17.3.14

«A IMAGEM COM QUE SE RESISTE...»

No próximo sábado, 22 de Março, às 17 horas, teremos mais uma sessão da «Letra E», desta vez com a voz mais «política» de Llansol. A partir de textos seus, escritos entre os anos oitenta do século passado e o início deste, traremos mais uma achega à discussão e indignação em curso sobre o estado deste país e do mundo. Com outras vozes, que disso falarão a partir desses textos – as do escritor António Vieira e do crítico e ensaísta António Guerreiro –e que lerão alguns deles – as do actor António Fonseca e da actriz Crista Alfaiate.

Como sempre, haverá um caderno de textos que procura transmitir as dimensões várias da revolta, da «Restante Vida contra o mundo», na Obra de M. G. Llansol, que desde cedo se decide por uma «ordem» que, paradoxalmente, ou não, é a de quem assume como sua condição «espalhar a justiça e a desordem», subvertendo os padrões instituídos do gregarismo capitalista-consumista e, nesse contexto, também da pseudo-cultura em que vivemos.
Quem vier poderá desta vez levar para casa um autógrafo de Llansol, frases manuscritas que são como setas disparadas contra o estado de a que chegou o país e o mundo.

16.3.14

LLANSOL NO BRASIL

1. A partilha do incomum


O texto de Maria Gabriela Llansol continua a fazer o seu caminho por terras brasileiras, também por lugares onde a sua presença até agora não era tão frequente.
É o caso da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.editora.ufsc.br), onde acaba de sair  um importante volume colectivo com ensaios e textos inéditos de M. G. Llansol, organizado por Maria Carolina Fenati, nossa colaboradora muito próxima e grande conhecedora da Obra e do espólio de Llansol. O livro intitula-se Partilha do Incomum. Leituras de Maria Gabriela Llansol, e tem contributos de quinze estudiosos e escritores portugueses e brasileiros, como se pode ver pelo índice abaixo (clique na imagem para aumentar).

Como escreve Carolina Fenati a abrir,   
Este livro – que reúne leituras do texto da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) e fragmentos inéditos de seu espólio – é um gesto de acolhimento da sua escrita no momento em que ela começa a ser editada no Brasil. A publicação de três diários – Um falcão no punho (1985), Finita (1986) e Inquérito às quatro confidências (1996) – amplia a possibilidade da partilha desses textos e seus fragmentos, que, vindos de Portugal já circulavam de mão em mão entre vários leitores, relançam-se agora no devir das suas leituras.  
(Entretanto, mais um livro – Um beijo dado mais tarde –  saiu em 2013 na Sete Letras, do Rio de Janeiro, e outros virão). 
No final da nota introdutória a organizadora  explicita o título do livro e esclarece a intenção de mais esta importante e diversificada publicação sobre o universo singular de Llansol:
Escrever com os textos de Maria Gabriela Llansol – partilhar o incomum que nos é oferecido – é dizer que os textos só permanecem na medida em que partem, só não desaparecem quando são transformados pela leitura que os contra-assina, que com eles escreve afirmando o seu excesso em relação a qualquer leitura. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, esses textos convidam a ler «até ao limite em que o entendimento é já a alegria do desentendimento» e exigem a seriedade e a paciência de uma reflexão que, reconhecendo o movimento que lhe escapa, abre linhas de fuga através das quais tudo pode sempre recomeçar. Cantar a leitura talvez seja desejar a conversa infinita, buscar o exercício da palavra como a relação mais íntima com o que é partilhável sem medida.



2. Algumas «trocas verdadeiras»

No site Ler Jorge de Sena, da responsabilidade da Profª Gilda Santos, conhecida seniana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode ler-se um informado artigo da Profª Maria de Lourdes Soares sobre a presença de Jorge de Sena, da sua obra e da sua transformação figural, na escrita de Maria Gabriela Llansol. Sena e Llansol já haviam sido objecto de um outro artigo no mesmo site, por Tatiana Pequeno (com o título «Llansenas»:
e agora o rasto de Sena e outros contemporâneos, como Vergílio Ferreira ou Eduardo Lourenço, na Obra de Llansol é detalhadamente analisado com recurso ao profundo conhecimento que a autora tem da Obra e do universo de Llansol, e a muita informação recente incluída nos Livros de Horas que vimos editando.  O artigo pode ler-se aqui:

14.3.14

LLANSOL E A «SENSUALIDADE 
DO INVISÍVEL»

No próximo dia 19 de Março, entre as 16 e as 17.30h, a Profª Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Universidade Aberta e membro da direcção do Espaço Llansol), fará uma conferência na Universidade Católica de Lisboa (Edifício da Biblioteca João Paulo II) em que falará de «Maria G. Llansol: o texto como busca da 'sensualidade do invisível'».
Fica o convite a todos os leitores de Llansol e amigos do Espaço Llansol.

3.3.14

A PRESENÇA FRAGMENTADA 
DO GRANDE ESPAÇO AUSENTE...

É dia de lembrar Maria Gabriela Llansol. Com o seu texto e a luz que dele emana:


23.2.14

BLANCHOT - LLANSOL
Encontro improvável, ontem na Letra E

Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta.
Não absoluta, porque o absoluto é vão.
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)

Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.
(Maurice Blanchot, Faux pas, 1943)

De forma algo inesperada, dada a densidade da matéria, a Letra E encheu-se ontem de interessados em Blanchot e Llansol, com rostos novos e provenientes dos mais diversos lugares (Sintra, Lisboa, Braga, o Brasil e até a Bulgária!), para além de outros frequentadores, já conhecidos e mais habituais.
A ligação explícita de Llansol com Blanchot é esparsa, este autor, como não acontece com outros filósofos muito convocados para a Obra llansoliana, está pouco ou nada presente na sua biblioteca, e mais ainda nos cadernos de escrita, onde existe uma única menção: a intenção de adquirir L'amitié, registada em 18 de Janeiro de 2000 (Caderno 1.58, p. 67). Na biblioteca, apenas dois livros: Faux pas, comprado em Louvain-la-Neuve em 25 de Fevereiro de 1984, e com alguns sublinhados e marcas de leitura da introdução e de capítulos sobre Kierkegaard, Eckhart, Rilke, Proust; e ainda O Livro por Vir, num exemplar com dedicatória de «Regina» (Regina Louro, então jornalista do Expresso e tradutora do livro), em Abril de 1986.
E no entanto, o «Encontro improvável» e intenso de ontem, conduzido por Paulo Sarmento a partir do documentário de Hugo Santiago visionado antes, revelou imensas afinidades, e alguns desencontros, de pensamento, modos de escrever e viver, interesse comum por determinadas figuras e temáticas – a indeterminação ou a rejeição da «literatura» em favor da «escrita», o apagamento de fronteiras entre géneros, o estilhaçamento da ficção, a «exigência fragmentária», modos afins e diversos de viver a solidão, o silêncio, a morte, a anulação de tempos no espaço do instante que é o do texto no acto de se escrever e de ser lido; e finalmente, a construção de pontes e abismos entre os dois, quanto a uma ideia de «comunidade» de ausências presentes, a comunidade alimentada por um princípio de incompletude e a comunidade na diáspora...
Todos estes temas, presentes em mais um caderno que elaborámos para esta ocasião, com textos dos dois autores, foram ampla e vivamente discutidos no final, numa «conversa infinita» e naturalmente inconclusiva. Continua tudo em aberto para o regresso a este ou outros «Encontros improváveis», na Letra E ou noutros lugares.
Com uma certeza; que os intensos, como Blanchot e Llansol, continuam aí, para lá de si mesmos, sabendo, como sabiam, que não há morte, que a morte é apenas aquele «sentimento de leveza» sempre iminente que lemos em L'instant de ma mort, e que, como escreve M. G. Llansol num dos seus cadernos (o 1.18, p. 67), «o tempo e a morte são constantes, e é intenso o espaço que os circunda.»
Deixamos aqui, a montagem fragmentária de algumas páginas do nosso caderno, numa sequência que inclui no fim a leitura de excertos de La folie du jour, retirada do filme de Hugo Santiago.



E para quem não pôde vir mas gostaria de ver o documentário na íntegra, aqui fica o respectivo link: http://www.youtube.com/watch?v=F32bSMK1iNA

17.2.14

BLANCHOT E LLANSOL NA «LETRA E»

O próximo «Encontro improvável» na Letra E do Espaço Llansol é já no próximo sábado, dia 22 de Fevereiro, às 17 horas. Paulo Sarmento, escritor e professor de Filosofia, falará da «solidão essencial» destes dois escritores e de alguns tópicos que os ligam: a experiência interior e a impossibilidade da literatura, a indeterminação do «ficcional», a «exigência fragmentária», a morte, a escrita, a comunidade... 


Veremos o documentário de Hugo Santiago Maurice Blanchot, de 1998, e conversaremos sobre o filme e o que ouvimos. E, como já vem sendo hábito, teremos mais um «Caderno da Letra E» dedicado a este encontro, com textos em diálogo, extraídos dos livros de Blanchot e dos cadernos inéditos e também alguns livros de Llansol.
Fica aqui a página de abertura, que dá o «tom» de mais este caderno:
 

26.1.14

«OLHAR É DIFERENTE DE ANALISAR 
E COMPREENDER...»
Kiarostami-Llansol na «Letra E»


O filme, a um tempo apaziguante e inquietante, de Abbas Kiarostami (Five. Dedicated to Ozu), uma sequência de cinco longos planos, proporcionou ontem na «Letra E» momentos únicos de contemplação (e depois e conversa entre os presentes). O ponto de vista cinematográfico foi brevemente comentado por Daniel Ribeiro Duarte, que mostrou algumas linhas de afinidade entre o cinema de Yasujiro Ozu e este filme de Kiarostami – um «documentário» muito sui generis, com um claro substrato narrativo sem enredo nem diálogos nem personagens. Como em Llansol, com actantes humanos e não humanos que podemos ver como «figuras», contra o pano de fundo do enigma transparente do ser e do tempo que nos leva a perguntar, em cada uma das cinco cenas, o que é que acontece no que está a acontecer sob os nossos olhos – o que acontece, e não o porquê, nem sequer o como desse acontecer.
O caderno que os que vieram levaram consigo contém uma selecção de textos, na sua maior parte inéditos, de M. G. Llansol que evidenciam pontos de encontro e diálogo com este seu interlocutor «improvável», quer com o filme quer com os poemas de Abbas Kiarostami que seleccionámos para acompanhar o caderno de textos. Um encontro que passou pelos tópicos do olhar («o olho de olhar», e não apenas «o olho comum», diz Llansol), do tempo («o tempo suspenso na casa» – ou no mundo) e da noite («o maior objecto sensual que envolve todas as coisas», lemos num dos fragmentos).
Deixamos aqui a introdução a mais este caderno da Letra E, as páginas com os poemas de Kiarostami e o link para quem, não tendo ido a Sintra, queira ainda ver este invulgar filme sobre a impermanente permanência das coisas do Ser.

(Clique nas imagens para aumentar)



(Para aceder ao filme clique aqui: http://vimeo.com/70968833)

21.1.14

OLHAR O SER, ESCUTAR O TEMPO
Encontros improváveis na «Letra E»


Quem vier no próximo sábado (25 de Janeiro, às 17 horas) à «Letra E» do Espaço Llansol poderá entrar por algum tempo num oásis, em pleno deserto ruidoso do mundo quotidiano que nos envolve. Pede-se apenas que tragam duas coisas: primeiro, a capacidade de não esperar que muita coisa aconteça – mas haverá sempre alguma coisa a acontecer, a dar-se a ver, a cair literalmente sobre nós; depois, ser capaz de se despir de ideias (de ideias feitas, também pelo cinema que mais se vê) e de mergulhar num estado de nudez mental que alimenta a imaginação e a faculdade do olhar.



A festa do olhar, o tempo que se espraia nas imagens, os ritmos do mundo, o mistério da noite – é isso o que temos para oferecer, com o filme do iraniano Abbas Kiarostami Five. Dedicated to Ozu (um filme feito só de tempo e imagem, sem qualquer diálogo), e um dos nossos caderninhos com textos inéditos de M. G. Llansol que entram num inesperado diálogo com esse filme – que Llansol nunca viu. E ainda um desdobrável com vinte poemas minimais, imagistas, de Kiarostami. As ligações à tradição do despojamento e do silêncio no cinema e na poesia estarão presentes, quer através da relação explícita deste filme com o cineasta japonês Yasujiro Ozu (que Daniel Ribeiro Duarte comentará), quer pelos poemas, escritos na tradição do haiku (e também do imagismo americano), também eles revelando evidentes afinidades com este e outros filmes de Abbas Kiarostami. Um feliz «encontro inesperado do diverso».

Nota: A sessão sobre «Llansol e os rostos do tempo» (a pretexto da publicação do Almanaque Llansol de Ilse Pollack), que chegou a ser anunciada na Agenda Cultural de Sintra para este dia 25 de Janeiro, foi cancelada devido ao falecimento súbito do nosso amigo, sócio e coleccionador Alfredo Santos, que deveria estar presente nessa sessão com alguns almanaques das suas colecções.

20.1.14

TEORIA DA DES-POSSESSÃO REEDITADO

O livro de Silvina Rodrigues Lopes Teoria da Des-possessão, seminal para os estudos llansolianos quando foi publicado pela Black Sun Editores em 1988, foi agora reeditado pela Averno com uma bela capa de Inês Dias.


O ensaio de Silvina Rodrigies Lopes, que, em 1988, tinha ainda relativamente poucas obras de Llansol à sua disposição, abre de forma fulgurante (e incisiva, no modo como capta in nuce um universo e um modo de escrita). Assim:

(Clique na imagem para aumentar)

Só podemos congratular-nos com a iniciativa da Averno ao tornar novamente disponível um dos ensaios mais penetrantes sobre a Obra de M. G. Llansol.


10.1.14

LLANSOL E OS LUGARES IMAGINÁRIOS
DA LITERATURA


O JL desta semana, inspirado no Dicionário de Lugares Imaginários de Alberto Manguel (editado cá pela Tinta da China), traz um dossier com depoimentos de vários escritores sobre o tema na literatura portuguesa e mundial. Entre esses lugares imaginários não poderiam deixar de estar os das paisagens textuais, existentes-não-reais ou reais-não-existentes, criadas por M. G. Llansol. Um deles (aliás, dois) é evocado por Hélia Correia no seu depoimento, em que diz: 

O meu lugar imaginário em Portugal tem testemunhos no real: não um, mas dois. É o «Grande Maior» de Parasceve, o livro de Maria Gabriela Llansol. O Grande Maior é um plátano em cuja copa há uma cidade. Uma cidade onde a clorofila é a cor dominante, onde está posta uma mesa de banquete, onde há praças e esplanadas «cujas cadeiras se comportam com as mesas de uma maneira absolutamente inimaginável». A escrita de Llansol que, como a sua vida, decorre no «jardim que o pensamento permite», toca nas coisas mais vulgares e transfigura-as. Se ela as olhou, não tornarão a ser as mesmas.  
O Grande Maior da Volta do Duche, em Sintra, ao qual ela fazia sempre uma saudação, tem agora uma placa evocativa. O meu lugar imaginário – onde vou muita vez ler os seus textos – é outro. É outra copa de outra árvore-cidade, outro Grande Maior. Maria Gabriela levou-me um dia, fisicamente, lá. Existia para nós e era um segredo. Como o Plátano e a sua insuspeita cidade, todos o vêem e ninguém o vê. Mas quem quiser encontra-o no seu texto.