26.5.13

PROENÇA LLANSOL:
UM DIÁLOGO 



Pedro Proença (PP), Pintor-Poeta, Prosador-Pensador Prolífico-Proteico, Pan-Pictórico, esteve ontem na «Letra E» do Espaço Llansol para nos falar das suas ligações de longa data à Obra de Llansol. Proença é autor de muitos textos que partem da Obra da escritora e com ela dialogam e a prolongam, no registo característico deste artista, entre a intuição certeira e a ironia que põe a nu o que de mais intrínseco há na Obra do outro. Alguns desses textos, assinados com heterónimos (como Sandralexandra & Soniantónia) ou pseudónimos (Renato Ornato, Julio Rato, etc.), podem ler-se em vários lugares da Internet onde PP vai escrevendo, nomeadamente  o site da revista Triplov (http://www.triplov.com) ou os blogs sandrayantonia, juliorato, pierredelalande, tantricgangster,  budonga ou renatoornato (todos em blogspot.com).

  
Para além da escrita, Proença desenvolveu igualmente todo um trabalho pictórico a partir de textos de Llansol. Uma parte desse trabalho está desde ontem exposto na nossas «Letra E», e em parte reproduzido no caderno que editámos, e que é revelador da indestrinçável relação entre escrita-caligrafia-desenho-colagem-pintura na Obra de Proença. As obras produzidas para esta ocasião constam de duas séries de desenhos-colagens, cada uma com trinta folhas, mas há outros exemplos de cruzamentos com livros de Llansol, como o exemplar de Contos do Mal Errante intervencionado por PP, que pode também ser visto na «Letra E», ou o quadro abaixo reproduzido, igualmente pintado a partir deste livro de Llansol.


Pedro Proença comentou este seu diálogo com Gabriela (e outros artistas, em particular Álvaro Lapa e Ernesto de Sousa) a partir de um caderno (que se pode ler/ver em baixo), onde arma o cerco a alguns nódulos centrais do texto de M. G. Llansol e os prolonga pela reflexão e pela ironia, para depois lhes dar corpo visual nos desenhos-colagens, que vão explorando tópicos decisivos, na interrelação entre desenho, texto próprio e fragmentos de Livros de Horas, iluminuras medievais ou manuscritos árabes e persas, onde o caderno, a escrita, a leitura, a cópia, os bichos, as figuras, têm lugar de destaque. Entrando no texto de Llansol – para logo dele sair com as suas criações próprias – pela via única e original do humor e da ironia, PP aborda este Texto com um olhar que, para os mais ortodoxos ou incautos leitores de Llansol, poderá parecer deslocado, quando afinal ele abre caminho a uma relação absolutamente livre, e as mais das vezes intuitivamente certeira, com a Obra de uma autora que, contrariamente ao que se possa pensar, é capaz de ironia e humor. Basta pensar em livros como O Senhor de Herbais, na ironia desconstrucionista exercida por Llansol sobre a forma do romance ou nos muitos momentos de ironia linguística que atravessam a sua Obra.


De tudo isto, e de outras coisas – como a escolha do «manifesto», presente no caderno de Proença, mas também, em formas diversas, explícitas e implícitas, na Obra de Llansol – se falou ontem, tendo como referência os Manifestos de PP para Gabriela e outros textos do artista, de que lemos excertos (os livros A Simplicidade da Barbárie / Esboço de romance convertido em aparente poema / em memória e louvor nada simplificado / de Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa e Maria Gabriela Llansol, e Gabriela & Ernesto. As Mutações e outras Acelerações do Vazio / Da vanguarda como fulgor / (em nomes de guerra que não o são)). Em pano de fundo, na conversa e nas obras de PP e MGL, o cruzamento de escrita e imagem, da letra e do desenho, em duas obras que são «armazéns de sinais» com  marca muito própria, em que é patente a vontade de pintar-se a si para além de si, de trazer a primeiro plano o autobiográfico sem autobiografia, pelos efeitos de estranhamento, de proximidade-distância própios de um sentido superior da ironia, que estas duas Obras evidenciam. O resto está no Caderno que Pedro Proença nos deixou.




(Pode percorrer o caderno em formato maior clicando no pequeno rectângulo 
no canto inferior direito da barra)

20.5.13

PEDRO PROENÇA NA «LETRA E»

O pintor Pedro Proença, leitor de longa data da Obra de M. G. Llansol e analista fino, subtil e irónico dos seus livros, vai estar na «Letra E» do Espaço Llansol no próximo sábado, dia 25 de Maio, a partir das 17 horas.

Pedro Proença, desenho para a exposição Sobreimpressões (CCB, 2011)
Pedro Poença (que, lembre-se, desenhou um enorme painel  sobre a temática portuguesa da Obra de Llansol, que ocupava toda uma parede na exposição do Centro Cultural de Belém em 2011) escreveu para esta ocasião Alguns Manifestos para Gabriela, onde arma o cerco a um certo número de nódulos centrais do texto llansoliano, prolongando-os pela reflexão própria. E depois dá-lhes corpo visual numa série de trinta desenhos-colagens que se propõem explorar o que neste Texto – vulnerável e aberto como tudo o que foge à doxa – é susceptível de ironia e humor.
Quem vier à «Letra E» no próximo sábado poderá ouvir o pintor explicar-nos o modo como entende, e transforma em matéria pictórica sua, tópicos da Obra de Llansol como a paisagem e o jardim, o belo e o sublime, a História e o humano, a figura e o romanesco.
E poderá ver os originais dos desenhos-colagens, livros de artista nascidos do contacto com o texto de Llansol, e o mais que o proteico Proença até lá ainda poderá produzir.
E como já vem sendo hábito na «Letra E«, os Manifestos e os desenhos estarão disponíveis num caderno para os que quiserem vir a Sintra nesse sábado.

11.5.13

LLANSOL NO MARCHÉ DE LA POÉSIE 
DE PARIS


Enquanto não saem mais dois livros de M. G. Llansol em tradução francesa (o terceiro diário, Inquérito às Quatro Confidências, em tradução de Cristina Isabel de Melo, que já traduziu Finita e O Jogo da Liberdade da Alma; e Onde Vais, Drama-poesia?, em tradução de Guida Marques), os últimos livros editados por Pagine d'arte, com sede na Suíça, estarão presentes com destaque no pavilhão desta editora no Marché de la Poésie deste ano, que terá lugar em Paris entre 6 e 9 de Junho.

 O Marché de la Poésie, que se realiza todos os anos em Junho na Place St. Sulpice, é um evento importante, que há trinta anos vem dando a ler a melhor poesia (e literatura) editada em francês. O Marché deste ano, que é já o 31º, tem como país-tema a Irlanda, e conta com a presença de alguns dos mais conhecidos nomes da poesia irlandesa de hoje, como Seamus Heaney, Paul Durcan, John Montague, Derek Mahon ou Medbh McGuckian, entre outros.

5.5.13

A «LETRA E» DE MAIO A JULHO

Divulgamos hoje o programa da Letra E para os próximos três meses, antes da pausa do Verão e das Jornadas de Setembro. Passarão por Sintra pintores (Pedro Proença e Ilda David'), críticos e professores universitários (António Guerreiro e Paula Morão, que comentam pela primeira vez, a partir do levantamento feito por Helena Vieira, a «fortuna crítica» de Llansol na imprensa portuguesa), actores bem conhecidos do público (Diogo Dória, Manuel Wiborg e Elsa Bruxelas) – e, last not least, veremos e comentaremos o grande filme do russo Aleksandr Sokurov realizado a partir do Fausto de Goethe, que teve carreira breve numa sala de cinema de Lisboa.
Voltaremos com informações mais pormenorizadas para cada um dos eventos.


23.4.13

CINCO LIVRINHOS 
NO DIA MUNDIAL DO LIVRO

Hoje é o Dia Mundial do Livro, e queremos assinalá-lo aqui disponibilizando os cinco últimos livrinhos que fizémos para as sessões da «Letra E», e para outras acções de divulgação da escrita de Llansol.
Todos aqueles que não puderam acompanhar-nos nestas sessões poderão agora ler textos de M. G. Llansol, em grande parte inéditos, sobre temas e figuras como Hölderlin, a paisagem, Emily Dickinson, Augusto Joaquim e o «Ambo». E ainda um caderno que dá entrada na vida e na escrita de Llansol. Pode folhear os documentos, ou descarregá-los para o computador. Se quiser, pode também voltar a recordar o contexto em que alguns desses textos foram lidos ou comentados, indo às páginas deste blog nos dias indicados para cada um dos cadernos.
Boa leitura neste dia do livro e da leitura!


(Estes poemas de Hölderlin foram lidos no dia 4 de Dezembro de 2012)



(Textos lidos na sessão de 28 de Janeiro de 2013)
(Da sessão do dia 13 de Março de 2013, sobre Emily Dickinson em Llansol, 
com Ana Luísa Amaral)


(Da sessão sobre Gabriela e Augusto: o Ambo, 9 de Abril de 2013)


(O caderno de divulgação, actualizado em 2013)







22.4.13


O REGRESSO DE JADE
à Letra E

Jade, o Cão Jade, Leão Jade, regressou no sábado à Letra E, animada por muitos olhares curiosos de crianças (e adultos) suspensas da nova narrativa de Hélia Correia, alias Emily. O novo texto, que se entrecruza de forma sensível e subtil com o de Maria Gabriela Lansol, Amar um Cão, foi lido e visualmente animado pela actriz Inês Nogueira. A outra Inês (Melo, da linhagem do poeta Ramos Rosa) acompanhou-a com o seu acordeon. 
A Albertina Pena fez de mestra de cerimónias, a pequena Catarina Galego trouxe-nos a sua visão de Leão Jade a pastel (e ofereceu o quadro à Letra E), e a Celeste Pedro e a Teresa Projecto (que também dispôs na cozinha o seu delicado «jardim que o pensamento permite») trataram de guiar a mão de meninos e meninas para que Jade renascesse nos seus pequenos cadernos, e finalmente numa obra colectiva toda feita de materiais reciclados, preparada pela Celeste, e que as fotos mostram.
Houve merenda na cozinha, e mostrámos os vinte desenhos-colagens que Augusto Joaquim fez em 2002 para a nova edição de Amar um Cão, e também as placas de identificação que Jade usava ao pescoço desde Jodoigne, na Bélgica. E cheiraram-se saquinhos com as plantas dadas a conhecer a Jade, que a Hélia/Emily foi costurando pacientemente na véspera, noite adentro.
Pode ver-se tudo na sequência fotográfica que se segue, para a qual fomos recuperar a peça «Inscrição», para duas flautas de bisel, que o João Madureira compôs para o nosso Colóquio de Mourilhe, com a Maria Gabriela, em Julho de2005.



No caderno que fizémos para mais esta sessão da Letra E, que pode ser folheado em baixo, dá-se a ler o texto de Hélia Correia, e a ver fotos de Jade e as plantas que lhe foram nomeadas pela dona (e que estavam presentes ao vivo). E é ainda possível ler o original manuscrito da carta de despedida que o dono, Augusto Joaquim, escreveu a Jade no dia seguinte ao da sua partida para parte incerta.

9.4.13

O AMBO:
«VIDA E MORTE DE AUGUSTO E GABRIELA...

... desejo de, quando esta minha forma humana nos deixar, a mim  ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro.»
(M. G. Llansol, Livro de Horas I)

Meia vida em fotografias: os caminhos de Augusto e Gabriela 
na parede da Letra E no dia 6 de Abril

No sábado 6 de Abril evocámos Augusto Joaquim, o seu trabalho e a sua relação singular com Maria Gabriela Llansol, a «Gabi» das primeiras cartas de amor de 1965. Do que foi dito deixamos aqui um resumo alargado.


Esta sessão da 'Letra E' não tem paralelo com as anteriores – a não ser talvez com a primeira, a inaugural, em que mostrámos e se falou da juvenilia de M. G. Llansol, da sua Obra ainda desconhecida, anterior à publicação do primeiro livro. Hoje ocupamo-nos da segunda metade dessa vida, indissociável da de Augusto Joaquim a partir de 1964. A matéria vai ser, por isso, mais biográfica do que habitualmente – mas não só: espero que se possa chegar a compreender um pouco melhor a bio-signo-grafia do Há destes dois «gémeos astrais» (Finita), em permanente tensão e convergência.
Uma segunda intenção desta sessão é dar a conhecer esse outro lado, um tanto oculto, de Llansol e da sua escrita, sem o qual, por várias razões, esta não teria sido o que foi: essa face oculta tem por nome Augusto Joaquim (-->AJ). Há, de facto, um «défice de Augusto Joaquim» quando se fala de Llansol (-->MGL) e da sua escrita. Mas a verdade é que ele teve parte activa e influência decisiva nesta Obra e no seu devir-texto, desde logo por ter arrastado a sua autora para um exílio que foi determinante para a sua mudança de paradigma literário e existencial. Mas não só por isso, como veremos. Os cadernos e outros documentos de ambos os espólios mostram hoje à evidência que sempre existiu uma forte interacção, e que a presença e a intervenção de AJ foram determinantes para o nascimento e o progresso da Obra de MGL a partir da ida para Lovaina. O diário Finita dá já bastante conta desta disponibilidade de AJ, primeiro leitor dos seus textos e, no início, frequentemente escrevente a quatro mãos com a «Gabi». Mas a interacção não se limita à leitura dos textos que Gabriela vai escrevendo (um ritual – mas com consequências efectivas – evocado pelo próprio Augusto no início do posfácio a Causa Amante); as conversas entre ambos são determinantes para o andamento e a orientação de certos livros, a ponto de Llansol se queixar do perigo que constitui para a sua própria autonomia a inteligência reverberante do Augusto, reconhecendo também os estímulos que lhe vêm dessa troca verdadeira: «Sempre Augusto foi para mim o terreno da explicação e da consistência» (Caderno 1.13, p. 20, 9.2.82). Augusto é o parceiro que inventa e lhe fornece conceitos (Entresser, Isso, Esse, Sebastião, o Dom) e títulos (O Litoral do Mundo), e lhe dá a ler obras fundamentais (da área científica ou pedagógica, mas também o I Ching, como se verá no Livro de Horas 3, em data de 5-4-79).
--> Convém então começar por falar do percurso, dos interesses, do universo de acção e pensamento de Augusto Joaquim; e também, e sobretudo, dos seus modos de relacionamento com a Maria Gabriela, da interpretação do seu Texto, e da relação única entre ambos – relação de verdadeiro Ambo, um conceito a que já regressaremos –, a nível humano, literário e intelectual.  -->


-->
I - Quem é Augusto Joaquim?
O único currículo de que dispomos no espólio de Augusto Joaquim é sintomático do corte operado por ele próprio em relação à sua vida anterior à deserção e à relação com a Maria Gabriela. É um CV que omite toda a sua formação escolar, e de Seminário, até à ida para o serviço militar em 1964. Currículo curioso, com uma larga zona de silêncio, antes da ida para Lovaina, e ainda com outra marca evidente nesta figura que escreveu muito, mas publicou pouquíssimo: por esse currículo (e pelo que hoje conhecemos do que deixou) se vê que a maior parte do que escreveu está inédito, em papel, em disquetes e CDs. E há ainda um terceiro aspecto relevante: o seu espectro de interesses e actividades (que não contempla, neste CV, o lado artístico: colagens, desenhos, bandas desenhadas-discursivas...) é muito amplo, e parece ir dar, desde cedo, a uma área cuja metodologia será aplicada a diversos sectores, e muitas vezes a textos de MGL: a termodinâmica do sentido (podem ver-se alguns exemplos deste trabalho múltiplo no video que aqui mostramos, e que dá a conhecer uma pequena parte do espólio de AJ).
Não sabemos exactamente quando AJ e MGL se conheceram, mas pela correspondência (amorosa) deixada, terá sido antes de Agosto de 1964, provavelmente na Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique (onde moravam, quer a Maria Gabriela, quer os pais do Augusto). Nas cartas trocadas antes do casamento em 28 de Setembro de 1965, e ainda até à deserção de AJ em Dezembro desse ano, é já possível constatar que existe, da parte do Augusto, mas não da «Gabi», um progressivo questionamento de si próprio e do substrato católico de onde ambos vêm. Essas cartas revelam por vezes uma maturidade intelectual e humana extraordinária para um homem de vinte anos, acabado de sair do Seminário dos Olivais, em Lisboa! Em Llansol, a ruptura, se disso se pode falar, dar-se-á a partir da descoberta própria de um outro sentido para a espiritualidade fora da instituição, com os místicos flamengos, renanos e ibéricos, que transparece na primeira trilogia, «Geografia de Rebeldes».
Augusto Joaquim estudará, em Lovaina, Sociologia e Ciências Políticas, tendo apresentado uma original tese sobre o Salazarismo em 1970. O meio de Lovaina, onde irão encontrar muitos exilados políticos, apresentava-se como um mundo novo, quando comparado com o Portugal de Salazar, que haviam deixado voluntariamente. Llansol esclarece bem essa passagem decisiva, numa entrevista-carta a uma jornalista de nome Maria Helena (com várias versões, e que provavelmente nunca chegou a sair), com data de Junho de 1980, e que poderá ser lida no Livro de Horas 3, a sair este ano.
Neste ambiente nasce também a escola da Rua de Namur e, depois, a cooperativa e escola Ferme Jacob/La Maison, projectos a que se associam, para além de colaboradores e amigos belgas e outros, Anabela Lopes (amiga de juventude de AJ) e José Luís (seu irmão). Destes anos setenta é também o projecto da revista Perspectiva, de inspiração «marxista quente», de esquerda radical e alternativa, editada em Jodoigne de forma meio artesanal por AJ e outros companheiros de ideologia (e onde a Maria Gabriela também escreve dois ou três textos sob pseudónimo). Segue-se um progressivo isolamento, que acentua as crises financeiras e depressivas de Llansol no «cativeiro de Herbais», depois do fim da Ferme Jacob e do lançamento de uma empresa de agricultura biológica por AJ, que corre mal (como iria acontecer com outro empreendimento semelhante depois do regresso a Portugal, em Colares). Os cadernos de um e outro registam estas mudanças sucessivas de vida e as oscilações da relação: os conflitos criativos, a crítica («implacável») de AJ e ao mesmo tempo a sua crença incondicional no projecto de escrita em curso (os textos do caderno «O Ambo», que fizémos para este dia, dão conta disto).
Depois de 1985, já em Portugal, Augusto Joaquim lançará uma série de outras iniciativas para divulgar a Obra de MGL e falar dela: com a editora Rolim e a Galeria Monumental, em lançamentos de livros ou com a ideia de criar uma Fundação, já em Colares, como testemunha uma carta de Llansol inserida num dos cadernos do Augusto, em que ela vê nessa Fundação «uma comunidade real, mas móvel e crescente» — como viria a acontecer, ainda em vida de Augusto Joaquim, primeiro com o Grupo de Estudos (GELL), que nasce também por sua iniciativa em 2000, e depois com a criação do Espaço Llansol em 2006, já sem ele.


II - Augusto Joaquim: para além da biografia
Mas vejamos o caso AJ para além da biografia – e tentemos traçar um retrato intelectual e criativo desta figura sempre empenhada, lúcida e generosa, para lá das ocorrências biográficas, à margem de projectos de vida estáveis que, aparentemente, nunca lhe interessaram muito: em «A hora sexta de Herbais», um texto quase de fim de vida, isso torna-se evidente: «Quase sem dar por 'isso', fui acabando com todos os peditórios que tinha em curso. Era ele a carreira, o prestígio, a política, o mundo finito, a família, a fé, o mundo melhor.»
Dotado de uma inteligência viva, não abstracta, mas, como escreve Llansol, «carregada de uma força libidinal intensa» (Caderno 1.06, p. 197, 6.2.1979), de um poder de decisão que o levava a saber «escolher o real» mais ajustado à sua obsessão da singularidade (um traço que orientaria, tanto uma vida à margem do poder, na busca da pujança própria, como todo um método de trabalho e análise que aplicava aos mais diversos objectos, como veremos) e de um sentido pragmático que contrastava visivelmente com a tendência mais contemplativa do seu «ambo», a Gabi, Augusto Joaquim cria um universo que é um prisma, um caleidoscópio de corpo-ideia-acção-visão, um mundo muito próprio (hoje acessível num espólio muito mais reduzido que o de Llansol, mas de uma grande intensidade e variedade, apesar de parcial - muita coisa terá sido destruída por ele em 2003 - e em grande parte inédito e desconhecido).
[7 cadernos manuscritos e vv. dossiers A4 (com narrativas: a busca da androginia?; poemas: a busca de si na relação com o outro, a Mulher e o outro da polis; textos de reflexão, sobre o exílio, o trabalho, Gabi, e o seu lugar na vida-escrita dela); ensaios (de sociologia, literatura, pedagogia) em disquetes, papel, 2 revistas, em livros, em esquemas e mapas a lápis – e folhas Excel – sobre livros de MGL e outros; 2 dossiers com sonhos; muitos desenhos e colagens (em papel e digitais), séries e «bandas discursivas», trabalhos feitos para e com os alunos das escolas (papel e diapositivos)...]
 
Em tudo o que pude ler (e ver) nas últimas semanas no espólio ainda não classificado de Augusto Joaquim detecto uma espécie de crença céptica (i. e. sempre disponível para a mudança) na racionalidade radical da imanência e da singularidade, que o leva a posições de um niilismo, não filosófico, mas científico e pragmático (de fundamento anarquista e, nos escritos literários e nos desenhos e colagens, revelador de uma obsessão erotómana que se pode constatar no video que fecha este post), posições essas que situam o seu pensamento e a sua acção prática para lá de uma lógica primária que tantas vezes nos impede de perceber que, em última análise, o real – ou o texto de MGL – não é «explicável» (o Augusto tentou sempre fazer passar esta ideia nos nossos encontros do GELL!). 
Da minha passagem ainda um pouco meteórica por este espólio retive alguns aspectos que me parecem significativos para ir traçando o perfil de um Augusto Joaquim múltiplo, pensante e criativo; e também para perceber melhor o seu método, que já referi como sendo guiado pela obsessão do singular. Nos primeiros cadernos (e também num grosso maço de folhas A4 totalmente preenchidas com uma escrita segura, sem rasuras, e por muitos desenhos e esboços que acompanham os textos) encontramos uma grande narrativa que designo, para mim, como A (re)invenção da Mulher (mas a que AJ chama O Círculo da Compaixão, ou da Compaciência). Nessa narrativa transbordante, erótico-vibratogénea, verbi-visual, em que intervém um grande número de figuras de mulher com nomes como Athenaïa, Apollon-Idonaïa, Silvia, Electra, Léa, Sidneï e Sherazade, desenrola-se toda uma mitografia em que se encena a relação entre os sexos, num espectro de espiritualidade corpórea ou de fisicidade espiritual que contempla a hetero- e a homossexualidade, tanto como o homoerotismo, e cujo horizonte último me parece ser o da nostalgia de um estado de androginia primordial, de fusão dos sexos com vista a uma realização plena do humano (os desenhos, as colagens e os poemas dão também conta deste universo: o registo é múltiplo, obsessivo, visionário, onírico, surreal, utópico...). Nada que ande muito longe de alguns filões do texto de Llansol. Nestes meados dos anos setenta, já em Jodoigne, ambos se alimentam de leituras comuns que poderão ter inspirado esta busca de um humano mais humano, do corpo e da sua pujança, do espírito e do seu lugar determinante, para lá do social, do político, do «gregário» em geral. Entre outras (Bataille, filosofias orientais, ioga, tântricas e outras, a psicanálise não freudiana, etc.) destaca-se, pelas ligações directas e explícitas que oferece com esta matéria, a obra de Carl Gustav Jung e da sua «psicologia das profundezas». Destaco Jung, porque a própria Llansol o refere várias vezes nos cadernos desta fase (entretanto entrados nos Livros de Horas 1 e 2). A relação entre Augusto e Gabi, e, no caso dele, com o arquétipo da mulher, parece passar muito por esta leitura de Jung (concretamente de Psicologia e Alquimia e O Homem e os seus Símbolos, todos referidos nos cadernos, e particularmente da autobiografia Ma Vie, em cuja página de rosto MGL anota: «Último livro que o Augusto leu, 11 de Nov. de 2003»). 
Outras formas de escrita no espólio de AJ, em especial os poemas e os ensaios, revelam evidentes afinidades com estes interesses e derivas. Os poemas, que são muitos, desde os primeiros cadernos (e já do período da tropa, nas cartas e no diário a quatro mãos com Gabi em 1965), centram-se nos grandes temas do Augusto:  o auto- e o hetero-conhecimento (auto-análise e análise da relação com os outros e com a Outra, num espaço de mutação permanente), o erotismo e a busca de uma espiritualidade na imanência, a reflexão ideológico-política (por ex. num longo ciclo poético sobre Portugal, Salazar e o Estado Novo, no caderno 3, de 1979, o ano da escrita da tese em Lovaina).
Finalmente, os ensaios (e estudos preparatórios de ensaios) sobre livros de MGL, alguns dos quais deram posfácios, e outros foram reunidos pelo próprio AJ num volume, inédito, com o título Dom Arbusto; prefácios a traduções, ensaios sociológicos («Teoria das gentes», «A forma-rapaz»...).
Neste campo do ensaísmo, AJ desenvolve desde cedo um método próprio e original (e, naturalmente, discutível – já gerou muita controvérsia no GELL, entre 2001 e 2003), a que eu chamaria, provisoriamente, o método da obsessão do singular. O método explora essencialmente a fisicalidade do texto (o nível significante – de que não se pode extrair um sentido, mas apenas possíveis de significação) e o dinamismo nos usos da linguagem. Como AJ explicava em 19 de Outubro de 2002, não lhe interessava a «trans-substanciação» (o extrapolar do texto sentidos transcendentes), mas sim a mutação (os dispositivos imprevisíveis, não expectáveis, de gerar significação no texto de Llansol): ou seja, não o sentido, que não há, mas a substância do gesto linguístico, não o fixo, mas o infixo, não a dualidade (um pretenso corpo e uma pretensa alma do texto), mas a unidade do que é singular (corpo que é alma e alma que é corpo, como em Spinoza). E questionava categorias abstractas como «o literário» ou «a literatura», para perguntar pelos modos de funcionamento particular deste texto, da linguagem nele posta em acção, e pelos caminhos que facilitam ou dificultam o acesso a ele. É uma forma de microanálise que, segundo ele, permite ir para lá do significante ou do grafema, mas partindo sempre dele. E entrava pelas curvas e mapas de ocorrências, vibração, valências, que lhe permitiam chegar a uma galáxia textual onde o sentido se vai fazendo e desfazendo, e a que chama a «termodinâmica do sentido». O nosso problema, dizia o Augusto, é a fixação na semântica: precisamos de compreender, e caímos nos conceitos! Ele, por seu lado, lança mão de um instrumentário que vai buscar à Física (à termodinâmica, com as suas noções básicas de entropia – energia, desordem, imprevisibilidade – neguentropia – baixo nível de entropia, que permite a vida do texto com um relativo grau de originalidade, sem o fazer cair no caos – e redundância – a repetição que asfixia essa originalidade, ou também gera novos modelos não convencionais, como no minimalismo repetitivo) para chegar a um horizonte de interpretação que lhe vem de Spinoza, e que afirma a unidade indissociável do fora e do dentro, do corpo e da alma, da vida e da morte numa totalidade orgânica (AJ falava do «texto orgânico» de MGL, por oposição ao «texto potenciométrico» realista: cf., no meu livro Na Dobra do Mundo, o quadro das pp. 49-50). Explora, assim, sinais concretos e materiais do texto, precisamente para não se fixar em conceitos abstractos e gerais. Interessa-lhe entender como funciona o texto para poder ser o que é, e não outra coisa. É a obsessão da singularidade – com todas as suas aporias, sobretudo as do descritivo e da quantificação, como alguns de nós objectavam.
Mas AJ vê as coisas de outro modo, e exemplifica a sua via de leitura, por ex., com a transmutação que fez do Livro das Comunidades em peça para o palco: gera (como leitor activo que é) um movimento, uma tensão expectante, entre discurso e imagem, ou entre discursividade e gesto, um conjunto de gestos e sinais pelos quais a peça se vai construindo em quadros minuciosos – como os das suas folhas Excel –, em vórtices de acção significante. Tal como nas suas experiências narrativas e poéticas, o método de AJ é o da rejeição de todas as formas de poder (do instituído, da literatura, da moral vigente, das convenções...) em favor de uma panóplia de outros poderes/pujanças singulares. O primeiro, que conhece mas rejeita, desconstrói-se pela fala/pelo discurso; os segundos, que abrem ao mundo novo, são da ordem do fazer, e revelam-se nos gestos e sinais das figuras singulares das beguinas, e do próprio Luís M., que aí é o «pontifex» (aquele que faz a ponte).
No processo de formação a que se submete e submete as figuras de mulher, que não gera uma situação de dependência, mas de interacção mútua, ele irá formar com cada uma delas o que Llansol designará de ambo: a figura do semelhante na diferença, ou melhor, da singularidade mutante fecundada pelo outro.

III – O que é um Ambo? 
Llansol escreve por mais de uma vez que ela e AJ formam um ambo, mas também que ninguém sabe exactamente o que isso é (Inquérito às Quatro Confidências, p. 13). Uma vez, num avulso do caderno 1.15 (provavelmente de 1984, ainda em Herbais), Llansol, contra aquilo que é mais habitual nela, quantifica o seu perfil – pragmático, mental e afectivo – e compara-o com o do Augusto.
De acordo com a (enigmática) escala utilizada (se for de 100, o «Eu» ultrapassa a escala em 70 pontos, e «Aug.» apenas em 10!), ela própria seria essencialmente «mental» e «afectiva», enquanto AJ seria mais claramente «pragmático». São, como escreve Llansol num caderno de 1983, as contradições produtivas «entre a inteligência que ataca e a superfície feminina que se aprofunda» (Caderno 1.14, p. 226); ou «a dialéctica Augusto/Gabi, [que] já não me angustia (...) Prefiro o sistema da balança ao da pulverização» (Caderno 1.07, p. 221), i. e., a troca mútua à anulação.
 Avulso 07, caderno 1.15
Pondo de lado as imprecisões matemáticas (o que não estranha nada em MGL), este tipo de configuração poderia de facto prefigurar um ambo: pelo seu desequilíbrio equilibrado, pelas «contradições que constituem o caminho gradativo da nossa reunião» (Um Falcão no Punho, p. 65). Esta relação foi, de facto, feita de intensidades, obsessões, desequilíbrios e encontros extraordinários. Também de conflitos, medos, silêncios (as mais das vezes com resultados criativos surpreendentes). Tudo parece ter começado naquele Verão de 1964, e em poucos meses a relação intensifica-se, cresce e oscila até ao casamento e à fuga para a Bélgica, em cartas e contra-cartas quase diárias, entre Lisboa e os Regimentos de Artilharia (de Vendas Novas e de Viana do Castelo) onde presta serviço o futuro desertor da Guerra Colonial; e começa aí um percurso e uma aventura invulgar, que duraria perto de quarenta anos. A meio caminho, em 5 de Abril de 1987, Llansol anota num dossier dactiloscrito: «O meu nome recebe também o Augusto, com seus filamentos de apoios, inteligência e lucidez» (DOA14, p. 8) – os três termos dão a dimensão real, e completa, do papel de AJ na vida de Gabriela. E no final, já depois da partida definitiva do «Nómada» em 11 de Novembro de 2003 (vd. Amigo e Amiga e o «Poema do Nómada do Entresser», no caderno que fizemos para o dia de hoje), ela evoca-o no «Curso de Silêncio de 2004», livro do luto e da caminhada para a transparência da antevisão do «lugar para onde irei»; e presta-lhe a última homenagem no livro de Tual, «o grande textuador desconhecido» e portador da Vara da Sabedoria, o tirso que preside aos rituais da leitura cantada do Texto. Os Cantores de Leitura serão o derradeiro lugar da «coreografia amorosa do Ambo» já ensaiada em 2002 na Clareira de Parasceve (vd. a última fotografia da nossa série). Até no nome – Tual – a figura do Ambo neste livro entra em diálogo com a de Teol nas narrativas dos cadernos de AJ.
O Ambo é uma figura parente da do «amor ímpar», da tensão criativa que gera a terceira coisa, o um que são dois, opostos conciliáveis, dinamicamente complementares. Seria possível, a partir dos textos de MGL e de AJ escritos sobre o outro e sobre a relação com ele, escritos para o outro e muitas vezes com o outro, elaborar uma tipologia de traços do Ambo a partir das duas partes que o constituem. O encontro, sem fusão nem anulação, entre um e outro, gera o Ambo, figura imprecisa, mas de vários nomes e rostos.
Muito mais interessante, porém, é ir seguindo, nos textos dos dois, a real natureza desta existência una na singularidade, que é a essência do Ambo. A Maria Gabriela dá, mais do que o Augusto, imagens e quase-definições do Ambo, uma noção que não aplica apenas às relações humanas, mas estende a outros domínios (por ex. em «O Espaço Edénico»): o conhecimento e a beleza, a liberdade de consciência e o dom poético, o cão e a dona em relação ímpar e «fora da perpendicular do ceptro», o texto que pergunta e o texto que responde. No caso específico da sua relação com AJ, MGL desdobra num grande leque as facetas prismáticas do Ambo. Lembro apenas alguns exemplos, antes de terminar:
- «A intensidade das contradições usuais entre mim e A. diminuiu, e o que prevalece é o grande entendimento criativo que nos une. Para onde quer que formos, nascerá um novo clima...» (Caderno 1.11, p. 134); é «a simples maneira matinal de viver, na sala das diferenças que nos unem» (id., p. 228);
- «O A. está sempre a lançar sementes em mim... Não filhos» (Livro de Horas 2, p. 135);
- «fomos coincidentes, e fomos viajantes para praias próprias» (Livro de Horas 1, p. 125);
- «O Augusto escreveu: 'quando a luz se vê iluminada' (há entre mim e ele como que uma página branca iluminada / o alguém de um nome)»;
- «Mais do que amantes e marido e mulher, somos parentes. O mesmo tronco, mas uma bem diferenciada amplitude de trocas e movimentos.» (Livro de Horas 2, p. 160). 
A deambulação poderia continuar, mas há duas passagens de Inquérito às Quatro Confidências que fazem a súmula perfeita, e inacabada, da questão do Ambo (fico por aqui, e o resto vem nos fragmentos do «Caderno do Ambo» que fizemos). Este livro evoca a fase em que AJ tinha de lidar com o pessimismo de Vergílio Ferreira em longas discussões sobre o fim do romance ou o sentido da existência, e MGL explodia de impaciência, ou se recusava a acreditar na partida daquele que via como «companheiro filosófico», «o mais jovem» – mas certamente não seu ambo. E escrevia: «Vou despedir-me, principiar a despedir-me sem que nada se quebre ou parta.» (IQC, 114). A relação aqui é de empatia, mas não de tensão criativa.
Já em relação a AJ o discurso é outro: «O ruído da minha máquina e o do computador do Augusto, mais suave, são como passos a caminhar,         e assim possuímos a terra, de uma margem a outra margem.» (pp. 83-84)
Mas logo no início deste livro encontramos já a definição do Ambo – inconclusiva, porque se trata de matéria mutante, e clara, porque há um saber intuitivo de mútua pertença que fala aqui:
«As imagens descem em tropel do horizonte e, sem cuidar, tentam quebrar o anel onde arde a chama...) _______ um fio de pensamento solitário que me sugere que eu e o Augusto somos iguais diante da Natureza solitária. Não sei bem o que somos um para o outro. Somos um ambo mas o que tal significa realmente prevalece ainda envolto em bruma. Acendo a vela da ternura para ele. Tome, meu ambo,

a vela da ternura Com ela vai a lealdade que nunca se apaga _____ e a liberdade do meu espaço sobe à montanha _____ estes telhados próximos _____, onde há pássaros, mais precisamente, muitas andorinhas.
Sobre elas cai continuamente esta neblina densa e eu, dentro da regra aceite do silêncio, não me sinto só, nem triste.» (IQC, 13)

 João Barrento


O espólio de Augusto Joaquim: uma viagem à vol d'oiseau



1.4.13

GABRIELA E AUGUSTO:
HISTÓRIA DE UM AMBO

(para ler melhor o texto clique duas vezes sobre ele)

16.3.13

O «AMBO» NA LETRA E



Devido às férias escolares e à semana da Páscoa teremos de adiar a sessão dedicada à relação M. G. Llansol-Augusto Joaquim, que passará para o dia 6 de Abril, como sempre às 17 horas.
Voltaremos a dar notícias mais próximo dessa data. E as surpresas vão ser muitas!

10.3.13


Mais uma tarde  de revelação e iluminação para muitos dos que foram ontem à «Letra E» do Espaço Llansol. A poeta (e professora da Faculdade de Letras do Porto) Ana Luísa Amaral abriu, de forma aliciante e rigorosa, várias portas de entrada no universo e na escrita da maior poeta americana – do seu tempo e ainda do nosso –, a enigmática, surpreendente e inimitável Emily Dickinson.


A sessão inaugurou o nosso ciclo «As Figuras do Texto» (de facto, já iniciado o ano passado com Hölderlin e Pessoa/Aossê), que irá continuar. Na apresentação da nossa convidada, a maior especialista de Dickinson em Portugal (pode descarregar-se e ler-se a sua tese de doutoramento Emily Dickinson-Uma poética do excesso aqui: http://hdl.handle.net/10216/16155), João Barrento destacou algumas convergências entre estas três mulheres de três séculos tão diferentes, pela via dupla da escrita e da tradução. Ana Luísa Amaral e Maria Gabriela Llansol – e, no espaço discreto da sua reclusão relativa, sobretudo nas suas muitas cartas, também Dickinson – escrevem sobre e contra a peste dos medíocres no mundo de ontem e no de hoje. As três falam, na sua escrita poética, de e por enigmas, véus translúcidos, fingimentos, cada uma com os seus. Todas «põem a mão no pensamento» (Llansol) e o pensamento no corpo e o corpo na escrita. Com a noção clara de um caminho, não imposto, mas escolhido pelo «poder de decisão», ou também ditado pelo «medo» incontornável de todo o acto de escrever (que Dickinson também conhece), que não é mero entretenimento ou gesto inócuo de promoção pública – e vivendo todas na «casa do possível», que outra não há nem pode haver nestas coisas da escrita.


Emily Dickinson e Maria Gabriela Llansol escrevem também, reconhecida e ostensivamente, fora dos cânones, os sociais e os literários, uma fazendo «não-poesia», a outra situando-se «na margem da língua, fora da literatura». E também Ana Luísa Amaral é uma poeta com um rosto claramente identificável na nossa poesia de hoje, pela subversão que opera do expectável, pela ironia subtil, mansa e dissolvente da sua poesia.
Tal como Llansol, que publica, sob o pseudónimo de Ana Fontes, os Bilhetinhos com Poemas de Emily Dickinson (Colares Editora, 1995), também Ana Luísa Amaral traduziu a poeta americana numa antologia de 100 Poemas de Emily Dickinson (Relógio d'Água, 2010), tendo no prelo, e na mesma editora, uma nova antologia com 200 Poemas. Nestas aventuras da passagem, nas transposições em que se «muda a grafia e a cor do A de Rimbaud» (escreve M. G. Llansol em Inquérito às Quatro Confidências), ou nas travessias dos terrenos esburacados, elípticos, de «excesso», e traçados tantas vezes pelo avesso, da poesia de E. Dickinson, a mão é sempre a mão que trai, numa traição que é o estigma de Babel – mas nem por isso deixamos de jogar este jogo de palimpsestos imperfeitos, de sobreimpressões de língua a língua. Llansol dirá, sobre estes ritos de passagem que praticou de forma muito sua, e única, que se trata apenas de momentos em que «alguém», mais uma figura do Texto, nos bate à janela da casa pedindo para entrar; ou ainda, num papel avulso do espólio, de «um trabalho de poeta e de ladrão». E Ana Luísa Amaral, que reincidiu nesta aventura com os seus 200 Poemas, fala num dos seus poemas próprios («Babel», do ciclo «A Leste do Paraíso») de «um gesto de ciúme» de Deus: «Diz-se que a punição se cumpriu justa / no divino saber / Mas foi decerto gesto de ciúme, / desajeitada afirmação de quem / já não tem demais céus // a conquistar.»


Ana Luísa Amaral guiou-nos pelos meandros, pelas contradições e pelos abusos  da edição dos poemas de Dickinson, destacou, com exemplos da poesia e das cartas, em transcrição e nos manuscritos, os processos da escrita da «virgem de Amherst», a subversão dos cânones, a ironia latente na relação com os seus interlocutores, a indecibilidade de género nas transições entre bilhetes e poemas. E deixou claro para quem, com prazer e proveito, a ouviu que o modo de escrita próprio de Dickinson – como também de Llansol – é o da «visão que a palavra vai ocupar». E que também aqui, como no rio de escrita de Maria Gabriela Llansol, o poema nunca está feito, nunca há texto «acabado».