21.5.12
A CRÓNICA DE ANNA MAGDALENA BACH NA «LETRA E»
O próximo sábado, dia 26, será dedicado na Letra E novamente a Bach, dando continuidade ao tema que escolhemos para as nossas actividades deste ano: «Pessoa e Bach na casa de Llansol». Desta vez, como sempre às 17 horas, com o filme de Jean Marie Straub e Danièle Huillet Crónica de Anna Magdalena Bach, uma obra de 1967, baseada no Necrológio de um dos filhos de Bach (Carl Philipp Emmanuel Bach) e de cartas e memórias de Johann Sebastian Bach. O filme de Straub/Huillet, que conta com intérpretes conhecidos no mundo
musical, como Gustav Leonhardt (J. S. Bach) e Christiane Lang (Anna
Magdalena), não usa a música de Bach como mero acompanhamento, mas como o próprio material estético do filme.
Bach é uma das figuras que, com outros que gravitam à sua volta em Leipzig (Anna Magdalena, os filhos, em particular Elisabeth, Baruch Spinoza e o próprio Fernando Pessoa, agora rebaptizado Aossê) ocupa Llansol durante um longo período de quinze anos.
Num dos cadernos da fase de Herbais, ainda no começo da escrita dessa originalíssima «saga poético-filosófico-musical» que haveria de chamar-se Lisboaleipzig, Llansol escreve sobre Anna Magdalena, Bach e Aossê:
Anoitece. Bach acendeu a vela, um dos seus filhos voltou-lhe a página, a solidão acumulou-se subitamente sobre eles quando Anna Magdalena anunciou pela primeira vez o jantar, gritando com a sua voz musical de longe, da cozinha. A Aossê pareceu um pregão, que o confinou num devaneio e numa sonolência profunda. A música não acordava da palavra, a palavra transmitida por Aossê absorvia J. S. Bach de tal modo que mandou ao filho, de pé atrás dele, que os deixasse. Cruzaram-se os olhos de ambos, as fontes de onde vinham seus caminhos, os conluios das crianças pelos cantos, e o sentimento de que as portas daquela noite estavam abertas sobre outro domínio, ou perspectiva de mundo.
Algumas destas muitas páginas em torno da música, da poesia, do amor e do contrato universal dos seres na casa dos Bach em Leipzig, saídas dos cadernos manuscritos de Llansol, poderão ler-se nos expositores. O filme será apresentado por Daniel Ribeiro Duarte, que é doutorando em cinema na Universidade Nova de Lisboa e colabora desde 2009 com o Espaço Llansol.
Publicado às
17:48
20.5.12
GONÇALO M. TAVARES NA «LETRA E»:
Com a mão no pensamento
O escritor Gonçalo M. Tavares esteve ontem na Letra E, falando das suas ligações a Llansol, do modo como prolonga aqueles/aquelas que lê, assumindo activamente esses legados, prolongando-os sem se preocupar muito em os «perceber» ou interpretar. Ler/escrever é continuar outros, arriscando, nessa geografia da leitura e da escrita, a construção de um map of misreadings, como diria Harold Bloom. Em A Perna Esquerda de Paris, seguido de Roland Barthes e Robert Musil, Gonçalo M. Tavares escreveu também: «Precisamos com urgência / de uma ciência obcecada pelo falso, de / uma ciência que se desinteresse do verdadeiro / ou pelo menos do explicável...»; «Inventa pontos de fúria numa frase, / e ainda pontos tranquilos. / Imita-te, e falha. A criatividade é isto».
Uma vez mais a «Letra E» foi pequena para acolher os que vieram, e que afinal couberam bem nesta clareira de partilhas do texto de Llansol. A tarde abriu, como sempre, com a leitura de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, todos centrados sobre os modos como ela via, sentia e punha em andamento a escrita. Inéditos da fase da Bélgica, entre 1979 e 1981:
A Maria Carolina Fenati conduziu a conversa, e o Gonçalo falou, falou sobre o que pode significar a «contra-assinatura» (Derrida) de um escritor frente à de outros escritores, na sequência deles; de como se é herdeiro activo, escolhendo um caminho próprio a partir dos restos de outros textos, fora do geometrismo das categorias pretensamente universais. E de como, por isso, Llansol ou Zambrano o fazem escrever, mas Aristóteles não. De como a escrita lhe nasce, ainda imprecisa, com o tactear dos dedos sobre o teclado e o movimento do corpo, e só depois desses «exercícios de aquecimento» se vai estruturando no pensamento. Também Llansol disse um dia que, para ela, escrever é ir progressivamente «metendo a mão no pensamento».
E a Carolina avançou na conversa com outras questões, com o problema da natureza mais ou menos «política» da literatura e do seu lugar como matéria de resistência e tomada de consciência num tempo europeu de desolação e aparente ausência de perspectivas como o de hoje. E o Gonçalo falou, falou muito sobre a importância da leitura e da escrita como alimento contra o ruído reinante, e de como algo de tão essencial como o silêncio e o isolamento são hoje objecto de incompreensão e quase estigmas. E de como variam e são múltipos os modos de estabelecer redes e ligações, de criar «comunidades» ou «Bairros» com o próximo e o distante, com o que é de hoje e o que foi de ontem: da impossível e inumana postura sábia da ataraxia ou apatia estóica (a «indiferença» universal que tudo nivela) às mais humanas – e llansolianas – aberturas de clareiras (a clareira é o lugar da luz e da leveza, no meio da espessura impenetrável da floresta, a da natureza ou a dos homens), lugares onde a luz das afinidades permite ir construindo e sobrepondo núcleos de afecto e de entendimento de dimensão humanamente abarcável, regidos por uma sintaxe do «e» – a ligação e a abertura infinita, fora da simetria, contra as convenções da verdade, na serena inquietude da escrita, como sugere nas Breves Notas sobre as Ligações: «fazer amizade com uma sucessão de sins e nãos», porque se sabe que «uma coisa é sempre igual, e varia muito».
E o pensamento foi correndo, no diálogo entre o escritor, a moderadora e o público, acompanhado sempre pela mão do Gonçalo, que desenhava e fazia esquemas, engendrava imagens que ia mostrando, nas muitas folhas brancas que trouxe consigo. Como Llansol faz constantemente nos seus cadernos manuscritos – o pensamento a suspender-se no desenho, o desenho a dar corpo visível ao pensamento.
(Caderno 1.43, p. 42)
Publicado às
14:54
14.5.12
LLANSOL E A POESIA NO CÃO CELESTE
Saiu o primeiro número da nova revista Cão Celeste, dirigida pelos poetas Inês Dias e Manuel de Freitas. É uma publicação de aspecto gráfico pregnante e conteúdo original, que «pretende apenas ganir, ladrar com raiva ou paixão, amar ou odiar sem peias aquilo que o mundo quotidiano lhe dá a ver – de seis em seis meses...» e ser «um espaço de encontro entre pessoas que ainda consideram urgente o livre exercício da crítica, do pensamento ou da revolta», escrevem os responsáveis no primeiro Editorial.
Também Maria Gabriela Llansol (através de muitos textos dos seus cadernos inéditos, com posições surpreendentes em relação à poesia) está presente neste primeiro número, através do ensaio de João Barrento «'Uma contra-música' - Llansol e a questão da poesia».
Sobre o tema escreve Llansol, numa bela página de um caderno de 1999:
Não sei reflectir sobre a Poesia. Sei ir à poesia_______ e esperar, na ponta das pupilas, suas imagens. Quando o dia «image[ce]», sei que está criado o verbo «imagecer» relacionado com a deslocação de um cisne nas águas. [...]
É preciso assustar a poesia para que – amanhã – ela regresse. Mas eu ignorava-a até na sua própria sombra, só as imagens, que eu não temia, fariam com que ela regressasse, e escrevesse «amo-te» como quem escreve «faz-me».
Não sei fazer poesia, mas pressinto o seu drama_______ e o vagar que ela tem de se deixar em qualquer parte onde, afinal, nunca tenha estado.
Poeta não é palavra que assente em alguém. Designar o indesignável é torná-lo ainda mais obscuro.
Tantos poetas, tão pouca poesia. A poesia não é para nós, é para o fim de nós...
(Caderno 1.54, 5 de Abril de 1999, pp. 10-12)
(Caderno 1.54, 5 de Abril de 1999, pp. 10-12)
Publicado às
12:42
13.5.12
GONÇALO M. TAVARES NA «LETRA E»
Retomamos a informação de que, no próximo sábado, dia 19 de Maio, pelas 17 horas, Gonçalo M. Tavares estará na «Letra E» do Espaço Llansol para falar das suas Ligações a Maria Gabriela Llansol (a sessão teve de ser adiada por motivos imprevistos de última hora). A conversa será conduzida por Maria Carolina Fenati, a partir do livro Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder e Zambrano), publicado em Portugal pela Relógio d'Água e no Brasil em edição conjunta da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina e Editora da Casa, em caixa com todas as «Breves notas» (também sobre o medo e sobre ciência). As Ligações de Gonçalo M. Tavares são uma obra «dedicada a estas três escritoras cuja leitura exige de nós uma resposta, um movimento paralelo, uma deslocação».
Publicado às
23:32
8.5.12
«O MENINO LITERATURA» DE GRAÇA MARTINS
A pintora Graça Martins, que desenhou algumas das primeiras capas das Edições Rolim para livros de Maria Gabriela Llansol, voltou recentemente ao Espaço Llansol, e pintou uma tela que hoje está na nossa biblioteca.
O quadro que nos ofereceu foi feito a partir de duas figuras de Llansol: a planta «Filomena do nó» (vinda da Bélgica com Maria Gabriela em 1984: cf. Inquérito às Quatro Confindências, pp. 124-126) e o «Menino Literatura» (cf. O Começo de Um Livro É Precioso, a partir da estância 84). O processo de nascimento da tela está documentado neste video de Graça Martins, com leitura de textos de M. G. Llansol por João Borges.
O quadro que nos ofereceu foi feito a partir de duas figuras de Llansol: a planta «Filomena do nó» (vinda da Bélgica com Maria Gabriela em 1984: cf. Inquérito às Quatro Confindências, pp. 124-126) e o «Menino Literatura» (cf. O Começo de Um Livro É Precioso, a partir da estância 84). O processo de nascimento da tela está documentado neste video de Graça Martins, com leitura de textos de M. G. Llansol por João Borges.
As vinhetas desenhadas pela pintora para capas de livros de Llansol, entre 1985 e 1988:
1. Contos do Mal Errante
2. Um Falcão no Punho. Diário 1
3. Finita. Diário 2
4. Os Pregos na Erva (2ª edição)
5. Da Sebe ao Ser
Publicado às
23:01
22.4.12
LETRA E: SPINOZA E A PAISAGEM
COM JOÃO QUEIROZ
O pintor João Queiroz passou ontem pela Letra E para nos falar da sua
ligação a Spinoza, o filósofo do «modo geométrico» a que Llansol dá forma
literária ao longo de vários livros, de Causa
Amante a Os Cantores de Leitura.
E, a partir de Spinoza, também do «género» que escolheu há mais de dez anos, a
pintura de paisagem, para, também ele, subverter os cânones desse género.
João Queiroz comenta, com João Barrento, os seus «Exercícios»
Alguns catálogos de exposições recentes de João Queiroz
João Queiroz vem da Filosofia, e pintou em 1994 uma «encáustica» com o
retrato de Spinoza, que esteve na exposição do CCB (Sobreimpressões) em 2011. Depois disso propôs, em 2003, alguns
originalíssimos «exercícios de desenho», «dez enunciados pensando em Bento de
Espinosa», tomados como ponto de partida para a conversa com João Barrento.
Também Llansol, à sua maneira, faz – particularmente em O Começo de Um Livro É Precioso e sobretudo em Os Cantores de Leitura – «exercícios» de escrita, ensaios de
«perseguição» de imagens, afecções do corpo e da alma a partir do filósofo. Entre o Espinosa de
Queiroz e o Spinoza de Llansol decorreu a conversa, entrecortada pela leitura
de algumas estâncias de O Começo de Um
Livro... e pela análise, e comentário pelo pintor, de alguns dos seus
exercícios.
Cadernos e livros do espólio de Llansol sobre Spinoza
Daí à temática da natureza e da paisagem na pintura de João Queiroz e no texto de Llansol foi um salto, já que os pontos de vista dos dois criadores se encontram surpreendentemente em muitos pontos. Esse encontro ficou bem documentado na tarde de sábado, em que foi possível ver quatro paisagens expostas por João Queiroz (as mais recentes do seu trabalho deste ano, e que se reproduzem aqui), alguns cadernos e livros em que Maria Gabriela Llansol escreve sobre Spinoza, e ainda o filme de Daniel Ribeiro Duarte intitulado Conversações com Bento, em que o texto de Llansol, no seu derradeiro diálogo com o filósofo da sua eleição, deixa ecoar intuições certeiras do modo singular como Spinoza pode determinar modos tão singulares de leitura e escrita, de desenho e pintura, como os de Maria Gabriela Llansol e João Queiroz.
Publicado às
19:04
16.4.12
O PINTOR JOÃO QUEIROZ NA «LETRA E»
Spinoza | Natureza | Paisagem
No próximo sábado, dia 21, às 17 horas, o pintor João Queiroz virá à «Letra E» do Espaço Llansol para dialogar connosco sobre as suas ligações (já antigas) a Spinoza e sobre o modo como, na pintura, se relaciona com a natureza e a paisagem. Tudo isto sob o pano de fundo do texto de M. G. Llansol – do seu Spinoza e da sua visão particular de natureza e paisagem.
Partimos de um caderno, que será distribuído pelos presentes, em que o pintor propõe «dez exercícios de desenho pensando em Bento de Espinosa». João Queiroz expõe as suas quatro últimas pinturas de paisagens, e poderão ver-se também algumas peças do espólio de M. G. Llansol directamente relacionadas com as suas leituras e a sua escrita em torno de Spinoza.
Passaremos ainda o filme de Daniel Ribeiro Duarte Conversações com Bento, feito na casa de Spinoza em Rijnsburg, na Holanda, com texto extraído de Os Cantores de Leitura, de Maria Gabriela Llansol.
Publicado às
13:07
6.4.12
O SEGUNDO TRIMESTRE DA «LETRA E»
O segundo trimestre do ano continua a destacar as figuras de Pessoa e Bach na Obra de Llansol. E traz ainda à Letra E um pintor, João Queiroz, com explícitas ligações a Spinoza e à problemática, também llansoliana, da paisagem; e um escritor - Gonçalo M. Tavares – que prolonga num dos seus livros (Breves Notas sobre as Ligações) a sua leitura de Maria Gabriela Llansol.
(Clique na imagem para aumentar e ler o programa)
Publicado às
16:11
19.3.12
A FESTA DE BABETTE NA «LETRA E»
A próxima sessão da Letra E, no sábado, dia 24, às 17 horas, abre a série dos “Filmes de
Llansol”, e mostra um deles, que a escritora viu em Lovaina em 1988 e a que se
refere como “inesquecível”. Sobre esse filme — A Festa de Babette do dinamarquês Gabriel Axel – escreve Llansol três
belas páginas num dos seus livros, contando-o a Témia, “a rapariga que temia a
impostura da língua”. Mas não é o seu enredo o que mais importa, é antes o seu “momento
de desvendamento a que se chama sublime”, diz Llansol. E acrescenta: “Só esse
momento interessa à escrita”.
(Clique na imagem para aumentar)
Convidamos todos a ver
(ou rever) connosco este filme a que Llansol chamou “a última ceia”, e que dá a
ver progressivamente “os cinco bens da terra – o conhecimento, a abundância, a
generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver”. E depois da apresentação
por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, da projecção e da leitura das páginas que
Maria Gabriela Llansol sobre ele escreveu, poderemos todos trocar impressões
sobre o que vimos.
Publicado às
12:25
11.3.12
OLHARES SOBRE O MUNDO NA »LETRA E»
A sala da Letra E foi pequena ontem para acolher todos os que vieram para ouvir falar e ler, a partir de quatro livros recentes, sobre o tema, muito llansoliano, do Mundo e da Restante Vida.
Para além dos quatro livros em discussão, com os autores presentes (António Vieira, Ensaio sobre o Termo da História; Sousa Dias, Grandeza de Marx. Para uma política do impossível; Tomás Maia, Persistência da Obra. Arte e política; e João Barrento, O Mundo Está Cheio de Deuses. Crise e crítica do contemporâneo), estavam expostos mais de vinte outros, editados em Portugal nos últimos anos e que, de modos muito diversos, pensam a situação actual do mundo.
Tal como Maria Gabriela Llansol o fazia em permanência, escrevendo diariamente, e nesse gesto pensando também muitas vezes a relação da escrita, e do pensamento que lhe estava subjacente, com o mundo à sua volta. Os fragmentos de textos seus que acompanharam, à guisa de mote, a tarde de ontem apontam para essa preocupação.
E os seus textos lidos pelo actor Diogo Dória mostram-no à evidência.
TODOS OS RESTOS, A RESTANTE
VIDA
Este texto diz que, não havendo memória de ser humano,
mais vale guardar em memória o resto, todos os restos, a restante vida.
(A Restante Vida, Posfácio de A. Borges)
I O
Mundo e a Restante Vida
E, no entanto, parece haver dois mundos – o Mundo e
a Restante Vida. Irredutíveis entre si, inimigos um do outro, temendo-se. […]
Não sabemos ainda hoje em que
condições o homem comum pode aceder ao usufruto e à prática do dom poético. Mas
(…) aprendemos a reconhecer como inerente à condição humana a prática da
consciência livre (…)
Foi uma história – e está sendo
ainda – de confrontos entre irredutíveis, entre o Mundo e a Restante Vida.
Sejam quais forem as razões e os princípios em que cada um se escuda, ambos os
mundos perderam de vista a necessidade vital para cada homem de poder
alimentar-se de alegria, e poder viver com sentido.
Porque neste confronto, e no
cômputo final do mundo, a frustração foi quase sempre a parte que lhe coube em
sorte. Ora resignando-se, aceitando ver a sua vida amputada de vibração, de
intensidade e amplitude; ora revoltando-se, dando consigo a ter de enfrentar um
excesso inutilizável de sentido.
(«Diálogo com Lull», Lisboaleipzig 1, pp. 99; 109-110)
*
II Rota de exclusão
[...] Tudo
segue uma rota de exclusão da pujança. Instalou-se um processo imparável de
exclusão; está de volta o medo, embora difuso e diverso, de uma exclusão ainda
maior. Eu tenho medo que me excluam do texto, o meu vizinho sei que teme ficar
desempregado, a rapariga que me ajudava nas limpezas temia todos os dias perder
o marido, que andava com outra. Eu achava que o texto era o único necessário, mas ia dizendo que era
tudo a mesma coisa, que eram nomes diferentes para o falcão que sentíamos
faltar no punho. [...]
Só agora viram os escritores que o corpo, a
leste e a oeste, no Norte e no Sul, é impotente, não consegue, não consegue,
está mal, sente-se mal, deprimido, sem alegria e desfalcado por não conseguir
fazer o mundo. Só agora viram (mas onde estiveram, então, até agora?) que é o
mundo que faz estes homens – sem-corpo-de-poder? Como se, perto e a longa
distância, o bem querer, o desejar, um calor de amor, um pouco de sentido,
alguns segundos de escuta atenta produzissem invariavelmente a catástrofe do contrário. Não é uma
questão de boas intenções nem de boas vontades. Basta olhar os factos sem os
cobrir com um véu de esperança, basta ler as histórias que os nossos textos
contam. O homem comum está continuamente a ser excluído e espoliado da pujança.
O único facto que volta a ser novo é que chegou a nossa vez. Ou pensava-se que
tínhamos um estatuto de impunidade? Ou imaginávamos que a razia ia poupar os
observadores? Que o corpo do narrador iria ser poupado? Mas porque é que o
poder iria ter mais consideração por nós do que pelo comum dos corpos mortais? [...]
A transparência e o absoluto não são lugares
para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem
a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade de consciência. Eu sempre
soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que
transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de
apoio no território uma fronteira a delimitar espaços de exploração; cada
diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o
escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. [...]
Em dois séculos, deu ao homem o maior abanão de que há memória. Fê-lo sair da
crença. Mas, com as extraordinárias resistências que se acumularam nesse
confronto, nem a razão sabe agora o caminho para diante, nem a crença poderá
jamais abrir o caminho de retorno... [...]
... a liberdade de consciência é uma fonte
inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas
elas, participaram na rapina, à conquista de mais almas, num ódio profundo à
liberdade de consciência que, tê-la, é a única maneira de escolher. A crença
não vai desistir de usar o medo e o gregarismo, nem a razão vai deixar de jogar
a cartada do seu peso político-industrial. E eu própria pergunto a mim mesma –
para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? [...]
... um dia a crença partirá. A razão partirá
também. E eu desaparecerei do vosso corpo. Só o homem ficará finalmente sozinho
sobre a Terra. Nenhum de nós imagina o esplendor que isso é.
(Do texto enviado ao Parlamento
Internacional de Escritores, reunido em Lisboa em Setembro de 1994, com o
título «Está de volta o medo». JL-Jornal
de Letras, Artes e Ideias, nº 625, 28 de Setembro de 1994)
*
III E no entanto, eu escrevo…
Jodoigne, 21 de Abril de 1975.
Oiço Gregoriano e escrevo, em A Restante Vida, a batalha. Eu sei que aqueles
de que gosto vão perder, já perderam. E, no entanto, ainda não sei o que é
perder, o que
perderam,
no momento em que a batalha se escreve. Há um resto que foi deixado e que, sob a forma do mútuo, se enuncia. Apesar de eu
não saber bem o que nessa palavra se avizinha.
O que é perder?
Quem perde, que deixa escrito no campo de batalha?
Absorta na pergunta, olhava, desatenta, a chama da vela, a meu lado.
Já tantas vezes vi bruxulear a chama de uma vela. Mas, naquele
instante, vi-a diferentemente. Não fui sensível à cor, mas ao abrir e fechar da
chama. Ao seu modo de respirar hesitante e persistente. Como estava escuro, a chama, aumentando e
diminuindo de intensidade, criava maior ou menor espaço iluminado. E, nesta coincidência rara de flutuações,
senti a igualdade entre chama, som e vibração. O mesmo ritmo, a mesma oscilação, a mesma criação de espaço, a
mesma variedade de «tempo», a mesmíssima combustão.
Vi que as manifestações sonoras são combustões
luminosas.
Os sons acabam porque se queimam e, ao queimarem-se,
tornam a matéria evanescente.
Os sons transformam-se em fumo; este, há-de ser nuvem.
Nuvem e melodia são as duas faces da matéria. Nada se esvai; tudo passa
de monte em monte, de mão em mão, ouvindo-se. Como se o reverso da história me chegasse numa
dobra, e eu o visse a entreabrir-se ligeiramente, e já as minhas mãos
recebessem só nuvens.
E, no entanto, eu escrevo…
As vidas que, durante a batalha, se vão perder,
enquanto chamas vivas, iluminaram quem, o quê? A mim?
E que pujança estética sem nome tiveram (ou estão tendo?), esses homens
e mulheres?
Que linha do tempo foi ali quebrada?, mas não partida, e lhes envolve o ser?
Que nuvem continua transitando? Por que será que no horizonte da
história se ouvem gemidos, o gotejar contínuo de acções inacabadas?
(Finita. Diário 2. 2ª ed. Assírio &
Alvim, 2005, pp. 21-22; 46-47)
*
IV Portugal decadente
Quem cuspiu foi a mão que segurava a caneta, pois
ela é verdadeiramente
imprescindível
_____ para escrever
mas, sobretudo, dar a ler com a recta intenção da
manhã que se levanta.
O resto ___ senhores e senhoras, pássaros, fugi ___
isto é
Portugal decadente, ou Europa que se portugalizou.
Mas eu amo o sinal deste espaço que é a sua língua e
os seus vivos habitantes
inocentes.
Não vos declaro a guerra, pois sois inexistentes.
Mas para esta
paisagem, onde o ar das borboletas ainda é possível no princípio
das palavras que vão jorrar a limpo
__________ não passareis
sem corpo são,
visível,
responsável e sonoro.
(Caderno 1.46, 14.12.96, pp. 19-22)
Publicado às
13:51
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