12.6.14

O REGRESSO DE LISBOALEIPZIG


Acaba de ser distribuída a nova edição do livro de Maria Gabriela Llansol Lisboaleipzig, agora com as duas partes – «O Encontro Inesperado do Diverso» e «O Ensaio de Música» – reunidas num único volume, com xilogravuras de Ilda David', em edição Assírio & Alvim.

Xilogravuras de Ilda David'

Lisboaleipzig é um livro com características singulares entre os de M. G. Llansol, fazendo conviver a forma diarística explícita, na primeira metade do primeiro volume, o «ensaio» ou o texto de reflexão, na segunda metade, e uma trama narrativa em torno da metamorfose textual de uma figura maior, complexa e que acompanha durante muito tempo a escrita de Llansol, que é a de Pessoa-Aossê, no segundo volume. Desde o tempo de Herbais, ainda no exílio belga, até ao fim da vida (com o último livro, Os Cantores de Leitura), esta matéria estará sempre presente na escrita de Llansol, que neste livro se organiza em torno de dois triângulos figurais que cobrem a «ordem figural do quotidiano» e a esfera musical, poética e filosófica, com vista à transmutação de Fernando Pessoa em Aossê e à sua libertação do «paradigma da água» português: o círculo masculino de Bach-Pessoa-Spinoza (Baruch) e o feminino de Anna Magdalena-Infausta-Elisabeth, ligados pelo fio condutor da figura do falcão que subjaz à de Aossê e representa a pujança poética e transformadora da escrita.
Assinalando a saída deste livro, uma série de obras de Ilda David' em torno do universo objectal e figural de Llansol integrarão uma grande exposição no Centro Internacional das Artes, em Guimarães, a partir de 26 de Julho próximo.

Xilogravuras de Ilda David'

A nova edição de Lisboaleipzig será apresentada no próximo dia 18 de Junho, às 18.30 h., na livraria da Assírio & Alvim do Chiado. Aqui fica o convite:

1.6.14

LLANSOL, O TEMPO E OS ALMANAQUES

«Só hoje ontem se deixa escrever...» 
(M. G. Llansol, Inquérito às Quatro Confidências, p. 63)





Escrevamos então a tarde de ontem na Letra E – uma forma de compensar a desvantagem em que sempre se encontram aqueles que não podem viver os acontecimentos...
Contámos com a presença de Ilse Pollack, austríaca, grande conhecedora de Portugal e das literaturas de expressão portuguesa, e responsável por essa pequena pérola que se chama, no original publicado em Berlim, Territorium der Randständigen. Ein Llansol-Almanach, e que em português poderia trazer o título «Nós herdámos as margens. Um Almanaque-Llansol». Um livro delicado, feito com paciência, muita leitura e sensibilidade aos textos e aos tempos, o que levou alguns leitores austríacos a falar da sua renitência em escrever nos espaços destinados em cada página às anotações pessoais. Também as recensões de alguns jornais e revistas destacaram «esta aventura de leitura, que assim se torna também uma aventura de vida» (revista Sterz), o «conjunto de pedras preciosas arrancadas a uma grande massa de textos», num «atractivo volume em que cada citação estimula o pensamento» (Wiener Zeitung, de Viena), «o belo grafismo, a boa selecção de textos e a introdução escrita com espírito» (um conhecido alfarrabista de Salzburgo), «publicação belíssima, extremamente atraente e conseguida» (o poeta austríaco Hans Raimund)...

 No início da sessão de ontem João Barrento apresentou a autora, sua amiga de longa data, recordando uma crónica escrita no jornal Público em 10 de Dezembro de 1994, onde então comentava o livro de Ilse Pollack Fado. Lebensbilder aus Portugal [Fado. Vidas portuguesas], saído na Áustria nesse ano:
«As suas paixões são os lugares de passagem, cemitérios e fronteiras, cidades entre mundos (Trieste ou Lisboa, Brody ou Cernowitz), literaturas esquecidas (a 'literatura colonial portuguesa': quem se lembra dela? quem lhe conhece os nomes?), universos em vias de extinção, como o da cultura judaica do Leste europeu ou o das personagens de um Portugal que já quase não há (...)
As histórias portuguesas de Ilse Pollack, a autora austríaca que há muito nos descobriu e insistentemente vai lembrando à Europa Central quem somos e fomos, têm a sua origem num tempo já distante e ainda tão perto, tempo também ele de transição, a uma escassa dúzia de anos de nós. O velho ainda resistia, o novo debatia-se nas suas contradições, o futuro pintava-se de cores incertas. Alguns anos depois da Revolução, o nosso fado jogava-se entre memórias negras, esperanças mais ou menos avermelhadas e os tons já pardos da melancolia. 
 Ilse Pollack: uma vida de escrita e andanças em torno de Portugal e da literatura portuguesa, e que agora chegou também a Llansol...
O livro de Ilse Pollack vem desses anos... São crónicas da desagregação das grandezas e misérias de uma revolução efémera (sem, no entanto, serem crónicas 'da' revolução), ficcionadas através de uma galeria de figuras que falam na primeira pessoa, quase só de si, mas apesar disso, por isso, também de um país e dos seus tempos vários. Muitas delas vêm de um Portugal sem história, vidas anódinas, quem sabe se felizes, de uma província apagada e modorrenta, de cidades trituradoras dos desejos, apanhadas nas ondas de uma (r)evolução social e económica em que baloiçam ainda, com a diferença de que agora julgam saber já muito bem para onde vão.
(...) Em fundo, um estado de melancolia latente que é afinal o laço da indisfarçável empatia entre a autora e as suas personagens. É daí que vem, provavelmente, o grão da diferença nestas histórias em que um olhar exterior nos quer apanhar num momento de passagem. A escolha das figuras mostra como Ilse Pollack não se deixa ir com os tempos, como é uma grande solitária solidária, pessimista e voluntariosa, cujo olhar se fixa de preferência nos perdedores deste mundo: minorias, fracos, marginais, judeus, escritores de não-sucesso, radicais, casos perdidos(como o nosso?). Escreve histórias a contrapêlo da História, para assim melhor poder ler-lhe os caminhos...», etc., etc.

Num espírito perfeitamente afim do de Llansol, como se vê...
 
Falou-se ontem do tempo e de almanaques, e Ilse Pollack lembrou, também com um texto antigo, a sua mania, quase doença, dos almanaques, e deu-nos conta das motivaçõs e da génese do único almanaque até hoje feito com textos de Llansol. Deixamos aqui alguns momentos dessa sua apresentação do tema da sessão, extraídos da crónica «A doença dos almanaques», publicada num jornal austríaco em 1990, e do prefácio ao Almanaque Llansol (que figura, em tradução portuguesa, no «Caderno da Letra E» que ontem oferecemos, como sempre, aos que vêm até nós).

 Mais um «Caderno da Letra E» sobre as mesas...

 Os almanaques e a escrita do tempo em exposição

Ano após ano, quando chega o fim de Dezembro, ela ataca em força, a doença dos almanaques. Nunca são de mais os que me poderiam oferecer... (...)  Só os tipos humanos com um ego fraco se deixam obsecar assim pelo tempo. Li isto em tempos, já não sei onde. Pode ser que sim… E no entanto: haverá coisa mais bela do que um desses almanaques acabados de chegar, dia após dia uma folha branca, ainda virgem de escrita? Por outro lado, como é triste o almanaque do ano passado! Porque, ainda que fosse essa a minha intenção, acabei por nunca ser o exacto guarda-livros dos meus dias (...)  Nunca imaginei começar o ano a praguejar, mas eis que a isso me obriga o Almanaque de Pragas e Impropérios da Estíria. No dia 1 de Janeiro, em letras verdes sobre fundo cinzento, lá está um desses impropérios, a palavra «Weintatschker» [Sapo bêbado], referindo-se sem dúvida à noite de Ano Novo que passou. O dia 2 de Janeiro, vá lá, já nos diz que devemos começar o ano com espírito jovem e dinâmico! E para isso temos o Almanaque dos Amigos da Vida, com os seus «pensamentos positivos, animadores e meditativos para cada dia». Sentenças triviais, logo a abrir o ano? Prefiro os almanaques dos padeiros e dos açougueiros, com as suas receitas sólidas para todos os dias. Mas estas coisas úteis, ao que parece, passaram de moda, desapareceram como A Loja da Esquina, o almanaque que em tempos nos oferecia coisas dessas, há muito, muito tempo.
As pessoas modernas usam agendas que trazem no bolso: agendas da Mulher e do Homem, do Ambiente e do Terceiro Mundo, do Greenpeace e da Paz… a perder de vista. Mas o que eu quero é mesmo um almanaque, e não uma qualquer mixórdia temática!  É pena! Até o velho Almanaque Camponês já não confia nas belas cores dos seus santinhos – e é por isso que agora, em vez da barba de fogo de Santo Inácio, tenho de engolir sempre uma história parva («Ai, filha, vamos a isto!»). Então antes uma agenda «neutra», em que posso ler na última página, enquanto espero pelo dentista, por exemplo que a órbita de translação da terra tem uma extensão de 939.200.000 quilómetros.
Tantos almanaques! E no entanto só um me agrada realmente, com as muitas alegrias que nos dá ao longo do ano! Durante todo o mês de Janeiro, o Gato Maltês (Kater Murr) não faz outra coisa senão entregar-se ao seu passatempo preferido, a patinagem no gelo; em Fevereiro só tira a máscara para meter o dente nas deliciosas bolas-de-Berlim. Em Março sobe a uma árvore e fica ali sentado a sonhar com o amor, e em Abril esconde-se debaixo do guarda-chuva. Em Maio, finalmente, vem a descendência, e no fim de Junho vai até à praia. O mês de Julho é passado de patas estendidas a apanhar sol, e em Agosto vai á pesca e apanha uns peixes. Em Setembro, o Maltês leva os filhos à escola e em Outubro já está demasiado cansado para apanhar os últimos pássaros. Em Novembro já cai neve, e o Maltês fica em casa, deitado em almofadas fofinhas, contemplando o cair lento dos flocos através da janela. E em Dezembro ganha novo alento, escreve cartas e traz para casa uma árvore de Natal.  Ah, como tudo está no lugar certo neste ritmo anual do Gato Maltês! E também eu fui um dia a criança para quem este almanaque era feito, e todas as coisas estavam então em ordem e no lugar certo. Só mais tarde começaram a mudar de lugar, cada vez mais depressa – e sem eu dar por isso tinham desaparecido: as coisas, as pessoas, as forças, as emoções. 
Ficar quieta, é esse agora o meu sonho. Quietinha, sem bolir, mais nada…
 E  apresentando o seu Almanaque Llansol, Ilse Pollack esclarece:
Apesar de algumas tentativas arriscadas e ousadas de a traduzir para alemão e de a editar, a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol é praticamente desconhecida do público leitor de língua alemã.
E de repente, isto: um almanaque, feito de frases, fragmentos de texto, respigados exclusivamente das suas obras, para todos os dias do ano – com algum espaço de permeio (aqui e ali algo reduzido), para que os estimados «legentes» possam acrescentar a cada passagem de texto as suas notas pessoais. E apesar disso, não se trata de uma agenda no sentido corrente do termo.
(...)

Os almanaques são geralmente feitos de provérbios, ditos, máximas, pelos quais nos orientamos, ou que nos desafiam a contradizê-los; e isso acontece também com este. Com a diferença de que neste caso eles estão intimamente ligados aos lugares de vida e de escrita da autora: Lisboa ou o «não-lugar» de Herbais, Bruges, lugar de beguinas, ou Alpedrinha, lugar da infância, para apenas mencionar alguns. E neste contexto surgem também as figuras, nomes conhecidos e desconhecidos da História que são reinventados nos textos de Llansol, acolhidos em vários livros onde formam constelações, numa coexistência que supera todas as barreiras de tempo e de espaço.
E tudo isto entrecortado por reflexões sobre a escrita, leituras e gostos pessoais, os animais da casa, sobretudo os gatos, e, enfim, também algumas afinidades especificamente «femininas», muito embora o texto, para esta autora – que heresia! – não tenha sexo.
Neste almanaque seguimos uma «ordem» que é a da própria Maria Gabriela Llansol, que «descasca ervilhas enquanto ouve Bach», em cujo universo não existem hierarquias, nem «em cima» e «em baixo», nem juízos de valor ou prerrogativas sociais. Um mundo no qual o quotidiano se situa ao mesmo nível da mais alta concentração mental e o diálogo com Spinoza se encontra com a preparação da ração para as galinhas.
E agora, cara/caro legente, entra no ano, nos seus meses e dias, descobre, anota e continua as tuas buscas!

A meio da sessão, e antes da leitura colectiva de excertos de Llansol sobre o tempo, João Barrento traçou ainda brevemente algumas linhas de ligação entre os modos de escrita e a relação com o tempo em M. G. Llansol e nos almanaques:
Llansol, o tempo e os almanaques
À primeira vista, e para quem conhece os modos de relação com o tempo e os ritmos da vida de Maria Gabriela Llansol, nada de mais afastado do registo dominante da sua escrita do que o lado contingente, tranquilizador e por vezes sentencioso do almanaque – que é aquele tipo de obra que mais de perto acompanha a esfera de que a sua Obra se distancia desde sempre, e a que Llansol a certa altura chama «a luz comum», com os seus ritmos diários sempre iguais e sem consequências. Do outro lado está o «combate», a tensão produtiva da inquietação. 
 O Almanaque de Liège da colecção de Llansol, com escrita da autora
Mas, como quase sempre acontece em Llansol, a realidade nunca é lisa e unívoca, tudo existe em dobra. E assim constatamos que, por outro lado, toda a sua escrita nasce ao fio dos dias e das suas contingências e humores, de acasos que o não são, ou a breve trecho deixam de o ser; sabemos hoje que ela sempre teve uma ligação natural às datas e ao seu registo – apesar de, por outro lado, as ver como outros tantos momentos de antecipação da morte, como lemos hoje num dos cadernos –, e grande parte da sua escrita, pelo menos depois das trilogias, não foge aos acontecimentos dos dias, antes pelo contrário, eles estão sempre a «cair» de algum lugar para os seus cadernos, e é deles que se alimenta a sua escrita: «A realidade acontece no tempo em que escrevo ___ julgo-a, e brinco com ela sob o nome de trans-realidade» (caderno 1.70, 19).
E assim também a luz comum – se por isso entendermos agora a luz que ilumina todos os seres no seu trajecto por este mundo, à espera de serem fulgorizados na sua singularidade e singeleza – não está ausente desta obra, nem ela a rejeita.
E há entre ambos – o almanaque e o universo da escrita de Llansol – um elo que os aproxima: o tempo, nas suas múltiplas vertentes, nos seus rostos mutantes.
Que tempo é o do almanaque? E que tempos encontramos na Obra de Llansol?
Num e noutro caso, tempos vários – da história quotidiana à imaginária ou fantástica, da mais insignificante às de dimensão e sentido cósmico, das rotineiras histórias «que estamos sempre a contar uns aos outros» aos mais extraordinários saltos para zonas quase alucinatórias, da pequena «anedota» ou da sentença (que também há em Llansol, na sua veia mais irónica) às grandes parábolas que são sempre as das figuras retiradas à história e à vida comum, para serem implantadas no espaço edénico do texto – exemplos não faltam, como bem sabem aqueles que a lêem.
Em qualquer caso, histórias de subversão e transfiguração do tempo, a partir das mais rasas, mas reveladoras, vivências do tempo. Em Llansol actua um olhar que, antes e depois da narrativa, fulgoriza o instante e o veste de uma aura que o leva para outras eternidades. Era já assim n' O Livro das Comunidades, e será assim até Os Cantores de Leitura.

O resto, no que aos tempos de Llansol se refere, está no meu ensaio "Llansol: Os rostos do tempo", de que transcrevo uma parte no caderno feito para o dia de hoje (o ensaio completo, «Llansol: o texto dos tempos», pode ler-se no volume colectivo organizado por Maria Carolina Fenati e saído recentemente na Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, com o título Partilha do incomum: leituras de Maria Gabriela Llansol).

E terminámos, antes de algumas questões que depois nos foram colocadas, com um modelo de leitura até agora não ensaiado na Letra E, mas que resultou num momento conseguido de partilha, a repetir no futuro: cada um dos presentes leu um ou mais fragmentos de textos de Llansol sobre o tempo, inscritos em faixas de cartolina numeradas previamente distribuídas, agora transformadas em marcadores de leitura dentro do caderno «Llansol e os rostos do tempo», que cada um levou consigo...


25.5.14

LLANSOL: OS ROSTOS DO TEMPO
NA «LETRA E»


Como via / vivia / escrevia M. G. Llansol o tempo? Que formas assume o tempo em geral, os tempos dos dias, o tempo da História e o tempo sem tempo do «Há» nos seus livros e manuscritos?
É este o tema da próxima sessão da Letra E do Espaço Llansol, no próximo sábado, dia 
                                                31 de Maio, às 16 horas.
Tomamos como pretexto a publicação recente de um Almanaque Llansol em língua alemã, editado pela Berlin-Press e organizado, traduzido e prefaciado pela lusitanisra austríaca Ilse Pollack, grande conhecedora da literatura portuguesa.
                           

A autora estará na Letra E nesse sábado para nos falar da sua obsessão por almanaques e coisas passadas, e em particular deste livro, o único almanaque até agora feito a partir de textos e imagens da Obra e do espólio de Llansol. Falaremos também do tema do tempo em Llansol, documentado em mais um «Caderno da Letra E» que fizémos para a ocasião e que, como sempre, ofereceremos aos presentes. Mostraremos muitos almanaques (alguns da biblioteca de M. G. Llansol) e manuscritos dos cadernos sobre a temática do tempo, e temos pronta uma sequência de fragmentos sobre o tema, que distribuiremos pelos que vierem, para a habitual leitura, que desta vez não será feita por actores ou pelas colaboradoras mais próximas do Espaço Llansol, mas pelo público.

Esperamos por todos no sábado, dia 31 à tarde, para uma imersão na letra e no espírito do tempo em Llansol.

7.5.14

FILME SOBRE LLANSOL 
NO «PANORAMA 2014»


O filme de Daniel Ribeiro Duarte Ao Lugar de Herbais, feito em 2012 para as Jornadas Llansolianas de Sintra, vai ser mostrado na oitava edição do «Panorama do Documentário Português», que terá lugar em Lisboa (Cinema S. Jorge e Cinemateca) entre 9 e 15 de Maio.

«Ao Lugar de Herbais», 2012

O filme passará no próximo sábado, dia 10, às 15 horas no Cinema S. Jorge (Sala 3).
Veja toda a programação da mostra aqui: www.panorama.org.pt

28.4.14

«ESCREVO SOBRE O GRANDE GUARDANAPO BRANCO...»
Os cafés de Llansol


Ainda com ecos e imagens dos 40 anos do 25 de Abril presentes, a sessão de sábado da Letra E levou-nos até aos cafés de Maria Gabriela Llansol, lugares onde, entre Lovaina, Lisboa e Sintra, ela foi escrevendo com alguma regularidade. Com a sala completamente transformada, a condizer com o tema, João Barrento situou a escrita de café de Llansol no contexto dessa grande tradição europeia desde o século XVIII, assinalando o que mais distingue M. G. Llansol dos tradicionais literatos de café. Alguns momentos dessa intervenção:  

[...] Sendo frequente, a escrita de café em Llansol não é propriamente um hábito regular, muito menos um ritual: é antes o prolongamento natural da escrita dos dias e do apelo dos cadernos que quase sempre a acompanhavam – e quando isso não acontecia, também o jornal, o guardanapo de papel ou um envelope podiam servir de suporte de escrita imediata.
A escrita de café é, no caso de Llansol, muitas vezes o resultado da observação do que se passa à sua volta, logo seguida do imperativo de escrever. Coisa que não é muito diferente de escrever em casa, nem impede que nasçam também, nessa outra situação, fragmentos literários mais acabados, ou escrita sobre alguma matéria particular que, no momento, lhe ocupa o campo libidinal e mental. Mas em geral, para M. G. Llansol, o café é um espaço neutro, sem matéria figural visível ao primeiro olhar. 
[...] O que não encontramos nos cafés de Llansol é a atmosfera efervescente, animada, snob, antiburguesa dos cafés literários que referi antes, os dos movimentos de vanguarda por toda a Europa, entre 1900 e os anos trinta. Nem encontramos aí também o espírito de grupo, mais ou menos sectário, mais ou menos aberto, que foi o de alguns cafés marcados por grupos geracionais ou tendências literárias, entre os anos quarenta e setenta do século passado, onde a maior parte do tempo não se escrevia, mas se conversava e discutia. Nos cafés de Llansol não sopra propriamente nenhum «espírito» de grupo, quando muito (e alguns textos dão a entender isso) um estilo de época, um Zeitgeist quase sempre perturbador para a escrevente. Os cafés de Llansol eram os de toda a gente, e neles a escritora passeante, isolada e atenta, observava e escrevia – tinha de escrever, obedecendo ao imperativo que sobre ela descia em qualquer lugar onde se encontrasse e sempre que o mundo envolvente viesse ter com ela.
Os «textos de café» de Maria Gabriela Llansol, talvez mais claramente na fase portuguesa do que na Bélgica, são textos de observação, não raramente com alguma ironia, e também de reflexão, aqui e ali na companhia de alguma figura maior do seu Texto (Spinoza no Ramisco) ou de algum livro em fase de construção. As mais das vezes, tal como os próprios cafés por onde circula, se senta acidentalmente e escreve, os textos são escrita de circunstância, produto da situação, e por isso às vezes se acomodam nas margens do jornal, em guardanapos ou mesmo, na hora do nascimento deste tipo de escrita, nas bases dos copos de cerveja dos cafés de Lovaina, num jogo amoroso com Augusto Joaquim, anunciando já, nesses suportes de escrita a quatro mãos dos anos sessenta, o nascimento do «ambo». 
[...] 
Contrariando também a grande tradição europeia e moderna da preferência de alguns escritores pelos fundos mais escuros dos seus cafés (o exemplo paradigmático pode ser o de Adalbert, o novelista, na novela de Thomas Mann Tonio Kröger), Llansol prefere muitas vezes as esplanadas (vejam-se alguns dos textos de Lisboa e Sintra), lugares de luz e de verde, para nelas dialogar, por escrito, com transeuntes, árvores, paisagens. O olhar e a imaginação activa têm aí o seu terreno propício para se cruzarem e gerarem a escrita do corpo e da alma que é quase sempre a de Llansol, nesse seu «horizonte bipartido do silêncio», anotando «coincidências» que sabe «serem apenas a face escondida de outros sinais no mundo», deixando convergir também nestes textos escritos muitas vezes no meio da multidão, como o escritor do conhecido conto de Poe ou em Baudelaire e Benjamin, tudo o que a imaginação e a visão acrescentam ao que o olhar vê. 
[...]
E nem a morte escapa a esse poder de observação que se casa com a imaginação, como no último texto que leremos, onde subitamente, no lago em frente do café do Jardim da Estrela, um pato sulca o abismo, a «falha súbita» que se abre na água, numa visão do fim que converge com a das origens, no voo do pato até à fonte de Neptuno, «que conheço desde a minha infância», diz a anotação em pequenas folhas de bloco avulsas.


Veja aqui uma síntese da sessão em imagens (com a Cantata do Café, de J. S. Bach)

Da selecção que fizémos da escrita de café inédita, e que agora se pode ler em mais um «Caderno da Letra E», extraímos alguns dos textos que foram lidos no sábado por Maria Etelvina Santos e Helena Alves.

O Jardim da Parada

13 de Março 1985
[...]
Os cafés prefiguram este lugar, com suas portas abertas e mesas escolhidas; um criado circula para servir e as vozes são a moeda de troca. Quem troca não está perdido; nos cafés, trocar é uma tentativa, um símbolo de ignorância e de desejo – tal como o meu.
Tenho vários cafés à minha volta, mas o que prefiro é o do Jardim da Parada, com a entrada aberta sob as árvores. O jardim quadrado da cidade deixa uma praça quadrada quando desaparece, se desaparecesse, e o seu estímulo é humano e vegetal, uma vigília do vegetal sobre o humano, e a minha vigília que os liga. O café padece de falta de palavras úteis; mas as inúteis são um rumor que me entrega a clorofila de que eu preciso. 
[...]

O Brasseur de Lovaina
24 de Abril 1974
Não tenho dinheiro para comprar a saia de cor crua que desejava e transformo o meu desejo em escrita e espaço cénico sobre a mesa do café (o «Brasseur»); vejo-me rodeada de folhas de papel que murmuram música, mobilidade e noite, não obscura; flutuo num ritmo de Nietzsche, livros, o meu braço nu assente sobre a página, moreno e cheio, por envelhecer. Por escrever está o nosso futuro, à minha frente o Augusto atinge com o olhar o nosso encontro, vê o que é.

No Ramisco, Várzea de Colares
Anos 80

As pessoas partiram e deixaram no terraço, a substituí-las, a sombra das árvores. O falcão observou do alto esta passagem do humano para o vegetal da sombra. Interrogou-se sobre a ausência do corpo que estivera na cadeira pintada de branco, à esquerda, junto do muro. Era tão brilhante e difícil de apagar que se fixou numa forma finita__________ 


À mesa do Ramisco, lembrei-me do desaparecimento ardente da Ferrari.

A Tentadora, Campo de Ourique
28 de Setembro 1988

Evoluí longamente para além de tudo o que possamos imaginar que eu evoluí. Sinto o café/restaurante totalmente vazio à minha volta, sem contacto humano, e sem sentido. Penso na floresta, que é o pinhal onde talvez se estenda a nossa casa de madeira a implantar, e vejo, em todo o seu espaço, como todos os meus novos companheiros e amantes me levaram daqui.
E tão progressivamente, tão docemente que nem me dou conta.
[...]
Somam-se os chás e o resultado no meu corpo humano é surpreendente. Um outro globo paira, que me envolve, e não pode medir-se, ligeiro, na atmosfera e no ar. Mas o ar desta cidade está cheio de corações humanos sufocados ______ e mesmo o mais ínfimo animal é mais igual a mim.


17 de Janeiro 2000
As pombas rolam no espaço que espelha a igreja do Santo Condestável sobre as mesmas pombas. Entramos na Tentadora, e as antigas paredes, sobretudo o tecto trabalhado de outrora, dissolvem-se no chão. O que há, existe. Não tenhas medo – a arte de escrever é apenas entreabrires a gola do vestido, e deixar uma passagem deserta para todo o andar do corpo. Quem se ama, é ainda o Anjo da escrita caminhante – e só ele. Dar-me-ás, pois, para principiar esta velada caminhada, o arco da tua mão, onde vou pôr a flecha e amar o que escreveres, até que o que escreveres se arremesse sem medo, sem vacilação, e atinja o alvo.
 
Na Sapa, Sintra
9 de Maio 1996
Sobe a manhã a partir da mesa de café da Sapa, onde estou comungando com desconhecidos sobre o passeio. Será este? Será aquele? Será aquela Joshua, o princípio do desconhecido evidente no conhecido?
[..]
Na atmosfera azul, a Serra de Sintra esplende, irmana-se com as planícies do Alentejo, baixa para elas na imobilidade, sem cortar o espaço – o espaço que me surpreende.
Eu estou nua, vestida, completando os sentidos que me ocorrem e voltando a chávena com o pires sobre o guardanapo de papel – para eles. A fusão tem várias camadas, resistências, interstícios, e não é total.
 
17 de Dezembro 1997
Continua a ventar, estive na Sapa a contemplar o jardim aprofundado no solo, rodeado de uma sequência quadrada de casas que hei-de transpor para o livro O Senhor de Herbais – o espaço-livro. Nesse jardim há jarros sempre molhados e uma multiplicidade de pequenas habitações encaixando-se em portas e janelas que parecem não ter fim – quanto mais princípio. 

Mas tem o princípio do olhar – o eu do meu olhar material, a observá-la da sala antiquada da Sapa.
O que domina o tempo é a matéria; o que domina o espaço é o fio de verde. Os géneros do discurso estão ausentes – e a língua renova-se, porque chove, na sua densidade material. A língua é uma concentração abrindo-se para um alvo – alva neve.
Foi a neve – ausente aqui – que hoje disse___________ 

24 de Dezembro 1997

Perfeito dia de imperfeito Natal _________ que o lugar comum diria sempre imperfeito sobre esta Terra________
Sem horários – eu venho aqui quando os outros não vêm, e a véspera de Natal na sala é deserta e a Serra profunda noutra luz_____ sem iluminação.
É a sala do tempo. 

No Jardim da Estrela
12 de Fevereiro 2001

Passeio com L.
Numa cadeira do JARDIM DA ESTRELA

______ O que atravessou o meu olhar/espírito naquele momento foi a morte e o pato sobre o lago, ou, melhor olhando, o pato e a morte sobre o lago. O pato estava próximo, deslocava-se no seu movimento imóvel. E veio uma pomba dar um passeio na terra firme.
O pato tinha o bico recurvo amarelo e nadava entre duas folhas, na falha súbita que eu vi no lago. Era o meu pato – o meu pato fúnebre.
E dei-lhe a minha vida.

Sobrevoando (o lago), o pato afastou-se no sentido contrário – em direcção às águas que jorravam de Neptuno (o fontanário que conheço desde a minha infância).
Estava resolvido o problema. 
(Mais tarde).

22.4.14

«LETRA E»: OS CAFÉS DE LLANSOL



No próximo sábado, dia 26 de Abril, a partir das 16 horas, a Letra E vai transformar-se num café literário, com leitura de inéditos de Maria Gabriela Llansol nascidos nos seus cafés da Bélgica e de Portugal, textos escritos nesses cafés e sobre eles. João Barrento fará uma introdução em que falará das particularidades da escrita de M. G. Llansol enquanto autora-de-cafés, por comparação com toda uma tradição europeia que vem já do século XVIII. E poderemos conversar no «Café da Letra E» sobre o tema, com café, chá e bolos nas mesas – e um cravo vermelho para não esquecermos a véspera e os quarenta anos de uma revolução desastrosamnte traída. Haverá, como sempre, mais um «Caderno da Letra E» (48 p.) sobre Os Cafés de Llansol, desde o «Brasseur» de Lovaina até à «Sapa» de Sintra.


Venham tomar café e conversar connosco e com Llansol. As mesas já estão postas, e o ambiente a condizer com o tema.
E atenção ao novo horário: 16 horas!

4.4.14

A «LETRA E» DE ABRIL A JUNHO

Deixamos aqui o programa da Letra E para os próximos três meses. Com temas novos - e talvez inesperados - como o dos Cafés de Llansol (nesse dia a Letra E será mesmo um café!), os almanaques e o tempo, e ainda uma figura próxima e distante como Virginia Woolf, comentada por duas conhecidas escritoras nossas, Ana Luísa Amaral e Hélia Correia.
Chamamos a atenção para a nova hora de começo das sessões – 16 horas! –, resultado de um breve inquérito feito junto de alguns frequentadores das Letra E. As opiniões divergiam, mas pensamos que com a nova hora encontraremos um meio termo que não interfere com as horas de almoço e jantar de sábado, e poderá convir a todos.

23.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

A sessão de ontem na «Letra E» estava originalmente prevista para ter lugar numa ruína – em Sintra, onde há muitas, espelho de um estado de coisas em desagregação, ou noutro lugar deste país em ruínas. Acabou afinal por se fazer no lugar habitual, porque o tempo atmosférico, tal como a atmosfera asfixiante da pseudocultura dominante e do pensar, continuam frios e sem chama. O espaço da «Letra E» transformou-se, por isso, numa espécie de gruta – ilha, na visão de Llansol –, um dos lugares, não apenas simbólicos, mas reais, disseminados por aí, onde alguns não desistem de pensar e resistir.

 Cad. 1.10, 208: «Dagaia, a Ilha de Ana de Peñ[alosa]»
O lugar da Terra onde se resiste, contra a falsificação pelos mitos...

Dos modos vários dessa resistência se falou ontem, traçando amplos arcos que não se limitaram ao texto de Llansol, mas procuraram ir a algumas raízes, remotas e mais próximas, do «mal-estar na civilização» que é a nossa. Sobre as nossas cabeças pairava ontem uma «floresta do texto», algumas dezenas de fitas de papel com frases na caligrafia original dos cadernos de Llansol (de que deixamos aqui uma amostra, e que o video que inserimos no final dá uma imagem mais viva). Penduradas do tecto, eram como morcegos que, de cabeça para baixo, activam o seu sonar para auscultar este mundo às avessas, investindo em voo picado contra ele.


Foi o que fizeram os dois intervenientes que convidámos – o escritor António Vieira e o crítico e ensaísta António Guerreiro –, ao dissecarem a situação actual, com olhares amplos que vinham inevitavelmente pousar nas linhas do grande universo de Llansol, tendo já dele partido pela leitura dos textos e fragmentos inéditos que reunimos em mais um «Caderno da Letra E» (de onde transcrevemos parte da introdução de João Barrento, que contextualiza o tema da sessão). Os que vieram puderam levar para casa este caderno, e também uma ou mais das fitas de papel com autógrafos de M. G. Llansol que pendiam do tecto.

 (Da Introdução de João Barrento ao Caderno da Letra E)

Tivemos connosco dois actores que abriram a sessão com a leitura de alguns textos de Llansol: António Fonseca (que recentemente chamou a atenção com os seus espectáculos em que dizia Os Lusíadas de cor) e Helena Ávila (acabada de chegar da Ilha do Pico, nos Açores). E a conversa alargou-se à sala, e a temas como o lugar dos editores hoje; os sentidos (ominosos  e também promissores) da «comunidade», em Llansol e outros, ao longo do século XX; as linhas de demarcação entre utopia e ucronia na «comédia humana» de Llansol e na sua leitura do mundo e da História; a sua inserção na constelação do «fim do humanismo» e a construção de um novo «projecto do humano», trans-humano e radicalmente novo; enfim, as formas de resistência «imanentes», no plano de uma escrita como a de Llansol, que só por si, na sintaxe, desestrutura o pensamento estabelecido, num registo «atonal» que inquieta e nos mantém despertos (como bem salientou a pianista brasileira Gilda Oswaldo Cruz, que ontem esteve mais uma vez entre nós).
Traçaram-se, assim, algumas cartas de rumos, e sentiram-se os ventos que sopram da «Ilha de Ana de Peñalosa», pela mão daquela que escrevia já, em Na Casa de Julho e Agosto (1984): «Eu sou a nota fora das sete da comunidade das beguinas...».

17.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

No próximo sábado, 22 de Março, às 17 horas, teremos mais uma sessão da «Letra E», desta vez com a voz mais «política» de Llansol. A partir de textos seus, escritos entre os anos oitenta do século passado e o início deste, traremos mais uma achega à discussão e indignação em curso sobre o estado deste país e do mundo. Com outras vozes, que disso falarão a partir desses textos – as do escritor António Vieira e do crítico e ensaísta António Guerreiro –e que lerão alguns deles – as do actor António Fonseca e da actriz Crista Alfaiate.

Como sempre, haverá um caderno de textos que procura transmitir as dimensões várias da revolta, da «Restante Vida contra o mundo», na Obra de M. G. Llansol, que desde cedo se decide por uma «ordem» que, paradoxalmente, ou não, é a de quem assume como sua condição «espalhar a justiça e a desordem», subvertendo os padrões instituídos do gregarismo capitalista-consumista e, nesse contexto, também da pseudo-cultura em que vivemos.
Quem vier poderá desta vez levar para casa um autógrafo de Llansol, frases manuscritas que são como setas disparadas contra o estado de a que chegou o país e o mundo.

16.3.14

LLANSOL NO BRASIL

1. A partilha do incomum


O texto de Maria Gabriela Llansol continua a fazer o seu caminho por terras brasileiras, também por lugares onde a sua presença até agora não era tão frequente.
É o caso da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.editora.ufsc.br), onde acaba de sair  um importante volume colectivo com ensaios e textos inéditos de M. G. Llansol, organizado por Maria Carolina Fenati, nossa colaboradora muito próxima e grande conhecedora da Obra e do espólio de Llansol. O livro intitula-se Partilha do Incomum. Leituras de Maria Gabriela Llansol, e tem contributos de quinze estudiosos e escritores portugueses e brasileiros, como se pode ver pelo índice abaixo (clique na imagem para aumentar).

Como escreve Carolina Fenati a abrir,   
Este livro – que reúne leituras do texto da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) e fragmentos inéditos de seu espólio – é um gesto de acolhimento da sua escrita no momento em que ela começa a ser editada no Brasil. A publicação de três diários – Um falcão no punho (1985), Finita (1986) e Inquérito às quatro confidências (1996) – amplia a possibilidade da partilha desses textos e seus fragmentos, que, vindos de Portugal já circulavam de mão em mão entre vários leitores, relançam-se agora no devir das suas leituras.  
(Entretanto, mais um livro – Um beijo dado mais tarde –  saiu em 2013 na Sete Letras, do Rio de Janeiro, e outros virão). 
No final da nota introdutória a organizadora  explicita o título do livro e esclarece a intenção de mais esta importante e diversificada publicação sobre o universo singular de Llansol:
Escrever com os textos de Maria Gabriela Llansol – partilhar o incomum que nos é oferecido – é dizer que os textos só permanecem na medida em que partem, só não desaparecem quando são transformados pela leitura que os contra-assina, que com eles escreve afirmando o seu excesso em relação a qualquer leitura. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, esses textos convidam a ler «até ao limite em que o entendimento é já a alegria do desentendimento» e exigem a seriedade e a paciência de uma reflexão que, reconhecendo o movimento que lhe escapa, abre linhas de fuga através das quais tudo pode sempre recomeçar. Cantar a leitura talvez seja desejar a conversa infinita, buscar o exercício da palavra como a relação mais íntima com o que é partilhável sem medida.



2. Algumas «trocas verdadeiras»

No site Ler Jorge de Sena, da responsabilidade da Profª Gilda Santos, conhecida seniana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode ler-se um informado artigo da Profª Maria de Lourdes Soares sobre a presença de Jorge de Sena, da sua obra e da sua transformação figural, na escrita de Maria Gabriela Llansol. Sena e Llansol já haviam sido objecto de um outro artigo no mesmo site, por Tatiana Pequeno (com o título «Llansenas»:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando.  O artigo pode ler-se aqui: