23.4.13
CINCO LIVRINHOS
NO DIA MUNDIAL DO LIVRO
Hoje é o Dia Mundial do Livro, e queremos assinalá-lo aqui disponibilizando os cinco últimos livrinhos que fizémos para as sessões da «Letra E», e para outras acções de divulgação da escrita de Llansol.
Todos aqueles que não puderam acompanhar-nos nestas sessões poderão agora ler textos de M. G. Llansol, em grande parte inéditos, sobre temas e figuras como Hölderlin, a paisagem, Emily Dickinson, Augusto Joaquim e o «Ambo». E ainda um caderno que dá entrada na vida e na escrita de Llansol. Pode folhear os documentos, ou descarregá-los para o computador. Se quiser, pode também voltar a recordar o contexto em que alguns desses textos foram lidos ou comentados, indo às páginas deste blog nos dias indicados para cada um dos cadernos.
Boa leitura neste dia do livro e da leitura!
(Estes poemas de Hölderlin foram lidos no dia 4 de Dezembro de 2012)
(Textos lidos na sessão de 28 de Janeiro de 2013)
(Da sessão do dia 13 de Março de 2013, sobre Emily Dickinson em Llansol,
com Ana Luísa Amaral)
(Da sessão sobre Gabriela e Augusto: o Ambo, 9 de Abril de 2013)
(O caderno de divulgação, actualizado em 2013)
Publicado às
19:20
22.4.13
O REGRESSO DE JADE
à Letra E
Jade, o Cão Jade, Leão Jade, regressou no sábado à Letra E, animada por muitos olhares curiosos de crianças (e adultos) suspensas da nova narrativa de Hélia Correia, alias Emily. O novo texto, que se entrecruza de forma sensível e subtil com o de Maria Gabriela Lansol, Amar um Cão, foi lido e visualmente animado pela actriz Inês Nogueira. A outra Inês (Melo, da linhagem do poeta Ramos Rosa) acompanhou-a com o seu acordeon.
A Albertina Pena fez de mestra de cerimónias, a pequena Catarina Galego trouxe-nos a sua visão de Leão Jade a pastel (e ofereceu o quadro à Letra E), e a Celeste Pedro e a Teresa Projecto (que também dispôs na cozinha o seu delicado «jardim que o pensamento permite») trataram de guiar a mão de meninos e meninas para que Jade renascesse nos seus pequenos cadernos, e finalmente numa obra colectiva toda feita de materiais reciclados, preparada pela Celeste, e que as fotos mostram.
Houve merenda na cozinha, e mostrámos os vinte desenhos-colagens que Augusto Joaquim fez em 2002 para a nova edição de Amar um Cão, e também as placas de identificação que Jade usava ao pescoço desde Jodoigne, na Bélgica. E cheiraram-se saquinhos com as plantas dadas a conhecer a Jade, que a Hélia/Emily foi costurando pacientemente na véspera, noite adentro.
Pode ver-se tudo na sequência fotográfica que se segue, para a qual fomos recuperar a peça «Inscrição», para duas flautas de bisel, que o João Madureira compôs para o nosso Colóquio de Mourilhe, com a Maria Gabriela, em Julho de2005.
No caderno que fizémos para mais esta sessão da Letra E, que pode ser folheado em baixo, dá-se a ler o texto de Hélia Correia, e a ver fotos de Jade e as plantas que lhe foram nomeadas pela dona (e que estavam presentes ao vivo). E é ainda possível ler o original manuscrito da carta de despedida que o dono, Augusto Joaquim, escreveu a Jade no dia seguinte ao da sua partida para parte incerta.
Publicado às
10:04
9.4.13
O AMBO:
«VIDA E MORTE DE AUGUSTO E GABRIELA...
«VIDA E MORTE DE AUGUSTO E GABRIELA...
... desejo de, quando esta minha forma humana nos deixar, a mim ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro.»
(M. G. Llansol, Livro de Horas I)
Meia vida em fotografias: os caminhos de Augusto e Gabriela
na parede da Letra E no dia 6 de Abril
No sábado 6 de Abril evocámos Augusto Joaquim, o seu trabalho e a sua relação singular com Maria Gabriela Llansol, a «Gabi» das primeiras cartas de amor de 1965. Do que foi dito deixamos aqui um resumo alargado.
Esta sessão da
'Letra E' não tem paralelo com as anteriores – a não ser talvez com a primeira,
a inaugural, em que mostrámos e se falou da juvenilia
de M. G. Llansol, da sua Obra ainda desconhecida, anterior à publicação do
primeiro livro. Hoje ocupamo-nos da segunda metade dessa vida, indissociável
da de Augusto Joaquim a partir de 1964. A matéria vai ser, por isso, mais biográfica
do que habitualmente – mas não só: espero que se possa chegar a compreender um
pouco melhor a bio-signo-grafia do Há
destes dois «gémeos astrais» (Finita),
em permanente tensão e convergência.
Uma segunda
intenção desta sessão é dar a conhecer esse outro lado, um tanto oculto, de
Llansol e da sua escrita, sem o qual, por várias razões, esta não teria sido o
que foi: essa face oculta tem por nome Augusto Joaquim (-->AJ). Há, de
facto, um «défice de Augusto Joaquim» quando se fala de Llansol (-->MGL) e
da sua escrita. Mas a verdade é que ele teve parte activa e influência decisiva
nesta Obra e no seu devir-texto, desde logo por ter arrastado a sua autora para
um exílio que foi determinante para a sua mudança de paradigma literário e
existencial. Mas não só por isso, como veremos. Os cadernos e outros documentos
de ambos os espólios mostram hoje à evidência que sempre existiu uma forte
interacção, e que a presença e a intervenção de AJ foram determinantes para o
nascimento e o progresso da Obra de MGL a partir da ida para Lovaina. O diário Finita dá já bastante conta desta
disponibilidade de AJ, primeiro leitor dos seus textos e, no início,
frequentemente escrevente a quatro mãos com a «Gabi». Mas a interacção não se
limita à leitura dos textos que Gabriela vai escrevendo (um ritual – mas com
consequências efectivas – evocado pelo próprio Augusto no início do posfácio a Causa Amante); as conversas entre ambos
são determinantes para o andamento e a orientação de certos livros, a ponto de
Llansol se queixar do perigo que constitui para a sua própria autonomia a
inteligência reverberante do Augusto, reconhecendo também os estímulos que lhe
vêm dessa troca verdadeira: «Sempre Augusto foi para mim o terreno da explicação
e da consistência» (Caderno 1.13, p. 20, 9.2.82). Augusto é o parceiro que
inventa e lhe fornece conceitos (Entresser,
Isso, Esse, Sebastião, o Dom) e títulos (O Litoral do Mundo), e lhe dá a ler obras fundamentais (da área
científica ou pedagógica, mas também o I
Ching, como se verá no Livro de Horas 3,
em data de 5-4-79).
-->
Convém
então começar por falar do percurso, dos interesses, do universo de acção e
pensamento de Augusto Joaquim; e também, e sobretudo, dos seus modos de
relacionamento com a Maria Gabriela, da interpretação do seu Texto, e da
relação única entre ambos – relação de verdadeiro Ambo, um conceito a que já regressaremos –, a nível humano,
literário e intelectual.
-->-->
I - Quem é Augusto Joaquim?
O único currículo
de que dispomos no espólio de Augusto Joaquim é sintomático do corte operado
por ele próprio em relação à sua vida anterior à deserção e à relação com a
Maria Gabriela. É um CV que omite toda a sua formação escolar, e de Seminário,
até à ida para o serviço militar em 1964. Currículo curioso, com uma larga zona
de silêncio, antes da ida para Lovaina, e ainda com outra marca evidente nesta
figura que escreveu muito, mas publicou pouquíssimo: por esse currículo (e pelo que hoje conhecemos do que deixou) se vê
que a maior parte do que escreveu está inédito, em papel, em disquetes e CDs. E
há ainda um terceiro aspecto relevante: o seu espectro de interesses e
actividades (que não contempla, neste CV, o lado artístico: colagens, desenhos,
bandas desenhadas-discursivas...) é muito amplo, e parece ir dar, desde cedo, a
uma área cuja metodologia será aplicada a diversos sectores, e muitas vezes a
textos de MGL: a termodinâmica do sentido
(podem ver-se alguns exemplos deste trabalho múltiplo no video que aqui
mostramos, e que dá a conhecer uma pequena parte do espólio de AJ).
Não sabemos
exactamente quando AJ e MGL se conheceram, mas pela correspondência (amorosa)
deixada, terá sido antes de Agosto de 1964, provavelmente na Igreja de Santa
Isabel, em Campo de Ourique (onde moravam, quer a Maria Gabriela, quer os pais
do Augusto). Nas cartas trocadas antes do casamento em 28 de Setembro de 1965,
e ainda até à deserção de AJ em Dezembro desse ano, é já possível constatar que
existe, da parte do Augusto, mas não da «Gabi», um progressivo questionamento
de si próprio e do substrato católico de onde ambos vêm. Essas cartas revelam
por vezes uma maturidade intelectual e humana extraordinária para um homem de
vinte anos, acabado de sair do Seminário dos Olivais, em Lisboa! Em Llansol, a
ruptura, se disso se pode falar, dar-se-á a partir da descoberta própria de um
outro sentido para a espiritualidade fora da instituição, com os místicos
flamengos, renanos e ibéricos, que transparece na primeira trilogia, «Geografia
de Rebeldes».
Augusto Joaquim
estudará, em Lovaina, Sociologia e Ciências Políticas, tendo apresentado uma
original tese sobre o Salazarismo em 1970. O meio de Lovaina, onde irão
encontrar muitos exilados políticos, apresentava-se como um mundo novo, quando
comparado com o Portugal de Salazar, que haviam deixado voluntariamente.
Llansol esclarece bem essa passagem decisiva, numa entrevista-carta a uma
jornalista de nome Maria Helena (com várias versões, e que provavelmente nunca
chegou a sair), com data de Junho de 1980, e que poderá ser lida no Livro de Horas 3, a sair este ano.
Neste ambiente
nasce também a escola da Rua de Namur e, depois, a cooperativa e escola Ferme
Jacob/La Maison, projectos a que se associam, para além de colaboradores e
amigos belgas e outros, Anabela Lopes (amiga de juventude de AJ) e José Luís
(seu irmão). Destes anos setenta é também o projecto da revista Perspectiva, de inspiração «marxista
quente», de esquerda radical e alternativa, editada em Jodoigne de forma meio
artesanal por AJ e outros companheiros de ideologia (e onde a Maria Gabriela
também escreve dois ou três textos sob pseudónimo). Segue-se um progressivo
isolamento, que acentua as crises financeiras e depressivas de Llansol no
«cativeiro de Herbais», depois do fim da Ferme Jacob e do lançamento de uma
empresa de agricultura biológica por AJ, que corre mal (como iria acontecer com
outro empreendimento semelhante depois do regresso a Portugal, em Colares). Os
cadernos de um e outro registam estas mudanças sucessivas de vida e as
oscilações da relação: os conflitos criativos, a crítica («implacável») de AJ e
ao mesmo tempo a sua crença incondicional no projecto de escrita em curso (os
textos do caderno «O Ambo», que fizémos para este dia, dão conta disto).
Depois de 1985, já
em Portugal, Augusto Joaquim lançará uma série de outras iniciativas para
divulgar a Obra de MGL e falar dela: com a editora Rolim e a Galeria
Monumental, em lançamentos de livros ou com a ideia de criar uma Fundação, já
em Colares, como testemunha uma carta de Llansol inserida num dos cadernos do
Augusto, em que ela vê nessa Fundação «uma comunidade real, mas móvel e
crescente» — como viria a acontecer, ainda em vida de Augusto Joaquim, primeiro
com o Grupo de Estudos (GELL), que nasce também por sua iniciativa em 2000, e
depois com a criação do Espaço Llansol em 2006, já sem ele.
II - Augusto Joaquim: para além da biografia
Mas vejamos o caso
AJ para além da biografia – e tentemos traçar um retrato intelectual e criativo
desta figura sempre empenhada, lúcida e generosa, para lá das ocorrências
biográficas, à margem de projectos de vida estáveis que, aparentemente, nunca
lhe interessaram muito: em «A hora sexta de Herbais», um texto quase de fim de
vida, isso torna-se evidente: «Quase sem dar por 'isso', fui acabando com todos
os peditórios que tinha em curso. Era ele a carreira, o prestígio, a política,
o mundo finito, a família, a fé, o mundo melhor.»
Dotado de uma
inteligência viva, não abstracta, mas, como escreve Llansol, «carregada de uma
força libidinal intensa» (Caderno 1.06, p. 197, 6.2.1979), de um poder de
decisão que o levava a saber «escolher o real» mais ajustado à sua obsessão da singularidade (um traço que
orientaria, tanto uma vida à margem do poder, na busca da pujança própria, como
todo um método de trabalho e análise que aplicava aos mais diversos objectos,
como veremos) e de um sentido pragmático que contrastava visivelmente com a
tendência mais contemplativa do seu «ambo», a Gabi, Augusto Joaquim cria um
universo que é um prisma, um caleidoscópio
de corpo-ideia-acção-visão, um mundo muito próprio (hoje acessível num
espólio muito mais reduzido que o de Llansol, mas de uma grande intensidade e
variedade, apesar de parcial - muita coisa terá sido destruída por ele em 2003
- e em grande parte inédito e desconhecido).
[7 cadernos manuscritos
e vv. dossiers A4 (com narrativas: a busca da androginia?; poemas: a busca de si na relação com o
outro, a Mulher e o outro da polis; textos de reflexão, sobre o exílio, o
trabalho, Gabi, e o seu lugar na vida-escrita dela); ensaios (de sociologia, literatura, pedagogia) em disquetes, papel,
2 revistas, em livros, em esquemas e mapas a lápis – e folhas Excel – sobre
livros de MGL e outros; 2 dossiers
com sonhos; muitos desenhos e colagens (em papel e
digitais), séries e «bandas discursivas», trabalhos feitos para e com os alunos
das escolas (papel e diapositivos)...]
Em tudo o que pude
ler (e ver) nas últimas semanas no espólio ainda não classificado de Augusto
Joaquim detecto uma espécie de crença
céptica (i. e. sempre disponível para a mudança) na racionalidade radical da imanência e da singularidade, que o
leva a posições de um niilismo, não filosófico, mas científico e pragmático (de
fundamento anarquista e, nos escritos literários e nos desenhos e colagens,
revelador de uma obsessão erotómana que se pode constatar no video que fecha este post),
posições essas que situam o seu pensamento e a sua acção prática para lá de uma
lógica primária que tantas vezes nos impede de perceber que, em última análise,
o real – ou o texto de MGL – não é «explicável» (o Augusto tentou sempre fazer
passar esta ideia nos nossos encontros do GELL!).
Da minha passagem ainda um pouco
meteórica por este espólio retive alguns aspectos que me parecem significativos
para ir traçando o perfil de um
Augusto Joaquim múltiplo, pensante e
criativo; e também para perceber melhor o seu método, que já referi como sendo guiado pela obsessão do singular. Nos primeiros cadernos (e também num grosso
maço de folhas A4 totalmente preenchidas com uma escrita segura, sem rasuras, e
por muitos desenhos e esboços que acompanham os textos) encontramos uma grande narrativa que designo, para mim, como A (re)invenção da Mulher (mas a que AJ chama O
Círculo da Compaixão, ou da
Compaciência). Nessa narrativa transbordante, erótico-vibratogénea,
verbi-visual, em que intervém um grande número de figuras de mulher com nomes
como Athenaïa, Apollon-Idonaïa, Silvia, Electra, Léa, Sidneï e Sherazade,
desenrola-se toda uma mitografia em
que se encena a relação entre os sexos, num espectro de espiritualidade
corpórea ou de fisicidade espiritual que contempla a hetero- e a
homossexualidade, tanto como o homoerotismo, e cujo horizonte último me parece
ser o da nostalgia de um estado de androginia
primordial, de fusão dos sexos com vista a uma realização plena do humano
(os desenhos, as colagens e os poemas dão também conta deste universo: o
registo é múltiplo, obsessivo, visionário, onírico, surreal, utópico...). Nada
que ande muito longe de alguns filões do texto de Llansol. Nestes meados dos
anos setenta, já em Jodoigne, ambos se alimentam de leituras comuns que poderão
ter inspirado esta busca de um humano mais humano, do corpo e da sua pujança,
do espírito e do seu lugar determinante, para lá do social, do político, do
«gregário» em geral. Entre outras (Bataille, filosofias orientais, ioga,
tântricas e outras, a psicanálise não freudiana, etc.) destaca-se, pelas
ligações directas e explícitas que oferece com esta matéria, a obra de Carl
Gustav Jung e da sua «psicologia das
profundezas». Destaco Jung, porque a própria Llansol o refere várias vezes nos
cadernos desta fase (entretanto entrados nos Livros de Horas 1 e 2). A relação entre Augusto e Gabi, e, no caso
dele, com o arquétipo da mulher, parece passar muito por esta leitura de Jung
(concretamente de Psicologia e Alquimia e
O Homem e os seus Símbolos, todos
referidos nos cadernos, e particularmente da autobiografia Ma Vie, em cuja página de rosto MGL anota: «Último livro que o
Augusto leu, 11 de Nov. de 2003»).
Outras formas de escrita no espólio de AJ, em
especial os poemas e os ensaios, revelam evidentes afinidades com estes
interesses e derivas. Os poemas,
que são muitos, desde os primeiros cadernos (e já do período da tropa, nas
cartas e no diário a quatro mãos com Gabi em 1965), centram-se nos grandes
temas do Augusto: o auto- e o hetero-conhecimento (auto-análise e análise da relação
com os outros e com a Outra, num
espaço de mutação permanente), o
erotismo e a busca de uma espiritualidade na imanência, a reflexão
ideológico-política (por ex. num longo ciclo poético sobre Portugal, Salazar e
o Estado Novo, no caderno 3, de 1979, o ano da escrita da tese em Lovaina).
Finalmente, os
ensaios (e estudos preparatórios
de ensaios) sobre livros de MGL, alguns dos quais deram posfácios, e outros
foram reunidos pelo próprio AJ num volume, inédito, com o título Dom Arbusto; prefácios a traduções,
ensaios sociológicos («Teoria das gentes», «A forma-rapaz»...).
Neste campo do ensaísmo, AJ desenvolve desde cedo
um método próprio e original (e,
naturalmente, discutível – já gerou muita controvérsia no GELL, entre 2001 e
2003), a que eu chamaria, provisoriamente, o método da obsessão do singular. O método explora essencialmente a fisicalidade do texto (o nível
significante – de que não se pode extrair um
sentido, mas apenas possíveis de
significação) e o dinamismo nos
usos da linguagem. Como AJ explicava em 19 de Outubro de 2002, não lhe
interessava a «trans-substanciação» (o extrapolar do texto sentidos
transcendentes), mas sim a mutação
(os dispositivos imprevisíveis, não expectáveis, de gerar significação no texto
de Llansol): ou seja, não o sentido, que não há, mas a substância do gesto
linguístico, não o fixo, mas o infixo, não a dualidade (um pretenso corpo e uma
pretensa alma do texto), mas a unidade do que é singular (corpo que é alma e
alma que é corpo, como em Spinoza). E questionava categorias abstractas como «o
literário» ou «a literatura», para perguntar pelos modos de funcionamento
particular deste texto, da linguagem
nele posta em acção, e pelos caminhos que facilitam ou dificultam o acesso a
ele. É uma forma de microanálise que, segundo ele, permite ir para lá do
significante ou do grafema, mas partindo sempre dele. E entrava pelas curvas e
mapas de ocorrências, vibração, valências, que lhe permitiam chegar a uma
galáxia textual onde o sentido se vai fazendo e desfazendo, e a que chama a «termodinâmica do sentido». O nosso
problema, dizia o Augusto, é a fixação na semântica:
precisamos de compreender, e caímos
nos conceitos! Ele, por seu lado,
lança mão de um instrumentário que vai buscar à Física (à termodinâmica, com as
suas noções básicas de entropia –
energia, desordem, imprevisibilidade – neguentropia
– baixo nível de entropia, que permite a vida do texto com um relativo grau de
originalidade, sem o fazer cair no caos – e redundância
– a repetição que asfixia essa originalidade, ou também gera novos modelos não
convencionais, como no minimalismo repetitivo) para chegar a um horizonte de
interpretação que lhe vem de Spinoza, e que afirma a unidade indissociável do
fora e do dentro, do corpo e da alma, da vida e da morte numa totalidade
orgânica (AJ falava do «texto orgânico» de MGL, por oposição ao «texto
potenciométrico» realista: cf., no meu livro Na Dobra do Mundo, o quadro das pp. 49-50). Explora, assim, sinais
concretos e materiais do texto, precisamente para não se fixar em conceitos
abstractos e gerais. Interessa-lhe entender como
funciona o texto para poder ser o que é, e não outra coisa. É a obsessão da
singularidade – com todas as suas aporias, sobretudo as do descritivo e da
quantificação, como alguns de nós objectavam.
Mas AJ vê as coisas de outro modo, e exemplifica a
sua via de leitura, por ex., com a transmutação que fez do Livro das Comunidades em peça para o palco: gera (como leitor
activo que é) um movimento, uma tensão expectante, entre discurso e imagem, ou
entre discursividade e gesto, um conjunto de gestos e sinais pelos quais a peça
se vai construindo em quadros minuciosos – como os das suas folhas Excel –, em vórtices
de acção significante. Tal como nas suas experiências narrativas e poéticas, o método
de AJ é o da rejeição de todas as formas de poder
(do instituído, da literatura, da moral vigente, das convenções...) em favor de
uma panóplia de outros poderes/pujanças
singulares. O primeiro, que conhece mas rejeita, desconstrói-se pela fala/pelo discurso; os segundos, que
abrem ao mundo novo, são da ordem do fazer, e revelam-se nos gestos e sinais das figuras singulares
das beguinas, e do próprio Luís M., que aí é o «pontifex» (aquele que faz a
ponte).
No processo de formação a que se submete e submete
as figuras de mulher, que não gera uma situação de dependência, mas de
interacção mútua, ele irá formar com cada uma delas o que Llansol designará de ambo: a figura do semelhante na
diferença, ou melhor, da singularidade
mutante fecundada pelo outro.
III – O que é um Ambo?
Llansol escreve por mais de uma
vez que ela e AJ formam um ambo, mas
também que ninguém sabe exactamente o que isso é (Inquérito às Quatro Confidências, p. 13). Uma vez, num avulso do
caderno 1.15 (provavelmente de 1984, ainda em Herbais), Llansol, contra aquilo
que é mais habitual nela, quantifica o seu perfil – pragmático, mental e
afectivo – e compara-o com o do Augusto.
De acordo com a (enigmática) escala
utilizada (se for de 100, o «Eu» ultrapassa a escala em 70 pontos, e «Aug.»
apenas em 10!), ela própria seria essencialmente «mental» e «afectiva»,
enquanto AJ seria mais claramente «pragmático». São, como escreve Llansol num
caderno de 1983, as contradições produtivas «entre a inteligência que ataca e a
superfície feminina que se aprofunda» (Caderno 1.14, p. 226); ou «a dialéctica
Augusto/Gabi, [que] já não me angustia (...) Prefiro o sistema da balança ao da pulverização» (Caderno 1.07, p. 221), i. e., a troca mútua à
anulação.
Avulso 07, caderno 1.15
Pondo de lado as imprecisões
matemáticas (o que não estranha nada em MGL), este tipo de configuração poderia
de facto prefigurar um ambo: pelo seu
desequilíbrio equilibrado, pelas «contradições que constituem o caminho
gradativo da nossa reunião» (Um Falcão no
Punho, p. 65). Esta relação foi, de facto, feita de intensidades,
obsessões, desequilíbrios e encontros extraordinários. Também de conflitos,
medos, silêncios (as mais das vezes com resultados criativos surpreendentes).
Tudo parece ter começado naquele Verão de 1964, e em poucos meses a relação intensifica-se,
cresce e oscila até ao casamento e à fuga para a Bélgica, em cartas e
contra-cartas quase diárias, entre Lisboa e os Regimentos de Artilharia (de
Vendas Novas e de Viana do Castelo) onde presta serviço o futuro desertor da
Guerra Colonial; e começa aí um percurso e uma aventura invulgar, que duraria
perto de quarenta anos. A meio caminho, em 5 de Abril de 1987, Llansol anota
num dossier dactiloscrito: «O meu
nome recebe também o Augusto, com seus filamentos de apoios, inteligência e lucidez»
(DOA14, p. 8) – os três termos dão a dimensão real, e completa, do papel de AJ
na vida de Gabriela. E no final, já depois da partida definitiva do «Nómada» em
11 de Novembro de 2003 (vd. Amigo e Amiga
e o «Poema do Nómada do Entresser», no caderno que fizemos para o dia de hoje),
ela evoca-o no «Curso de Silêncio de 2004», livro do luto e da caminhada para a
transparência da antevisão do «lugar para onde irei»; e presta-lhe a última
homenagem no livro de Tual, «o grande textuador desconhecido» e portador da Vara
da Sabedoria, o tirso que preside aos rituais da leitura cantada do Texto. Os Cantores de Leitura serão o
derradeiro lugar da «coreografia amorosa do Ambo» já ensaiada em 2002 na
Clareira de Parasceve (vd. a última fotografia da nossa série). Até no nome – Tual – a figura do Ambo neste livro
entra em diálogo com a de Teol nas
narrativas dos cadernos de AJ.
O Ambo é uma figura parente da do «amor ímpar», da tensão criativa
que gera a terceira coisa, o um que são dois, opostos conciliáveis,
dinamicamente complementares. Seria possível, a partir dos textos de MGL e de
AJ escritos sobre o outro e sobre a relação com ele, escritos para o outro e muitas vezes com o outro, elaborar uma tipologia de traços do Ambo a partir das
duas partes que o constituem. O encontro, sem fusão nem anulação, entre um e
outro, gera o Ambo, figura imprecisa, mas de vários nomes e rostos.
Muito mais interessante, porém, é
ir seguindo, nos textos dos dois, a real natureza desta existência una na
singularidade, que é a essência do Ambo. A Maria Gabriela dá, mais do que o
Augusto, imagens e quase-definições do Ambo, uma noção que não aplica apenas às
relações humanas, mas estende a outros domínios (por ex. em «O Espaço
Edénico»): o conhecimento e a beleza, a liberdade de consciência e o dom
poético, o cão e a dona em relação ímpar e «fora da perpendicular do ceptro», o
texto que pergunta e o texto que responde. No caso específico da sua relação
com AJ, MGL desdobra num grande leque as facetas prismáticas do Ambo. Lembro
apenas alguns exemplos, antes de terminar:
- «A intensidade das contradições
usuais entre mim e A. diminuiu, e o que prevalece é o grande entendimento
criativo que nos une. Para onde quer que formos, nascerá um novo clima...» (Caderno
1.11, p. 134); é «a simples maneira matinal de viver, na sala das diferenças
que nos unem» (id., p. 228);
- «O A. está sempre a lançar
sementes em mim... Não filhos» (Livro de Horas
2, p. 135);
- «fomos coincidentes, e fomos
viajantes para praias próprias» (Livro de
Horas 1, p. 125);
- «O Augusto escreveu: 'quando a
luz se vê iluminada' (há entre mim e ele como que uma página branca iluminada /
o alguém de um nome)»;
- «Mais do que amantes e marido e
mulher, somos parentes. O mesmo tronco, mas uma bem diferenciada amplitude de
trocas e movimentos.» (Livro de Horas 2,
p. 160).
A deambulação poderia continuar,
mas há duas passagens de Inquérito às
Quatro Confidências que fazem a súmula perfeita, e inacabada, da questão do
Ambo (fico por aqui, e o resto vem nos fragmentos do «Caderno do Ambo» que
fizemos). Este livro evoca a fase em que AJ tinha de lidar com o pessimismo de
Vergílio Ferreira em longas discussões sobre o fim do romance ou o sentido da
existência, e MGL explodia de impaciência, ou se recusava a acreditar na
partida daquele que via como «companheiro filosófico», «o mais jovem» – mas
certamente não seu ambo. E escrevia: «Vou despedir-me, principiar a despedir-me
sem que nada se quebre ou parta.» (IQC, 114). A relação aqui é de empatia, mas
não de tensão criativa.
Já em relação a AJ o discurso é
outro: «O ruído da minha máquina e o do computador do Augusto, mais suave, são
como passos a caminhar, e assim
possuímos a terra, de uma margem a outra margem.» (pp. 83-84)
Mas logo no início deste livro
encontramos já a definição do Ambo – inconclusiva, porque se trata de matéria
mutante, e clara, porque há um saber intuitivo de mútua pertença que fala aqui:
«As imagens descem em tropel do horizonte e, sem
cuidar, tentam quebrar o anel onde arde a chama...) _______ um fio de
pensamento solitário que me sugere que eu e o Augusto somos iguais diante da
Natureza solitária. Não sei bem o que somos um para o outro. Somos um ambo mas o que tal
significa realmente prevalece ainda envolto em bruma. Acendo a vela da
ternura para ele. Tome, meu ambo,
a vela da ternura Com ela vai a lealdade que nunca
se apaga _____ e a liberdade do meu espaço sobe à montanha _____ estes
telhados próximos _____, onde há pássaros, mais precisamente, muitas
andorinhas.
Sobre elas cai continuamente esta neblina densa e
eu, dentro da regra aceite do silêncio, não me sinto só, nem triste.» (IQC,
13)
João Barrento
O espólio de Augusto Joaquim: uma viagem à vol d'oiseau
Publicado às
12:45
1.4.13
Publicado às
12:31
16.3.13
O «AMBO» NA LETRA E
Devido às férias escolares e à semana da Páscoa teremos de adiar a sessão dedicada à relação M. G. Llansol-Augusto Joaquim, que passará para o dia 6 de Abril, como sempre às 17 horas.
Voltaremos a dar notícias mais próximo dessa data. E as surpresas vão ser muitas!
Publicado às
11:23
10.3.13
Mais uma tarde de revelação e iluminação para muitos dos que foram ontem à «Letra E» do Espaço Llansol. A poeta (e professora da Faculdade de Letras do Porto) Ana Luísa Amaral abriu, de forma aliciante e rigorosa, várias portas de entrada no universo e na escrita da maior poeta americana – do seu tempo e ainda do nosso –, a enigmática, surpreendente e inimitável Emily Dickinson.
A sessão inaugurou o nosso ciclo «As Figuras do Texto» (de facto, já iniciado o ano passado com Hölderlin e Pessoa/Aossê), que irá continuar. Na apresentação da nossa convidada, a maior especialista de Dickinson em Portugal (pode descarregar-se e ler-se a sua tese de doutoramento Emily Dickinson-Uma poética do excesso aqui: http://hdl.handle.net/10216/16155), João Barrento destacou algumas convergências entre estas três mulheres de três séculos tão diferentes, pela via dupla da escrita e da tradução. Ana Luísa Amaral e Maria Gabriela Llansol – e, no espaço discreto da sua reclusão relativa, sobretudo nas suas muitas cartas, também Dickinson – escrevem sobre e contra a peste dos medíocres no mundo de ontem e no de hoje. As três falam, na sua escrita poética, de e por enigmas, véus translúcidos, fingimentos, cada uma com os seus. Todas «põem a mão no pensamento» (Llansol) e o pensamento no corpo e o corpo na escrita. Com a noção clara de um caminho, não imposto, mas escolhido pelo «poder de decisão», ou também ditado pelo «medo» incontornável de todo o acto de escrever (que Dickinson também conhece), que não é mero entretenimento ou gesto inócuo de promoção pública – e vivendo todas na «casa do possível», que outra não há nem pode haver nestas coisas da escrita.
Emily Dickinson e Maria Gabriela Llansol escrevem também, reconhecida e ostensivamente, fora dos cânones, os sociais e os literários, uma fazendo «não-poesia», a outra situando-se «na margem da língua, fora da literatura». E também Ana Luísa Amaral é uma poeta com um rosto claramente identificável na nossa poesia de hoje, pela subversão que opera do expectável, pela ironia subtil, mansa e dissolvente da sua poesia.
Tal como Llansol, que publica, sob o pseudónimo de Ana Fontes, os Bilhetinhos com Poemas de Emily Dickinson (Colares Editora, 1995), também Ana Luísa Amaral traduziu a poeta americana numa antologia de 100 Poemas de Emily Dickinson (Relógio d'Água, 2010), tendo no prelo, e na mesma editora, uma nova antologia com 200 Poemas. Nestas aventuras da passagem, nas transposições em que se «muda a grafia e a cor do A de Rimbaud» (escreve M. G. Llansol em Inquérito às Quatro Confidências), ou nas travessias dos terrenos esburacados, elípticos, de «excesso», e traçados tantas vezes pelo avesso, da poesia de E. Dickinson, a mão é sempre a mão que trai, numa traição que é o estigma de Babel – mas nem por isso deixamos de jogar este jogo de palimpsestos imperfeitos, de sobreimpressões de língua a língua. Llansol dirá, sobre estes ritos de passagem que praticou de forma muito sua, e única, que se trata apenas de momentos em que «alguém», mais uma figura do Texto, nos bate à janela da casa pedindo para entrar; ou ainda, num papel avulso do espólio, de «um trabalho de poeta e de ladrão». E Ana Luísa Amaral, que reincidiu nesta aventura com os seus 200 Poemas, fala num dos seus poemas próprios («Babel», do ciclo «A Leste do Paraíso») de «um gesto de ciúme» de Deus: «Diz-se que a punição se cumpriu justa / no divino saber / Mas foi decerto gesto de ciúme, / desajeitada afirmação de quem / já não tem demais céus // a conquistar.»
Ana Luísa Amaral guiou-nos pelos meandros, pelas contradições e pelos abusos da edição dos poemas de Dickinson, destacou, com exemplos da poesia e das cartas, em transcrição e nos manuscritos, os processos da escrita da «virgem de Amherst», a subversão dos cânones, a ironia latente na relação com os seus interlocutores, a indecibilidade de género nas transições entre bilhetes e poemas. E deixou claro para quem, com prazer e proveito, a ouviu que o modo de escrita próprio de Dickinson – como também de Llansol – é o da «visão que a palavra vai ocupar». E que também aqui, como no rio de escrita de Maria Gabriela Llansol, o poema nunca está feito, nunca há texto «acabado».
Publicado às
22:49
3.3.13
20.2.13
DICKINSON NA «LETRA E» ADIADA
Como Emily Dickinson («I dwell in Possibility»), como Llansol («nada é, tudo está sendo»), também nós «moramos na casa do Possível»! – o mundo assim o exige, o que ontem parecia uma coisa, hoje é outra.
Vem isto para explicar mais uma vez, com as nossas desculpas (mas a razão é forte!), a nova mudança de data para a sessão da Letra E sobre Emily Dickinson e Llansol, com a poeta Ana Luísa Amaral: passaremos do dia 2 de Março para o dia 9 de Março, às 17 horas. E isto porque no dia 2, por todo o país, muitos (também os que gostam de Dickinson e Llansol) irão gritar bem alto, na rua, "Que se lixe a troika!".
E a Verdade – que, diz Dickinson, não exclui a Beleza, mas é sua irmã! – impõe-se. Por isso não será a Beleza da poesia de Dickinson e da sua leitura por Ana Luísa Amaral que nos irá impedir de entregar «a nossa carta ao mundo», de fazer ouvir a nossa Verdade aos que nos querem impedir de pensar, transformando-nos em marionetas e impondo-nos uma vida degradante e humilhante!
Iremos então todos à manifestação do dia 2 de Março!!
E esperamos que venham muitos, todos os que puderem, para ouvir falar de Dickinson e Llansol em 9 de Março, na Letra E do Espaço Llansol, em Sintra.
Vem isto para explicar mais uma vez, com as nossas desculpas (mas a razão é forte!), a nova mudança de data para a sessão da Letra E sobre Emily Dickinson e Llansol, com a poeta Ana Luísa Amaral: passaremos do dia 2 de Março para o dia 9 de Março, às 17 horas. E isto porque no dia 2, por todo o país, muitos (também os que gostam de Dickinson e Llansol) irão gritar bem alto, na rua, "Que se lixe a troika!".
E a Verdade – que, diz Dickinson, não exclui a Beleza, mas é sua irmã! – impõe-se. Por isso não será a Beleza da poesia de Dickinson e da sua leitura por Ana Luísa Amaral que nos irá impedir de entregar «a nossa carta ao mundo», de fazer ouvir a nossa Verdade aos que nos querem impedir de pensar, transformando-nos em marionetas e impondo-nos uma vida degradante e humilhante!
Iremos então todos à manifestação do dia 2 de Março!!
E esperamos que venham muitos, todos os que puderem, para ouvir falar de Dickinson e Llansol em 9 de Março, na Letra E do Espaço Llansol, em Sintra.
Publicado às
18:13
28.1.13
A FOTOGRAFIA – O TEXTO
A PAISAGEM – O CORPO
Faz hoje exactamente um ano que abrimos a «Letra E» do Espaço Llansol. Ao longo deste ano, esse espaço aberto e criativo acolheu, até anteontem, catorze sessões que foram trazendo a Sintra uma pleiade de criadores que aqui dialogaram com a escrita e o pensamento de Llansol e um público muito diversificado, que nos granjearam mais visibilidade e sobretudo nos trouxeram novos amigos e colaboradores.
Há um ano escrevíamos, a abrir a «Carta de princípios da Letra E», palavras cuja acutilante – e preocupante – actualidade se mantém, e redobrou:
«Neste momento histórico em que o pensamento e a criação livres se vêem cada vez mais encurralados por agentes de poderes planetários sem rosto e por uma informação redundante e paradoxalmente desinformativa, porque totalmente acrítica, aquilo que a indústria da cultura e a paranóia do consumo consideram 'produtos' da literatura e da arte degenerou, com algumas excepções, em matéria mercantil ou mero alimento de um gosto duvidoso ditado pela vontade inexpressa, mas dominadora, de novas massas anódinas e manipuladas, no plano do visível, pela própria inconsciência de si, nelas inculcada por mecanismos que todos conhecemos há muito.»
Mas também aí se anunciavam as linhas de orientação do nosso fazer, e o espírito que nos anima. E esses não mudaram, tal como não mudaram em décadas de escrita na Obra de Llansol, entre o seu «livro-fonte» e o seu canto do cisne. Anima-nos, como a ela, e por isso está também na nossa «Carta de princípios», «a necessidade de saber 'o que é o corpo, / o que é a luz, / o que é a força, / o que é o afecto, / o que é o pensamento, / o que é a figura'. É todo um programa que podemos seguir.»
E vamos seguindo, com todos os que nos acompanham e connosco colaboram. Para eles vai hoje o nosso obrigado, o nosso afecto e a promessa de continuar.
______________
A tarde de sábado levou-nos às paisagens perdidas e sublimes da Islândia, pela mão da fotógrafa Teresa Huertas, e abriu horizontes inesperados sobre o tema da paisagem, trazidos pela escrita de Maria Gabriela Llansol, a que as nossas amigas Helena Alves e Cândida Pargana deram voz a abrir a sessão, com leitura de textos de O Livro das Comunidades, Finita, Lisboaleipzig, Parasceve, Onde Vais, Drama-Poesia? e O Senhor de Herbais.
A fotógrafa trouxe-nos fragmentos do seu Diário da Islândia, que serviram de fio condutor para a conversa, completada visualmente pelas suas fotografias expostas e pela viagem final com projecções que documentaram alguns momentos da história da «paisagem habitada» (pelo corpo humano), na pintura e na fotografia.
Desse Diário deixamos aqui alguns fragmentos de que partimos para essa viagem na Letra E.
15 de Agosto, Skógasandur, na estrada para Vik
À beira da estrada. Tempestade de vento na duna.
Seduz-me a vastidão dos campos de areia negra árida, com uma linha plana de horizonte definida a poente interrompida pontualmente por alguma rocha. Desenho mentalmente os planos de uma imagem que me parece familiar.
Sessão fotográfica I. Caminho vertical no plano da imagem. Caminho na duna no sentido da pedra. Marcações do meu corpo na areia. A linha que se desenha. Acções várias no percurso.
Sessão fotográfica II. Caminho horizontal no plano da imagem. Caminho na linha do horizonte em direcção à pedra grande. Jogo com a ilusão dos elementos.
18 de Agosto, a caminho de Jokulsárlón
(A experiência do esplendor e da generosidade da natureza)
A paisagem continua mágica. Quilómetros de estrada estreita separam a montanha de cores diluídas, que se perde nas nuvens, da planície de lava-turfa verde pálido, que se perde numa linha de mar.
O grande Vatnajokull começa a surgir. Em cada curva uma nova miragem. É um corpo branco, imenso, e desce majestosamente entre dois flancos da montanha até ao plano vasto de cinzas vulcânicas. Já não há sol. Desapareceu no tempo de uma nuvem. Línguas de gelo aproximam-se de nós. A estrada é agora uma superfície rude que invade o tapete de turfa macia. A seta indica Fjallsárlon. Avançamos, atraídos por uma força que nos conduz os olhos. E quando esta força nos conduz também os passos, é porque nos guia até uma revelação. O glaciar move-se em espiral sobre a montanha. O lugar é sublime. O chamamento da Beleza é uma atracção pelo abismo.
(...)
Mais abaixo, sobre uma das colinas, um círculo de pedras desenha-se no solo. O círculo, forma mágica, minha figura electiva, veio ao meu encontro. Impossível resistir ao chamamento do lugar. O círculo convida-me a entrar. Caminho dentro do círculo. Conto vinte e cinco passos lentos. Conto quarenta pedras. Uma das pedras pertence à terra. É grande e está semi-enterrada no solo. Todas as outras, na sua diversidade, ocupam diversos pontos do círculo, e foram colocadas sabiamente. (...) Entre brancos, azuis, cinzentos e negros, a natureza diverte-se. Não pensa.
19 de Agosto
A experiência da paisagem tem de ser vivida com o corpo, com os sentidos.
A fotografia apenas pode registar fragmentos mínimos do percurso. Como diz Hamish Fulton: «Um objecto não pode competir com uma experiência.»
A fotografia é apenas a ficção da vida.
22 de Agosto, Vogar
Vulcões negros e tapetes de verde esguio, lamas que fervem, vapores que irrompem das entranhas da terra, águas que jorram para o céu, desertos, labirintos de rocha, campos de lava, lagos, glaciares, cortinas de água, auroras boreais. Estamos verdadeiramente no princípio e no fim do mundo, entregues à nossa condição de impotência, perante este desafio desigual, o desafio de uma força magnética, brutal, fulgurante e encantatória, que não nos julga nem teme. (...) A cada mudança de luz, uma nova paisagem. Permanente, só mesmo o silêncio.
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Llansol e a paisagem:
Como se as paisagens fossem um enorme écran onde eu visse a história humana.
(Caderno 1.14, p. 272)
Queria partir para longe e rapidamente, mas não queria ser confrontada a uma qualidade inferior de paisagem.
(Caderno 1.06, p. 2)
Jardim: órgão inteligente, órgão sensível do metabolismo da paisagem.
(Caderno 1.13, p. 290)
Afectos_________ afectos não afectam a paisagem.
(Dossier dactiloscrito DOA07, p. 1, 1989)
A Letra E em 26 de Janeiro de 2013:
(Clique na imagem para aumentar)
(A exposição de Teresa Huertas estará ainda na Letra E até 9 de Fevereiro)
Publicado às
22:43
21.1.13
FOTOGRAFIA E PAISAGEM NA «LETRA E»
No próximo sábado, dia 26, teremos na «Letra E» a fotógrafa Teresa Huertas, que expõe uma série de fotografias de paisagens habitadas (pelo seu próprio corpo, em lugares remotos da Islândia), obras que servirão de ponto de partida para uma conversa sobre o lugar da paisagem no mundo de M. G. Llansol, e sobre a obra da própria fotógrafa e as ideias e intuições que alimentam este e outros trabalhos seus.
Teremos disponível nesse dia um caderno com textos de Llansol sobre a paisagem e a reprodução das fotografias de Teresa Huertas expostas na «Letra E».
E voltamos a lembrar: os que quiserem vir mais cedo, a partir das 15 horas, poderão fazê-lo e conversar connosco e fazer sugestões sobre o nosso programa e o nosso trabalho, no espírito da «troca verdadeira» que é o do universo llansoliano.
Publicado às
16:52
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