14.12.14

O FUTURO É UMA ORIGEM
A conferência sobre «Llansol: o texto que vem do futuro»


A última sessão da «Letra E» em 2014 teve lugar no passado sábado, desta vez no Museu Ferreira de Castro, em Sintra. João Barrento procurou mostrar, a partir de uma passagem de Parasceve. Puzzles e ironias, e recorrendo depois a outras, também inéditas, de que modo este texto vem do futuro, usando o passado e escrevendo-se no presente, e como ele vive do paradoxo, de uma «complexidade transparente», e permanentemente nos foge. Damos conta de algumas ideias mais relevantes trazidas por esta conferência, e disponibilizamos no fim a leitura gravada que resume, com fragmentos dos cadernos manuscritos, e outros, a visão que Llansol tem do texto que vai escrevendo.
Começando pelo título da conferência...
«Llansol gostava de usar a palavra Texto para o que habitualmente se designa de Obra de um autor . Faz todo o sentido, até para o tema que vamos tratar, como se verá, uma vez que texto aponta para algo em processo e em progresso, é tecitura, bordado, trama infinita; enquanto que Obra traz ecos de operacionalidade e trabalho acabado – e se lhe juntarmos a palavra 'autor', também de autoridade!
Este título levará muitos a pensar: um texto que vem do futuro só pode ser um texto utópico. E toda a Obra de Maria Gabriela Llansol será então pura utopia. Sim e não, sobretudo não. Em tempos, resolvi o problema substituindo o conceito de utopia (= o não-lugar) pelo de ucronia (= o não-tempo, a anulação dos tempos). E acrescentava que essa ucronia, essa escrita fora da narratividade sequencial e do tempo cronológico, tem um propósito eudemonista, ou seja, a sua intenção é a de construir hipóteses de vida em que o objectivo último é o da felicidade humana, que o mesmo é dizer: existências mais amplas, para além das noções correntes do humano. Para entendermos isto, e o texto que o propõe e exprime, temos de derrubar muitas barreiras.»
«Para entender um texto que vem do futuro – i. é, que fala de realidades soterradas que só um futuro desvenda, que dá a ver o que está à vista mas poucos vêem, e por isso ainda não será de agora –, para isso teremos de deixar para trás duas atitudes perante a leitura, duas expectativas quase sempre presentes: a do realismo e a da ingenuidade.
a) Esquecendo os realismos, libertamo-nos para poder compreender melhor uma escrita que se emancipou, ela também, das coordenadas habituais de tempo e espaço e se abre livremente a todas as realidades e possibilidades, melhor: a todas as possibilidades do real (que não é sinónimo de realidade), sem com isso querer alimentar fantasias inconsequentes, formulando antes hipóteses para um projecto mais humano do Humano. Neste sentido, ela é uma escrita da potência.
b) E isto implica que teremos de ir para a leitura sem expectativas ingénuas de tudo 'compreender' (a pretensão de tudo com-preender encerra-nos adentro de limites estreitos, as mais das vezes meramente lógicos; a disponibilidade para o novo abre horizontes sucessivos). Este texto é, ao mesmo tempo, complexo e transparente, e o seu 'pacto de inconforto' exige de quem lê, não necessariamente grande erudição ou preparação filosófica, mas sentidos despertos e aquela disponibilidade para o novo que não se confunde com a novidade.
Por outro lado, falar de um texto que vem do futuro exige necessariamente uma paragem para reflectir sobre os modos como o tempo e a memória (que é do passado e do futuro) nele se configuram. Sobretudo porque sabemos como nele os tempos se confundem e se anulam. Aí, de facto, o futuro é uma origem (e esta é uma ideia a reter), ou, como Llansol escreve em algumas páginas de Onde Vais, Drama-poesia? essenciais para esta questão, uma 'matriz'».
«Regresso à ideia de há pouco: o futuro é uma origem, um estado (recuperável, mas distante) que o presente da civilização tende a esquecer, e que o texto recupera através de uma 'memória do esquecimento', a única criativa, diz Llansol. E essa origem, que a escrita busca trazer ao olhar, ao pensamento e aos sentidos, está no corpo que escreve – e depois, naquele que lê: e este é um pressuposto fundamental da questão, porque se o leitor não se aperceber da 'outridade' deste texto, do que lhe subjaz e aponta para além dele, então não valeu a pena ele ser escrito.
Que quer isto dizer? Pode querer dizer (como já sugeri) que teremos de rever as noções correntes de tempo (que não é cronológico e sequencial), de memória (que não é matéria a preservar, mas a decepar e transformar) e de futuro (que não é o que nos é prometido pelo mundo e pelos poderes como 'qualidade de vida' ou 'crescimento', mas o que ficou pelo caminho e precisa de ser reactivado – a 'restante vida', dirá Llansol)».
«Nesta escrita todo o tempo, todos os tempos, se reduzem (ou amplificam) à intensidade da sua vivência no presente – que aqui é o Lugar aonde vêm dar todos os passados, sob a forma de futuro. O futuro, no sentido corrente, é conjectura ou desejo, nostalgia, o que está fora do tempo experienciável pelo corpo. O futuro de Llansol é já agora, e o seu projecto de vida, vida escrita, está já inteiro no texto que vai escrevendo: ele é feito dos restos do Humano que ficaram por desabrochar, na grande História, na biografia e na vida comum. Esta é a forma do tempo que conta no texto de Llansol, que já designei como 'a memória selvagem de futuros possíveis e desejados'. Nesse contexto distingo três nomes e três momentos na Obra da autora, para essa mesma realidade móvel, virtual, dinâmica e projectiva a que agora chamo o futuro de onde vem o texto: no início, na fase das trilogias (os anos setenta e oitenta), esse espaço-tempo do reverso da História recebe o nome de Restante Vida (que não é a vida que nos resta viver, mas precisamente aquela que ainda não vivemos, 'um resto que tem a potência de agir', disse um dia a Maria Gabriela – mas nem sempre age); depois, a meio da vida e da Obra, nasce o espaço-tempo meta-histórico do espaço edénico (meta-histórico mas não metafísico nem mítico, porque se trata de um 'espaço edénico sem Éden'); e na última fase, a de livros como Amigo e Amiga e sobretudo Os Cantores de Leitura, a escrita transcende o quotidiano e transcende-se, na tentativa de captar o murmúrio do Ser e entrar no tempo do Há – simplificando, definiria o (um conceito da ontologia de Heidegger e da filosofia do tempo de Levinas) como um futuro que vem da origem do Ser e da infância, e que seria a forma mais radical de estar-aí, em estado de total des-possessão e na plena posse da faculdade do 'dom poético', que permite ver já o mundo como coisa estética, e não fonte e palco de conflitos». 
«Se o texto de M. G. Llansol vem do futuro – e parece que assim é, a acreditar no que a sua escrevente por mais de uma vez diz –, o bom senso diz-nos que então ele terá de ser um desconhecido para nós, para qualquer um de nós, no presente em que vivemos e o lemos. E de facto assim é – ou parece ser.
Por mais que se leia, este texto foge-nos. E, ao mesmo tempo, estamos permanentemente a dar connosco nele, nas suas cenas mais ou menos fulgorizadas, nas suas situações quotidianas, nas evidências do mundo que não vemos e que ele nos põe diante dos olhos, na humanidade mais humana das suas figuras. É este o aparente paradoxo de que estamos a falar: este texto é o mais acabado exemplo do para-doxon, isto é, daquilo que passa ao lado, ou está fora da doxa, da opinião comum, do expectável, da mera superfície das coisas. Curiosamente, também poderíamos dizer que este texto vem de um futuro que sempre esteve e estará aí, mas que a maioria, com os sentidos embotados, pouco despertos ou adormecidos pelo ruído do mundo não vê, não sente, não intui. Porque a rotina e o hábito são mais fortes e geram uma inércia natural, que os aparelhos ideológicos que nos regem as vidas ainda intensificam mais. Para vermos o que este texto traz em si de futuro, que é afinal o que há de mais humano, precisamos de nos despir – de hábitos de leitura e de vida, de peconceitos, de uma visão antropocêntrica (limitada) do mundo, de uma inconsciente (mas não natural) sujeição a hierarquias.
Este texto vem do futuro porque, como ele próprio diz, 'nada ainda modificou o mundo', a História está em aberto (e as mais das vezes em regressão) e por isso precisamos de ser capazes de 'conceber um mundo humano que aqui viva, nestas paragens onde não há raízes...'
Estes são, para quem vem lendo Llansol, quase lugares-comuns (mas os lugares-comuns são também os lugares que insistentemente nos vêm lembrar algumas verdades) que temos de interrogar, como tantas vezes fazíamos antes, com a Maria Gabriela, ao perguntarmos: que quer o texto dizer quando diz...? Por exemplo: o que é isso de um mundo humano, ou mais humano? Por que foram 'estas paragens' (as nossas) amputadoras ou amputadas de raízes? E que raízes, vindas de que húmus do tempo? Dizer que 'nada ainda modificou o mundo' significa que continuamos à espera do futuro? Parece que sim.»
«Para concluir: o texto que vem do futuro é ainda, no caso de Llansol, o que o seu espólio – que estamos a editar – tem para nos revelar. De facto, há nos Livros de Horas que vão nascendo desse legado um duplo movimento: eles são constituídos por textos de um passado (os que nos foram deixados e nunca antes viram a luz dos olhos dos leitores), mas que estavam destinados a ser obra futura (póstuma) de quem os escreveu. Também neste sentido o texto mais actual de M. G. Llansol era matéria de futuro. Nos cadernos manuscritos do espólio, nas suas dezenas de milhar de páginas escritas ao fio dos dias e do corpo, está o livro por vir de Maria Gabriela Llansol.»
«É desse livro ainda desconhecido que provém a maior parte das passagens que vamos ouvir [no vídeo em baixo], em que a autora reflecte, muitas vezes pelo caminho das imagens, sobre a natureza, a singularidade e as supresas deste seu Texto infinito e desconhecido que ainda preencherá por muito tempo o futuro dos seus leitores. E a esses fragmentos inéditos juntou-se um texto de auto-reflexão (já publicado em 2011 no livro Sobreimpressões. Llansol e as Dobras da História), em que a Maria Gabriela nomeia esse lugar futuro, chamando-lhe 'o umbigo de Parasceve'. Aí se cruzam, nessa fórmula que expressa a visão de Llansol no início do novo milénio – estamos em 2002 –, os dois fios que fui seguindo para tratar este tema: o da origem e o da promessa ('parasceve' significa, no judaísmo, a véspera da festa, a promessa da aleluia e da ressurreição). Entendemos agora melhor que o futuro que o texto procura e oferece mais não é, provavelmente, do que qualquer coisa como a infância do mundo.»

 

3.12.14

LLANSOL: O TEXTO QUE VEM DO FUTURO?

No próximo sábado, 13 de Dezembro, às 16 horas, a «Letra E» do Espaço Llansol desloca-se para o Museu Ferreira de Castro, no centro histórico de Sintra (entre o Turismo e o Hotel Lawrence's, a caminho da Quinta da Regaleira), com uma conferência de João Barrento que encerrará as actividades deste ano revisitando e questionando a Obra de Maria Gabriela Llansol para a ler à luz do que nela remete para um futuro, ou dele provém. A conferência dirige-se a todos os que leram os seus livros, mas também àqueles que eventualmente os conheçam menos. E procurará dar resposta a algumas das questões colocadas no resumo abaixo.
Venham e tragam amigos! E não se esqueçam: desta vez não será no Espaço Llansol, mas no MUSEU FERREIRA DE CASTRO!


Para melhor orientação em Sintra, deixamos aqui o mapa de localização e fotos da entrada do Museu:


24.11.14

83 ANOS DEPOIS: «UM ANIMAL DE LUZ»

Retomamos, em memória da Maria Gabriela, que faria hoje 83 anos, uma secção deste blogue que iniciámos em 2007, ainda com ela, quando se disponibilizou para divulgar aqui alguma da sua escrita inédita, então totalmente desconhecida. O «elo da escrita e da leitura», para ela razão de ser de toda uma vida, continua a ser para todos os que hoje lêem os seus textos, os conhecidos e os muitos ainda por conhecer, uma ponte maior e uma fonte inesgotável de luz.
O fragmento de hoje vai bem com essa luminosidade do seu ser e da sua escrita.


(Clique na imagem para aumentar)


23.11.14

LLANSOL NA «ETERNA BIBLIOTECA»

Nos próximos dias 28 (no Centro Cultural Olga Cadaval) e 29 de Novembro (em diversos lugares de Sintra) decorre a 12ª edição do projecto «ETerna Biblioteca», uma iniciativa da Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra voltada para as bibliotecas escolares e os professores e formadores do concelho de Sintra.


O Espaço Llansol estará presente, no primeiro dia através de uma intervenção de João Barrento (às 11.30 h: vd. sinopse abaixo), e no sábado de manhã recebendo os interessados numa visita-workshop ao próprio Espaço Llansol e ao espólio de Maria Gabriela Llansol. 

(Clique na imagem para aumentar)

Deixamos aqui o programa para os eventuais interessados.





17.11.14

«O OFÍCIO DE CRESCER»
A Letra E recebe a infância de Maria Gabriela Llansol




No recomeço regressámos às origens. Sábado à tarde, na Letra E, vibraram ecos, imagens, objectos, escrita, que trouxeram até nós a infância de Llansol, alguns dos seus lugares e momentos vários em que o olhar retrospectivo a revive e pensa, para transformar em escrita «circunstâncias ou factos que funcionavam como mitos em gaveta própria» (Caderno 1.53, p. 169)


Hélia Correia falou da sua imagem desta infância escrita, libertando-a de qualquer réstia de sentimentalismo ou de simples biografismo. As suas referências maiores, que documentou com leituras de Um Beijo Dado Mais Tarde e Amar Um Cão, foram de ordem figural: a Témia presente na estatueta a que a Maria Gabriela um dia atribuiu esse nome, e Jade, que na infância era «o cão do futuro». Estas duas figuras representam, no texto, duas ordens de ideias que sustentam grande parte da escrita de Llansol: a recusa da impostura da língua e a afirmação de uma vontade própria de todo o Vivo.
João Barrento lembrou e mostrou, a abrir, a última e bela edição de Llansol em francês, acabada de chegar, e remeteu para o caderno que acompanhou a sessão – «O ofício de crescer» - Lugares e tempos de Llansol (I - A infância, 1931-1942) –, e que será o primeiro de uma série que percorrerá todos os tempos e lugares de M. G. Llansol. E apresentou brevemente o projecto de filme Seguindo o Olhar, que data de 2009, e do qual Daniel Ribeiro Duarte mostrou depois algumas sequências, filmadas em dois dos lugares da infância de Llansol: Alpedrinha e Vila Pouca de Aguiar.


A pequena «maquete do filme», como lhe chamou o Daniel, surpreendeu pelo modo como capta realidades que se amplificam, a partir de pormenores, em planos longos, como o tempo da infância: o quintal, o tanque e a roda da nora em Vila Pouca de Aguiar, a oliveira, os gatos, a Fonte das Sete Bicas, a estação abandonada de Alpedrinha, ou a magia da Serra da Gardunha sempre em fundo (que também a Hélia evocou): «Passei parte da minha infância sentada no degrau de uma porta só a receber a noite: a Serra da Gardunha coroava o meu horizonte...» (Avulso 0133).

O projecto-guião do filme Seguindo o Olhar, e as «tabelas de filmagens»
Nas sequências resgatadas pelo Daniel a partir do material filmado nessas nossas andanças de 2009, tudo vive de pequenos vestígios encontrados, atmosferas, seres, que os próprios textos (e algumas fotografias do arquivo) de M. G. Llansol nos sugeriram, discreta ou explicitamente.
Alguns desses textos ficam na montagem que se segue, o resto pode ser lido no Caderno da Letra E feito para este dia.


11.11.14

LLANSOL EM FRANÇA – A ONDA CRESCE


São já quatro, com este Où vas-tu, drame-poésie?, os livros de Maria Gabriela Llansol que nos últimos anos têm chegado aos leitores franceses pela mão sensível e dedicada dos editores de Pagine d'Arte, Matteo Bianchi e Carolina Leite. O cuidado posto em cada edição é de um inexcedível rigor e atenção, o complemento artístico de cada volume transforma cada livro num objecto precioso. Desta vez com a colaboração da artista italiana Giulia Napoleone, de quem se incluem três desenhos inspirados pela leitura de Llansol. 


A tradução é de Guida Marques (que já tinha traduzido três textos curtos – O Raio sobre o Lápis, Hölder de Hölderlin e Cantileno – para as Éditions Les Arêtes em 2010) e agora levou a bom porto a tarefa iniciada há anos com a publicação de partes deste livro na revista francesa Action Restreinte (entre 2004 e 2006). O livro, um dos mais exigentes de Llansol, conta ainda com um elucidativo posfácio de Maria Etelvina Santos, que assim resume a sua problemática de fundo:


7.11.14

ECOS DE LLANSOL EM ESPANHA

A publicação espanhola Solidaridad Digital publica hoje um artigo sobre a edição de «Geografia de Rebeldes» naquele pais, de que já demos notícia. 


Pode ler-se o que escreve a jornalista Esther Peñas nessa págia (e aceder ainda a um video dos Madredeus) clicando neste link:
http://www.solidaridaddigital.com/SolidaridadDigital/Noticias/Cultura%20y%20ocio/DetalleNoticia.aspx?id=19275

28.10.14

«LETRA E»
As actividades em Novembro e Dezembro

As actividades da «Letra E» do Espaço Llansol prosseguem, com sessões em 15 de Novembro e 13 de Dezembro (esta última no Auditório do Museu Ferreira de Castro, em Sintra, inaugurando uma «descentralização» que poderá repetir-se no futuro).

 Em Novembro abrimos um ciclo («Lugares e tempos de Llansol») que terá continuidade em 2015, no qual iremos revisitando os lugares significativos da biografia, também literária, de M. G. Llansol. Começamos com os lugares da infância, passaremos pela adolescência e juventude em Lisboa, prosseguiremos para os vários lugares do exílio da Bélgica e terminaremos em Colares e Sintra. Sempre com leitura de textos, na medida do possível inéditos, sobre esses lugares e fases de vida. Para o primeiro, recuperamos algumas sequências do projecto de filme («Seguindo o Olhar») que iniciámos em 2011, com Daniel Ribeiro Duarte, que nos trará alguns planos das filmagens realizadas em Alpedrinha e Vila Pouca de Aguiar. E haverá, como habitualmente, um caderno com textos e muitas fotografias de Llansol na infância.
Na sessão de 13 de Dezembro, no Museu Ferreira de Castro, João Barrento traçará o arco que cobre toda a Obra de Llansol, para mostrar como ela, vindo quase toda do passado, de facto é uma obra «pré-póstuma», que ecoa um futuro.

16.10.14

LLANSOL SÓCIA HONORÁRIA DA
ASSOCIAÇÃO DE DEFESA DO PATRIMÓNIO DE SINTRA

Na sua última Assembleia Geral, e por iniciativa da sua Presidente da Direcção, Adriana Jones, a ADPS–Associação de Defesa do Património de Sintra distinguiu Maria Gabriela Llansol, a título póstumo, como sócia honorária daquela Associação.


Lembramos que já antes, em 2009, a Câmara Municipal de Sintra, também por sugestão de Adriana Jones, colocou junto do grande plátano da Volta do Duche, que no livro Parasceve é uma figura com o nome de «Grande Maior», uma placa evocativa.

14.10.14

«M. G. LLANSOL: 
O ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO»
O catálogo da exposição


Foi apresentado no sábado em Guimarães o catálogo da exposição de obras de Ilda David', com fotografias de Duarte Belo e objectos do acervo do Espaço Llansol, que pôde ser vista no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) de 27 de Julho até ontem. O catálogo, organizado pelo director artístico do CIAJG, Nuno Faria, numa edição da Oficina (produtor da exposição) e da editora Documenta, reproduz os ambientes da exposição e o processo de trabalho de Ilda David', e contém textos de Maria Gabriela Llansol (de Lisboaleipzig, Finita, O Senhor de Herbais e dos Livros de Horas), de João Barrento, Maria Etelvina Santos e Nuno Faria.
No lançamento do catálogo, que aconteceu no próprio espaço da exposição, intervieram, para além dos dois artistas, que deixaram depoimentos pessoais sobre a sua relação com o universo Llansol e com a própria autora, os autores dos textos do catálogo, que lançaram diferentes olhares retrospectivos sobre a exposição e os seus possíveis significados.
Nuno Faria situou a exposição e a sua concepção como proposta de um voo sobre diferentes zonas temporais:
« A montagem é a linguagem da arte contemporânea. É uma linguagem performativa, que se cumpre, que se corporaliza, que devém. Propicia um movimento que tem o poder de transformar. Fulgoriza a realidade, tal como a obra de Llansol, retirando o peso espúrio que as palavras e as coisas carregam.
Tratava-se de conceber um espaço em suspensão, de propor um voo, mais do que uma caminhada, de fazer prevalecer a dimensão temporal sobre a dimensão espacial na percepção do espectador.
Verter o espaço fundado pela escrita em espaço habitado e atravessado por corpos e por fantasmas, o negativo do corpo, num jogo de presença/ausência, metonímico da própria experiência vital em que se constitui o contacto com a escrita llansoliana, verdadeira experiência dos limites.
Que outra obra mais intensamente resignifica, reinveste, anima os objectos? 
O lugar fundado pelo museu é dos mais delirantes que possamos imaginar, porque para além de nele se encontrarem objectos de lugares distantes e tempos dissonantes, que convencionamos ou aceitamos dar como nossos contemporâneos, ali reconhecemos, encontramos por vezes, os gestos dos nossos antepassados».  
João Barrento tomou a exposição como um primeiro passo para lançar os fundamentos de algo que o Espaço Llansol procurará levar a cabo futuramente: a construção de um grande ATLAS-LLANSOL (por enquanto ainda um proto-atlas), que nesta exposição pode ter tido um ponto de partida, ainda parcial, mas importante como indiciador de um sentido possível para aquela construção.
Clarificou a noção de «Atlas» (a partir de Aby Warburg, mas indo além dele pela mão de Llansol, que em alguns cadernos de escrita já pensou o seu «atlas», e por vezes lhe dá mesmo esse nome!) no sentido de um mapa interactivo e rizomático – escritural, visual, figural, mental, espacial, afectivo – que, mais do que fazer convergir conjuntos de imagens para descobrir afinidades escondidas, con-figura paisagens e, dentro delas, linhagens, para mostrar «muita parecença, nenhuma semelhança» (Caderno 1.52, p. 190).
A partir de um organigrama completo de todo o acervo e do mapa figural de Llansol, fez uma primeira abordagem a partir de uma apresentação visual, em que convocou, num primeiro levantamento, o universo de escrita (os livros de M. G. Llansol – mas não necessariamente os títulos particulares desses livros) e todos os sectores do arquivo-Llansol pertinentes para a futura construção global desse Atlas-Llansol.

Por seu lado, Maria Etelvina Santos, com vista a evidenciar a experiência do outrora no agora, do improvável e do diverso, que esta exposição nos propõe a partir da Obra de Llansol, sintetizou  alguns procedimentos de leitura a partir de noções (presentes em Walter Benjamin) que facilmente dialogam com outras de M.G. Llansol, e que parecem fazer parte de uma mesma tentativa de compreensão do mundo. Partindo da concepção de espaço-tempo como uma entidade conjunta e tetradimensional, com os seus diversos pontos ou acontecimentos, e da noção de instante como densidade e não durabilidade, aproximamo-nos das noções llansolianas de «lugar», de «imagem-figura», de «vislumbre» ou de «fulgor» (que estão na base dos seus «encontros de confrontação») e que, por sua vez, dialogam (como uma alma crescendo, diria Llansol) com as noções benjaminianas de «imagem dialéctica», de «constelação», de «origem» ou mesmo de «experiência».
O encontro de confrontação que esta exposição põe sob os nossos olhos e nos faz viver, dá-se à leitura como uma «icnologia» (um mapa de vestígios, mais do que um simples conjunto de ícones) de pontos luminosos que estabelecem constelações de semelhantes na diferença, amplificando, assim, o nosso modo de experimentar o mundo.
O catálogo da exposição está já disponível nas livrarias.