25.6.12

PESSOA - TABUCCHI - LLANSOL
NA «LETRA E»

A sessão de sábado passado na Letra E (a última antes das férias de Verão, e até às Quartas Jornadas Llansolianas de Sintra, em 29 e 30 de Setembro) decorreu sob o signo de Pessoa – das suas sombras e dos seus fantasmas na literatura e no cinema contemporâneos.



Começámos por ler textos inéditos de Maria Gabriela Llansol em torno da figura de Aossê (ver abaixo algumas dessas páginas nos cadernos), Maria Etelvina Santos traçou o enquadramento de todo o processo de nascimento e evolução da figura de Pessoa/Aossê na Obra de Llansol (entre 1978 e 2007), a génese de Lisboaleipzig, as relações e as divergências desta figura em Llansol e noutros contemporâneos, em particular José Saramago (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e Antonio Tabucchi (com este Requiem e ainda um outro pequeno livro de matéria pessoana, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa).
 

Vimos o filme de Alain Tanner e em seguida entrámos num prolongado diálogo com os presentes, a propósito do sentido dos «fantasmas» de Pessoa (e outros, que atravessam o filme), das diferenças entre uma abordagem de Pessoa através do regresso do seu fantasma e, caso de Llansol, do renascimento da personagem histórica metamorfoseada em figura, com os caminhos particulares e singulares de Pessoa em Lisboaleipzig, um Falcão no Punho, Os Cantores de Leitura e outros livros. E também, como agora sabemos e não sabíamos antes, com toda a constelação prismática desta figura e do seu envolvimento por outras – os Bach, Infausta, Spinoza... – nos mais de trinta cadernos manuscritos por onde anda Pessoa/Aossê e na flioresta dos dossiers dactiloscritos do espólio.

Nascimento e crescimento de Lisboaleipzig nos cdernos manuscritos

O primeiro semestre da Letra E, podemos dizê-lo, foi um sucesso: a nossa casa do lado foi conhecendo pessoas sempre novas, genuinamente interessadas na escrita de Llansol, participativas. E nós surpreendemo-nos em cada tarde de sábado, ao recebermos e conhecermos sempre novos rostos, vindos dos mais diversos e inesperados sectores. Esperamos que continuem a vir. Até Outubro na Letra E!

LISBOA-LEIPZIG-BERLIM:
O BALANÇO


Lisboaleipzig chegou à casa dos Bach: pela primeira vez em livro, Maria Gabriela Llansol pode ler-se em alemão. Apresentámos, com o tradutor Markus Sahr, os dois volumes em Leipzig, com a «Casa do Livro» cheia, e em Berlim, na sala não menos cheia de uma livraria chamada precisamente... «A Livraria». Lemos passagens dos dois volumes em alemão e português, falámos da Obra de Llansol e dos seus lugares de escrita, e dialogámos com públicos interessados. 


Agora, é esperar que os livros façam o seu caminho por essas paragens e por essa língua. Outros, noutros idiomas e também em português, se anunciam já, abrindo incessantemente a novos leitores, por estas e muitas outras veredas, os horizontes do texto de Maria Gabriela Llansol. O nosso propósito continua a ser apenas um, que era também o da «escrevente» do texto: manter viva esta Obra, abri-la cada vez mais ao presente, garantir-lhe, se possível, um futuro.

19.6.12

LLANSOL NAS «LEITURAS DO SILÊNCIO» 
EM GUIMARÃES

No último fim de semana, entre sexta e domingo, o texto de Llansol esteve em Guimarães, na série de «Leituras do Silêncio» organizada por Duarte Pereira, através das vozes de Maria Carolina Fenati, do poeta João Almeida e da livreira Sandra Claro, e ainda com o filme de Daniel Ribeiro Duarte «Encontro com S. João da Cruz».


Mais informação sobre o evento, que incluiu também leituras de Etty Hillesum e Rilke, aqui.



13.6.12

PESSOA NA CASA DE LLANSOL
O filme Requiem na Letra E


No próximo dia 23 de Junho, sábado, pelas 17 horas, falaremos, na "Letra E", de Pessoa na Obra de Llansol, a partir do filme de Alain Tanner Requiem, segundo o romance homónimo de Antonio Tabucchi.
O filme e o tema serão apresentados por Maria Etelvina Santos, e haverá leitura de textos de M. G. Llansol sobre a figura de Fernando Pessoa/Aossê, desde o seu nascimento nos cadernos inéditos até Os Cantores de Leitura.
Esperamos por todos em mais esta sessão da Letra E do Espaço LLansol.


10.6.12



Lisboaleipzig, a primeira publicação autónoma em livro de obras de Llansol em alemão, será apresentado, em dois volumes, por João Barrento, Maria Etelvina Santos e Markus Sahr (tradutor), em Leipzig, na Literaturhaus (Casa da Literatura) e em Berlim, na livraria luso-brasileira «A Livraria», respectivamente nos dias 14 de 15 de Junho.

Literaturhaus Leipzig

 A Livraria, Berlim

Os livros são publicados pela editora Leipziger Literaturverlag, na sua colecção de autores portugueses (onde já sairam nomes como Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Herberto Helder, Helder Macedo, Manuel Alegre ou Yvette Centeno). 
Até agora Llansol foi traduzida para alemão e editada em revistas e antologias, com textos como o conto «Os corpos sitiados» (de Os Pregos na Erva), «Amar um Cão» e excertos do diário Inquérito às Quatro Confidências.


6.6.12

«ENCONTRO COM S. JOÃO DA CRUZ»
O FILME EM LISBOA

Amanhã, dia 7 de Junho, pelas 21 horas será apresentado na Livraria Sá da Costa em Lisboa (Rua Garrett, Chiado) o filme de Daniel Ribeiro Duarte Encontro com S. João da Cruz, feito a partir de uma fotografia de M. G. Llansol e outros materiais do espólio da escritora.



Sobre este filme, que o Daniel apresentará amanhã na Sá da Costa, démos já notícia na altura da sua passagem numa Mostra de Cinema em Belo Horizonte. Pode ver um pequeno trailer clicando aqui.

27.5.12

BACH NA CASA DE LLANSOL


A tarde de ontem foi musical. «Musical e sem janelas», poderíamos dizer com Llansol, em Causa Amante. Porque, durante uma hora e meia, os que vieram para ver o filme de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet Crónica de Anna Magdalena Bach se voltaram para dentro, no escuro da sala, com as portadas fechadas, apenas com os reflexos  e o formigar a preto-branco que irradiavam do écran – e entraram numa viagem pela música de Bach que, em toda a sua diversidade e numa espécie de baixo contínuo, sustenta o filme do princípio ao fim e é a sua grande figura. E, em subimpressão, percorreram os momentos essenciais, as tensões criativas, os confrontos com os poderes e a dimensão humana e espiritual da biografia musical de Johann Sebastian Bach, dada através do olhar e da voz de Anna Magdalena.

 Johann Ernst Rentsch, Bach (ca. 1715)   | Fotogramas do filme de Straub/Huillet

O Daniel (Ribeiro Duarte) apresentou o filme  no contexto da obra de Straub/Huillet e nas suas ligações ao universo de Lisboaleipzig em Llansol. E no final a conversa foi longa, e passou pela montagem fílmica e literária, pela problemática do tempo e os modos de o tratar e subverter no filme e no texto, pelas afinidades e pelos contrastes entre o projecto de escrita de M. G. Llansol e a grande e sólida construção da obra musical do «monstro sagrado» de Leipzig.


E, como sempre, lemos textos inéditos dos cadernos de Llansol. Algumas dessas páginas estavam expostas, ampliadas, ao lado de alguns dos livros da sua biblioteca sobre os Bach e de CDs e cassettes com as peças de Bach que ouvia. Dessas páginas manuscritas deixamos aqui alguns fragmentos, para os que não puderam ouvi-las.


23 de Dezembro de 1982
Conclusão destes dias ansiosos:
Temos livro:
Lisboaleipzig

Descubro a música à medida que escrevo sobre Bach e Fernando Pessoa. Fico impregnada de sonoridade, e por não saber música começo a compreender melhor o que é um leitor. Os leitores não são todos iguais, nem têm todos a mesma potência evocativa. Mas também não sou propriamente um ouvinte de música, porque eu, com a música, escrevo. Perco-me num oceano de que não conheço os sinais, para encontrar-me no da invenção do verbo.
Hoje passei um dia raro entre Bach, a minha própria energia criativa e a doença da mãe. Tinha esperança.

22 de Junho de 1983
Acordo apaixonada pelo que me apaixona. É o solstício de Verão, Bach é o mediador do calor e da luz destes dias; com música ou sem música, eu percorro musicalmente seu corpo vasto, e finjo não encontrar Aossê, com vontade de brincar à dificuldade de escrever…

7 de Janeiro de 1983
Sinto-me inclinada a contar os humanos nesta casa, e a dar realce à sua diversidade de destino. Diz-se que na família Bach todos são músicos, mas isso é uma generalidade.
Diz-se que Fernando Pessoa é um grande poeta português, mas eu, vivendo a observá-los, não encontro o grande, mas o humano de um homem que me atrai.
Grande é toda a floresta humana e seus perigos: casa de Bach, floresta de humanos. Desdobrei-os da música da palavra que os envolvia e vi que eram duplamente seres.
Eu sou o órgão preferido de Bach, e o que lhe devo tem sua resposta em mim. (…)

28 de Junho de 1998
A música da caixa de leitura
Volto a Anna Magdalena e proclamo a beleza inefável do canto_________ e a beleza que eu sinto é certamente uma imagem do mundo para onde hei-de ir____________ e que desconheço.
Desejaria fazer uma caixa de leitura (um livro) em que, em partes, se sentisse de novo o arrepio de todos os meus livros presentes e ausentes. Seria também uma caixa de música anunciando a felicidade ausente ______ e a sua recordação futura e pretérita não condiz com a música da caixa de leitura, pois ela ocupa, no presente, todo o espaço da mesa. Afinal, era esta a minha mesa de café preferida, e eu penso oferecê-la aos que foram comensais do belo – como eu.
Se não fordes sensíveis ao belo, o que restará de nós será apenas uma poeira destruída.
Livro a escrever: A Caixa de Música da Leitura
contra o medo da morte.


21.5.12

A CRÓNICA DE ANNA MAGDALENA BACH NA «LETRA E»

O próximo sábado, dia 26, será dedicado na Letra E novamente a Bach, dando continuidade ao tema que escolhemos para as nossas actividades deste ano: «Pessoa e Bach na casa de Llansol». Desta vez, como sempre às 17 horas, com o filme de Jean Marie Straub e Danièle Huillet Crónica de Anna Magdalena Bach, uma obra de 1967, baseada no Necrológio de um dos filhos de Bach (Carl Philipp Emmanuel Bach) e de cartas e memórias de Johann Sebastian Bach. O filme de Straub/Huillet, que conta com intérpretes conhecidos no mundo musical, como Gustav Leonhardt (J. S. Bach) e Christiane Lang (Anna Magdalena), não usa a música de Bach como mero acompanhamento, mas como o próprio material estético do filme.
Bach é uma das figuras que, com outros que gravitam à sua volta em Leipzig (Anna Magdalena, os filhos, em particular Elisabeth, Baruch Spinoza e o próprio Fernando Pessoa, agora rebaptizado Aossê) ocupa Llansol durante um longo período de quinze anos. 
Num dos cadernos da fase de Herbais, ainda no começo da escrita dessa originalíssima «saga poético-filosófico-musical» que haveria de chamar-se Lisboaleipzig, Llansol escreve sobre Anna Magdalena, Bach e Aossê:


Anoitece. Bach acendeu a vela, um dos seus filhos voltou-lhe a página, a solidão acumulou-se subitamente sobre eles quando Anna Magdalena anunciou pela primeira vez o jantar, gritando com a sua voz musical de longe, da cozinha. A Aossê pareceu um pregão, que o confinou num devaneio e numa sonolência profunda. A música não acordava da palavra, a palavra transmitida por Aossê absorvia J. S. Bach de tal modo que mandou ao filho, de pé atrás dele, que os deixasse. Cruzaram-se os olhos de ambos, as fontes de onde vinham seus caminhos, os conluios das crianças pelos cantos, e o sentimento de que as portas daquela noite estavam abertas sobre outro domínio, ou perspectiva de mundo.

Algumas destas muitas páginas em torno da música, da poesia, do amor e do contrato universal dos seres na casa dos Bach em Leipzig, saídas dos cadernos manuscritos de Llansol, poderão ler-se nos expositores. O filme será apresentado por Daniel Ribeiro Duarte, que é doutorando em cinema na Universidade Nova de Lisboa e colabora desde 2009 com o Espaço Llansol.

20.5.12

GONÇALO M. TAVARES NA «LETRA E»:
Com a mão no pensamento


O escritor Gonçalo M. Tavares esteve ontem na Letra E, falando das suas ligações a Llansol, do modo como prolonga aqueles/aquelas que lê, assumindo activamente esses legados, prolongando-os sem se preocupar muito em os «perceber» ou interpretar. Ler/escrever é continuar outros, arriscando, nessa geografia da leitura e da escrita, a construção de um map of misreadings, como diria Harold Bloom. Em A Perna Esquerda de Paris, seguido de Roland Barthes e Robert Musil, Gonçalo M. Tavares escreveu também: «Precisamos com urgência / de uma ciência obcecada pelo falso, de / uma ciência que se desinteresse do verdadeiro / ou pelo menos do explicável...»; «Inventa pontos de fúria numa frase, / e ainda pontos tranquilos. / Imita-te, e falha. A criatividade é isto».
Uma vez mais a «Letra E» foi pequena para acolher os que vieram, e que afinal couberam bem nesta clareira de partilhas do texto de Llansol. A tarde abriu, como sempre, com a leitura de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, todos centrados sobre os modos como ela via, sentia e punha em andamento a escrita. Inéditos da fase da Bélgica, entre 1979 e 1981:


 A Maria Carolina Fenati conduziu a conversa, e o Gonçalo falou, falou sobre o que pode significar a «contra-assinatura» (Derrida) de um escritor frente à de outros escritores, na sequência deles; de como se é herdeiro activo, escolhendo um caminho próprio a partir dos restos de outros textos, fora do geometrismo das categorias pretensamente universais. E de como, por isso, Llansol ou Zambrano o fazem escrever, mas Aristóteles não. De como a escrita lhe nasce, ainda imprecisa, com o tactear dos dedos sobre o teclado e o movimento do corpo, e só depois desses «exercícios de aquecimento» se vai estruturando no pensamento. Também Llansol disse um dia que, para ela, escrever é ir progressivamente «metendo a mão no pensamento».


E a Carolina avançou na conversa com outras questões, com o problema da natureza mais ou menos «política» da literatura e do seu lugar como matéria de resistência e tomada de consciência num tempo europeu de desolação e aparente ausência de perspectivas como o de hoje. E o Gonçalo falou, falou muito sobre a importância da leitura e da escrita como alimento contra o ruído reinante, e de como algo de tão essencial como o silêncio e o isolamento são hoje objecto de incompreensão e quase estigmas. E de como variam e são múltipos os modos de estabelecer redes e ligações, de criar «comunidades» ou «Bairros» com o próximo e o distante, com o que é de hoje e o que foi de ontem: da impossível e inumana postura sábia da ataraxia ou apatia estóica (a «indiferença» universal que tudo nivela) às mais humanas – e llansolianas – aberturas de clareiras (a clareira é o lugar da luz e da leveza, no meio da espessura impenetrável da floresta, a da natureza ou a dos homens), lugares onde a luz das afinidades permite ir construindo e sobrepondo núcleos de afecto e de entendimento de dimensão humanamente abarcável, regidos por uma sintaxe do «e» – a ligação e a abertura infinita, fora da simetria, contra as convenções da verdade, na serena inquietude da escrita, como sugere nas Breves Notas sobre as Ligações: «fazer amizade com uma sucessão de sins e nãos», porque se sabe que «uma coisa é sempre igual, e varia muito».
E o pensamento foi correndo, no diálogo entre o escritor, a moderadora e o público, acompanhado sempre pela mão do Gonçalo, que desenhava e fazia esquemas, engendrava imagens que ia mostrando, nas muitas folhas brancas que trouxe consigo. Como Llansol faz constantemente nos seus cadernos manuscritos – o pensamento a suspender-se no desenho, o desenho a dar corpo visível ao pensamento.


(Caderno 1.43, p. 42)


14.5.12

LLANSOL E A POESIA NO CÃO CELESTE

Saiu o primeiro número da nova revista Cão Celeste, dirigida pelos poetas Inês Dias e Manuel de Freitas. É uma publicação de aspecto gráfico pregnante e conteúdo original, que «pretende apenas ganir, ladrar com raiva ou paixão, amar ou odiar sem peias aquilo que o mundo quotidiano lhe dá a ver – de seis em seis meses...» e ser «um espaço de encontro entre pessoas que ainda consideram urgente o livre exercício da crítica, do pensamento ou da revolta», escrevem os responsáveis no primeiro Editorial.

 
Também Maria Gabriela Llansol (através de muitos textos dos seus cadernos inéditos, com posições surpreendentes em relação à poesia) está presente neste primeiro número, através do ensaio de João Barrento «'Uma contra-música' - Llansol e a questão da poesia».


Sobre o tema escreve Llansol, numa bela página de um caderno de 1999:

    Não sei reflectir sobre a Poesia. Sei ir à poesia_______ e esperar, na ponta das pupilas, suas imagens. Quando o dia «image[ce]», sei que está criado o verbo «imagecer» relacionado com a deslocação de um cisne nas águas. [...]
    É preciso assustar a poesia para que – amanhã – ela regresse. Mas eu ignorava-a até na sua própria sombra, só as imagens, que eu não temia, fariam com que ela regressasse, e escrevesse «amo-te» como quem escreve «faz-me».
    Não sei fazer poesia, mas pressinto o seu drama_______ e o vagar que ela tem de se deixar em qualquer parte onde, afinal, nunca tenha estado.
    Poeta não é palavra que assente em alguém. Designar o indesignável é torná-lo ainda mais obscuro.
    Tantos poetas, tão pouca poesia. A poesia não é para nós, é para o fim de nós...
    (Caderno 1.54, 5 de Abril de 1999, pp. 10-12)