29.9.11
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14:08
22.9.11
O TERCEIRO LIVRO A LANÇAR
A segunda parte do Caderno de Leituras inclui ainda um texto de Maria Gabriela Llansol enviado ao II Congresso de Escritores Portugueses em 1982, e publicado no Suplemento Cultural de O Diário de então, e uma entrevista de António Guerreiro no Expresso, em 1981.
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12:51
15.9.11
(Assírio & Alvim / Espaço LLansiol)
A transparência e o absoluto não são lugares para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade de consciência. Eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira a delimitar espaços de exploração; cada diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. […] Em dois séculos, deu ao homem o maior abanão de que há memória. Fê-lo sair da crença. Mas, com as extraordinárias resistências que se acumularam nesse confronto, nem a razão sabe agora o caminho para diante, nem a crença poderá jamais abrir o caminho de retorno…
(Mariposa Azual)
Este volume reune as intervenções e outros materiais das Segundas Jornadas Llansolianas de Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval, 25 e 26 de Setembro de 2010), centradas na problemática da alma e dos jogos da sua liberdade, a partir de O Jogo da Liberdade da Alma e da grande entrevista «O Espaço Edénico», entretanto editados em francês e italiano. Trata -se, na Obra de Maria Gabriela Llansol, de uma perspectiva não metafísica e não religiosa da alma, uma realidade que, nesta Obra, se alimenta da filosofia de Spinoza e remete, desde o início e com as mais diversas nomeações, para o corpo de afectos, a libido e o mútuo enquanto suportes, modos e vias de uma forma particular de «conversação espiritual», de «uma espécie de luz que vem da cena interior». Para Llansol, a liberdade da alma provém da «experiência estética da alma», o seu jogo é um «jogo de vida».
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00:38
10.9.11
Os objectos a iluminar
«Encho a casa de móveis e objectos para tornar mais intenso e denso o espaço percorrido. Assim torno uma casa pequena maior. Deixe-se a nudez para a amplidão do espaço...»
E antes, em O Raio sobre o Lápis (1990):
«Os objectos escavam o espaço e ocupam nele um lugar (...) Vistos assim, são o mundo físico da inteligência atravessando a luz.»
Antecipamos hoje, com fragmentos de Llansol que se lhes referem, alguns desses objectos, os que merecerão particular atenção nas intervenções previstas para as Jornadas dos dias 24 e 25 (incluindo, a encerrar, uma performance feita a partir da correspondência de Llansol e a leitura cantada de textos seus sobre os objectos). Entre eles encontram-se alguns que, não tendo tido oportunidade de ganhar estatuto figural nos livros, foram e são igualmente significantes nas mãos e para os olhos de quem os herdou. Afinal, foram herdados quase todos os objectos relevantes nos livros de Llansol, que os recebe, não como herança que os colocaria «no lugar dos mortos», mas como legado que os transforma em «passagens claras e puras» para outros lugares de sentido.
Eis alguns deles:
A imagem tinha as mãos cortadas rentes pelos punhos, de um só golpe e, no alto da cabeça, o véu descolorido deixava à mostra uma zona circular de madeira. (...) Foi vindo da janela, enquanto tomava banho, que lhe surgiu um impulso no seu corpo dizendo-lhe que a imagem representava a Senhora decepada...
Ana ensinando a ler a Myriam, ou A Estátua de Leitura:
Os Livros de Horas:
Aossê e o ovo do falcão:
No fim desse processo, Aossê descobre a sua bi-humanidade com o paradigma de muitos humanos vindouros (...)
Aossê (...)
entregue a uma tarefa absolutamente inverosímil,
chocar um ovo de falcão.
(Escultura: Rui Chafes, «Vejo uma luz morrer...», 2011)
Chego à sala, em face do quadro de Artur Loureiro, a que chamei «uma jovem vestindo o seu jardim», falo com ele (...) É um dos jardins de Spinoza, e não de tela, por isso lhe chamo agora ————— jovem vestindo o seu jardim...
O nascimento de João da Cruz a partir de uma fotografia:
Um profundo sentimento se acolhe neste meu corpo
e nesse momento João da Cruz fala por sinais que eu entendo como se com eles estivesse vestida (...)
João olha-me com complacência, sabendo que eu sigo o meu caminho
que me é obscuro,
noite obscura.
A construção do livro infantil (Escola da Rua de Namur):
A criança será bom que nasça num grupo de adultos que «fait la fête», organiza a sua própria fruição, os seus meios de produção, e os seus saberes experimentados. E pouco a pouco, como uma voz persistente que cada vez fala mais baixo, até extinguir-se, a Escola desaparecerá.
Os cadernos de M. G. Llansol:
Escrevo nestes cadernos para que, de facto, a experiência do tempo possa ser absorvida. Pensei que, um dia, ler estes textos, provenientes da minha tensão de esvair-me e cumular-me em metamorfoses poderia proporcionar-me indícios do eterno retorno do mútuo.
Témia, a rapariga que temia a impostura da língua:
... sou a rapariga que temia a impostura da língua e, ao subir estas escadas para tocar as chamas da entrada
em que arde,
no presente,
o passado,
sinto-me Témia,
temível e com amor.
Os objectos herdados:
... quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
«A forma de mão» – arquivo de correspondências:
Fico na mão com uma carta dirigida ao piano, animal que acirra a minha inteligência, põe-na em cima do texto.
Mas só brota uma carta desarmada e muito simples. Do envelope aberto:
«a beleza da forma
e da cor
é a santidade
das árvores.»
Não tinha selo.
Cantar a leitura:
Eu sou Gratuita (...)
.. . tenho presa à borda
da minha saia (...)
um raio de sol,
que ao levar-me à Casa da Saudação
me chamou ao cântico da leitura.
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18:17
6.9.11
O Espaço Llansol prossegue no seu empenho de tratamento e classificação do espólio de Maria Gabriela Llansol, não descurando, no entanto, a divulgação deste acervo único. A par das intervenções públicas, exposições, edição, em Portugal e no estrangeiro, de obras de Llansol e sobre ela, uma das formas de dar a conhecer este universo múltiplo têm sido, desde 2009, as Jornadas Llansolianas, que vimos realizando sempre em fins de Setembro e em diversos lugares de Sintra, com a colaboração da Câmara Municipal.
O tema deste ano faz jus a um sector particularmente aliciante e significativo como fonte da escrita de Maria Gabriela Llansol: trata-se do fascinante universo dos objectos, desde sempre uma referência maior nos livros e na vida da escritora, para quem «dar a cada objecto o lugar que lhe pertence é uma regra de justiça imanente».
Dos objectos que herdámos, todos com uma história própria, alguns destacam-se pelo lugar que ocupam em muitos livros, mas também em si mesmos ou como testemunho, não do «tempo sedimentado» e parado, antes, diz Llansol, como «imagens sobrepostas que me olham», pedindo para ser «observadas com avidez (...), para ver se nelas descubro detalhes fora do comum que me estimulem».
Todos estes objectos tiveram, e têm, o seu habitat natural no espaço que foi o da última casa da Maria Gabriela e é hoje o Espaço Llansol. Nestas Jornadas, muitos deles mudarão de lugar por dois dias – e também esta deslocação é algo de inerente à relação de Llansol com os objectos –, e poderão ganhar nova luz ao serem vistos e ao reviverem, nas várias intervenções previstas, a partir dos textos e dos contextos que os acolheram: a casa, os livros, os cadernos manuscritos, as fotografias, as cartas do arquivo do Espaço Llansol. Iremos mostrá-los e comentá-los, com textos, filmes, performance e leitura cantada que preencherão os dois dias destas Jornadas, respondendo uma vez mais ao apelo das coisas que pedem esplendor, dando a ver a luminosa vida dos objectos no texto e no mundo de Maria Gabriela Llansol.
Em 24 e 25 de Setembro, no Palácio Valenças (Arquivo Histórico de Sintra, em frente do Museu do Brinquedo), com entrada livre. O programa (ver abaixo) promete surpresas, haverá lançamento de livros novos, e será uma festa para os olhos.
Venham todos!
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18:51
18.8.11
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00:23
17.8.11
A autora apresenta assim o seu trabalho:
«Livro em deriva, percursos do EU no drama-poesia de Maria Gabriela Llansol se aproxima de Onde Vais, Drama-poesia? (2000), da portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008), para atravessá-lo, seccionando-o, ao criar percursos de legência que acompanham algumas das várias linhas-camadas que compõem o livro. As linhas, derivas pensadas como desvios, cruzam o EU sob diferentes perspectivas: da autobiografia ao jogo de cena, observando a questão da autoria e da alteridade, até o fragmento. Deambulações, tendo sempre como eixo o marco zero, a textualidade.»
(Acessível aqui em formato PDF).
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12:42
9.8.11
A luta quotidiana pelo fulgor
Creio que o que de mais importante podemos testemunhar e despertar na vida uns dos outros é aquilo que a escritora Maria Gabriela Llansol chama, na sua linguagem inesquecível, «a luta quotidiana pelo fulgor». O fulgor não é uma evanescência, nem resulta de um qualquer errático acaso. É um combate, o fulgor. É um esforço de todos os dias esta procura de luz, de intensidade, este desejo de uma cintilação na paisagem baça e opaca que, tantas vezes, parece ser a única que nos resta. O fulgor abre-nos a uma compreensão maior do próprio tempo. Liga-nos ao que está mais adiante ou mais fundo. Rompe brechas. Faz-nos teimosamente repetir: “não pode ser só isto”.
Encontrei-me com Maria Gabriela Llansol diversas vezes, e recordo de modo particular duas situações. Não sei se as torna especialmente indeléveis o facto de terem constituído a primeira e a última das nossas conversas. Talvez seja também isso. Ambos os momentos ocorreram em Sintra. No primeiro, ela estava à minha espera na estação, à chegada do comboio, e demos um demorado passeio pelo parque da Vila. Lembro-me que à queima-roupa ela me perguntou: «Tolentino, o que procuras?». Não esperava por aquela pergunta, fiquei calado e confundido, e respondi-lhe qualquer coisa de que me esqueci. Mas a sua pergunta ficou-me. A luta quotidiana pelo fulgor faz-se de exercícios assim. É verdade que são exigentes e que não estamos preparados para eles. Mas se cada um de nós não afronta, com clareza, os quês e os porquês que silenciosamente persegue, o fulgor daquilo que vivemos diminui, fica como que comprometido. No nosso último encontro, a Maria Gabriela já estava muito doente. Ela havia manifestado a amigos comuns o desejo de estar comigo e apressei-me a realizá-lo. Tinha uma dificuldade grande em falar, mas essa dificuldade era também uma misteriosa e humaníssima forma de linguagem. Acho que nos entendemos muito bem. No final, ela pediu que tomássemos um chá. E assim fizemos, nas chávenas mais belas do seu armário, sorvendo com aquele chá uma coisa que eu e gerações de leitores aprendem com ela: a luta quotidiana e extrema pelo fulgor. Umas semanas depois da sua morte, recebi um pacote proveniente da sua morada, que me deixou numa comoção que vão certamente compreender: num papel de seda azul, muito delicado, vinham embrulhadas as chávenas que celebraram o nosso último encontro.
Este ano morreu-me outro querido amigo, o Frei José Augusto Mourão. Com uma generosidade que muito me tocou, os Padres Dominicanos decidiram incluir-me na condivisão simbólica da herança do José Augusto. Dessa herança afetiva que me foi atribuída, fazia parte uma carta que Maria Gabriela Llansol lhe havia endereçado. E dizia assim: «Talvez que solidão e companhia se avistem do mesmo lugar. Creio que o conhecimento nasce de uma espécie de passagem rápida de uma pela outra. “Olá”, diz a companhia. “Olá”, diz a solidão, e ambas desaparecem nessa tensão de querer ser e saber».
Falta só dizer que o fulgor é uma luta sem deixar, como se vê, de ser um dom.
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13:00
6.8.11

– em 14 de Outubro, na Universidade Federal de Minas Gerais («A cura da literatura. Breve encontro da psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol»);
– em 18 de Outubro, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói («Um dia de fulgor. Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol»); em 17 e 19 de Outubro, na mesma universidade, conferências de Maria Etelvina Santos («O espólio de M. G. Llansol») e João Barrento («Llansol e a questão da poesia»). Sobre estes eventos em Niterói, ver toda a informação aqui.
– em 26 de Outubro, no I Congresso da Pósgraduação em Letras da Universidade Estadual de São Paulo (São José do Rio Preto), Maria Etelvina Santos falará sobre «A insustentável manifestação do Ver: fronteiras e limites do visível em M. G. Llansol» (toda a informação sobre o Congresso aqui).
Está ainda prevista a publicação, por uma editora brasileira, de um volume sobre a Obra de Llansol (Partilha do Incomum. Ensaios com Maria Gabriela Llansol), organizado por Maria Carolina Fenati, com colaboração portuguesa e brasileira.
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13:23
29.7.11
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22:08





















