2.10.13

NOVOS LIVROS 
NAS JORNADAS LLANSOLIANAS

No dia 12 de Outubro à tarde apresentaremos, no âmbito das V Jornadas Llansolianas de Sintra, três novos livros: o terceiro volume dos «Livros de Horas», Numerosas Linhas, cobrindo o período de 1979-1980 nos cadernos manuscritos de M. G. Llansol, em Jodoigne e já Herbais, época de grande intensidade de escrita, com três livros nascendo em paralelo, como se pode ler no prefácio de João Barrento e Maria Etelvina Santos:
Este terceiro volume do Livro de Horas cobre um terreno de múltiplas convergências, passagens, derivas e tonalidades literárias e de experiência.  Situado cronologicamente entre o último ano da «casa de Julho e Agosto», a de Jodoigne, e os primeiros meses do «cativeiro de Herbais», ele assinala, para Llansol, várias mudanças significativas; o fim do trabalho nas escolas e na cooperativa de produção (a Escola da Rua de Namur, em Lovaina, e a Ferme Jacob, em Louvain-la-Neuve), a abertura a um tempo que haveria de ser só de escrita, a conclusão da primeira trilogia (com Na Casa de Julho e Agosto) e a entrada na matéria, em grande parte nova, da segunda, com Causa Amante e a busca ainda incerta do que se seguiria. As «numerosas linhas» que aqui se abrem permitem acompanhar três livros em fases de conclusão ou gestação simultâneas. Muito do que não entrou nesses livros — Na Casa de Julho e Agosto, Causa Amante e Da Sebe ao Ser — pode ler-se aqui, esboçado com a intenção de encontrar o seu lugar em livros que nunca apareceriam com os títulos que aqui recebem: «O Nascimento de Ana de Peñalosa» (para Causa Amante), «Numerosas Linhas» e «Com João» (que iriam desaguar em Da Sebe ao Ser). 
Este livro será apresentadom pela Professora Paula Morão, da Faculdade de Letras de Lisboa.


Um segundo livro: o sétimo volume da colecção «Rio da Escrita», editada desde 2008 na Mariposa Azual, desta vez documentando as Jornadas de 2012, dedicadas a «Pessoa e Bach na Casa de Llansol». Do «Pórtico», destacamos: Foi uma recapitulação o que nos propusémos fazer nas Quartas Jornadas Llansolianas de Sintra, que este volume documenta, essencialmente no que aos textos diz respeito. Os seus muitos intervenientes, «llansolianos» e «pessoanos» de Portugal e do Brasil, e de várias áreas artísticas – o cinema e a performance, a pintura e a música –, permitiram re-capitular, voltar a percorrer e a ler, capítulo a capítulo, a longa e fabulosa história da relação de M. G. Llansol com as figuras de Pessoa/Aossê e J. S. Bach, tendo como pano de fundo toda a plêiade de outras figuras e figurações que compõem esta paisagem singular da Obra da Autora: Spinoza e Infausta, Anna Magdalena e Elizabeth, o cão Jade e a Rapariga que temia a impostura da língua, Trimúrti, El Stejo e Cabo Espichel
A Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas  da UNL, Paula Cristina Costa, apresentará este novo volume da «Rio da Escrita». Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, modera a conversa.



Finalmente, uma publicação única e de grande originalidade, engendrada e construída por uma grande amiga, e leitora intensa de Llansol nos últimos anos, a austríaca Ilse Pollack, grande conhecedora das literaturas de língua portuguesa, a quem demos toda a colaboração necessária. O resultado foi um «Almanaque Llansol» em alemão, uma agenda perpétua com textos da Maria Gabriela para cada dia do ano e muitas ilustrações provenientes do arquivo do Espaço Llansol, de fotografias pessoais e de obras de alguns artistas portugueses. Uma beleza de livro, que contribuirá certamente para tornar mais conhecida a obra de Llansol no espaço de língua alemã. A editora é a Berlin Press (de Berlim, como o nome indica). Ilse Pollack estará nas Jornadas à conversa com João Barrento para apresentar esta sua originalíssima ideia, que tem em alemão o título Territorium der Randständigen, (adaptação livre do «Nós herdámos as margens», que encontramos em Causa Amante).



Estes, e todos os livros actualmente disponíveis de e sobre Llansol, em português e em línguas estrangeiras, editados em Portugal, no Brasil, em França, na Suíça, em Espanha, na Alemanha, estarão à venda na Grande Feira do Livro Llansoliano que organizámos para as Jornadas deste ano no Palácio Valenças. Teremos também nesta Feira todos os números disponíveis da série «Jade-Cadernos Llansolianos», todos os «Cadernos da Letra E», bem como cadernos de escrita, postais, marcadores e lápis com motivos do espólio de Llansol.

1.10.13

LLANSOL E JORGE DE SENA

O site «Ler Jorge de Sena», dirigido pela Profª Gilda Santos, conhecida seniana da da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publica no seu último número um artigo de Tatiana Pequeno, professora daquela Universidade e doutorada com uma tese sobre M. G. Llansol («Um canto humano de animal em consonância com a terra prometida»: Aspectos políticos da Obra de Maria Gabriela Llansol, UFRJ, 2011), no qual se analisa e comenta o lugar de Jorge de Sena (enquanto tal e como figura com o nome de Jorge Anés) na obra de Llansol. 
A figura de Jorge Anés, que já conhecíamos de livros como Causa Amante (cf. pp. 88, 94-103), reaparece no Livro de Horas 3 (Numerosas Linhas), que será lançado daqui a dias nas V Jornadas Llansolianas de Sintra. Nessas páginas deste novo Livro de Horas se completa a narrativa do «nascimento e suplício de Jorge Anés num auto de fé» e da sua «identificação a Camões» (pp. 53-54, 57).  
Reproduzimos também neste novo diário inédito de Llansol as páginas de Inquisição e Cristãos Novos, de António José Saraiva, em cujas margens a autora escreve um longo fragmento que intituta «O jardim de Jorge Anés» (pp. 72-73):


O texto completo de Tatiana Pequeno pode ler-se clicando na legenda da imagem abaixo.
Ler Jorge de Sena

29.9.13

PRIMEIRA NOTÍCIA SOBRE O NOVO «LIVRO DE HORAS»

O blogue Tudo sobre Sintra – a quem agradecemos desde já a notícia – deu, depois de nós divulgarmos o programa das Quintas Jornadas Llansolianas de Sintra (ver, nesta página, o dia 7 de Setembro), a primeira informação sobre o novo volume do «Livro de Horas», com o título Numerosas Linhas, que estará nas livrarias em 4 de Outubro, como noticia também o Diário Digital de hoje.



7.9.13

«TRANS-DIZER»
AS QUINTAS JORNADAS LLANSOLIANAS 
DE SINTRA

Maria Gabriela Llansol usa, em Os Cantores de Leitura, a expressão «transdizer» para referir as várias formas de passagens implicadas nos processos de tradução. São esses processos, nas múltiplas variantes que os configuram, que estarão presentes nas próximas Jornadas Llansolianas de Sintra, que terão lugar em 12 e 13 de Outubro no Palácio Valenças.
As Jornadas deste ano reunirão em Sintra seis tradutores de Llansol (de Espanha, França, Alemanha, Áustria e Estados Unidos), vários artistas que «traduziram» o texto de Llansol para outras linguagens (pintura, desenho, cinema, música) e escritores, professores e actores que comentarão e lerão as singulares versões de poetas franceses por Maria Gabriela Llansol.


Desde que começou a escrever o livro-fonte de toda a sua Obra, O Livro das Comunidades, que M. G. Llansol «traduz» – se por isso entendermos uma espécie de osmose com os autores que traz ao seu próprio texto, assimilando-os discretamente, saqueando os seus textos para os transmutar numa troca intertextual que, desde João da Cruz, vai dando corpo a um eterno retorno do outro no mútuo; ou ainda trazendo à casa da língua portuguesa (sob pseudónimo ou com nome próprio) poetas e outros autores, predominantemente de língua francesa. De um modo ou de outro, traduzir nunca é, para Llansol, um gesto unidireccional ou um mero ofício de palavras. Traduzir é trans-dizer. Traduzir o outro arrasta consigo mundos, é um acto homofágico e uma ressonância osmótica, uma cor-respondência com esse outro. O que diz muito sobre a natureza tão singular das versões llansolianas. E ser traduzida por outros – em linguagem verbal ou noutras – implica igualmente tomar consciência desse salto.
Destes e certamente de muitos outros tópicos se falará nas Jornadas deste ano, de que deixamos já aqui o programa, que inclui ainda apresentação de novos livros e um filme excepcional sobre os caminhos e descaminhos desta múltipla prática das passagens.

1.9.13

O BANQUETE, OU DO AMOR

Recebemos no sábado, último dia de Agosto, que já anuncia o regresso às actividades regulares, uma visita, não propriamente inesperada, mas muito desejada. A Sílvia, Sílvia das Fadas, como gosta de ser chamada, veio da Califórnia, e daqui a pouco lá estará de novo para estudar e fazer o cinema que para ela faz mais sentido. E voltou ao lugar onde, durante uns dois anos, ajudou a tratar e a tornar disponível o espólio da Maria Gabriela e nos acompanhou em algumas das andanças – filmagens e fotografias – que fizémos para a exposição do CCB em 2011, e para outros projectos futuros.
A Sílvia era a mola do sonho no Espaço Llansol, e nós fizémos-lhe ontem uma pequena festa de despedida antes do regresso ao Californian Institute of the Arts. O Espaço Llansol – que, para além de lugar de trabalho contínuo e rigoroso, é também paisagem de muitos afectos e de memórias – vibrou com uma vibração especial durante este sábado, com a presença da Sílvia e com o almoço que preparámos para ela, aproveitando o saber da Helena, que transforma alimentos em obras de arte e ementas em poemas! 

Foi um pouco assim como naquele lugar perdido da península da Jutlândia onde acontece O Festim de Babette, esse filme que Maria Gabriela Llansol evoca em Um Beijo Dado Mais Tarde. Voltamos a oferecer aqui alguns fragmentos dessas páginas à Silvia (levemente ajustados ao nosso reencontro), que os levará para a Califórnia como testemunho de afecto e da memória de um tempo que poderá sempre voltar a acontecer neste Espaço que, em dias como estes, e outros, se transforma verdadeiramente em Lugar:

(Clique nas imagens para aumentar)
Foi um almoço rigoroso, em que o paladar trocava o amor com os alimentos, em que os dez convivas, abrindo-se ao prazer da boca e do olhar, rememoraram e tornaram presentes as pessoas, nos acontecimentos de ouro das suas vidas: cristal, ouro, prata, iguarias, arte de preparar os alimentos reuniram-se no momento único do almoço em que não houve traidor [esta não foi uma Última Ceia!].
[...]
Eu via, no desenrolar dessa refeição, a manifestação dos bens da terra. O conhecimento que traz a abundância, a ponto de tornar generosos os homens. O prazer do Amante e a alegria de viver não podiam faltar a um tal festim.
E, na realidade, assim foi...

Era isto o que nós queríamos dizer à Sílvia, ou Témia, ou a Rapariga que temia a impostura da língua e das imagens....


24.8.13

... E A FRANÇA CONTINUA A DESCOBRIR LLANSOL...

__________ e pasma com a originalidade desta Obra. Descobrimos agora (pela mão da tradutora Cristina de Melo), em pleno Agosto, tempo do incaracterístico, da espera por uma rentrée que não trará novidades – «mês de Agosto, mês sem rosto», escreve Llansol num dos cadernos –, o que o site francês Livres-Addict, atento a tudo o que são livros, filmes e exposições especiais, escreve sobre a edição francesa de Finita, aqui.
Para os que não lêem esta língua (e que cada vez vão sendo mais), transcrevemos o final da recensão de BH (i.e. a romancista Bénédicte Heim) – que é mais do que isso, é a expressão de um genuíno espanto por haver escrita como esta:

«É um condensado, um precipitado fulminante das mais profundas e mais agudas aspirações humanas.
O processo de escrita é, página a página, desconcertante e envolvente.
O conjunto é absolutamente inaudito.»


14.7.13

O FAUSTO DE GOETHE/SOKUROV
E O UNIVERSO LLANSOL

Nas duas últimas sessões da Letra E, em 6 e 13 de Julho (as últimas antes das férias de Verão), levámos a cabo mais um «encontro inesperado do diverso», como tantas vezes tem acontecido no último ano e meio, desde que inaugurámos este espaço público em 28 de Janeiro de 2012.

Desta vez, o centro das leituras, das conversas e discussões, muito animadas por todos os interessados que vieram à Letra E, foi o assunto do mito de Fausto, recentemente reavivado pela força enigmática e por vezes avassaladora que irradia do último filme do russo Aleksandr Sokurov, Fausto, que encerra a tetralogia do poder, concebida e realizada por este grande cineasta com os filmes Moloch (1999, sobre Hitler), Taurus (2001, sobre Lenine) e O Sol (2005, sobre o imperador Hirohito do Japão); e, a fechar, o desvio, um filme subtilmente concebido contra as tramas do poder e trazendo a primeiro plano a força do desejo, que é este Fausto, de 2011.

No sábado, dia 6 de Julho, os actores Diogo Dória, Guilherme Mendonça e Elsa Bruxelas leram cenas, escolhidas em função do filme, da obra original de onde parte Sokurov, o Fausto de Goethe, na tradução de João Barrento (Relógio d'Água, 1999, 2ª ed. 2013, com muitas dezenas de pinturas de Ilda David', algumas das quais expostas na Letra E nestes dias). Esta primeira sessão, em que também se comentou e discutiu a matéria mítica e literária de Fausto, preparou a segunda, em que visionámos o filme de Sokurov, procurando encontrar linhas de ligação (surpreendentemente, ou não, muitas e as mais diversas) ao universo de Maria Gabriela Llansol – que, como testemunham alguns dos livros expostos, provenientes da sua biblioteca, já se interessara por Goethe, e lera o Fausto na versão de Gerard de Nerval, a correspondência, a poesia, nos anos oitenta, ainda na Bélgica.

A introdução de João Barrento ao caderno que, como vem sendo hábito, fizemos e distribuímos, com cenas do Fausto, pinturas de Ilda David' e fotogramas do filme (e que se pode ler ou descarregar abaixo), faz uma síntese de alguns aspectos essenciais do filme e tenta assinalar alguns dos nós por onde poderá passar mais este «encontro inesperado do diverso».

28.6.13

LLANSOL - SOKUROV - FAUSTO
Uma ligação surpreendente

Nos dois primeiros sábados de Julho, dias 6 e 13, a «Letra E» será o lugar de um encontro no mínimo surpreendente: o universo de M. G. Llansol e o assunto de Fausto, tal como nos surge no recente filme de Aleksandr Sokurov, que pôde ser visto durante algumas semanas num cinema de Lisboa.

Na sessão do dia 6, às 17 horas, faremos uma introdução à matéria história, mítica e literária de Fausto, com pontes para o universo Llansol e leitura de cenas do Fausto de Goethe, que inspirou Sokurov, pelos actores Diogo Dória, Manuel Wiborg e Elsa Bruxelas. E no dia 13 (às 16 horas, uma hora mais cedo do que o habitual!!) mostraremos o filme numa versão bluray de alta definição e conversaremos sobre as suas ligações a alguns filões da obra de Llansol.
Nesses dias, a pintora Ilda David' exporá na Letra E uma série de quadros feitos para a edição portuguesa da tradução do Fausto por João Barrento, mas não incluídos no livro.
E, como já vem sendo hábito, haverá mais um caderno que documenta esta relação, e que contém os excertos que serão lidos pelos actores no dia 6:

A seguir faremos a pausa de Verão, para retomarmos as actividades em Setembro ou Outubro. E anunciamos já as Quintas Jornadas Llansolianas de Sintra para os dias 12 e 13 de Outubro. Este ano trataremos o tema da «tradução» numa tripla vertente: Llansol tradutora (as traduções de poetas de língua francesa, e outras), Llansol traduzida (com a presença de alguns dos seus tradutores para castelhano, francês, alemão e inglês) e Llansol trans-criada, significando isto as passagens dos seus textos para várias artes – pintura, desenho, colagem, música, cinema, performance – com a presença de artistas que até hoje deram corpo a estas passagens criativas.

23.6.13

LLANSOL NA IMPRENSA PORTUGUESA


Tivémos ontem, sábado, mais um encontro na Letra E, desta vez para analisar e comentar a presença e a recepção crítica de M. G. Llansol e da sua Obra na imprensa portuguesa desde a publicação do seu primeiro livro, Os Pregos na Erva, em 1962.
Helena Vieira, editora e investigadora em Comunicação Social, fez uma síntese da evolução dessa fortuna crítica, salientou as vicissitudes e os momentos altos dessa presença nos jornais, com destaque para os anos sessenta e o primeiro livro de Llansol, muito comentado pela crítica da época; os anos entre 1984 e 1986, com o aparecimento quase simultâneo de Na Casa de Julho e Agosto e Causa Amante, e com a polémica desencadeada em torno de Um Falcão no Punho e do Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, que o júri, muito dividido, acabou por atribuir a um livro de António Lobo Antunes; finalmente, ainda em 1991, o ano com mais artigos, reportagens e críticas em que Llansol é tema (perto de setenta), uma vez mais em torno de um livro candidato ao Grande Prémio, que acabou porb receber nesse ano pela primeira vez: Um Beijo Dado Mais Tarde. A partir dos anos oitenta, de acordo com a análise de Helena Vieira, baseada nos cerca de seiscentos recortes de jornais que temos no nosso arquivo, Llansol passou a ser um caso incontornável na cena crítica portuguesa, e continuou a dividir as opiniões. Helena Vieira salientou as intenções dos críticos e os efeitos sobre os leitores de um certo tipo de adjectivação que se generalizou, e que acabou por criar na opinião pública uma imagem algo simplificada, e ambígua de Llansol e da sua Obra, muitas vezes etiquetada de «difícil», «estranha», «hermética», «inclassificável», «esotérica» (a própria Llansol o lembra quando, na carta a Eduardo Prado Coelho a propósito do Salon du Livre de Paris em 2000, escreve: «Serei sempre a esotérica de serviço»).

 (Foto: Vina Santos)

Paula Morão, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e uma das vozes que a partir dos anos oitenta foi acompanhando criticamente –  no Expresso, no Jornal de Letras, no Letras & Letras, na revista Colóquio-Letras – os livros de Llansol que iam saindo, evocou algumas das razões (e das histórias de bastidores) para as polémicas em torno do seu nome por altura da atribuição dos prémios referidos, traçou paralelos com outros escritores portugueses e a sua imagem na crítica (entre outros, Rui Nunes, Irene Lisboa ou Maria Velho da Costa) e tentou situar um caso como o de Llansol no panorama crítico português e nas suas oscilações, desde João Gaspar Simões, figura controversa, mas um dos mais influentes e certeiros críticos regulares nos jornais portugueses. Também neste caso a própria Llansol se refere por vezes a Gaspar Simões nos seus cadernos, como foi lembrado por João Barrento, que leu uma passagem de um desses cadernos em que a ambivalência em relação a este crítico é evidente. Escreve M. G. Llansol em 28 de Março de 1979:
«O que torna Gaspar Simões intragável é o retorno constante à preocupação de que não pode enganar-se. Quanto ao que diz, diz melhor do que a maioria dos críticos portugueses que, com perseverança, não dizem nada (...) É estranho; enviei o meu último livro, O Livro das Comunidades, a João Gaspar Simões, e espero continuar a enviar-lhe outros livros; talvez a sua opinião me interesse mais do que eu julgo, talvez eu o demova e salve da sua infalibilidade (...) Apesar de tudo, ele reflecte com constância sobre a literatura.» (Caderno 1.06, pp. 261-262).

Em diálogo (fotos de Teresas Huertas)


Maria Gabriela Llansol comenta, aliás, com alguma frequência, sobretudo nos anos do exílio belga, o mundo literário, editorial e jornalístico português nos cadernos manuscritos, lamentando o sil|encio a que é votada, a situação da literatura portuguesa e o que vê já como uma certa mercantilização, a distância que medeia entre «as margens da língua» em que escreve e as «páginas literárias» que lhe chegam de Portugal, com o seu «pequeno comércio das relações e da cultura». Mais tarde, quando regressa a Portugal, a sua presença na crítica é uma constante sempre que sai um livro novo, e ela própria reconhece o papel decisivo de alguns dos seus críticos para iluminar os seus livros. Transcrevemos algumas dessas passagens, recolhidas por João Barrento nos cadernos do tempo de Jodoigne e Herbais, tempo de espera, entre 1979 e 1984:

17 de Março de 1979, sábado
Fechado é o exílio das cartas e das referências. Votaram-me ao silêncio mais completo. É como se eu estivesse numa prisão, ou obrigada a manter-me em residência vigiada, sempre com o silêncio do que escrevo à volta, sempre com o silêncio com que escrevo. Assim, tudo ignoro do que escrevo, a não ser a necessidade de o fazer.

30 de Maio de 1979, quarta
Destituo-me da literatura e passo para o lado da língua; abandonei o meu papel equívoco de mundanamente e mudamente pedir reconhecimento, e constatei que, para lá do campo da literatura vigente, há o campo inundado da língua, sempre a evoluir na fenomenologia do tempo; não peço mais ser o que não poderei ser, pois tomei deliberadamente outro caminho em que escrever faz parte dos amores íntimos, intimamente.

1 de Dezembro de 1981
... A crítica literária tinha uma linguagem paralela à da literatura, fechava-se no mesmo labirinto, que era simples. Diziam ambas que existia o que todos sabiam que existia, e diziam-no do ponto de vista de uma forma que a realidade não merecera (...)
Eu, quando lia o Jornal de Letras e Artes, não me sentia mais excluída do que antigamente. Mas agora havia um sinal que despontava: essa exclusão era positiva desde que eu acedera, com a alma inteira em resposta, ao que me tinha sido proposto. O que me tinha proposto ao longo da vida, tinha uma origem desconhecida, mas não vaga.  

28 de Dezembro de 1981
Chegou outro Jornal de Letras, Artes e Ideias, que leio com uma certa tristeza. Creio ter-me afastado muito das possibilidades reais da minha língua, hoje, onde estão as letras, as artes, as ideias, e as margens por onde tão velhos títulos deviam evaporar-se, tornar-se_______

21 de Julho de 1984
A crítica literária:
Ver um livro por tal grelha é como... olhar um diamante às escuras. A crítica literária, ou é cega, ou em tal escuro nenhum diamante pode ter brilho.
Feliz o livro que vive – e não teve crítica literária – e só foi lido. Respirou amplamente a sua leitura, e expandiu-a numa vasta paisagem, atingindo, por vezes, as fontes dos olhos de quem lê.

27 de Abril de 1984
Eduardo Lourenço considera as Trilogias obras de um escritor de futuro / universal – escritor solitário em terra portuguesa.
Principiava a sentir-me velha e densa. Velha da passividade que sinto através dos jornais, além do meu envelhecimento próprio. 
  
2 de Fevereiro de 1985, Mucifal
Crítica de A. Guerreiro a Na Casa de Julho e Agosto, sobre a qual medito profundamente. Vontade de recomeçar a escrever sem os desfalecimentos dos últimos tempos.
 
6 de Fevereiro de 1985
(num avulso do caderno 1.17, esboço de carta a Paula Morão)

Paula,
senti-me feliz por Na Casa de Julho e Agosto ter produzido efeitos de leitura e de análise, como a sua no Expresso. Pus-me a meditar através do que a Paula escrevera, e num instante pude atingir o livro, mais além, no seu belo texto.


Ao longo da sessão foi-se percebendo ainda como Maria Gabriela Llansol, na sua singularidade, foi funcionando ao longo dos anos como uma espécie de barómetro da crítica literária em Portugal. Na introdução ao caderno que, uma vez mais, distribuímos nesta sessão e que pode ser folheado em baixo, ou descarregado (com um conjunto de textos críticos representativos, entre 1962 e 2009, completando uma outra recolha, a do Caderno de Leituras editado pela Mariposa Azual em 2011), Helena Vieira conclui que «analisar a recepção jornalística desta Obra é também tentar desenhar o mapa desse campo, chamemos-lhe crítica literária, na última metade do século XX e princípios do século XXI». Nesse campo se desenham, quer «as grandes linhas de interpretação» (e também as de alguma recusa de interpretação), quer um «retrato da autora», ambas as coisas gerando, ou «o espanto desconcertado» (Gaspar Simões), ou «a admiração devota e confessa» (Eduardo Prado Coelho).

Leia alguns artigos aqui:


16.6.13

LETRA E:
LLANSOL NO ESPELHO DA CRÍTICA

A próxima sessão da «Letra E» do Espaço Llansol, no próximo sábado 22 de Junho, como sempre às 17 horas, fará um balanço da recepção crítica de Maria Gabriela Llansol na imprensa portuguesa no último meio século, desde a saída do seu primeiro livro, Os Pregos na Erva, em 1962. Helena Vieira, que vem estudando a recepção crítica da Obra de Llansol nos jornais portugueses, falará da «fortuna crítica» dessa obra na nossa imprensa, uma história em que intervêem, no último meio século, os nomes mais importantes da crítica jornalística portuguesa, desde Gaspar Simões, Alexandre Pinheiro Torres ou Álvaro Salema, passando por Maria Alzira Seixo, Fernando Pinto do Amaral ou Paula Morão, até António Guerreiro,  Eduardo Prado Coelho ou Manuel Gusmão.
À conversa com Helena Vieira estarão a professora e ensaísta Paula Morão e João Barrento. Como vem acontecendo desde o ano passado, haverá à disposição dos que vierem um caderno que recolhe alguns dos mais importantes textos sobre livros de Llansol desde Gaspar Simões.