio a Causa Amante); as conversas entre ambos são determinantes para o andamento e a orientação de certos livros, a ponto de Llansol se queixar do perigo que constitui para a sua própria autonomia a inteligência reverberante do Augusto, reconhecendo também os estímulos que lhe vêm dessa troca verdadeira: «Sempre Augusto foi para mim o terreno da explicação e da consistência» (Caderno 1.13, p. 20, 9.2.82). Augusto é o parceiro que inventa e lhe fornece conceitos (Entresser, Isso, Esse, Sebastião, o Dom) e títulos (O Litoral do Mundo), e lhe dá a ler obras fundamentais (da área científica ou pedagógica, mas também o I Ching: vd. Livro de Horas III, 5.4.79). Como Llansol dirá, ela e o Augusto são a matriz dessa realidade humana a que chama «ambo», e que uma sua frase resume: «fomos coincidentes, e fomos viajantes para praias próprias» (Livro de Horas I, p. 125).


Desenhos de Augusto Joaquim