18.9.14

O NOVO LIVRO DE HORAS DE LLANSOL
ANUNCIADO PELA ASSÍRIO & ALVIM

A Assírio & Alvim acaba de anunciar a saída de mais um Livro de Horas que organizámos a partir dos papéis avulsos de Llansol. O blogue Destante (destante.blogspot.pt) dá assim a notícia:

Título: A Palavra Imediata — Livro de Horas IV
Autor: Maria Gabriela Llansol
Organização: João Barrento
N.º de Páginas: 224
PVP: 16,60 €

A Palavra Imediata é o novo  Livro de Horas de Maria Gabriela Llansol,  cujo  título aponta desde logo para o seu conteúdo. Este quarto volume não resulta, como os anteriores,  da  sequência  cronológica  dos diários ma- nuscritos,  mas  é totalmente constituído por uma larga parte  dos quase mil papéis avulsos dispersos no espó- lio da escritora, organizados, anotados e transcritos por João Barrento.
A Assírio & Alvim publica esta novidade no dia 19 de Setembro.

As  aparas  da escrita e dos dias nesses papéis avulsos espelham,  com os cadernos,  o  respirar  diário de um ser-de-escrita  para  quem o mundo e a experiência só existem  quando  ganham  esse  corpo,  essa  volátil e sólida  existência  de  papel.  Llansol  escreve,  anota, transcreve, para sentir na letra a respiração do ser,  os ritmos de existir, a mão a entrar no pensamento (da Introdução de João Barrento).

Este livro será apresentado e comentado por Isabel Santiago no dia 27 de Setembro na sexta edição das Jornadas Llansolianas, que decorrerão na Vila Alda, Sintra, nos dias 27 e 28 de Setembro.

17.9.14

«GEOGRAFIA DE REBELDES»
EDITADA EM ESPANHA

Continua o caminho do texto de Llansol passado a outras línguas. Acaba de ser distribuída em Espanha a tradução completa da primeira trilogia de Maria Gabriela Llansol, «Geografia de Rebeldes», que inclui O Livro das Comunidades, A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto, numa publicação das Ediciones Cinca, de Madrid, com tradução de Atalaire, o «tandem» de tradutores madrilenos Mercedes Fernández Cuesta e Mario Grande.


O volume vem acompanhado de uma Introdução assinada por 'Atalaire', que destaca os modos particulares de escrita em Llansol, a matéria histórica e as transformações figurais dos três livros, interroga-se sobre o sentido do título da trilogia e comentando em pormenor cada um dos três livros que a constituem.
Transcrevemos algumas passagens da Introdução, «Por qué hemos empezado a traducir al español Geografía de rebeldes de Maria Gabriela Llansol»:
– «En Geografía de rebeldes hay que distinguir el texto; el intertexto construido en relación con otras obras de otros autores; y el subtexto, que es la propria vida o fragmentos de autobiografia de la autora, unas veces expresa, otras elaborada literariamente: la triple interrogación, elección y afirmación como mujer, escritora, portuguesa en el último cuarto del siglo XX.
El subtexto lo informa todo. En ese sentido, Geografía de rebeldes es un acto de amor, el fruto de un acto de amor, una visión y una obra de arte.»
– «La tesis central de Maria Gabriela Llansol es el hombre será. Dicho de otra manera, aún no es, a lo largo de la Historia ha dado la espalda al ser en beneficio del poder.
Mi texto, escribe, es transparente, es el lugar, no de lo que podía haber sido y no fue, sino de aquello que en él es y un día será fuera de él.
Por tanto, el texto es el espacio donde los seres se encuentran al margen de la Historia y del Poder. Es un lugar imaginante que mira al futuro.»

3.9.14

«O IMPÉRIO DOS FRAGMENTOS»
VI Jornadas Llansolianas de Sintra

Setembro é mês de Jornadas em Sintra. Uma vez mais as deste ano estão em andamento e com o programa praticamente fechado (ver adiante). Em 27 e 28 de Setembro estaremos num novo lugar em Sintra, o pólo de actividades culturais conhecido por «Vila Alda», perto do Centro Cultural Olga Cadaval e do MUSA, o museu de arte recentemente reaberto (clique no mapa para aumentar).

Aproveitando a saída de mais um Livro de Horas, desta feita dedicado à escrita mais fragmentária de M. G. Llansol – os quase mil papéis avulsos do espólio –, dedicamos estas Jornadas à temática do fragmento em Llansol. Assim:
 O espectro de abordagens será amplo, e nalguns casos inesperado, com forte participação proveniente de áreas que não a literatura e a crítica, como já vem sendo hábito nos nossos Encontros anuais: as artes plásticas (com duas exposições: instalação e desenho, de Teresa Projecto e Catarina Domingues), o cinema (com Clamor, um filme em duas partes, de Tomás Mais e Rita Roberto, belo exercício e funda reflexão sobre fragmentos de espaço, de tempo, de luz, de corpos; um video do jovem cineasta brasileiro Lucas Parente feito a partir de um papel avulso de Llansol, e de um lugar fundador da sua infância, o Jardim da Estrela em Lisboa), a música, numa abordagem original da prosa de Llansol com ecos estruturais da música atonal, pela pianista Gilda Oswaldo Cruz.
Para além de alguns nomes conhecidos do nosso meio literário e universitário, como o escritor Gonçalo M. Tavares, abrimos este ano as Jornadas a vários participantes novos, investigadores doutorandos e recém-doutorados das áreas da Literatura, das Belas-Artes e do Cinema.
Aqui fica o programa na sua forma actual:


Como também é hábito, Setembro é mês de novos livros. Apresentaremos nestas Jornadas duas novas publicações: o Livro de Horas IV (A Palavra Imediata: Os papéis avulsos de Llansol, edição Assírio & Alvim, comentado no dia 27 por Isabel Santiago, professora de Filosofia); e mais um volume, o oitavo, da colecção «Rio da escrita» (editora Mariposa Azual), que documenta as Jornadas de 2013, dedicadas aos diversos caminhos da «tradução» de e por Llansol: Trans-dizer- Llansol tradutora, traduzida, transcriada. Aí encontraremos uma grande diversidade de intervenções sobre os modos de traduzir de Llansol, e dos tradutores que passaram livros seus para espanhol, francês, alemão e inglês, dos artistas que, «trans-criando» (na pintura, na colagem, na gravura, na música, no cinema), reinventam a sua obra, e ainda um primeiro levantamento sistemático das transições entre escrita e desenho nos cadernos de Llansol, com uma ampla documentação de muitos desses desenhos.
 
Bem-vindos às Sextas Jornadas Llansolianas de Sintra e ao universo dos fragmentos!



3.8.14

A VIAGEM DE MELISSA

«Um dia, o sol virá buscá-la...», escreveu Hélia Correia, a segunda mulher-serva de Melissa, a gata de Maria Gabriela Llansol que veio de Colares.
Melissa viveu feliz com a Hélia e o Jaime durante seis anos, e regressou há dias à terra de origem. 
O sol veio buscá-la no dia 30 do mês de Julho. Prestámos-lhes as últimas homenagens devidas, e fizemos-lhe um caderninho que aqui partilhamos com todos – os que a conheceram e aqueles que agora saberão também como era e como viveu.


E em Setembro, previsivelmente, faremos um encontro alargado com algumas pessoas mais próximas, no local, com leituras do caderno e a evocação que todos acharem por bem fazer. A seu tempo daremos a informação.
 

31.7.14

|| O ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO ||
A grande exposição de Guimarães

O encontro inesperado do diverso 
é assistir ao belo a comunicar com o silêncio;
a fraccionar as imagens nas suas diversas formas;
ajudá-las a levantar o véu para que se mostrem mutuamente 
na beleza própria, e fechar os olhos para que se não rompa
a delicada tela desta vida,
ou então falar.
(Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig)




O Jornal da Exposição

A exposição do CIAJG-Centro Internacional das Artes José de Guimarães, que inaugurámos no fim de semana com a pintora Ilda David', o fotógrafo Duarte Belo, o curador Nuno Faria e a equipa de produção e montagem da «Oficina», assinala mais um marco importante no esforço que vimos fazendo para manter viva, no espaço cultural português, a presença da Obra e do universo de Maria Gabriela Llansol nos últimos anos.
Uma iniciativa certamente inesperada para muitos visitantes, que não terão deixado de ficar surpreendidos com a concepção expositiva que lhe está subjacente e com as modalidades de ocupação dos espaços generosos do CIAJG. A exposição é, de facto, um espelho do universo relacional, em cadeia, de M. G. Llansol, onde tudo tem a ver com tudo e se ilumina mutuamente, sem hierarquias. Na nova «cosmogonia» que esta exposição constrói, objectos e obras de arte de diversa proveniência ganham uma nova «biografia» e um novo habitat que os lança numa renovada aventura, configurando o inesperado «atlas» que o título sugere. É a primeira vez que isso acontece a esta escala, graças ao empenho de Nuno Faria, à atracção que este lado do universo Llansol desde sempre exerceu sobre uma artista como Ilda David', e à extraordinária capacidade do fotógrafo Duarte Belo para o fixar, o ler, o recortar em registo fotográfico.

Trata-se, de facto, de um encontro feliz entre a original filosofia museológica deste Centro artístico de Guimarães («propor uma (re)montagem da história da arte, enquanto sucessão de ecos, e um novo desígnio para o museu, enquanto lugar para o espanto e a reflexão») e os princípios que desde sempre orientaram a escrita de Llansol e o seu relacionamento com o mundo, e continuaram a servir-nos de carta de rumos nas múltiplas actividades do Espaço que traz o seu nome e perpetua a sua memória.



Divulgação do novo ciclo de exposições do CIAJG (em hotéis, restaurantes, cafés)

O excerto de Lisboaleipzig em epígrafe resume, na definição que dá do «encontro inesperado do diverso», a tripla perspectiva que foi possível aperceber nestes dias em Guimarães: 1) o fraccionamento das imagens (de Ilda David' – em pintura, desenho, gravura, mosaico, bordado –, das composições fotográficas de Duarte Belo, de peças da colecção permanente do museu, e dos próprios objectos do espólio de Llansol), para evidenciar o princípio, pródigo em surpresas, de integração na diversidade que conduz o projecto; 2) os modos como essas imagens, nos vários espaços, se afirmam em si mesmas e se iluminam mutuamente nesse jogo de relações dinâmicas; 3) e, finalmente, o texto, a fala, as falas múltiplas que acompanharam a mostra – no «Jornal da Exposição», numa grande diversidade de material impresso de divulgação, distribuído por toda a cidade de Guimarães, e na sessão de apresentação da nova edição de Lisboaleipzig e das ideias orientadoras da própria exposição.
Nesta sessão, que ocupou a manhã de Domingo, dia 27, intervieram Nuno Faria, responsável pela exposição, Maria Etelvina Santos, que apresentou a nova edição do livro de Llansol, João Barrento, que situou este livro e a exposição no contexto da obra e do mundo de M. G. Llansol, e João Madureira, que, através da tripla relação Llansol-Bach-Pessoa/Aossê, trouxe a música ao universo imagético e literário presente na exposição e no livro. Ilda David' e Duarte Belo acompanharam depois o público que acorreu ao CIAJG numa visita guiada.

A mesa da manhã: João Madureira, João Barrento, Maria Etelvina Santos, Nuno Faria, Ilda David', Duarte Belo

As fotografias e o material de divulgação disseminado pelo CIAJG por toda a cidade, de que aqui reunimos uma amostra, poderão dar uma ideia deste fim de semana llansoliano na cidade que foi Capital Europeia da Cultura em 2012.


24.7.14

EXPOSIÇÃO: LLANSOL EM GUIMARÃES

No «Centro Internacional das Artes José de Guimarães» (na cidade com este nome) está prestes a inaugurar mais uma grande exposição em torno do universo e da Obra de Maria Gabriela Llansol. Será a segunda maior exposição depois de Sobreimpressões, que organizámos com o Centro Cultural de Belém em 2011, dando a conhecer e a ver a visão da Europa na Obra de Llansol. 


No próximo dia 26 de Julho, pelas 22 horas, abre ao público esta nova exposição, intitulada Maria Gabriela Llansol: O encontro inesperado do diverso, com obras de Ilda David (gravura, pintura, desenho, técnicas mistas, documentando grande parte do trabalho da artista feito, de 2003 até hoje, sobre obras de Llansol) e Duarte Belo (fotografia). A mostra, que poderá ser vista em Guimarães até 12 de Outubro, ocupa uma extensa área do museu, numa montagem que, para além das obras dos dois artistas, integra um conjunto significativo, e nunca exposto deste modo, de objectos, obras de arte e manuscritos originais de Maria Gabriela Llansol, cedidos pelo Espaço Llansol.

O Centro Internacional das Artes José de Guimarães

No dia 27, pelas 11 horas, Ilda David e Duarte Belo estarão presentes na apresentação da nova edição de Lisboaleipzig (acabada de sair na Assírio & Alvim), que foi o ponto de partida e o pretexto de onde nasceu a ideia de mais esta grande exposição. Falar-se-á do livro, do mundo e da escrita de Llansol e da própria exposição, numa mesa que reune, para além dos dois artistas, o editor Manuel Rosa, João Barrento e Maria Etelvina Santos (pelo Espaço Llansol), o compositor João Madureira e o curador da exposição, e director do Centro de Artes, Nuno Faria.

18.7.14

MANUEL DE FREITAS, LLANSOL
E AS «DONAS GATAS»


Manuel de Freitas expõe-se, aqui e agora e para sempre, num último livro em que olha para trás e pergunta Ubi sunt? Où sont les neiges d'antan? Por onde andam os que a morte apagou ou este mundo cão engoliu?
Aí, por via das comuns «donas gatas», presta a sua homenagem a Maria Gabriela Llansol, sobre cuja obra em tempos escreveu. A página do livro é esta:


Por ironia do acaso, ou não, acabámos de fazer também nós, aqui no Espaço Llansol, mais um dos nossos cadernos (que a seu tempo divulgaremos), dedicado à última gata da Maria Gabriela, a Melissa «douradinha», que dois outros seres, de seu comum nome Emily, acolheram – a «Duncan», jovem bailarina negra, da família e do reino da Melissa, e a «Emily» simplesmente, vulgo Hélia Correia, que bem conhece esse reino.

Melissa e a bailarina Duncan chez «Emily-Hélia»

Mas todo este livro de Manuel de Freitas, e o seu «sentido último» (que certamente não quer ter) se encontram nos dois poemas a Zulmira e à sua taberna, ontem e hoje. É o retrato de um mundo através do retrato do próprio poeta olhando para si, dans l'année quarante-deuxième de son éage (como François Villon, no testamento feito aos trinta):

(Fotografia da capa: Inês Dias)

17.7.14

LLANSOL EM LONDRES

No âmbito da exposição colectiva Art stabs power / Que se vayan todos!, passa hoje em Londres uma curta de Manuel Santos Maia inspirada em Llansol (a frase de Um Falcão no Punho «é a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém»).


Manuel Santos Maia é um artista portuense que já colaborou com o Espaço Llansol, com a instalação que concebeu para a exposição Sobreimpressões, do Centro Cultural de Belém, em 2011. O filme pode ser visto aqui:


29.6.14

UM QUARTO QUE SEJA NOSSO...
Virgina Woolf na «Letra E»

Com a ausência da escritora Ana Luísa Amaral, que por um impedimento de última hora não pôde deslocar-se do Porto a Sintra, tivémos ontem a última sessão da «Letra E» antes das férias de Verão. Ocasião de balanço, feito a abrir o encontro por João Barrento, que lembrou o que foi a programação deste espaço em dois anos e meio de existência, com vinte e nove sessões (e dezasseis «Cadernos da Letra E» produzidos por nós) em torno da ligação de Llansol a algumas das suas figuras históricas, ou com nomes da literatura, das artes e do pensamento contemporâneos, cruzando-se e alternando com uma outra linha de programação que trouxe a Sintra muitos intervenientes que reflectiram sobre problemas específicos da escrita desta autora, do seu universo ou do espólio que deixou, mas igualmente de questões prementes do mundo de hoje, que foi também o seu. Por aqui passaram figuras como Hölderlin ou Ana de Peñalosa (e as beguinas), Pessoa e Bach, Emily Dickinson e Virginia Woolf; escritores como Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia ou António Vieira (e a austríaca Ilse Pollack, com o seu «Almanaque-Llansol»); pensadores como Augusto Joaquim, Blanchot ou Eduardo Prado Coelho; críticos e professores como António Guerreiro, Tomás Maia, Sousa Dias, Paulo Sarmento, Helena Vieira e Paula Morão; criadores como a fotógrafa Teresa Huertas, os pintores João Queiroz e Pedro Proença, o compositor João Madureira. Aqui se discutiu e leu, se fizeram exposições (de fotografia, pintura, colagem, desenho; e de imensos materiais do espólio de Llansol, desde a sua juvenilia), se mostraram filmes, se ouviu música, atravessando assim lugares e épocas, temas e problemas, todos eles com uma ligação explícita ao universo-Llansol.

A ausência de Ana Luísa Amaral foi colmatada com a reflexão (e conversa alargada no final a muitos dos presentes) de Hélia Correia, Maria Etelvina Santos e João Barrento em torno da ligação, não isenta de oscilações, mas intensa em pelo menos duas épocas da sua vida de escrita, de Llansol com Virginia Woolf. A escrita nos cadernos (e entretanto também já nos Livros de Horas II e III) permite constatar que a ocupação de M. G. Llansol com a escritora inglesa se concentra em dois períodos distintos e distantes no tempo: os anos finais da década de setenta (na Bélgica) e os anos noventa, entre Colares e Sintra (é nestes anos que Llansol – sob o pseudónimo de Ana Fontes – traduz e publica, na Colares Editora, as Cartas Íntimas a Vita Sackville-West). 



Tudo parece ter começado com a releitura de Mrs. Dalloway em 1978 (o exemplar que temos na biblioteca traz uma assinatura que remete já para a juventude de Llansol, ainda em Portugal):

... Leio Mrs. Dalloway – uma parte da grande sensação que eu conheço agora – num livro. Tornei-me um instrumento muito percutente,  à  entrada do mundo,  quer  ele seja a  cidade,  a espera, a secretária, a partida ou o regresso. Poeira do chão levanta-se com vibrações, eu troco o meu corpo por um encontro global com o prazer que, neste instante de meses, é a minha fonte durável de conhecimento.
(Avulso FAms0103r, 1978)

2 de Janeiro de 1978
Agora, os Diários Íntimos são os meus Contos de Infância. Biografias que consigo vão trazendo e definindo os acontecimentos e os ambientes, enfim, as épocas históricas, mas de forma próxima e através de homens; como no Natal passado descobri Rilke, agora descubro Virginia Woolf. Nada li da sua obra, por um acaso tomei primeiramente contacto com o seu Diário1 e a sua vida. Mulher agreste, obcecada pelo seu trabalho quotidiano, de que não conheço o alcance, a não ser pela Enciclopédia. (...)  Vou encomendar o Diário de Katherine Mansfield. Um pouco fora de moda, a forma de sentir destas mulheres? Eu encontro-me, no entanto, com elas, um século depois. Eram seres múltiplos num único ser, num mundo de convencionais durezas «machas», elas deram em sua casa com a escrita que, ao ritmo da sua coragem e medo, lhes permitiu erguer a voz.
(Livro de Horas II)


O que une e o que separa os universos de vida e de escrita destas duas mulheres? As três intervenções abordaram os mais diversos aspectos deste encontro, que começou por suscitar alguma resistência por parte de Llansol («A princípio não a amava, à sua figura de feminista e de mulher em que sobressaía demasiadamente sobretudo o intelectual. Embora a admirasse, era-me antipática...»). O que explica a «perplexidade» expressa por Hélia Correia, no início da sua intervenção, em relação a esta atracção, que acabaria por ir dar a uma convivência mais intensa, e por dar frutos concretos e deixar rasto na escrita de Llansol. De facto, Virginia Woolf (como outros grandes inovadores da ficção do seu tempo) acabará por ser confessadamente, objecto de fascínio – e não de mera sedução – para M. G. Llansol, como se pode ler na grande entrevista de 1995:

... É a esta destrinça que se vão dedicar Kafka e Musil (e, um nível diferente, que tem o seu paralelo em E. Dickinson, Virginia Woolf) (...)
A sedução é uma relação de captação, dispositivo gestual e cénico de submissão de todas as vozes a uma única voz (...) O fascínio, pelo contrário, é um acontecer imponderável sem destinatário preciso, despido de qualquer intenção de atrair: pura afirmação a criar movimento. E, sob este aspecto, Musil (e, de outro modo, V. Woolf) foi bastante longe...
(«O Espaço Edénico»)

Vivendo e escrevendo em mundos muito diferentes (Woolf imersa na vida social – ainda que à margem das convenções, no microcosmo de Bloomsbury –, Llansol no isolamento e na fobia do «gregário»: «Herbais foi de silêncio»), criando figuras e mundos que se tocam em algumas arestas, mas não se identificam, as duas acabam por se encontrar em múltiplos aspectos, justificando plenamente a sua relação em termos de «afinidades electivas selectivas» que a conversa de ontem documentou amplamente, apoiada na leitura dos fragmentos de Llansol que figuram no «Caderno da Letra E» feito para esta ocasião. Eis alguns desses pontos de encontro, que foram surgindo, como matéria que proporcionou uma viva conversa final, nos comentários dos três intervenientes, cruzados e complementares:
- a preferência por determinados géneros, para além da ficção (diários e biografias):
         15 de Agosto de 1985
Mais do que Kafka ou Virginia Woolf, interessam-me agora os seus diários – o duplo da obra em causa. Será o Diário aquilo, de pouco valor, que roubaram à Obra? (...) São um só, disse: – São diferentes aspectos de uma unidade incorruptível.  
(Caderno 1.18, avulso 07)
 
- as questões de gender e sexo (de «mulheres fora de moda» – estranha afirmação, quando nos anos setenta V. Woolf era tão actual!), e os caminhos da libertação da sua «fixidez»:
... O que será quem estiver liberto da fixidez do seu sexo? O que poderá vir a ser? O que estará sendo? (...) Leio V. Woolf como um campo florido de possibilidades para sempre, e a mutação masculino/feminino, presente em Orlando, como uma grande liberdade de espírito na travessia do conhecimento / da consciência própria.
Orlando não é uma guerra concreta, é uma mente exigindo uma forma corpórea de vida...
(Caderno 2.46, Março de 1992)

- o espectro amplo da compreensão (e da prática) da experiência sexual, até ao limite da rejeição do sexo (no ambiente «marginal» do grupo de Bloomsbury, mas que Hélia Correia distinguiu da sexualidade mais radicada no corpo que é a que transparece na escrita de Llansol):
... Vendo V. Woolf, o seu destino, compreendo como é necessário viver e escrever, e não não viver sozinha com a escrita. Viver sozinha com a escrita seria uma aventura temerária. Não desejarei preparar nenhuma espécie de decadência (...), pois que estou multiplamente viva.
(Livro de Horas III)

- «seres múltiplos num único ser», um ponto de vista muito llansoliano, e já «figural»; aspecto particularmente evidente em Orlando de V. Woolf, e que em Llansol se manifesta num entendimento do sexo como energia do ser que se propaga ao mundo (o «sexo da paisagem») e ao próprio acto de legência (o «sexo de ler»); e em V. Woolf na ideia de que nem dois sexos bastam, e muito menos apenas um, e de que é preciso descortinar «outros sexos, olhando através das árvores e outros céus...»:
... e eu compreendo (...) que ela viveu no tempo concreto do seu próprio corpo, da sua própria época, mas que vários aspectos de outros seres, e de outras dimensões – o tempo e o espaço – vieram encontrar-se, unir-se e fragmentar-se nela – de si para o outro – e no trabalho que exercia sobre os seus próprios livros.
Fragmentação, dispersão, um caminho possível para a unidade...
(Sobre Orlando, Caderno 2.46, Março de 1992)
 
- o trabalho manual como parte integrante de um quotidiano que se transformará em escrita:
Acontece-me uma estranha solidão ou companhia, aquela que escreve desprende-se de mim e vive como uma sombra comigo, numa existência plenamente autónoma. Quando faço o pão ela está lá, quando ando na rua está comigo, em toda a parte vem atrás de mim como se fosse eu na minha imaginação criadora e de poder.
(Livro de Horas II)
 
- a escrita como modo de afirmação, ou como o próprio cerne do Ser constituído pela intensidade do instante (moments of being em V. Woolf):
Sentir-se alguém assim como V. Woolf – é não ser ninguém, não possuir uma marca concreta de existência. Por essa razão, Marguerite Yourcenar dizia que os seus livros eram biografias do ser...
(Caderno 2.46, Março de 1992)
 
- a inserção da matéria biográfica na «ficção», a ponto de se tornarem indistintas: tudo é autobiográfico, mas na escrita não há autobiografia, antes uma «signografia do Há», registo de sinais de uma existência sustentada pela escrita, e algumas relações que dela emergem. É o grande paradoxo do autobiográfico em M. G. Llansol (e Virginia Woolf), presente também numa frase de Um Quarto…: «Quanto mais verídicos forem os factos, melhor será a ficção».

- o poder das sensações (cf. começo de The Waves), em especial do olhar, e do ponto de vista descritivo (cf. já Mrs Dalloway, ou Rumo ao Farol), que leva a que o próprio ensaio conviva com o quotidiano e as suas descrições (em Um Quarto que Seja Seu), animado pelo acaso e pelas afecções da alma, com uma sensibilidade ampla e liberta que permita iluminar até as mais insignificantes coisas do mundo;
- uma escrita de atmosferas (V. Woolf) ou da predominância do espaço sobre o tempo (como de si diz Llansol); espaços e atmosferas com nomes próprios, que em si mesmos sintetizam (sem simbolizarem, a não ser talvez como lugares de regresso permanente) uma existência de escrita: Elvedon na V. Woolf das Ondas, Herbais para M. G. Llansol a partir dos anos oitenta (mesmo em Sintra, Herbais está sempre a regressar);

- a anulação dos tempos no tempo da escrita; e o tratamento livre das figuras, sem tempo, nos espaços que lhes são próprios, sem biografia nem sexo/género – como o próprio Texto? (cf. Orlando). Em Orlando estamos perante o livro mais «figural» de V. Woolf (como em The Waves teremos o mais metaliterário e «poético», em paralelo, por ex., com O Jogo da Liberdade da Alma), livre no tratamento da personagem-figura, oscilante e metamórfico (há paralelos com a Lillias Fraser da Hélia, na sua deambulação por espaços vários e na sua metamorfose, entre Culloden e Lisboa, os terramotos da História e as suas próprias variações interiores?);
- e houve ainda tempo para assinalar paralelos quanto aos caminhos da escrita das duas: o «caminhar por um sítio interdito» (Um Quarto…) e a busca de uma «verdade». Na V. Woolf de Um Quarto…, no British Museum; em Llansol, em si própria enquanto ser de escrita, e não social; nas duas: fora da impostura, procurando algo como «a truth of one's own», num processo de individuação contínuo através da escrita.

De tempo e espaço, e do seu tratamento muito sui generis se falou muito no final, a partir de várias questões colocadas pelos presentes. E também da casa e do seu lugar nestas autoras, por comparação e contraste com a grande tradição do romance realista. Aí todos entenderam melhor como os espaços do texto (que Llansol transforma em «lugares») são essenciais, para lá dos tempos, para atribuir marcas próprias à experiência dos dias que neles se desenrola, e como as datas, a que ambas as autoras atribuem grande importância, precisam de ver o seu carácter referencial de calendário preenchido pela matéria existencial específica que lhes dá rosto próprio.

23.6.14

LLANSOL E VIRGINIA WOOLF

É já no próximo sábado, 28 de Junho, pelas 16 horas, que Llansol e Virginia Woolf se encontrarão na «Letra E» do Espaço Llansol. Falaremos do encontro entre as duas escritoras, desde os anos sessenta do século passado, quando Llansol começa a ler Woolf, leremos algumas passagens dos cadernos de Maria Gabriela Llansol sobre a inglesa, em eco com passagens de Virginia Woolf, e mostraremos algumas peças do espólio que documentam este diálogo.

 (clique na imagem para aumentar)

E haverá, como sempre, um caderno que documenta mais esta afinidade electiva de Llansol com as suas figuras e outros criadores, reunindo muito do que encontrámos nos cadernos manuscritos e nos dois últimos Livros de Horas.


Esta será a última sessão da «Letra E» antes do Verão. Retomaremos em Outubro, para revelar aspectos menos conhecidos do espólio de Llansol e continuar os encontros com algumas das suas figuras.
E entretanto daremos em breve notícia das Jornadas Llansolianas de Sintra deste ano (que terão lugar em 27 e 28 de Setembro, no espaço cultural «Vila Alda», em Sintra).