Tivémos ontem, sábado, mais um encontro na Letra E, desta vez para analisar e comentar a presença e a recepção crítica de M. G. Llansol e da sua Obra na imprensa portuguesa desde a publicação do seu primeiro livro, Os Pregos na Erva, em 1962.
Helena Vieira, editora e investigadora em Comunicação Social, fez uma síntese da evolução dessa fortuna crítica, salientou as vicissitudes e os momentos altos dessa presença nos jornais, com destaque para os anos sessenta e o primeiro livro de Llansol, muito comentado pela crítica da época; os anos entre 1984 e 1986, com o aparecimento quase simultâneo de Na Casa de Julho e Agosto e Causa Amante, e com a polémica desencadeada em torno de Um Falcão no Punho e do Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, que o júri, muito dividido, acabou por atribuir a um livro de António Lobo Antunes; finalmente, ainda em 1991, o ano com mais artigos, reportagens e críticas em que Llansol é tema (perto de setenta), uma vez mais em torno de um livro candidato ao Grande Prémio, que acabou porb receber nesse ano pela primeira vez: Um Beijo Dado Mais Tarde. A partir dos anos oitenta, de acordo com a análise de Helena Vieira, baseada nos cerca de seiscentos recortes de jornais que temos no nosso arquivo, Llansol passou a ser um caso incontornável na cena crítica portuguesa, e continuou a dividir as opiniões. Helena Vieira salientou as intenções dos críticos e os efeitos sobre os leitores de um certo tipo de adjectivação que se generalizou, e que acabou por criar na opinião pública uma imagem algo simplificada, e ambígua de Llansol e da sua Obra, muitas vezes etiquetada de «difícil», «estranha», «hermética», «inclassificável», «esotérica» (a própria Llansol o lembra quando, na carta a Eduardo Prado Coelho a propósito do Salon du Livre de Paris em 2000, escreve: «Serei sempre a esotérica de serviço»).
(Foto: Vina Santos)
Paula Morão, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e uma das vozes que a partir dos anos oitenta foi acompanhando criticamente – no Expresso, no Jornal de Letras, no Letras & Letras, na revista Colóquio-Letras – os livros de Llansol que iam saindo, evocou algumas das razões (e das histórias de bastidores) para as polémicas em torno do seu nome por altura da atribuição dos prémios referidos, traçou paralelos com outros escritores portugueses e a sua imagem na crítica (entre outros, Rui Nunes, Irene Lisboa ou Maria Velho da Costa) e tentou situar um caso como o de Llansol no panorama crítico português e nas suas oscilações, desde João Gaspar Simões, figura controversa, mas um dos mais influentes e certeiros críticos regulares nos jornais portugueses. Também neste caso a própria Llansol se refere por vezes a Gaspar Simões nos seus cadernos, como foi lembrado por João Barrento, que leu uma passagem de um desses cadernos em que a ambivalência em relação a este crítico é evidente. Escreve M. G. Llansol em 28 de Março de 1979:
«O que torna Gaspar Simões intragável é o retorno constante à preocupação de que não pode enganar-se. Quanto ao que diz, diz melhor do que a maioria dos críticos portugueses que, com perseverança, não dizem nada (...) É estranho; enviei o meu último livro, O Livro das Comunidades, a João Gaspar Simões, e espero continuar a enviar-lhe outros livros; talvez a sua opinião me interesse mais do que eu julgo, talvez eu o demova e salve da sua infalibilidade (...) Apesar de tudo, ele reflecte com constância sobre a literatura.» (Caderno 1.06, pp. 261-262).
Em diálogo (fotos de Teresas Huertas)
Maria Gabriela Llansol comenta, aliás, com alguma frequência, sobretudo nos anos do exílio belga, o mundo literário, editorial e jornalístico português nos cadernos manuscritos,
lamentando o sil|encio a que é votada, a situação da literatura
portuguesa e o que vê já como uma certa mercantilização, a distância que medeia entre «as margens
da língua» em que escreve e as «páginas literárias» que lhe chegam de
Portugal, com o seu «pequeno comércio das relações e da cultura». Mais
tarde, quando regressa a Portugal, a sua presença na crítica é uma
constante sempre que sai um livro novo, e ela própria reconhece o papel
decisivo de alguns dos seus críticos para iluminar os seus livros.
Transcrevemos algumas dessas passagens, recolhidas por João Barrento nos
cadernos do tempo de Jodoigne e Herbais, tempo de espera, entre 1979 e
1984:
17
de Março de 1979, sábado Fechado é o exílio das cartas e das referências. Votaram-me ao silêncio mais completo. É como se eu estivesse numa prisão, ou obrigada a manter-me em residência vigiada, sempre com o silêncio do que escrevo à volta, sempre com o silêncio com que escrevo. Assim, tudo ignoro do que escrevo, a não ser a necessidade de o fazer.
30 de Maio de 1979, quarta Destituo-me da literatura e passo para o lado da língua; abandonei o meu papel equívoco de mundanamente e mudamente pedir reconhecimento, e constatei que, para lá do campo da literatura vigente, há o campo inundado da língua, sempre a evoluir na fenomenologia do tempo; não peço mais ser o que não poderei ser, pois tomei deliberadamente outro caminho em que escrever faz parte dos amores íntimos, intimamente.
1 de Dezembro de 1981 ... A crítica literária tinha uma linguagem paralela à da literatura, fechava-se no mesmo labirinto, que era simples. Diziam ambas que existia o que todos sabiam que existia, e diziam-no do ponto de vista de uma forma que a realidade não merecera (...)
Eu, quando lia o Jornal de Letras e Artes, não me sentia
mais excluída do que antigamente. Mas agora havia um sinal que despontava: essa
exclusão era positiva desde que eu acedera, com a alma inteira em resposta, ao
que me tinha sido proposto. O que me tinha proposto ao longo da vida, tinha uma
origem desconhecida, mas não vaga.
28 de Dezembro de 1981
Chegou outro Jornal de Letras, Artes e Ideias, que
leio com uma certa tristeza. Creio ter-me afastado muito das possibilidades
reais da minha língua, hoje, onde estão as letras, as artes, as ideias, e as
margens por onde tão velhos títulos deviam evaporar-se, tornar-se_______
21 de Julho de 1984 A crítica literária: Ver um livro por tal grelha é como... olhar um diamante às escuras. A crítica literária, ou é cega, ou em tal escuro nenhum diamante pode ter brilho. Feliz o livro que vive – e não teve crítica literária – e só foi lido. Respirou amplamente a sua leitura, e expandiu-a numa vasta paisagem, atingindo, por vezes, as fontes dos olhos de quem lê.
27 de Abril de 1984 Eduardo Lourenço considera as Trilogias obras de um escritor de futuro / universal – escritor solitário em terra portuguesa. Principiava a sentir-me velha e densa. Velha da passividade que sinto através dos jornais, além do meu envelhecimento próprio.
2 de Fevereiro de 1985, Mucifal Crítica de A. Guerreiro a Na Casa de Julho e Agosto, sobre a qual medito profundamente. Vontade de recomeçar a escrever sem os desfalecimentos dos últimos tempos.
6 de Fevereiro de 1985
(num avulso do caderno 1.17, esboço de carta a Paula Morão) Paula, senti-me feliz por Na Casa de Julho e Agosto ter produzido efeitos de leitura e de análise, como a sua no Expresso. Pus-me a meditar através do que a Paula escrevera, e num instante pude atingir o livro, mais além, no seu belo texto.
Ao longo da sessão foi-se percebendo ainda como Maria Gabriela Llansol, na sua singularidade, foi funcionando ao longo dos anos como uma espécie de barómetro da crítica literária em Portugal. Na introdução ao caderno que, uma vez mais, distribuímos nesta sessão e que pode ser folheado em baixo, ou descarregado (com um conjunto de textos críticos representativos, entre 1962 e 2009, completando uma outra recolha, a do Caderno de Leituras editado pela Mariposa Azual em 2011), Helena Vieira conclui que «analisar a recepção jornalística desta Obra é também tentar desenhar o mapa desse campo, chamemos-lhe crítica literária, na última metade do século XX e princípios do século XXI». Nesse campo se desenham, quer «as grandes linhas de interpretação» (e também as de alguma recusa de interpretação), quer um «retrato da autora», ambas as coisas gerando, ou «o espanto desconcertado» (Gaspar Simões), ou «a admiração devota e confessa» (Eduardo Prado Coelho).
A próxima sessão da «Letra E» do Espaço Llansol, no próximo sábado 22 de Junho, como sempre às 17 horas, fará um balanço da recepção crítica de Maria Gabriela Llansol na imprensa portuguesa no último meio século, desde a saída do seu primeiro livro, Os Pregos na Erva, em 1962. Helena Vieira, que vem estudando a recepção crítica da Obra de Llansol nos jornais portugueses, falará da «fortuna crítica» dessa obra na nossa imprensa, uma história em que intervêem, no último meio século, os nomes mais importantes da crítica jornalística portuguesa, desde Gaspar Simões, Alexandre Pinheiro Torres ou Álvaro Salema, passando por Maria Alzira Seixo, Fernando Pinto do Amaral ou Paula Morão, até António Guerreiro, Eduardo Prado Coelho ou Manuel Gusmão.
À conversa com Helena Vieira estarão a professora e ensaísta Paula Morão e João Barrento. Como vem acontecendo desde o ano passado, haverá à disposição dos que vierem um caderno que recolhe alguns dos mais importantes textos sobre livros de Llansol desde Gaspar Simões.
26.5.13
PROENÇA – LLANSOL: UM DIÁLOGO
Pedro Proença (PP), Pintor-Poeta, Prosador-Pensador Prolífico-Proteico, Pan-Pictórico, esteve ontem na «Letra E» do Espaço Llansol para nos falar das suas ligações de longa data à Obra de Llansol. Proença é autor de muitos textos que partem da Obra da escritora e com ela dialogam e a prolongam, no registo característico deste artista, entre a intuição certeira e a ironia que põe a nu o que de mais intrínseco há na Obra do outro. Alguns desses textos, assinados com heterónimos (como Sandralexandra & Soniantónia) ou pseudónimos (Renato Ornato, Julio Rato, etc.), podem ler-se em vários lugares da Internet onde PP vai escrevendo, nomeadamente o site da revista Triplov (http://www.triplov.com) ou os blogs sandrayantonia, juliorato, pierredelalande, tantricgangster, budonga ou renatoornato (todos em blogspot.com).
Para além da escrita, Proença desenvolveu igualmente todo um trabalho pictórico a partir de textos de Llansol. Uma parte desse trabalho está desde ontem exposto na nossas «Letra E», e em parte reproduzido no caderno que editámos, e que é revelador da indestrinçável relação entre escrita-caligrafia-desenho-colagem-pintura na Obra de Proença. As obras produzidas para esta ocasião constam de duas séries de desenhos-colagens, cada uma com trinta folhas, mas há outros exemplos de cruzamentos com livros de Llansol, como o exemplar de Contos do Mal Errante intervencionado por PP, que pode também ser visto na «Letra E», ou o quadro abaixo reproduzido, igualmente pintado a partir deste livro de Llansol.
Pedro Proença comentou este seu diálogo com Gabriela (e outros artistas, em particular Álvaro Lapa e Ernesto de Sousa) a partir de um caderno (que se pode ler/ver em baixo), onde arma o cerco a alguns nódulos centrais do texto de M. G. Llansol e os prolonga pela reflexão e pela ironia, para depois lhes dar corpo visual nos desenhos-colagens, que vão explorando tópicos decisivos, na interrelação entre desenho, texto próprio e fragmentos de Livros de Horas, iluminuras medievais ou manuscritos árabes e persas, onde o caderno, a escrita, a leitura, a cópia, os bichos, as figuras, têm lugar de destaque. Entrando no texto de Llansol – para logo dele sair com as suas criações próprias – pela via única e original do humor e da ironia, PP aborda este Texto com um olhar que, para os mais ortodoxos ou incautos leitores de Llansol, poderá parecer deslocado, quando afinal ele abre caminho a uma relação absolutamente livre, e as mais das vezes intuitivamente certeira, com a Obra de uma autora que, contrariamente ao que se possa pensar, é capaz de ironia e humor. Basta pensar em livros como O Senhor de Herbais, na ironia desconstrucionista exercida por Llansol sobre a forma do romance ou nos muitos momentos de ironia linguística que atravessam a sua Obra.
De tudo isto, e de outras coisas – como a escolha do «manifesto», presente no caderno de Proença, mas também, em formas diversas, explícitas e implícitas, na Obra de Llansol – se falou ontem, tendo como referência os Manifestos de PP para Gabriela e outros textos do artista, de que lemos excertos (os livros A Simplicidade da Barbárie / Esboço de romance convertido em aparente poema / em memória e louvor nada simplificado / de Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa e Maria Gabriela Llansol, e Gabriela & Ernesto. As Mutações e outras Acelerações do Vazio / Da vanguarda como fulgor / (em nomes de guerra que não o são)). Em pano de fundo, na conversa e nas obras de PP e MGL, o cruzamento de escrita e imagem, da letra e do desenho, em duas obras que são «armazéns de sinais» com marca muito própria, em que é patente a vontade de pintar-se a si para além de si, de trazer a primeiro plano o autobiográfico sem autobiografia, pelos efeitos de estranhamento, de proximidade-distância própios de um sentido superior da ironia, que estas duas Obras evidenciam. O resto está no Caderno que Pedro Proença nos deixou.
(Pode percorrer o caderno em formato maior clicando no pequeno rectângulo no canto inferior direito da barra)
20.5.13
PEDRO PROENÇA NA «LETRA E»
O pintor Pedro Proença, leitor de longa data da Obra de M. G. Llansol e analista fino, subtil e irónico dos seus livros, vai estar na «Letra E» do Espaço Llansol no próximo sábado, dia 25 de Maio, a partir das 17 horas.
Pedro Proença, desenho para a exposição Sobreimpressões (CCB, 2011)
Pedro Poença (que, lembre-se, desenhou um enorme painel sobre a temática portuguesa da Obra de Llansol, que ocupava toda uma parede na exposição do Centro Cultural de Belém em 2011) escreveu para esta ocasião Alguns Manifestos para Gabriela, onde arma o cerco a um certo número de nódulos centrais do texto llansoliano, prolongando-os pela reflexão própria. E depois dá-lhes corpo visual numa série de trinta desenhos-colagens que se propõem explorar o que neste Texto – vulnerável e aberto como tudo o que foge à doxa – é susceptível de ironia e humor.
Quem vier à «Letra E» no próximo sábado poderá ouvir o pintor explicar-nos o modo como entende, e transforma em matéria pictórica sua, tópicos da Obra de Llansol como a paisagem e o jardim, o belo e o sublime, a História e o humano, a figura e o romanesco.
E poderá ver os originais dos desenhos-colagens, livros de artista nascidos do contacto com o texto de Llansol, e o mais que o proteico Proença até lá ainda poderá produzir.
E como já vem sendo hábito na «Letra E«, os Manifestos e os desenhos estarão disponíveis num caderno para os que quiserem vir a Sintra nesse sábado.
11.5.13
LLANSOL NO MARCHÉ DE LA POÉSIE
DE PARIS
Enquanto não saem mais dois livros de M. G. Llansol em tradução francesa (o terceiro diário, Inquérito às Quatro Confidências, em tradução de Cristina Isabel de Melo, que já traduziu Finita e O Jogo da Liberdade da Alma; e Onde Vais, Drama-poesia?, em tradução de Guida Marques), os últimos livros editados por Pagine d'arte, com sede na Suíça, estarão presentes com destaque no pavilhão desta editora no Marché de la Poésie deste ano, que terá lugar em Paris entre 6 e 9 de Junho.
O Marché de la Poésie, que se realiza todos os anos em Junho na Place St. Sulpice, é um evento importante, que há trinta anos vem dando a ler a melhor poesia (e literatura) editada em francês. O Marché deste ano, que é já o 31º, tem como país-tema a Irlanda, e conta com a presença de alguns dos mais conhecidos nomes da poesia irlandesa de hoje, como Seamus Heaney, Paul Durcan, John Montague, Derek Mahon ou Medbh McGuckian, entre outros.
5.5.13
A «LETRA E» DE MAIO A JULHO
Divulgamos hoje o programa da Letra E para os próximos três meses, antes da pausa do Verão e das Jornadas de Setembro. Passarão por Sintra pintores (Pedro Proença e Ilda David'), críticos e professores universitários (António Guerreiro e Paula Morão, que comentam pela primeira vez, a partir do levantamento feito por Helena Vieira, a «fortuna crítica» de Llansol na imprensa portuguesa), actores bem conhecidos do público (Diogo Dória, Manuel Wiborg e Elsa Bruxelas) – e, last not least, veremos e comentaremos o grande filme do russo Aleksandr Sokurov realizado a partir do Fausto de Goethe, que teve carreira breve numa sala de cinema de Lisboa.
Voltaremos com informações mais pormenorizadas para cada um dos eventos.
23.4.13
CINCO LIVRINHOS
NO DIA MUNDIAL DO LIVRO
Hoje é o Dia Mundial do Livro, e queremos assinalá-lo aqui disponibilizando os cinco últimos livrinhos que fizémos para as sessões da «Letra E», e para outras acções de divulgação da escrita de Llansol.
Todos aqueles que não puderam acompanhar-nos nestas sessões poderão agora ler textos de M. G. Llansol, em grande parte inéditos, sobre temas e figuras como Hölderlin, a paisagem, Emily Dickinson, Augusto Joaquim e o «Ambo». E ainda um caderno que dá entrada na vida e na escrita de Llansol. Pode folhear os documentos, ou descarregá-los para o computador. Se quiser, pode também voltar a recordar o contexto em que alguns desses textos foram lidos ou comentados, indo às páginas deste blog nos dias indicados para cada um dos cadernos.
Jade, o Cão Jade, Leão Jade, regressou no sábado à Letra E, animada por muitos olhares curiosos de crianças (e adultos) suspensas da nova narrativa de Hélia Correia, alias Emily. O novo texto, que se entrecruza de forma sensível e subtil com o de Maria Gabriela Lansol, Amar um Cão, foi lido e visualmente animado pela actriz Inês Nogueira. A outra Inês (Melo, da linhagem do poeta Ramos Rosa) acompanhou-a com o seu acordeon.
A Albertina Pena fez de mestra de cerimónias, a pequena Catarina Galego trouxe-nos a sua visão de Leão Jade a pastel (e ofereceu o quadro à Letra E), e a Celeste Pedro e a Teresa Projecto (que também dispôs na cozinha o seu delicado «jardim que o pensamento permite») trataram de guiar a mão de meninos e meninas para que Jade renascesse nos seus pequenos cadernos, e finalmente numa obra colectiva toda feita de materiais reciclados, preparada pela Celeste, e que as fotos mostram.
Houve merenda na cozinha, e mostrámos os vinte desenhos-colagens que Augusto Joaquim fez em 2002 para a nova edição de Amar um Cão, e também as placas de identificação que Jade usava ao pescoço desde Jodoigne, na Bélgica. E cheiraram-se saquinhos com as plantas dadas a conhecer a Jade, que a Hélia/Emily foi costurando pacientemente na véspera, noite adentro.
Pode ver-se tudo na sequência fotográfica que se segue, para a qual fomos recuperar a peça «Inscrição», para duas flautas de bisel, que o João Madureira compôs para o nosso Colóquio de Mourilhe, com a Maria Gabriela, em Julho de2005.
No caderno que fizémos para mais esta sessão da Letra E, que pode ser folheado em baixo, dá-se a ler o texto de Hélia Correia, e a ver fotos de Jade e as plantas que lhe foram nomeadas pela dona (e que estavam presentes ao vivo). E é ainda possível ler o original manuscrito da carta de despedida que o dono, Augusto Joaquim, escreveu a Jade no dia seguinte ao da sua partida para parte incerta.
... desejo de, quando esta minha forma humana nos deixar, a mim ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro.»
(M. G. Llansol, Livro de Horas I)
Meia vida em fotografias: os caminhos de Augusto e Gabriela
na parede da Letra E no dia 6 de Abril
No sábado 6 de Abril evocámos Augusto Joaquim, o seu trabalho e a sua relação singular com Maria Gabriela Llansol, a «Gabi» das primeiras cartas de amor de 1965. Do que foi dito deixamos aqui um resumo alargado.
Esta sessão da
'Letra E' não tem paralelo com as anteriores – a não ser talvez com a primeira,
a inaugural, em que mostrámos e se falou da juvenilia
de M. G. Llansol, da sua Obra ainda desconhecida, anterior à publicação do
primeiro livro. Hoje ocupamo-nos da segunda metade dessa vida, indissociável
da de Augusto Joaquim a partir de 1964. A matéria vai ser, por isso, mais biográfica
do que habitualmente – mas não só: espero que se possa chegar a compreender um
pouco melhor a bio-signo-grafia do Há
destes dois «gémeos astrais» (Finita),
em permanente tensão e convergência.
Uma segunda
intenção desta sessão é dar a conhecer esse outro lado, um tanto oculto, de
Llansol e da sua escrita, sem o qual, por várias razões, esta não teria sido o
que foi: essa face oculta tem por nome Augusto Joaquim (-->AJ). Há, de
facto, um «défice de Augusto Joaquim» quando se fala de Llansol (-->MGL) e
da sua escrita. Mas a verdade é que ele teve parte activa e influência decisiva
nesta Obra e no seu devir-texto, desde logo por ter arrastado a sua autora para
um exílio que foi determinante para a sua mudança de paradigma literário e
existencial. Mas não só por isso, como veremos. Os cadernos e outros documentos
de ambos os espólios mostram hoje à evidência que sempre existiu uma forte
interacção, e que a presença e a intervenção de AJ foram determinantes para o
nascimento e o progresso da Obra de MGL a partir da ida para Lovaina. O diário Finita dá já bastante conta desta
disponibilidade de AJ, primeiro leitor dos seus textos e, no início,
frequentemente escrevente a quatro mãos com a «Gabi». Mas a interacção não se
limita à leitura dos textos que Gabriela vai escrevendo (um ritual – mas com
consequências efectivas – evocado pelo próprio Augusto no início do posfácio a Causa Amante); as conversas entre ambos
são determinantes para o andamento e a orientação de certos livros, a ponto de
Llansol se queixar do perigo que constitui para a sua própria autonomia a
inteligência reverberante do Augusto, reconhecendo também os estímulos que lhe
vêm dessa troca verdadeira: «Sempre Augusto foi para mim o terreno da explicação
e da consistência» (Caderno 1.13, p. 20, 9.2.82). Augusto é o parceiro que
inventa e lhe fornece conceitos (Entresser,
Isso, Esse, Sebastião, o Dom) e títulos (O Litoral do Mundo), e lhe dá a ler obras fundamentais (da área
científica ou pedagógica, mas também o I
Ching, como se verá no Livro de Horas 3,
em data de 5-4-79).
-->
Convém
então começar por falar do percurso, dos interesses, do universo de acção e
pensamento de Augusto Joaquim; e também, e sobretudo, dos seus modos de
relacionamento com a Maria Gabriela, da interpretação do seu Texto, e da
relação única entre ambos – relação de verdadeiro Ambo, um conceito a que já regressaremos –, a nível humano,
literário e intelectual.
-->
-->
I - Quem é Augusto Joaquim?
O único currículo
de que dispomos no espólio de Augusto Joaquim é sintomático do corte operado
por ele próprio em relação à sua vida anterior à deserção e à relação com a
Maria Gabriela. É um CV que omite toda a sua formação escolar, e de Seminário,
até à ida para o serviço militar em 1964. Currículo curioso, com uma larga zona
de silêncio, antes da ida para Lovaina, e ainda com outra marca evidente nesta
figura que escreveu muito, mas publicou pouquíssimo: por esse currículo (e pelo que hoje conhecemos do que deixou) se vê
que a maior parte do que escreveu está inédito, em papel, em disquetes e CDs. E
há ainda um terceiro aspecto relevante: o seu espectro de interesses e
actividades (que não contempla, neste CV, o lado artístico: colagens, desenhos,
bandas desenhadas-discursivas...) é muito amplo, e parece ir dar, desde cedo, a
uma área cuja metodologia será aplicada a diversos sectores, e muitas vezes a
textos de MGL: a termodinâmica do sentido
(podem ver-se alguns exemplos deste trabalho múltiplo no video que aqui
mostramos, e que dá a conhecer uma pequena parte do espólio de AJ).
Não sabemos
exactamente quando AJ e MGL se conheceram, mas pela correspondência (amorosa)
deixada, terá sido antes de Agosto de 1964, provavelmente na Igreja de Santa
Isabel, em Campo de Ourique (onde moravam, quer a Maria Gabriela, quer os pais
do Augusto). Nas cartas trocadas antes do casamento em 28 de Setembro de 1965,
e ainda até à deserção de AJ em Dezembro desse ano, é já possível constatar que
existe, da parte do Augusto, mas não da «Gabi», um progressivo questionamento
de si próprio e do substrato católico de onde ambos vêm. Essas cartas revelam
por vezes uma maturidade intelectual e humana extraordinária para um homem de
vinte anos, acabado de sair do Seminário dos Olivais, em Lisboa! Em Llansol, a
ruptura, se disso se pode falar, dar-se-á a partir da descoberta própria de um
outro sentido para a espiritualidade fora da instituição, com os místicos
flamengos, renanos e ibéricos, que transparece na primeira trilogia, «Geografia
de Rebeldes».
Augusto Joaquim
estudará, em Lovaina, Sociologia e Ciências Políticas, tendo apresentado uma
original tese sobre o Salazarismo em 1970. O meio de Lovaina, onde irão
encontrar muitos exilados políticos, apresentava-se como um mundo novo, quando
comparado com o Portugal de Salazar, que haviam deixado voluntariamente.
Llansol esclarece bem essa passagem decisiva, numa entrevista-carta a uma
jornalista de nome Maria Helena (com várias versões, e que provavelmente nunca
chegou a sair), com data de Junho de 1980, e que poderá ser lida no Livro de Horas 3, a sair este ano.
Neste ambiente
nasce também a escola da Rua de Namur e, depois, a cooperativa e escola Ferme
Jacob/La Maison, projectos a que se associam, para além de colaboradores e
amigos belgas e outros, Anabela Lopes (amiga de juventude de AJ) e José Luís
(seu irmão). Destes anos setenta é também o projecto da revista Perspectiva, de inspiração «marxista
quente», de esquerda radical e alternativa, editada em Jodoigne de forma meio
artesanal por AJ e outros companheiros de ideologia (e onde a Maria Gabriela
também escreve dois ou três textos sob pseudónimo). Segue-se um progressivo
isolamento, que acentua as crises financeiras e depressivas de Llansol no
«cativeiro de Herbais», depois do fim da Ferme Jacob e do lançamento de uma
empresa de agricultura biológica por AJ, que corre mal (como iria acontecer com
outro empreendimento semelhante depois do regresso a Portugal, em Colares). Os
cadernos de um e outro registam estas mudanças sucessivas de vida e as
oscilações da relação: os conflitos criativos, a crítica («implacável») de AJ e
ao mesmo tempo a sua crença incondicional no projecto de escrita em curso (os
textos do caderno «O Ambo», que fizémos para este dia, dão conta disto).
Depois de 1985, já
em Portugal, Augusto Joaquim lançará uma série de outras iniciativas para
divulgar a Obra de MGL e falar dela: com a editora Rolim e a Galeria
Monumental, em lançamentos de livros ou com a ideia de criar uma Fundação, já
em Colares, como testemunha uma carta de Llansol inserida num dos cadernos do
Augusto, em que ela vê nessa Fundação «uma comunidade real, mas móvel e
crescente» — como viria a acontecer, ainda em vida de Augusto Joaquim, primeiro
com o Grupo de Estudos (GELL), que nasce também por sua iniciativa em 2000, e
depois com a criação do Espaço Llansol em 2006, já sem ele.
II - Augusto Joaquim: para além da biografia
Mas vejamos o caso
AJ para além da biografia – e tentemos traçar um retrato intelectual e criativo
desta figura sempre empenhada, lúcida e generosa, para lá das ocorrências
biográficas, à margem de projectos de vida estáveis que, aparentemente, nunca
lhe interessaram muito: em «A hora sexta de Herbais», um texto quase de fim de
vida, isso torna-se evidente: «Quase sem dar por 'isso', fui acabando com todos
os peditórios que tinha em curso. Era ele a carreira, o prestígio, a política,
o mundo finito, a família, a fé, o mundo melhor.»
Dotado de uma
inteligência viva, não abstracta, mas, como escreve Llansol, «carregada de uma
força libidinal intensa» (Caderno 1.06, p. 197, 6.2.1979), de um poder de
decisão que o levava a saber «escolher o real» mais ajustado à sua obsessão da singularidade (um traço que
orientaria, tanto uma vida à margem do poder, na busca da pujança própria, como
todo um método de trabalho e análise que aplicava aos mais diversos objectos,
como veremos) e de um sentido pragmático que contrastava visivelmente com a
tendência mais contemplativa do seu «ambo», a Gabi, Augusto Joaquim cria um
universo que é um prisma, um caleidoscópio
de corpo-ideia-acção-visão, um mundo muito próprio (hoje acessível num
espólio muito mais reduzido que o de Llansol, mas de uma grande intensidade e
variedade, apesar de parcial - muita coisa terá sido destruída por ele em 2003
- e em grande parte inédito e desconhecido).
[7 cadernos manuscritos
e vv. dossiers A4 (com narrativas: a busca da androginia?; poemas: a busca de si na relação com o
outro, a Mulher e o outro da polis; textos de reflexão, sobre o exílio, o
trabalho, Gabi, e o seu lugar na vida-escrita dela); ensaios (de sociologia, literatura, pedagogia) em disquetes, papel,
2 revistas, em livros, em esquemas e mapas a lápis – e folhas Excel – sobre
livros de MGL e outros; 2 dossiers
com sonhos; muitos desenhos e colagens (em papel e
digitais), séries e «bandas discursivas», trabalhos feitos para e com os alunos
das escolas (papel e diapositivos)...]
Em tudo o que pude
ler (e ver) nas últimas semanas no espólio ainda não classificado de Augusto
Joaquim detecto uma espécie de crença
céptica (i. e. sempre disponível para a mudança) na racionalidade radical da imanência e da singularidade, que o
leva a posições de um niilismo, não filosófico, mas científico e pragmático (de
fundamento anarquista e, nos escritos literários e nos desenhos e colagens,
revelador de uma obsessão erotómana que se pode constatar no video que fecha este post),
posições essas que situam o seu pensamento e a sua acção prática para lá de uma
lógica primária que tantas vezes nos impede de perceber que, em última análise,
o real – ou o texto de MGL – não é «explicável» (o Augusto tentou sempre fazer
passar esta ideia nos nossos encontros do GELL!).
Da minha passagem ainda um pouco
meteórica por este espólio retive alguns aspectos que me parecem significativos
para ir traçando o perfil de um
Augusto Joaquim múltiplo, pensante e
criativo; e também para perceber melhor o seu método, que já referi como sendo guiado pela obsessão do singular. Nos primeiros cadernos (e também num grosso
maço de folhas A4 totalmente preenchidas com uma escrita segura, sem rasuras, e
por muitos desenhos e esboços que acompanham os textos) encontramos uma grande narrativa que designo, para mim, como A (re)invençãoda Mulher (mas a que AJ chama O
Círculo da Compaixão, ou da
Compaciência). Nessa narrativa transbordante, erótico-vibratogénea,
verbi-visual, em que intervém um grande número de figuras de mulher com nomes
como Athenaïa, Apollon-Idonaïa, Silvia, Electra, Léa, Sidneï e Sherazade,
desenrola-se toda uma mitografia em
que se encena a relação entre os sexos, num espectro de espiritualidade
corpórea ou de fisicidade espiritual que contempla a hetero- e a
homossexualidade, tanto como o homoerotismo, e cujo horizonte último me parece
ser o da nostalgia de um estado de androginia
primordial, de fusão dos sexos com vista a uma realização plena do humano
(os desenhos, as colagens e os poemas dão também conta deste universo: o
registo é múltiplo, obsessivo, visionário, onírico, surreal, utópico...). Nada
que ande muito longe de alguns filões do texto de Llansol. Nestes meados dos
anos setenta, já em Jodoigne, ambos se alimentam de leituras comuns que poderão
ter inspirado esta busca de um humano mais humano, do corpo e da sua pujança,
do espírito e do seu lugar determinante, para lá do social, do político, do
«gregário» em geral. Entre outras (Bataille, filosofias orientais, ioga,
tântricas e outras, a psicanálise não freudiana, etc.) destaca-se, pelas
ligações directas e explícitas que oferece com esta matéria, a obra de Carl
Gustav Jung e da sua «psicologia das
profundezas». Destaco Jung, porque a própria Llansol o refere várias vezes nos
cadernos desta fase (entretanto entrados nos Livros de Horas 1 e 2). A relação entre Augusto e Gabi, e, no caso
dele, com o arquétipo da mulher, parece passar muito por esta leitura de Jung
(concretamente de Psicologia e Alquimia e
O Homem e os seus Símbolos, todos
referidos nos cadernos, e particularmente da autobiografia Ma Vie, em cuja página de rosto MGL anota: «Último livro que o
Augusto leu, 11 de Nov. de 2003»).
Outras formas de escrita no espólio de AJ, em
especial os poemas e os ensaios, revelam evidentes afinidades com estes
interesses e derivas. Os poemas,
que são muitos, desde os primeiros cadernos (e já do período da tropa, nas
cartas e no diário a quatro mãos com Gabi em 1965), centram-se nos grandes
temas do Augusto:o auto- e o hetero-conhecimento (auto-análise e análise da relação
com os outros e com a Outra, num
espaço de mutação permanente), o
erotismo e a busca de uma espiritualidade na imanência, a reflexão
ideológico-política (por ex. num longo ciclo poético sobre Portugal, Salazar e
o Estado Novo, no caderno 3, de 1979, o ano da escrita da tese em Lovaina).
Finalmente, osensaios (e estudos preparatórios
de ensaios) sobre livros de MGL, alguns dos quais deram posfácios, e outros
foram reunidos pelo próprio AJ num volume, inédito, com o título Dom Arbusto; prefácios a traduções,
ensaios sociológicos («Teoria das gentes», «A forma-rapaz»...).
Neste campo do ensaísmo, AJ desenvolve desde cedo
um método próprio e original (e,
naturalmente, discutível – já gerou muita controvérsia no GELL, entre 2001 e
2003), a que eu chamaria, provisoriamente, o método da obsessão do singular. O método explora essencialmente a fisicalidade do texto (o nível
significante – de que não se pode extrair um
sentido, mas apenas possíveis de
significação) e o dinamismo nos
usos da linguagem. Como AJ explicava em 19 de Outubro de 2002, não lhe
interessava a «trans-substanciação» (o extrapolar do texto sentidos
transcendentes), mas sim a mutação
(os dispositivos imprevisíveis, não expectáveis, de gerar significação no texto
de Llansol): ou seja, não o sentido, que não há, mas a substância do gesto
linguístico, não o fixo, mas o infixo, não a dualidade (um pretenso corpo e uma
pretensa alma do texto), mas a unidade do que é singular (corpo que é alma e
alma que é corpo, como em Spinoza). E questionava categorias abstractas como «o
literário» ou «a literatura», para perguntar pelos modos de funcionamento
particular deste texto, da linguagem
nele posta em acção, e pelos caminhos que facilitam ou dificultam o acesso a
ele. É uma forma de microanálise que, segundo ele, permite ir para lá do
significante ou do grafema, mas partindo sempre dele. E entrava pelas curvas e
mapas de ocorrências, vibração, valências, que lhe permitiam chegar a uma
galáxia textual onde o sentido se vai fazendo e desfazendo, e a que chama a «termodinâmica do sentido». O nosso
problema, dizia o Augusto, é a fixação na semântica:
precisamos de compreender, e caímos
nos conceitos! Ele, por seu lado,
lança mão de um instrumentário que vai buscar à Física (à termodinâmica, com as
suas noções básicas de entropia –
energia, desordem, imprevisibilidade – neguentropia
– baixo nível de entropia, que permite a vida do texto com um relativo grau de
originalidade, sem o fazer cair no caos – e redundância
– a repetição que asfixia essa originalidade, ou também gera novos modelos não
convencionais, como no minimalismo repetitivo) para chegar a um horizonte de
interpretação que lhe vem de Spinoza, e que afirma a unidade indissociável do
fora e do dentro, do corpo e da alma, da vida e da morte numa totalidade
orgânica (AJ falava do «texto orgânico» de MGL, por oposição ao «texto
potenciométrico» realista: cf., no meu livro Na Dobra do Mundo, o quadro das pp. 49-50). Explora, assim, sinais
concretos e materiais do texto, precisamente para não se fixar em conceitos
abstractos e gerais. Interessa-lhe entender como
funciona o texto para poder ser o que é, e não outra coisa. É a obsessão da
singularidade – com todas as suas aporias, sobretudo as do descritivo e da
quantificação, como alguns de nós objectavam.
Mas AJ vê as coisas de outro modo, e exemplifica a
sua via de leitura, por ex., com a transmutação que fez do Livro das Comunidades em peça para o palco: gera (como leitor
activo que é) um movimento, uma tensão expectante, entre discurso e imagem, ou
entre discursividade e gesto, um conjunto de gestos e sinais pelos quais a peça
se vai construindo em quadros minuciosos – como os das suas folhas Excel –, em vórtices
de acção significante. Tal como nas suas experiências narrativas e poéticas, o método
de AJ é o da rejeição de todas as formas de poder
(do instituído, da literatura, da moral vigente, das convenções...) em favor de
uma panóplia de outros poderes/pujanças
singulares. O primeiro, que conhece mas rejeita, desconstrói-se pela fala/pelo discurso; os segundos, que
abrem ao mundo novo, são da ordem do fazer, e revelam-se nos gestos e sinais das figuras singulares
das beguinas, e do próprio Luís M., que aí é o «pontifex» (aquele que faz a
ponte).
No processo de formação a que se submete e submete
as figuras de mulher, que não gera uma situação de dependência, mas de
interacção mútua, ele irá formar com cada uma delas o que Llansol designará de ambo: a figura do semelhante na
diferença, ou melhor, da singularidade
mutante fecundada pelo outro.
III – O que é um
Ambo?
Llansol escreve por mais de uma
vez que ela e AJ formam um ambo, mas
também que ninguém sabe exactamente o que isso é (Inquérito às Quatro Confidências, p. 13). Uma vez, num avulso do
caderno 1.15 (provavelmente de 1984, ainda em Herbais), Llansol, contra aquilo
que é mais habitual nela, quantifica o seu perfil – pragmático, mental e
afectivo – e compara-o com o do Augusto.
De acordo com a (enigmática) escala
utilizada (se for de 100, o «Eu» ultrapassa a escala em 70 pontos, e «Aug.»
apenas em 10!), ela própria seria essencialmente «mental» e «afectiva»,
enquanto AJ seria mais claramente «pragmático». São, como escreve Llansol num
caderno de 1983, as contradições produtivas «entre a inteligência que ataca e a
superfície feminina que se aprofunda» (Caderno 1.14, p. 226); ou «a dialéctica
Augusto/Gabi, [que] já não me angustia (...) Prefiro o sistema da balança ao da pulverização» (Caderno 1.07, p. 221), i. e., a troca mútua à
anulação.
Avulso 07, caderno 1.15
Pondo de lado as imprecisões
matemáticas (o que não estranha nada em MGL), este tipo de configuração poderia
de facto prefigurar um ambo: pelo seu
desequilíbrio equilibrado, pelas «contradições que constituem o caminho
gradativo da nossa reunião» (Um Falcão no
Punho, p. 65). Esta relação foi, de facto, feita de intensidades,
obsessões, desequilíbrios e encontros extraordinários. Também de conflitos,
medos, silêncios (as mais das vezes com resultados criativos surpreendentes).
Tudo parece ter começado naquele Verão de 1964, e em poucos meses a relação intensifica-se,
cresce e oscila até ao casamento e à fuga para a Bélgica, em cartas e
contra-cartas quase diárias, entre Lisboa e os Regimentos de Artilharia (de
Vendas Novas e de Viana do Castelo) onde presta serviço o futuro desertor da
Guerra Colonial; e começa aí um percurso e uma aventura invulgar, que duraria
perto de quarenta anos. A meio caminho, em 5 de Abril de 1987, Llansol anota
num dossier dactiloscrito: «O meu
nome recebe também o Augusto, com seus filamentos de apoios, inteligência e lucidez»
(DOA14, p. 8) – os três termos dão a dimensão real, e completa, do papel de AJ
na vida de Gabriela. E no final, já depois da partida definitiva do «Nómada» em
11 de Novembro de 2003 (vd. Amigo e Amiga
e o «Poema do Nómada do Entresser», no caderno que fizemos para o dia de hoje),
ela evoca-o no «Curso de Silêncio de 2004», livro do luto e da caminhada para a
transparência da antevisão do «lugar para onde irei»; e presta-lhe a última
homenagem no livro de Tual, «o grande textuador desconhecido» e portador da Vara
da Sabedoria, o tirso que preside aos rituais da leitura cantada do Texto. Os Cantores de Leitura serão o
derradeiro lugar da «coreografia amorosa do Ambo» já ensaiada em 2002 na
Clareira de Parasceve (vd. a última fotografia da nossa série). Até no nome – Tual – a figura do Ambo neste livro
entra em diálogo com a de Teol nas
narrativas dos cadernos de AJ.
O Ambo é uma figura parente da do «amor ímpar», da tensão criativa
que gera a terceira coisa, o um que são dois, opostos conciliáveis,
dinamicamente complementares. Seria possível, a partir dos textos de MGL e de
AJ escritos sobre o outro e sobre a relação com ele, escritos para o outro e muitas vezes com o outro, elaborar uma tipologia de traços do Ambo a partir das
duas partes que o constituem. O encontro, sem fusão nem anulação, entre um e
outro, gera o Ambo, figura imprecisa, mas de vários nomes e rostos.
Muito mais interessante, porém, é
ir seguindo, nos textos dos dois, a real natureza desta existência una na
singularidade, que é a essência do Ambo. A Maria Gabriela dá, mais do que o
Augusto, imagens e quase-definições do Ambo, uma noção que não aplica apenas às
relações humanas, mas estende a outros domínios (por ex. em «O Espaço
Edénico»): o conhecimento e a beleza, a liberdade de consciência e o dom
poético, o cão e a dona em relação ímpar e «fora da perpendicular do ceptro», o
texto que pergunta e o texto que responde. No caso específico da sua relação
com AJ, MGL desdobra num grande leque as facetas prismáticas do Ambo. Lembro
apenas alguns exemplos, antes de terminar:
- «A intensidade das contradições
usuais entre mim e A. diminuiu, e o que prevalece é o grande entendimento
criativo que nos une. Para onde quer que formos, nascerá um novo clima...» (Caderno
1.11, p. 134); é «a simples maneira matinal de viver, na sala das diferenças
que nos unem» (id., p. 228);
- «O A. está sempre a lançar
sementes em mim... Não filhos» (Livro de Horas
2, p. 135);
- «fomos coincidentes, e fomos
viajantes para praias próprias» (Livro de
Horas 1, p. 125);
- «O Augusto escreveu: 'quando a
luz se vê iluminada' (há entre mim e ele como que uma página branca iluminada /
o alguém de um nome)»;
- «Mais do que amantes e marido e
mulher, somos parentes. O mesmo tronco, mas uma bem diferenciada amplitude de
trocas e movimentos.» (Livro de Horas 2,
p. 160).
A deambulação poderia continuar,
mas há duas passagens de Inquérito às
Quatro Confidências que fazem a súmula perfeita, e inacabada, da questão do
Ambo (fico por aqui, e o resto vem nos fragmentos do «Caderno do Ambo» que
fizemos). Este livro evoca a fase em que AJ tinha de lidar com o pessimismo de
Vergílio Ferreira em longas discussões sobre o fim do romance ou o sentido da
existência, e MGL explodia de impaciência, ou se recusava a acreditar na
partida daquele que via como «companheiro filosófico», «o mais jovem» – mas
certamente não seu ambo. E escrevia: «Vou despedir-me, principiar a despedir-me
sem que nada se quebre ou parta.» (IQC, 114). A relação aqui é de empatia, mas
não de tensão criativa.
Já em relação a AJ o discurso é
outro: «O ruído da minha máquina e o do computador do Augusto, mais suave, são
como passos a caminhar,e assim
possuímos a terra, de uma margem a outra margem.» (pp. 83-84)
Mas logo no início deste livro
encontramos já a definição do Ambo – inconclusiva, porque se trata de matéria
mutante, e clara, porque há um saber intuitivo de mútua pertença que fala aqui:
«As imagens descem em tropel do horizonte e, sem
cuidar, tentam quebrar o anel onde arde a chama...) _______ um fio de
pensamento solitário que me sugere que eu e o Augusto somos iguais diante da
Natureza solitária. Não sei bem o que somos um para o outro. Somos um ambomas o que tal
significa realmente prevalece ainda envolto em bruma. Acendo a vela da
ternura para ele. Tome, meu ambo,
a vela da ternura Com ela vai a lealdade que nunca
se apaga _____ e a liberdade do meu espaço sobe à montanha _____ estes
telhados próximos _____, onde há pássaros, mais precisamente, muitas
andorinhas.
Sobre elas cai continuamente esta neblina densa e
eu, dentro da regra aceite do silêncio, não me sinto só, nem triste.» (IQC,
13)
João Barrento
O espólio de Augusto Joaquim: uma viagem à vol d'oiseau
VISITAS: TERÇAS E SÁBADOS A PARTIR DAS 11 HORAS. MARCAÇÃO POR E-MAIL: ESPACOLLANSOL@GMAIL.COM
Publicações disponíveis
Jade - Cadernos Llansolianos
(Edição do GELL - Grupo de Estudos Llansolianos | 2005-07)
Números disponíveis
12. João Barrento / Maria Etelvina Santos, O arcano do espírito bravio. Leituras de Parasceve. 2007. 56 pp.
Fora da colecção:
Vivos no Meio do Vivo. 3º Colóquio Internacional M. G. Llansol. 20-24 de Julho 2005, Mourilhe (Trás-os-Montes). 2007. Caixa com quatro cadernos e um CD-Rom
Colecção Rio da Escrita
(Editora Mariposa Azual, Lisboa)
Volumes disponíveis
João Barrento, Na Dobra do Mundo. Escritos llansolianos. 2008. 372 p.
Maria Etelvina Santos, Como Uma Pedra-pássaro que voa. Llansol e o improvável da leitura. 2008. 272 p.
J. Barrento (org.), O que é uma Figura? Diálogos sobre a Obra de M. G. Llansol na Casa da Saudação. 2009. 160 p.
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), «Nada ainda modificou o mundo...». Actualidade de Llansol. 2010. 131+24 p. Com extratextos a cores
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), Llansol: A Liberdade da Alma. 2011. 194 p. Com extratextos a cores
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), Llansol: A Luminosa Vida dos Objectos. 2012. 208 p. Com extratextos a cores e DVD (Esgotado)
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), Pessoa e Bach na Casa de Llansol. 2013. 192 p. Com extratextos a cores
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), Trans-dizer. Llansol tradutora, traduzida, transcriada. 2014. 232 p. Com extratextos a cores
J. Barrento (org.), «O Império dos Fragmentos». Llansol e a exigência fragmentária. 2015. 168 p.(Esgotado)
J. Barrento (org.), Llansol: «A Vocação do Exílio». 2016. 232 p.
Cristiana V. Rodrigues e J. Barrento (org.), Llansol e Spinoza: «Uma estética literária para a geometria». 2017. 255 p. J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.), Llansoliana. Bibliografia activa e passiva 1952-2018. 2018, 143 p. J. Barrento (org.), O Livro-Fonte. O Livro das Comunidades, 40 anos depois. 2018. 137 p.
***
Fora de colecção:
J. Barrento (org.), Europa em Sobreimpressão. Llansol e as dobras da História. Espaço Llansol / Assírio & Alvim, 2011. 213 p., ilustrações a cores. 24x27 cm. Com DVD.
Helena Vieira (org.) Caderno de Leituras. Selecção de artigos publicados na imprensa generalista portuguesa em torno de alguns livros de M. G. Llansol. Mariposa Azual, 2011, 35 p.
J. Barrento/ Maria Etelvina Santos (orgs.),Llansol: Uma vida de escrita. De Campo de Ourique... ao infinito (Fragmentos biográficos). Espaço Llansol/Junta de Freguesia de Campo de Ourique. 2018, 379 p., ilustrado.
Ilse Pollack/João Barrento/Maria Etelvina Santos, Os Rostos do Tempo. Almanaque Llansol. Edição Espaço Llansol, 2018 (almanaque perpétuo, ilustrado).
[Encomendas dos livros da Mariposa Azual pelo e-mail lena.mariposa@gmail.com. Pagamento por transferência bancária para o IBAN:
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________________________
«CADERNOS DA LETRA E»
(com textos inéditos de M. G. Llansol)
Llansol. Uma vida de escrita. 2013. 12 p.
O Regresso de Jade. Amar Um Cão, de M.G. Llansol, lido aos mais pequenos por Hélia Correia. 2013. 22 p., extratextos a cores
O Lugar do Entresser. Crónica da «Letra E». CD com 20 Cadernos da Letra E e 29 sessões da Letra E. 2014. 8,00 €
«Escrever é o duplo de viver». 2017, 16 pp.
«CADERNOS DE TEJO-RIO»
(com textos inéditos de M. G. Llansol)
«A planície da amizade». Llansol e Campo de Ourique. # 1, 2017. 32 p. + extratexto
Llansol: A Voz e o Silêncio. # 2, 2017. 36 p. (esgotado)
Oh, oh, oh, a Casa da Avó. # 3, 2017. 16 p. + extratexto
O Livro-fonte: Llansol sobre O Livro das Comunidades. # 4, 2017. 28 p.
«A caixa de leitura». Llansol legente. # 5, 2018, 40 p.
A escola das Árvores. # 6, 2018, 40 p.
Hölderlin: Poemas / Caminhos de Hölderlin em Llansol. # 7, 2018, 20 p. + extratexto
«A áspera matéria do enigma»: M. G. Llansol e Fernando Echevarría. # 8, 2019, 24 p.
OBRA DE MARIA GABRIELA LLANSOL
• Os Pregos na Erva. Lisboa, Portugália, 1962; 2ª ed.: Lisboa, Rolim, 1987 (com um estudo de Augusto Joaquim) Traduções parciais: «Die umzingelten Körper», trad. de Curt Meyer-Clason in: Der Gott derSeefahrer und andere portugiesische Erzählungen. Tübingen/Basel, Horst Erdmann Verlag, 1972, pp. 417-423; e Portugiesische Erzählungen des XX. Jahrhunderts. Freiburg, Beck & Glückler, 1988, pp. 313-319; «Nails in the grass», trad. de Giovanni Pontiero, in: The Literary Review, vol. 38, nº 4/1995, pp. 492-497.
• Depois de Os Pregos na Erva. Porto, Afrontamento, 1973.
Primeira Trilogia: Geografia de Rebeldes • O Livro das Comunidades. Porto, Afrontamento, 1977; 2ª ed.: O Livro das Comunidades, seguido de Apontamentos sobre a Escola da Rua de Namur. Lisboa, Relógio d'Água, 1999 (com posfácio de Silvina Rodrigues Lopes); 3ª ed. Lisboa, Assírio & Alvim, com desenhos de Pedro Proença e posfácio de Silvina Rodrigues Lopes. Tradução francesa parcial (Lugares 9-11), de Maria Gabriela Llansol, in: Simulacres. Revue trimestrielle (Bruxelas), nº 3/Março 1981, pp. 16-19.
• A Restante Vida. Porto, Afrontamento, 1983; 2ª ed.: A Restante Vida, seguido de O Pensamento de Algumas Imagens. Lisboa, Relógio d'Água, 2001 (com posfácio de José Augusto Mourão).
• Na Casa de Julho e Agosto. Porto, Afrontamento, 1984; 2ª ed.: Na Casa de Julho e Agosto, seguido de O Espaço Edénico. Lisboa, Relógio d'Água, 2003 (com posfácio de João Barrento).
Edição brasileira da 1ª trilogia: Rio de Janeiro, 7Letras, 2015
(Tradução castelhana da 1ª trilogia: Geografía de Rebeldes, trad. de 'Atalaire'. Madrid, Ediciones Cinca, 2014)
(Tradução americana da 1ª trilogia: Geography of Rebels, trad, de Audrey Young. Dallas, Deep Vellum, 2018)
Segunda Trilogia: O Litoral do Mundo • Causa Amante. Lisboa, A Regra do Jogo, 1984; 2ª ed.: Lisboa, Relógio d'Água, 1996 (com posfácio de Augusto Joaquim). • Contos do Mal Errante. Lisboa, Rolim, 1986; 2ª ed.: Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 (com posfácio de Manuel Gusmão e pinturas de Ilda David'). Tradução francesa: Les errances du mal. Trad. de Isabel Meyrelles, Paris, Éditions Métaillé, 1991. Tradução parcial, para castelhano, do cap. LXII, por Adrian Ballester Cerezo, Revista Abril (Luxemburgo), nº 35/Abril 2008, pp. 15-16. • Da Sebe ao Ser. Lisboa, Rolim, 1988.
(Tradução castelhana da 1ª trilogia: El Litoral del Mundo. Trad. de 'Atalaire'. Madrid, Chamán Ediciones, 2018).
• Amar Um Cão. Colares, Colares Editora, 1990. Incluído em Cantileno, Relógio d'Água, 2000. Nova edição: Augusto Joaquim/Maria Gabriela Llansol, Desenhos a Lápis com Fala – Amar Um Cão. Com desenhos de Augusto Joaquim. Lisboa, Assírio & Alvim, 2008. Tradução francesa: «Aimer un chien», trad. de Alice Raillard, in: Nouvelle Revue Française (Paris), nº 522-523, Julho-Agosto 1996, pp. 84-93. Tradução alemã: «Einen Hund lieben», trad. de Renate Heß, in: Die Horen. Zeitschrift für Literatur, Kunst und Kritik, nº 194/1999, pp. 102-108. Tradução castelhana: «Amar a un Perro», trad. de Atalaire, Madrid, La Gaya Ciencia, 2015. • O Raio sobre o Lápis. Lisboa-Bruxelas, Comissariado Europália, 1990. Com desenhos de Julião Sarmento. 2ª ed.: Assírio & Alvim, 2004. Traduções francesas de: Augusto Joaquim na edição da Europália, 1990 (La foudre sur le crayon); Guida Marques in: La foudre sur le crayon. Hölder de Hölderlin. Cantilène. La Rochelle, Éditions Les Arêtes, 2010. • Um Beijo Dado Mais Tarde. Lisboa, Rolim, 1990.
Nova edição (com fotografias de Duarte Belo): Lisboa, Assírio & Alvim, 2016. Edição brasileira: Editora 7Letras, Rio de Janeiro, 2013. Tradução parcial: «Ein philosophischer Gefährte», trad. de Elfriede Engelmayer in: Samstag um Acht. Erzählungen, ed. Elfriede Engelmayer. Berlim, edition tranvía, 199, pp. 122-123. • Hölder, de Hölderlin. Colares, Colares Editora, 1993. Incluído em Cantileno, Relógio d'Água, 2000. Tradução francesa de Guida Marques in: La foudre sur le crayon. Hölder de Hölderlin. Cantilène. La Rochelle, Éditions Les Arêtes, 2010. • Lisboaleipzig 1. O encontro inesperado do diverso. 2. O ensaio de música. Nova edição: Lisboa, Assírio & Alvim, 2014. Com xilogravuras de Ilda David'. Tradução alemã de Markus Sahr: Lissabonleipzig I+II. Leipzig, Leipziger Literaturverlag, 2012. • A Terra Fora do Sítio [conto de Os Pregos na Erva]. Lisboa, Expo 98, 1998. • Ardente Texto Joshua. Lisboa, Relógio d'Água, 1998. • Onde Vais, Drama-Poesia?. Lisboa, Relógio d'Água, 2000. Tradução francesa de Guida Marques. Aprica (Suíça), Pagine d'Arte, 2014. Cantileno. Lisboa, Relógio d'Água, 2000 (com posfácio de Lúcia Castello Branco) [Inclui: Cantileno, Hölder, de Hölderlin, Amar Um Cão, O Estorvo]. Tradução francesa de «Cantileno» por Guida Marques in: La foudre sur le crayon. Hölder de Hölderlin. Cantilène. La Rochelle, Éditions Les Arêtes, 2010. • Parasceve. Puzzles e ironias. Lisboa, Relógio d'Água, 2001. • O Senhor de Herbais. Breves ensaios literários sobre a reprodução estética do mundo, e suas tentações. Lisboa, Relógio d'Água, 2002. • O Começo de Um Livro É Precioso. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003 (com imagens de Ilda David'). Trad. francesa parcial de Cristina Isabel de Melo in: Décharge, nº 138/Junho 2008, pp. 19-22. • O Jogo da Liberdade da Alma. Lisboa, Relógio d'Água, 2003. Trad. francesa de Cristina Isabel de Melo: Le jeu de la liberté de l'âme + L'espace édénique. Aprica (Suíça), Pagine d'Arte, 2009. Trad. italiana de Alessandro Granata: Il Giocco della Libertà dellAnima + Lo spazio edenico. Aprica (Suíça), Pagine d'Arte, 2010. • Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004. Lisboa, Assírio & Alvim, 2006. Trad. francesa, fragmento CLIV, por Cristina Isabel de Melo in: Décharge, nº 138/Junho 2008, p. 23. • Os Cantores de Leitura. Lisboa, Assírio & Alvim, 2007. Trad. francesa, partículas 44 e 70, por Cristina Isabel de Melo in: Décharge, nº 138/Junho 2008, pp. 24-25.
Diários • Um Falcão no Punho. Diário 1. Lisboa, Rolim, 1985, 2ª ed.: Lisboa, Relógio d'Água, 1998 (com posfácio de Augusto Joaquim). Trad. francesa de Alice Raillard: Un faucon au poing. Paris, Gallimard, 1993. • Finita. Diário 2. Lisboa, Rolim, 1987; 2ª ed.: Lisboa, Assírio & Alvim, 2005 (com posfácio de Augusto Joaquim). Tradução francesa de Cristina Isabel de Melo. Aprica (Suíça), Pagine d'Arte, 2012. • Inquérito às Quatro Confidências. Diário 3. Lisboa, Relógio d'Água, 1996. Tradução francesa de Cristina Isabel de Melo. Aprica (Suíça), Pagine d'Arte, 2013.
Traduções • Flaubert, Gustave, O Sol Minguante. Colares, Colares Editora, [1990] [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Wilde, Oscar, O Príncipe Feliz. Colares, Colares Editora, s.d. [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Colette, Saha, a Gata. Colares, Colares Editora, 1994 [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Hölderlin, Friedrich, Diotima. Colares, Colares Editora, 1994 [sob o pseudónimo de Maria Clara Salgueiro]. • Sade, Donatien Alphonse François de, Mistérios Libertinos da Bastilha. Colares, Colares Editora, 1994 [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Woolf, Virginia, Cartas Íntimas a Vita Sackville-West. Colares, Colares Editora, 1994 [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Dickinson, Emily, Bilhetinhos com Poemas. Colares, Colares Editora, 1995 [sob o pseudónimo de Ana Fontes]. • Verlaine, Paul, Sageza. Lisboa, Relógio d'Água, 1995. • Rilke, R. M., Frutos e Apontamentos. Lisboa, Relógio d'Água, 1995. • Rimbaud, O Rapaz Raro. Iluminações e Poemas. Lisboa, Relógio d'Água, 1998. • Thérèse Martin, de Lisieux, O Alto Voo da Cotovia. Lisboa, Relógio d'Água, 1999. • Apollinaire, Guillaume, Mais Novembro do que Setembro. Lisboa, Relógio d'Água, 2001. • Éluard, Paul, Últimos Poemas de Amor. Lisboa, Relógio d'Água, 2002. • Baudelaire, Charles, As Flores do Mal. Lisboa, Relógio d'Água, 2003. • Loüys, Pierre, O Sexo de Ler de Billitis. Lisboa, Relógio d'Água, 2010.
Obra póstuma • Uma Data em Cada Mão. Livro de Horas I. Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. • Um Arco Singular. Livro de Horas II. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010. • Numerosas Linhas. Livro de Horas III.Lisboa, Assírio & Alvim, 2013. • A Palavra Imediata (Os papéis avulsos de Llansol). Livro de Horas IV. Lisboa, Assírio & Alvim, 2014.
• O Azul Imperfeito (Pessoa em Llansol. 1976-2006). Livro de Horas V. Lisboa, Assírio & Alvim, 2015. •Herbais foi de Silêncio. Livro de Horas VI. Lisboa, Assírio & Alvim, 2018.
Antologias em tradução – À l'ombre du clair de lune. Fragments choisis. Organ. de J. Barrento, trad. de Guida Marques, prefácio de Laurence Nobécourt. Aprica (Suíça), Pagine d'arte, 2018. – All'ombra del chiaro di luna. Organ. de J. Barrento, trad. de Paola d'Agostini, prefácio de Flavio Ermini. Aprica (Suíça), Pagine d'arte, 2018.