2.10.14

AS SEXTAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA

16 de Fevereiro de 2005
Início do próximo livro [Os Cantores de Leitura]

... e uma interrogação ocorre-me: como religar os textos que são fragmentos,
ou estilhaços coerentes de complexas naturezas?
______ Como fizeste no Curso de Silêncio de 2004:
puxar uma longa corda que, neste caso, envolve todos os cantores de leitura
________ até chegar ao fim do todo.
(M. G. Llansol, caderno 1.70, 105-106)



A «Vila Alda», uma casa sintrense que acolhe manifestações culturais e já abrigou o Museu do Carro Eléctrico (que sai ainda hoje, nos meses de Verão, do largo adjacente para a Praia das Maçãs), é um lugar sui generis, que se revelou ser a um tempo adequado e estranho para as várias formas de intervenção e exposição contempladas no programa destas Sextas Jornadas. Mas o que acabou por se impor foi a ideia de um espaço adequado ao texto de Llansol, pelas particularidades da sua topografia interior e pela mobilidade, diferente da habitual, a que obriga quem intervém nele e que vem para assistir. A resistência dos espaços acabou, afinal, por estimular a nossa capacidade de invenção e suscitar movimentações que provaram, como no texto de Llansol, que o que está em cima é como o que está em baixo, que o que está distante vem ter com o que está perto, e vice-versa, que nada é fixo e tudo é móvel, que subir e descer são movimentos complementares. Como acontece com a escrita, a criação, os modos de inserção dos corpos no espaço e no tempo: a paradoxal lei que os rege a todos é a do interminável fluxo fragmentário que sustenta e desestabiliza a nossa passagem pelo mundo, e as passagens entre mundos. Foi talvez esta a ideia, tão llansoliana, que mais claramente atravessou as intervenções e discussões destas Sextas Jornadas: a de que aquilo a que chamamos mundo, longe de ser fixável e definível nos seus contornos, é uma matéria em trânsito, reino de passagens, arquipélago de aparições fragmentárias.

 À entrada: livros, cadernos, CDs, postais... e a habitual curiosidade...

Em cima, num espaço expositivo entre-aberto e parcialmente fechado que permitia a deambulação, a paragem e a contemplação, podia ver-se uma exposição dupla que, ela também, vivia da complementaridade: «ENCONTRO», com duas componentes: «Restos», de Teresa Projecto (peças em barro, malha, frutos, terra e madeira), e «Carta sobre a névoa», de Catarina Domingues (imagens – desenho e fotografia, desenho sobre fotografia, com impressão a jacto de tinta). 

Teresa Projecto e Catarina Domingues captadas pela fotógrafa Teresa Huertas
(© Teresa Huertas)

Cada uma das jovens artistas, ambas estudantes de pós-graduação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, sintetizou num texto breve os fios que ligam os trabalhos feitos para estas Jornadas ao corpo de vida e escrita que é o texto de Maria Gabriela Llansol. As imagens da exposição e de algumas das suas peças mostram/dizem o resto – que é o que mais importa. Assim:

Teresa Projecto:

Catarina Domingues:


 Teresa Projecto, Catarina Domingues e Tomás Maia: conversa sobre as exposições
«Restos» e «Carta sobre a névoa»



*

Em baixo, e ocupando todo um canto da sala, olhando permanentemente para quem falava e para quem ouvia, uma centena dos quase mil papéis avulsos do espólio de Maria Gabriela Llansol, ordenados segundo a disposição que acabaram por encontrar nas dez secções do Livro de Horas, o quarto, que apresentámos nestas Jornadas.



O livro (A Palavra Imediata, ed. Assírio & Alvim) encontrou em Isabel Santiago uma legente que fez dele uma leitura que se deixou atravessar pela sua matéria, leitura iluminada e iluminante, explorando exaustivamente a problemática do fragmento e dos fragmentos aí reunidos, que funcionaram como catalizador para um pensamento que os amplificou de forma absolutamente «siderante», como do próprio texto de Llansol disse um dia Eduardo Lourenço.
Na mesma mesa, moderada por Helena Vieira, João Barrento apresentou a segunda novidade editorial das Jornadas – o livro Trans-dizer. Llansol tradutora, traduzida, trans-criada, edição da Mariposa Azual, oitavo volume da colecção «Rio da Escrita» –, sintetizando a amplitude das práticas de «tradução» associadas à escrita e às transposições, para diversas línguas e linguagens artísticas, dos textos de M. G. Llansol, matéria discutida nas Quintas Jornadas, em 2013.

 Isabel Santiago, Helena Vieira, João Barrento

Alguns dos papéis expostos em baixo, juntamente com outras passagens de livros, diários e agendas inéditos, encontram-se reproduzidos no caderno feito para esta ocasião, O Império dos Fragmentos. Llansol sobre a escrita fragmentária, que aqui colocamos à disposição de todos os que não puderam vir:


*

Estas Jornadas foram particularmente ricas em intrervenções artísticas, de criadores jovens e participantes novos nestes nossos Encontros anuais. Continuemos então, neste resumo, pela senda das artes.
Tomás Maia e Rita Roberto apresentaram um filme em duas partes – CLAMOR – I: De lá | II: Aqui, obra originalmente apresentada em dois espaços, a Galeria Quadrum e a cisterna da Faculdade de Belas Artes, em Lisboa – onde respira a matéria original do Ser, matéria sem matéria que é a de uma memória da simbiose primordial entre espaço e tempo, a do espanto perante o irromper de «fenómenos» e vozes (as do universo e a do corpo), a da nítida indistinção, como no espaço do fragmento, entre o lá e o aqui, o centro e as periferias, a presença e a ausência, o dentro e o fora. No livro que apresenta o filme e o contém em DVD (ed. Documenta, 2014), os autores incluem, nas «Notas» que em parte o constituem, um fragmento de Maria Gabriela Llansol que remete para a centralidade do «caminho» e para a essência de ser (e de escrever/criar) como movimento «espantoso» e «clamoroso» (no sentido original dos termos) de uma sempre repetida e irrepetível origem:
Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho. De um lado a outro do percurso, não sei o que existe, o caminho caminha,
eu deslumbro-me quando o tempo se suspende
e me permite contemplar o espaço sem tempo.
(Onde Vais, Drama-poesia?)
Pode ver-se a seguir uma sequência de planos dos dois filmes:



Por seu lado, Lucas Parente, um jovem cineasta do Rio de Janeiro actualmente em Lisboa, apresentou, expressamente feito para estas Jornadas, um «ensaio fílmico» feito a partir da inesperada imagem do «pato fúnebre» que se levanta do lago no Jardim da Estrela, e que Llansol fixa num pequeno fragmento de escrita avulsa (estas duas folhinhas de bloco de notas).


Partindo dele, mas não se ficando por ele, O pato da morte de Lucas Parente, numa «curta» de 12 minutos, ultrapassando o simples biografismo que o Jardim da Estrela poderia sugerir, revisita sobretudo motivos recorrentes da escrita e do universo llansolianos: o movimento metamórfico das coisas (folhas, formas, seres), o cruzamento de realidades, a multiplicidade de referentes culturais que povoa também a escrita de Llansol, o lugar significante das cores nela, e ainda a música de um compositor com quem convivia: o Olivier Messiaen do Catalogue des oiseaux (Lucas Parente usa o som correspondente ao loriot francês, a que em português chamamos oriolo)... Tudo isso em permanente diálogo, que o filme incorpora, entre textos de Llansol e a reflexão expressa do autor do video.
Um excerto do filme pode ver-se clicando no seguinte link: https://vimeo.com/107762135

*

Não é a primeira vez que a música está presente nas Jornadas Llansolianas de Sintra. Na verdade, desde as Segundas Jornadas, em 2010, que ela nunca mais nos deixou, ao vivo e em gravação, com o compositor João Madureira, a intérprete Cátia Sá Pereira, o ensemble do Festival Cantabile, e a pianista Gilda Oswaldo Cruz, que este ano regressou às nossas Jornadas, depois de já ter traçado pontes e linhas cruzadas entre o texto de Llansol e a música em 2010, ao piano do grande palco do Centro Cultural Olga Cadaval. 
 Gilda Oswaldo Cruz

Desta vez, Gilda Oswaldo Cruz falou de «Configurações musicais na prosa de Llansol» e trouxe exemplos musicais que vão da música grega antiga a Schönberg e Anton Webern, mostrando como a «partitura dissonante» do texto de M. G. Llansol (com ênfase nesse livro tão musical que é Os Cantores de Leitura) revela as mais surpreendentes afinidades com a escrita atonal de compositores do século XX como Arnold Schönberg, Webern ou György Ligeti. Organizadas, espacial e temporalmente, de forma dinâmica, não sequencial, segundo um princípio articulatório de intensidades fragmentadas, a escrita de Llansol e a música atonal remeterão, segundo a pianista e musicóloga, para um modelo iminentemente fractal, como as imagens que mostrou evidenciaram. No video que se segue podem ouvir-se dois dos exemplos trazidos, de música grega antiga e de A. Webern, sobre imagens de fractais:


*

De intervenções faladas se fazem, naturalmente (e as mais das vezes exclusivamente) os Encontros literários semelhantes às nossas Jornadas. Também as houve, como não poderia deixar de ser. E o começo dos três «Painéis» do programa não poderia ter sido mais auspicioso para o que se seguiria, no sábado e no domingo: o escritor Gonçalo M. Tavares, com a sua especial capacidade de pôr à vista o processo da escrita e o «pensamento motriz» que lhe subjaz, lançou a discussão sobre o tema do fragmento e da escrita fragmentária de forma viva e sensível, a partir da sua articulação, que foi comentando, com as imagens do fogo – que consome –, da floresta – que esconde e enreda – e da clareira – que ilumina e delimita.
Estavam, assim, esboçados pontos de contacto com as duas intervenções seguintes, de Tomás Maia e João Barrento, em que a problemática do fragmento foi abordada à luz de noções complementares e antitéticas como limiar e fronteira, parte e todo, substância e linguagem, pleno e vazio – o Nada que não é negação, nos exemplos trazidos por Tomás Maia como balizas da sua intervenção: o «livro sobre nada» que Flaubert quis escrever (e que resultaria nessa espécie de anti-enciclopédia fragmentária com o título Bouvard e Pécuchet) e os Textos para Nada de Samuel Beckett. No meio, e antes dos dois, um momento seminal e presente em várias das intervenções, incontornável referência, que é o primeiro Romantismo alemão e o lugar do fragmento nele – e também as possíveis ligações do fragmentarismo llansoliano a essa e outras fontes.
João Barrento explorou, a abrir a tarde, a relação (aporética, e por isso viva e vibrante) entre o arquivo, tal como Derrida o entende em Mal d'archive. Une impréssion freudienne (ou, na versão inglesa, que melhor lhe servia: Archive Fever: A Freudian Impression), e uma ideia muito particular de «arquivo» como universo fragmentário sem a lei do arconte, que subjaz aos modos de escrita e de vida de M. G. Llansol. O desenvolvimento levou à questão de saber em que medida um arquivo como o de Llansol, um imenso somatório de fragmentos de escrita, de imagens, de sons, de objectos, de mensagens, é hoje (foi sempre?) o grande espelho dessa exigência fragmentária das práticas de escrita da autora, animadas, como o arquivo, por um duplo princípio de autonomia (intensidade) e mútua iluminação (vontade relacional). A escrita de Maria Gabriela Llansol e o trabalho actual sobre o seu espólio seriam, assim, um laboratório de possibilidades em que cada peça/fragmento é uma mónada, e o conjunto (que ainda não descortinamos plenamente) uma constelação aberta.

Gonçalo M. Tavares, Tomás Maia, João Barrento


A manhã de domingo trouxe-nos ainda duas intervenções reveladoras e estimulantes sobre a escrita fragmentária de Llansol, duas propostas de leitura a partir de ângulos e de obras diferentes e complementares: os diários (incluindo os Livros de Horas póstumos) e as «linhagens» possíveis dessa escrita; e a reflexão sobre a escrita de Llansol e as estéticas que a atravessam e alimentam (particularmente visíveis em O Senhor de Herbais), com a consequente fuga a uma qualquer «poética» do fragmento nela. 
Na primeira comunicação, Isabel Cristina Mateus (professora da Universidade do Minho) inseriu os diários e os Livros de Horas numa tradição geralmente ignorada, mas a que será importante dar mais atenção, que é a da escrita fragmentária pré-moderna em Portugal, com os exemplos de Fialho de Almeida e Raul Brandão, e ainda do Livro do Desassossego, no seu registo onírico-biográfico ainda não modernista (simbolista e decadente) e já pré-pós-moderno.
Na segunda intervenção, Elisabete Marques (recentemente doutorada com uma tese sobre Maurice Blanchot e S. Beckett) seguiu um caminho mais analítico, fazendo um percurso interpretativo do qual resultou uma tese de fundo pertinente para o aprofundamento do que se chama comumente «a textualidade Llansol» – a de que existe uma relação determinante entre a imagem da cena fulgor llansoliana e a necessidade do fragmentário nesta escrita. E ainda, subjacente a um livro como O Senhor de Herbais, uma ideia que poderá ajudar a ler e entender de forma mais adequada o texto de Llansol: a de que nele se persegue uma estética (melhor, várias), que aí se alia naturalmente a uma ética, mas que dificilmente se poderá lê-lo à luz de uma qualquer poética, que não comporta essa dimensão ética (será talvez também por isto que Llansol dificilmente se poderá inserir numa genealogia modernista pura e dura).

Isabel Cristina Mateus, Maria Etelvina Santos, Elisabete Marques

*

O encerramento das Jornadas, como vem sendo habitual, fez-se com uma leitura gravada de textos de Maria Gabriela Llansol, desta vez uma selecção de fragmentos do Livro de Horas IV, lidos por Maria Etelvina Santos, Teresa Projecto, Helena Alves e Cândida Pargana, as quatro vozes femininas que neste momento se podem ouvir a partir do interior do Espaço Llansol, por onde semana a semana respiram o ar da Maria Gabriela e dão o seu contributo para a organização e classificação do «desmundo» fragmentário do arquivo que deixou. Deixamos aqui uma selecção dessa leitura:




1.10.14

LLANSOL NO FESTIVAL LITERÁRIO 
DA SERRA DA GARDUNHA

A Gardunha é uma referência da infância de Maria Gabriela Llansol, a paisagem próxima de onde lhe chegavam ecos nos Verões passados na «Casa da Estação» em Alpedrinha. Algumas passagens dos cadernos manuscritos e outros papéis evocam essa experiência: 
«Passei parte da minha infância sentada no degrau de uma porta, só a receber a noite. A Serra da Gardunha coroava o meu horizonte...», lemos num papel avulso, provavelmente de 1980. 
E num dos primeiros cadernos da Bélgica, em 1977:
«Quando dei por que tinha nascido vivia com um espírito de criança. A minha primeira recordação é de luz e de penumbra, e eu dentro desse círculo que clareia para os limites. Há uma pena profunda ligada ao compartimento de uma carruagem de Caminhos de Ferro. Estávamos em 1934, pois eu devia ter três anos. Fico sozinha sobre o banco, pode haver uma multidão de pessoas à minha volta, mesmo pessoas amadas como a minha criada Maria Amélia, mas a perda é irremediável: para que eu parta para o Verão de Alpedrinha, acabam de separar-me de minha mãe.»

 M. G. Llansol com seis anos, na Casa da Estação, em Alpedrinha

Aconteceu no último fim de semana, que também foi o das nossas Jornadas Llansolianas de Sintra (de que daremos conta num dos próximos dias), o Festival Literário da Gardunha, em vários lugares da Beira Baixa, entre eles Alpedrinha. Precisamente aí, no «Campo Base 6» do Festival, esteve a nossa companheira Hélia Correia, que evocou a Maria Gabriela e as viagens da sua infância por estas paragens, depois transformadas em escrita. Como noticia o Diário Digital de hoje, «Hélia Correia, um dos grandes nomes da novelística portuguesa, decidiu trocar as voltas à tertúlia, optando não por falar de viagens mas sim por recuperar as memórias de Maria Gabriela Llansol, que embora nascida em Lisboa, a dada altura viveu na Bélgica e foi nesse país que escreveu algumas das suas recordações sobre a sua passagem por Alpedrinha. Ou seja, a intervenção de Hélia Correia acabou por ser uma homenagem à escritora portuguesa que morreu em 2008 e ao local que recebeu a mesa redonda. [...] Lamentando que Maria Gabriela Llansol seja considerada uma escritora incompreendida e frequentemente esquecida, Hélia Correia lembrou que esta foi 'uma mulher que se libertou das coordenadas temporais' e que para compreender a sua escrita basta largar as amarras e deixar o pensamento fluir.»


 Alpedrinha em páginas dos Cadernos de M. G. Llansol

20.9.14

VI JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA
O PROGRAMA DEFINITIVO

Eis o programa definitivo das VI Jornadas Llansolianas de Sintra, nos dias 27 e 28 de Setembro, na Vila Alda em Sintra (uma vez mais com o mapa da localização):


(Clique nas imagens para aumentar)

Para além das várias intervenções sobre a temática do fragmento, das exposições, filmes e leituras, haverá dois livros novos, já aqui apresentados antes – O Livro de Horas IV, que reune os papéis avulsos do espólio de M. G. Llansol, e o volume Trans-dizer: Llansol tradutora, traduzida, trans-criada, que documenta as Jornadas de 2013 –, e também um novo caderno que reune fragmentos de livros e inéditos de Llansol sobre o tema das Jornadas deste ano (O Império dos Fragmentos: Llansol sobre a escrita fragmentária) e um CD-Rom que junta todos os «Cadernos da Letra E», em número de 20, os resumos e a documentação sobre as 29 sessões que realizámos no lugar público que assim designamos, na «Estalagem da Raposa», entre Janeiro de 2012 e Julho de 2014, e um slideshow sobre a obra escrita e gráfica, ainda desconhecida, de Augusto Joaquim. O CD, com o título O Lugar do Entresser - Crónica da Letra E, faz, em cerca de 700 páginas, um balanço das nossas diversas abordagens à Obra de Llansol, numa rede de ligações, umas mais conhecidas, mas outras muito inesperadas, em que contámos com a colaboração de muitos leitores de Llansol, criadores, professores, pensadores, em áreas tão diversas como a literatura e a filosofia, a pintura e o desenho, a colagem e a fotografia, o cinema e a música...


 As Jornadas são abertas a todos os interessados. Esperamos por vós em Sintra no próximo fim de semana.

18.9.14

O NOVO LIVRO DE HORAS DE LLANSOL
ANUNCIADO PELA ASSÍRIO & ALVIM

A Assírio & Alvim acaba de anunciar a saída de mais um Livro de Horas que organizámos a partir dos papéis avulsos de Llansol. O blogue Destante (destante.blogspot.pt) dá assim a notícia:

Título: A Palavra Imediata — Livro de Horas IV
Autor: Maria Gabriela Llansol
Organização: João Barrento
N.º de Páginas: 224
PVP: 16,60 €

A Palavra Imediata é o novo  Livro de Horas de Maria Gabriela Llansol,  cujo  título aponta desde logo para o seu conteúdo. Este quarto volume não resulta, como os anteriores,  da  sequência  cronológica  dos diários ma- nuscritos,  mas  é totalmente constituído por uma larga parte  dos quase mil papéis avulsos dispersos no espó- lio da escritora, organizados, anotados e transcritos por João Barrento.
A Assírio & Alvim publica esta novidade no dia 19 de Setembro.

As  aparas  da escrita e dos dias nesses papéis avulsos espelham,  com os cadernos,  o  respirar  diário de um ser-de-escrita  para  quem o mundo e a experiência só existem  quando  ganham  esse  corpo,  essa  volátil e sólida  existência  de  papel.  Llansol  escreve,  anota, transcreve, para sentir na letra a respiração do ser,  os ritmos de existir, a mão a entrar no pensamento (da Introdução de João Barrento).

Este livro será apresentado e comentado por Isabel Santiago no dia 27 de Setembro na sexta edição das Jornadas Llansolianas, que decorrerão na Vila Alda, Sintra, nos dias 27 e 28 de Setembro.

17.9.14

«GEOGRAFIA DE REBELDES»
EDITADA EM ESPANHA

Continua o caminho do texto de Llansol passado a outras línguas. Acaba de ser distribuída em Espanha a tradução completa da primeira trilogia de Maria Gabriela Llansol, «Geografia de Rebeldes», que inclui O Livro das Comunidades, A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto, numa publicação das Ediciones Cinca, de Madrid, com tradução de Atalaire, o «tandem» de tradutores madrilenos Mercedes Fernández Cuesta e Mario Grande.


O volume vem acompanhado de uma Introdução assinada por 'Atalaire', que destaca os modos particulares de escrita em Llansol, a matéria histórica e as transformações figurais dos três livros, interroga-se sobre o sentido do título da trilogia e comentando em pormenor cada um dos três livros que a constituem.
Transcrevemos algumas passagens da Introdução, «Por qué hemos empezado a traducir al español Geografía de rebeldes de Maria Gabriela Llansol»:
– «En Geografía de rebeldes hay que distinguir el texto; el intertexto construido en relación con otras obras de otros autores; y el subtexto, que es la propria vida o fragmentos de autobiografia de la autora, unas veces expresa, otras elaborada literariamente: la triple interrogación, elección y afirmación como mujer, escritora, portuguesa en el último cuarto del siglo XX.
El subtexto lo informa todo. En ese sentido, Geografía de rebeldes es un acto de amor, el fruto de un acto de amor, una visión y una obra de arte.»
– «La tesis central de Maria Gabriela Llansol es el hombre será. Dicho de otra manera, aún no es, a lo largo de la Historia ha dado la espalda al ser en beneficio del poder.
Mi texto, escribe, es transparente, es el lugar, no de lo que podía haber sido y no fue, sino de aquello que en él es y un día será fuera de él.
Por tanto, el texto es el espacio donde los seres se encuentran al margen de la Historia y del Poder. Es un lugar imaginante que mira al futuro.»

3.9.14

«O IMPÉRIO DOS FRAGMENTOS»
VI Jornadas Llansolianas de Sintra

Setembro é mês de Jornadas em Sintra. Uma vez mais as deste ano estão em andamento e com o programa praticamente fechado (ver adiante). Em 27 e 28 de Setembro estaremos num novo lugar em Sintra, o pólo de actividades culturais conhecido por «Vila Alda», perto do Centro Cultural Olga Cadaval e do MUSA, o museu de arte recentemente reaberto (clique no mapa para aumentar).

Aproveitando a saída de mais um Livro de Horas, desta feita dedicado à escrita mais fragmentária de M. G. Llansol – os quase mil papéis avulsos do espólio –, dedicamos estas Jornadas à temática do fragmento em Llansol. Assim:
 O espectro de abordagens será amplo, e nalguns casos inesperado, com forte participação proveniente de áreas que não a literatura e a crítica, como já vem sendo hábito nos nossos Encontros anuais: as artes plásticas (com duas exposições: instalação e desenho, de Teresa Projecto e Catarina Domingues), o cinema (com Clamor, um filme em duas partes, de Tomás Mais e Rita Roberto, belo exercício e funda reflexão sobre fragmentos de espaço, de tempo, de luz, de corpos; um video do jovem cineasta brasileiro Lucas Parente feito a partir de um papel avulso de Llansol, e de um lugar fundador da sua infância, o Jardim da Estrela em Lisboa), a música, numa abordagem original da prosa de Llansol com ecos estruturais da música atonal, pela pianista Gilda Oswaldo Cruz.
Para além de alguns nomes conhecidos do nosso meio literário e universitário, como o escritor Gonçalo M. Tavares, abrimos este ano as Jornadas a vários participantes novos, investigadores doutorandos e recém-doutorados das áreas da Literatura, das Belas-Artes e do Cinema.
Aqui fica o programa na sua forma actual:


Como também é hábito, Setembro é mês de novos livros. Apresentaremos nestas Jornadas duas novas publicações: o Livro de Horas IV (A Palavra Imediata: Os papéis avulsos de Llansol, edição Assírio & Alvim, comentado no dia 27 por Isabel Santiago, professora de Filosofia); e mais um volume, o oitavo, da colecção «Rio da escrita» (editora Mariposa Azual), que documenta as Jornadas de 2013, dedicadas aos diversos caminhos da «tradução» de e por Llansol: Trans-dizer- Llansol tradutora, traduzida, transcriada. Aí encontraremos uma grande diversidade de intervenções sobre os modos de traduzir de Llansol, e dos tradutores que passaram livros seus para espanhol, francês, alemão e inglês, dos artistas que, «trans-criando» (na pintura, na colagem, na gravura, na música, no cinema), reinventam a sua obra, e ainda um primeiro levantamento sistemático das transições entre escrita e desenho nos cadernos de Llansol, com uma ampla documentação de muitos desses desenhos.
 
Bem-vindos às Sextas Jornadas Llansolianas de Sintra e ao universo dos fragmentos!



3.8.14

A VIAGEM DE MELISSA

«Um dia, o sol virá buscá-la...», escreveu Hélia Correia, a segunda mulher-serva de Melissa, a gata de Maria Gabriela Llansol que veio de Colares.
Melissa viveu feliz com a Hélia e o Jaime durante seis anos, e regressou há dias à terra de origem. 
O sol veio buscá-la no dia 30 do mês de Julho. Prestámos-lhes as últimas homenagens devidas, e fizemos-lhe um caderninho que aqui partilhamos com todos – os que a conheceram e aqueles que agora saberão também como era e como viveu.


E em Setembro, previsivelmente, faremos um encontro alargado com algumas pessoas mais próximas, no local, com leituras do caderno e a evocação que todos acharem por bem fazer. A seu tempo daremos a informação.
 

31.7.14

|| O ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO ||
A grande exposição de Guimarães

O encontro inesperado do diverso 
é assistir ao belo a comunicar com o silêncio;
a fraccionar as imagens nas suas diversas formas;
ajudá-las a levantar o véu para que se mostrem mutuamente 
na beleza própria, e fechar os olhos para que se não rompa
a delicada tela desta vida,
ou então falar.
(Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig)




O Jornal da Exposição

A exposição do CIAJG-Centro Internacional das Artes José de Guimarães, que inaugurámos no fim de semana com a pintora Ilda David', o fotógrafo Duarte Belo, o curador Nuno Faria e a equipa de produção e montagem da «Oficina», assinala mais um marco importante no esforço que vimos fazendo para manter viva, no espaço cultural português, a presença da Obra e do universo de Maria Gabriela Llansol nos últimos anos.
Uma iniciativa certamente inesperada para muitos visitantes, que não terão deixado de ficar surpreendidos com a concepção expositiva que lhe está subjacente e com as modalidades de ocupação dos espaços generosos do CIAJG. A exposição é, de facto, um espelho do universo relacional, em cadeia, de M. G. Llansol, onde tudo tem a ver com tudo e se ilumina mutuamente, sem hierarquias. Na nova «cosmogonia» que esta exposição constrói, objectos e obras de arte de diversa proveniência ganham uma nova «biografia» e um novo habitat que os lança numa renovada aventura, configurando o inesperado «atlas» que o título sugere. É a primeira vez que isso acontece a esta escala, graças ao empenho de Nuno Faria, à atracção que este lado do universo Llansol desde sempre exerceu sobre uma artista como Ilda David', e à extraordinária capacidade do fotógrafo Duarte Belo para o fixar, o ler, o recortar em registo fotográfico.

Trata-se, de facto, de um encontro feliz entre a original filosofia museológica deste Centro artístico de Guimarães («propor uma (re)montagem da história da arte, enquanto sucessão de ecos, e um novo desígnio para o museu, enquanto lugar para o espanto e a reflexão») e os princípios que desde sempre orientaram a escrita de Llansol e o seu relacionamento com o mundo, e continuaram a servir-nos de carta de rumos nas múltiplas actividades do Espaço que traz o seu nome e perpetua a sua memória.



Divulgação do novo ciclo de exposições do CIAJG (em hotéis, restaurantes, cafés)

O excerto de Lisboaleipzig em epígrafe resume, na definição que dá do «encontro inesperado do diverso», a tripla perspectiva que foi possível aperceber nestes dias em Guimarães: 1) o fraccionamento das imagens (de Ilda David' – em pintura, desenho, gravura, mosaico, bordado –, das composições fotográficas de Duarte Belo, de peças da colecção permanente do museu, e dos próprios objectos do espólio de Llansol), para evidenciar o princípio, pródigo em surpresas, de integração na diversidade que conduz o projecto; 2) os modos como essas imagens, nos vários espaços, se afirmam em si mesmas e se iluminam mutuamente nesse jogo de relações dinâmicas; 3) e, finalmente, o texto, a fala, as falas múltiplas que acompanharam a mostra – no «Jornal da Exposição», numa grande diversidade de material impresso de divulgação, distribuído por toda a cidade de Guimarães, e na sessão de apresentação da nova edição de Lisboaleipzig e das ideias orientadoras da própria exposição.
Nesta sessão, que ocupou a manhã de Domingo, dia 27, intervieram Nuno Faria, responsável pela exposição, Maria Etelvina Santos, que apresentou a nova edição do livro de Llansol, João Barrento, que situou este livro e a exposição no contexto da obra e do mundo de M. G. Llansol, e João Madureira, que, através da tripla relação Llansol-Bach-Pessoa/Aossê, trouxe a música ao universo imagético e literário presente na exposição e no livro. Ilda David' e Duarte Belo acompanharam depois o público que acorreu ao CIAJG numa visita guiada.

A mesa da manhã: João Madureira, João Barrento, Maria Etelvina Santos, Nuno Faria, Ilda David', Duarte Belo

As fotografias e o material de divulgação disseminado pelo CIAJG por toda a cidade, de que aqui reunimos uma amostra, poderão dar uma ideia deste fim de semana llansoliano na cidade que foi Capital Europeia da Cultura em 2012.


24.7.14

EXPOSIÇÃO: LLANSOL EM GUIMARÃES

No «Centro Internacional das Artes José de Guimarães» (na cidade com este nome) está prestes a inaugurar mais uma grande exposição em torno do universo e da Obra de Maria Gabriela Llansol. Será a segunda maior exposição depois de Sobreimpressões, que organizámos com o Centro Cultural de Belém em 2011, dando a conhecer e a ver a visão da Europa na Obra de Llansol. 


No próximo dia 26 de Julho, pelas 22 horas, abre ao público esta nova exposição, intitulada Maria Gabriela Llansol: O encontro inesperado do diverso, com obras de Ilda David (gravura, pintura, desenho, técnicas mistas, documentando grande parte do trabalho da artista feito, de 2003 até hoje, sobre obras de Llansol) e Duarte Belo (fotografia). A mostra, que poderá ser vista em Guimarães até 12 de Outubro, ocupa uma extensa área do museu, numa montagem que, para além das obras dos dois artistas, integra um conjunto significativo, e nunca exposto deste modo, de objectos, obras de arte e manuscritos originais de Maria Gabriela Llansol, cedidos pelo Espaço Llansol.

O Centro Internacional das Artes José de Guimarães

No dia 27, pelas 11 horas, Ilda David e Duarte Belo estarão presentes na apresentação da nova edição de Lisboaleipzig (acabada de sair na Assírio & Alvim), que foi o ponto de partida e o pretexto de onde nasceu a ideia de mais esta grande exposição. Falar-se-á do livro, do mundo e da escrita de Llansol e da própria exposição, numa mesa que reune, para além dos dois artistas, o editor Manuel Rosa, João Barrento e Maria Etelvina Santos (pelo Espaço Llansol), o compositor João Madureira e o curador da exposição, e director do Centro de Artes, Nuno Faria.

18.7.14

MANUEL DE FREITAS, LLANSOL
E AS «DONAS GATAS»


Manuel de Freitas expõe-se, aqui e agora e para sempre, num último livro em que olha para trás e pergunta Ubi sunt? Où sont les neiges d'antan? Por onde andam os que a morte apagou ou este mundo cão engoliu?
Aí, por via das comuns «donas gatas», presta a sua homenagem a Maria Gabriela Llansol, sobre cuja obra em tempos escreveu. A página do livro é esta:


Por ironia do acaso, ou não, acabámos de fazer também nós, aqui no Espaço Llansol, mais um dos nossos cadernos (que a seu tempo divulgaremos), dedicado à última gata da Maria Gabriela, a Melissa «douradinha», que dois outros seres, de seu comum nome Emily, acolheram – a «Duncan», jovem bailarina negra, da família e do reino da Melissa, e a «Emily» simplesmente, vulgo Hélia Correia, que bem conhece esse reino.

Melissa e a bailarina Duncan chez «Emily-Hélia»

Mas todo este livro de Manuel de Freitas, e o seu «sentido último» (que certamente não quer ter) se encontram nos dois poemas a Zulmira e à sua taberna, ontem e hoje. É o retrato de um mundo através do retrato do próprio poeta olhando para si, dans l'année quarante-deuxième de son éage (como François Villon, no testamento feito aos trinta):

(Fotografia da capa: Inês Dias)