9.8.11

A PERGUNTA DE LLANSOL A JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O poeta José Tolentino Mendonça escreve sobre os seus mais marcantes encontros com Maria Gabriela Llansol, no Diário de Notícias da Madeira, em 7 de Agosto. Assim:

A luta quotidiana pelo fulgor

Creio que o que de mais importante podemos testemunhar e despertar na vida uns dos outros é aquilo que a escritora Maria Gabriela Llansol chama, na sua linguagem inesquecível, «a luta quotidiana pelo fulgor». O fulgor não é uma evanescência, nem resulta de um qualquer errático acaso. É um combate, o fulgor. É um esforço de todos os dias esta procura de luz, de intensidade, este desejo de uma cintilação na paisagem baça e opaca que, tantas vezes, parece ser a única que nos resta. O fulgor abre-nos a uma compreensão maior do próprio tempo. Liga-nos ao que está mais adiante ou mais fundo. Rompe brechas. Faz-nos teimosamente repetir: “não pode ser só isto”.
Encontrei-me com Maria Gabriela Llansol diversas vezes, e recordo de modo particular duas situações. Não sei se as torna especialmente indeléveis o facto de terem constituído a primeira e a última das nossas conversas. Talvez seja também isso. Ambos os momentos ocorreram em Sintra. No primeiro, ela estava à minha espera na estação, à chegada do comboio, e demos um demorado passeio pelo parque da Vila. Lembro-me que à queima-roupa ela me perguntou: «Tolentino, o que procuras?». Não esperava por aquela pergunta, fiquei calado e confundido, e respondi-lhe qualquer coisa de que me esqueci. Mas a sua pergunta ficou-me. A luta quotidiana pelo fulgor faz-se de exercícios assim. É verdade que são exigentes e que não estamos preparados para eles. Mas se cada um de nós não afronta, com clareza, os quês e os porquês que silenciosamente persegue, o fulgor daquilo que vivemos diminui, fica como que comprometido. No nosso último encontro, a Maria Gabriela já estava muito doente. Ela havia manifestado a amigos comuns o desejo de estar comigo e apressei-me a realizá-lo. Tinha uma dificuldade grande em falar, mas essa dificuldade era também uma misteriosa e humaníssima forma de linguagem. Acho que nos entendemos muito bem. No final, ela pediu que tomássemos um chá. E assim fizemos, nas chávenas mais belas do seu armário, sorvendo com aquele chá uma coisa que eu e gerações de leitores aprendem com ela: a luta quotidiana e extrema pelo fulgor. Umas semanas depois da sua morte, recebi um pacote proveniente da sua morada, que me deixou numa comoção que vão certamente compreender: num papel de seda azul, muito delicado, vinham embrulhadas as chávenas que celebraram o nosso último encontro.
Este ano morreu-me outro querido amigo, o Frei José Augusto Mourão. Com uma generosidade que muito me tocou, os Padres Dominicanos decidiram incluir-me na condivisão simbólica da herança do José Augusto. Dessa herança afetiva que me foi atribuída, fazia parte uma carta que Maria Gabriela Llansol lhe havia endereçado. E dizia assim: «Talvez que solidão e companhia se avistem do mesmo lugar. Creio que o conhecimento nasce de uma espécie de passagem rápida de uma pela outra. “Olá”, diz a companhia. “Olá”, diz a solidão, e ambas desaparecem nessa tensão de querer ser e saber».

Falta só dizer que o fulgor é uma luta sem deixar, como se vê, de ser um dom.


6.8.11

OUTUBRO BRASILEIRO SOB O SIGNO DE LLANSOL


Acompanhando a saída dos três primeiros diários de Maria Gabriela Llansol em edição brasileira, inserida num projecto de edição da Obra que continuará nos próximos anos (na Editora Autêntica, de Belo Horizonte), o mês de Outubro será tempo de presença intensa e múltipla de Llansol em várias cidades e universidades do Brasil.
Os diários – Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências – serão publicados numa caixa, acompanhados de três entrevistas de M. G. Llansol, duas das quais inéditas em livro, e terão lançamentos no Rio de Janeiro (20 de Outubro) e em Belo Horizonte (21 de Outubro). Ao mesmo tempo, três universidades brasileiras organizarão colóquios em torno da Obra de Llansol, ou com comunicações sobre ela:
– em 14 de Outubro, na Universidade Federal de Minas Gerais («A cura da literatura. Breve encontro da psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol»);
– em 18 de Outubro, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói («Um dia de fulgor. Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol»); em 17 e 19 de Outubro, na mesma universidade, conferências de Maria Etelvina Santos («O espólio de M. G. Llansol») e João Barrento («Llansol e a questão da poesia»). Sobre estes eventos em Niterói, ver toda a informação aqui.
– em 26 de Outubro, no I Congresso da Pósgraduação em Letras da Universidade Estadual de São Paulo (São José do Rio Preto), Maria Etelvina Santos falará sobre «A insustentável manifestação do Ver: fronteiras e limites do visível em M. G. Llansol» (toda a informação sobre o Congresso aqui).
Está ainda prevista a publicação, por uma editora brasileira, de um volume sobre a Obra de Llansol (Partilha do Incomum. Ensaios com Maria Gabriela Llansol), organizado por Maria Carolina Fenati, com colaboração portuguesa e brasileira.

29.7.11

TERCEIRAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA

Estão em marcha as Jornadas que organizamos anualmente em Sintra, este ano dedicadas aos objectos no texto e no universo de Llansol. Antes de férias, deixamos aqui uma primeira entrada no tema. Em Setembro daremos mais informações, com o programa completo de mais esta evocação da Obra de Maria Gabriela Llansol.

(clique nas imagens para aumentar)

22.6.11

LLANSOL NA SELENE-CULTURAS DE SINTRA


O número dois da revista online Selene está a partir de hoje disponível em http://www.selene-culturasdesintra.com/
Este segundo número oferece, para além das secções habituais, um núcleo em destaque (na secção «Tesouros de Selene») sobre «Os passos de M. G. Llansol em Sintra». Aí se incluem, para além de textos evocativos e críticos, e de duas reportagens sobre a recente exposição «Sobreimpressões», um conjunto significativo de textos de Maria Gabriela Llansol, muitos dos quais inéditos e relacionados com a sua experiência quotidiana em Colares e Sintra.

16.6.11

OS PASSOS DE LLANSOL EM SINTRA

É este o tema da matéria de fundo da revista online Selene- Culturas de Sintra no seu nº 2, que será lançado no próximo dia 22 de Junho, às 18 horas, na Casa de Teatro de Sintra.
Transcrevemos a informação divulgada pela revista Selene, dirigida por Jorge Telles de Menezes:


www.selene-culturasdesintra.com é um jornal trimestral online, que irradia de dentro da Vila de Sintra para todo o universo cibernético. Vamos apresentar no próximo dia 22 de Junho, em Sintra, a edição de Verão, o número 2. Para tal criámos um evento físico, um encontro de amigos de Sintra e das suas culturas, que à imagem da apresentação do número 1, será dividido em duas partes:
Às 18 horas lançaremos na internet o número 2, cujo tema de fundo incide sobre a relação da escritora Maria Gabriela Llansol com Sintra, e dos reflexos e presença desta na sua obra. Contamos para tal com o apoio dos responsáveis pelo Espaço Llansol, de Sintra, professores João Barrento e Maria Etelvina Santos, e da escritora sintrense professora Helena Langrouva. A mesa contará ainda com a presença do director de Selene – Culturas de Sintra, que irá comentar a apresentação do jornal nas suas diversas áreas e rubricas.
À noite, pelas 22 horas, dando continuidade a uma linha de produção de eventos na área do spokenword existente em Sintra, Selene – Culturas de Sintra apresentará um recital com os seguintes espectáculos: “Duma Oração Portuguesa”, pelo poeta Paulo Jorge Brito e Abreu; “Núufagia” pelo duo aHrimã.Rosa; e por fim “Suavemente Lastimável” por Orbesirindo.
Todos os eventos decorrerão na Casa de Teatro de Sintra, Rua Veiga da Cunha, 20, perto do Museu de Arte Contemporânea, em Sintra. A entrada para os eventos das 22h tem o custo de 5 euros. Quem quiser, poderá comprar um pacote de bilhete+jantar no restaurante Culto da Tasca, sito na mesma rua, pelo preço de 15 euros.

Informações : Tlm 96 235 5891

25.5.11

LLANSOL EM PLAQUETE DE ARTISTA

As Edizioni Rovio, de Lugano, apresentaram no passado dia 19 a quarta edição das plaquetes de artista que editam em ritmo bienal, na «Piccola biennale del nero e del bianco». As plaquetes reunem uma obra de gravura e o texto de um escritor escolhido pelo artista.
Este ano coube a vez a Flavio Paolucci, artista suíço do Ticino, que apresentou uma obra intitulada Meta-notte, inspirada na sua leitura de Il giocco della libertà dell'anima/Lo spazio edenico (publicado o ano passado pela editora Pagine d'Arte) e directamente relacionada com um fragmento de Maria Gabriela Llansol (de Um Falcão no Punho: «Nem hierarquia, nem ruptura entre corpo e alma»).
O Espaço Llansol esteve representado na exposição e no lançamento deste livro de artista, na Fondazione Diamante, em Lugano, na companhia dos nossos amigos, os editores Matteo Bianchi e Carolina Leite. Damos a seguir algumas imagens de mais esta iniciativa que projecta o nome e a Obra de Maria Gabriela Llansol no estrangeiro.

Os livros de M. G. Llansol e a plaquete de Paolucci

A exposição de Flavio Paolucci

Paolucci, Llansol, o Espaço Llansol

As plaquetes editadas

A plaquete Paolucci-Llansol

A gravura de Flavio Paolucci Meta-notte

Em conversa com Flavio Paolucci (ao centro, de preto)

João Barrento, o Prof. Ottavio Besomi, Carolina Leite, Matteo Bianchi (e Flavio Paolucci em segundo plano)

GUSMÃO E LLANSOL EM CONVERGÊNCIA



O último número da revista Colóquio-Letras (0 177, Maio-Agosto 2011) traz um artigo da professora Maria Lúcia Wiltshire, da Universidade Federal Fluminense, de Niterói (que já por duas vezes trabalhou durante meses no Espaço Llansol, pesquisando o espólio), sobre a poesia de Manuel Gusmão, nas múltiplas relações que evidencia com a Obra de Llansol. Maria Lúcia Wiltshire destaca na sua aproximação dos dois autores «três eixos»: «1º) a concepção da poesia como reinvenção do mundo em que o 'vivo' e a imagem se colocam em oposição à representatividade da metáfora, com ultrapassagem dos limites de género e da língua convencional; 2º) a forte presença da subjectividade como um processo de transformação pelo convívio estético, em que a suposta morte do eu se articula em favor da alteridade na forma de um 'outro', que tanto pode ser o leitor quanto a presença do estatuto do 'mútuo'; e 3º) o futuro e a promessa neguentrópica diante do cosmo através da textualidade para o advento de um novo humanismo. Esta tríade recobre uma visão da escrita que alia o estético, o ético e o político, compatibilizando de forma inovadora algumas tradições que são muitas vezes vistas como opostas na poesia portuguesa.»

17.5.11

«PIRANHA»: A GRANDE RAZÃO

Sobre o bailarino e performer brasileiro Wagner Schwartz (actualmente a viver e trabalhar em Paris), escrevi um dia, depois de uma memorável intervenção sua num colóquio llansoliano no Convento da Arrábida (2003), que «um texto se faz gesto e corpo desatando-lhe os nós». Wagner Schwartz (que, à letra, significa «o desafiador do negro», como eu lembrava nesse texto de 2003) regressou, de novo com uma performance a solo, a sós com o prodígio do seu corpo, intitulada «Piranha - Dramaturgia da migração», em 14 de Maio, no 13º Festival da Fábrica (de Movimentos), que decorreu no Teatro Helena Sá e Costa e no Balleteatro Auditório, no Porto.
Estão traçadas as coordenadas de mais uma performance colocada, tal como a anterior, sob o signo de uma epígrafe de Maria Gabriela Llansol, desta vez também de Finita: «Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós».


No novo espectáculo de Wagner Schwartz, em que «Piranha é a metáfora de um corpo em reclusão» (lemos no programa), o absolutamente só é o corpo exposto (sob um foco de luz intensa), corpo ex-posto, posto fora-de-si, corpo ex-cesso, corpo ex-tático. Presença energética e vibrátil progressivamente in-suportável, porque é prova viva da intuição de Spinoza (e, depois, também de Llansol) de que «ninguém sabe o que pode um corpo». De facto assim é. Pude constatá-lo, cheio de espanto diante do im-provável, e do medo de que aquele corpo fracassasse.
Tudo se passa num espaço de tempo de tal intensidade que parece estar fora do tempo, apesar da clara progressão no processo de tensão e busca de libertação que sustentam o espasmo contínuo do corpo sitiado. Assim o visionou também Llansol, em situação-limite, em Amigo e Amiga:
«... fragmentos que principiam a pulsar em todos os lados do meu corpo. Sucede-se uma excitação incomunicável»; e «a matéria transforma-se em energia». E, como ainda escreve Llansol, o corpo assim enclausurado no quadrado de luz (negra) que lhe é concedido, transforma-se no «emissor de um estranho de beleza».
O corpo de Wagner nesta performance é levado a zonas impensáveis (porque não alcançáveis pelo pensamento), zonas de risco, de grito, de êxtase, de revolta – e de todos os seus reversos de beleza, ali, diante dos nossos olhos incrédulos, no «desenho íntegro» daquele «corpo-risco» (como diz ainda Llansol num outro livro).


O que vemos é a materialização, num corpo absolutamente só, da violência de todos os processos de mutação, de deslocamento, de migração, forçada ou não, consciente ou não. Estamos na pura, dura, mas também bela, «escarpa da mutação», com tudo o que ela pode conter: «o medo, o frio, o transporte, o corpo dilacerado, a ideia e o sentimento súbitos, as mãos dadas e desavindas______ e todos os seus reversos» (Ardente Texto Joshua).
É este, parece-me, o tema de Piranha, de Wagner Schwartz, numa actuação fulgurante e terrível (porque, sabemos, «todo o Anjo é terrível», e o sublime participa desse terror) do seu «corpo cantante» em que um espírito se faz corpo no corpo, num corpo pleno, pura imanência com alma (a alma, lemos em Spinoza, é a ideia – indissociável – do corpo).
Mas, para chegarmos ainda mais próximo da experiência in-descritível deste espectáculo (anunciado por um breve video, só de palavras feito, como que anunciando, por contraste absoluto, a pura imagem vibrante do corpo, que se segue), para aí chegarmos desafiando os limites da palavra para vislumbrar os abismos da «fenda do desejo» (Artaud), talvez seja necessário recorrer a alguém que, como Friedrich Nietzsche, a quem Llansol chama «homem do livro» e «mestre das imagens e da eternidade» (e do saber do corpo), no Zaratustra, fala do corpo como «a grande razão». No seu transe, em trânsito para regiões a que o entendimento nunca chegará, o corpo-mente-alma de Wagner Schwartz sabe disso, conhece, sem recurso às pequenas razões, a grande razão do seu corpo que, como diz Nietzsche, se supera ao «não dizer Eu, mas fazer Eu».
Piranha é isto: um corpo assediado, bombardeado, metralhado, pelos ruídos digitais ininterruptos que traduzem a violência de uma contemporaneidade insensível, amorfa, sempre-igual e desconhecedora da grande e subtil razão do corpo e da terra e do Eu que a si mesmo se faz – desconhecendo-se. De um corpo em processo de fazer Eu que, sem nada para dizer, tudo diz: mostra-se, expõe-se, transcende-se. Faz-se corpo só, absolutamente só.

João Barrento

16.5.11

«O MUNDO É PURAMENTE ESTÉTICO...»

O Senhor de Herbais, livro-síntese de uma Obra, será objecto de análise por Cristiana Vasconcelos Rodrigues (da Direcção do Espaço Llansol e professora da Universidade Aberta) nas Segundas Jornadas de Literaturas Europeias, organizadas pelo Departamento de Humanidades da Universidade Aberta, no próximo dia 26 de Maio, pelas 15.30h, na Sala Polivalente do Taguspark (ver cartaz, clicar na imagem para aumentar).

11.5.11

LLANSOL: A LUZ DE LER NA LUZ