9.4.13

O AMBO:
«VIDA E MORTE DE AUGUSTO E GABRIELA...

... desejo de, quando esta minha forma humana nos deixar, a mim  ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro.»
(M. G. Llansol, Livro de Horas I)

Meia vida em fotografias: os caminhos de Augusto e Gabriela 
na parede da Letra E no dia 6 de Abril

No sábado 6 de Abril evocámos Augusto Joaquim, o seu trabalho e a sua relação singular com Maria Gabriela Llansol, a «Gabi» das primeiras cartas de amor de 1965. Do que foi dito deixamos aqui um resumo alargado.


Esta sessão da 'Letra E' não tem paralelo com as anteriores – a não ser talvez com a primeira, a inaugural, em que mostrámos e se falou da juvenilia de M. G. Llansol, da sua Obra ainda desconhecida, anterior à publicação do primeiro livro. Hoje ocupamo-nos da segunda metade dessa vida, indissociável da de Augusto Joaquim a partir de 1964. A matéria vai ser, por isso, mais biográfica do que habitualmente – mas não só: espero que se possa chegar a compreender um pouco melhor a bio-signo-grafia do Há destes dois «gémeos astrais» (Finita), em permanente tensão e convergência.
Uma segunda intenção desta sessão é dar a conhecer esse outro lado, um tanto oculto, de Llansol e da sua escrita, sem o qual, por várias razões, esta não teria sido o que foi: essa face oculta tem por nome Augusto Joaquim (-->AJ). Há, de facto, um «défice de Augusto Joaquim» quando se fala de Llansol (-->MGL) e da sua escrita. Mas a verdade é que ele teve parte activa e influência decisiva nesta Obra e no seu devir-texto, desde logo por ter arrastado a sua autora para um exílio que foi determinante para a sua mudança de paradigma literário e existencial. Mas não só por isso, como veremos. Os cadernos e outros documentos de ambos os espólios mostram hoje à evidência que sempre existiu uma forte interacção, e que a presença e a intervenção de AJ foram determinantes para o nascimento e o progresso da Obra de MGL a partir da ida para Lovaina. O diário Finita dá já bastante conta desta disponibilidade de AJ, primeiro leitor dos seus textos e, no início, frequentemente escrevente a quatro mãos com a «Gabi». Mas a interacção não se limita à leitura dos textos que Gabriela vai escrevendo (um ritual – mas com consequências efectivas – evocado pelo próprio Augusto no início do posfácio a Causa Amante); as conversas entre ambos são determinantes para o andamento e a orientação de certos livros, a ponto de Llansol se queixar do perigo que constitui para a sua própria autonomia a inteligência reverberante do Augusto, reconhecendo também os estímulos que lhe vêm dessa troca verdadeira: «Sempre Augusto foi para mim o terreno da explicação e da consistência» (Caderno 1.13, p. 20, 9.2.82). Augusto é o parceiro que inventa e lhe fornece conceitos (Entresser, Isso, Esse, Sebastião, o Dom) e títulos (O Litoral do Mundo), e lhe dá a ler obras fundamentais (da área científica ou pedagógica, mas também o I Ching, como se verá no Livro de Horas 3, em data de 5-4-79).
--> Convém então começar por falar do percurso, dos interesses, do universo de acção e pensamento de Augusto Joaquim; e também, e sobretudo, dos seus modos de relacionamento com a Maria Gabriela, da interpretação do seu Texto, e da relação única entre ambos – relação de verdadeiro Ambo, um conceito a que já regressaremos –, a nível humano, literário e intelectual.  -->


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I - Quem é Augusto Joaquim?
O único currículo de que dispomos no espólio de Augusto Joaquim é sintomático do corte operado por ele próprio em relação à sua vida anterior à deserção e à relação com a Maria Gabriela. É um CV que omite toda a sua formação escolar, e de Seminário, até à ida para o serviço militar em 1964. Currículo curioso, com uma larga zona de silêncio, antes da ida para Lovaina, e ainda com outra marca evidente nesta figura que escreveu muito, mas publicou pouquíssimo: por esse currículo (e pelo que hoje conhecemos do que deixou) se vê que a maior parte do que escreveu está inédito, em papel, em disquetes e CDs. E há ainda um terceiro aspecto relevante: o seu espectro de interesses e actividades (que não contempla, neste CV, o lado artístico: colagens, desenhos, bandas desenhadas-discursivas...) é muito amplo, e parece ir dar, desde cedo, a uma área cuja metodologia será aplicada a diversos sectores, e muitas vezes a textos de MGL: a termodinâmica do sentido (podem ver-se alguns exemplos deste trabalho múltiplo no video que aqui mostramos, e que dá a conhecer uma pequena parte do espólio de AJ).
Não sabemos exactamente quando AJ e MGL se conheceram, mas pela correspondência (amorosa) deixada, terá sido antes de Agosto de 1964, provavelmente na Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique (onde moravam, quer a Maria Gabriela, quer os pais do Augusto). Nas cartas trocadas antes do casamento em 28 de Setembro de 1965, e ainda até à deserção de AJ em Dezembro desse ano, é já possível constatar que existe, da parte do Augusto, mas não da «Gabi», um progressivo questionamento de si próprio e do substrato católico de onde ambos vêm. Essas cartas revelam por vezes uma maturidade intelectual e humana extraordinária para um homem de vinte anos, acabado de sair do Seminário dos Olivais, em Lisboa! Em Llansol, a ruptura, se disso se pode falar, dar-se-á a partir da descoberta própria de um outro sentido para a espiritualidade fora da instituição, com os místicos flamengos, renanos e ibéricos, que transparece na primeira trilogia, «Geografia de Rebeldes».
Augusto Joaquim estudará, em Lovaina, Sociologia e Ciências Políticas, tendo apresentado uma original tese sobre o Salazarismo em 1970. O meio de Lovaina, onde irão encontrar muitos exilados políticos, apresentava-se como um mundo novo, quando comparado com o Portugal de Salazar, que haviam deixado voluntariamente. Llansol esclarece bem essa passagem decisiva, numa entrevista-carta a uma jornalista de nome Maria Helena (com várias versões, e que provavelmente nunca chegou a sair), com data de Junho de 1980, e que poderá ser lida no Livro de Horas 3, a sair este ano.
Neste ambiente nasce também a escola da Rua de Namur e, depois, a cooperativa e escola Ferme Jacob/La Maison, projectos a que se associam, para além de colaboradores e amigos belgas e outros, Anabela Lopes (amiga de juventude de AJ) e José Luís (seu irmão). Destes anos setenta é também o projecto da revista Perspectiva, de inspiração «marxista quente», de esquerda radical e alternativa, editada em Jodoigne de forma meio artesanal por AJ e outros companheiros de ideologia (e onde a Maria Gabriela também escreve dois ou três textos sob pseudónimo). Segue-se um progressivo isolamento, que acentua as crises financeiras e depressivas de Llansol no «cativeiro de Herbais», depois do fim da Ferme Jacob e do lançamento de uma empresa de agricultura biológica por AJ, que corre mal (como iria acontecer com outro empreendimento semelhante depois do regresso a Portugal, em Colares). Os cadernos de um e outro registam estas mudanças sucessivas de vida e as oscilações da relação: os conflitos criativos, a crítica («implacável») de AJ e ao mesmo tempo a sua crença incondicional no projecto de escrita em curso (os textos do caderno «O Ambo», que fizémos para este dia, dão conta disto).
Depois de 1985, já em Portugal, Augusto Joaquim lançará uma série de outras iniciativas para divulgar a Obra de MGL e falar dela: com a editora Rolim e a Galeria Monumental, em lançamentos de livros ou com a ideia de criar uma Fundação, já em Colares, como testemunha uma carta de Llansol inserida num dos cadernos do Augusto, em que ela vê nessa Fundação «uma comunidade real, mas móvel e crescente» — como viria a acontecer, ainda em vida de Augusto Joaquim, primeiro com o Grupo de Estudos (GELL), que nasce também por sua iniciativa em 2000, e depois com a criação do Espaço Llansol em 2006, já sem ele.


II - Augusto Joaquim: para além da biografia
Mas vejamos o caso AJ para além da biografia – e tentemos traçar um retrato intelectual e criativo desta figura sempre empenhada, lúcida e generosa, para lá das ocorrências biográficas, à margem de projectos de vida estáveis que, aparentemente, nunca lhe interessaram muito: em «A hora sexta de Herbais», um texto quase de fim de vida, isso torna-se evidente: «Quase sem dar por 'isso', fui acabando com todos os peditórios que tinha em curso. Era ele a carreira, o prestígio, a política, o mundo finito, a família, a fé, o mundo melhor.»
Dotado de uma inteligência viva, não abstracta, mas, como escreve Llansol, «carregada de uma força libidinal intensa» (Caderno 1.06, p. 197, 6.2.1979), de um poder de decisão que o levava a saber «escolher o real» mais ajustado à sua obsessão da singularidade (um traço que orientaria, tanto uma vida à margem do poder, na busca da pujança própria, como todo um método de trabalho e análise que aplicava aos mais diversos objectos, como veremos) e de um sentido pragmático que contrastava visivelmente com a tendência mais contemplativa do seu «ambo», a Gabi, Augusto Joaquim cria um universo que é um prisma, um caleidoscópio de corpo-ideia-acção-visão, um mundo muito próprio (hoje acessível num espólio muito mais reduzido que o de Llansol, mas de uma grande intensidade e variedade, apesar de parcial - muita coisa terá sido destruída por ele em 2003 - e em grande parte inédito e desconhecido).
[7 cadernos manuscritos e vv. dossiers A4 (com narrativas: a busca da androginia?; poemas: a busca de si na relação com o outro, a Mulher e o outro da polis; textos de reflexão, sobre o exílio, o trabalho, Gabi, e o seu lugar na vida-escrita dela); ensaios (de sociologia, literatura, pedagogia) em disquetes, papel, 2 revistas, em livros, em esquemas e mapas a lápis – e folhas Excel – sobre livros de MGL e outros; 2 dossiers com sonhos; muitos desenhos e colagens (em papel e digitais), séries e «bandas discursivas», trabalhos feitos para e com os alunos das escolas (papel e diapositivos)...]
 
Em tudo o que pude ler (e ver) nas últimas semanas no espólio ainda não classificado de Augusto Joaquim detecto uma espécie de crença céptica (i. e. sempre disponível para a mudança) na racionalidade radical da imanência e da singularidade, que o leva a posições de um niilismo, não filosófico, mas científico e pragmático (de fundamento anarquista e, nos escritos literários e nos desenhos e colagens, revelador de uma obsessão erotómana que se pode constatar no video que fecha este post), posições essas que situam o seu pensamento e a sua acção prática para lá de uma lógica primária que tantas vezes nos impede de perceber que, em última análise, o real – ou o texto de MGL – não é «explicável» (o Augusto tentou sempre fazer passar esta ideia nos nossos encontros do GELL!). 
Da minha passagem ainda um pouco meteórica por este espólio retive alguns aspectos que me parecem significativos para ir traçando o perfil de um Augusto Joaquim múltiplo, pensante e criativo; e também para perceber melhor o seu método, que já referi como sendo guiado pela obsessão do singular. Nos primeiros cadernos (e também num grosso maço de folhas A4 totalmente preenchidas com uma escrita segura, sem rasuras, e por muitos desenhos e esboços que acompanham os textos) encontramos uma grande narrativa que designo, para mim, como A (re)invenção da Mulher (mas a que AJ chama O Círculo da Compaixão, ou da Compaciência). Nessa narrativa transbordante, erótico-vibratogénea, verbi-visual, em que intervém um grande número de figuras de mulher com nomes como Athenaïa, Apollon-Idonaïa, Silvia, Electra, Léa, Sidneï e Sherazade, desenrola-se toda uma mitografia em que se encena a relação entre os sexos, num espectro de espiritualidade corpórea ou de fisicidade espiritual que contempla a hetero- e a homossexualidade, tanto como o homoerotismo, e cujo horizonte último me parece ser o da nostalgia de um estado de androginia primordial, de fusão dos sexos com vista a uma realização plena do humano (os desenhos, as colagens e os poemas dão também conta deste universo: o registo é múltiplo, obsessivo, visionário, onírico, surreal, utópico...). Nada que ande muito longe de alguns filões do texto de Llansol. Nestes meados dos anos setenta, já em Jodoigne, ambos se alimentam de leituras comuns que poderão ter inspirado esta busca de um humano mais humano, do corpo e da sua pujança, do espírito e do seu lugar determinante, para lá do social, do político, do «gregário» em geral. Entre outras (Bataille, filosofias orientais, ioga, tântricas e outras, a psicanálise não freudiana, etc.) destaca-se, pelas ligações directas e explícitas que oferece com esta matéria, a obra de Carl Gustav Jung e da sua «psicologia das profundezas». Destaco Jung, porque a própria Llansol o refere várias vezes nos cadernos desta fase (entretanto entrados nos Livros de Horas 1 e 2). A relação entre Augusto e Gabi, e, no caso dele, com o arquétipo da mulher, parece passar muito por esta leitura de Jung (concretamente de Psicologia e Alquimia e O Homem e os seus Símbolos, todos referidos nos cadernos, e particularmente da autobiografia Ma Vie, em cuja página de rosto MGL anota: «Último livro que o Augusto leu, 11 de Nov. de 2003»). 
Outras formas de escrita no espólio de AJ, em especial os poemas e os ensaios, revelam evidentes afinidades com estes interesses e derivas. Os poemas, que são muitos, desde os primeiros cadernos (e já do período da tropa, nas cartas e no diário a quatro mãos com Gabi em 1965), centram-se nos grandes temas do Augusto:  o auto- e o hetero-conhecimento (auto-análise e análise da relação com os outros e com a Outra, num espaço de mutação permanente), o erotismo e a busca de uma espiritualidade na imanência, a reflexão ideológico-política (por ex. num longo ciclo poético sobre Portugal, Salazar e o Estado Novo, no caderno 3, de 1979, o ano da escrita da tese em Lovaina).
Finalmente, os ensaios (e estudos preparatórios de ensaios) sobre livros de MGL, alguns dos quais deram posfácios, e outros foram reunidos pelo próprio AJ num volume, inédito, com o título Dom Arbusto; prefácios a traduções, ensaios sociológicos («Teoria das gentes», «A forma-rapaz»...).
Neste campo do ensaísmo, AJ desenvolve desde cedo um método próprio e original (e, naturalmente, discutível – já gerou muita controvérsia no GELL, entre 2001 e 2003), a que eu chamaria, provisoriamente, o método da obsessão do singular. O método explora essencialmente a fisicalidade do texto (o nível significante – de que não se pode extrair um sentido, mas apenas possíveis de significação) e o dinamismo nos usos da linguagem. Como AJ explicava em 19 de Outubro de 2002, não lhe interessava a «trans-substanciação» (o extrapolar do texto sentidos transcendentes), mas sim a mutação (os dispositivos imprevisíveis, não expectáveis, de gerar significação no texto de Llansol): ou seja, não o sentido, que não há, mas a substância do gesto linguístico, não o fixo, mas o infixo, não a dualidade (um pretenso corpo e uma pretensa alma do texto), mas a unidade do que é singular (corpo que é alma e alma que é corpo, como em Spinoza). E questionava categorias abstractas como «o literário» ou «a literatura», para perguntar pelos modos de funcionamento particular deste texto, da linguagem nele posta em acção, e pelos caminhos que facilitam ou dificultam o acesso a ele. É uma forma de microanálise que, segundo ele, permite ir para lá do significante ou do grafema, mas partindo sempre dele. E entrava pelas curvas e mapas de ocorrências, vibração, valências, que lhe permitiam chegar a uma galáxia textual onde o sentido se vai fazendo e desfazendo, e a que chama a «termodinâmica do sentido». O nosso problema, dizia o Augusto, é a fixação na semântica: precisamos de compreender, e caímos nos conceitos! Ele, por seu lado, lança mão de um instrumentário que vai buscar à Física (à termodinâmica, com as suas noções básicas de entropia – energia, desordem, imprevisibilidade – neguentropia – baixo nível de entropia, que permite a vida do texto com um relativo grau de originalidade, sem o fazer cair no caos – e redundância – a repetição que asfixia essa originalidade, ou também gera novos modelos não convencionais, como no minimalismo repetitivo) para chegar a um horizonte de interpretação que lhe vem de Spinoza, e que afirma a unidade indissociável do fora e do dentro, do corpo e da alma, da vida e da morte numa totalidade orgânica (AJ falava do «texto orgânico» de MGL, por oposição ao «texto potenciométrico» realista: cf., no meu livro Na Dobra do Mundo, o quadro das pp. 49-50). Explora, assim, sinais concretos e materiais do texto, precisamente para não se fixar em conceitos abstractos e gerais. Interessa-lhe entender como funciona o texto para poder ser o que é, e não outra coisa. É a obsessão da singularidade – com todas as suas aporias, sobretudo as do descritivo e da quantificação, como alguns de nós objectavam.
Mas AJ vê as coisas de outro modo, e exemplifica a sua via de leitura, por ex., com a transmutação que fez do Livro das Comunidades em peça para o palco: gera (como leitor activo que é) um movimento, uma tensão expectante, entre discurso e imagem, ou entre discursividade e gesto, um conjunto de gestos e sinais pelos quais a peça se vai construindo em quadros minuciosos – como os das suas folhas Excel –, em vórtices de acção significante. Tal como nas suas experiências narrativas e poéticas, o método de AJ é o da rejeição de todas as formas de poder (do instituído, da literatura, da moral vigente, das convenções...) em favor de uma panóplia de outros poderes/pujanças singulares. O primeiro, que conhece mas rejeita, desconstrói-se pela fala/pelo discurso; os segundos, que abrem ao mundo novo, são da ordem do fazer, e revelam-se nos gestos e sinais das figuras singulares das beguinas, e do próprio Luís M., que aí é o «pontifex» (aquele que faz a ponte).
No processo de formação a que se submete e submete as figuras de mulher, que não gera uma situação de dependência, mas de interacção mútua, ele irá formar com cada uma delas o que Llansol designará de ambo: a figura do semelhante na diferença, ou melhor, da singularidade mutante fecundada pelo outro.

III – O que é um Ambo? 
Llansol escreve por mais de uma vez que ela e AJ formam um ambo, mas também que ninguém sabe exactamente o que isso é (Inquérito às Quatro Confidências, p. 13). Uma vez, num avulso do caderno 1.15 (provavelmente de 1984, ainda em Herbais), Llansol, contra aquilo que é mais habitual nela, quantifica o seu perfil – pragmático, mental e afectivo – e compara-o com o do Augusto.
De acordo com a (enigmática) escala utilizada (se for de 100, o «Eu» ultrapassa a escala em 70 pontos, e «Aug.» apenas em 10!), ela própria seria essencialmente «mental» e «afectiva», enquanto AJ seria mais claramente «pragmático». São, como escreve Llansol num caderno de 1983, as contradições produtivas «entre a inteligência que ataca e a superfície feminina que se aprofunda» (Caderno 1.14, p. 226); ou «a dialéctica Augusto/Gabi, [que] já não me angustia (...) Prefiro o sistema da balança ao da pulverização» (Caderno 1.07, p. 221), i. e., a troca mútua à anulação.
 Avulso 07, caderno 1.15
Pondo de lado as imprecisões matemáticas (o que não estranha nada em MGL), este tipo de configuração poderia de facto prefigurar um ambo: pelo seu desequilíbrio equilibrado, pelas «contradições que constituem o caminho gradativo da nossa reunião» (Um Falcão no Punho, p. 65). Esta relação foi, de facto, feita de intensidades, obsessões, desequilíbrios e encontros extraordinários. Também de conflitos, medos, silêncios (as mais das vezes com resultados criativos surpreendentes). Tudo parece ter começado naquele Verão de 1964, e em poucos meses a relação intensifica-se, cresce e oscila até ao casamento e à fuga para a Bélgica, em cartas e contra-cartas quase diárias, entre Lisboa e os Regimentos de Artilharia (de Vendas Novas e de Viana do Castelo) onde presta serviço o futuro desertor da Guerra Colonial; e começa aí um percurso e uma aventura invulgar, que duraria perto de quarenta anos. A meio caminho, em 5 de Abril de 1987, Llansol anota num dossier dactiloscrito: «O meu nome recebe também o Augusto, com seus filamentos de apoios, inteligência e lucidez» (DOA14, p. 8) – os três termos dão a dimensão real, e completa, do papel de AJ na vida de Gabriela. E no final, já depois da partida definitiva do «Nómada» em 11 de Novembro de 2003 (vd. Amigo e Amiga e o «Poema do Nómada do Entresser», no caderno que fizemos para o dia de hoje), ela evoca-o no «Curso de Silêncio de 2004», livro do luto e da caminhada para a transparência da antevisão do «lugar para onde irei»; e presta-lhe a última homenagem no livro de Tual, «o grande textuador desconhecido» e portador da Vara da Sabedoria, o tirso que preside aos rituais da leitura cantada do Texto. Os Cantores de Leitura serão o derradeiro lugar da «coreografia amorosa do Ambo» já ensaiada em 2002 na Clareira de Parasceve (vd. a última fotografia da nossa série). Até no nome – Tual – a figura do Ambo neste livro entra em diálogo com a de Teol nas narrativas dos cadernos de AJ.
O Ambo é uma figura parente da do «amor ímpar», da tensão criativa que gera a terceira coisa, o um que são dois, opostos conciliáveis, dinamicamente complementares. Seria possível, a partir dos textos de MGL e de AJ escritos sobre o outro e sobre a relação com ele, escritos para o outro e muitas vezes com o outro, elaborar uma tipologia de traços do Ambo a partir das duas partes que o constituem. O encontro, sem fusão nem anulação, entre um e outro, gera o Ambo, figura imprecisa, mas de vários nomes e rostos.
Muito mais interessante, porém, é ir seguindo, nos textos dos dois, a real natureza desta existência una na singularidade, que é a essência do Ambo. A Maria Gabriela dá, mais do que o Augusto, imagens e quase-definições do Ambo, uma noção que não aplica apenas às relações humanas, mas estende a outros domínios (por ex. em «O Espaço Edénico»): o conhecimento e a beleza, a liberdade de consciência e o dom poético, o cão e a dona em relação ímpar e «fora da perpendicular do ceptro», o texto que pergunta e o texto que responde. No caso específico da sua relação com AJ, MGL desdobra num grande leque as facetas prismáticas do Ambo. Lembro apenas alguns exemplos, antes de terminar:
- «A intensidade das contradições usuais entre mim e A. diminuiu, e o que prevalece é o grande entendimento criativo que nos une. Para onde quer que formos, nascerá um novo clima...» (Caderno 1.11, p. 134); é «a simples maneira matinal de viver, na sala das diferenças que nos unem» (id., p. 228);
- «O A. está sempre a lançar sementes em mim... Não filhos» (Livro de Horas 2, p. 135);
- «fomos coincidentes, e fomos viajantes para praias próprias» (Livro de Horas 1, p. 125);
- «O Augusto escreveu: 'quando a luz se vê iluminada' (há entre mim e ele como que uma página branca iluminada / o alguém de um nome)»;
- «Mais do que amantes e marido e mulher, somos parentes. O mesmo tronco, mas uma bem diferenciada amplitude de trocas e movimentos.» (Livro de Horas 2, p. 160). 
A deambulação poderia continuar, mas há duas passagens de Inquérito às Quatro Confidências que fazem a súmula perfeita, e inacabada, da questão do Ambo (fico por aqui, e o resto vem nos fragmentos do «Caderno do Ambo» que fizemos). Este livro evoca a fase em que AJ tinha de lidar com o pessimismo de Vergílio Ferreira em longas discussões sobre o fim do romance ou o sentido da existência, e MGL explodia de impaciência, ou se recusava a acreditar na partida daquele que via como «companheiro filosófico», «o mais jovem» – mas certamente não seu ambo. E escrevia: «Vou despedir-me, principiar a despedir-me sem que nada se quebre ou parta.» (IQC, 114). A relação aqui é de empatia, mas não de tensão criativa.
Já em relação a AJ o discurso é outro: «O ruído da minha máquina e o do computador do Augusto, mais suave, são como passos a caminhar,         e assim possuímos a terra, de uma margem a outra margem.» (pp. 83-84)
Mas logo no início deste livro encontramos já a definição do Ambo – inconclusiva, porque se trata de matéria mutante, e clara, porque há um saber intuitivo de mútua pertença que fala aqui:
«As imagens descem em tropel do horizonte e, sem cuidar, tentam quebrar o anel onde arde a chama...) _______ um fio de pensamento solitário que me sugere que eu e o Augusto somos iguais diante da Natureza solitária. Não sei bem o que somos um para o outro. Somos um ambo mas o que tal significa realmente prevalece ainda envolto em bruma. Acendo a vela da ternura para ele. Tome, meu ambo,

a vela da ternura Com ela vai a lealdade que nunca se apaga _____ e a liberdade do meu espaço sobe à montanha _____ estes telhados próximos _____, onde há pássaros, mais precisamente, muitas andorinhas.
Sobre elas cai continuamente esta neblina densa e eu, dentro da regra aceite do silêncio, não me sinto só, nem triste.» (IQC, 13)

 João Barrento


O espólio de Augusto Joaquim: uma viagem à vol d'oiseau



1.4.13

GABRIELA E AUGUSTO:
HISTÓRIA DE UM AMBO

(para ler melhor o texto clique duas vezes sobre ele)

16.3.13

O «AMBO» NA LETRA E



Devido às férias escolares e à semana da Páscoa teremos de adiar a sessão dedicada à relação M. G. Llansol-Augusto Joaquim, que passará para o dia 6 de Abril, como sempre às 17 horas.
Voltaremos a dar notícias mais próximo dessa data. E as surpresas vão ser muitas!

10.3.13


Mais uma tarde  de revelação e iluminação para muitos dos que foram ontem à «Letra E» do Espaço Llansol. A poeta (e professora da Faculdade de Letras do Porto) Ana Luísa Amaral abriu, de forma aliciante e rigorosa, várias portas de entrada no universo e na escrita da maior poeta americana – do seu tempo e ainda do nosso –, a enigmática, surpreendente e inimitável Emily Dickinson.


A sessão inaugurou o nosso ciclo «As Figuras do Texto» (de facto, já iniciado o ano passado com Hölderlin e Pessoa/Aossê), que irá continuar. Na apresentação da nossa convidada, a maior especialista de Dickinson em Portugal (pode descarregar-se e ler-se a sua tese de doutoramento Emily Dickinson-Uma poética do excesso aqui: http://hdl.handle.net/10216/16155), João Barrento destacou algumas convergências entre estas três mulheres de três séculos tão diferentes, pela via dupla da escrita e da tradução. Ana Luísa Amaral e Maria Gabriela Llansol – e, no espaço discreto da sua reclusão relativa, sobretudo nas suas muitas cartas, também Dickinson – escrevem sobre e contra a peste dos medíocres no mundo de ontem e no de hoje. As três falam, na sua escrita poética, de e por enigmas, véus translúcidos, fingimentos, cada uma com os seus. Todas «põem a mão no pensamento» (Llansol) e o pensamento no corpo e o corpo na escrita. Com a noção clara de um caminho, não imposto, mas escolhido pelo «poder de decisão», ou também ditado pelo «medo» incontornável de todo o acto de escrever (que Dickinson também conhece), que não é mero entretenimento ou gesto inócuo de promoção pública – e vivendo todas na «casa do possível», que outra não há nem pode haver nestas coisas da escrita.


Emily Dickinson e Maria Gabriela Llansol escrevem também, reconhecida e ostensivamente, fora dos cânones, os sociais e os literários, uma fazendo «não-poesia», a outra situando-se «na margem da língua, fora da literatura». E também Ana Luísa Amaral é uma poeta com um rosto claramente identificável na nossa poesia de hoje, pela subversão que opera do expectável, pela ironia subtil, mansa e dissolvente da sua poesia.
Tal como Llansol, que publica, sob o pseudónimo de Ana Fontes, os Bilhetinhos com Poemas de Emily Dickinson (Colares Editora, 1995), também Ana Luísa Amaral traduziu a poeta americana numa antologia de 100 Poemas de Emily Dickinson (Relógio d'Água, 2010), tendo no prelo, e na mesma editora, uma nova antologia com 200 Poemas. Nestas aventuras da passagem, nas transposições em que se «muda a grafia e a cor do A de Rimbaud» (escreve M. G. Llansol em Inquérito às Quatro Confidências), ou nas travessias dos terrenos esburacados, elípticos, de «excesso», e traçados tantas vezes pelo avesso, da poesia de E. Dickinson, a mão é sempre a mão que trai, numa traição que é o estigma de Babel – mas nem por isso deixamos de jogar este jogo de palimpsestos imperfeitos, de sobreimpressões de língua a língua. Llansol dirá, sobre estes ritos de passagem que praticou de forma muito sua, e única, que se trata apenas de momentos em que «alguém», mais uma figura do Texto, nos bate à janela da casa pedindo para entrar; ou ainda, num papel avulso do espólio, de «um trabalho de poeta e de ladrão». E Ana Luísa Amaral, que reincidiu nesta aventura com os seus 200 Poemas, fala num dos seus poemas próprios («Babel», do ciclo «A Leste do Paraíso») de «um gesto de ciúme» de Deus: «Diz-se que a punição se cumpriu justa / no divino saber / Mas foi decerto gesto de ciúme, / desajeitada afirmação de quem / já não tem demais céus // a conquistar.»


Ana Luísa Amaral guiou-nos pelos meandros, pelas contradições e pelos abusos  da edição dos poemas de Dickinson, destacou, com exemplos da poesia e das cartas, em transcrição e nos manuscritos, os processos da escrita da «virgem de Amherst», a subversão dos cânones, a ironia latente na relação com os seus interlocutores, a indecibilidade de género nas transições entre bilhetes e poemas. E deixou claro para quem, com prazer e proveito, a ouviu que o modo de escrita próprio de Dickinson – como também de Llansol – é o da «visão que a palavra vai ocupar». E que também aqui, como no rio de escrita de Maria Gabriela Llansol, o poema nunca está feito, nunca há texto «acabado».




3.3.13

LEMBRAR LLANSOL


20.2.13

DICKINSON NA «LETRA E» ADIADA


Como Emily Dickinson («I dwell in Possibility»), como Llansol («nada é, tudo está sendo»), também nós «moramos na casa do Possível»! – o mundo assim o exige, o que ontem parecia uma coisa, hoje é outra.
Vem isto para explicar mais uma vez, com as nossas desculpas (mas a razão é forte!), a nova mudança de data para a sessão da Letra E sobre Emily Dickinson e Llansol, com a poeta Ana Luísa Amaral: passaremos do dia 2 de Março para o dia 9 de Março, às 17 horas. E isto porque no dia 2, por todo o país, muitos (também os que gostam de Dickinson e Llansol) irão gritar bem alto, na rua, "Que se lixe a troika!".
E a Verdade – que, diz Dickinson, não exclui a Beleza, mas é sua irmã! – impõe-se. Por isso não será a Beleza da poesia de Dickinson e da sua leitura por Ana Luísa Amaral que nos irá impedir de entregar «a nossa carta ao mundo», de fazer ouvir a nossa Verdade aos que nos querem impedir de pensar, transformando-nos em marionetas e impondo-nos uma vida degradante e humilhante!
Iremos então todos à manifestação do dia 2 de Março!!
E esperamos que venham muitos, todos os que puderem, para ouvir falar de Dickinson e Llansol em 9 de Março, na Letra E do Espaço Llansol, em Sintra.

28.1.13

A FOTOGRAFIA – O TEXTO
A PAISAGEM – O CORPO

Faz hoje exactamente um ano que abrimos a «Letra E» do Espaço Llansol. Ao longo deste ano, esse espaço aberto e criativo acolheu, até anteontem, catorze sessões que foram trazendo a Sintra uma pleiade de criadores que aqui dialogaram com a escrita e o pensamento de Llansol e um público muito diversificado, que nos granjearam mais visibilidade e sobretudo nos trouxeram novos amigos e colaboradores.
Há um ano escrevíamos, a abrir a «Carta de princípios da Letra E», palavras cuja acutilante – e preocupante – actualidade se mantém, e redobrou:
«Neste momento histórico em que o pensamento e a criação livres se vêem cada vez mais encurralados por agentes de poderes planetários sem rosto e por uma informação redundante e paradoxalmente desinformativa, porque totalmente acrítica, aquilo que a indústria da cultura e a paranóia do consumo consideram 'produtos' da literatura e da arte degenerou, com algumas excepções, em matéria mercantil ou mero alimento de um gosto duvidoso ditado pela vontade inexpressa, mas dominadora, de novas massas anódinas e manipuladas, no plano do visível, pela própria inconsciência de si, nelas inculcada por mecanismos que todos conhecemos há muito.»
Mas também aí se anunciavam as linhas de orientação do nosso fazer, e o espírito que nos anima. E esses não mudaram, tal como não mudaram em décadas de escrita na Obra de Llansol, entre o seu «livro-fonte» e o seu canto do cisne. Anima-nos, como a ela, e por isso está também na nossa «Carta de princípios», «a necessidade de saber 'o que é o corpo, / o que é a luz, / o que é a força, / o que é o afecto, / o que é o pensamento, / o que é a figura'. É todo um programa que podemos seguir.»
E vamos seguindo, com todos os que nos acompanham e connosco colaboram. Para eles vai hoje o nosso obrigado, o nosso afecto e a promessa de continuar.
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A tarde de sábado levou-nos às paisagens perdidas e sublimes da Islândia, pela mão da fotógrafa Teresa Huertas, e abriu horizontes inesperados sobre o tema da paisagem, trazidos pela escrita de Maria Gabriela Llansol, a que as nossas amigas Helena Alves e Cândida Pargana deram voz a abrir a sessão, com leitura de textos de O Livro das Comunidades, Finita, Lisboaleipzig, Parasceve, Onde Vais, Drama-Poesia? e O Senhor de Herbais.
A fotógrafa trouxe-nos fragmentos do seu Diário da Islândia, que serviram de fio condutor para a conversa, completada visualmente pelas suas fotografias expostas e pela viagem final com projecções que documentaram alguns momentos da história da «paisagem habitada» (pelo corpo humano), na pintura e na fotografia.
Desse Diário deixamos aqui alguns fragmentos de que partimos para essa viagem na Letra E.


15 de Agosto, Skógasandur, na estrada para Vik
À beira da estrada. Tempestade de vento na duna.
Seduz-me a vastidão dos campos de areia negra árida, com uma linha plana de horizonte definida a poente interrompida pontualmente por alguma rocha. Desenho mentalmente os planos de uma imagem que me parece familiar.
Sessão fotográfica I. Caminho vertical no plano da imagem. Caminho na duna no sentido da pedra. Marcações do meu corpo na areia. A linha que se desenha. Acções várias no percurso.
Sessão fotográfica II. Caminho horizontal no plano da imagem. Caminho na linha do horizonte em direcção à pedra grande. Jogo com a ilusão dos elementos.


18 de Agosto, a caminho de Jokulsárlón
(A experiência do esplendor e da generosidade da natureza)
A paisagem continua mágica. Quilómetros de estrada estreita separam a montanha de cores diluídas, que se perde nas nuvens, da planície de lava-turfa verde pálido, que se perde numa linha de mar.
O grande Vatnajokull começa a surgir. Em cada curva uma nova miragem. É um corpo branco, imenso, e desce majestosamente entre dois flancos da montanha até ao plano vasto de cinzas vulcânicas. Já não há sol. Desapareceu no tempo de uma nuvem. Línguas de gelo aproximam-se de nós. A estrada é agora uma superfície rude que invade o tapete de turfa macia. A seta indica Fjallsárlon. Avançamos, atraídos por uma força que nos conduz os olhos. E quando esta força nos conduz também os passos, é porque nos guia até uma revelação. O glaciar move-se em espiral sobre a montanha. O lugar é sublime. O chamamento da Beleza é uma atracção pelo abismo.

(...)
Mais abaixo, sobre uma das colinas, um círculo de pedras desenha-se no solo. O círculo, forma mágica, minha figura electiva, veio ao meu encontro. Impossível resistir ao chamamento do lugar. O círculo convida-me a entrar. Caminho dentro do círculo. Conto vinte e cinco passos lentos. Conto quarenta pedras. Uma das pedras pertence à terra. É grande e está semi-enterrada no solo. Todas as outras, na sua diversidade, ocupam diversos pontos do círculo, e foram colocadas sabiamente. (...) Entre brancos, azuis, cinzentos e negros, a natureza diverte-se. Não pensa.


19 de Agosto
A experiência da paisagem tem de ser vivida com o corpo, com os sentidos.
A fotografia apenas pode registar fragmentos mínimos do percurso. Como diz Hamish Fulton: «Um objecto não pode competir com uma experiência.»
A fotografia é apenas a ficção da vida.


22 de Agosto, Vogar
Vulcões negros e tapetes de verde esguio, lamas que fervem, vapores que irrompem das entranhas da terra, águas que jorram para o céu, desertos, labirintos de rocha, campos de lava, lagos, glaciares, cortinas de água, auroras boreais. Estamos verdadeiramente no princípio e no fim do mundo, entregues à nossa condição de impotência, perante este desafio desigual, o desafio de uma força magnética, brutal, fulgurante e encantatória, que não nos julga nem teme. (...) A cada mudança de luz, uma nova paisagem. Permanente, só mesmo o silêncio.


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Llansol e a paisagem:

Como se as paisagens fossem um enorme écran onde eu visse a história humana.
(Caderno 1.14, p. 272)

Queria partir para longe e rapidamente, mas não queria ser confrontada a uma qualidade inferior de paisagem.
(Caderno 1.06, p. 2)

Jardim: órgão inteligente, órgão sensível do metabolismo da paisagem.
(Caderno 1.13, p. 290)

Afectos_________ afectos não afectam a paisagem.
(Dossier dactiloscrito DOA07, p. 1, 1989)




A Letra E em 26 de Janeiro de 2013:
(Clique na imagem para aumentar)


(A exposição de Teresa Huertas estará ainda na Letra E até 9 de Fevereiro)

21.1.13

FOTOGRAFIA E PAISAGEM NA «LETRA E»

No próximo sábado, dia 26, teremos na «Letra E» a fotógrafa Teresa Huertas, que expõe uma série de fotografias de paisagens habitadas (pelo seu próprio corpo, em lugares remotos da Islândia), obras que servirão de ponto de partida para uma conversa sobre o lugar da paisagem no mundo de M. G. Llansol, e sobre a obra da própria fotógrafa e as ideias e intuições que alimentam este e outros trabalhos seus.
Teremos disponível nesse dia um caderno com textos de Llansol sobre a paisagem e a reprodução das fotografias de Teresa Huertas expostas na «Letra E».


E voltamos a lembrar: os que quiserem vir mais cedo, a partir das 15 horas, poderão fazê-lo e conversar connosco e fazer sugestões sobre o nosso programa e o nosso trabalho, no espírito da «troca verdadeira» que é o do universo llansoliano.

14.1.13

MARIA VELHO DA COSTA LEMBRA LLANSOL

Em entrevista ao jornal Público, de 13 de Janeiro, Maria Velho da Costa revela algumas das suas «afinidades electivas» com escritores portugueses, e refere-se a M. G. Llansol por duas vezes, nos seguintes termos:

(...) eu andei em letras e germânicas, e fui tendo afinidades electivas que de um modo geral se mantiveram, como a Maria Gabriela Llansol e o Herberto Helder, onde há emoções mais contraditórias, complexas, com interesses como perturbação. Interessaram-me poetas e escritores que tivessem um trabalho sobre a linguagem e a língua, mas não só. Quando me dizem que o meu trabalho é sobre a língua, é-o também, mas não só. Isso é omitir o trabalho com a linguagem.
(...)


Quem são os seus pares?
Acho que sou um bocado ímpar. Não no sentido grandioso, mas qual é o escritor português que eu possa dizer que seja mais da minha família? Talvez o José Cardoso Pires. E o Nuno Bragança. Posso ter uma admiração enorme e não sentir que seja meu par. Duas figuras com as quais tenho uma aproximação muito diferente são a Agustina e a Maria Gabriela Llansol. São duas escritas e duas maneiras de estar na literatura completamente diferentes. A Llansol, da primeira vez que a vi, meteu-me medo. Tinha uma relação com a escrita onde não havia distinção entre vida e escrita.

E para si há?
Para mim, há. Esse medo que me causou foi como se estivesse perante uma forma de santidade. Eu disse-lhe isso na única ocasião que tive para falar com ela. E ela disse que não havia razão nenhuma: «Eu sou uma pessoa normal».

9.1.13

OS CANTORES DE LEITURA
NO TEATRO NACIONAL

No próximo dia 15, e na série de leituras encenadas que vêm sendo feitas no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, no âmbito do «Projecto Teia-Poesia e Contos», poderão ouvir-se excertos de Os Cantores de Leitura de M. G. Llansol, seleccionados por Margarida Lages e lidos por Guilherme Faria e Paulo Lages.
A entrada é livre, às 19 horas. Mais informação aqui: